:: ‘Encontro Com os Livros’
MANUEL BANDEIRA
Falar do pernambucano de Recife, Manuel Bandeira, não carece de muitas apresentações, principalmente pelo conteúdo de suas obras poéticas. Parnasiano-simbolista aderiu de cheio ao modernismo da Semana de Arte Moderna de 22, junto com nomes notáveis de expressão, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e tantos outros.
Um dia, de acordo com Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Manuel Bandeira chamou-se de “poeta menor”. “Fez por certo uma injustiça a si próprio, mas deu, com essa conotação crítica, mostras de reconhecer as origens psicológicas da sua arte: aquela atitude intimista dos crepusculares do começo do século que ajudaram a dissolver toda eloquência pós-romântica pela prática de um lirismo confidencial, auto-irônico, talvez capaz de empenhar-se num projeto histórico, mas, por isso mesmo, distante das tentações pseudo-ideológicas, alheio a decaídas retóricas”.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira (1886-1968) veio adolescente para o Rio de Janeiro, onde cursou o Colégio D. Pedro II. Em São Paulo iniciou o curso de Engenharia, mas a tuberculose impediu-o de prosseguir os estudos. Em 1912 esteve na Suíça onde entrou em contato com a melhor poesia simbolista e pós-simbolista em língua francesa, “fonte de sua linguagem inicial, como atestam os primeiros livros “Cinzas das Horas (1917) e “Carnaval” (1919)
No rio de Janeiro estreitou amizades com Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Graça Aranha e Tristão de Ataíde, passando para o modernismo. Ao praticar o verso livre, foi acolhido pelo Grupo da Semana como um irmão mais velho (na época de 22, tinha 36 anos), e alguém o chamou de São João Batista do movimento, segundo relata Bosi, que o considera como um dos melhores poetas do verso livre em português, principalmente a partir de “Ritmo Dissoluto” (1924) e “Libertinagem” (1930).
“A biografia de Manuel Bandeira é a história de seus livros. Viveu para as letras e, salvo os anos em que lecionou português no Colégio D. Pedro II e Literatura Hispano-Americana na Universidade do Brasil, dedicou-se exclusivamente ao ofício de escrever poesia, crônica, traduções e obras didáticas”.
Ao olhar de longe o carnaval da vida escreveu: “Uns tomam éter, outros cocaína/Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria/ Tenho todos os motivos menos um de ser triste./ Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…/Abaixo Amiel!/ E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtsseff./Sim, já perdi pai, mãe, irmãos./Perdi a saúde também./É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. ……….(“Não sei dançar”).
Um dos poemas mais lembrados de Bandeira, musicado por Paulo Diniz, foi “Vou-me Embora para Pasárgada” em seu livro “Libertinagem” “que oscila entre um fortíssimo anseio de liberdade vital e estética e a interiorização cada vez mais profunda dos vultos familiares (“Profundamente”, “Irene no Céu”, “Poema de Finados”, “O Anjo da Guarda”), bem como das imagens brasileiras extraídas do seu convívio intelectual com Mário de Andrade e Gilberto Freyre (“Mangue”, “Evocação do Recife”, “Lenda Brasileira”, “Cunhantã)”
UM DOS GRANDES ARTICULADORES DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922
De espírito irrequieto, revolucionário e um artista atribulado, José Oswald de Sousa Andrade (1890-1854), nascido em São Paulo, de família rica, lembra muito o nosso baiano cineasta Glauber Rocha por suas fortes críticas à sociedade burguesa, cada um dentro do seu devido tempo. Temperamentos parecidos
Como descreve o crítico literário Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Oswald representou em seus altos e baixos, a ponta de lança do espírito da Semana de Arte de 1922, a que ficaria sempre vinculado, tanto nos seus aspectos felizes do vanguardismo literário quanto nos seus momentos menos felizes de gratuidade ideológica.
Diria que Oswald sempre teve uma personalidade forte, “brigão”, intrépido e um campeão no lançamento de manifestos, destacando o “Pau-Brasil”, em 1924 e o “Antropofágico” em 1928. Bebeu da fonte do futurismo ítalo-franco, mas renegou as ideias fascistas de Marinetti, um dos criadores desse movimento.
Oswald fez o ginásio no Colégio de São Bento e Direito na sua cidade. Viajou para Europa (Paris) em 1912 e trouxe em sua bagagem muitas ideias revolucionárias, em alguns momentos de cunho anarquista, mas sempre em defesa da cultura nacional, sem ufanismos patrióticos. De volta a São Paulo fez jornalismo literário e trabalhou em vários periódicos.
Quando da exposição de Anita Malfatti, em 1917, e na Semana da Arte, foi um defensor feroz da artista quando ela foi tripudiada num artigo escrito por Monteiro Lobato. Em sua aproximação com Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Andrade e outros, passou a ser grande animador do grupo modernista e da Semana de 22, como bem assinala Alfredo Bosi.
De acordo com o próprio Bosi, o período de 1923/30 foi marcado pela sua melhor produção modernista, no romance, na poesia e na divulgação de programas estéticos nos manifestos “Pau Brasil” e “Antropofágico”. Fez várias viagens à Europa onde amadureceu seus conhecimentos. Depois da queda da Bolsa de Valores e da Revolução de 30 atravessou um período de crise financeira.
“Dividido entre uma formação anárquico-boêmia e o espírito de crítica ao capitalismo, que então se conscientizava no país, Oswald pende para a esquerda e adere ao Partido Comunista, também fundado em 1922”. Compõe o romance de auto sarcasmo “Serafim Ponte Grande 28-33, (teatro) participante em “O Rei da Vela”, de 37 e lança o jornal “O Homem do Povo”. Em 1945, no entanto, afasta-se da militância política, ano em que concorre à Cadeira de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Com uma tese sobre a “Arcádia e a Inconfidência”, obteve o título de livre-docente.
O irrequieto artista candidatou-se, por duas vezes, a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas não era bem visto pelos seus pares. A menos de um decênio de sua morte, em 1954, aos 64 anos, segundo Bosi, sua herança é valorizada pelas vanguardas concretistas de onde provém a mais entusiástica bibliografia oswaldiana, com uma vasta obra, como Théatre Brésilien, Mon Coeur Balance em colaboração com Guilherme de Almeida.
Dentre suas obras, ainda podemos destacar Os Condenados, 1922, Memórias Sentimentais de João Miramar, 1924, Manifesto da Poesia Pau Brasil, 1924, A Estrela de Absinto, 1927, Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade, 1927, Manifesto Antropofágico, 1928, Serafim Ponte Grande, 1933, a Escada Vermelha, 1934, o Homem e o Cavalo (teatro), 1934, O Rei da Vela (teatro), 1937, entre outros.
Alguns fizeram parte da sua Trilogia do Exílio, como Os Condenados, A Estrela de Absinto e A Escada Vermelha, composta ao longo de 15 anos de experiências. São livros que se ressentem de uma atitude antiquada, num escritor que conheceu o que é ser moderno, em face da linguagem romanesca e do trato das personagens, conforme avaliação de Alfredo Bosi.
Para Antônio Cândido, há nele um gongorismo psicológico, uma tendência para acentuar, em escala fora do comum, os traços psíquicos de uma personagem; os seus gestos, as suas tiradas, as suas atitudes de vida. “As pessoas neste livro (Os Condenados), são pequenos turbilhões de lugares-comuns morais e intelectuais”.
“A CICATRIZ”
“O tema da escravidão é um tabu no continente africano porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente – disse o arquiteto baiano Zulu Araújo, ex-presidente da Fundação Palmares.
Este depoimento está em “Escravidão” (primeiro volume), livro de Laurentino Gomes. O capítulo “A Cicatriz” é um dos mais impactantes onde escancara a escravidão africana antes e depois da chegada dos europeus ao continente. Na abertura, o autor levanta a questão da “dívida social” onde muitos argumentam que a “dívida” estaria anulada pelo fato dos africanos serem corresponsáveis pelo regime escravagista.
