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:: ‘Encontro Com os Livros’

CURIOSIDADES DO TRÁFEGO NEGREIRO (VII)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No século XVII, o consumo de açúcar estava em franca ascensão na Europa. Na Inglaterra, as importações saltaram de 10 mil para 150 mil toneladas entre 1700 e 1800, ajudadas pela novidade que, em 1662, a princesa portuguesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV, levou para Londres ao se casar com o rei Charles II. Ela introduziu o hábito de se tomar chá açucarado todo final de tarde (o chá das cinco da tarde).

Em 1580, de acordo com o autor do livro “Escravidão”, Laurentino Gomes, Pernambuco tinha 66 engenhos operados por duas mil famílias portuguesas e já liderava a produção de açúcar no Brasil. Os primeiros engenhos eram pequenos, movidos a bois e cavalos ou rodas d´água. No Recôncavo Baiano, a prosperidade do produto fez com que a população de Salvador triplicasse num curto período de 65 anos, passando de 14 mil habitantes em 1585 para cerca de 40 mil em 1750.

A malandragem brasileira já vem desde os tempos coloniais. Nas operações de vendas para a Europa, muitas vezes, açúcar de baixa qualidade era declarado como de primeira e entregue em quantidades inferiores à declarada. Os exportadores colocavam o açúcar de boa qualidade no alto da caixa, enquanto embaixo, em volume maior, o açúcar inferior. Em casos extremos de fraude, botavam pedras no lugar do produto. Os comerciantes portugueses reclamavam da má reputação do açúcar brasileiro, embora de melhor qualidade que o do Caribe.

A maior parte (dois terços) do açúcar era transportada pelos holandeses, que também cuidavam do refino. Outra curiosidade era que quase metade das propriedades pertencia aos cristãos-novos (judeus forçados à conversão), isto entre 1587 e 1592. Por volta de 1590, a Inquisição Católica descobriu uma sinagoga escondida num engenho, em Matoim, Recôncavo Baiano. Diogo Lopes de Ulhoa, comerciante e plantador de cana foi denunciado, mas livrou-se da fogueira graças à riqueza e o poder que acumulou na Bahia.

Além dos cristãos-novos, jesuítas, padres carmelitas e beneditinos eram donos de algumas das maiores fazendas açucareiras do Nordeste, com numeroso plantel de escravos.

O corte da cana era feito em dupla de escravos, com base em cotas diárias prefixadas. No século XVII, a média era de 4.200 canas por escravo do Engenho Sergipe, situado no Recôncavo Baiano. Os mais fracos e idosos só conseguiam preencher a cota ao anoitecer e sob pressão do chicote.

Havia diferentes especialidades desde os canaviais aos engenhos. Os mais valorizados eram os purgadores, mestres de açúcar, supervisores, carpinteiros, ferreiros e ferramenteiros. Os trabalhadores do campo eram tratados com mais desprezo e os que tinham menos privilégios, bem como jornadas de trabalhos mais árduas.

Os grupos mais especializados compunham-se, majoritariamente, de mulatos ou crioulos, que trabalhavam lado a lado com pessoas livres ou alforriados. Existia uma hierarquia social entre os próprios escravos. A moagem e o processamento requeriam habilidades, em geral mulheres que introduziam as hastes das canas nas prensas.

Qualquer descuido resultaria em mutilação de uma mão ou um braço. Os engenhos movidos a água eram mais perigosos que os tracionados a bois. Segundo o padre jesuíta André João Antonil, o lugar de maior perigo era a moenda porque a escrava poderia ser mutilada.

Por esse motivo era comum manter ao lado da prensa um facão afiado, que poderia ser usado para amputar um braço, impedindo que seu corpo inteiro fosse tragado e esmagado pela máquina. Houve o caso de uma rainha do povo Cabinda, norte de Angola, que se tornou escrava e acabou tendo seus dois braços amputados enquanto tentava salvar outra escrava presa pela moenda.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (VI)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No capítulo sobre “O Brasil”, o autor faz uma relação direta entre o que representava o açúcar para a escravidão, dizendo que “o açúcar era sinônimo de escravidão”. Até um pouco depois da independência, em 1822, o produto era o principal item da pauta de exportação brasileira. Em 1760 correspondia a 50% do total, contra 46% da mineração. Somente em 1831, o café passou a ser o novo rei da exportação.

“Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” – escreveu por volta de 1710 o padre jesuíta André João Antonil.

Originário do sudeste asiático, a cana de açúcar percorreu um longo caminho até chegar às terras escuras e úmidas da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano, no início da colonização. Na antiguidade, o cultivo era praticado na Pérsia e na região de Bengala, na Índia. Depois os árabes levaram para as margens do Mar Mediterrâneo. A cana tornou-se uma das fontes de renda dos cavaleiros cruzados cristãos que ocuparam a Palestina entre os séculos XII e XIII. Dali espalhou-se para outras partes do mundo, como Espanha, Portugal (Ilhas da Madeira, Canárias e Açores).

De acordo com Laurentino, com as lavouras e os engenhos, seguiam também os escravos. Para historiadores, açúcar, escravidão e ocupação da América são histórias interligadas. Da moenda numa pedra circular, os engenhos foram se evoluindo. Da Madeira, a cana saltaria para a América (Caribe) através de Cristóvão Colombo em sua viagem de 1493.

