:: ‘Encontro Com os Livros’
“NINGUÉM ME CONTOU, EU VI – DE GETÚLIO A DILMA”
Do livro do grande jornalista, escritor, político e memorialista Sebastião Nery, ex-seminarista de Amargosa como eu, só que ele foi de uma safra bem antes de mim, trechos da sua obra que fala de Lula sobre o mensalão de 2002.
Em “Eu Vi o Mensalão Nascer”, Sebastião narra: “Tarde de sábado no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganhado a eleição presidencial de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estava a um canto, almoçando e conversando sobre o país, eu junto.
De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, começaram a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido. Nada falaram. Acontecera alguma coisa mais grave. Voltariam logo.
Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para ser o chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca de ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.
Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.
O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.
Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB.
Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso.
– Compra os pequenos partidos – disse Lula – fica mais barato.
Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro, da Justiça e a Previdência ficou para resolver na frente. E assim nasceu o mensalão.
O advogado Luiz Francisco Correal Barbosa disse ao Globo: Não só Lula sabia do mensalão como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora.
No dia 12 de agosto de 2005, em um pronunciamento, pela TV, a todo o povo brasileiro, Lula pediu “desculpas pelo escândalo”.
No mais, Sebastião Nery considerou Lula como amoral e diz no livro que somente os principais companheiros ficaram no banco dos réus, como Dirceu, Roberto Jeferson, Genoíno, Delúbio, Silvinho, Marcos Valério, Valdemar Costa Neto e outros, chamado pelo autor da obra como “organização criminosa”, uma quadrilha, chefiada por Dirceu, nas palavras do procurador-geral da República. O comando era de Lula, segundo Sebastião.
O PROCESSO DO BRANQUEAMENTO
Na onda da abolição da escravatura, os senhores fazendeiros e latifundiários começaram em pensar na substituição da mão de obra escrava africana pelos imigrantes europeus já com a ideia introduzida por alguns intelectuais sobre o processo de branqueamento do povo brasileiro. A primeira leva começou logo por volta de 1846 com a chegada de prussianos e da região da Bavária.
Centenas começaram a chegar aos portos brasileiros que antes recebiam os cativos vindos da África. Os colonos recebiam diversos incentivos, como passagem entre a Europa e o Brasil, hospedagem durante os oito primeiros dias após o desembarque e transporte terrestre para toda família, tudo por conta do Tesouro Nacional. Cada adulto receberia uma subvenção pessoal de 150 mil réis. As crianças teriam direito à metade.
De acordo com Laurentino Gomes, autor da trilogia “Escravidão, a importação de colonos estrangeiros era um projeto antigo, ainda da época da corte de D. João VI, em que foram criados pequenos núcleos com alemães e suíços, mas o plano foi adiado devido a abundância de mão-de-obra cativa.
O programa foi retomado com a proibição do tráfico negreiro, em 1850, através da Lei Eusébio de Queirós. A partir dali os preços dos escravos começaram a disparar, mesmo com a comercialização entre as províncias, despencando após a Lei Áurea de 1888.
Segundo Laurentino, entre 1886 e 1900, com o estímulo à imigração, o Brasil receberia cerca de 1,3 milhão de europeus, 60% dos quais eram italianos. Isso era quase o dobro de toda população escrava existente no país no ano da Abolição. O projeto era uma questão de sobrevivência nacional.
Os próprios abolicionistas Joaquim Nabuco e André Rebouças defendiam a criação de um imposto territorial como forma de acabar com o latifúndio improdutivo, democratizar a propriedade da terra e atrair imigrantes de outros países. André Rebouças, inclusive, defendia a reforma agrária, coisa que provocou a ira dos fazendeiros até com movimentos de revolta.
Nabuco acreditava que a redução do latifúndio estava ligada ao fim da escravidão como forma de acelerar o desenvolvimento do país. Dizia que era preciso destruir a obra da escravidão. O manifesto da Confederação Abolicionista, fundada em 1883, no Rio de Janeiro, acusava os grandes latifundiários e o sistema escravista de levar o país à ruína ao inviabilizar todo incentivo ao trabalho livre.
“O hábito de distribuir sesmarias era praticado pela Coroa Portuguesa ao longo de todo período colonial, mas o sistema foi sendo desvirtuado após a Independência do Brasil pelas relações de promiscuidade entre o governo imperial e sua base de apoio agrária”- destacou Laurentino. Havia um limite para a área de terra a ser doada de até 12 mil hectares. Depois da independência passou a valer a lei do mais forte, chegando a mais de 200 mil hectares.
Ao contrário dos Estados Unidos, a Lei de Terras Brasileira ergueu barreiras à aquisição dela tanto por parte de negros libertos como de imigrantes pobres que chegavam da Europa. No entanto, havia exceções, como no caso dos confederados norte-americanos.
A lei dos EUA, em 1862, atraiu mais de 5 milhões de imigrantes. Na mesma época, no Brasil, o número não passava de 50 mil. A lei de 1850, conforme descreve Laurentino, foi responsável por boa parte do legado de desigualdades e concentração de privilégios que marcariam o futuro do país.
No âmbito da imigração, a primeira tentativa partiu do senador Nicolau dos Campos Vergueiro, um traficante clandestino de escravos africanos. No começo do século XIX, Vergueiro conseguiu da Coroa vastas poções de terras na região de Piracicaba, Limeira e Rio Claro.
Em 1846 ele iniciou o assentamento de imigrantes na fazenda Ibicaba pelo sistema de parceria. Os colonos assinavam um contrato pelo qual o fazendeiro pagava as passagens, transporte e alimentação até o local de trabalho. Em troca, o colono assumia o compromisso de cultivar as lavouras até ressarcir o proprietário, com 6% de juros por ano. As primeiras famílias vieram da Bavária e da Prússia. Vergueiro colocava o colono na situação de escravo branco.
O tratamento dispensado pelos feitores era semelhante ao vigente nas antigas senzalas. Como resultado, houve uma revolta de estrangeiros na fazenda Ibicaba, em 1857. As denúncias de maus tratos levaram alguns países, como a Prússia, a proibir a vinda de imigrantes para o Brasil.
A TEORIA DO BRANQUEAMENTO
Além de substituir a mão-de-obra cativa, Laurentino assinala que a chegada dos colonos cumpria a tarefa de realizar um dos projetos mais acalentados pela elite brasileira escravocrata no século XIX, o de branqueamento da população, sob a influência das teorias raciais onde se dizia que o negro era inferior e que deveria ser devolvido para a África.
