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:: ‘Encontro Com os Livros’

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (IV)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

Sobre os procedimentos dos desembarques dos cativos no Brasil, Laurentino descreve que “a primeira providência consistia em retirar, com vários dias de antecedência, as correntes e algemas que prendiam os escravos, de modo que não houvesse marcas visíveis na pele. A segunda era lavá-los com esponja e sabão”.

Os homens tinham os cabelos raspados e a barba feita com esmero. Fios grisalhos eram arrancados ou pintados de preto. Os mais velhos que tivessem pele macilenta ou enrugada, teriam os rostos ou os troncos polidos com uma pedra ou areia fina. Por fim, os marinheiros untavam os corpos com óleo de dendê, de maneira que ficassem brilhantes e bem hidratados para a venda.

O leilão era a forma mais comum de venda dos escravos no Brasil e no continente americano. Porém, haviam expedições previamente encomendadas por um comprador individual ou grupo. Isso era mais utilizado no século XIX. Nesse caso, fazendeiros contratavam a aquisição de um determinado número de cativos, que eram desembarcados às escondidas em locais remotos (Ilha Grande ou Mangaratiba, no Rio de Janeiro).

Na maior parte, nos séculos anteriores, as transações eram feitas na base da oferta pública, semelhante ao das feiras agropecuárias. O valor de mercado era comparado ao de um animal de carga.  Na chegada aos portos brasileiros, o capitão do navio deveria antes registrar sua carga, pagar os impostos na alfândega e submeter-se à fiscalização sanitária.

Diversas epidemias ocorridas no Brasil no início do século XVII tiveram como origem o desembarque de escravos vindos de regiões da África onde havia doenças, como varíola, malária ou febre amarela. Os leilões começavam pela “primeira escolha” onde os compradores mais ricos tinham a preferência de arrematar os mais jovens, fortes e saudáveis, por preços mais elevados.

Os mais idosos, doentes e portadores de alguma deficiência física eram vendidos pela melhor oferta, como numa liquidação de ponta de estoque, comprados por gente mais pobre. Os mais fracos e doentes eram abandonados nas ruas do Rio de Janeiro onde morriam como indigentes. O maior mercado comprador era o Valongo, no Rio de Janeiro, situado nos atuais bairros da Gamboa, Saúde e do Santo Cristo.

No processo de venda, eles ficavam nus. Eram pesados, medidos, apalpados, cheirados e observados nos mínimos detalhes. Tinham de correr, pular, esticar braços e pernas; respirar fundo e tossir. Os compradores enfiavam os dedos nas bocas para checar se os dentes estavam em bom estado. Uma observação mais detalhada era feita nos genitais dos homens e mulheres, em busca de sinais de doenças.

As senzalas brasileiras, na definição do sociólogo Clóvis Moura, eram um conjunto habitacional de construção rústica, sem janelas, construído de taipa e coberto de palha. Num espaço curto, ficavam homens, mulheres e crianças, na maioria sem vínculo parentesco, o que geralmente se transformava num ambiente de promiscuidade.

Para evitar fugas, durante a noite, o feitor trancava as portas por fora com cadeado e corrente. Os cativos ficavam confinados em cubículos até de manhã, quando seriam libertados para o início do trabalho.  Segundo historiadores, a definição de senzala teria sido dada pelos próprios escravos, derivada do quimbundo, língua de Angola.

Torturas e atrocidades

A fase inicial da vida do escravo no Brasil e na América era de torturas físicas e psicológicas como maneira de mostrar ao cativo quem era mesmo o dono. De acordo com o padre jesuíta Manuel Ribeiro Rocha, missionário na Bahia em meados do século XVIII, citado pelo autor do livro, nessa etapa muitos senhores de engenho no Recôncavo Baiano tinham o hábito deliberado de surrar os escravos.

O holandês Dierick Ruiters, que em 1618 passou um ano preso no Rio de Janeiro, relata coisas horríveis, como de um negro que faminto furtou dois pães de açúcar. Ao saber do ocorrido, seu senhor mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Da cabeça aos pés, seu corpo ficou uma chaga aberta, e os locais poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. Conta o holandês, que o homem foi transformado em carne de boi salgada. Depois de tudo isso, derramaram piche derretido sobre suas feridas.

Em 1700, a Justiça mandou que fossem investigados todos os casos envolvendo mutilações e mortes de escravos por falta de comida. O rei de Portugal, D. Pedro II, mandou averiguar denúncias de atrocidades e assassinatos. No entanto, o governador da Bahia, na época, D. João de Lancastre, recusou acatar as determinações do rei, alegando que a medida abriria precedente perigoso, e levaria à quebra da disciplina na relação entre escravos e senhores. As leis eram inúteis num país ermo.

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (III)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:

O padrão das viagens foi mudado ao longo dos tempos, conforme demonstra o autor em sua obra. “No caso de Portugal, de início, todos os navios saíam de Lisboa ou de Algarve, recolhiam escravos na África e retornavam aos portos portugueses, onde os cativos eram redistribuídos para diferentes destinos, na América, nas Ilhas Atlânticas (Madeira, Cabo Verde) ou mesmo na Europa”.

Aos poucos, o negócio foi se transferindo para o Brasil. A partir do século XVIII, nove em cada dez expedições negreiras eram organizadas para o Brasil. Uma série histórica de viagens de navios atracados em Luanda (Angola), entre 1736 e 1770, mostra que 41% saiam do Rio de Janeiro, 22% de Pernambuco e a mesma percentagem da Bahia. Apenas 15% de Portugal.

Nessa época, os brasileiros tinham domínio quase absoluto sobre o tráfico de escravos. O Rio de Janeiro, principal centro organizador, respondeu sozinho pelo transporte de 1,5 milhão de escravos, seguido de Salvador com 1,4 milhão, e Liverpool (Inglaterra) com 1,3 milhão.

“O domínio brasileiro era tão acentuado que o arcebispo da Bahia, criado em 1776, tinha jurisdição sobre as dioceses de Olinda, Rio de Janeiro e bispados do Congo, Angola e São Tomé, englobando a Costa da Mina (Gana).

Haviam os roubos de cargas, os chamados piratas. O capitão John Hawkins, sócio da rainha Elizabeth I, roubou uma carga de seis embarcações portuguesas que estavam prontas para zarpar rumo a Cabo Verde. Na década de 1820, os jornais do Rio de Janeiro registraram dezesseis ataques de piratas a navios negreiros, a maior parte deles praticados por corsários norte-americanos”.

Em 1660, foi criada em Londres, a Company of Royal Adventures of England Trading with Africa, renomeada depois para Royal African Company ( RAC), para ter o monopólio do tráfico negreiro por mil anos. Na lista de investidores incluía quatro membros da família real e da nobreza britânica, entre eles o próprio rei Charles II.

No capítulo sobre “os lucros do tráfico”, Laurentino fala de como eram feitos os embarques e desembarques dos cativos. Diz que, enquanto os capturados aguardavam os embarques, os africanos estavam sujeitos a ser contaminados por uma infinidade de doenças endêmicas na costa da África, como malária, febre amarela e a temida varíola, sem contar a disenteria e até o escorbuto. Por isso, o objetivo do capitão era fazer a carga e partir rapidamente.

