:: ‘Encontro Com os Livros’
“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS”
De George Orwell
EM SEU LIVRO DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS, O AUTOR FAZ UMA EMERSÃO SOBRE AS OBRAS DE HENRY MILLER E OUTROS, UMA DESCRIÇÃO SOBRE A DURA VIDA SUFOCANTE DOS MINEIROS NO CAPÍTULO “MINA ABAIXO”, UMA DESCRIÇÃO DOS INGLESES EM “INGLATERRA, SUA INGLATERRA”, “O ABATE DE UM ELEFANTE”, “LEAR, TOLSTÓI E O BOBO”, “POLÍTICA VERSUS LITERATURA”, “A POLÍTICA E A LINGUA INGLESA”, “A PREVENÇÃO CONTRA A LITERATURA” E, FINALMENTE, “SUMÁRIO DE MENINOS”.
Vamos aqui focar sobre o que o indiano Orwell fala sobre o escritor norte-americano Henry Miller, de “Trópico de Câncer” e “Primavera Vermelha”, em sua passagem pela Paris decadente dos anos 30, dos bares entupidos de bêbados, das pensões de percevejos, dos arruaceiros, dos artistas pintores, muitos dos quais “impostores”, das obscenidades e do antifascismo versus comunismo.
No capítulo “Dentro da Baleia”, ele afirma que conheceu Miller no fim de 1936, quando estava passando por Paris a caminho da Espanha. “O que mais me intriga nele foi descobrir que não tinha o menor interesse pela guerra na Espanha. Ele meramente me disse, em termos bastante enfáticos, que ir para Espanha naquela altura era a atitude de um idiota”.
Opinou ainda que se envolver naquelas questões da guerra, por um sentido de dever, era franca estupidez. Para Miller, combater o fascismo e defender a democracia eram conversa fiada. Uma perspectiva que não lhe incomodava era a civilização ser varrida e substituída por uma coisa diferente da humana.
Sobre um inquérito a respeito da guerra, feito pela revista Marxist Quarterly, Miller respondeu que não tinha nenhum desejo de converter alguém a lutar. Segundo Orwell, uma declaração de irresponsabilidade. Em sua opinião, os escritores dos anos 20 assumiram a postura mais progressista e os de 30 a do dizer amém.
Nesse aspecto, o Miller não assume nenhuma atitude, mas não ignora a situação. “Ele acredita na ruína iminente da civilização ocidental com muito mais firmeza do que os escritores “revolucionários”. Apenas não se sente convocado a fazer coisa nenhuma a respeito. Ele toca violino enquanto Roma queima e, ao contrário da imensa maioria das pessoas que fazem isso, toca de frente para as chamas”.
Na verdade, isso está ocorrendo nos tempos atuais quando nos incomoda o silêncio dos bons. Muitos contam um bocado de coisa sobre si mesmo, enquanto fala de outra pessoa, como em Max and the white phagocytes.
Orwell conta a história bíblica da baleia que engole Jonas, considerando um fragmento de fala infantil, e ressalta que estar dentro desse enorme peixe é uma ideia muito confortável, aconchegante e caseira. O Jonas histórico ficou bastante aliviado por escapar, “mas, na imaginação, no devaneio, inúmeras pessoas o invejaram”.
De acordo com ele, o próprio Miller está dentro da baleia. Apenas ele não sente nenhum impulso de alterar ou controlar o processo pelo qual está passando. Ele executou o ato essencial de Jonas ao permitir-se ser engolido, permanecendo passivo, aceitando
“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS”
De George Orwell, de a “Revolução dos Bichos”
Para escritores e outros que ainda não leram, deve se debruçar sobre as críticas literárias de George Orwell aos livros “Trópico de Câncer” e “Primavera Negra”, de Henry Miller, bem como de outros autores, como Alfred Edward Housman, J. Joyce. T.S. Eliot, E. Poud. D. H. Lawrence, Wyndham Lewis, Aldous Huxley e Lytton Strachey.