Laurentino destaca que os debates nesse sentido podem ser politicamente perigosos e precisam ser analisados à luz da história. “Havia, de fato, um grande mercado de escravos na África antes da chegada dos europeus nos séculos XV e XVI. Dele participaram reis, chefes e oligarquias locais poderosas, que continuaram a se beneficiar do tráfico de cativos para a América”.
Com os europeus, esse tráfico passou a ser mais intenso entre o final dos séculos XVII e início do XVIII quando a venda de escravos passou a ser a principal pauta de exportação em detrimento do comércio do ouro, do marfim, da pimenta, algodão e outros produtos. Em troca, os reinos e chefes recebia armas, munições para guerrear e bebidas alcoólicas.
COMPRA ENTRE FORNECEDORES
Com medo das doenças tropicas, raramente os europeus se adentravam pelo interior do continente. Preferiam comprar os cativos que eram oferecidos pelos fornecedores em fortificações, feitorias e entrepostos. Uma das exceções foi Angola, maior de todos os territórios escravagistas da África onde os portugueses procuraram controlar todos os pontos do comércio, da captura ao embarque nos navios.
“Seria, portanto, correto afirmar que africanos escravizaram os próprios africanos ou que negros escravizaram negros”? Laurentino diz que sim, como chineses escravizaram chineses e brancos escravizaram brancos na Europa e na Ásia. Segundo o autor, até o final do século XVII, a maioria dos cativos no mundo todo era branca.
“A África sempre foi um continente de grande diversidade e riqueza cultural, habitado por diferentes povos, etnias, nações, linguagens e reinos envolvidos em guerras e disputas territoriais. Como em qualquer outro lugar, na África “o escravo era sempre o outro, o diferente, o estrangeiro ou o alienígena”.
O pesquisador cita como exemplo que o habitante do Império Oió (Nigéria), escravizado pelos rivais do Reino do Daomé, era tão estrangeiro na África quanto o próprio escravo daometano seria ao chegar ao Brasil. “Embora a escravidão já existisse na África antes dos portugueses, foi a alta demanda dos europeus por mão de obra cativa que possibilitou ao negócio negreiro no Atlântico atingir proporções significativas” Os europeus estimularam a captura de escravos.
Os historiadores confirmam que os chefes africanos participaram ativamente do comércio, capturando cativos nas regiões. Há séculos, a escravidão era uma prática corrente nas sociedades africanas. Escravos podiam ser encontrados em todas as partes da África, desempenhando todos tipos de atividades.
Para sustentar essa tese, Laurentino cita o historiador John Thornton: “Quando os europeus chegaram à África e se ofereceram para comprá-los, a oferta era aceita. Os cativos não apenas eram numerosos como o mercado já estava muito bem organizado”.
Outro historiador Paul Lovejov, calculou que apenas 45% dos africanos escravizados foram vendidos ou embarcados para outras regiões fora do continente. A outra parte permaneceu como cativos na própria África. No total, seriam mais de 30 milhões de escravos, incluindo os que ficaram e os que partiram.
Alberto da Costa e Silva, estudioso no assunto, ressalta que o escravo continuava escravo, mesmo depois de morto. Os xerbros (Serra Leoa) enterrava o cativo com trapos para demonstrar que nada possuía. As mãos e os pés eram atados por uma corda, cuja ponta deveria sair da cova e amarrar-se a um mourão. Antes de sepultá-lo, o dono lhe dava uma chibatada, para deixar claro que continuava ser senhor do seu espírito, e que, no além, deveria ser escravo de seus antepassados.
De acordo com Laurentino, estima-se que, no século XVIII (auge do tráfico) houvesse tantos escravos na África quanto na América, entre 3 a 5 milhões em cada continente. No século XIX (redução do tráfico – movimentos abolicionistas), a escravidão na África aumentava, devido a maior oferta de cativos e queda nos preços.
Por volta de 1850 (Lei Eusébio de Queirós – fim do tráfico no Brasil) havia, na África, mais escravos do que em toda América. O fim do tráfico negreiro no Atlântico não significou o fim da escravidão africana, segundo historiadores. Ter muito escravos na África era a melhor forma de enriquecer e adquirir poder. Na Europa da nobreza, valia a propriedade do solo, o latifúndio. No Brasil, o escravo era uma máquina de trabalho para a economia. 
OS SACRIFÍCIOS HUMANOS
Uma demonstração de poder na África estava nos sacrifícios humanos, como nos funerais dos reis, em ritos para aplacar a ira dos deuses, cerimônias para pedir chuvas e boas colheitas ou para levar mensagens aos antepassados. Em muitas regiões, escravos eram sacrificados e enterrados com o seu dono. Entre os iorubás (Nigéria) havia o hábito de sacrificar um escravo por ano como oferenda ao orixá Ogum.
“No século XVII, o holandês Pieter de Moraes escreveu que, “na ocasião da morte de um rei na Costa do Ouro (Gana), cada um dos nobres oferecia um escravo para acompanhá-lo ao seu túmulo”. Antes de descer com o soberano morto, essas pessoas eram decapitadas e tinham seus corpos salpicados de sangue. As cabeças ficavam expostas ao redor da cova.
Entre os meios de produção de escravos na África, destacavam a guerra, o sequestro ou a captura. Haviam ainda os processos judiciais, em que os condenados de roubo, adultério, prática de feitiçaria e outros delitos se tornavam cativos para o resto da vida – descreve Laurentino.
No caso de dificuldades financeiras, os chamados peões na África (tropas de infantaria na Europa, pedestres em Portugal e trabalhador temporário no Brasil) podiam se oferecer como escravos temporários em troca de ajuda e apoio material. Quando em extrema necessidade ou fome, as famílias vendiam seus filhos ou parentes como escravos.
Uma das alternativas era a venda como peões, e a liberdade só seria resgatada mais tarde em troca do pagamento das obrigações. Na impossibilidade de pagar a dívida, o peão poderia ser transformado em escravo para o resto da vida.
O historiador Alberto da Costa e Silva relata que, em algumas sociedades cada vez que findava um rei ou um chefe, abria-se a disputa pelo poder. Os candidatos vencidos e suas mães, mulheres, filhos e partidários costumavam ser mortos ou ter seus membros amputados e até os olhos vazados.
Todas essas formas de escravidão antes da chegada dos europeus aumentaram em paralelo à demanda por cativos na América. A Justiça preferia condenar o criminoso à escravidão porque rendia dinheiro, do que sentenciá-lo à morte.
Com a chegada dos portugueses, o comércio de escravos passou a superar as trocas regionais. Os europeus estimularam a captura e a venda de escravos para transformá-los em um negócio global, “numa escala até então nunca vista”, envolvendo a África, Europa, América e parte da Ásia.
“A partir de 1650, a venda de seres humanos se tornou a principal atividade econômica na costa da África. No final do século XVIII já respondia por 90% da pauta de exportações do continente, nos cálculos do historiador nigeriano Joseph Inikori.
A implosão, segundo Laurentino, dos antigos mercados regionais seguiu-se um ciclo interminável de conflitos, guerras endêmicas e desordens sociais, estimulados pela importação de armas de fogo, munições e bebidas alcoólicas. As armas alimentavam as guerras que, por sua vez, sustentavam a captura e a escravidão de milhões de pessoas vendidas para os navios negreiros.
No capítulo “A Cicatriz”, o autor fala dos reinos africanos rivais que eram os maiores fornecedores de escravos na metade do século XVII, como os de Hueda e Aladá, situados na atual fronteira do Benin com a Nigéria. O reino do Daomé consolidou-se como principal na virada do mesmo século para o XVIII. Uma das consequências disso foi a redução populacional na África, compensada com a poligamia existente em algumas regiões, como Angola.