Conta o autor do livro que entre 1827 e 1830, navios brasileiros que faziam o tráfico a partir do Rio de Janeiro, demoravam por volta de cinco meses na costa da África antes de completar a carga. No século XVII, a média para as embarcações da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais era de cem dias. Quando tinha muita espera, capitães compravam e vendiam escravos entre si.

Ao longo da costa africana, os europeus construíram fortificações, castelos e feitorias onde os escravos eram estocados nos porões à espera da chegada dos navios. Muitos desses fortes e castelos existem até hoje e se tornaram atrações turísticas em países como Senegal, Gana, Benin, Nigéria e Angola. Só em Gana são mais de sessenta dessas construções.

Ainda sobre as empresas do tráfico, Laurentino cita, além da famosa Royal African Company (RAC), as francesas Companhia do Senegal e da Guiné; a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e várias iniciativas da Coroa Portuguesa, como a Companhia Geral de Comércio do Brasil, fundada em 1649, e a Companhia de Comércio do Maranhão, de 1682.

Sobre a RAC britânica, a mando da empresa, o corsário Robert Holmes atacou as Ilhas de Cabo Verde e ocupou o Cape Coast Castle, no litoral de Gana, que se encontrava nas mãos dos holandeses. Depois cruzou o Atlântico e tomou a Ilha de Nova Amsterdã, situada na foz do rio Hudson, renomeada como Nova York, hoje a meca do comércio.

No final do século XVII, três quartos do faturamento da RAC vinham do fornecimento de cativos para as colônias inglesas no Caribe e na América do Norte. Os britânicos se consolidaram como os maiores traficantes do século seguinte, ou seja, XVIII.

 

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (II)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles:

Aos reis e chefes locais do continente africano, cabia organizar as expedições militares para captura dos escravos. Os chefes definiam os preços, controlavam a oferta, faziam alianças e fechavam negócios com diferentes interlocutores europeus, em geral, rivais entre si, de modo a evitar o monopólio de qualquer país ou grupo de compradores em seu território.

No vizinho porto de Ajudá, entre final do século XVII e o começo do século XVIII, traficantes europeus tinham de pagar o valor equivalente a 37 ou 38 escravos (cerca de 375 libras esterlinas) por navio negreiro em troca da autorização para ali comprar cativos. As despesas incluíam ainda impostos, pagamentos para altos funcionários reais e intérpretes locais.

Por fim, o próprio rei local tinha a prerrogativa de vender, em primeira mão e a preços mais elevados, um determinado número de escravos de sua propriedade. Só, então, começavam as outras negociações. De acordo com o historiador, John Russell-Wood, “os participantes africanos do tráfico incluíam os príncipes e os mercadores mais ricos e poderosos do continente. A elite africana estava profundamente envolvida com a venda de escravos”.

As dívidas assumidas em cada etapa dessa rede de suprimentos, segundo Laurentino, eram negociadas em letras de crédito (letras de câmbio) a serem quitadas na venda dos escravos. Essas letras eram tão comuns que em meados do século XVIII eram utilizadas como moeda corrente em Benguela (Angola).

A ponta mais avançada dessa rede de negócios era o próprio capitão do navio negreiro, responsável pela compra dos escravos na costa africana. Além de negociadores, os comandantes desempenhavam algumas funções extras na cadeia do negócio.

Em Portugal e no Brasil, os investidores do tráfico contratavam os capitães para cobrar e negociar dívidas, ou processar na justiça os caloteiros situados em regiões remotas. Os capitães, na verdade, eram donos de parcelas expressivas das cargas que transportavam, conforme assinalou o historiador Roquinaldo Ferreira.

Havia preferência por escravos a partir de determinadas regiões. Os angolanos, por exemplo, eram considerados dóceis e bons trabalhadores nas lavouras e no serviço doméstico. Os oriundos da chamada Costa do Ouro, ou da Mina (Gana) eram bons na mineração. Da Guiné chegavam africanos experientes nas atividades pecuárias e de pastoreio.

Segundo relato do padre jesuíta André João Antonil, alguns eram arrogantes e rebeldes. Para o Brasil vieram os congos, ardas, minas, São Tomé, Angola, Cabo Verde e poucos de Moçambique. Os ardas e minas são robustos. Os de Cabo Verde e São Tomé, mais fracos. Os de Angola e do Congo, mais capazes de aprender ofícios. Os mulatos são soberbos, viciosos e mais valentes.

Desde o início do tráfico, os europeus tiveram que se adaptar a um padrão monetário peculiar na África que usava conchas marinhas como moeda, em lugar de peças de metal ou papel. Uma dela era chamada de zimbo, coletada nas praias da Ilha de Luanda (Angola), sob regime de monopólio do rei do Congo. Eram tão populares que padres e bispos recebiam salários e doações em zimbos.

Essas conchas eram também encontradas nas praias da Bahia. Eram exportadas pelos portos de Salvador e Rio de Janeiro e usadas nas compras de escravos africanos. Eram tantas que provocaram uma desvalorização monetária.

Outra moeda-concha muito valorizada na África eram os cauris, espécie de búzios originários das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, mais apreciado no Golfo da Guiné do que as similares angolanas. Eram comprados na Índia por holandeses, franceses, ingleses e portugueses que exportavam para a África.

No auge do tráfico, no século XVIII, holandeses e ingleses importavam cerca de 40 milhões de búzios cauris por ano. Juntos teriam movimentado quatro bilhões de conchinhas entre 1700 a 1790. Por volta de 1650, em Aladá, se podia comprar uma galinha por cerca de dez conchas. Um século mais tarde, a galinha valia trezentas conchas.

Quase todos países europeus se envolveram no comércio de escravos, mas portugueses e brasileiros foram os maiores ao longo de quase quatro séculos.

 

 

CURIOSIDADES NO TRÁFICO DE ESCRAVOS

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Vamos aqui destacar algumas delas:

No auge do tráfico, por volta de 1780, os cativos eram capturados e comprados ao longo do litoral africano, numa extensão de quase seis mil quilômetros de cumprimento por mil de largura, da atual fronteira da Mauritânia com o Senegal até o sul de Angola. Nas décadas seguintes, essa faixa costeira se estenderia por outros quatro mil quilômetros, com a inclusão de Moçambique no roteiro do Brasil.

O banco de dados Slave Voyages registra que havia um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano. Vinte deles respondiam sozinhos por 93% de todo tráfico no Oceano Atlântico. Até início do século XIX, o tráfico era o maior e o mais internacional de todos os negócios do mundo.

A rede de interesses envolvia agentes comerciais e controles contábeis das transações, uma estrutura de fornecimento de água e comida, e até instituições religiosas para batizar e catequizar os escravos. Abrangia ainda seguradoras, estaleiros e armadores, bancos de crédito, empresas de transportes que forneciam navios, apoio logístico, além de um complicado esquema burocrático.

Na economia escravagista, havia até um negócio paralelo tão transgressor que nunca recebeu destaque na história, que era a reprodução sistemática de cativos, com objetivo de vender as crianças, como se comercializa animais. Ocorreram experiências conduzidas em Portugal, Espanha e nos Estados Unidos. Uma delas aconteceu no Palácio Ducal de Vila Viçosa, sede dos duques de Bragança a partir do fim da União Ibérica, em 1640, com a ascensão de D. João IV ao poder. Havia um centro de reprodução de escravos.