A cana se adaptou bem no Nordeste brasileiro por ter terras em abundância, solos férteis e clima quente ensolarado. Faltava apenas o quarto item: mão de obra escrava. A solução definitiva começou a ser adotada em 1559, quando Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil ordenou a redução em 40% das tarifas alfandegárias para a entrada de cativos africanos no Brasil, com objetivo de estimular a produção de açúcar.

A chegada dos primeiros escravos africanos coincide com o vertiginoso ciclo da cana, que viria a transformar a paisagem brasileira, bem como os costumes e os hábitos. Em 1664, a prosperidade gerada pelo açúcar era tão grande que D. João IV definiria o Brasil como uma “vaca de leite” de Portugal.

A cultura do açúcar nos trópicos, segundo Laurentino, caracterizava-se pelo binômio casa-grande e senzala. Os donos dos maiores engenhos exploravam o trabalho de 100 a 150 escravos. O produto era consumido em quase toda Europa, e uma das grandes entusiastas era a rainha Elizabeth I, da Inglaterra. Na próxima coluna vamos mostrar os sofrimentos dos escravos nos trabalhos degradantes e desumanos nas usinas e nas lavouras.

 

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (V)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

Conta o historiador Laurentino que existiam algumas leis de punição para quem torturasse ou matasse um escravo, sem motivos, mas elas não funcionavam.

O autor narra que, em 1737, por ter matado dois cativos e um negro alforriado, um dos quais foi deixado pendurado pelos testículos em um gancho de ferro até expirar, Pedro Pais Machado, senhor de engenho de Capanema, na Bahia, foi preso, porém, logo libertado.

Em meados do século XVIII, Garcia D´Ávila Pereira Aragão, herdeiro da Casa da Torre, uma das maiores propriedades rurais da colônia na época, e um dos homens mais ricos da Bahia, foi denunciado à Inquisição por uma série de atos de sadismo e extravagâncias físicas e sexuais contra suas escravas. Apesar das evidências, foi absolvido pelo tribunal.

De acordo com a classificação feita em 1938 pelo historiador Artur Ramos, havia três categorias de castigo de escravos no Brasil. A primeira era a dos instrumentos de captura (correntes e colares de ferro, algemas, machos e peias). A máscara de folha de flandres era usada para impedir o escravo de comer cana, rapadura ou engolir pepitas de pedras preciosas.

A segunda categoria eram as torturas. Uma das modalidades era o “anjinho”, instrumento de suplício de origem medieval. Torniquetes introduzidos nos dedos dos escravos produziam dores atrozes. A terceira eram as surras com palmatória e o bacalhau (chicote de cabo curto com cinco pontas de couro retorcido).

Para identificar escravos fugitivos, utilizavam-se marcas gravadas a ferro quente com a letra F, além do libambo, uma argola de ferro que era presa ao pescoço do cativo. Na prática, três instrumentos eram aplicados com mais regularidade, como o chicote, o tronco e os grilhões. A punição mais comum era o açoite nas costas ou nas nádegas.

Ora, o mais hilário é que no começo do século XVII, o jesuíta italiano Jorge Benci, que viveu 17 anos na Bahia, recomendava que as chibatadas não ultrapassassem o número de 40 por dia, para não machucar o escravo. “Trinta ou quarenta hoje, e outras tantas daqui a dois dias. Daqui a outros dois dias, outros tantos”.

Apesar dessas recomendações do jesuíta, ao invés de condenar qualquer tipo de castigo, narram viajantes que havia punições absurdas de 200, 300 e até 600 açoites. Essa quantidade deixava as costas do escravo em carne viva. O risco de morte por infecção e gangrena era alto. Para evitar isso, banhava-se o escravo com uma mistura de sal, vinagre ou pimenta malagueta.

Outros tipos de torturas incluíam enfiar tições de brasa incandescente na boca dos cativos, e a aplicação do lacre (cera derretida sobre as feridas). Por tudo isso, existia uma elevada taxa de suicídios.

Nos manuais dos jesuítas (eles próprios donos de milhares de escravos e indígenas) sobre a administração de escravos no Brasil, havia recomendações de natureza psicológicas sobre como aplicar as punições aos infratores.

O padre Manuel Ribeiro Rocha, por exemplo, aconselhava que houvesse um certo tempo entre a suposta falta e o castigo, para serenar os ânimos. Dizia que o castigo não deveria ser ministrado com cólera e furor, e sim, com brandura e caridade. Ele orientava o uso da palmatória, cipós e prisão. O Manuel recomendava ainda que os senhores não permitissem que os feitores dessem coices na barriga das mulheres grávidas.

Destaca o autor da obra que o cativeiro separava pais e filhos, maridos e mulheres, famílias e comunidades inteiras que, na África, tinham convivido e compartilhado os mesmos costumes e crenças por muitas gerações. “A escravidão não apenas divide; ela também une o que divide” – observou o sociólogo francês Roger Bastide, um dos grandes estudiosos da cultura africana no Brasil.

Segundo Laurentino, ainda durante a viagem, vínculos se formavam entre os próprios africanos. Os sofrimentos compartilhados forjavam amizades entre cativos de diferentes regiões, etnias e linhagens, algumas das quais eram até rivais entre si na África. Esses novos companheiros de travessia do oceano eram chamados de “malungos”, do quimbundo (Angola) correntes de ferro. Sempre existiam laços de solidariedade.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (IV)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

Sobre os procedimentos dos desembarques dos cativos no Brasil, Laurentino descreve que “a primeira providência consistia em retirar, com vários dias de antecedência, as correntes e algemas que prendiam os escravos, de modo que não houvesse marcas visíveis na pele. A segunda era lavá-los com esponja e sabão”.