Um dos maiores defensores dessa teoria foi o juiz, deputado e crítico literário Sílvio Romero, desde 1881. “ A vitória na luta pela vida, entre nós, pertencerá no povir ao branco” Ele defendia a extinção do tráfico de africanos e o desaparecimento dos índios, e de outro, a imigração europeia.
Também, o médico Domingos José Nogueira afirmava ser preciso aperfeiçoar a raça no cruzamento do africano com o mulato e este com o branco. O deputado alagoano Aureliano Cândido ia mais longe quando enfatizava que um Brasil só habitado por brancos teria sua riqueza triplicada.
O médico francês Louis Couty foi um dos principais teóricos da inferioridade racial do negro. Era misógino e racista atém a raiz. Couty via a mulher negra somente como objeto sexual que qualquer um poderia possuir.
OS CONFEDERADOS E A AMAZONAS
Os países sempre olharam a Amazonas como pulmão da terra para evitar a emissão de gás carbônico na atmosfera e contribuir para redução do aquecimento global. No entanto, poucos sabem que sempre existiu outro olhar, especialmente dos norte-americanos, no sentido de colonizar a região e anexá-la aos Estados Unidos, tornando um território de negros escravizados e libertos.
Este outro lado apareceu lá pela metade do século XIX, principalmente a partir de 1865 no final da Guerra da Secessão dos Estados Unidos (início de 1861) quando os Estados Confederados perderam para as tropas da União.
A ideia era se livrar dos negros de modo que a nação ficasse livre dos africanos para assegurar o domínio por pessoas de ascendência europeia. Antes da guerra, até o Lincoln era um dos simpatizantes dessa ideia. Os negros libertos deveriam ser exportados para outras fronteiras. A ausência seria uma benção para os EUA que se livrariam de uma maldição.
Um eloquente defensor do plano foi Matthew Fontaine Maury. Em 1850, antes da guerra, Maury traçou um plano de ocupação da Amazonas por colonos norte-americanos, acompanhados de seus escravos. Seria o primeiro passo para sua anexação definitiva ao território dos EUA. O documento definia os brasileiros como povo “imbecil e indolente”. Seu pensamento não era isolado. Existia um plano para Brasil e Estados Unidos se aliarem para fazer frente à Inglaterra abolicionista.
Os representantes do Sul queriam criar um país independente, separado da União. Na guerra morreram 620 mil soldados, sendo 260 mil dos Confederados e 360 mil da União. O total de vítimas foi de 750 mil. Os escravos do Norte, mais industrializado, aderiram ao abolicionismo. O Sul, (Vale do Mississipi, Louisiana, Nebraska, Kansas) mais agrícola, era escravista até a medula.
A eleição de Abraham Lincoln (defendia a deportação dos negros) serviu de pretexto para a criação da Confederação. Muitos optaram pelo Alasca, comprado dos russos por 7,2 milhões de dólares. O Brasil aparecia como outro destino não tocado pelos abolicionistas, e o Império foi, entre todos governos da América Latina, o que mais deu apoio ao Sul Escravista dos EUA. “Era como se o Brasil fosse apenas mais um dos Estados Confederados da América”, observou o historiador Gerald Horne.
Muitos sulistas disseminaram a ideologia de se fazer uma limpeza racial, o chamado “branqueamento” jogando os cerca de quatro milhões de negros para o Amazonas onde ali se formaria um país, como aconteceu na Libéria e no Siri Lanka. A intenção era tomar a Amazônia, mesmo na base das armas.
A trilogia “Escravidão”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, narra essa passagem em sua obra onde os derrotados Confederados tentaram concretizar esse projeto, mas não deu certo, sobretudo por causa das adversidades do local. Muitos terminaram morrendo de malária e outras doenças.
Nesse trajeto de se mudarem para o Brasil, outros criaram, com total apoio e ajuda de D. Pedro II, as colônias de Santa Bárbara do Oeste e Americana, tudo com o dinheiro do Tesouro Nacional e terras de graça, enquanto os negros nem foram indenizados pelos 350 anos de cativeiro e sofrimento.
Laurentino descreve que, em novembro de 1865, último ano da Guerra da Secessão, um texto com o título “Emigração para o Brasil” chamava a atenção dos leitores do jornal Enquirer, de Columbus, na Geórgia. Era uma convocação aos agricultores Confederados que tinham perdido tudo no conflito civil.
O primeiro destino seria Belém, no Pará, e de lá para um local na floresta Amazônica, como o nome de “Colônia Pioneira do Major Warren Hastings”. Um livro seu guiava a marcha para o oeste em que milhares de pessoas cruzaram as montanhas rumo a Oregon e à Califórnia.
Durante a guerra civil, seus olhos se voltaram para a Amazônia Brasileira, grande fronteira do continente a ser ocupada pelos norte-americanos. Para observar a região, ele fez quatro expedições. Manteve contatos com o governo do Pará e com o Império. Na travessia, muitos morreram de doenças e naufrágio.
Na quarta tentativa, um grupo de 109 colonizadores consegui chegar a Santarém, no final de 1867, a bordo do navio Inca, mas Hastings morreu de febre amarela no meio da jornada, sem ver seu sonho realizado, ou a terra prometida. O governo do Pará prometeu dar abrigo e alimentação por seis meses (desembolsou 13 mil dólares) e vender seis léguas quadradas de terras nas margens do rio Tapajós.
No começo de 1868 a colônia já contava com cerca de duzentas pessoas sob o comando do coronel Miguel Antônio Pinto Guimarães. Hastings queria total autonomia em relação ao governo brasileiro, mas as autoridades imperiais não aceitaram, se bem que fizeram outras concessões. A colônia teve vida curta.
De acordo com Laurentino, entre 1865 e 67, os norte-americanos instalaram seis colônias agrícolas no Brasil, como em Linhares, no Espírito Santo, Paranaguá, no Paraná, Juquiá e Ney Texas, divisa de São Paulo com o Paraná, Santa Bárbara do Oeste e Americana (São Paulo).
Nas celebrações de seus eventos eles hasteavam a bandeira dos Confederados, usando os mesmos símbolos que acompanhavam os soldados em direção aos campos de batalhas. Um obelisco emoldurado pela bandeira deles marca a entrada do cemitério, criado depois que um funcionário do município de Santa Bárbara recusou sepultar os imigrantes presbiterianos no local reservado aos católicos.
