O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

Sobre os procedimentos dos desembarques dos cativos no Brasil, Laurentino descreve que “a primeira providência consistia em retirar, com vários dias de antecedência, as correntes e algemas que prendiam os escravos, de modo que não houvesse marcas visíveis na pele. A segunda era lavá-los com esponja e sabão”.

Os homens tinham os cabelos raspados e a barba feita com esmero. Fios grisalhos eram arrancados ou pintados de preto. Os mais velhos que tivessem pele macilenta ou enrugada, teriam os rostos ou os troncos polidos com uma pedra ou areia fina. Por fim, os marinheiros untavam os corpos com óleo de dendê, de maneira que ficassem brilhantes e bem hidratados para a venda.

O leilão era a forma mais comum de venda dos escravos no Brasil e no continente americano. Porém, haviam expedições previamente encomendadas por um comprador individual ou grupo. Isso era mais utilizado no século XIX. Nesse caso, fazendeiros contratavam a aquisição de um determinado número de cativos, que eram desembarcados às escondidas em locais remotos (Ilha Grande ou Mangaratiba, no Rio de Janeiro).

Na maior parte, nos séculos anteriores, as transações eram feitas na base da oferta pública, semelhante ao das feiras agropecuárias. O valor de mercado era comparado ao de um animal de carga.  Na chegada aos portos brasileiros, o capitão do navio deveria antes registrar sua carga, pagar os impostos na alfândega e submeter-se à fiscalização sanitária.

Diversas epidemias ocorridas no Brasil no início do século XVII tiveram como origem o desembarque de escravos vindos de regiões da África onde havia doenças, como varíola, malária ou febre amarela. Os leilões começavam pela “primeira escolha” onde os compradores mais ricos tinham a preferência de arrematar os mais jovens, fortes e saudáveis, por preços mais elevados.

Os mais idosos, doentes e portadores de alguma deficiência física eram vendidos pela melhor oferta, como numa liquidação de ponta de estoque, comprados por gente mais pobre. Os mais fracos e doentes eram abandonados nas ruas do Rio de Janeiro onde morriam como indigentes. O maior mercado comprador era o Valongo, no Rio de Janeiro, situado nos atuais bairros da Gamboa, Saúde e do Santo Cristo.

No processo de venda, eles ficavam nus. Eram pesados, medidos, apalpados, cheirados e observados nos mínimos detalhes. Tinham de correr, pular, esticar braços e pernas; respirar fundo e tossir. Os compradores enfiavam os dedos nas bocas para checar se os dentes estavam em bom estado. Uma observação mais detalhada era feita nos genitais dos homens e mulheres, em busca de sinais de doenças.

As senzalas brasileiras, na definição do sociólogo Clóvis Moura, eram um conjunto habitacional de construção rústica, sem janelas, construído de taipa e coberto de palha. Num espaço curto, ficavam homens, mulheres e crianças, na maioria sem vínculo parentesco, o que geralmente se transformava num ambiente de promiscuidade.

Para evitar fugas, durante a noite, o feitor trancava as portas por fora com cadeado e corrente. Os cativos ficavam confinados em cubículos até de manhã, quando seriam libertados para o início do trabalho.  Segundo historiadores, a definição de senzala teria sido dada pelos próprios escravos, derivada do quimbundo, língua de Angola.

Torturas e atrocidades

A fase inicial da vida do escravo no Brasil e na América era de torturas físicas e psicológicas como maneira de mostrar ao cativo quem era mesmo o dono. De acordo com o padre jesuíta Manuel Ribeiro Rocha, missionário na Bahia em meados do século XVIII, citado pelo autor do livro, nessa etapa muitos senhores de engenho no Recôncavo Baiano tinham o hábito deliberado de surrar os escravos.

O holandês Dierick Ruiters, que em 1618 passou um ano preso no Rio de Janeiro, relata coisas horríveis, como de um negro que faminto furtou dois pães de açúcar. Ao saber do ocorrido, seu senhor mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Da cabeça aos pés, seu corpo ficou uma chaga aberta, e os locais poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. Conta o holandês, que o homem foi transformado em carne de boi salgada. Depois de tudo isso, derramaram piche derretido sobre suas feridas.

Em 1700, a Justiça mandou que fossem investigados todos os casos envolvendo mutilações e mortes de escravos por falta de comida. O rei de Portugal, D. Pedro II, mandou averiguar denúncias de atrocidades e assassinatos. No entanto, o governador da Bahia, na época, D. João de Lancastre, recusou acatar as determinações do rei, alegando que a medida abriria precedente perigoso, e levaria à quebra da disciplina na relação entre escravos e senhores. As leis eram inúteis num país ermo.