Sobre as comparações de preços, Laurentino cita que o tráfico era uma atividade altamente organizada, sistemática, complexa e tão arriscada quanto lucrativa para seus investidores. Alimentava uma vasta rede de compradores, vendedores e fornecedores de serviços, produtos e suprimentos ao redor do mundo.

Entre as mercadorias brasileiras mais valorizadas no tráfico estavam a cachaça, tabaco, couro, cavalos, farinha de mandioca, milho, açúcar, carnes e peixes secos e salgados, além de ouro e diamante contrabandeados. Um historiador calculou que a cachaça foi responsável pela aquisição de 25% de todos escravos traficados da África para o Brasil entre 1710 a 1830. Somados, a cachaça e o tabaco, serviram para adquirir 48%, quase a metade de dois milhões e 27 mil cativos que chegaram vivos ao Brasil entre 1701 e 1810, segundo Luiz Filipe de Alencastro.

Durante décadas, a coroa portuguesa proibiu o uso da cachaça na compra de escravos, para não prejudicar a concorrência dos vinhos produzidos em Portugal. Nada adiantou porque passaram a fazer negócios clandestinos, principalmente em Angola.

Uma devassa feita pelo governo português descobriu que o governador de Angola, João da Silva e Sousa, era dono de quatro navios que levavam escravos de Angola para o Brasil e, na volta, iam carregados com pipas de cachaça.

A organização do negócio negreiro chegou a tal ponto que os traficantes da Bahia tinham sua própria irmandade e seu santo de devoção, que era São José, cuja imagem podia ser vista na pequena igreja de Santo Antônio da Barra, em Salvador. Vamos ter mais curiosidades nas próximas postagens da Coluna de Livros.

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MANUEL BANDEIRA

Falar do pernambucano de Recife, Manuel Bandeira, não carece de muitas apresentações, principalmente pelo conteúdo de suas obras poéticas. Parnasiano-simbolista aderiu de cheio ao modernismo da Semana de Arte Moderna de 22, junto com nomes notáveis de expressão, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e tantos outros.

Um dia, de acordo com Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Manuel Bandeira chamou-se de “poeta menor”. “Fez por certo uma injustiça a si próprio, mas deu, com essa conotação crítica, mostras de reconhecer as origens psicológicas da sua arte: aquela atitude intimista dos crepusculares do começo do século que ajudaram a dissolver toda eloquência pós-romântica pela prática de um lirismo confidencial, auto-irônico, talvez capaz de empenhar-se num projeto histórico, mas, por isso mesmo, distante das tentações pseudo-ideológicas, alheio a decaídas retóricas”.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira (1886-1968) veio adolescente para o Rio de Janeiro, onde cursou o Colégio D. Pedro II. Em São Paulo iniciou o curso de Engenharia, mas a tuberculose impediu-o de prosseguir os estudos. Em 1912 esteve na Suíça onde entrou em contato com a melhor poesia simbolista e pós-simbolista em língua francesa, “fonte de sua linguagem inicial, como atestam os primeiros livros “Cinzas das Horas (1917) e “Carnaval” (1919)

No rio de Janeiro estreitou amizades com Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Graça Aranha e Tristão de Ataíde, passando para o modernismo. Ao praticar o verso livre, foi acolhido pelo Grupo da Semana como um irmão mais velho (na época de 22, tinha 36 anos), e alguém o chamou de São João Batista do movimento, segundo relata Bosi, que o considera como um dos melhores poetas do verso livre em português, principalmente a partir de “Ritmo Dissoluto” (1924) e “Libertinagem” (1930).

“A biografia de Manuel Bandeira é a história de seus livros. Viveu para as letras e, salvo os anos em que lecionou português no Colégio D. Pedro II e Literatura Hispano-Americana na Universidade do Brasil, dedicou-se exclusivamente ao ofício de escrever poesia, crônica, traduções e obras didáticas”.

Ao olhar de longe o carnaval da vida escreveu: “Uns tomam éter, outros cocaína/Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria/ Tenho todos os motivos menos um de ser triste./ Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…/Abaixo Amiel!/ E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtsseff./Sim, já perdi pai, mãe, irmãos./Perdi a saúde também./É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. ……….(“Não sei dançar”).

Um dos poemas mais lembrados de Bandeira, musicado por Paulo Diniz, foi “Vou-me Embora para Pasárgada” em seu livro “Libertinagem” “que oscila entre um fortíssimo anseio de liberdade vital e estética e a interiorização cada vez mais profunda dos vultos familiares (“Profundamente”, “Irene no Céu”, “Poema de Finados”, “O Anjo da Guarda”), bem como das imagens brasileiras extraídas do seu convívio intelectual com Mário de Andrade e Gilberto Freyre (“Mangue”, “Evocação do Recife”, “Lenda Brasileira”, “Cunhantã)”

UM DOS GRANDES ARTICULADORES DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922

De espírito irrequieto, revolucionário e um artista atribulado, José Oswald de Sousa Andrade (1890-1854), nascido em São Paulo, de família rica, lembra muito o nosso baiano cineasta Glauber Rocha por suas fortes críticas à sociedade burguesa, cada um dentro do seu devido tempo. Temperamentos parecidos

Como descreve o crítico literário Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira), Oswald representou em seus altos e baixos, a ponta de lança do espírito da Semana de Arte de 1922, a que ficaria sempre vinculado, tanto nos seus aspectos felizes do vanguardismo literário quanto nos seus momentos menos felizes de gratuidade ideológica.

Diria que Oswald sempre teve uma personalidade forte, “brigão”, intrépido e um campeão no lançamento de manifestos, destacando o “Pau-Brasil”, em 1924 e o “Antropofágico” em 1928. Bebeu da fonte do futurismo ítalo-franco, mas renegou as ideias fascistas de Marinetti, um dos criadores desse movimento.

Oswald fez o ginásio no Colégio de São Bento e Direito na sua cidade. Viajou para Europa (Paris) em 1912 e trouxe em sua bagagem muitas ideias revolucionárias, em alguns momentos de cunho anarquista, mas sempre em defesa da cultura nacional, sem ufanismos patrióticos. De volta a São Paulo fez jornalismo literário e trabalhou em vários periódicos.

Quando da exposição de Anita Malfatti, em 1917, e na Semana da Arte, foi um defensor feroz da artista quando ela foi tripudiada num artigo escrito por Monteiro Lobato. Em sua aproximação com Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Andrade e outros, passou a ser grande animador do grupo modernista e da Semana de 22, como bem assinala Alfredo Bosi.

De acordo com o próprio Bosi, o período de 1923/30 foi marcado pela sua melhor produção modernista, no romance, na poesia e na divulgação de programas estéticos nos manifestos “Pau Brasil” e “Antropofágico”. Fez várias viagens à Europa onde amadureceu seus conhecimentos. Depois da queda da Bolsa de Valores e da Revolução de 30 atravessou um período de crise financeira.