Em 1972, Santa Bárbara recebeu a visita de dois ilustres, o então governador da Geórgia e futuro presidente dos EUA, Jimmy Carter e sua esposa, que foram lá homenagear a memória dos confederados. Até hoje, como descendentes dos Confederados temos a cantora Rita Lee Jones, a ministra aposentada do STF, Ellen Gracie e o falecido engenheiro fundador da Engesa, José Luiz Ribeiro.
O autor de “Escravidão” conta o caso curioso de Steve Watson, um escravo alforriado do após guerra que acompanhou seus antigos donos na mudança para o Brasil. Ele e seu proprietário se instalaram na colônia New Texas, entre Paraná e São Paulo.
Pelos contratos, o governo venderia terras em qualquer uma de suas colônias, nas localidades que os imigrantes preferissem. As escrituras eram lavradas de imediato. Os que comprassem terras teriam direito à cidadania após dois anos de residência, ou até antes disso, sendo naturalizados brasileiros, com todas regalias, inclusive de não participarem da Guerra do Paraguai.
Pela ideologia do “branqueamento”, “o Brasil oferecia aos imigrantes todos direitos, garantias e privilégios que sempre foram negados a milhões de outras pessoas residentes no território nacional, incluindo indígenas e os escravos” – destacou o autor de “Escravidão”.
Junto com as novas técnicas de cultivo agrícola, os Confederados trouxeram dos Estados Unidos as práticas cruéis no tratamento de escravos, tanto que em 1873 um cativo, por ser tão castigado, matou a enxadadas o imigrante coronel Oliver. Os vizinhos lincharam o negro e o penduraram no galho de uma árvore. Era a chamada Lei de Lynch (linchamento).
A MARCHA DOS ABOLICIONISTAS E A REAÇÃO DOS AFRICANOS AO CATIVEIRO
Em nossos outros comentários anteriores falamos aqui sobre a intensificação dos movimentos abolicionistas logo após a Guerra do Paraguai, em 1870, mas as primeiras manifestações começaram a surgir nas primeiras décadas do século XIX, influenciadas pela libertação dos escravos africanos no final do século XVIII pela Inglaterra.
Para quem não sabe, a primeira província a decretar a abolição foi o Ceará, em 1884, governado pelo baiano Sátiro de Oliveira Dias, seguido do Amazonas. O primeiro município, ou distrito, foi o de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
É bom que se esclareça que naquela época era reduzido o contingente de escravos por causa das secas e da decadência da cana-de-açúcar e dos engenhos. Havia ainda o tráfico interprovincial do Norte e Nordeste para o Sul, principalmente para o Vale do Paraíba, em São Paulo, e a zona da mata, em Minas Gerais.
No Reino Unido tudo teve início com a Revolução Industrial e o movimento de uma corrente protestante em defesa da abolição da escravatura. Nas primeiras décadas do século XIX, a Inglaterra já pressionava os países escravistas, como Portugal e o Brasil que em 1831assinou uma lei para acabar com o tráfico negreiro africano, mas foi só para “inglês ver”.
Os britânicos ficaram irritados com as trapaças dos fazendeiros e barões brasileiros e resolveram fechar o cerco, inclusive com ameaças de guerra. Sem saída, o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que poria fim de vez ao tráfico, se bem que muitos ainda se aventuravam a fazer o comércio clandestino.
Os gritos de abolição vieram mesmo após 1870 culminando com a Lei do Ventre Livre, em 1871, e dos sexagenários, no 28 de setembro de 1885. Nessa época, já era bem menor o número de escravos não alforriados. Todos esses relatos podem ser lidos na trilogia “Escravidão”, do escritor Laurentino Gomes que destaca os quatro principais abolicionistas.
Todos eles, em sua ótica, passaram por momentos de conversão à causa abolicionista, com rituais de sofrimento e dor, como o baiano advogado rábula Luiz Gama, o pernambucano, também advogado graduado Joaquim Nabuco, o farmacêutico carioca José do Patrocínio e o baiano engenheiro André Rebouças. Em comum, todos foram jornalistas.
O baiano Luiz Gama se diferencia dos outros por causa de suas origens sociais, por ter sido vendido escravo pelo próprio pai e o único a amargar o cativeiro por oito anos. Depois fugiu, estudou e se tornou advogado defensor dos escravos, tendo libertado cerca de quinhentos das mãos dos senhores fazendeiros, em São Paulo. Afirma Laurentino que Gama foi o primeiro a perceber o quanto a pele negra funcionava como um estigma, “um defeito de cor”, nas palavras do próprio abolicionista.
Joaquim Nabuco era o mais moderado e comportado, frequentador dos salões imperiais e não concordava com ações radicais. Entendia que a abolição era coisa para os políticos e que os negros não deveriam ser meter nisso. Nasceu em Recife, em 1849, filho de um dos mais importantes políticos do império, o senador José Thomaz Nabuco de Araújo. Foi amamentado por uma mulher negra e viveu boa parte com sua madrinha em Pernambuco, no decadente engenho Massangana.
A realidade do chicote e dos grilhões, de acordo com Laurentino, entraria em sua vida devido a um episódio. Certo dia o menino Nabuco foi surpreendido com a chegada de um jovem fugitivo que se ajoelhou em seus pés e suplicou que fosse comprado pela sua madrinha, pois vivia a ser castigado pelo seu senhor. A partir dali passou a defender os oprimidos.
Com a morte da madrinha, Nabuco foi morar com os pais no Rio de Janeiro onde estudou no Colégio D. Pedro II e teve como colega Rodrigues Alves, futuro presidente da República. Em São Paulo foi estudante de direito da Faculdade do Largo São Francisco, com Castro Alves, Rui Barbosa e Afonso Pena, este também futuro presidente do Brasil.
Viajou por vários países como Estados Unidos e da Europa (morou em Londres) onde manteve contatos com os movimentos abolicionistas. Na juventude foi um dândi – estilo de vida celebrizado por intelectuais, como Oscar Wilde e Marcel Proust. Foi correspondente de um jornal carioca em Londres.
Além de abolicionista, Nabuco foi um grande reformador que introduziu mudanças no Império visando a reconstrução do país. Ele propôs a reorganização econômica e financeira, a instrução pública, a igualdade religiosa, a representação política e até a reforma agrária. “A grande questão da democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão – dizia Nabuco.