“MACUNAÍMA” DE MÁRIO DE ANDRADE
Quando se fala do livro “Macunaíma” lembra-se logo de Mário de Andrade, e o inverso dá no mesmo. Considerado o “Papa do Modernismo”, segundo o crítico literário José de Nicola (Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias), Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em nove de outubro de 1893, e faleceu na mesma capital, em 25 de fevereiro de 1945, há 77 anos.
No ginasial, na Escola de Comércio Álvares Penteado, abandonou o curso após uma briga com seu professor de português. Em 1911 matricula-se no Conservatório Musical de São Paulo, formando-se em piano.
Em 1917, ano em que trava amizade com Oswald de Andrade, publica seu primeiro livro e “descobre” a artista plástica Anita Malfatti. Foi diretor do Departamento de Cultura de São Paulo. Lecionou história e filosofia da arte na Universidade do Distrito Federal (RJ). De volta a São Paulo, trabalhou no Serviço de Patrimônio Histórico.
No mundo literário, estreou com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, no ano de 1917, onde retrata a Primeira Guerra Mundial, ainda sob influência parnasiana, mas encantado com as obras de Anita, segundo ele, revolucionárias. Sua poesia mostrou-se modernista a partir da publicação de “Paulicéia Desvairada”, rompendo com as estruturas do passado. A obra tem como objeto de contestação a São Paulo provinciana, misturada, miscigenada, burguesa, aristocrática e operária.
De acordo com Nicola, o escritor e poeta sempre lutou por uma língua brasileira que estivesse mais próxima do falar do povo. Seus livros revestem-se de nítida crítica social. Escreveu “Amar, Verbo Intransitivo”, um romance que penetra fundo na estrutura familiar da moral paulistana com seus preconceitos. Fala também dos sonhos e da adaptação dos imigrantes que agitaram a pauliceia com seus movimentos anarquistas.
“Macunaíma” (o anti-herói) foi sua obra prima onde o autor enfoca o choque do índio amazônico (que nasceu preto e virou branco) com a tradição e a cultura europeia na cidade de São Paulo. A obra contém figuras folclóricas por ele estudadas.
Com seu pensamento selvagem, o personagem Macunaíma faz as transformações que ele quer. A cidade de São Paulo vira um bicho preguiça; um inglês vira London Bank, colocando as estruturas de pernas para o ar. Macunaíma é o próprio “herói de nossa gente”, como afirma Mário de Andrade na primeira página do romance.
“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapannhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma”.
“Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incentivavam a falar, exclamava: – Ai que preguiça”!
UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (Final)
“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário Raul Morais de Andrade, a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais. No dizer de Menotti del Picchia, “houve quem cantasse como galo e latisse como cachorro”. “O que urge fazer: Enforcar o último rei com as tripas do último frade”- charge em “A Lanterna”.
“Eu insulto o burguês!… Eu insulto as aristocracias cautelosas… Morte à gordura… Morte ao burguês mensal… Mas nós morremos de fome! … Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio”… – trechos do poema “ODE AO BURGUÊS”, de Mário de Andrade.
“Estou farto do lirismo comedido/do lirismo bem comportado/do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de acordo com o senhor diretor…/ Abaixo os puristas…/ Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos clowns de Shakespeare/ – Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” – “POÉTICA”, de Manuel Bandeira.
Em “OS SAPOS”, o mesmo Bandeira diz: “Eu ronco que aterra/ Berra o sapo-boi:/- “Meu pai foi à guerra”/ “Não foi”/ – “Foi”/ – “Não foi”. O sapo tanoeiro,/Parnasiano aguado, diz: “Meu cancioneiro/ É bem martelado… Urra o sapo-boi:/ “Meu pai foi rei”/ – “Foi!” – “Não foi”… Poema lido durante o evento.
Além da Semana, foram registrados outros fatos importante da nossa história, como a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta do Forte de Copacabana e o Bicentenário da Independência do Brasil.
CURIOSIDADES DA SEMANA: Vila-Lobos fez um concerto de casaca e chinelos. Mário de Andrade realizou uma breve palestra nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo sob vaias e xingamentos. Na política, existia entre os participantes uma mistura de esquerda e direita, como de Plínio Salgado que mais tarde se tornou líder do integralismo fascista. Mesmo sob protestos contra os organizadores, a pianista Guiomar de Morais fez sua apresentação. Monteiro Lobato classificou os quadros de Anita Malfatti de caricaturas, de obras distorcidas, sem muita importância para seu talento.
RUMO A UMA SEMANA DE MUITO BARULHO
Onze anos antes, em 1911, circulou o semanário “O Piralho” (português macarrônico), de Oswald (Di Cavalcante era o desenhista), com um tom humorístico, que funcionou até 1917.
Em 1912, Oswald retornou da Europa com as ideias futuristas de Fillipo Tommaso Marinetti. Nesse ano, escreveu o poema “Último Passeio de um Tuberculoso pela Cidade de Bonde” – versos livres de escárnio ao passado.
Em 1913, o europeu Lasar Segal realizou a primeira mostra expressionista no Brasil, sem sucesso por causa das críticas dos conservadores. Monteiro Lobato já achava aquilo horrível.
Em 1914 aconteceu a primeira exposição de Anita Malfatti quando da sua volta dos estudos na Alemanha, na Escola de Belas Artes de Berlim. Ela também esteve nos Estados Unidos. No ano seguinte ocorreu o modernismo, em Portugal, a partir da revista “Orpheu”.
Em 1916, o sempre irrequieto Oswald escreve “Memórias Sentimentais de João Miramar”. No ano seguinte, o mesmo conhece Mário de Andrade, no Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo, onde ele proferiu um discurso, condenando as antigas estruturas. Oswald trabalhava como repórter no “Jornal do Comércio” e quando terminou o pronunciamento, disputou no tapa a cópia do escrito com outro colega do “O Estado de São Paulo”. Oswald levou a melhor.
Nesse mesmo ano, Mário publicou o livro “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, em que descrevia os horrores da I Guerra Mundial. Menotti del Picchia lança o poema “Juca Mulato” e Guilherme de Almeida “Nós”. Numa transição de estilos, Manuel Bandeira divulga seu livro “As Cinzas das Horas”. Cassiano Ricardo, “A Frauta de Pã”. Di Cavalcante realiza, em São Paulo, sua exposição de caricaturas.
Em 1917, em 12 de dezembro, Anita Malfatti inaugura, em São Paulo, sua exposição de 53 trabalhos, inclusive com suas famosas telas do “Homem Amarelo”, “A Estudante Russa” e o “Japonês”, as quais criaram grande polêmica no meio artístico, tanto que o jornal “O Estado de São Paulo” publicou em sua edição de 20 de dezembro, o artigo “Paranóia ou Manifestação”?, assinado por Monteiro Lobato. Foi o mais importante evento cultural do ano.
Lobato chama a mostra de extravagâncias de Picasso. Diz que Anita possui qualidades e talento, mas que suas obras são distorcidas pela teoria da arte moderna. No texto classificou seu trabalho de caricatura, numa mistura de futurismo, impressionismo e cubismo. Na verdade, ele cometeu um equívoco entre o expressionismo e o impressionismo.
Seu comentário provocou um escândalo no meio artístico e fez com que Mário, Oswald, Di Cavalcante, Guilherme, Menotti e outros formassem um grupo coeso em defesa de Anita Malfatti.
Em 1918, Guilherme de Almeida escreve “Messidor” e Manuel Bandeira aparece com “Carnaval”, muito aceito pelo público.
Em 1920, o grupo descobre um jovem escultor de Roma, Victor Brecheret, que apresentou a maquete do “Monumento às Bandeiras”. Segundo Mário, ele foi o criador do estado de espírito dos modernistas.
