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:: ‘Encontro Com os Livros’

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (v)

O JARÊ, O GARIMPEIRO E OS DIAMANTES EM LENÇÓIS

“O Jarê é uma religião de base angolana, bastante influenciada pela cultura jeje e com muitas faces das aquisições que compõem as encantarias, entre as quais destacamos a caboclarização dos orixás” – ressaltam os autores da obra, Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que descrevem a formação histórica do município de Lençóis, que contou com a colaboração cultural do garimpeiro, a grande maioria vinda das Minas Gerais.

Na introdução desse capítulo, os acadêmicos dão ao leitor uma visão político-administrativa sobre o município de Lençóis, antes pertencente a Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu), tornando-se cidade em 20 de maio de 1864, e comarca das Lavras Diamantinas até 31 de dezembro de 1937.

Em seguida, citam os nomes dos intendentes e prefeitos, inclusive do famoso coronel Horácio Queiroz de Mattos, dentre outros que contribuíram para o desenvolvimento socioeconômico do município, hoje uma referência no turismo, tanto no âmbito nacional, como internacional.

Falam da grande presença dos católicos na formação religiosa da população, assinalando, no entanto, que muitos também eram adeptos do Jarê, incorporando orixás, caboclos e encantados. Essas pessoas sempre evitaram declarar dupla pertença religiosa.

Por outro lado, conforme pesquisadores figurados no livro, existia também essa dupla pertença do povo de santo ao catolicismo e ao culto dos orixás, responsável pelo sincretismo afro-brasileiro. Segundo os professores, esse referencial procede, pois “na realidade é uma composição de crenças tribais africanas, que se dividem em nações, que indicam a procedência do culto e o tipo de deus que o rege” (Epega, p. 160).

Ao localizar a área onde o Jarê viceja, Ronaldo e Itamar observam que ela foi constituída por brasileiros vindos de diversos lugares, como Minas Gerais, principalmente da região do Grão Mongol, e da cidade de Diamantina, como também do Vale do São Francisco e da Zona do Recôncavo. Contou ainda com a presença de estrangeiros árabes, judeus, franceses e africanos.

Na comparação com a agricultura e a pecuária, mais ou menos de previsibilidades, os autores dizem que a garimpagem de gemas orienta-se, na realidade, por regras do jogo, sendo o próprio garimpo um jogo. Mais adiante falam sobre a prospecção e o comércio.

Nesse quadro tem o dono da serra (proprietário de um trecho de terra), o dono do garimpo que arrenda a área por uma quantia fixa anual, ou faz um acordo com o dono da serra pela subdivisão do quinto, e o capangueiro, que é um tipo de comprador. Existe ainda o chamado meia-praça, a parte dividida entre o garimpeiro e o fornecedor (o empresário).

Itamar e Ronaldo detalham o papel de cada um dentro da garimpagem, e afirmam que o garimpo pode ser classificado como seco ou molhado, isto é, aquele em que os garimpeiros têm de deslocar água até o seco. No caso dos molhados, são garimpos de grunas de olhos d´água, ou leitos dos rios.

Existem também os garimpos equipados com infraestrutura de tanques. Neles ocorrem várias formas de pagamento e relações entre as partes, terminando no lapidário que transforma a pedra num brilhante, o qual é revendido a outros comerciantes, como ourives e joalheiros.

Quanto a decadência, descrevem que esta fase motivou o comportamento de não pagar o quinto, sob alegação de não ser roubo. Houve também a época de pagamentos de diárias por donos de garimpo e garimpeiros, relação que dispensa o fornecedor. Isso era muito usado nos tempos da florescência (corrida do diamante).

“O passado é uma referência constante; o presente, um lamento impregnado do sentido de perda; e o futuro, algo difuso, confuso, ausente como projeto, fugidio” – assinalam os autores do livro, fazendo pontuação sobre as lutas políticas dos coronéis e jagunços, durante a República Velha.

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (IV)

A GARIMPAGEM E A CULTURA DIAMANTINA NA BAHIA

Nesse capítulo, os autores e acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar e Aguiar falam da Chapada Diamantina como polo produtor e comercial das pedras, atraindo indivíduos de etnias e culturas diferentes. Essa cultura garimpeira, como já foi dito, prosperou mais em Mucugê, Andaraí, Lençóis, Iraquara e Palmeiras onde foram criadas as áreas de proteção ambiental, o Parque Nacional da Chapada e a APA Marimbus Iraquara.

Os autores citam no livro que os pesquisadores alemães Spix e Martius percorreram o interior da Bahia, entre os anos de 1817 e 1820, indo de Malhada de Pedras à capital. Os estrangeiros descreveram os aspectos do solo e as atividades agrícola, pecuária e a mineração, além dos costumes e hábitos dessa gente. Na Villa do Rio de Contas encontraram semelhanças com a região do Tijuco (Diamantina) Minas Gerais.

Como em Minas Gerais, também se verificou a presença do diamante no cascalho aurífero, caso de Rio de Contas. Na obra “Remanso”, ainda são citados os pesquisadores e estudiosos da região, como o engenheiro Teodoro Sampaio e o escritor Afrânio Peixoto.

O primeiro percorreu o Vale do São Francisco e da Chapada pelos anos de 1979 a 1980, tendo visitado Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu) onde teve início a garimpagem do diamante, predominando a etnia mestiça. A Serra do Sincorá foi onde se encontrou grandes quilatagens das gemas (Andaraí, Mucugê, Lençóis, Palmeiras e a Villa de Xiquexique-Igatu).

Os autores constataram em seus trabalhos, que o ciclo do ouro (um século) foi bem mais longo que do diamante (um quarto de século). Em Lençóis, a decadência foi extrema, não se encontrando diamantes de mais de uma oitava, mas os carbonatos (utilizados na indústria de perfuração de túneis) eram mais abundantes.

O segundo indicado no livro foi o romancista e escritor de Lençóis, Júlio de Afrânio Peixoto (1876-1947), membro da Academia Brasileira de Letras, com vários livros que falam da Chapada, narrando costumes e hábitos do povo.  A obra “Bugrinha”, inclusive, serviu de argumento para o roteiro de “Diamante Bruto”, do diretor Orlando Senna, em 1977, filmado em Lençóis.

De acordo com os acadêmicos, a cultura garimpeira se organizou através da economia do diamante e do carbonato. Itamar e Ronaldo descrevem sobre a consciência mineral da magia, com seus mitos, códigos e mitemas, apontando os aspectos folclóricos das festas populares (sacerdotes, brincantes e músicos). A população do município acompanha com fervor a dois principais calendários, de 20 de dezembro a seis de janeiro (reisados) e o 2 de fevereiro, que é a festa do Senhor Bom Jesus dos Passos.