Para ele, os escravos deveriam ser incorporados à sociedade como cidadãos de direito. Em sua visão, o regime escravo criou um ideal de pátria grosseira, mercenário, egoísta e retrógrado, e nesse molde fundiu durante séculos as três raças heterogêneas. “A escravidão não consentiu que nos organizássemos e sem povo as instituições não têm raízes, a opinião não tem apoio, a sociedade não tem alicerce”.
Predominava nele o tom caridoso, de compaixão do branco pelo negro. Com a abolição, os brancos também ganhariam. Para Nabuco, o sistema escravista punha em risco a própria nacionalidade, desprestigiando o Brasil perante a comunidade das nações, gerando um permanente clima de instabilidade política. Foi o primeiro embaixador brasileiro na Embaixada dos Estados Unidos, em 1905, e faleceu em Washington, em 1910.
Diferente de Nabuco, um branco conhecido como “Quincas, o belo”, José do Patrocínio não era negro retinto, mas um sarará. Dizia que tinha a cor do “tijolo queimado”. Era negro o suficiente para ser alvo de ataques e injúrias raciais nas ruas, nos comícios e em artigos na imprensa. Era um vulcão de paixões. Dado a ataques violentos de cólera que lhe valeram inúmeros inimigos. Olavo Bilac o comparou a um profeta dentro de uma tempestade de raios.
Em 1878 foi preso por andar nas ruas portando uma navalha, pronto para a briga”. Boêmio e espalhafatoso, gostava de passar a noite cercado de artistas e negros capoeiristas. Nasceu em 1853 em São Salvador dos Campos dos Goitacazes – Rio de Janeiro. Era filho do vigário João Carlos Monteiro com uma escrava adolescente Justina Maria do Espírito Santo.
Fazendeiro, seu pai era dono de fazendas e de um grande plantel de escravos, vereador e deputado provincial. Mesmo não sendo reconhecido como filho do padre, os moradores tinham respeito por ele. Era um garoto arrogante e mimado que mandava e desmandava na cidade.
Sua conversão se deu após agredir na cabeça com um chicote um senhor escravo idoso por este ter demorado de abrir uma cancela, conforme testemunhou seu amigo Luis Carlos de Lacerda (abolicionista). Sabendo do acontecido, seu pai o repreendeu de forma severa. Aos quatorze anos foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou com servente aprendiz na Santa Casa da Misericórdia. Depois conseguiu concluir o curso de farmácia. Virou professor e jornalista.
Com ajuda do sogro, comprou seu próprio jornal o Cidade do Rio, por cuja redação passaram Olavo Bilac e André Rebouças. Ele foi um jornalista agressivo e polêmico. Em 1875 já trabalhava na Gazeta de Notícias. Em 1880, com André Rebouças e Nabuco fundaram a Sociedade Brasileira contra a Escravidão. O objetivo principal de Patrocínio era alcançar a abolição do cativeiro no ano 1889, para comemorar o centenário da Revolução Francesa.
Tanto quanto o Nabuco, era um monarquista e admirador da princesa Isabel. Foi ovacionado quando foi decretada a Lei Áurea. Como vereador pelo Rio de Janeiro, concedeu a ela o título de A Redentora. Foi também criador da Guarda Negra para proteger o Terceiro Reinado. No governo de Floriano Peixoto foi preso e deportado para um local distante no Amazonas. Morreu em 1905, aos 51 anos, pobre e vivendo de favores.
Baiano de Cachoeira, nascido em 1838, André Rebouças só foi se dar conta que era um negro tempos depois numa viagem aos Estados Unidos quando foi discriminado. Barrado num hotel, conseguiu um quarto apertado sob as condições de fazer as refeições no apartamento. Tomava banho numa barbearia ao lado do hotel. Antes disso, porém, viajou por vários países europeus sem ser importunado.
Rebouças era filho do jurista e conselheiro do Império Antônio Pereira Rebouças. Formou-se aos 22 anos em Engenharia Militar na Escola de Aplicação da Praia Vermelha. Ele e seu irmão completaram os estudos na Europa onde Rebouças foi apresentado nas altas rodas. Esteve em Viena e Paris. Depois atravessou o Atlântico e aportou em Nova York onde descobriu que, por ser negro, não teria onde ficar e comer.
Nos Estados Unidos vagou por vários hotéis e apenas conseguiu uma pousada no Washington Hotel com a ajuda da Embaixada Brasileira. Mesmo na Filadélfia, na Pensilvânia, foi discriminado. Um dia foi dormir com fome por ter sido vetado nos restaurantes. Como disse a historiadora Ângela Alonso, pela primeira vez, Rebouças deu-se conta de que era também rebento do tráfico africano.
Laurentino enfatiza que da traumática experiência norte-americana nasceria o abolicionista que de forma mais organizada pensaria na realidade e no legado da escravidão brasileira. “Precisamos educar esta nação para o trabalho, estamos cansados de discursos” – diria numa carta dirigida ao professor baiano Abílio Borges. Em 1879 tentou a carreira política pelo Paraná, mas perdeu.
Rebouças começou a escrever na Gazeta da Tarde, jornal de Patrocínio, seu compadre. Em 1880 foi um dos fundadores da Associação Central Emancipadora. Em 1883 redigiu com Patrocínio o manifesto da Confederação Abolicionista. Em sua luta pela abolição se coligou ao general Henrique Beaurepaire Rohan que participou das guerras pela independência da Bahia e do Piauí.
Dentre todos os projetos abolicionistas, o de Rebouças e do general foi dos mais radicais, conforme observou Laurentino. Rebouças sustentava que a libertação dos escravos por si só, não seria suficiente. Para ele seria necessária uma reforma agrária para acabar com o latifúndio. O ex-escravo deveria se tornar em pequeno produtor. Como se sabe, seu projeto foi rejeitado. Entrou em processo de depressão.
Em 15 de novembro de 1889 tentou convencer D. Pedro II a resistir ao golpe republicano. Na sua ideia, o imperador deveria permanecer em Petrópolis e de lá seguir para Minas Gerais e tramar uma resistência. Como não deu certo, Rebouças decidiu seguir os passos do imperador e se exilou na Europa. Em 1891 escreveu uma carta ao seu amigo José Carlos Rodrigues, dono do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, na qual referia a si mesmo como Negro André.
No ano seguinte foi para África do Sul. “Sou, em corpo e alma, meio brasileiro e meio africano, não podendo voltar ao Brasil, parece-me melhor viver e morrer na África”. Em 1898 seu corpo apareceu boiando no mar, ao pé de uma rocha em frente à casa em que vivia na cidade de Funchal, na Madeira, seu último refúgio.
