:: 28/maio/2026 . 23:30
ÀS 5 DA MANHÃ
(Chico Ribeiro Neto)
Acordei pleno às 5 da manhã. Sensação de tudo resolvido e de que a vida caminha em paz.
Já escrevi crônicas e alguns poemas às 5 da manhã. Nesse horário os cachorros dos vizinhos ainda estão dormindo, ainda não ligaram a TV e parece que estou em dia com o mundo.
O dramaturgo e diretor teatral Deolindo Checcucci, de saudosa memória, me disse uma vez que não gostava de acordar tarde: “Tenho a sensação de que o dia andou na minha frente”.
Os passarinhos começam a cantar perto de minha janela e acredito que a vida ainda vale a pena. Outro dia me contaram que o bem-te-vi não canta sozinho, só canta em grupo, tem que ter outro pra responder.
As 5 da manhã têm gosto de viagem, aquele corre-corre de última hora senão vai perder o ônibus. A surpresa do menino de ver o mundo acordar com o galo cantando e o cheiro de café na cozinha da casa 25 da Rua 2 de Julho, em Ipiaú (BA), onde nasci.
É gostoso levantar às 5 da manhã, “acordar com as galinhas”. A gente coloca o passado em dia e fica em calma sintonia com a gente mesmo. O sono passou e a vontade de viver é imensa. Parece que ficamos cheios de graça e que um sorriso de criança alumia o mundo.
O jornalista Carlos Navarro me disse uma vez: “Experimente ver como é bom escrever às 5 da manhã”. Confirmo. A cabeça está zerada.
São 5:50. Volto pra cama, que ninguém é de ferro.
Antigamente, às 5 da manhã, o padeiro e o leiteiro já se preparavam para as entregas de casa em casa. Rubem Braga tem uma crônica maravilhosa, “O Padeiro”, de 1956, cujo trecho transcrevo: “Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: “Não é ninguém, é o padeiro!”
Escreveu ainda Rubem Braga: “Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos, alegre; ‘não é ninguém, é o padeiro!’ E assobiava pelas escadas”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
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“NÃO FUI CONVOCADO PORQUE DEUS NÃO PERMITIU”
Sempre se ouve dizer por aí que quando se trata de seleção brasileira, todo torcedor é um técnico nato, mas não sabia que Deus também é um deles que faz escalação. Aliás, Deus está em tudo, e a Bíblia pede para não usar seu nome em vão.
Estou dizendo isto porque nesta semana, em entrevista a um repórter – não me recordo quem foi – perguntado sobre o motivo de ter ficado de fora da escalação, o jogador respondeu, textualmente, que “não fui convocado porque Deus não permitiu”.
Ora, o que tem a ver Deus com isto? Na cultura religiosa, que já está enraizada nas pessoas há séculos, tudo que é de bom ou ruim sempre foi Deus quem quis. É uma mentalidade atrasada. Os jogadores de futebol, por exemplo, misturam religião e crença com o esporte que pratica. É um tal de ajoelhar, se benzer e rezar que esquece de jogar.
Como o assunto do momento é Copa do Mundo e seleção brasileira, de nomes desconhecidos até pelo mais entendidos no assunto, quer dizer que foi Deus quem relacionou o Neymar, e não sabia que ele estava “podre” há muito tempo.
Neymar não é mais aquele atleta cria do Santos, porque preferiu as baladas a cuidar do seu físico. Não me estranha, e não é nenhuma novidade, que ali contou com alguma interferência “política” junto à CBF, e não teve o dedo do técnico, muito menos de Deus.
Pela sua lesão, como sempre foi o procedimento nas outras convocações, o atleta já deveria ter sido cortado, imediatamente, para dar lugar a outro que está em melhores condições. Aliás, nem deveria ter sido chamado.
Vamos deixar o Neymar de lado, porque o moço festeiro está cheio da grana e eu fico aqui “lascado” falando dele. De tantas decepções e escassez de craques, o torcedor brasileiro hoje torce mais para o seu time do coração do que para a própria seleção “perna de pau”.