Os homens tinham os cabelos raspados e a barba feita com esmero. Fios grisalhos eram arrancados ou pintados de preto. Os mais velhos que tivessem pele macilenta ou enrugada, teriam os rostos ou os troncos polidos com uma pedra ou areia fina. Por fim, os marinheiros untavam os corpos com óleo de dendê, de maneira que ficassem brilhantes e bem hidratados para a venda.

O leilão era a forma mais comum de venda dos escravos no Brasil e no continente americano. Porém, haviam expedições previamente encomendadas por um comprador individual ou grupo. Isso era mais utilizado no século XIX. Nesse caso, fazendeiros contratavam a aquisição de um determinado número de cativos, que eram desembarcados às escondidas em locais remotos (Ilha Grande ou Mangaratiba, no Rio de Janeiro).

Na maior parte, nos séculos anteriores, as transações eram feitas na base da oferta pública, semelhante ao das feiras agropecuárias. O valor de mercado era comparado ao de um animal de carga.  Na chegada aos portos brasileiros, o capitão do navio deveria antes registrar sua carga, pagar os impostos na alfândega e submeter-se à fiscalização sanitária.

Diversas epidemias ocorridas no Brasil no início do século XVII tiveram como origem o desembarque de escravos vindos de regiões da África onde havia doenças, como varíola, malária ou febre amarela. Os leilões começavam pela “primeira escolha” onde os compradores mais ricos tinham a preferência de arrematar os mais jovens, fortes e saudáveis, por preços mais elevados.

Os mais idosos, doentes e portadores de alguma deficiência física eram vendidos pela melhor oferta, como numa liquidação de ponta de estoque, comprados por gente mais pobre. Os mais fracos e doentes eram abandonados nas ruas do Rio de Janeiro onde morriam como indigentes. O maior mercado comprador era o Valongo, no Rio de Janeiro, situado nos atuais bairros da Gamboa, Saúde e do Santo Cristo.

No processo de venda, eles ficavam nus. Eram pesados, medidos, apalpados, cheirados e observados nos mínimos detalhes. Tinham de correr, pular, esticar braços e pernas; respirar fundo e tossir. Os compradores enfiavam os dedos nas bocas para checar se os dentes estavam em bom estado. Uma observação mais detalhada era feita nos genitais dos homens e mulheres, em busca de sinais de doenças.

As senzalas brasileiras, na definição do sociólogo Clóvis Moura, eram um conjunto habitacional de construção rústica, sem janelas, construído de taipa e coberto de palha. Num espaço curto, ficavam homens, mulheres e crianças, na maioria sem vínculo parentesco, o que geralmente se transformava num ambiente de promiscuidade.

Para evitar fugas, durante a noite, o feitor trancava as portas por fora com cadeado e corrente. Os cativos ficavam confinados em cubículos até de manhã, quando seriam libertados para o início do trabalho.  Segundo historiadores, a definição de senzala teria sido dada pelos próprios escravos, derivada do quimbundo, língua de Angola.

Torturas e atrocidades

A fase inicial da vida do escravo no Brasil e na América era de torturas físicas e psicológicas como maneira de mostrar ao cativo quem era mesmo o dono. De acordo com o padre jesuíta Manuel Ribeiro Rocha, missionário na Bahia em meados do século XVIII, citado pelo autor do livro, nessa etapa muitos senhores de engenho no Recôncavo Baiano tinham o hábito deliberado de surrar os escravos.

O holandês Dierick Ruiters, que em 1618 passou um ano preso no Rio de Janeiro, relata coisas horríveis, como de um negro que faminto furtou dois pães de açúcar. Ao saber do ocorrido, seu senhor mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Da cabeça aos pés, seu corpo ficou uma chaga aberta, e os locais poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. Conta o holandês, que o homem foi transformado em carne de boi salgada. Depois de tudo isso, derramaram piche derretido sobre suas feridas.

Em 1700, a Justiça mandou que fossem investigados todos os casos envolvendo mutilações e mortes de escravos por falta de comida. O rei de Portugal, D. Pedro II, mandou averiguar denúncias de atrocidades e assassinatos. No entanto, o governador da Bahia, na época, D. João de Lancastre, recusou acatar as determinações do rei, alegando que a medida abriria precedente perigoso, e levaria à quebra da disciplina na relação entre escravos e senhores. As leis eram inúteis num país ermo.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (III)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:

O padrão das viagens foi mudado ao longo dos tempos, conforme demonstra o autor em sua obra. “No caso de Portugal, de início, todos os navios saíam de Lisboa ou de Algarve, recolhiam escravos na África e retornavam aos portos portugueses, onde os cativos eram redistribuídos para diferentes destinos, na América, nas Ilhas Atlânticas (Madeira, Cabo Verde) ou mesmo na Europa”.

Aos poucos, o negócio foi se transferindo para o Brasil. A partir do século XVIII, nove em cada dez expedições negreiras eram organizadas para o Brasil. Uma série histórica de viagens de navios atracados em Luanda (Angola), entre 1736 e 1770, mostra que 41% saiam do Rio de Janeiro, 22% de Pernambuco e a mesma percentagem da Bahia. Apenas 15% de Portugal.