OS MOVIMENTOS ABOLICIONISTAS
Somente a partir de 1870, final da Guerra do Paraguai, os movimentos abolicionistas no Brasil passaram a ser mais intensos atraindo a população para a causa da libertação dos escravos. As manifestações pressionaram a aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871, e a do Sexagenários, em 1885, mas poucos efeitos surtiram porque os senhores patrões cuidaram de boicotar as normas estabelecidas.
Na verdade, os primeiros polos abolicionistas nasceram na virada da primeira metade do século XIX, no Rio de Janeiro, em Pernambuco e na Bahia por volta de 1852. O escritor Laurentino Gomes considerava esses grupos mais modernizadores do Império do que propriamente abolicionistas. Pertenciam mais à elite imperial.
Mesmo depois de 1870, existiam ainda aqueles abolicionistas de elite que defendiam que a abolição se acabaria naturalmente. Alguns cálculos indicavam que a escravidão iria até a metade do século XX e outros que se estenderia até o ano 2220. Essa ela defendia que os fazendeiros fossem indenizados sob o argumento de que o cativo era uma propriedade privada, caso de José Bonifácio de Andrada e Silva.
Dentre os mais ativos se destacaram Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, André Rebouças, Antônio Bento de Sousa e Castro, o próprio baiano poeta Castro Alves e Luiz Gama, também da Bahia, considerado pelo escritor Laurentino Gomes como o precursor, que atuava como advogado rábula e conseguiu libertar mais de quinhentos escravos.
Nos anos que antecederam a Lei Áurea de 1888, houve uma célula revolucionária denominada, segundo Laurentino, autor da trilogia “Escravidão”, de “Os Caifases”, sob o comando de Antônio Bento Sousa de Castro. A denominação era uma referência ao sumo-sacerdote que participou do julgamento de Cristo perante o Sinédrio de Jerusalém.
Mais impetuoso, Antônio Bento representava a corrente mais radical do movimento, tendo como estratégia a luta direta de enfrentamento com os fazendeiros e defensores do regime escravista. Ele infiltrava mascates e vendedores nas propriedades que penetravam nas senzalas e realizavam reuniões clandestinas, incentivando rebeliões.
Além do mais, esse grupo perseguia capitães-do-mato e denunciava fazendeiros que maltratavam seus cativos. Os fugitivos eram abrigados em locais escondidos na Serra de Cubatão. Um dos refúgios se tornou Quilombo do Jabaquara, no caminho de Santos, chegando a reunir 20 mil pessoas.
Antônio Bento assumiu a liderança do movimento em São Paulo após a morte de Luiz Gama, em 1882. O núcleo de seus seguidores pertencia à confraria negra de Nossa Senhora dos Remédios. Os encontros aconteciam na redação do jornal A Redenção (1887-1888).
De acordo com Laurentino, os movimentos tomaram as ruas e praças se convertendo na primeira grande campanha popular da história do Brasil. Aos milhares, eram produzidos panfletos, jornais, revistas e manifestos contra a escravidão.
A onda coincidiu com o surto de desenvolvimento e modernização do Império, promovido pelo visconde do Rio Branco, responsável pela Lei do Ventre Livre, de 1871. Houve várias mudanças e reformas, como no judiciário, eleitoral, nas comunicações com o telégrafo, no comércio e na indústria. Nessa época ocorreu o primeiro censo de abrangência nacional, em 1872.
Outra linha de ação do movimento abolicionista eram as conferências, concertos, discursos, shows musicais, festivais, festas e reuniões. O próprio André Rebouças, um dos que achavam que os escravos deveriam ser indenizados e não os senhores, levava o maestro Carlos Gomes para as manifestações.
O autor da obra cita que em junho de 1883, quando Patrocínio entregou a ex-escravos 115 cartas de alforrias, a multidão jogava flores de camélia, cultivada num quilombo no Leblon, sobre os libertos. Alguns abolicionistas, como Joaquim Nabuco não concordava que os escravos participassem do movimento. Ele entendia que a tarefa era do parlamento e das instituições, ao contrário de Antônio Bento.
Dentro do movimento começaram a brotar os clubes antiescravistas. Só entre 1878 a 1885 foram criados 227 em todo Império. Alguns tinham grande repercussão nacional, como a Sociedade Cearense Libertadora (o Ceará foi o primeiro estado a decretar a abolição) e a Caixa Emancipadora Luiz Gama. As mulheres também tiveram participação com cerca de 36 associações.
Em maio de 1883 todas essas organizações constituíram a Confederação Abolicionista que passou a comandar a campanha nacional. Os jornais e as revistas também tiveram papel fundamental nos acontecimentos, como Gazeta de Notícias (1874), Gazeta da Tarde, de Patrocínio (1880) e A Província de São Paulo (Estado de São Paulo), em 1875. Joaquim Nabuco lançou, em 1883, o livro O Abolicionista.
A questão dominou ainda as artes e a literatura, caso de A Escrava Isaura, de Bernardes Guimarães (1875), O Mulato, de Aluísio de Azevedo (1881) e Navio Negreiro, de Castro Alves.
PRESSÃO DA INGLATERRA ACABA COM O TRÁFICO NEGREIRO NO BRASIL
Depois de ser humilhado e até sofrer um bloqueio naval por seis dias no Porto do Rio de Janeiro, o governo imperial de D. Pedro II se apressou em decretar, em 1850, o fim do tráfico negreiro através da lei chamada de Eusébio de Queirós Coutinho Matoso Câmara (africano de ascendência portuguesa nascido em Luanda), mas, mesmo assim, muitos continuaram fazendo algumas importações de cativos africanos de forma clandestina.
A lei parlamentar de 1831, apelidada depois para “inglês ver”, não evitou o tráfico e isso irritou os britânicos que fizeram diversas ameaças ao Brasil, inclusive com o aprisionamento de navios em portos e águas territoriais. O próprio Eusébio de Queirós era conivente e acobertava os capitães de navios, os fazendeiros do café e os traficantes.
O jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor da trilogia “Escravidão” narra os episódios que levaram o Brasil à proibição do tráfico de africanos, como no capítulo da terceira obra intitulada de “Na Mira dos Canhões” onde cita o incidente ocorrido no Porto de Paranaguá, no Paraná, justamente em 1º de julho de 1850.