Em 1921, o grupo mais unido ideologicamente lançou, em 9 de janeiro, o “Manifesto do Trianon” em homenagem a Menotti del Picchia quando lançou o livro “As Máscaras”. Na ocasião, Oswald aproveitou para criticar os passadistas e defender a arte moderna, chamada de futurista. Conclamou o pessoal para novas lutas.
Em agosto, Mário faz sete artigos “Mestres do Passado”, chamando os parnasianos de malditos pela forma como escrevia. Em novembro ocorreu a exposição “Fantoches da Meia Noite”, de Di Cavalcante, e nela conhece Graça Aranha que retornava da Europa. Na conversa entre os dois nasce a ideia da Semana da Arte Moderna de 1922.
Nas edições de 29 de janeiro de 1922, o “ O Correio” e “O Estado de São Paulo” noticiam a organização do evento. O historiador do modernismo, Mário da Silva Brito chega a citar que a iniciativa do movimento se deveu a Graça Aranha.
OS ESPETÁCULOS E AS DIVERGÊNCIAS
Muitos outros jornais divulgaram o evento, anunciando que o primeiro espetáculo da Semana de Arte Moderna estava previsto para 13 de fevereiro. Graça Aranha se incumbiu de proferir a conferência “A Emoção Estética na Arte Moderna” onde fala de paisagens invertidas e interpretações desvairadas. De acordo com críticos, a palestra de Graça foi confusa e declaratória, cujo público pouco entendeu.
Nesse dia, as pinturas e esculturas expostas provocaram espanto e repúdio do público visitante, no Teatro Municipal de São Paulo. Os artistas mais visados foram Victor Brecheret e Anita Malfatti, mas houve irritação também contra a literatura.
Ainda nesse espetáculo houve apresentações de música de Ernani Braga que fez uma sátira a Chopin. Por causa disso, a pianista Guiomar Novaes protestou contra os organizadores. Na mesma noitada houve uma palestra de Ronald de Carvalho sobre “A Pintura e a Escultura Moderna no Brasil”, três solos de piano de Ernani Braga, três danças africanas de Vila-Lobos e poesias de Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida. Nesse clima de irreverência, ocorreram protestos contra a Semana.
No segundo espetáculo, muita algazarra no dia 15 de fevereiro. Mesmo com uma carta de repúdio ao evento, publicada em “O Estado de São Paulo”, a pianista Guiomar Novaes fez sua apresentação. Menotti del Picchia falou sobre “Arte e Estética”, com ilustração de textos de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Plínio Salgado que anos mais tarde aderiu ao ver-amarelismo integralista. A cada apresentação, muitas vaias e latidos. Ronald de Carvalho leu o poema “Sapos”, de Manuel Bandeira, numa crítica ao estilo parnasiano.
Muitas vaias, latidos e xingamentos nas apresentações, mas, mesmo assim, Mário de Andrade, das escadarias do teatro, fez um discurso e leu trechos de “A Escrava que Não é Isaura”. Numa breve palestra, destacou a expressão das artes plásticas, justificando as criações dos pintores futuristas.
Vinte anos mais tarde, em 1942, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, Mário confessa em entrevista que foi muita coragem fazer aquele pronunciamento nas escadarias do teatro porque só recebeu ofensas e protestos. No entanto, destaca que o movimento não foi apenas artístico, como também político e social.
Menotti comentou que os conservadores iam enforcar os modernistas com vaias. “Nossa estética é de reação. Aceitamos o termo guerra por ser um desafio. Abomino a escola de Marinetti com seu dogmatismo e liturgia. No Brasil não há razão lógica e social para o futurismo ortodoxo”. Em um trecho do seu discurso, exalta o novo. “Queremos idealismo, luz, ar, e que o rufo de um automóvel espante da poesia o último deus homérico que ficou anacronicamente a dormir…” Disse que o grupo pretendia fazer uma arte genuinamente brasileira. No entanto, houve reação quando revelou a prosa e a poesia modernas declamadas pelos seus autores.
No dia 17 ocorreu o terceiro espetáculo da Semana, com músicas de Vila-Lobos em trajes de casaca e chinelos. Houve pouca lotação de público. Mais vaias pela sua irreverência, mas ele explicou que o uso dos chinelos foi porque estava com um calo nos pés.
Durante o evento, Oswald leu “Os Condenados” e Agenor Barbosa foi aplaudido com “os Pássaros de Aço”. Nem todos escritores tiveram coragem de enfrentar o barulhento palco do Teatro Municipal.
Com foco na realidade brasileira, finalmente foi realizada a Semana que renovava a mentalidade nacional e brigava pela autonomia artística e literária. A Semana foi patrocinada pelo setor financeiro, com maior cobertura do “Correio Paulistano”.
REAÇÕES DOS JORNAIS
Sobre as atividades, a “Folha da Noite”, de São Paulo, em sua edição do dia 16/02, trouxe uma matéria classificando a Semana de mal, um fracasso, atraso mental e uma droga. Antes disso, no dia 30 de janeiro, A Gazeta já noticiava sobre o evento como um sarau futurista de escândalo artístico e revolucionário. Tratava a arte nova como extravagância e criticava Marinetti.
O movimento teve seu lado político de ataque à aristocracia. Di Cavalcanti disse ter sugerido a Semana a Paulo Prado, comentando que seria um escândalo. Mário de Andrade defendia a livre métrica e a rima, pois, segundo ele, a preocupação com essas regras prejudica a naturalidade de liberdade do lirismo objetivado.
Não foram só contestações, no dia 18/02, “O Correio” fez um comentário criticando os indivíduos que simplesmente ladravam e cacarejavam. Elogiou aqueles que aplaudiram com calor os libertadores da arte.
O jornal “O Estado de São Paulo”, numa matéria sobre a Semana, em sua edição do dia 29 de janeiro, fez menção a Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Álvaro Carvalho, Oswald, Menotti, Renato Almeida, Luis Aranha, Mário Raul de Morais Andrade, Ribeiro Couto, Agenor Barbosa, Moacir de Abreu, Rodrigues de Almeida, Afonso Schmidt (adepto do grupo Zumbi) e Sérgio Milliet que participaram do evento.
Nessa lista faltaram Cândido Motta Filho, Armando Pamplona (cineasta), Plínio Salgado, Rubens Borba de Morais, Tacito de Almeida e outros. Os nomes de Rodrigues e Moacir desapareceram no decorrer das campanhas polêmicas.
O PAU BRASIL, ANTROPOFAGIA E DESDOBRAMENTOS
Após a Semana foram surgindo outros acontecimentos relacionados ao evento. Em 18 de março, Oswald publicou no jornal “Correio da Manhã” vários artigos que resultaram no livro “Pau Brasil”, ilustrado pela artista Tarsila do Amaral. Propunha uma literatura vinculada à realidade brasileira (redescoberta do Brasil). Pregava o uso da língua sem arcaísmos e erudição, como falamos e somos.
Em 15 de maio, ele lançou a revista “Klaxon” (buzina externa dos automóveis) para propagar seu movimento antropofágico, com ideias inovadoras e atuais.
Nesse ano de 22 foram registrados fatos importantes da nossa história, como a Fundação do Partido Comunista Brasileiro (congresso de 25 a 27 de março de 1922), revolta militar do Forte de Copacabana, que depois gerou o tenentismo, em São Paulo (durou um mês) e se comemorou o Bicentenário da Independência do Brasil.
O historiador Nelson Werneck Sodré, em “História da Literatura Brasileira” narra que dentro do movimento houve muitos atos na disputa pelo poder político, como as manifestações da classe média.
Um mês depois da Semana, em primeiro de março, se deu a escolha na presidência da República para o sucessor de Epitácio Pessoa. A vitória foi de Artur Bernardes contra Nilo Peçanha. Bernardes decretou estado de sítio, censura à imprensa e intervenções nos estados. Mesmo assim, houve a marcha revolucionária dos militares que exigiam o fim da corrupção.