“Dividido entre uma formação anárquico-boêmia e o espírito de crítica ao capitalismo, que então se conscientizava no país, Oswald pende para a esquerda e adere ao Partido Comunista, também fundado em 1922”. Compõe o romance de auto sarcasmo “Serafim Ponte Grande 28-33, (teatro) participante em “O Rei da Vela”, de 37 e lança o jornal “O Homem do Povo”. Em 1945, no entanto, afasta-se da militância política, ano em que concorre à Cadeira de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Com uma tese sobre a “Arcádia e a Inconfidência”, obteve o título de livre-docente.

O irrequieto artista candidatou-se, por duas vezes, a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas não era bem visto pelos seus pares. A menos de um decênio de sua morte, em 1954, aos 64 anos, segundo Bosi, sua herança é valorizada pelas vanguardas concretistas de onde provém a mais entusiástica bibliografia oswaldiana, com uma vasta obra, como Théatre Brésilien, Mon Coeur Balance em colaboração com Guilherme de Almeida.

Dentre suas obras, ainda podemos destacar Os Condenados, 1922, Memórias Sentimentais de João Miramar, 1924, Manifesto da Poesia Pau Brasil, 1924, A Estrela de Absinto, 1927, Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade, 1927, Manifesto Antropofágico, 1928, Serafim Ponte Grande, 1933, a Escada Vermelha, 1934, o Homem e o Cavalo (teatro), 1934, O Rei da Vela (teatro), 1937, entre outros.

Alguns fizeram parte da sua Trilogia do Exílio, como Os Condenados, A Estrela de Absinto e A Escada Vermelha, composta ao longo de 15 anos de experiências. São livros que se ressentem de uma atitude antiquada, num escritor que conheceu o que é ser moderno, em face da linguagem romanesca e do trato das personagens, conforme avaliação de Alfredo Bosi.

Para Antônio Cândido, há nele um gongorismo psicológico, uma tendência para acentuar, em escala fora do comum, os traços psíquicos de uma personagem; os seus gestos, as suas tiradas, as suas atitudes de vida. “As pessoas neste livro (Os Condenados), são pequenos turbilhões de lugares-comuns morais e intelectuais”.

“A CICATRIZ”

“O tema da escravidão é um tabu no continente africano porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente – disse o arquiteto baiano Zulu Araújo, ex-presidente da Fundação Palmares.

Este depoimento está em “Escravidão” (primeiro volume), livro de Laurentino Gomes. O capítulo “A Cicatriz” é um dos mais impactantes onde escancara a escravidão africana antes e depois da chegada dos europeus ao continente. Na abertura, o autor levanta a questão da “dívida social” onde muitos argumentam que a “dívida” estaria anulada pelo fato dos africanos serem corresponsáveis pelo regime escravagista.

Laurentino destaca que os debates nesse sentido podem ser politicamente perigosos e precisam ser analisados à luz da história. “Havia, de fato, um grande mercado de escravos na África antes da chegada dos europeus nos séculos XV e XVI. Dele participaram reis, chefes e oligarquias locais poderosas, que continuaram a se beneficiar do tráfico de cativos para a América”.

Com os europeus, esse tráfico passou a ser mais intenso entre o final dos séculos XVII e início do XVIII quando a venda de escravos passou a ser a principal pauta de exportação em detrimento do comércio do ouro, do marfim, da pimenta, algodão e outros produtos. Em troca, os reinos e chefes recebia armas, munições para guerrear e bebidas alcoólicas.

COMPRA ENTRE FORNECEDORES

Com medo das doenças tropicas, raramente os europeus se adentravam pelo interior do continente. Preferiam comprar os cativos que eram oferecidos pelos fornecedores em fortificações, feitorias e entrepostos. Uma das exceções foi Angola, maior de todos os territórios escravagistas da África onde os portugueses procuraram controlar todos os pontos do comércio, da captura ao embarque nos navios.

“Seria, portanto, correto afirmar que africanos escravizaram os próprios africanos ou que negros escravizaram negros”? Laurentino diz que sim, como chineses escravizaram chineses e brancos escravizaram brancos na Europa e na Ásia. Segundo o autor, até o final do século XVII, a maioria dos cativos no mundo todo era branca.

“A África sempre foi um continente de grande diversidade e riqueza cultural, habitado por diferentes povos, etnias, nações, linguagens e reinos envolvidos em guerras e disputas territoriais. Como em qualquer outro lugar, na África “o escravo era sempre o outro, o diferente, o estrangeiro ou o alienígena”.

O pesquisador cita como exemplo que o habitante do Império Oió (Nigéria), escravizado pelos rivais do Reino do Daomé, era tão estrangeiro na África quanto o próprio escravo daometano seria ao chegar ao Brasil. “Embora a escravidão já existisse na África antes dos portugueses, foi a alta demanda dos europeus por mão de obra cativa que possibilitou ao negócio negreiro no Atlântico atingir proporções significativas” Os europeus estimularam a captura de escravos.

Os historiadores confirmam que os chefes africanos participaram ativamente do comércio, capturando cativos nas regiões. Há séculos, a escravidão era uma prática corrente nas sociedades africanas. Escravos podiam ser encontrados em todas as partes da África, desempenhando todos tipos de atividades.

Para sustentar essa tese, Laurentino cita o historiador John Thornton: “Quando os europeus chegaram à África e se ofereceram para comprá-los, a oferta era aceita. Os cativos não apenas eram numerosos como o mercado já estava muito bem organizado”.

Outro historiador Paul Lovejov, calculou que apenas 45% dos africanos escravizados foram vendidos ou embarcados para outras regiões fora do continente. A outra parte permaneceu como cativos na própria África. No total, seriam mais de 30 milhões de escravos, incluindo os que ficaram e os que partiram.

Alberto da Costa e Silva, estudioso no assunto, ressalta que o escravo continuava escravo, mesmo depois de morto. Os xerbros (Serra Leoa) enterrava o cativo com trapos para demonstrar que nada possuía. As mãos e os pés eram atados por uma corda, cuja ponta deveria sair da cova e amarrar-se a um mourão. Antes de sepultá-lo, o dono lhe dava uma chibatada, para deixar claro que continuava ser senhor do seu espírito, e que, no além, deveria ser escravo de seus antepassados.

De acordo com Laurentino, estima-se que, no século XVIII (auge do tráfico) houvesse tantos escravos na África quanto na América, entre 3 a 5 milhões em cada continente. No século XIX (redução do tráfico – movimentos abolicionistas), a escravidão na África aumentava, devido a maior oferta de cativos e queda nos preços.

Por volta de 1850 (Lei Eusébio de Queirós – fim do tráfico no Brasil) havia, na África, mais escravos do que em toda América. O fim do tráfico negreiro no Atlântico não significou o fim da escravidão africana, segundo historiadores. Ter muito escravos na África era a melhor forma de enriquecer e adquirir poder. Na Europa da nobreza, valia a propriedade do solo, o latifúndio. No Brasil, o escravo era uma máquina de trabalho para a economia.