Nessa época, os brasileiros tinham domínio quase absoluto sobre o tráfico de escravos. O Rio de Janeiro, principal centro organizador, respondeu sozinho pelo transporte de 1,5 milhão de escravos, seguido de Salvador com 1,4 milhão, e Liverpool (Inglaterra) com 1,3 milhão.

“O domínio brasileiro era tão acentuado que o arcebispo da Bahia, criado em 1776, tinha jurisdição sobre as dioceses de Olinda, Rio de Janeiro e bispados do Congo, Angola e São Tomé, englobando a Costa da Mina (Gana).

Haviam os roubos de cargas, os chamados piratas. O capitão John Hawkins, sócio da rainha Elizabeth I, roubou uma carga de seis embarcações portuguesas que estavam prontas para zarpar rumo a Cabo Verde. Na década de 1820, os jornais do Rio de Janeiro registraram dezesseis ataques de piratas a navios negreiros, a maior parte deles praticados por corsários norte-americanos”.

Em 1660, foi criada em Londres, a Company of Royal Adventures of England Trading with Africa, renomeada depois para Royal African Company ( RAC), para ter o monopólio do tráfico negreiro por mil anos. Na lista de investidores incluía quatro membros da família real e da nobreza britânica, entre eles o próprio rei Charles II.

No capítulo sobre “os lucros do tráfico”, Laurentino fala de como eram feitos os embarques e desembarques dos cativos. Diz que, enquanto os capturados aguardavam os embarques, os africanos estavam sujeitos a ser contaminados por uma infinidade de doenças endêmicas na costa da África, como malária, febre amarela e a temida varíola, sem contar a disenteria e até o escorbuto. Por isso, o objetivo do capitão era fazer a carga e partir rapidamente.

Conta o autor do livro que entre 1827 e 1830, navios brasileiros que faziam o tráfico a partir do Rio de Janeiro, demoravam por volta de cinco meses na costa da África antes de completar a carga. No século XVII, a média para as embarcações da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais era de cem dias. Quando tinha muita espera, capitães compravam e vendiam escravos entre si.

Ao longo da costa africana, os europeus construíram fortificações, castelos e feitorias onde os escravos eram estocados nos porões à espera da chegada dos navios. Muitos desses fortes e castelos existem até hoje e se tornaram atrações turísticas em países como Senegal, Gana, Benin, Nigéria e Angola. Só em Gana são mais de sessenta dessas construções.

Ainda sobre as empresas do tráfico, Laurentino cita, além da famosa Royal African Company (RAC), as francesas Companhia do Senegal e da Guiné; a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e várias iniciativas da Coroa Portuguesa, como a Companhia Geral de Comércio do Brasil, fundada em 1649, e a Companhia de Comércio do Maranhão, de 1682.

Sobre a RAC britânica, a mando da empresa, o corsário Robert Holmes atacou as Ilhas de Cabo Verde e ocupou o Cape Coast Castle, no litoral de Gana, que se encontrava nas mãos dos holandeses. Depois cruzou o Atlântico e tomou a Ilha de Nova Amsterdã, situada na foz do rio Hudson, renomeada como Nova York, hoje a meca do comércio.

No final do século XVII, três quartos do faturamento da RAC vinham do fornecimento de cativos para as colônias inglesas no Caribe e na América do Norte. Os britânicos se consolidaram como os maiores traficantes do século seguinte, ou seja, XVIII.

 

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (II)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:

Aos reis e chefes locais do continente africano, cabia organizar as expedições militares para captura dos escravos. Os chefes definiam os preços, controlavam a oferta, faziam alianças e fechavam negócios com diferentes interlocutores europeus, em geral, rivais entre si, de modo a evitar o monopólio de qualquer país ou grupo de compradores em seu território.

No vizinho porto de Ajudá, entre final do século XVII e o começo do século XVIII, traficantes europeus tinham de pagar o valor equivalente a 37 ou 38 escravos (cerca de 375 libras esterlinas) por navio negreiro em troca da autorização para ali comprar cativos. As despesas incluíam ainda impostos, pagamentos para altos funcionários reais e intérpretes locais.

Por fim, o próprio rei local tinha a prerrogativa de vender, em primeira mão e a preços mais elevados, um determinado número de escravos de sua propriedade. Só, então, começavam as outras negociações. De acordo com o historiador, John Russell-Wood, “os participantes africanos do tráfico incluíam os príncipes e os mercadores mais ricos e poderosos do continente. A elite africana estava profundamente envolvida com a venda de escravos”.

As dívidas assumidas em cada etapa dessa rede de suprimentos, segundo Laurentino, eram negociadas em letras de crédito (letras de câmbio) a serem quitadas na venda dos escravos. Essas letras eram tão comuns que em meados do século XVIII eram utilizadas como moeda corrente em Benguela (Angola).

A ponta mais avançada dessa rede de negócios era o próprio capitão do navio negreiro, responsável pela compra dos escravos na costa africana. Além de negociadores, os comandantes desempenhavam algumas funções extras na cadeia do negócio.

Em Portugal e no Brasil, os investidores do tráfico contratavam os capitães para cobrar e negociar dívidas, ou processar na justiça os caloteiros situados em regiões remotas. Os capitães, na verdade, eram donos de parcelas expressivas das cargas que transportavam, conforme assinalou o historiador Roquinaldo Ferreira.