Esses eventos sempre tiveram uma grande participação dos garimpeiros, moradores do município e de vizinhanças da Chapada. Dois hinos neste calendário, o dos garimpeiros e do Senhor dos Passos são citados no livro. “No mês de abril, também era comum alguns terreiros realizarem toques para os caboclos de pena, em função da data do descobrimento do Brasil. Nestes dias, rendem-se homenagens aos índios”.

“Nos dias 7, 17 e 27 de setembro soam os tambores de pau cavalo, herança dos atabaques de feituras dos candomblés nagôs… Os tambores de homens livres ecoam dos quatro cantos da cidade, em louvor aos santos Cosme e Damião. No mês de outubro, algumas casas de Jarê batem atabaques para os meninos, os Êres”.

“Os anos 70 foram uma década importante para o processo de mudanças culturais na cidade, uma vez que nela registra-se a criação da Casa de Cultura Afrânio Peixoto. A cidade foi tombada e transformada em Monumento Histórico, Artístico e Cultural Nacional”. Ainda nesta década aconteceu a filmagem de “Diamante Bruto” e tiveram início as primeiras medidas para a criação do Parque Nacional da Chapada (1985).

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (III)

A GARIMPAGEM DO DIAMANTE DE MINAS GERAIS À BAHIA

No livro, os autores e professores Ronaldo Senna e Itamar Aguiar fazem um relato histórico importante e bem fundamentado sobre a garimpagem do diamante em Minas Gerais e na Bahia, destacando os municípios de Mucugê, Andaraí, Lençóis e Palmeiras onde as primeiras explorações se deram por volta de 1848. Na cata do diamante, segundo eles, nesses pontos a Chapada Diamantina foi colonizada pelos mineiros e pela mineração.

Os primeiros achados do diamante no Brasil deram-se através do processo da garimpagem do ouro em Minas Gerais. De acordo com os acadêmicos, Bernardo Fonseca Leão foi quem primeiro passou a informação do descobrimento do diamante às autoridades portuguesas, mas as provas não são precisas. Conforme historiadores, a descoberta se deu em 1720. A identificação dessa gema foi feita por um missionário enviado ao Tijuco (Diamantina).

Versões de historiadores dão conta de que a primeira descoberta de diamante na Chapada ocorreu entre 1817 e 1818, na Serra do Gagau. “Também se fala em achados no Sincorá, em 1821, quando os naturalistas alemães Spix e Mratius atravessaram a região”. Registros, no entanto, descrevem que até 1838 os garimpos de diamante estavam circunscritos a Minas Gerais.

No ano seguinte, o minério foi encontrado em terras baianas, no local denominado de Tamanduá, próximo a Gentil do Ouro (Sales 1994 p. 30).  Na Bahia, a primeira companhia de mineração foi criada por volta de 1848, nas proximidades da Villa Santa Isabel (Mucugê). A minuta do primeiro contrato foi elaborada por Teófilo Ottoni. Consta que existiram oito companhias.

Logo depois da descoberta, citam os autores do livro “Remanso”, a Coroa Portuguesa cuidou de fazer uma declaração como proprietária dos diamantes. “Caçou as licenças para exploração dos garimpos de ouro e estabeleceu uma taxa de cinco mil réis por pessoa nos garimpos de diamantes”. Outra providência foi proibir os escravos de adquirir o minério.

A partir de 1º de janeiro de 1740, a Coroa permitiu que o trabalho fosse destinado a empreiteiros, impedindo a exploração individual. Cada empreiteiro, com até 600 escravos no máximo, era obrigado a recolher um imposto anual de 236 mil réis por cada negro cativo. O governo passou à condição de único explorador dos garimpos até 1832, ano da liberação geral da garimpagem. A partir daí houve uma corrida à procura clandestina das gemas.

Com isso, a vigilância foi apertada contra os contrabandistas, e o transporte do diamante tinha que ter uma licença. Os casos de fraudes eram punidos com o confisco da mercadoria e dos bens. O fraudador, segundo os escritores, era encarcerado e podia até ser deportado para África. A repressão gerou mais clandestinidade e muitos foram mandados para Angola.

Ronaldo e Itamar contam que, na segunda metade do século XIX, estudiosos viajaram pelo interior da colônia, inclusive estrangeiros, como o inglês John Mawe que narrou os atos de truculência usados pela fiscalização contra os garimpeiros de diamantes.

Entre casos pitorescos para burlar as normas, o viajante descreve a história de um negro escravo que com sua astúcia conseguiu passar num posto com uma pedra. Num tição de fogo ele colocou um diamante na cavidade. En- quanto tocava os animais ia acendendo seu cigarro de palha. Ao empacar um deles demonstrou excesso de raiva e atirou o tição que foi cair do outro lado do posto. Depois da carga ser revistada, o negro apanhou o tição e seguiu acendendo seu cigarro.

A legislação editada em 1832 foi sucedida pela lei de 24 de setembro de 1845 e exigiu outra organização administrativa através da regulamentação de 17 de agosto de 1846 definindo o preço de arrendamento das áreas. Uma nova lei, segundo Sales, foi editada em 1852 que passou a vigorar no ano seguinte.

Esta lei vigorou até 1870, quando surgiu a notícia de descobertas do minério no Cabo, na África do Sul, o que provocou baixa do produto e decadência na exploração no Brasil, com a consequente crise nas cidades das Lavras Diamantinas, como Mucugê, Andaraí e Lençóis.

Com isso, o Visconde do Rio Branco baixou o regulamento 5955, de 1875, ordenando as atividades garimpeiras. Esta portaria vigorou até a lei de Minas do Estado, em 1906, sendo, posteriormente, reformulada. A descoberta do diamante, em Mucugê, coincide com a perturbação da ordem pública em Minas e a chegada dos irmãos Ottoni entre 1847 e 1848, nascendo daí a fundação das companhias de mineração nas Lavras.

Nos anos de 1990, o governo, pressionado pelos movimentos ambientalistas e pelas empresas de turismo, decretou o fechamento dos garimpos em Lençóis. Até então, prevalecia o sistema de garimpagem, sucessor das companhias. Conforme pesquisa dos acadêmicos de “Remanso”, após o declínio da extração do diamante restaram os garimpos artesanais, que foram substituídos, na segunda metade do século XX, pela mecanização através das dragas, em Lençóis e Andaraí.

Esse sistema chegou a atrair muita gente de outros estados e até mesmo empresas multinacionais. “Esse cenário devastador provocou a fundação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, por decreto da Presidência da República, abrangendo toda Serra do Sincorá, onde estão localizados os municípios de Lençóis, Andaraí, Mucugê e Ibicorá” – destacam os autores da obra.