Até tempos passados, no início dos anos 200, quase todo mundo sabia escalar a seleção canarinho, com seus respectivos nomes e posições.
O entusiasmo de cantar aquelas músicas que colavam como chiclete na cabeça, enfeitar as ruas de bandeirolas e reunir amigos e parentes em casa cederam lugar à desilusão e à desconfiança.
Hoje são atletas que quase ninguém sabe de onde vieram porque o futebol não é mais como antigamente. Naquela época, a equipe era formada por jogadores que atuavam aqui nos clubes do Brasil.
Tudo por dinheiro, logo cedo, o jogador vai para a Europa, para a Ásia e outros continentes e depois aparece como se fosse um estrangeiro, que não tem mais aquele gingado e aquela arte da terra.
A Rede Globo, a manipuladora das transmissões de todas competições continentais, e seus patrocinadores, fazem um esforço danado para atrair o torcedor, mas ele está mais ligado na classificação do seu time. Há muito tempo que o Brasil deixou se ser o país das chuteiras.
CASA DE FARINHA E PARAFUSO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário (Uma homenagem ao meu pai)
Instrução ele não tinha,
Tinhoso, sim senhor!
Sozinho aprendeu a ler,
Assinar o nome também,
Lavrador e carpinteiro,
Trabalhador como ninguém;
Fazia telhado e curral,
Em fazenda de doutor;
Se metia a marceneiro;
Espantava qualquer dor,
Na busca do seu viver,
E até casa de farinha
O homem aprendeu a fazer.
Ainda menino criança,
Lembro bem daquele tempo,
Ele dizia, meu cumpade!
Nossa vida é uma pajelança:
Existe o certo e o confuso,
É como casa de farinha,
Onde o mais difícil aviamento,
É construir o tal do parafuso.
Com meu facão,
Espingarda e machado,
Carne seca e rapadura,
Agua e um punhado de farinha,
Reza e escapulário de lado,
Embrenho numa mata;
Peço licença ao curupira,
Para encontrar uma baraúna,
Bem roliça, forte e rosa;
Tem que ser formosa;
Não posso ser profuso,
Para no formão, talhar o parafuso.
Às vezes passo uma semana,
Para encontrar a madeira certa,
Como lagoa doce em savana;
A árvore precisa ser reta,
Para encaixar bem na rosca da peça;
No meio, faço um furo;
Sebo não se dispensa,
Com precisão não erro,
Para acochar a prensa,
Que pode ser de pau ferro.
Numa casa de farinha,
A de todas artesanal,
Antes de aparecer o motor,
Pode ser um simples galpão,
Com uma roda feita de cedro,
Alavancas puxadas em parceria,
No compasso da cantoria;
Um reio ligado ao ralador;
Que os índios chamam de caititu,
Com serras afiadas traiçoeiras,
Que podem tragar a mão,
Das mulheres raladeiras.
Para ficar a favor da corrente,
O forno de barro, à lenha,
Com duas ou três bocas,
Deve ficar em direção ao poente;
A pedra para torar a farinha,
Dão nome de atafona ou mó;
Falam também que é “sabão”;
Sei fazer tudo da cabeça,
Quem fizer melhor apareça;
No mais, cochos e peneiras,
Para classificar a farinha:
Grossa ou fina, com tapioca,
A ser testada nas feiras,
Mas tudo depende da mandioca.
Tudo começava na segunda,
E terminava na sexta-feira,
Desde o clarear do dia,
Com o arranque e as raspadeiras:
O melhor mesmo era ao entardecer,
Na chamada boca da noite,
Quando terminavam as trabalheiras:
Farinha quente, ensacada pra vender.
Nas visões da minha memória:
Era hora do prosear,
Tudo na camaradagem;
Contar causos e história,
Conversa fora jogar,
Cachaça e café quente no bule,
Pra comer beijus e biscoitos de tapioca,
Até inspirava um repente de modinha;
Não podia faltar uma fofoca,
Na tradicional casa de farinha.
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