Havia preferência por escravos a partir de determinadas regiões. Os angolanos, por exemplo, eram considerados dóceis e bons trabalhadores nas lavouras e no serviço doméstico. Os oriundos da chamada Costa do Ouro, ou da Mina (Gana) eram bons na mineração. Da Guiné chegavam africanos experientes nas atividades pecuárias e de pastoreio.

Segundo relato do padre jesuíta André João Antonil, alguns eram arrogantes e rebeldes. Para o Brasil vieram os congos, ardas, minas, São Tomé, Angola, Cabo Verde e poucos de Moçambique. Os ardas e minas são robustos. Os de Cabo Verde e São Tomé, mais fracos. Os de Angola e do Congo, mais capazes de aprender ofícios. Os mulatos são soberbos, viciosos e mais valentes.

Desde o início do tráfico, os europeus tiveram que se adaptar a um padrão monetário peculiar na África que usava conchas marinhas como moeda, em lugar de peças de metal ou papel. Uma dela era chamada de zimbo, coletada nas praias da Ilha de Luanda (Angola), sob regime de monopólio do rei do Congo. Eram tão populares que padres e bispos recebiam salários e doações em zimbos.

Essas conchas eram também encontradas nas praias da Bahia. Eram exportadas pelos portos de Salvador e Rio de Janeiro e usadas nas compras de escravos africanos. Eram tantas que provocaram uma desvalorização monetária.

Outra moeda-concha muito valorizada na África eram os cauris, espécie de búzios originários das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, mais apreciado no Golfo da Guiné do que as similares angolanas. Eram comprados na Índia por holandeses, franceses, ingleses e portugueses que exportavam para a África.

No auge do tráfico, no século XVIII, holandeses e ingleses importavam cerca de 40 milhões de búzios cauris por ano. Juntos teriam movimentado quatro bilhões de conchinhas entre 1700 a 1790. Por volta de 1650, em Aladá, se podia comprar uma galinha por cerca de dez conchas. Um século mais tarde, a galinha valia trezentas conchas.

Quase todos países europeus se envolveram no comércio de escravos, mas portugueses e brasileiros foram os maiores ao longo de quase quatro séculos.

 

 

CURIOSIDADES NO TRÁFICO DE ESCRAVOS

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Vamos aqui destacar algumas delas:

No auge do tráfico, por volta de 1780, os cativos eram capturados e comprados ao longo do litoral africano, numa extensão de quase seis mil quilômetros de cumprimento por mil de largura, da atual fronteira da Mauritânia com o Senegal até o sul de Angola. Nas décadas seguintes, essa faixa costeira se estenderia por outros quatro mil quilômetros, com a inclusão de Moçambique no roteiro do Brasil.

O banco de dados Slave Voyages registra que havia um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano. Vinte deles respondiam sozinhos por 93% de todo tráfico no Oceano Atlântico. Até início do século XIX, o tráfico era o maior e o mais internacional de todos os negócios do mundo.

A rede de interesses envolvia agentes comerciais e controles contábeis das transações, uma estrutura de fornecimento de água e comida, e até instituições religiosas para batizar e catequizar os escravos. Abrangia ainda seguradoras, estaleiros e armadores, bancos de crédito, empresas de transportes que forneciam navios, apoio logístico, além de um complicado esquema burocrático.

Na economia escravagista, havia até um negócio paralelo tão transgressor que nunca recebeu destaque na história, que era a reprodução sistemática de cativos, com objetivo de vender as crianças, como se comercializa animais. Ocorreram experiências conduzidas em Portugal, Espanha e nos Estados Unidos. Uma delas aconteceu no Palácio Ducal de Vila Viçosa, sede dos duques de Bragança a partir do fim da União Ibérica, em 1640, com a ascensão de D. João IV ao poder. Havia um centro de reprodução de escravos.

Sobre as comparações de preços, Laurentino cita que o tráfico era uma atividade altamente organizada, sistemática, complexa e tão arriscada quanto lucrativa para seus investidores. Alimentava uma vasta rede de compradores, vendedores e fornecedores de serviços, produtos e suprimentos ao redor do mundo.

Entre as mercadorias brasileiras mais valorizadas no tráfico estavam a cachaça, tabaco, couro, cavalos, farinha de mandioca, milho, açúcar, carnes e peixes secos e salgados, além de ouro e diamante contrabandeados. Um historiador calculou que a cachaça foi responsável pela aquisição de 25% de todos escravos traficados da África para o Brasil entre 1710 a 1830. Somados, a cachaça e o tabaco, serviram para adquirir 48%, quase a metade de dois milhões e 27 mil cativos que chegaram vivos ao Brasil entre 1701 e 1810, segundo Luiz Filipe de Alencastro.

Durante décadas, a coroa portuguesa proibiu o uso da cachaça na compra de escravos, para não prejudicar a concorrência dos vinhos produzidos em Portugal. Nada adiantou porque passaram a fazer negócios clandestinos, principalmente em Angola.

Uma devassa feita pelo governo português descobriu que o governador de Angola, João da Silva e Sousa, era dono de quatro navios que levavam escravos de Angola para o Brasil e, na volta, iam carregados com pipas de cachaça.