“REMANSO-UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (II)

“A CONSCIÊNCIA MINERAL DA MAGIA”

“O diamante chama o seu dono através de luz e som: o garimpeiro ouve batidas nas picarras e vê a luz correr a serra”. … O diamante é visto como ser encantado”…

A obra dos acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar é dividido em seis  capítulos: A Consciência Mineral da Magia, Garimpagem do Diamante de Minis Gerais à Bahia, Garimpagem e a Cultura Diamantina na Bahia, O Jarê, o Garimpeiro e os Diamantes em Lençóis, Comunidade de Remanso e Marimbus, Joia Viva da Natureza.

Em “A Consciência Mineral da Magia”, os professores colocam o homem garimpeiro como um deslumbrado pela magia do diamante, com sua cultura e ritos que procura sair das trevas para se encontrar com a luz que é a pedra preciosa, a qual irá transformá-lo. Falam da dualidade benefício/malefício.

“O diamante em seu estado bruto, natural, puro, tende, normalmente, a ser visto como portador maior do encantamento – nas suas mais diversas manifestações – que aquele que já se encontra lapidado, com mais equilíbrio e brilho”.

“O homem é um ser que se criou a si mesmo ao criar a linguagem” (Paz, 1990,p. 34) … O homem constrói sua própria natureza…( Berger, 2001, p 72).  Nesse capítulo, os autores destacam que “a sacralidade faz o homem sair do seu casulo, interagir com a sobrenatureza necessária e responder as perguntas mais exultantes que a si mesmo sempre fez: Quem sou eu, de onde vim e por que estou aqui”?

“Não há luz sem trevas, enquanto o inverso não é verdadeiro”… (Durand, 1989, p, 49). Quanto a esse enunciado, os escritores ressaltam que tanto o conhecimento como a sabedoria, são vistos comumente como a luz que se projeta sobre as trevas; A luz do conhecimento e do saber que aclara e realça os elementos das trevas e da ignorância”.

Ronaldo e Itamar fazem uma descrição do poder do mito, do encantamento da pedra que encanta o homem. Reza a mitologia, que cada pedra preciosa tem o seu dono único. Ele, o homem, crê nessa magia e, por isso, muitos garimpeiros recorrem ao Jarê, ao orixá que vai lhe conduzir, lhe orientar para que o diamante seja só seu.

Os escritores de Remanso, antes de falar diretamente sobre a comunidade afro-brasileira, e não propriamente quilombola como muitos a consideram, descrevem sobre o poder do diamante que risca e corta. “Sim: Aquilo que risca e corta possui, em sua natureza, o poder de escolha do objeto ou do outro (daquele) a ser atingido”.

“…O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares”. ( Eliade, 1972, p, 11). Sobre o encanto do diamante, os acadêmicos citam a crença que concebe a união espiritual do diamante com os astros. “Para cada estrela no céu existe um diamante na terra e, nenhum garimpeiro conseguirá apanhá-lo se a força de seus astros não permitirem o bambúrrio”…

Na história do imaginário, Ronaldo e Itamar lembram frases populares como, um é pouco, dois é bom e três é demais. Cavalo ganhou uma vez, sorte; duas, coincidências; cavalo ganhou três vezes: Aposte no cavalo – dito chinês. De acordo com um velho garimpeiro, o diamante tem três “Ds” – diamante, dia e dono. Os autores relatam sobre a chegada das dragas quando, então, os garimpeiros perdem suas obrigações rituais, perdem a magia e deixam de procurar o Curador Jarê.

 

REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO RELIGIOSA

O FANTÁSTICO APOIADO EM UMA MUNDIVIDÊNCIA AFRO-DESCENDENTE – ASPECTOS DAS AMBIÊNCIAS SOCIAIS, GEOGRÁFICAS E HISTÓRICAS.

Estou lendo e gostando do livro dos meus amigos acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que tem como objeto de estudo a comunidade de Remanso, em Lençóis, encravado na Chapada Diamantina. Os professores fazem uma distinção muito clara do que seja uma comunidade quilombola e afro-brasileira, objeto de estudo de Remanso, confundido com a primeira classificação popular.

Na apresentação da obra, a professora Graziela de Lourdes Novato Ferreira, ressalta que os próprios autores informam que o grupo não se autorreconhece como quilombola e faz referência como “terra de herança”. Os professores usam a nomenclatura comunidade auto-indígena brasileira. Quilombo nasce dos negros fugidos das chibatas dos patrões que se refugiavam em algum lugar. Trata-se de um movimento de resistência.

No caso de Remanso, são pessoas remanescentes dos garimpos de diamantes, que também subsistem da pecuária e da agricultura. “ Remanso é uma comunidade com características de preservação de valores culturais próprios de um pertencimento ao arquétipo das populações da Chapada Diamantina. Traz fortes elementos ligados ao processo de garimpagem do diamante. Sua vivência e tradições se traduzem num místico cultural e religioso…”Os autores são defensores da preservação ético-culturais da região.

A professora explica que Itamar, em suas conversas sempre fala dos traçados dos caminhos, capaz de nos fazer viajar por um universo mágico-poético, com seus apaixonados relatos sobre Lençóis e sobre a manifestação religiosa, denominada de Jarê, um candomblé dos encantados caboclos, que se dá sob o toque da viola. “Vejo uma presença indígena aí muito forte, salve os caboclos! Orixás, caboclos e encantados que agregam elementos indígenas e católicos.

Itamar conceitua que o Jarê demonstra a pluralidade das expressões religiosas neste nosso “sertão profundo”. No prefácio do livro, editado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Josildeth Gomes fala das lavras diamantinas e diz que a obra é o resultado do esforço de dois apaixonados pelo mundo do garimpo que não chegaram às lavras em busca do diamante, mas que se tornaram garimpeiros da alma e de coração.

Ele classifica Remanso como uma comunidade garimpeira afro-indígena. Diz que os autores procuram esclarecer que Remanso é uma comunidade resultante da ocupação de negros, provavelmente de origem banto, que se deslocaram no século XVIII para a região direita dos Marimbus, um imenso pantanal existente na região.

O Jarê é uma expressão religiosa de origem africana que cultua orixás e caboclos, um candomblé de caboclos, ou candomblé do sertão.  Nessa religião, o Caboclo Boiadeiro ocupa o lugar de maior destaque no Jarê de Remanso, mas faz seu ritual é feito através do vaqueiro cuidador do gado. O Boiadeiro é mais o dono da fazenda e da boiada.