Mário, que sempre foi de direita, pequeno burguês, ingressou no Partido Democrático, em 1926. Ele conta que naquela época, após o movimento festeiro da Semana, tudo começou a estourar em intrigas entre casais de artistas, amigos e família.
O movimento, segundo Mário, teve o caráter anárquico, moderno, original, de consciência nacional e polêmico, mas também o sentido destruidor quando se partiu para o radicalismo. Tinha muito a ver com os tempos atuais.
Os revoltosos do tenentismo, entre 1923/24, vão para o interior onde se encontram com as tropas vindas do Rio Grande do Sul, comandadas por Luis Carlos Prestes que formou a Coluna de mil homens e percorreu 24 mil quilômetros, se internando depois na Bolívia.
Nessa onda de tendências, em 1924, na esteira do Pau Brasil e do antropofagismo de Oswald, apareceu o surrealismo com André Breton (1896 – 1970), que foi um participante do Dadaísmo de vanguarda no entre guerras. Era mais próximo do expressionismo, na busca da liberdade, do inconsciente na arte. Prevalece a não razão, com a exaltação à criança e o selvagem que existem dentro de nós. Foi uma ruptura com Breton, e optava-se pelo revolucionário marxista.
De 1922 a 1930 (rompimento de todas estruturas do passado), e até 1945, viveu-se um período áureo da fase moderna, tanto que Mário descreve como oito anos de orgias intelectuais que a história artística do país vivenciou.
MANIFESTOS PELOS ESTADOS
Ainda no rastro da Semana surgiu uma onda de manifestos pelos estados no período de 1925 a 1930. O Nordeste, por exemplo, criou o Centro Regionalista (edição de uma revista), em Recife, por volta de 1926. Grandes escritores, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Américo, Jorge Amado e João Cabral de Melo Neto são incluídos por críticos literários como regionalistas.
Em Minas Gerais, em 27 de janeiro de 1928 foi editada a revista “Verde Cataguazes”, com cinco edições. No rio de Janeiro, (1924), a revista “Estética”. Em São Paulo, em 1926, a “Terra Roxa e outras Terras” onde Mário Raul de Morais Andrade (1893 – 1945), formado em piano no Conservatório Musical de São Paulo, professor e diretor do Departamento Cultural de São Paulo, era um dos colaboradores.
Nesse tempo, Oswald cria o “Manifesto Antropofágico” através da Revista de Antropofagia em duas fases, a primeira com 10 edições, entre maio de 1928 e fevereiro de 1929 (direção de Antônio Machado). Na segunda etapa, a revista circulou nas páginas do “Diário de São Paulo”, com 16 números, de março a agosto do mesmo ano, com Geraldo Ferraz.
A primeira revista foi uma miscelânea ideológica de Oswald, Alcântara Machado e Mário de Andrade. Nela foi publicado o primeiro capítulo do livro “Macunaíma”. No terceiro número apareceu o poema “No Meio do Caminho, de Carlos Drummond, incluindo ainda artigos de Plínio e desenhos de Tarsila, na língua tupi e poesias de Guilherme de Almeida. Na segunda fase da revista houve uma ruptura com Mário.
Ficaram na linha antropofágica, Oswald, Raul Bopp, Geraldo Ferraz, Tarsila e Patrícia Galvão, a Pagu. Dou outro lado, Mário, Alcântara, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Menotti e Plínio Salgado. Os antropofágicos foram taxados de Preguiçosos no Mapa Mundi do Brasil.
Numa nova etapa do “Pau Brasil”, o movimento visava valorizar o índio e defender a nossa língua fosse falada pelo povo, bem como que nossa história fosse repensada. A origem do Pau Brasil surgiu da tela de Tarsila do Amaral, presenteada ao marido Oswald em seu aniversário de 1928. Oswald e Raul Bopp batizaram o quadro de Abaporu – homem que come, na linguagem indígena.
A intenção era dar uma resposta ao “verde-amarelismo” do “Grupo Anta” de Plínio Salgado que lançou as sementes do nacionalismo ufanista e fascista juntamente com Menotti, Guilherme e Cassiano Ricardo. Se debatiam o nacionalismo crítico das esquerdas contra o ufanismo exagerado de extrema direita, xenófoba e chauvinista. Oswald, Mário, Manuel Bandeira, Antônio de Alcântara Machado, Menotti, Cassiano, Guilherme de Almeida e Plínio àquela altura não se entendiam mais.
Era o verde-amarelismo ufanista e integralista de Plínio contra o nacionalismo afrancesado de Oswald que atacava os adversários em sua coluna “Feira das Quintas”, no “Jornal do Comércio”
Na verdade, foi um período fértil em manifestos e lançamento de revistas, mas em 1929 houve a quebradeira da Bolsa de Valores, último ano da Velha República, com a Revolução de 30.
UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (II)
“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário de Andrade a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais.
A Semana pregava a tomada de consciência da realidade brasileira – dizia José Nicola, em sua obra “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”. Na conjuntura geral, de acordo com Mário de Andrade, São Paulo era a cidade mais moderna do Brasil e estava em contato espiritual e técnico com as mudanças no mundo. Graça Aranha foi um dos idealizadores do evento.
O cenário nacional era comandado pelas oligarquias através do poder na “política do café com leite” somado ao surto de uma burguesia industrial com a I Guerra Mundial. Nesse bojo, veio a urbanização da cidade nos primeiros 20 anos do século XX.
Eram os barões do café verso o operariado. Era um Brasil dividido entre o rural e o urbano de origem europeia, com vocação na luta de classe, tanto que entre 1901 a 1911, os anarquistas publicaram o jornal “La Battaglia”. Circulou ainda “A Terra Livre” (1905-1910 e ocorreram greves em 1905 e 1917. Somente em 1918 os jornais passaram a noticiar a Revolução Russa.
Antes da Semana de 22, num estilo ainda decadente, Manuel Bandeira escreveu “As Cinzas das Horas”. Mais ousado, veio em 1919, “Carnaval” e o poema “Os Sapos”, de sátira, declamado durante o evento de São Paulo e bem recebido pelo público.
Sobre Ribeira Couto em “Jardim de Confidências”, em 1921, o crítico Alfredo Bosi destaca que seus versos se inseriam no penumbrismo. Já Ronald de Carvalho, em “Luz Gloriosa” (1913) e “Poemas e Sonetos” (1919) e Guilherme de Almeida, com “Nós” (1917) “A Dança das Horas” (1919), “Livro de Horas de Soror Dolorosa” (1920) ficaram entre o parnasiano e o decadentismo, com substância lírica.
Com influência mais moderna e face política, Cassiano Ricardo escreveu “Dentro da Noite” (1919) e “Evangelho de Pã” (1917). Havia uma dispersão, mas o grupo ficou mais coeso a partir de 1920 e 21, aderindo mais à arte nova. Na turma dos futuristas, Bosi lista Di Cavalcanti, Vicente do Rego, o próprio Monteiro Lobato e Anita Malfatti que sofreram influência do italiano Marinetti (fascista).
Os artigos de Menotti del Picchia, na coluna “Hélios”, no “Correio Paulistano”, que deu muito espaço para a Semana, faziam promoção do grupo vanguardista. Do outro lado, Oswald de Andrade e Cândido Moto, no “Jornal do Comércio” davam ao movimento uma direção de liberdade formal com ideias nacionalistas, mas sem o ufanismo patriótico. Oswaldo chegou a denominar o movimento de aglomeração revolucionária futurista.
No entanto, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda em seus comentários, negam esse futurismo paulista na esteira de Marinetti, mas admitem uma revisão de valores, o que denota que não havia hegemonia dentro do grupo que nascia.