OS SACRIFÍCIOS HUMANOS

Uma demonstração de poder na África estava nos sacrifícios humanos, como nos funerais dos reis, em ritos para aplacar a ira dos deuses, cerimônias para pedir chuvas e boas colheitas ou para levar mensagens aos antepassados. Em muitas regiões, escravos eram sacrificados e enterrados com o seu dono. Entre os iorubás (Nigéria) havia o hábito de sacrificar um escravo por ano como oferenda ao orixá Ogum.

“No século XVII, o holandês Pieter de Moraes escreveu que, “na ocasião da morte de um rei na Costa do Ouro (Gana), cada um dos nobres oferecia um escravo para acompanhá-lo ao seu túmulo”. Antes de descer com o soberano morto, essas pessoas eram decapitadas e tinham seus corpos salpicados de sangue. As cabeças ficavam expostas ao redor da cova.

Entre os meios de produção de escravos na África, destacavam a guerra, o sequestro ou a captura. Haviam ainda os processos judiciais, em que os condenados de roubo, adultério, prática de feitiçaria e outros delitos se tornavam cativos para o resto da vida – descreve Laurentino.

No caso de dificuldades financeiras, os chamados peões na África (tropas de infantaria na Europa, pedestres em Portugal e trabalhador temporário no Brasil) podiam se oferecer como escravos temporários em troca de ajuda e apoio material. Quando em extrema necessidade ou fome, as famílias vendiam seus filhos ou parentes como escravos.

Uma das alternativas era a venda como peões, e a liberdade só seria resgatada mais tarde em troca do pagamento das obrigações. Na impossibilidade de pagar a dívida, o peão poderia ser transformado em escravo para o resto da vida.

O historiador Alberto da Costa e Silva relata que, em algumas sociedades cada vez que findava um rei ou um chefe, abria-se a disputa pelo poder. Os candidatos vencidos e suas mães, mulheres, filhos e partidários costumavam ser mortos ou ter seus membros amputados e até os olhos vazados.

Todas essas formas de escravidão antes da chegada dos europeus aumentaram em paralelo à demanda por cativos na América. A Justiça preferia condenar o criminoso à escravidão porque rendia dinheiro, do que sentenciá-lo à morte.

Com a chegada dos portugueses, o comércio de escravos passou a superar as trocas regionais. Os europeus estimularam a captura e a venda de escravos para transformá-los em um negócio global, “numa escala até então nunca vista”, envolvendo a África, Europa, América e parte da Ásia.

“A partir de 1650, a venda de seres humanos se tornou a principal atividade econômica na costa da África. No final do século XVIII já respondia por 90% da pauta de exportações do continente, nos cálculos do historiador nigeriano Joseph Inikori.

A implosão, segundo Laurentino, dos antigos mercados regionais seguiu-se um ciclo interminável de conflitos, guerras endêmicas e desordens sociais, estimulados pela importação de armas de fogo, munições e bebidas alcoólicas. As armas alimentavam as guerras que, por sua vez, sustentavam a captura e a escravidão de milhões de pessoas vendidas para os navios negreiros.

No capítulo “A Cicatriz”, o autor fala dos reinos africanos rivais que eram os maiores fornecedores de escravos  na metade do século XVII, como os de Hueda e Aladá, situados na atual fronteira do Benin com a Nigéria. O reino do Daomé consolidou-se como principal na virada do mesmo século para o XVIII. Uma das consequências disso foi a redução populacional na África, compensada com a poligamia existente em algumas regiões, como Angola.

“MACUNAÍMA” DE MÁRIO DE ANDRADE

Quando se fala do livro “Macunaíma” lembra-se logo de Mário de Andrade, e o inverso dá no mesmo. Considerado o “Papa do Modernismo”, segundo o crítico literário José de Nicola (Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias), Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em nove de outubro de 1893, e faleceu na mesma capital, em 25 de fevereiro de 1945, há 77 anos.

No ginasial, na Escola de Comércio Álvares Penteado, abandonou o curso após uma briga com seu professor de português. Em 1911 matricula-se no Conservatório Musical de São Paulo, formando-se em piano.

Em 1917, ano em que trava amizade com Oswald de Andrade, publica seu primeiro livro e “descobre” a artista plástica Anita Malfatti. Foi diretor do Departamento de Cultura de São Paulo. Lecionou história e filosofia da arte na Universidade do Distrito Federal (RJ). De volta a São Paulo, trabalhou no Serviço de Patrimônio Histórico.

No mundo literário, estreou com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, no ano de 1917, onde retrata a Primeira Guerra Mundial, ainda sob influência parnasiana, mas encantado com as obras de Anita, segundo ele, revolucionárias. Sua poesia mostrou-se modernista a partir da publicação de “Paulicéia Desvairada”, rompendo com as estruturas do passado. A obra tem como objeto de contestação a São Paulo provinciana, misturada, miscigenada, burguesa, aristocrática e operária.

De acordo com Nicola, o escritor e poeta sempre lutou por uma língua brasileira que estivesse mais próxima do falar do povo. Seus livros revestem-se de nítida crítica social. Escreveu “Amar, Verbo Intransitivo”, um romance que penetra fundo na estrutura familiar da moral paulistana com seus preconceitos. Fala também dos sonhos e da adaptação dos imigrantes que agitaram a pauliceia com seus movimentos anarquistas.

“Macunaíma” (o anti-herói) foi sua obra prima onde o autor enfoca o choque do índio amazônico (que nasceu preto e virou branco) com a tradição e a cultura europeia na cidade de São Paulo. A obra contém figuras folclóricas por ele estudadas.

Com seu pensamento selvagem, o personagem Macunaíma faz as transformações que ele quer. A cidade de São Paulo vira um bicho preguiça; um inglês vira London Bank, colocando as estruturas de pernas para o ar. Macunaíma é o próprio “herói de nossa gente”, como afirma Mário de Andrade na primeira página do romance.

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapannhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma”.

“Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incentivavam a falar, exclamava: – Ai que preguiça”!

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (Final)

“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário Raul Morais de Andrade, a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais. No dizer de Menotti del Picchia, “houve quem cantasse como galo e latisse como cachorro”. “O que urge fazer: Enforcar o último rei com as tripas do último frade”- charge em “A Lanterna”.

“Eu insulto o burguês!… Eu insulto as aristocracias cautelosas… Morte à gordura… Morte ao burguês mensal… Mas nós morremos de fome! … Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio”… – trechos do poema “ODE AO BURGUÊS”, de Mário de Andrade.

“Estou farto do lirismo comedido/do lirismo bem comportado/do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de acordo com o senhor diretor…/ Abaixo os puristas…/ Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos clowns de Shakespeare/ – Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” – “POÉTICA”, de Manuel Bandeira.

Em “OS SAPOS”, o mesmo Bandeira diz: “Eu ronco que aterra/ Berra o sapo-boi:/- “Meu pai foi à guerra”/ “Não foi”/ – “Foi”/ – “Não foi”. O sapo tanoeiro,/Parnasiano aguado, diz: “Meu cancioneiro/ É bem martelado… Urra o sapo-boi:/ “Meu pai foi rei”/ –  “Foi!” – “Não foi”…  Poema lido durante o evento.

Além da Semana, foram registrados outros fatos importante da nossa história, como a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta do Forte de Copacabana e o Bicentenário da Independência do Brasil.