O tiroteio aconteceu na antiga Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, construída na Ilha do Mel para proteger a entrada da barra. Na ocasião, o embaixador da Inglaterra no Rio de Janeiro, James Hudson chegou a dizer que “a coragem não é uma virtude brasileira”.
A guarnição do forte chegou a trocar tiros com um cruzador britânico, o HMS Cormorant, cujo comandante estava inspecionando navios suspeitos e apreendia todos que estivessem praticando o tráfico de escravos. Três barcos foram atrelados ao cruzador para serem rebocados para fora da baía quando o chefe da Fortaleza reagiu. Após o ocorrido, o capitão inglês mandou queimar dois navios, o Leônidas e o Sereia.
Na época, o litoral do Paraná, ainda sob a jurisdição da província de São Paulo, era um dos locais mais concorridos para refúgio do tráfico clandestino. Não muito longe dali se situavam as ricas fazendas de café, no Vale do Paraíba.
Diz Laurentino que em Paranaguá, o comércio ilegal de gente envolvia as mais altas autoridades, incluindo o delegado de polícia José Francisco Barroso, o juiz municipal Filastro Nunes Pires e o coronel Manuel Antônio Guimarães, comandante da Guarda Nacional. Mesmo assim, essa gente recebia títulos de nobreza do imperador.
Pelo revide, o padre Vicente Pires da Mota, presidente da província, elogiou a guarnição da fortaleza e os civis que participaram do combate. No entanto, o governo imperial, por temer retaliações militares e diplomáticas mais duras, preferiu se explicar perante a Inglaterra.
A partir disso, o governo inglês impôs que o Brasil parasse de traficar escravos africanos. Na época, os britânicos eram uma potência marítima e industrial. A única saída era mesmo acabar de uma vez com o comércio clandestino de escravos.
No mesmo mês de julho de 1850, o ministro da Justiça, Eusébio de Queirós convocou a Câmara dos Deputados para, às pressas, dar andamento a um projeto emperrado nos meandros da burocracia legislativa desde 1837.
Numa tramitação relâmpago, o projeto de Eusébio foi aprovado pelos deputados em 17 de julho. Em meados de agosto passou também no Senado. Em 4 de setembro de 1850 tornou-se lei sancionada pelo imperador.
Como destacou Laurentino, foi literalmente sob a mira dos canhões britânicos que o Brasil concordou em acabar com o tráfico de africanos escravizados no Atlântico. Logo depois, a marinha brasileira passou a se empenhar na repressão ao tráfico. Alguns dos principais traficantes estrangeiros, como os irmãos portugueses Antônio e Manuel Pinto da Fonseca foram presos e expulsos do país.
AS REBELIÕES E OS MANUAIS DOS SENHORES
Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, os senhores escravocratas passaram a ter comportamentos mais brandos com seus cativos diante das rebeliões e fugas dos negros que pipocavam em vários estados contra a escravidão, lembrando sempre o massacre que ocorreu no Haiti, em 1791, quando milhares de brancos foram mortos cruelmente.
Diante dos fatos, os patrões começaram a formular cartilhas e manuais para tratar os pretos com mais moderação nos castigos, recomendando mais divertimento, folga do trabalho aos domingos para a prática da religião, folguedos e até cederam pedaços de terra para o cultivo, de modo a evitar levantes e preservar seu capital investido. Com a proibição do tráfico, os negros ficaram mais caros.
Quem narra essas mudanças é o jornalista e escritor Laurentino Gomes em sua trilogia “Escravidão” e cita dois manuais importantes divulgados pelo baiano Miguel Calmon Du Pin e Almeida e Carlos Augusto Taunay que orientavam os fazendeiros de como não perder seus cativos, mas sempre com disciplina, não deixando de castigá-los quando cometessem “erros”.
No capítulo “Medo, Morte e Repressão” ele começa a descrever a revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, que deixou as autoridades apreensivas e reforçaram as seguranças. Na noite em que tudo aconteceu celebrava-se a “Noite do Destino” e o encerramento do Ramadã pelos haussás e os nagôs iorubás da Nigéria.
Na noite de 24 de janeiro, os boatos corriam na Cidade Baixa nas proximidades do porto do Mercado Modelo, de que cativos mulçumanos procedentes de Santo Amaro tinham ali desembarcado para se juntar a um africano de nome Ahuna, líder envolvido em algum tipo de conspiração.
Houve vazamento, e uma mulher de nome Guilhermina procurou um vizinho de chamado André Pinto da Silveira que comunicou tudo ao juiz de paz José Mendes da Costa Coelho. Este foi ao palácio e fez um relato ao presidente da província, Francisco de Souza Martins. O que se viu em seguida foi uma explosão de violência que se desdobrou em brutais confrontos entre forças militares e negros escravizados.
Na manhã seguinte já havia cadáveres espalhados por diversas ruas, praças e ladeiras da capital. Estima-se em setenta o número de mortos. Nessa devassa, mais de quinhentos pessoas foram punidas com penas de morte, prisão, deportações e açoites. A revolta dos malês levou pânico a outras regiões do país.
Nas quatro primeiras décadas do século XIX foram mais de trinta na capital, no Recôncavo e outras províncias. Metade delas, segundo Laurentino, ocorreu entre 1826 e 1830. Nunca houve uma sequência tão grande de fugas e rebeliões. Os senhores ficaram assustados.
A primeira delas, liderada pela etnia haussá, se deu em 1807. Em 1814 e 1816, os haussás fizeram uma série de ataques no Recôncavo e em bairros de Salvador. Em 1826, um grupo procedente do “Quilombo Urubu” tentou invadir Salvador aos gritos de “morra branco e viva o negro”.
Na revolta de 1835, a rebelião foi antecipada por cousa das delações, mas ampliou-se em vários lugares, como no centro, nas imediações do Campo Grande e Cidade Baixa. Tudo começou na Ladeira da Praça com a prisão de líderes, como Aprígio e Manuel Calafate. No local, cerca de cinquenta negros enfrentaram os soldados com pistolas e espadas. No confronto inicial morreram um africano e um soldado.
Mesmo às pressas, os rebeldes conseguiram arregimentar quinhentos combatentes que passariam as três horas seguintes enfrentando os agentes da lei nas ruas de Salvador. Acuados pela guarda, eles se espalharam entre o Terreiro de Jesus e na Praça Castro Alves. Seguiram depois rumo ao Bairro da Vitória. Houve assaltos no quartel da polícia no Largo da Lapa.