Antes da Semana, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, seu primeiro livro de poesias onde mostra uma São Paulo misturada, miscigenada, estrangeirada, com a existência de diversas classes e ideias diferentes. Em seus artigos “Mestres do Passado” (seis no total), ele entoa um canto funeral para os parnasianos, numa forma de sepultar o passado de Francisca Júlia, Raimundo Correia, Olavo Bilac, dentre outros.
A esta altura, tudo se encaminhava para a realização da Semana da Arte Moderna, com mais união entre os intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro. Tudo indicava que o modernismo poderia ser lançado. Sobre “Paulicéia Desvairada”, Oswald considerou um marco, e chama Mário de meu poeta futurista em artigo no “Jornal do Comércio”, na edição de 27 de maio de 1921.
Em “Língua, Literatura e Redação” e “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”, o autor José de Nicola faz uma análise da época dos primeiros anos do século XX, destacando que existia uma divisão entre o meio rural e o urbano. O meio urbano era caracterizado pela luta de classe do operariado, com influência anarquista dos imigrantes vindos da Europa, principalmente da Itália.
Nesse aspecto, o crítico literário cita o jornal “Terra Livre” (1905 – 1911) e a greve de 1917 sob forte influência da Revolução Russa. Tudo isso foi se somando para as mudanças de ideário no meio intelectual. Em 1922 aconteceu também a fundação do Partido Comunista Brasileiro, provocando um declínio do anarquismo e abrindo caminho para a organização da Semana.
Os elementos sociais e políticos formaram um palco ideal em direção a um movimento que mostrasse uma arte inovadora de maneira a romper com as velhas estruturas. Era uma São Paulo do café e da indústria conectada com o mundo. A Semana, então, apresentou, segundo Nicola, o lado político contra a aristocracia e a burguesia.
Di Cavalcante, segundo a pesquisa de Nicola, foi um dos primeiros a sugerir a organização da mostra. Anos depois, em seu livro de memórias, afirmou ter sugerido a Semana, que seria de escândalos literários e artísticos, “de meter os estribos na barriga da burguesinha paulistana”.
UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (I)
Em fevereiro próximo (de 13 a 18) comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Nosso blog (Encontro com os Livros) vai fazer uma série de artigos sobre o assunto (pesquisa de Jeremias Macário) em homenagem ao evento, que foi um divisor de águas entre o passado e o novo na história das artes, abrangendo todas as linguagens artísticas. Este é o nosso primeiro comentário que segue todas as sextas-feiras.
A Semana de Arte Moderna de 1922 – uns estudiosos do assunto registram o período de 11 a 18 de fevereiro e outros de 13 a 18 – está recheada de controvérsia, divergências, brigas e separações entre grupos idealizadores. Ela nasceu com ideias futuristas da Itália através de Marinetti (seguidor de Mussolini), com princípios libertários nacionalistas visando substituir os velhos estilos e gêneros do passado parnasiano pelo novo, conforme assinalam críticos literários, como Alfredo Bosi e José de Nicola.
No geral ela bebeu da vanguarda europeia antes e depois da I Guerra Mundial e se inspirou em movimentos expressionista, dadaísta e cubista, principalmente. Com os acontecimentos políticos após o evento houve uma divisão e alguns enveredaram para o nacionalismo ufanista da direita fascista integralista. A concepção futurista foi banida pelo próprio Oswald de Andrade, um dos pensadores do movimento.
Os três principais espetáculos da Semana, no Teatro Municipal de São Paulo (dias 13, 15 e 17 de fevereiro), que neste ano está comemorando seu centenário, juntamente com a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta Militar do Forte de Copacabana (depois veio o tenentismo e a Coluna Prestes) e o bicentenário da Independência do Brasil, foram de muita confusão, algazarras, vaias, ofensas e críticas veladas aos escritores, poetas, pintores e aos artistas participantes.
Os mentores do movimento, Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras (Alfredo Bosi, em “História Concisa da Literatura Brasileira”) e Di Cavalcanti (“Literatura Brasileira, de José de Nicola) depois seguiram caminhos diferentes na política, com o racha no grupo. Por ironia, o encontro contou com forte patrocínio do setor financeiro paulista, apesar dos escritos literários (a maior expressão veio da literatura), focar seus alvos contra os hábitos e costumes sociais da burguesia rural e urbana.
RETROSPECTIVA
Para entendermos melhor o que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, devemos fazer uma retrospectiva dos fatos desde a primeira década do século XX, a I Guerra Mundial (1914-1918) e as renovações de pensamentos ocorridas na Europa, especialmente na França, Alemanha e Itália. Esse turbilhão de ideias, como sempre acontece, chegou mais atrasado no Brasil de Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e outros.
Em sua crítica, Bosi faz uma definição do modernismo como um clima estético e psicológico, citando Graça Aranha, o único intelectual da velha guarda que passa do pré-moderno e adere ao modernismo, mas que permanece com sua posição política de direita. Na realidade, esse movimento traz consigo um novo código diferente do parnasiano de Olavo Bilac e do simbolismo, como Manuel Bandeira e Ribeiro Couto.
O escritor Lima Barreto já introduzia em sua literatura traços modernos em seus romances, bem como Monteiro Lobato, um conservador crítico ferrenho da Semana, Guilherme de Almeida, Menotti e Oswald de Andrade. No entanto, nem tudo que foi modernista parecia moderno, conforme descrevem os literatos.
Lima Barreto e Graça de Aranha pertenciam a camadas sociais bem diferentes (o primeiro de origem pobre), mas tinham forte sentimento nacional ao ponto de palmilharem juntos a revolução literária dos anos 20 e 30. Em sua visão, Bosi pondera que, se por modernismo entende-se ruptura com os códigos literários do primeiro vintênio, a rigor não houve escritor pré-modernista.
Antes da Semana já havia exemplos de inconformismo cultural através da crítica literária às estruturas das velhas gerações nos primeiros vinte anos do século XX. Portanto, dentro desses códigos literários podem ser considerados de pré-modernistas Euclides da Cunha, João Ribeiro, Lima Barreto e Graça de Aranha.
Na verdade, como exemplifica Bosi, existia sim um espírito modernista no ar por meio de inovações artísticas que mais tarde iriam polarizar, a exemplo de Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, dentre outros.
Nos primeiros anos da I Guerra Mundial, os ventos desses ideais já sopravam. Na Europa, a literatura dava sinais de crise. Em Paris, Oswald conheceu o futurismo de Marinetti, em 1909. Este acabou aderindo ao fascismo de Mussolini. Em 1912 aconteceu o manifesto “Fundação no Figaro” e Paul Fort lançava seus versos livres.
No Brasil, Manuel Bandeira plantou as primeiras sementes do modernismo. Ronald de Carvalho ajudou, em 1915, fundar a revista de vanguarda portuguesa “Orpfeu” que propagou a poesia de Fernando de Pessoa e Sá Carneiro.
Também Tristão de Ataíde e Graça de Aranha conheceram as vanguardas europeias simbolizadas na poesia de Sérgio Milliet. Mesmo com críticas e polêmicas, o termo futurismo, visto como barbarismo, começa a circular nos jornais brasileiros por volta de 1914. Antes disso, em 1910, na Bahia, foi publicado um folheto sobre o manifesto de Marinetti, excluído durante a Semana de Arte Moderna. Outro fato que marcou essas mudanças foi o artigo de Ernesto Bertarelli sobre as lições do futurismo, no jornal “Estado de São Paulo”.
Essas inovações simbolistas de versos livres eram muito contestadas, mas começavam a aparecer até no meio sertanista de Cornélio Pires, Paulo Setúbal e Catulo da Paixão Cearense. Como diz Bosi, era um híbrido de culto ao popular e ao nacional.