Ao lado do Boiadeiro, os caboclos Sete Serras e o Tomba Morro fazem parte dos personagens mais representativos da cultura da Chapada. O primeiro numa alusão à mineração, aos mistérios da mata. O segundo na presença do jagunço arruaceiro briguento.

Nas considerações iniciais, o professor Itamar faz uma viagem sobre o tempo dos coronéis (Horácio de Matos) e o papel dos jagunços como servidores dos mandantes do poder na época, muito diferente dos cangaceiros. Ele traça um mapa geográfico da região com seus municípios, grutas e principais rios que formam o marimbus.

O leitor é fisgado pelas histórias do coronel Horácio de Matos, um dos mais famosos do sertão nordestino, espécie de governador do interior dentro de um estado. Descreve sobre a criação da vila de Jacobina, em 5 de agosto de 1720, por determinação do rei. Jacobina abrangia uma vasta região que ia do Arraial da Conquista, das Minas Gerais, Cachoeira, Ilhéus e o Vale do São Francisco.

Em sua introdução, Itamar descreve a estrutura coronelista da época, sobre os donos de garimpos, lapidários, pedristas, campamgueiros, bambúrrios e demais comerciantes de pedras, Cita vários pesquisadores do assunto, como Américo Chagas, Olímpio Barbosa, Walfrido Moraes, dentre outros.

Em 1906, quando os diamantes estavam esgotados. Itamar lembra da criação do de um dos primeiros colégios do interior em \ponte Nova (Wagner) por missionários presbiterianos, de onde saíram grandes cabeças intelectuais. Tem também as histórias dos valentes João Requisado que enfrentava do alto da serra as tropas do Governo do Estado, do curador Zé Rodrigues, o tenente Zacarias, do deputado, poeta e intelectual Manoel Alcântera de Carvalho, Horácio de Matos e do jagunço Montalvão.

São histórias empolgantes que despertam a curiosidade do leitor, ávido pelos causos contados pelos nossos ancestrais e que serviram de subsídios para pesquisadores e estudiosos. Quem já ouviu fala do livro de São Supriano da Capa Preta? De acordo com a lenda, a reza era capaz de transformar o “devoto” numa moita, num touco, num animal e tantos outros seres. Possuía o encantamento de tornar invisíveis o jagunço, o valente ou o coronel aos olhos dos seus inimigos. Leia que é muito interessante o trabalho de Ronaldo e Itamar. .

“DESUMANIZADOS”

Um romance com um misto de crônica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filosóficos e existenciais. Essas pessoas se encontravam num ônibus, cujo motorista (um dos personagens) perdeu o controle do veículo e bateu num muro de concreto, provocando sete mortes e outros feridos.

O livro “Desumanizados”, do conquistense Gledinélio Silva Santos – Nélio Silzantov – licenciado em Filosofia pela UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de São Carlos, é um rasgo de puro realismo sobre as mazelas do ser humano e da nossa sociedade com seus baús fedorentos de hipocrisia e moralismos.

Nélio não poupa os nossos políticos com suas ambições fraudulentas de enganar os outros, e vai até as entranhas de seus personagens, deixando expostos seus problemas, manias e angústias. Em suas 186 páginas, o autor desbrava correntes de pensamentos de muitos filósofos, como Sartre, Heidegger e Schopenhauer.

A obra romanesca e cronística faz uma reflexão sobre o homem e o sentido da vida, num alinhamento com Clarice Lispector e José Saramago. O escritor usa termos fortes e até em tom de desabafo para descrever o papel da Igreja, ou da religião, e o que as pessoas pensam de Deus. Em seus textos usa muitas imagens poéticas, impressionistas, surrealistas e abstratas.

Seus personagens são uma explosão de erotismo, ternura em algumas passagens, maldades e violência como fruto de um sistema perverso e cruel em que vivemos. É um retrato da luta pela vida, o estrange for live, onde só os mais fortes sobrevivem.

Digo que “Desumanizados” deve ser lido porque tem uma linguagem aberta e escancarada, sem subterfúgios, e lhe faz pensar sobre o seu eu e o das pessoas que lhe cercam, como elas agem, muitas vezes lobos em peles de cordeiros. A obra tem como cenário Vitória da Conquista, e é todo focado no ônibus coletivo da linha R19A.

Nélio não tem rodeios e emprega termos fortes, mas realistas sobre cada um de seus personagens vilões e vítimas dessa sociedade. Por isso, é também um livro sociológico que mexe com o eu psicológico da cada um. É, antes de tudo, um trabalho de reflexão, sem medo de vomitar as nossas sujeiras e até de bons atos.

Me atrevo a citar aqui poucos nomes fictícios de seus personagens e trechos que impactam o leitor, que pode fazer seu julgamento pessimista do autor sobre a vida, ou encará-lo como realista. Na abertura, por exemplo, Nélio assinala que “temos tanto a aprender sobre os grandes mistérios, e a sede é tamanha para aliviarmos a angústia, que atropelamos as pequenas coisas sem nenhuma atenção”.

As frases de impacto do narrador Sebastião, na terceira pessoa, são fortes sobre seus personagens, como “… o coração e a mente são insondáveis, feito a imensidão do universo… E quando tudo nos escapa ao toque, lamentamos não termos uma segunda chance”.

O narrador sempre está dialogando com seu amigo fiel Van Gogh. “Voltei a ser a sujeira varrida pra debaixo do tapete. A escória do mundo que envergonha a todos. Ceifadores da escória humana, é isso o que eles são. …pois matei toda aquela gente a sangue frio…”

Sobre o trágico acidente do coletivo R19A, ele começa descrevendo que onze pessoas foram retiradas do ônibus. Quatro morreram no local, e as demais foram levadas para o HGVC, mas houve sete perdas no total.

“A ligação entre duas pessoas segue a mesma lógica. Amores, amizade, desafetos, relações de todo tipo constituem-se cada um à sua maneira, e a mensura da intensidade e duração delas independem do tempo… Ao fim de tudo, o que importa é aquilo que fica, o que atingiu a plenitude da sua existência e fixou-se na eternidade”. Ele fala de duas almas, Dolores e Elizabete, no Orfanato Lar Santa Catarina de Sena que se unem e se separam e, depois de muitos anos, se reencontram.

O escritor não segue a linha do corretamente político em termos de palavras, como foder, filho da puta e outras do tipo que ainda até hoje são vistas como palavrões e recolhidas lá num canto do seu íntimo. “Dolores retraia-se o quanto podia, ocultando seu corpo dentro do uniforme… Em resumo, estava apaixonada”. Descreve Dolores hipnotizada pelo movimento dos lábios de Elizabete.