A organização do negócio negreiro chegou a tal ponto que os traficantes da Bahia tinham sua própria irmandade e seu santo de devoção, que era São José, cuja imagem podia ser vista na pequena igreja de Santo Antônio da Barra, em Salvador. Vamos ter mais curiosidades nas próximas postagens da Coluna de Livros.

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MANUEL BANDEIRA

Falar do pernambucano de Recife, Manuel Bandeira, não carece de muitas apresentações, principalmente pelo conteúdo de suas obras poéticas. Parnasiano-simbolista aderiu de cheio ao modernismo da Semana de Arte Moderna de 22, junto com nomes notáveis de expressão, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e tantos outros.

Um dia, de acordo com Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Manuel Bandeira chamou-se de “poeta menor”. “Fez por certo uma injustiça a si próprio, mas deu, com essa conotação crítica, mostras de reconhecer as origens psicológicas da sua arte: aquela atitude intimista dos crepusculares do começo do século que ajudaram a dissolver toda eloquência pós-romântica pela prática de um lirismo confidencial, auto-irônico, talvez capaz de empenhar-se num projeto histórico, mas, por isso mesmo, distante das tentações pseudo-ideológicas, alheio a decaídas retóricas”.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira (1886-1968) veio adolescente para o Rio de Janeiro, onde cursou o Colégio D. Pedro II. Em São Paulo iniciou o curso de Engenharia, mas a tuberculose impediu-o de prosseguir os estudos. Em 1912 esteve na Suíça onde entrou em contato com a melhor poesia simbolista e pós-simbolista em língua francesa, “fonte de sua linguagem inicial, como atestam os primeiros livros “Cinzas das Horas (1917) e “Carnaval” (1919)

No rio de Janeiro estreitou amizades com Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Graça Aranha e Tristão de Ataíde, passando para o modernismo. Ao praticar o verso livre, foi acolhido pelo Grupo da Semana como um irmão mais velho (na época de 22, tinha 36 anos), e alguém o chamou de São João Batista do movimento, segundo relata Bosi, que o considera como um dos melhores poetas do verso livre em português, principalmente a partir de “Ritmo Dissoluto” (1924) e “Libertinagem” (1930).

“A biografia de Manuel Bandeira é a história de seus livros. Viveu para as letras e, salvo os anos em que lecionou português no Colégio D. Pedro II e Literatura Hispano-Americana na Universidade do Brasil, dedicou-se exclusivamente ao ofício de escrever poesia, crônica, traduções e obras didáticas”.

Ao olhar de longe o carnaval da vida escreveu: “Uns tomam éter, outros cocaína/Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria/ Tenho todos os motivos menos um de ser triste./ Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…/Abaixo Amiel!/ E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtsseff./Sim, já perdi pai, mãe, irmãos./Perdi a saúde também./É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. ……….(“Não sei dançar”).

Um dos poemas mais lembrados de Bandeira, musicado por Paulo Diniz, foi “Vou-me Embora para Pasárgada” em seu livro “Libertinagem” “que oscila entre um fortíssimo anseio de liberdade vital e estética e a interiorização cada vez mais profunda dos vultos familiares (“Profundamente”, “Irene no Céu”, “Poema de Finados”, “O Anjo da Guarda”), bem como das imagens brasileiras extraídas do seu convívio intelectual com Mário de Andrade e Gilberto Freyre (“Mangue”, “Evocação do Recife”, “Lenda Brasileira”, “Cunhantã)”

UM DOS GRANDES ARTICULADORES DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922

De espírito irrequieto, revolucionário e um artista atribulado, José Oswald de Sousa Andrade (1890-1854), nascido em São Paulo, de família rica, lembra muito o nosso baiano cineasta Glauber Rocha por suas fortes críticas à sociedade burguesa, cada um dentro do seu devido tempo. Temperamentos parecidos

Como descreve o crítico literário Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Oswald representou em seus altos e baixos, a ponta de lança do espírito da Semana de Arte de 1922, a que ficaria sempre vinculado, tanto nos seus aspectos felizes do vanguardismo literário quanto nos seus momentos menos felizes de gratuidade ideológica.

Diria que Oswald sempre teve uma personalidade forte, “brigão”, intrépido e um campeão no lançamento de manifestos, destacando o “Pau-Brasil”, em 1924 e o “Antropofágico” em 1928. Bebeu da fonte do futurismo ítalo-franco, mas renegou as ideias fascistas de Marinetti, um dos criadores desse movimento.

Oswald fez o ginásio no Colégio de São Bento e Direito na sua cidade. Viajou para Europa (Paris) em 1912 e trouxe em sua bagagem muitas ideias revolucionárias, em alguns momentos de cunho anarquista, mas sempre em defesa da cultura nacional, sem ufanismos patrióticos. De volta a São Paulo fez jornalismo literário e trabalhou em vários periódicos.

Quando da exposição de Anita Malfatti, em 1917, e na Semana da Arte, foi um defensor feroz da artista quando ela foi tripudiada num artigo escrito por Monteiro Lobato. Em sua aproximação com Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Andrade e outros, passou a ser grande animador do grupo modernista e da Semana de 22, como bem assinala Alfredo Bosi.

De acordo com o próprio Bosi, o período de 1923/30 foi marcado pela sua melhor produção modernista, no romance, na poesia e na divulgação de programas estéticos nos manifestos “Pau Brasil” e “Antropofágico”. Fez várias viagens à Europa onde amadureceu seus conhecimentos. Depois da queda da Bolsa de Valores e da Revolução de 30 atravessou um período de crise financeira.