A última batalha aconteceu no Quartel da Cavalaria (Água de Meninos). Cerca de duzentos escravos participaram da luta com porretes, pistolas, espadas e lanças. Foram recebidos a bala e muitos terminaram sendo retalhados e baleados, enquanto outros se refugiaram no mato, morros e até se afogando no mar. Na conspiração ficou evidenciado que o levante teve motivação religiosa. A liderança era toda mulçumana com aspecto de guerra santa, uma jihad.
Laurentino destaca que, na época da Revolta dos Malês, entre oito a dez mil africanos escravizados desembarcavam anualmente no Porto de Salvador, a grande maioria do Golfo do Benin (Togo, Benin, Nigéria e Camarões). A região se converteu na principal fonte de escravos enviados à Bahia durante o século XVIII em razão da prolongada guerra entre o reino do Daomé e seus vizinhos.
Eram designados como pretos minas, devido a proximidade do antigo castelo de São Jorge da Mina, Elmina, em Gana. O censo de 1808, realizado em Salvador e freguesias próximas, constatou que dos 250 mil habitantes, só pouco mais de 50 mil eram brancos.
Nesse período de 1835 reinava ainda um clima de agitação originária da independência brasileira. Na Bahia, negros, mestiços, cativos e libertos foram recrutados e participaram de episódios como a Conjuração Baiana (Revolta dos Alfaiates), de 1798, da Independência da Bahia em 2 de julho de 1823 e da Sabinada, movimento republicano e federativo comandado por Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira.
Outras revoltas ocorreram durante a Regência entre a abdicação de D. Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II, em 1840, em Minas Gerais e no Maranhão, em 1838, com a Balaiada. Essas rebeliões escravas fizeram com que as autoridades adotassem medidas drásticas. Na Bahia, as batidas policiais depois de 1835 resultaram na detenção de centenas de suspeitos.
Essas questões serviram de roteiro para uma série de manuais e roteiros, muitos deles escritos por grandes fazendeiros, com o objetivo de adequar aos novos tempos o tratamento dedicado aos escravos. Alguns eram chamados de manuais agrícolas.
O baiano Miguel Calmon, por exemplo, escreveu “Ensaio sobre o Fabrico de Açúcar”, aconselhando moderação com os cativos, como fornecer moradia, alimentação e vestuário mais decentes, liberação de pedaços de terra para o trabalho deles, que constituíssem famílias, cuidados com a criação dos filhos dos escravos, divertimentos e castigos com prudência.
A ESCRAVIDÃO NA PRÓPRIA ÁFRICA
“No passado, nós pensávamos que era da vontade de Deus que os negros deveriam ser escravos dos brancos. Os brancos primeiro nos disseram que era para vender escravos para eles e nós vendemos. Agora, dizem que não devemos mais vender. Se os brancos pararem de comprar, os negros vão parar de vender”.
Isto foi o que o chefe africano, obi Assai, de Aboh, reino situado no delta do rio Níger, disse a uma comissão britânica que o visitou em 1841. Ele não conseguia entender por que até poucas décadas antes os europeus faziam todos os esforços para obter cativos na região e, de repente, haviam decidido parar com as compras.
O jornalista e escritor da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes, em suas pesquisas, constatou que os chefes africanos achavam comum que seus próprios povos e prisioneiros de guerra de outras etnias e reinos se tornassem cativos. Muitos venderam príncipes e rainhas que eram seus rivais para o Novo Mundo.
Mesmo com as proibições do tráfico negreiro pelos britânicos, por Portugal e o Brasil, em 1831 e 1850, o comércio continuou clandestino e aumentou a procura por escravos na própria África. A escravidão, na verdade, era a atividade mais lucrativa para os dois lados e prosperava a troca de mercadorias, como tecidos, cachaça do Brasil, tabaco e outros utensílios.
A Costas da Mina (Golfo do Benin, no trecho entre o Togo e a Nigéria) era tão importante no tráfico de escravos que os principais chefes de estado a reconhecer a Independência do Brasil eram dessa região, conforme destacou Laurentino. O gesto, de acordo com ele, aconteceu mediante uma embaixada enviada ao Rio de Janeiro, em 1824, pelo ologum Osinlokun, rei de Onim, atual cidade de Lagos, na Nigéria.
Sobre o estranhamento da proibição do tráfico, o governador de Angola, Adrião Acácio da Silveira, em 1849, fez o mesmo comentário sobre as pressões dos ingleses pelo fim do comércio. Ele disse que, enquanto houver quem compre escravos, há de haver quem os venda. o pensamento tem semelhanças com o que ocorre atualmente no Brasil com relação ao tráfico de drogas. O reino do Daomé era uma das peças centrais dessa lógica escravista. O próprio reio Guezo (Benin) recusou-se a assinar, em 1848, um tratado sob o argumento de que a proibição seria o mesmo que mudar a maneira de sentir do seu povo.
O forte de São Batista de Ajudá (Benin) onde Francisco Felix de Souza, o maior traficante baiano, se estabeleceu após chegar à África, foi erguido pelos portugueses em 1721 para proteger o tráfico negreiro na Costa da Mina. Em 1727, o reino Hueda, do qual Ajudá fazia parte, seria invadido e devastado pelos exércitos de Agaja, um soberano implacável e perverso. Os derrotados eram vendidos como escravos.
O MAIOR E O MAIS FAMOSO TRAFICANTE DE ESCRAVOS AFRICANOS ERA BAIANO
Seu casarão de três andares com uma frondosa gameleira (árvore sagrada no candomblé da Bahia), em Ajudá, atualmente República do Benin (antigo reino de Daomé) tinha dois canhões no pátio para revidar qualquer ataque inimigo. Ele era um senhor respeitado em toda região onde já foi um dos maiores entrepostos de tráfico de africanos escravizados para o Brasil.
Em Ajudá existia a Fortaleza de São João Batista, construída pelos portugueses em 1721. Esse comércio de cativos se manteve ativo por quatro séculos e ele fez grande fortuna. Era católico devoto de São Francisco de Assis, mas seu nome em Benin ficou associado a uma divindade local, um vodum chamado Dogoun (dragão). Em seu funeral sete pessoas foram sacrificadas em sua honra.
Estou falando de um mulato claro nascido em Salvador (alguns até citaram como se fosse de Portugal) de nome Francisco Félix de Souza, o maior e o mais famoso traficante que levava escravos para o Brasil na primeira metade do século XIX.