CURIOSIDADES DA SEMANA: Vila-Lobos fez um concerto de casaca e chinelos. Mário de Andrade realizou uma breve palestra nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo sob vaias e xingamentos. Na política, existia entre os participantes uma mistura de esquerda e direita, como de Plínio Salgado que mais tarde se tornou líder do integralismo fascista. Mesmo sob protestos contra os organizadores, a pianista Guiomar de Morais fez sua apresentação. Monteiro Lobato classificou os quadros de Anita Malfatti de caricaturas, de obras distorcidas, sem muita importância para seu talento.

RUMO A UMA SEMANA DE MUITO BARULHO

Onze anos antes, em 1911, circulou o semanário “O Piralho” (português macarrônico), de Oswald (Di Cavalcante era o desenhista), com um tom humorístico, que funcionou até 1917.

Em 1912, Oswald retornou da Europa com as ideias futuristas de Fillipo Tommaso Marinetti. Nesse ano, escreveu o poema “Último Passeio de um Tuberculoso pela Cidade de Bonde” – versos livres de escárnio ao passado.

Em 1913, o europeu Lasar Segal realizou a primeira mostra expressionista no Brasil, sem sucesso por causa das críticas dos conservadores. Monteiro Lobato já achava aquilo horrível.

Em 1914 aconteceu a primeira exposição de Anita Malfatti quando da sua volta dos estudos na Alemanha, na Escola de Belas Artes de Berlim. Ela também esteve nos Estados Unidos. No ano seguinte ocorreu o modernismo, em Portugal, a partir da revista “Orpheu”.

Em 1916, o sempre irrequieto Oswald escreve “Memórias Sentimentais de João Miramar”. No ano seguinte, o mesmo conhece Mário de Andrade, no Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo, onde ele proferiu um discurso, condenando as antigas estruturas. Oswald trabalhava como repórter no “Jornal do Comércio” e quando terminou o pronunciamento, disputou no tapa a cópia do escrito com outro colega do “O Estado de São Paulo”. Oswald   levou a melhor.

Nesse mesmo ano, Mário publicou o livro “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, em que descrevia os horrores da I Guerra Mundial. Menotti del Picchia lança o poema “Juca Mulato” e Guilherme de Almeida “Nós”. Numa transição de estilos, Manuel Bandeira divulga seu livro “As Cinzas das Horas”. Cassiano Ricardo, “A Frauta de Pã”. Di Cavalcante realiza, em São Paulo, sua exposição de caricaturas.

Em 1917, em 12 de dezembro, Anita Malfatti inaugura, em São Paulo, sua exposição de 53 trabalhos, inclusive com suas famosas telas do “Homem Amarelo”, “A Estudante Russa” e o “Japonês”, as quais criaram grande polêmica no meio artístico, tanto que o jornal “O Estado de São Paulo” publicou em sua edição de 20 de dezembro, o artigo “Paranóia ou Manifestação”?, assinado por Monteiro Lobato. Foi o mais importante evento cultural do ano.

Lobato chama a mostra de extravagâncias de Picasso. Diz que Anita possui qualidades e talento, mas que suas obras são distorcidas pela teoria da arte moderna. No texto classificou seu trabalho de caricatura, numa mistura de futurismo, impressionismo e cubismo. Na verdade, ele cometeu um equívoco entre o expressionismo e o impressionismo.

Seu comentário provocou um escândalo no meio artístico e fez com que Mário, Oswald, Di Cavalcante, Guilherme, Menotti e outros formassem um grupo coeso em defesa de Anita Malfatti.

Em 1918, Guilherme de Almeida escreve “Messidor” e Manuel Bandeira aparece com “Carnaval”, muito aceito pelo público.

Em 1920, o grupo descobre um jovem escultor de Roma, Victor Brecheret, que apresentou a maquete do “Monumento às Bandeiras”. Segundo Mário, ele foi o criador do estado de espírito dos modernistas.

Em 1921, o grupo mais unido ideologicamente lançou, em 9 de janeiro, o “Manifesto do Trianon” em homenagem a Menotti del Picchia quando lançou o livro “As Máscaras”. Na ocasião, Oswald aproveitou para criticar os passadistas e defender a arte moderna, chamada de futurista. Conclamou o pessoal para novas lutas.

Em agosto, Mário faz sete artigos “Mestres do Passado”, chamando os parnasianos de malditos pela forma como escrevia. Em novembro ocorreu a exposição “Fantoches da Meia Noite”, de Di Cavalcante, e nela conhece Graça Aranha que retornava da Europa. Na conversa entre os dois nasce a ideia da Semana da Arte Moderna de 1922.

Nas edições de 29 de janeiro de 1922, o “ O Correio” e “O Estado de São Paulo” noticiam a organização do evento. O historiador do modernismo, Mário da Silva Brito chega a citar que a iniciativa do movimento se deveu a Graça Aranha.

OS ESPETÁCULOS E AS DIVERGÊNCIAS

Muitos outros jornais divulgaram o evento, anunciando que o primeiro espetáculo da Semana de Arte Moderna estava previsto para 13 de fevereiro. Graça Aranha se incumbiu de proferir a conferência “A Emoção Estética na Arte Moderna” onde fala de paisagens invertidas e interpretações desvairadas. De acordo com críticos, a palestra de Graça foi confusa e declaratória, cujo público pouco entendeu.

Nesse dia, as pinturas e esculturas expostas provocaram espanto e repúdio do público visitante, no Teatro Municipal de São Paulo. Os artistas mais visados foram Victor Brecheret e Anita Malfatti, mas houve irritação também contra a literatura.

Ainda nesse espetáculo houve apresentações de música de Ernani Braga que fez uma sátira a Chopin. Por causa disso, a pianista Guiomar Novaes protestou contra os organizadores. Na mesma noitada houve uma palestra de Ronald de Carvalho sobre “A Pintura e a Escultura Moderna no Brasil”, três solos de piano de Ernani Braga, três danças africanas de Vila-Lobos e poesias de Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida. Nesse clima de irreverência, ocorreram protestos contra a Semana.

No segundo espetáculo, muita algazarra no dia 15 de fevereiro. Mesmo com uma carta de repúdio ao evento, publicada em “O Estado de São Paulo”, a pianista Guiomar Novaes fez sua apresentação. Menotti del Picchia falou sobre “Arte e Estética”, com ilustração de textos de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Plínio Salgado que anos mais tarde aderiu ao ver-amarelismo integralista. A cada apresentação, muitas vaias e latidos. Ronald de Carvalho leu o poema “Sapos”, de Manuel Bandeira, numa crítica ao estilo parnasiano.

Muitas vaias, latidos e xingamentos nas apresentações, mas, mesmo assim, Mário de Andrade, das escadarias do teatro, fez um discurso e leu trechos de “A Escrava que Não é Isaura”. Numa breve palestra, destacou a expressão das artes plásticas, justificando as criações dos pintores futuristas.

Vinte anos mais tarde, em 1942, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, Mário confessa em entrevista que foi muita coragem fazer aquele pronunciamento nas escadarias do teatro porque só recebeu ofensas e protestos. No entanto, destaca que o movimento não foi apenas artístico, como também político e social.