“Dividido entre uma formação anárquico-boêmia e o espírito de crítica ao capitalismo, que então se conscientizava no país, Oswald pende para a esquerda e adere ao Partido Comunista, também fundado em 1922”. Compõe o romance de auto sarcasmo “Serafim Ponte Grande 28-33, (teatro) participante em “O Rei da Vela”, de 37 e lança o jornal “O Homem do Povo”. Em 1945, no entanto, afasta-se da militância política, ano em que concorre à Cadeira de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Com uma tese sobre a “Arcádia e a Inconfidência”, obteve o título de livre-docente.

O irrequieto artista candidatou-se, por duas vezes, a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas não era bem visto pelos seus pares. A menos de um decênio de sua morte, em 1954, aos 64 anos, segundo Bosi, sua herança é valorizada pelas vanguardas concretistas de onde provém a mais entusiástica bibliografia oswaldiana, com uma vasta obra, como Théatre Brésilien, Mon Coeur Balance em colaboração com Guilherme de Almeida.

Dentre suas obras, ainda podemos destacar Os Condenados, 1922, Memórias Sentimentais de João Miramar, 1924, Manifesto da Poesia Pau Brasil, 1924, A Estrela de Absinto, 1927, Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade, 1927, Manifesto Antropofágico, 1928, Serafim Ponte Grande, 1933, a Escada Vermelha, 1934, o Homem e o Cavalo (teatro), 1934, O Rei da Vela (teatro), 1937, entre outros.

Alguns fizeram parte da sua Trilogia do Exílio, como Os Condenados, A Estrela de Absinto e A Escada Vermelha, composta ao longo de 15 anos de experiências. São livros que se ressentem de uma atitude antiquada, num escritor que conheceu o que é ser moderno, em face da linguagem romanesca e do trato das personagens, conforme avaliação de Alfredo Bosi.

Para Antônio Cândido, há nele um gongorismo psicológico, uma tendência para acentuar, em escala fora do comum, os traços psíquicos de uma personagem; os seus gestos, as suas tiradas, as suas atitudes de vida. “As pessoas neste livro (Os Condenados), são pequenos turbilhões de lugares-comuns morais e intelectuais”.

“A CICATRIZ”

“O tema da escravidão é um tabu no continente africano porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente – disse o arquiteto baiano Zulu Araújo, ex-presidente da Fundação Palmares.

Este depoimento está em “Escravidão” (primeiro volume), livro de Laurentino Gomes. O capítulo “A Cicatriz” é um dos mais impactantes onde escancara a escravidão africana antes e depois da chegada dos europeus ao continente. Na abertura, o autor levanta a questão da “dívida social” onde muitos argumentam que a “dívida” estaria anulada pelo fato dos africanos serem corresponsáveis pelo regime escravagista.

Laurentino destaca que os debates nesse sentido podem ser politicamente perigosos e precisam ser analisados à luz da história. “Havia, de fato, um grande mercado de escravos na África antes da chegada dos europeus nos séculos XV e XVI. Dele participaram reis, chefes e oligarquias locais poderosas, que continuaram a se beneficiar do tráfico de cativos para a América”.

Com os europeus, esse tráfico passou a ser mais intenso entre o final dos séculos XVII e início do XVIII quando a venda de escravos passou a ser a principal pauta de exportação em detrimento do comércio do ouro, do marfim, da pimenta, algodão e outros produtos. Em troca, os reinos e chefes recebia armas, munições para guerrear e bebidas alcoólicas.

COMPRA ENTRE FORNECEDORES

Com medo das doenças tropicas, raramente os europeus se adentravam pelo interior do continente. Preferiam comprar os cativos que eram oferecidos pelos fornecedores em fortificações, feitorias e entrepostos. Uma das exceções foi Angola, maior de todos os territórios escravagistas da África onde os portugueses procuraram controlar todos os pontos do comércio, da captura ao embarque nos navios.

“Seria, portanto, correto afirmar que africanos escravizaram os próprios africanos ou que negros escravizaram negros”? Laurentino diz que sim, como chineses escravizaram chineses e brancos escravizaram brancos na Europa e na Ásia. Segundo o autor, até o final do século XVII, a maioria dos cativos no mundo todo era branca.

“A África sempre foi um continente de grande diversidade e riqueza cultural, habitado por diferentes povos, etnias, nações, linguagens e reinos envolvidos em guerras e disputas territoriais. Como em qualquer outro lugar, na África “o escravo era sempre o outro, o diferente, o estrangeiro ou o alienígena”.

O pesquisador cita como exemplo que o habitante do Império Oió (Nigéria), escravizado pelos rivais do Reino do Daomé, era tão estrangeiro na África quanto o próprio escravo daometano seria ao chegar ao Brasil. “Embora a escravidão já existisse na África antes dos portugueses, foi a alta demanda dos europeus por mão de obra cativa que possibilitou ao negócio negreiro no Atlântico atingir proporções significativas” Os europeus estimularam a captura de escravos.

Os historiadores confirmam que os chefes africanos participaram ativamente do comércio, capturando cativos nas regiões. Há séculos, a escravidão era uma prática corrente nas sociedades africanas. Escravos podiam ser encontrados em todas as partes da África, desempenhando todos tipos de atividades.