Nélio trata das opções sexuais de cada um de seus personagens, sem nenhum pudor, e critica os preconceitos homofóbicos e racistas. São temas atuais que sempre estamos nos debatendo no dia a dia. …”lábios macios e úmidos de quem amava tanto… Luxúria e fornicação são pecados abomináveis para o Senhor, diziam as freiras, alertando as garotas do Orfanato para não caírem em tentação, permitindo que o mal se apossasse de suas almas por meio delas. … o corpo inteiro inundado de pecado. Estava suja! Uma pecadora imunda, digna dos castigos mais severos”. Das lamentações bíblicas: “Vê Senhor, e considera a escória em que me tornei! Os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Dolores queria mesmo era se perder na Memória de Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez”.

“Os coroinhas são servos de Deus que adoram imitar o capeta”. Essa frase me lembra muito quando eu era sacristão e depois seminarista na década de 60. “O mundo é um purgatório carente de almas, e os corpos que transitam a esmo pertencem aos desalmados desse mundo. Eles vagueiam dia e noite, na certeza de que estão vivos”… “Nenhuma conquista é obtida sem a perda de algo. … A vida é um jogo de concessões…”

No final do livro, o narrador-escritor dá voz a um dos principais personagens, o motorista do ônibus de nome Marco que diz: “Foda-se o patrão e o emprego. …Colidir contra uma parede de concreto, ou alguma carreta vinda na direção contrária seria um favor a mim mesmo e a esses miseráveis, era o pensamento que não sai da sua cabeça. Camille deixou o semblante expressar uma espécie de desejo mórbido que dominou a todos naquela manhã”.

No Posfácio, o escritor abre o texto afirmando que “um corpo, enquanto vivo, carrega em si as marcas do tempo, das horas transformadas em dias repletos de alegria e dor. Ele fala da finitude, “quando o espírito abandona o corpo, o semblante de quem morre se modifica…. A morte exerce sobre os homens toda a sua impetuosidade”. “Um bando de hipócritas é o que são todos eles”!

Em tom poético, destaca que “a brisa que agora percorre as ruas desertas, tocando levemente os ciprestes nos jardins, anuncia o inverno que vem chegando. Labaredas de fogo lambem a noite. Metamorfose de um tempo que conclui o seu ciclo de início, meio e fim”. … “Sempre soube o que você tentou me dizer, velho Van Gogh, com olhos de quem conhece a escuridão da minha alma”.

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Final)

A PUNIÇÃO POR SER PRISIONEIRO

“A NKVD prendeu meu marido e me diziam que ele era um traidor. Eu tinha trabalhado na resistência com meu marido. Era um homem corajoso e honesto. Tinham feito uma denúncia contra ele. Uma calúnia. Fui falar com o investigador e mandou que calasse a boca, me chamando de prostituta francesa. As pessoas que viveram a ocupação foram presas e levadas para Alemanha, num campo de concentração fascista. Todas eram suspeitas. Até os mortos eram vistos como suspeitos”.

De outra entrevistada do livro “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”, da escritora russa Svetlana: “ O povo venceu e Stalin não confiava no povo. Foi assim que a pátria nos agradeceu. Por nosso amor, por nosso sangue. Meu marido voltou da guerra inválido. Estava envelhecido. Meu filho estava acostumado a pensar que o pai era branquinho, bonito, e veio um homem velho e doente”.

“Em 1931 me tornei a primeira mulher maquinista. Todo mundo se juntava nas estações para olhar a mulher maquinista. Quando começou a guerra pedimos para ir para o front. Meu marido era maquinista-chefe e eu maquinista. Passamos quatro anos viajando em um vagão, e nosso filho conosco. Sofremos vários bombardeios”.

“Meu marido tinha passado por vários países, tinha condecorações, mas estava com medo. Já tinha sido interrogado por ter sido prisioneiro, e sua obrigação era ter se matado com um tiro, mas não tinha mais cartuchos. O comissário partiu a própria cabeça com uma pedra diante dos olhos dele. Não tínhamos prisioneiros, tínhamos traidores”. Foi o que disse o camarada Stalin. Ele renegou o próprio filho que foi capturado. Os investigadores diziam: Por que ficou vivo?

“Eu e meu filho passamos quatro anos esperando que ele voltasse da guerra, e depois da Vitória mais sete do campo de trabalho. Aprendi a me calar. Não confiavam em mim nem para limpar o chão. Agora podemos falar de tudo. Nos primeiros meses da guerra, milhões de soldados e oficiais foram feitos prisioneiros. De quem é a culpa? Quem decapitou o exército antes da guerra, quem fuzilou e caluniou os comandantes vermelhos, como espiões dos alemães e japoneses? Até hoje é terrível! Temos medo”.

Depois de aprender a odiar, era preciso amar de novo – destacou uma mulher que esteve no front e pisou em terras alemãs. “Acumulamos tanto ódio no peito. Tinha vontade de ver as esposas deles, as mães que tinham parido filhos como aqueles. Como eles iam olhar em nossos olhos? Tudo quanto os soldados tinham quando já estavam em terras alemãs dividiam um pedacinho com as crianças. Fui até a Alemanha… Desde de Moscou andando”.

“Cheguei à Alemanha, e entrei logo em combate. Como não me mandei do campo de batalha. Em terras alemãs, conta uma tenente enfermeira que viu um cartaz com os dizeres: “Ai está ela, a maldita Alemanha.  Goebbels tinha convencido a todos que, quando os russos chegassem, iriam cortar, trucidar e matar. Nas casas, todos estavam mortos. As crianças jaziam mortas”.

As pessoas culpavam Hitler pela guerra – assinala uma combatente, mas a tenente respondeu para uma senhora que ele não decidia sozinho. Foram seus filhos e maridos. Segundo outra entrevistada, “você não imagina os caminhos da vitória! Andavam os presos recém-libertos, com carretas, trouxas, bandeiras nacionais. Russos, poloneses, franceses, techecos… todos se misturavam, cada um ia para o seu lado. Todos nos abraçavam. Beijavam…”

“Encontrei jovens russas e uma delas estava grávida. Tinha sido estuprada pelo patrão do lugar onde trabalhava. Ela andava e chorava, batia na barriga: Não vou levar um fritz para casa. As outras tentavam convencê-la, mas ela se enforcou, junto com o pequeno fritz”.

Uma sargento narra que um dos oficiais russos se apaixonou por uma grota alemã. A notícia chegou aos superiores. Ele foi degredado e mandado para a retaguarda. Se tivesse estuprado… É a lei da guerra. Os homens ficam tantos anos sem mulher e, claro, havia o ódio.