Menotti comentou que os conservadores iam enforcar os modernistas com vaias. “Nossa estética é de reação. Aceitamos o termo guerra por ser um desafio. Abomino a escola de Marinetti com seu dogmatismo e liturgia. No Brasil não há razão lógica e social para o futurismo ortodoxo”. Em um trecho do seu discurso, exalta o novo. “Queremos idealismo, luz, ar, e que o rufo de um automóvel espante da poesia o último deus homérico que ficou anacronicamente a dormir…” Disse que o grupo pretendia fazer uma arte genuinamente brasileira. No entanto, houve reação quando revelou a prosa e a poesia modernas declamadas pelos seus autores.

No dia 17 ocorreu o terceiro espetáculo da Semana, com músicas de Vila-Lobos em trajes de casaca e chinelos. Houve pouca lotação de público. Mais vaias pela sua irreverência, mas ele explicou que o uso dos chinelos foi porque estava com um calo nos pés.

Durante o evento, Oswald leu “Os Condenados” e Agenor Barbosa foi aplaudido com “os Pássaros de Aço”. Nem todos escritores tiveram coragem de enfrentar o barulhento palco do Teatro Municipal.

Com foco na realidade brasileira, finalmente foi realizada a Semana que renovava a mentalidade nacional e brigava pela autonomia artística e literária. A Semana foi patrocinada pelo setor financeiro, com maior cobertura do “Correio Paulistano”.

REAÇÕES DOS JORNAIS

Sobre as atividades, a “Folha da Noite”, de São Paulo, em sua edição do dia 16/02, trouxe uma matéria classificando a Semana de mal, um fracasso, atraso mental e uma droga. Antes disso, no dia 30 de janeiro, A Gazeta já noticiava sobre o evento como um sarau futurista de escândalo artístico e revolucionário. Tratava a arte nova como extravagância e criticava Marinetti.

O movimento teve seu lado político de ataque à aristocracia. Di Cavalcanti disse ter sugerido a Semana a Paulo Prado, comentando que seria um escândalo. Mário de Andrade defendia a livre métrica e a rima, pois, segundo ele, a preocupação com essas regras prejudica a naturalidade de liberdade do lirismo objetivado.

Não foram só contestações, no dia 18/02, “O Correio” fez um comentário criticando os indivíduos que simplesmente ladravam e cacarejavam. Elogiou aqueles que aplaudiram com calor os libertadores da arte.

O jornal “O Estado de São Paulo”, numa matéria sobre a Semana, em sua edição do dia 29 de janeiro, fez menção a Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Álvaro Carvalho, Oswald, Menotti, Renato Almeida, Luis Aranha, Mário Raul de Morais Andrade, Ribeiro Couto, Agenor Barbosa, Moacir de Abreu, Rodrigues de Almeida, Afonso Schmidt (adepto do grupo Zumbi) e Sérgio Milliet que participaram do evento.

Nessa lista faltaram Cândido Motta Filho, Armando Pamplona (cineasta), Plínio Salgado, Rubens Borba de Morais, Tacito de Almeida e outros. Os nomes de Rodrigues e Moacir desapareceram no decorrer das campanhas polêmicas.

O PAU BRASIL, ANTROPOFAGIA E DESDOBRAMENTOS

Após a Semana foram surgindo outros acontecimentos relacionados ao evento. Em 18 de março, Oswald publicou no jornal “Correio da Manhã” vários artigos que resultaram no livro “Pau Brasil”, ilustrado pela artista Tarsila do Amaral. Propunha uma literatura vinculada à realidade brasileira (redescoberta do Brasil). Pregava o uso da língua sem arcaísmos e erudição, como falamos e somos.

Em 15 de maio, ele lançou a revista “Klaxon” (buzina externa dos automóveis) para propagar seu movimento antropofágico, com ideias inovadoras e atuais.

Nesse ano de 22 foram registrados fatos importantes da nossa história, como a Fundação do Partido Comunista Brasileiro (congresso de 25 a 27 de março de 1922), revolta militar do Forte de Copacabana, que depois gerou o tenentismo, em São Paulo (durou um mês) e se comemorou o Bicentenário da Independência do Brasil.

O historiador Nelson Werneck Sodré, em “História da Literatura Brasileira” narra que dentro do movimento houve muitos atos na disputa pelo poder político, como as manifestações da classe média.

Um mês depois da Semana, em primeiro de março, se deu a escolha na presidência da República para o sucessor de Epitácio Pessoa. A vitória foi de Artur Bernardes contra Nilo Peçanha. Bernardes decretou estado de sítio, censura à imprensa e intervenções nos estados. Mesmo assim, houve a marcha revolucionária dos militares que exigiam o fim da corrupção.

Mário, que sempre foi de direita, pequeno burguês, ingressou no Partido Democrático, em 1926. Ele conta que naquela época, após o movimento festeiro da Semana, tudo começou a estourar em intrigas entre casais de artistas, amigos e família.

O movimento, segundo Mário, teve o caráter anárquico, moderno, original, de consciência nacional e polêmico, mas também o sentido destruidor quando se partiu para o radicalismo. Tinha muito a ver com os tempos atuais.

Os revoltosos do tenentismo, entre 1923/24, vão para o interior onde se encontram com as tropas vindas do Rio Grande do Sul, comandadas por Luis Carlos Prestes que formou a Coluna de mil homens e percorreu 24 mil quilômetros, se internando depois na Bolívia.

Nessa onda de tendências, em 1924, na esteira do Pau Brasil e do antropofagismo de Oswald, apareceu o surrealismo com André Breton (1896 – 1970), que foi um participante do Dadaísmo de vanguarda no entre guerras. Era mais próximo do expressionismo, na busca da liberdade, do inconsciente na arte. Prevalece a não razão, com a exaltação à criança e o selvagem que existem dentro de nós. Foi uma ruptura com Breton, e optava-se pelo revolucionário marxista.

De 1922 a 1930 (rompimento de todas estruturas do passado), e até 1945, viveu-se um período áureo da fase moderna, tanto que Mário descreve como oito anos de orgias intelectuais que a história artística do país vivenciou.

MANIFESTOS PELOS ESTADOS

Ainda no rastro da Semana surgiu uma onda de manifestos pelos estados no período de 1925 a 1930. O Nordeste, por exemplo, criou o Centro Regionalista (edição de uma revista), em Recife, por volta de 1926. Grandes escritores, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Américo, Jorge Amado e João Cabral de Melo Neto são incluídos por críticos literários como regionalistas.

Em Minas Gerais, em 27 de janeiro de 1928 foi editada a revista “Verde Cataguazes”, com cinco edições. No rio de Janeiro, (1924), a revista “Estética”. Em São Paulo, em 1926, a “Terra Roxa e outras Terras” onde Mário Raul de Morais Andrade (1893 – 1945), formado em piano no Conservatório Musical de São Paulo, professor e diretor do Departamento Cultural de São Paulo, era um dos colaboradores.

Nesse tempo, Oswald cria o “Manifesto Antropofágico” através da Revista de Antropofagia em duas fases, a primeira com 10 edições, entre maio de 1928 e fevereiro de 1929 (direção de Antônio Machado). Na segunda etapa, a revista circulou nas páginas do “Diário de São Paulo”, com 16 números, de março a agosto do mesmo ano, com Geraldo Ferraz.

