Passou despercebido, em pleno feriadão, o dia 3 de maio (domingo), dedicado ao sertanejo, aquela figura que nos faz logo lembrar do Nordeste, da caatinga, o vivente do chão estorricado pelas secas e florido quando batem as chuvas. Nos remete também ao cabra forte e resistente às intempéries do tempo, como dizia o escritor Euclides da Cunha.

   Me sinto um deles e com muito orgulho por ter nascido em pleno sertão. Melhor ainda que a data celebra a cultura, a música sertaneja – aquela de raiz – a vida no campo e, especialmente, a força e a resiliência do povo do sertão brasileiro.

  A comemoração surgiu na década de 1960, impulsionada pela Rádio Aparecida que recebia violeiros de todo país na região. É uma homenagem ao homem e à mulher do campo, exaltando suas tradições e costumes. O dia está associado ao cantor Tinoco, da famosa dupla Tinoco & Tinoco.      

    Entre romancistas e escritores nordestinos, na minha visão, quem melhor define o sertanejo é Graciliano Ramos, o alagoano, de Palmeira dos Índios. Para ele, o sertanejo é único, com sua característica própria, que se identifica com o sertão estorricado, rachado, do mandacaru, do cacto, da catingueira, do xinque-xique, do juazeiro, da espinheira e do umbu.

 É aquele homem e mulher dos engaços e bagaços. É o retirante que foge da seca em direção ao sul em busca de sobrevivência, mas retorna quando as águas molham o seu torrão. Ele tem a cor cinzenta da caatinga, castigado pelo sol escaldante, mas de alma festiva pela esperança e pela fé, embrenhado em suas crendices e um místico-religioso.   

   Sertanejo é o canto da cauã na beira da cacimba, é o carcará e o gavião, a Asa Branca na canção de Luiz Gonzaga, o Patativa do Assaré, o pássaro preto e o sofrer. É como a terra que se renova e brota rápido em cores diversas quando batem forte os trovões nas chuvaradas do verão. Sertanejo é o profeta da chuva.

  Ser sertanejo é ser poesia, repente, trovador, gente simples e humilde na labuta do plantio da abóbora, do feijão, do milho e do andu, com fé e esperança. 

   Para mim, sertanejo lembra um ser guerreiro, penitente como Conselheiro. Ele tem sua própria cultura do caboclo boiadeiro no aboio do vaqueiro, com seu sotaque matuto e catingueiro. Além de cismado, tem seus hábitos inconfundíveis, diferentes da mata.

  O sertanejo tem um espírito único, um olhar melancólico cheio de histórias e lendas de heróis e carrascos coronéis. É sinônimo de caatinga. Foi lá onde nasci de parteira e respirei o primeiro ar diferente de outro lugar. Foi onde meus pais me criaram e me ensinaram a ganhar o mundo.