“Eu me lembro de uma alemã estuprada. Ela estava deitada nua, com uma granada enfiada no meio das pernas… Cinco jovens alemãs vieram falar com o nosso comandante. Elas tinham feridas lá… Todas as calcinhas ensanguentadas. Tinham sido estupradas por toda noite. Os soldados faziam filas…Disseram para as garotas: Vão lá e procurem, se vocês reconhecerem alguém, fuzilamos na hora. Temos vergonha! Mas elas entraram e choraram. Não queriam mais sangue”.

“Nos mostraram o campo de Auschwitz… As montanhas de roupa feminina, de sapatinhos infantis…As cinzas acinzentadas… Levaram-nas para o campo, para servir de adubo para o repolho… Para a alface…”

Uma operadora de artilharia cita que um dos seus soldados estava bêbado, pois quanto mais perto estava a vitória, mais bebiam. Nas casas e nos porões sempre se achava vinho. “Ele pegou o fuzil e correu para uma casa alemã. Descarregou toda munição. Ninguém teve tempo de ir atrás dele. Corremos, mas dentro da casa todos já estavam mortos. Deixem que eu mesmo me dou um tiro. Foi preso e julgado: Fuzilamento”.

Sobre antes da guerra, uma testemunha revela que estava no teatro quando começou umas salvas de palmas. “No camarote do governo estava Stalin. Meu pai estava preso, meu irmão no campo de trabalhos forçados e, apesar disso, senti entusiasmo que dos meus olhos jorraram lágrimas. Aplaudiram de pé por dez minutos”.

“E fui para a guerra, e lá escutava as conversas de voz baixa. Milhares desapareceram! Milhões de pessoas. Para onde foram? Como Stalin organizou uma onda de fome, eles mesmo chamavam de Holodomor. Mães enlouquecidas comiam os próprios filhos. As conversas não eram em grupos, sempre entre duas pessoas. Três é demais, o terceiro te denuncia.

No final, o livro descreve como foi o terror ao cerco em Stalingrado entre 1941 e 42 quando muitos morreram de fome e pela artilharia pesada dos alemães. A reação do povo russo foi fundamental para que as tropas de Hitler recuassem. São cenas terríveis e chocantes contadas por testemunhas mulheres que lutaram  durante a II Guerra Mundial.

 

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Parte III)

TORTURAS E EM TERRAS ALEMÃS RUMO À VITÓRIA

As mulheres russas prisioneiras que lutaram na II Guerra Mundial contam como foram torturadas pelos alemães, e o que viram quando atravessaram a fronteira da Alemanha em direção a Berlim, em 1945, no livro “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”, da escritora Svetlana Aleksiévitch.

Recomendo sua leitura por se tratar de uma obra inédita que mostra a atuação das mulheres durante a Grande Guerra.  Esse livro e outros, como “O Fim do Homem Soviético”, lhe renderam o prêmio Nobel de Literatura de 2015.

“Chegamos na primeira frente Bielorrúsia… Vinte e sete garotas… O sentido geral era que as meninas fossem comoventes como rosas de maio, que a guerra não mutilasse suas almas. De acordo com um depoimento colhida em entrevista, “antes não tínhamos tido tempo nem de dar um beijo. Encarávamos essas coisas com mais severidade que nos tempos de hoje”.

“Beijar alguém, para nós, era se apaixonar por toda vida”. A testemunha conta que o amor no front era proibido. Se o comandante soubesse, via de regra, separava os casais e transferia para outras unidades. Mesmo assim, elas se ariscavam e se apaixonavam. “Eu era esposa de campo e campanha. Esposa de guerra. Quem não falou disso foi por vergonha. Ficaram caladas”.

Para os homens numa guerra é difícil passar quatro anos sem uma mulher. “No nosso exército não havia bordeis, nem pílulas. Só os comandantes podiam se permitir a algo, mas os soldados, não”. “Eu o amava. Ia com ele para a batalha, mas ele tinha uma mulher que amava, dois filhos. Sabia que ele não seria feliz sem mim. No fim da guerra eu engravidei. Criei nossa filha sozinha. Ele não me ajudou. Acabou a guerra. Acabou o amor. Deixou uma foto de lembrança e não queria que a guerra acabasse”.

“Eu o amei por toda vida. Já estou velha e não me arrependo” – de uma enfermeira instrutora. De outra, “eu não queria juntar amor com aquilo. Naquelas circunstâncias, o amor morreria num instante. Sem triunfo, sem beleza, como pode haver amor”?

Sobre a solidão de uma bala e de uma pessoa: “A bala é uma só. O ser humano é um só. A bala voa para onde quiser. O destino manipula uma pessoa para onde quiser. Não nos é permitido penetrar no mistério. Gritaram para nós, Vitória! Lembro do primeiro sentimento de alegria e também medo e pânico. Sobramos mamãe e eu, duas mulheres. Antes tínhamos medo da morte, e agora da vida. Era igualmente assustador”. Depois da guerra gritavam para nós: “Sabemos o que vocês faziam lá. Seduziam nossos homens. Putas do front, Cadelas militares. Nos ofendiam de várias maneiras. Eu precisava aprender ser carinhosa. Meus pés se alargaram de tanto usar botas. Na guerra não há cheiros femininos, são todos masculinos. A guerra tem cheiro de homem”.

“Hitler, depois de Napoleão, reclamava com seus generais que a Rússia não segue as regras de combate. Até hoje tenho nos ouvidos o grito de uma criança quando foi atirada dentro de um poço”. Essa é uma referência aos alemães. “Ver um rapaz jovem ser esquartejado por uma serra. Um partisan dos nossos”.

“A Gestapo prendeu minha mãe. Foi torturada e interrogada. Ficou dois anos lá. Os fascistas mandavam minha mãe e outras mulheres na frente quando saíam para as operações. Víamos umas mulheres andando e atrás delas os alemães. Em 1943, os fascistas fuzilaram minha mãe. Em vez de morrer por nada, é melhor morrer, mas não por nada”. Ela (sua mãe) usava um lencinho branco. “Eu atirava para o lado de onde ela estava vindo”.

Sobre os massacres nas aldeias, uma testemunha contou como eles tinham sido fuzilados. Enquanto eram levados para o galpão, mataram as crianças. “O fascista sinalizava: Jogue para cima, vou atirar. A mãe jogou a criança de forma que ela mesma a matasse, para que o alemão não tivesse tempo de atirar.

“Os feridos se alimentavam de colheradas de sal. O que seria de nós sem a população? Éramos um exército inteiro na floresta, mas sem eles teríamos morrido. Eles semeavam, lavravam a terra quando não havia tiros. As pessoas estavam apodrecendo em vida, morrendo de fome. Tinham comido todas as folhas das árvores”.