A primeira revista foi uma miscelânea ideológica de Oswald, Alcântara Machado e Mário de Andrade. Nela foi publicado o primeiro capítulo do livro “Macunaíma”. No terceiro número apareceu o poema “No Meio do Caminho, de Carlos Drummond, incluindo ainda artigos de Plínio e desenhos de Tarsila, na língua tupi e poesias de Guilherme de Almeida. Na segunda fase da revista houve uma ruptura com Mário.

Ficaram na linha antropofágica, Oswald, Raul Bopp, Geraldo Ferraz, Tarsila e Patrícia Galvão, a Pagu. Dou outro lado, Mário, Alcântara, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Menotti e Plínio Salgado. Os antropofágicos foram taxados de Preguiçosos no Mapa Mundi do Brasil.

Numa nova etapa do “Pau Brasil”, o movimento visava valorizar o índio e defender a nossa língua fosse falada pelo povo, bem como que nossa história fosse repensada. A origem do Pau Brasil surgiu da tela de Tarsila do Amaral, presenteada ao marido Oswald em seu aniversário de 1928. Oswald e Raul Bopp batizaram o quadro de Abaporu – homem que come, na linguagem indígena.

A intenção era dar uma resposta ao “verde-amarelismo” do “Grupo Anta” de Plínio Salgado que lançou as sementes do nacionalismo ufanista e fascista juntamente com Menotti, Guilherme e Cassiano Ricardo. Se debatiam o nacionalismo crítico das esquerdas contra o ufanismo exagerado de extrema direita, xenófoba e chauvinista. Oswald, Mário, Manuel Bandeira, Antônio de Alcântara Machado, Menotti, Cassiano, Guilherme de Almeida e Plínio àquela altura não se entendiam mais.

Era o verde-amarelismo ufanista e integralista de Plínio contra o nacionalismo afrancesado de Oswald que atacava os adversários em sua coluna “Feira das Quintas”, no “Jornal do Comércio”

Na verdade, foi um período fértil em manifestos e lançamento de revistas, mas em 1929 houve a quebradeira da Bolsa de Valores, último ano da Velha República, com a Revolução de 30.

 

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (II)

 

“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário de Andrade a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais.

A Semana pregava a tomada de consciência da realidade brasileira – dizia José Nicola, em sua obra “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”. Na conjuntura geral, de acordo com Mário de Andrade, São Paulo era a cidade mais moderna do Brasil e estava em contato espiritual e técnico com as mudanças no mundo. Graça Aranha foi um dos idealizadores do evento.

O cenário nacional era comandado pelas oligarquias através do poder na “política do café com leite” somado ao surto de uma burguesia industrial com a I Guerra Mundial. Nesse bojo, veio a urbanização da cidade nos primeiros 20 anos do século XX.

Eram os barões do café verso o operariado. Era um Brasil dividido entre o rural e o urbano de origem europeia, com vocação na luta de classe, tanto que entre 1901 a 1911, os anarquistas publicaram o jornal “La Battaglia”. Circulou ainda “A Terra Livre” (1905-1910 e ocorreram greves em 1905 e 1917. Somente em 1918 os jornais passaram a noticiar a Revolução Russa.

Antes da Semana de 22, num estilo ainda decadente, Manuel Bandeira escreveu “As Cinzas das Horas”. Mais ousado, veio em 1919, “Carnaval” e o poema “Os Sapos”, de sátira, declamado durante o evento de São Paulo e bem recebido pelo público.

Sobre Ribeira Couto em “Jardim de Confidências”, em 1921, o crítico Alfredo Bosi destaca que seus versos se inseriam no penumbrismo. Já Ronald de Carvalho, em “Luz Gloriosa” (1913) e “Poemas e Sonetos” (1919) e Guilherme de Almeida, com “Nós” (1917) “A Dança das Horas” (1919), “Livro de Horas de Soror Dolorosa” (1920) ficaram entre o parnasiano e o decadentismo, com substância lírica.

Com influência mais moderna e face política, Cassiano Ricardo escreveu “Dentro da Noite” (1919) e “Evangelho de Pã” (1917). Havia uma dispersão, mas o grupo ficou mais coeso a partir de 1920 e 21, aderindo mais à arte nova. Na turma dos futuristas, Bosi lista Di Cavalcanti, Vicente do Rego, o próprio Monteiro Lobato e Anita Malfatti que sofreram influência do italiano Marinetti (fascista).

Os artigos de Menotti del Picchia, na coluna “Hélios”, no “Correio Paulistano”, que deu muito espaço para a Semana, faziam promoção do grupo vanguardista. Do outro lado, Oswald de Andrade e Cândido Moto, no “Jornal do Comércio” davam ao movimento uma direção de liberdade formal com ideias nacionalistas, mas sem o ufanismo patriótico. Oswaldo chegou a denominar o movimento de aglomeração revolucionária futurista.

No entanto, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda em seus comentários, negam esse futurismo paulista na esteira de Marinetti, mas admitem uma revisão de valores, o que denota que não havia hegemonia dentro do grupo que nascia.

Antes da Semana, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, seu primeiro livro de poesias onde mostra uma São Paulo misturada, miscigenada, estrangeirada, com a existência de diversas classes e ideias diferentes. Em seus artigos “Mestres do Passado” (seis no total), ele entoa um canto funeral para os parnasianos, numa forma de sepultar o passado de Francisca Júlia, Raimundo Correia, Olavo Bilac, dentre outros.

A esta altura, tudo se encaminhava para a realização da Semana da Arte Moderna, com mais união entre os intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro. Tudo indicava que o modernismo poderia ser lançado. Sobre “Paulicéia Desvairada”, Oswald considerou um marco, e chama Mário de meu poeta futurista em artigo no “Jornal do Comércio”, na edição de 27 de maio de 1921.

Em “Língua, Literatura e Redação” e “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”, o autor José de Nicola faz uma análise da época dos primeiros anos do século XX, destacando que existia uma divisão entre o meio rural e o urbano. O meio urbano era caracterizado pela luta de classe do operariado, com influência anarquista dos imigrantes vindos da Europa, principalmente da Itália.

Nesse aspecto, o crítico literário cita o jornal “Terra Livre” (1905 – 1911) e a greve de 1917 sob forte influência da Revolução Russa. Tudo isso foi se somando para as mudanças de ideário no meio intelectual. Em 1922 aconteceu também a fundação do Partido Comunista Brasileiro, provocando um declínio do anarquismo e abrindo caminho para a organização da Semana.

Os elementos sociais e políticos formaram um palco ideal em direção a um movimento que mostrasse uma arte inovadora de maneira a romper com as velhas estruturas. Era uma São Paulo do café e da indústria conectada com o mundo. A Semana, então, apresentou, segundo Nicola, o lado político contra a aristocracia e a burguesia.

Di Cavalcante, segundo a pesquisa de Nicola, foi um dos primeiros a sugerir a organização da mostra. Anos depois, em seu livro de memórias, afirmou ter sugerido a Semana, que seria de escândalos literários e artísticos, “de meter os estribos na barriga da burguesinha paulistana”.

 





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