Para sustentar essa tese, Laurentino cita o historiador John Thornton: “Quando os europeus chegaram à África e se ofereceram para comprá-los, a oferta era aceita. Os cativos não apenas eram numerosos como o mercado já estava muito bem organizado”.

Outro historiador Paul Lovejov, calculou que apenas 45% dos africanos escravizados foram vendidos ou embarcados para outras regiões fora do continente. A outra parte permaneceu como cativos na própria África. No total, seriam mais de 30 milhões de escravos, incluindo os que ficaram e os que partiram.

Alberto da Costa e Silva, estudioso no assunto, ressalta que o escravo continuava escravo, mesmo depois de morto. Os xerbros (Serra Leoa) enterrava o cativo com trapos para demonstrar que nada possuía. As mãos e os pés eram atados por uma corda, cuja ponta deveria sair da cova e amarrar-se a um mourão. Antes de sepultá-lo, o dono lhe dava uma chibatada, para deixar claro que continuava ser senhor do seu espírito, e que, no além, deveria ser escravo de seus antepassados.

De acordo com Laurentino, estima-se que, no século XVIII (auge do tráfico) houvesse tantos escravos na África quanto na América, entre 3 a 5 milhões em cada continente. No século XIX (redução do tráfico – movimentos abolicionistas), a escravidão na África aumentava, devido a maior oferta de cativos e queda nos preços.

Por volta de 1850 (Lei Eusébio de Queirós – fim do tráfico no Brasil) havia, na África, mais escravos do que em toda América. O fim do tráfico negreiro no Atlântico não significou o fim da escravidão africana, segundo historiadores. Ter muito escravos na África era a melhor forma de enriquecer e adquirir poder. Na Europa da nobreza, valia a propriedade do solo, o latifúndio. No Brasil, o escravo era uma máquina de trabalho para a economia.

OS SACRIFÍCIOS HUMANOS

Uma demonstração de poder na África estava nos sacrifícios humanos, como nos funerais dos reis, em ritos para aplacar a ira dos deuses, cerimônias para pedir chuvas e boas colheitas ou para levar mensagens aos antepassados. Em muitas regiões, escravos eram sacrificados e enterrados com o seu dono. Entre os iorubás (Nigéria) havia o hábito de sacrificar um escravo por ano como oferenda ao orixá Ogum.

“No século XVII, o holandês Pieter de Moraes escreveu que, “na ocasião da morte de um rei na Costa do Ouro (Gana), cada um dos nobres oferecia um escravo para acompanhá-lo ao seu túmulo”. Antes de descer com o soberano morto, essas pessoas eram decapitadas e tinham seus corpos salpicados de sangue. As cabeças ficavam expostas ao redor da cova.

Entre os meios de produção de escravos na África, destacavam a guerra, o sequestro ou a captura. Haviam ainda os processos judiciais, em que os condenados de roubo, adultério, prática de feitiçaria e outros delitos se tornavam cativos para o resto da vida – descreve Laurentino.

No caso de dificuldades financeiras, os chamados peões na África (tropas de infantaria na Europa, pedestres em Portugal e trabalhador temporário no Brasil) podiam se oferecer como escravos temporários em troca de ajuda e apoio material. Quando em extrema necessidade ou fome, as famílias vendiam seus filhos ou parentes como escravos.

Uma das alternativas era a venda como peões, e a liberdade só seria resgatada mais tarde em troca do pagamento das obrigações. Na impossibilidade de pagar a dívida, o peão poderia ser transformado em escravo para o resto da vida.

O historiador Alberto da Costa e Silva relata que, em algumas sociedades cada vez que findava um rei ou um chefe, abria-se a disputa pelo poder. Os candidatos vencidos e suas mães, mulheres, filhos e partidários costumavam ser mortos ou ter seus membros amputados e até os olhos vazados.

Todas essas formas de escravidão antes da chegada dos europeus aumentaram em paralelo à demanda por cativos na América. A Justiça preferia condenar o criminoso à escravidão porque rendia dinheiro, do que sentenciá-lo à morte.

Com a chegada dos portugueses, o comércio de escravos passou a superar as trocas regionais. Os europeus estimularam a captura e a venda de escravos para transformá-los em um negócio global, “numa escala até então nunca vista”, envolvendo a África, Europa, América e parte da Ásia.

“A partir de 1650, a venda de seres humanos se tornou a principal atividade econômica na costa da África. No final do século XVIII já respondia por 90% da pauta de exportações do continente, nos cálculos do historiador nigeriano Joseph Inikori.

A implosão, segundo Laurentino, dos antigos mercados regionais seguiu-se um ciclo interminável de conflitos, guerras endêmicas e desordens sociais, estimulados pela importação de armas de fogo, munições e bebidas alcoólicas. As armas alimentavam as guerras que, por sua vez, sustentavam a captura e a escravidão de milhões de pessoas vendidas para os navios negreiros.

No capítulo “A Cicatriz”, o autor fala dos reinos africanos rivais que eram os maiores fornecedores de escravos  na metade do século XVII, como os de Hueda e Aladá, situados na atual fronteira do Benin com a Nigéria. O reino do Daomé consolidou-se como principal na virada do mesmo século para o XVIII. Uma das consequências disso foi a redução populacional na África, compensada com a poligamia existente em algumas regiões, como Angola.





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