Quem conta toda essa história é o jornalista e escritor Laurentino Gomes em seu terceiro volume de “Escravidão”, ao atestar que ele era amigo e parceiro nos negócios com o rei Guezo, do Daomé. No local existia um grande aparato de segurança para dar proteção ao mercado negreiro que funcionava como uma feira livre de vender gente.
Diz Laurentino que, ao longo de meio século de atividades nesse ramo, Francisco Félix teria embarcado mais de meio milhão de escravos para o Recôncavo baiano. Ao morrer em 1848 aos 94 anos, deixou 53 viúvas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna hoje calculada em torno de 120 milhões de dólares.
Francisco foi tão importante que ganhou do soberano do Daomé o título de Chachá, honraria hereditária semelhante a um vice-rei. Seus descendentes formam hoje uma influente dinastia no Golfo de Benin, com ramificações na França, no Benin, na Nigéria, Togo e Costa do Marfim.
De acordo com o escritor, um deles, o general Paul Émile de Souza foi presidente da Junta que entre 1869 e 1970 governou o Benin quando o país ainda se chamava de Daomé e vivia sob uma ditadura militar.
Também, o arcebispo Isidore de Souza presidiu o Alto Conselho da República. Autores levantaram a hipótese de que Francisco Félix teria nascido em Portugal pelo motivo da Coroa Lusitana ter lhe dado uma comenda de Cavalheiro da Ordem de Cristo e o considerou “benemérito patriota”. Houve até quem apontou que ele era natural de Cuba ou do Rio de Janeiro.
No entanto, através de pesquisas mais aprofundadas chegou-se à conclusão que ele era mesmo baiano, inclusive confirmado pelos historiadores Alberto da Costa e Silva e Luis Henrique Dias Tavares, com base numa carta de alforria de uma de suas escravas.
O motivo de ter se mudado para África são obscuros, segundo Laurentino. Um relatório britânico de 1821 o descrevia como um renegado, banido dos Brasis, por ter desertado do exército. Acusaram ainda de ter sido falsificador de moedas e se envolvido em conspirações políticas.
Quando Francisco chegou à África, a escravidão se mantinha como uma das atividades econômicas mais importantes e lucrativas do continente. A abolição do tráfico para os domínios britânicos e para os EUA, entre 1807 e 1808, aumentou a escravidão doméstica na própria África, conforme relata o autor da trilogia. Nessa época havia mais escravos no continente africano do que nas Américas.
Além do trabalho forçado, os escravos também foram vítimas de sacrifícios rituais em algumas ocasiões, como no funeral de Opoku Fofie, rei dos achante, a mais poderosa etnia na Costa do Ouro, atual Gana, onde mais de mil teriam sido mortos.
Um dos principais destinos dos escravos dessa região do Golfo do Benin, ou Costa da Mina (Togo e Nigéria), de Angola e do Congo era para a Bahia. A costa da Mina era tão importante no tráfico de escravos que os primeiros chefes de estado a reconhecer a Independência do Brasil eram dessa região.
OS LEILÕES COMO SE FOSSEM ANIMAIS
Desde quando começou a escravidão africana rumo ao continente americano no início do século XVI, os cativos eram leiloados nos entrepostos ou armazéns como se fossem objetos ou animais, na base do peso, da idade, dos dentes e do estado de saúde. O Valongo, por exemplo, no Rio de Janeiro, foi um dos maiores entrepostos de escravos das Américas.
Em sua terceira obra “Escravidão”, o jornalista e escritor Laurentino Gomes relata que “a prática antiga, herdada dos primeiros tempos da colônia portuguesa, os leilões de pessoas só foral legalmente proibidos no Brasil por decreto de 15 de setembro de 1869, faltando menos de duas décadas para a Lei Áurea”.
No mesmo decreto, segundo ele, se proibiu a separação de marido, mulher e filhos em idade inferior a quinze anos. No entanto, como tudo em nosso país até nos dias atuais, dava-se um jeitinho para burlar as leis. Como sempre, a prática ilegal era feita pelos poderosos senhores escravistas que terminavam ficando impunes.
Nos leilões, uma vez fechada a compra, os escravos eram marcados a ferro quente, com o nome de seus donos. De acordo com citação de Laurentino, o tenente alemão Julius Mansfeldt, que visitou o Rio de Janeiro, em 1826, contou que primeiro o marcador lambuzava a área da pele com gordura animal e depois aplicava sobre ela um pedaço de papel mergulhado em óleo. Por fim, uma haste aquecida sobre um braseiro, recortada com as iniciais do senhor, era pressionada sobre esse retalho de papel.
As boas “peças de qualidade” eram leiloadas nos armazéns do Valongo, e existiam também as encomendas feitas diretamente pelos senhores aos traficantes ou capitães dos navios. As mulheres, crianças, os mais velhos e com defeitos físicos eram comercializados no mercado secundário por preços mais em conta por pessoas de menor poder aquisitivo.
Tropeiros, mascates e até ciganos entravam nesse mercado. Viajavam léguas pelo interior oferecendo esses cativos como se fossem quaisquer mercadorias. Nas transações, existiam também os chamados alugueis de escravos que, como a venda, eram anunciados pelos jornais da época. Todos queriam ter um escravo, até o pobre e o alforriado que juntavam dinheiro para adquirir uma “peça”, mesmo que fosse doente.
Agências de compra, venda e aluguel se multiplicavam pelas cidades brasileiras. O autor de “Escravidão” narra que uma dessas casas, chamada Narcizo e Silva forneceu, em 1856, uma escrava para José Thomaz Nabuco de Araújo, ministro do Império e pai do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco.
Sobre o Valongo, diz Laurentino que é um dos mercados de escravos mais bem documentado na história da escravidão, graças aos relatos de diversos viajantes que estiveram no Brasil entre o final do século XVIII e nas primeiras décadas do XIX. Os armazéns chegavam a acomodar até quatrocentos escravos cada um.
Em 1826, um viajante escocês chegou a calcular dois mil escravos em exposição para venda no Valongo, estocados em cerca de cinquenta barracões. Somente na primeira década do Brasil independente, o mercado e seu vizinho cemitério dos pretos novos começaram a ser alvos de protestos dos moradores por causa do mau cheiro e doenças.
Os mortos eram enterrados em covas rasas e quando batiam as chuvas, seus cadáveres apareciam em terra nua. Eram mais de mil sepultamentos por ano. As reclamações só foram atendidas em 1830 quando o cemitério deixou de funcionar.