“Sempre acreditei em Stalin… Acreditei nos comunistas… Eu mesma era comunista. Vivia por ele. Depois do discurso de Khruschóv no XX Congresso, em que ele contou os erros de Stalin, adoeci, cai de cama. Não conseguia acreditar que era verdade”.

“Lutei dois anos na resistência. Perdi as pernas. Fui salva ali mesmo na floresta. A operação foi feita nas condições mais primitivas. Me puseram na mesa de operações, e não tinha nem iodo. Serraram minhas pernas com uma serra simples, sem anestesia”.

Sobre as torturas, uma prisioneira narra que nos interrogatórios da Gestapo, todo dia esperava que a porta se abrisse  e entrassem seus parentes. “Eu sabia onde tinha ido parar, e estava feliz porque não traíra ninguém. Mais do que morrer, tínhamos medo de trair. Só quando tudo acabava e me arrastavam para a cela é que eu começava a sentir dor, e aparecia a ferida. Eu virava uma grande ferida. Batiam em mim, me penduravam, sempre completamente nua. Elas estavam morrendo nos porões da Gestapo. Era um inferno! A minha vontade de viver me salvou”.

A escritora cita a história de uma mulher que decidiu ir para a resistência com a filha e lá, como mensageira, tinha que levar uma máquina de escrever. Mesmo em perigo, em meio ao tiroteio, ela levava a criança e não soltava a máquina. Nem todos os homens conseguiriam fazer isso. O comandante ficou estupefato com aquilo. Quando saímos do cerco, estava coberta de furúnculos, a pele caiando.

“Quando me levaram para a prisão, me chutaram com botas, me açoitavam com chicotes. Aprendi o que era manicure dos fascistas. Colocavam sua mão sobre uma mesa, e uma espécie de máquina espetava agulhas debaixo de suas unhas. É uma dor infernal. Você perde a consciência na hora. Você escuta seus ossos estalando e se deslocando”.

“Fui condenada à pena de morte com outras 20 garotas. Nos arrastaram para uns barracões e lá tinha uma mulher dando de mamar ao bebê. O comandante tirou a criança dos braços da mãe. Tinha uma bica de água, e ele ficou batendo a criança contra o ferro. O cérebro começou a escorrer”.

“Em 1945 me mandaram para os trabalhos forçados dos fascistas. Fui parar no campo de concentração de Croisette, na margem do canal da Mancha. No Dia da Comuna de Paris, os franceses organizaram uma fuga. Sai e me juntei aos maquis”.

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” (Parte II)

O AMOR NA GUERRA, AS TORTURAS E OS ESTUPROS

Os depoimentos em forma de entrevistas com as mulheres que lutaram durante a II Guerra Mundial – a Guerra Patriótica para os russos – são chocantes, e num dos capítulos do livro “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, a escritora Svetlana Aleksiévitch, fala da guerra e do amor, com impressionantes histórias que mais parecem filmes de ficção.

Em outras passagens, ela relata testemunhas que foram torturadas pela Gestapo de Hitler, dos prisioneiros russos que eram considerados como traidores por Stalin, e terminavam em campos de trabalhos forçados. Em terras alemãs, a caminho da vitória final, o ódio se mistura com a compaixão. Os estupros contra as mulheres foram inevitáveis dos dois lados, com a justificativa de que os soldados passavam muito tempo sem sexo, numa guerra de muitas atrocidades.

“O amor é o único acontecimento pessoal da guerra. Todo o resto é coletivo – até a morte” – ressalta a escritora em sua obra. Conta que, para sua surpresa, as mulheres que participaram da guerra falassem de forma menos franca do que sobre a morte. “Elas se defendiam das ofensas e das calúnias”.

De uma testemunha, “a guerra tirou o meu amor de mim… meu único amor”. Em terras alemãs, em algum povoado, ela conta que viu duas alemãs sentadas no pátio, com suas toquinhas, bebendo café, como se não estivesse acontecendo guerra nenhuma. Pensei: “Meu Deus, do nosso lado está tudo em ruínas, nossa gente está vivendo debaixo da terra, comendo grama…”

“Saídos, não sei de onde, dois prisioneiros alemães se aproximaram de nós e começaram a pedir para comer. Pegamos uma bisnaga de pão, partimos e demos a eles. Um dos nossos soldados comentou: Veja quanto pão as médicas deram para o nosso inimigo. Será que elas sabem o que é a guerra de verdade, ficam só nos hospitais de onde vieram. Depois, eles mesmos temperaram o mingau com sal e deram para eles em latas de conserva.  Esta é a alma do soldado russo”.

Depois de se alistar e tirar sua carteirinha de militar, uma capitã médica contou que ela e seu marido foram juntos para o front. Tinham saído em grupo para uma prospecção. “Esperamos dois dias… Eu não dormi por dois dias… Então cochilei… Acordei com ele sentado ao meu lado, olhando para mim. Durma. Fico com pena de dormir.”

“Estávamos atravessando a Prússia Oriental, e todos já estavam falando em vitória. Ele morreu por estilhaços. Eu o abracei e não deixei que o levassem para enterrar. Na guerra faziam os enterros logo em seguida. Às vezes só com areia seca que sacudia e se movia. Para mim, ainda havia gente viva”. Ela, então, lutou para que ele não fosse enterrado ali. Queria ter ainda uma noite deitada ao seu lado.

“De manhã, decidi que o levaria para casa. Todos achavam que eu tinha ficado louca de tanta dor. A testemunha narra que foi de um general a outro para que o corpo do seu marido fosse levado para sua terra natal. Assim, terminou chegando ao comandante. Ela implorou e, se fosse possível ficaria de joelhos. De tanto insistir, deram um avião especial por uma noite, para que seu marido fosse enterrado a milhares de quilômetros de distância.

Em outro caso, a escritora entrevistou uma sargento fuzileira que foi obrigada a se separar do marido durante a guerra. Ela foi para um front e ele para outro. Ela, então, passou a procurá-lo sem parar em todos lugares. “Estava determinada: “Se o encontrasse sem braços, sem pernas, inválido, eu o pegaria e levaria para casa imediatamente. Viveríamos de alguma forma”.

Quando começou a procurar o marido, ela não sabia nem o que era um front. Nisso, recebeu uma carta do marido, e fazia dois anos que não sabia nada dele. Em todos locais por onde chegava, ela pedia que a mandassem para onde estava seu marido, até que alguém o localizou. “Está louca, o lugar onde está seu marido é muito perigoso”.

“Fiquei sentada, chorando, e então ele se compadeceu e me deu uma autorização. Ele me pôs num carro e fui. Quando cheguei na unidade, todos se surpreenderam. Todos à minha volta eram militares”. Para conseguir, ela disse que era sua irmã. Andou seis quilômetros até chegar onde estava seu marido Fodossenko.