As manifestações, surgidas na Europa através de uma série de exposições, terminaram desaguando no encontro da Semana de Arte Moderna, organizada por um grupo da burguesia culta paulista e carioca, que mudou o quadro literário, o carro-chefe do evento junto com as artes plásticas.
Antes da Semana, porém, o fato mais importante que movimentou a cultura paulista foi a exposição de Anita Malfatti, em 1917. Apesar de criticada, sua mostra de pinturas, com traços expressionista e cubista, serviu de guia para as novas tendências. O evento de São Paulo recebeu uma crítica virulenta de Monteiro Lobato (conservador), com o artigo “Paranoia ou Manifestação”?, publicado no jornal “Estado de São Paulo”.
Os trabalhos de Anita (estudou artes plásticas na Alemanha) tiveram o apoio de solidariedade de Oswald, Menotti del Picchia e Mário de Andrade contra as críticas de Lobato. Em sua bagagem da Europa, ela trazia novos elementos plásticos da Alemanha e dos Estados Unidos.
Em sua obra de “Literatura Brasileira”, Alfredo Bosi descreve que de 1917 a 1922, um grupo jovem e atuante no meio literário paulista bebeu das poéticas do pós-guerra, mas, mesmo assim, ainda mantinha o tradicionalismo provinciano brasileiro.
Ainda em 1917, Mário de Andrade estreou na literatura com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema” sobre a I Guerra. Na época, Bandeira considerou os versos ruins, dizendo que tinham resquícios condoreiros. Oswald lança “Os Condenados”, um romance ainda de estilo híbrido na análise de Bosi.
Menotti, um dos mais ativos da Semana, publica os livros de “Poemas do Vício e da Virtude” (1913), ainda parnasiano, Juca Mulato” (poemeto regionalista), “Moisés” (poema bíblico) e as “Máscaras” (1917), com vícios do decadentismo. As obras foram bem aceitas pelo público. Em 1922, ele escreve o romance “O Homem e a Morte” que narra as aventuras de um artista paulista com um estilo entre o romântico e o impressionista.
NOSSOS LIVROS COMEÇAM A FLORESCER NO JARDIM DAS MENTES BRASILEIRAS
Até que afinal de contas uma luz começa a surgir lá no fim do túnel da nossa cultura, um jardim tão pisoteado nos últimos anos. Essa esperança faz o sol nos tirar das trevas através do livro. Acabo de ler uma boa notícia do Painel do Varejo de Livros. Ele diz que entre os meses de janeiro a novembro deste ano, a venda de livros superou em 33% o ano de 2020, e em 31% o ano de 2019, antes da pandemia.
É uma boa nova cultural entre tantas macabras neste ano que se finda com a destruição do nosso patrimônio histórico, com a negação da nossa memória e o retrocesso em direção aos tempos da Idade Média. O aumento da leitura, não importa os estilos e gêneros, é um sinal do florescer das mentes, porque ela oferece mais visão ao indivíduo que passa a expressar melhor suas ideias.
Espero que neste 2022, a venda de livros nas livrarias que ainda restam (muitas foram fechadas) supere a do ano que se vai. Isso pode até dar um ânimo no mercado livreiro, mas o governo federal, um negacionista e retrógrado, já trama o pior contra a nossa combalida cultura, que é a intenção de elevar os impostos para os livros. Isso poderá tornar menos acessível às classes de menor poder aquisitivo.
Ler é florescer as mentes. Ler um livro é como plantar mais uma semente do conhecimento e do saber no quintal do nosso jardim. A maioria dos nossos grandes escritores sempre tiveram uma infância e uma juventude de leitura, principalmente nos tempos em que se tinha fome de cultura, e se devorava livros, e não redes sociais em celulares de ódios e intolerâncias, cheias de fake news.
Sobre a leitura, um alimento para a alma faminta, aqui listaria uma série de benefícios para o espírito que poderia até virar bordões chatos como de final de ano, mas o livro é um templo sagrado que o ser humano deve sempre frequentar, não importando sua religiosidade. É um rememorar o passado para o conhecer das nossas origens; entender melhor a realidade do presente; e abrir novos caminhos para um futuro melhor.
Se o brasileiro está lendo mais, isso logo vai refletir na sociedade, e vamos ter mais capacidade de agir e reagir contra as mentalidades atrasadas. Vamos ter gente falando melhor, e transformações sociais virão por aí. É um sinal de que estamos saindo dessa letargia, desse apagão mental e de que está despontando aí o senso crítico. Incentivar o hábito de ler é lutar por uma país melhor, como disse o escritor e poeta Leandro de Assis, autor do livro “O Poder Transformador da Leitura: Hábitos e Estratégias para Ler Mais”.
Como diz o escritor, precisamos de mais espaços para a leitura, como a criação de mais bibliotecas, estímulo às livrarias e projetos do poder público para lançar novos talentos da literatura. Em Vitória da Conquista, por exemplo, precisamos resgatar a nossa cultura em reverência aos grandes nomes que projetaram nossa cidade através das letras.
Umas das estratégias seria a criação de um Plano Cultural para Conquista através de uma Fundação, para dar normas às diretrizes políticas culturais. Nesse sentido, o novo Conselho Municipal de Cultura tem, neste ano de 2022, a obrigação de fazer decolar esse plano, deixando um legado para as novas gerações.
Acredito que um país culto é um país desenvolvido onde seus cidadãos passam a ser donos de si mesmos, elegendo políticos comprometidos com a educação e a cultura. Só assim poderemos extirpar de uma vez os preconceitos racistas, a homofobia, a xenofobia, a misoginia, e olhar os outros sem diferenças. A cultura exerce influência também no nível econômico e social das pessoas, reduzindo as desigualdades.
“ESCRAVIDÃO”
Em tempos de tanto preconceito racial, ódio e intolerância entre brasileiros, envolvidos numa polarização bestial, o jornalista e escritor premiado com os livros 1808, 1822 e 1889, Laurentino Gomes acaba de lançar a trilogia ESCRAVIDÂO (o último sai agora em 2022), que durou 350 anos no Brasil, o último país ocidental a decretar a abolição. Deve ser lido para se entender a história, a vergonha e as agruras do tráfico negreiro.
Foram seis anos de pesquisas que incluíram doze países e três continentes por onde Laurentino passou, além de centenas de entrevistas. O primeiro volume cobre um período de 250 anos, desde o primeiro leilão de escravos africanos em Portugal, no dia 8 de agosto de 1444, até a morte de zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.
A obra também explica as raízes da escravidão humana na antiguidade (Grécia antiga, Império Romano, Turco-Otomano) e na própria África antes da chegada dos portugueses; o início do tráfico para as Américas; os números; os bastidores; e os lucros do negócio negreiro. Fala também da trajetória do baiano mulato claro Francisco Felix de Souza, o mais rico, famoso e influente mercador de gente na costa africana do Benin.
Outro personagem descrito por Laurentino é o do infante Dom Henrique, patrono das grandes navegações e descobrimentos do século XV, tido também como um dos grandes traficantes no Atlântico. É uma história de dor que continua com suas marcas em Luanda (Angola), Ajudá (Benin), Cidade Velha, em Cabo Verde, Liverpool, na Inglaterra e cais do Velongo (Pequena África), no Rio de Janeiro.
Os dois últimos volumes de um trabalho profundo são dedicados aos séculos XVIII, auge do tráfico de escravos, e ao movimento abolicionista que resultou na lei áurea de 13 de maio de 1888. Na verdade, os escravos não tiveram a liberdade de verdade porque foram abandonados à própria sorte, sem serem indenizados pelos anos de sofrimentos.
Esse fantasma da escravidão continua a nos perseguir com o racismo que ainda persiste no Brasil, sem falar na questão social de pobreza entre os negros, onde os índices de acesso ao emprego, à educação, à saúde e outros serviços são baixos em relação aos brancos.