Ele estava na linha de frente, e um colega lhe avisou que sua irmã, uma ruiva, estava lhe procurando. Só que a irmã dele era morena. Mesmo assim, Fodossenko apareceu, “e então nos reencontramos”. Depois deram uma declaração que a esposa encontrou seu marido na trincheira, que é esposa legítima e tem documentos. Todos queriam ver que mulher era aquela tão destemida e corajosa.

“Vou me lembrar daquela noite pelo resto da minha vida. Me alistaram como auxiliar de enfermagem. Eu ia com ele nas missões de reconhecimento. Um morteiro atirava, eu via que ele tinha caído. Pensava: Está morto ou ferido. Corria para lá, o morteiro atirava, e o comandante dizia: Para onde está indo, mulher dos demônios? Me deram a Ordem do Estandarte Vermelho. No dia seguinte, meu marido foi ferido gravemente. Corríamos juntos, nos arrastávamos juntos. As metralhadoras atiravam, atiravam. Ele foi ferido por uma bala explosiva. Acompanhei meu marido até o hospital.

O médico se aproximou e disse que ele havia morrido. Respondi: “Quieto, ele ainda está vivo. Meu marido abriu os olhos e disse: O teto ficou azul. O vizinho de cama disse; “Fedossenko, se você sobreviver, deve carregar sua mulher nos braços”. “Não sei, talvez ele sentisse que estava morrendo, porque pegou minha mão, se inclinou e beijou. Como se beija pela última vez. Eu queria morrer, mas sob o coração carregava nosso filho, e só isso me fez aguentar…”

 

“A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER” – (Parte I)

Um livro que fala da guerra, mostrando um outro lado desconhecido, não das batalhas heroicas, das vitórias, das estratégias dos grandes generais e dos heróis. É uma obra de sacada jornalística da autora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora o Prêmio Nobel de Literatura de 2015, onde ela entrevista as mulheres russas que participaram da II Guerra Mundial.

Mesmo com a rejeição da editora (aqui no Brasil é da Companhia das Letras), a escritora se manteve em seu propósito de apresentar uma outra face praticamente nunca explorado numa guerra. Essa face é das mulheres com suas cargas de sentimentos, sofrimentos e garras nos campos de batalha. Ela entra também no âmago do ser humano existencial.

Em “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” estampa cenas e depoimentos chocantes das mulheres, todas jovens adolescentes entre dezesseis e vinte anos, que foram para a linha de frente e resistiram com bravura. Tem também o seu lado de ternura, de muitos choros e até de amor contido. É uma obra que encanta pela sua narração e passagens comoventes, num estilo jornalístico de entrevistas. São mulheres que se transformaram em homens.

“Passei três anos na guerra… E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag… Ele disse: “A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo”. Eu queria chorar”.

É um dos trechos comoventes do livro, que a editora diz ser impressionante, de uma história pouco conhecida, contada com minucias pelas próprias personagens, incríveis soldadas soviéticas que lutaram com violência, mas sem perder a ternura. Trata-se de “um capítulo obscuro que agora ganha luz do dia e promete trazer novo entendimento sobre um dos eventos mais trágicos da história humana”.

Numa conversa entre a escritora e um historiador, este cita que no século IV a.C, em Atenas e em Esparta, havia mulheres lutando nas tropas gregas. Depois elas participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. Segundo o historiador russo Nikolai Karamzin, as eslavas iam para a guerra com seus pais e maridos… no cerco a Constantinopla, em 626.

Na Inglaterra, nos anos de 1560 a 1650, começaram a se formar hospitais militares em que mulheres-soldados serviam. Na I Guerra Mundial, a Inglaterra já aceitava mulheres na Força Aérea Real. Na II Guerra, em muitos países, as mulheres serviam em todas as forças armadas. Nas tropas inglesas eram 225 mil, nas americanas, 450 mil e nas alemãs, 500 mil.

A obra traz narrações de mulheres que prendem o leitor do início ao fim dos depoimentos, como “eu era tão pequena quando fui para o front que, durante a guerra, até cresci um pouco”. “Para nós, a dor é uma arte. Quase do outro lado de lá… Não há por que enganar os outros e enganar a si mesmas”.

Do diário do livro, a escritora afirma que o ser humano é maior que a guerra. Ela mesma diz que não escreveu sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra, “Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos, Construo templos a partir de nossos sentimentos… De nossos desejos, decepções. Sonhos. Não se pode arrancar uma flor sem motivos”.

“Os homens se escondem atrás da história, dos fatos, a guerra os encanta como ação e oposição de ideias, diferentes interesses, mas as mulheres são envolvidas pelos sentimentos”. “A guerra delas tem cheiro, cor, o mundo detalhado da existência. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida”.

Svetlana ressalta em seu livro que “penso no sofrimento como o grau mais alto da informação, diretamente conectado ao mistério da vida. Toda a literatura russa fala disso. Nela se escreveu mais sobre o sofrimento do que sobre o amor. E é a respeito disso que mais me contam… – destaca.

Em uma de suas entrevistas, a autora ouviu de uma ucraniana a respeito da terrível fome: Já não encontravam nem sapos, nem ratos. Tinham comido tudo. Metade das pessoas do povoado dela tinha morrido. Da família, somente ela sobreviveu porque à noite roubava estrume de cavalo do estábulo do colcoz e comia. Melhor congelado, tem cheiro de feno. Quente não entra.

Para editar o livro, ela confessa que passou dois anos recebendo recusas das editoras. “Procuro pelo pequeno grande ser humano”. A escritora descreve sobre o que a censura cortou da sua obra, mas foi mantido na publicação. Narra sobre a conversa que teve com o censor.

Sobre a Grande Guerra, Svetlana fala de situações chocantes e até dos prisioneiros condenados a trabalhos forçados pelo regime sangrento de Stalin, como nesse trecho: “Quando fugiam do campo de trabalho, eles levavam um jovem para isso… A carne humana é comestível… Era assim que se salvavam…

Existia um decreto que dizia que os soldados soviéticos não se rendiam ao inimigo. Como disse o camarada Stalin, não temos prisioneiros, temos traidores. Os rapazes levaram a mão à pistola… O instrutor político ordenou que os jovens ficassem vivos, e ele mesmo se matou com um tiro. São revelações da autora do livro que deveria ficar de fora.

Em 1943, Svetlana narra de uma testemunha que, quando o exército estava avançando pela Bielorrússia, um menino apareceu de algum lugar gritando: Matem minha mãe… Ela amava um alemão. No começo, os alemães desfizeram os colcozes (cooperativas coletivas), deram as terras para as pessoas.





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