Laurentino começou sua obra em Ajudá, na República do Benin (não confundir com o Reino do Benin que fica na Nigéria), em frente a uma grande gameleira, conversando com Marcelin Norberto, de 92 anos, patriarca da nona geração da família Souza, dinastia fundada no Reino do Daomé (colônia francesa até 1975).
Ao morrer, em 1848, com 94 anos, o baiano Francisco de Souza deixou 53 mulheres viúvas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna de mais de 120 milhões de dólares. Ele ganhou do rei Guezo, do Daomé, o título de chachá. Em seu livro-reportagem, o autor narra que, a centenas de metros da casa de Marcelin, ergue-se a antiga Fortaleza de São João de Ajudá, o mais importante entreposto de tráfico negreiro português e brasileiro no Golfo de Benin até metade do século XIX. A poucos quilômetros, no litoral, lá está a Porta do Não Retorno onde começou a Rota dos Escravos. Pela porta de Ajudá, passaram cerca de um milhão de escravos.
Na África, existem dezenas dessas portas por onde foram embarcados nos navios negreiros mais de 12 milhões de africanos que nunca tiveram a oportunidade de retornar às suas origens. Desses, estima-se que cinco milhões vieram parar no Brasil. Segundo Laurentino, o banco de dados Slave Voyages, cataloga 36 mil viagens dos navios negreiros ao longo dos 350 anos, num total de 188 portos de partida de cativos, sendo que 20 deles responderam por 93% do total do tráfico no Atlântico.
A história é longa e triste que vale a pena ser lida e até relida para que conheçamos as origens dos nossos antepassados e sepultemos para sempre o racismo. Paranaense de Maringá, premiado seis vezes com o Jabuti de Literatura, Laurentino é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação pela Universidade de São Paulo e membro da Academia Paranaense de Letras.
“JOVENS NO MERCADO DE TRABALHO E O DESENVOLVIMENTO SOCIAL”
Desigualdade e vulnerabilidade social, a inclusão do jovem nas leis de aprendizagem e do estágio no mercado de trabalho, a empresa que não segue os ritos da lei, a informalidade, a evasão escolar e a necessidade do emprego para o sustento familiar são questões pertinentes e atuais abordadas pelo professor, conselheiro-presidente do Instituto Alfam, gestor e consultor empresarial Fabrício Vieira Silva em um dos capítulos do livro “Relações Humanas-desafios e perspectivas”.
Todos esses problemas, como aponta o mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, terminam refletindo no desenvolvimento do país, detentor de grandes riquezas, mas com instabilidade econômica e social de toda ordem, bem como escassez de recursos para assegurar as condições básicas à população (educação, saúde precárias) menos favorecidas- assinalou.
Fabrício diz estar longe de apresentar soluções para situações tão complexas, mas deixa claro que a saída é a educação completa do jovem para enfrentar a competitividade do mercado, cada vez mais exigente em termos de qualificação da mão-de-obra. “O abandono escolar perpetua o ciclo de pobreza e a vulnerabilidade social”, termo sempre repetido por ele em seu artigo.
Quando se discute o aspecto do trabalho, Vieira destaca que o país tem características peculiares em relação a outras nações do mesmo porte, por dispor de instrumentos de inserção dos jovens no mercado formal de trabalho, como o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, a lei de aprendizagem (Lei do Jovem Aprendiz) e a lei do estágio. “Mesmo assim, o país patina na tentativa de encontrar as soluções para tornar-se mais igualitário e com melhor desempenho no mundo do trabalho”.
Ele salienta que, “embora o estágio não seja considerado regime formal de trabalho, o destacamos como uma oportunidade disponível de inserção dos jovens no mercado de trabalho, desde que a prática não seja utilizada pelas empresas como mera substituição precarizada do empregado formal, que respeite a área de atuação na qual o estagiário esteja estudando e também o quantitativo máximo estabelecido pela lei”.
O articulista ressalta que em suas atividades profissionais tem captado diálogos empresariais, dentre algumas, que lhe intrigam, tais como, há vagas no mercado, o que falta é gente qualificada! A legislação é muito rigorosa quanto as exigências à inserção dos jovens! Eu não consigo “aproveitar” os jovens que passam por aqui, pois estão “verdes” e despreparados! Não tenho condições de fazer da minha empresa uma escola, pois fica caro fazer o jovem aprendiz, e acabo cumprindo a lei para não ser multado.
Em sua opinião, Fabrício entende que existe um distanciamento entre a formação profissional e acadêmica e o mercado de trabalho formal. O mercado carece de pessoas mais qualificadas, muitas vezes mais comportamentais e psicológicas do que técnicas, sem negligenciar o conhecimento do ofício – destaca
Um ponto que sempre o professor chama a atenção é quanto a vulnerabilidade social das famílias. “Um país como o Brasil, em desenvolvimento, ainda amarga um elevado número de famílias em condições de pobreza ou de extrema pobreza que vivem se deparando com diversas carências”…
De acordo com o IBGE, conforme cita, em 2018 o país tinha 13,5 milhões de pessoas com renda mensal per capita inferior a 145 reais, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza.
Ainda sobre o tema vulnerabilidade social, Vieira aponta dois pensadores Richard Castell e Carolina Moser. Para o primeiro, os indivíduos passam a integrar à sociedade por meio de dois processos: O mundo do trabalho e as proximidades pelas relações familiares de vizinhança. Essas relações proporcionam sensação de pertencimento (proteção e segurança). Sobre a questão do trabalho, Castell apresenta as possibilidades de inserção pelo trabalho estável, assegurando direitos, e o precário, sem contratos, sem vínculos formais e garantias e, por fim, a não inserção por compor o quadro de desempregado ou incapacidade para o exercício.
Para Moser, a vulnerabilidade teria duas origens, por ausência ou escassez de ativos; ou por uso inapropriado dos recursos que se tem por parte dos indivíduos, famílias e comunidades. Segundo ela, as estratégias de enfrentamento centram-se na disponibilização de ativos às pessoas e no apoio para a adequada utilização dos recursos de que se dispõe.
Em seu trabalho, Fabricio enfatiza que o Brasil tem uma mão-de-obra bastante jovem e que, se bem preparada, poderia dar saltos na contribuição para um país bem mais estruturado no campo social e econômico. No entanto, existe uma oscilação crescente no número de desemprego de 2012 a 2019, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
O crescimento do desemprego, segundo Fabrício, empurra o jovem para o mercado de trabalho informal de baixa qualidade, de vínculos empregatícios precários e de menor remuneração, ou infantil. Conforme o IPEA, “trabalhar na informalidade no início da carreira pode comprometer toda a sua trajetória profissional”. O consultor Fabrício vai mais além quando afirma que quando o jovem entra na informalidade sofre a real possibilidade de abandono dos estudos para ajudar a família. “Não hesita em abrir mão da escola quando vislumbra ter mais ganho mediante o aumento da carga de trabalho”.
O professor diz que a atividade remunerada na vida desses jovens representa, sobretudo, uma renda para o complemento do ganho familiar, bem como a satisfação de consumo desses próprios jovens. “Com isso, os jovens trabalhadores se sentem úteis e importantes em seu meio social. A valorização é maior quando se trata de trabalho formal, fazendo o emprego assumir mais importância na sua vida (Moura, 2009, p. 11).
Ainda sobre a evasão escolar, Vieira alerta que esse fato faz diminuir as expectativas de um futuro melhor e mais digno para o jovem e sua família e, com isso perpetua o ciclo de pobreza e vulnerabilidade social. Ainda no mesmo artigo, o professor Fabrício discorre sobre família, trabalho, escola e desenvolvimento social, destacando que famílias com vulnerabilidade social tendem a estimular os jovens ao trabalho como saída para ampliação da renda, por questão de sobrevivência.





