Sobre esse grupo, diz Orweel que eles não parecem um grupo. Lawrence e Eliot não gostavam um do outro. Huxley adorava Lawrence, mas era repelido por Joyce. A maioria teria esnobado Huxley. Lewis atacava todos os outros.
“Se a ideia básica dos poetas georgianos era a “beleza da natureza”, a dos escritores do pós-guerra (I Guerra) seria o “sentido trágico da vida”. Todos eles têm um temperamento hostil à noção de “progresso”. O sentimento é que nem deveria acontecer.
O pessimismo de Eliot em parte é um lamento sobre a decadência da civilização ocidental. Em sua análise, a inclinação de todos os escritores desse grupo é conservadora. Muitos tinham queda pelo fascismo, outros eram indiferentes. Huxley, desespero com a vida.
Por que os principais escritores dos anos 20 são pessimistas? Por que há sempre uma sensação de decadência. Não seria, quem sabe porque essas pessoas escreveram em uma época de conforto excepcional? “É só em períodos assim que o “desespero cósmico” pode florescer. Pessoas de barriga vazia nunca se desesperam pelo universo, nem aliás, pensam sobre o universo”.
Em suas abordagens, no primeiro capítulo, Orwell fala do cenário literário dos anos 20, para ele a época de ouro, e solta reflexões sobre a arte do escrever onde o leitor é alçado a entrar nessa baleia. Ele começa pelo romance de Miller, “Trópico de Câncer” que apareceu em 1935. O próprio insiste ser pura autobiografia.
O ensaísta do cenário da época na França, narra que em alguns bairros da cidade, a quantidade dos assim chamados artistas deve ter superado a dos trabalhadores. Calculou-se que no final dos anos 20 havia trinta mil pintores em Paris, a maior parte “impostores”. “Foi a era dos azarões e dos gênios”…
Pelas suas obscenidades nauseantes, a obra de Miller tornou-se impublicável. No mundo dos túmulos sombrios, descrito entre outros por Lewis, sobre o qual Miller escreve, abordando apenas o lado de baixo: as formas do lupemproletariado.
É uma história, como descreve Orwell, de quartos infestados de percevejos em hotéis para operários, de brigas, de surtos de bebedeiras, bordeis baratos, refugiados russos (Revolução Russa), mendicância, trapaça e empregos temporários. Todo esse cheiro de azedo foi matéria-prima para o romance de Miller que se alimentou desse lixo.
Quando “Trópico de Câncer” foi publicado, os italianos marchavam sobre a Abissínia e os campos de concentração de Hitler já estavam entupidos. Os centros intelectuais do mundo eram Roma, Moscou e Berlim. Foi um romance sobre norte-americanos combalidos mendigando bêbados no Quartier Latin. Um ano mais tarde foi publicado “Primavera Negra.
Na comparação com Joyce, de Ulisses, o crítico de “Dentro da Baleia”, diz que há um traço dele, não em todo lugar. Em “Primavera Negra”, mesmo com pontos surrealista, todos se sentem iguais. “Miller escreve sobre o ser humano na rua e, a propósito, é uma pena que seja uma rua cheia de bordeias.
“Em “Primavera” há um flashback maravilhoso de Nova Iorque fervilhante de irlandeses, mas as cenas de Paris são as melhores”. No romance de “Trópico”, os bêbados e vagabundos são tratados com maestria na técnica rigorosamente única – assinala, ao pontuar que as sensações são que todas as aventuras deles acontecem com você.
“A grosseria indiferente com que os personagens de “Trópico de Câncer” falam é muito rara na ficção, mas comum na vida real. George Orwwll esclarece que “Trópico” não é um livro de um jovem. Miller tinha mais de 40 anos quando foi publicado. É um livro maturado na pobreza e na obscuridade. A prosa é um espanto e, em partes de “Primavera”, ainda melhor”. Palavras impublicáveis estão em todas as partes.
“Miller é uma pessoa falando sobre a vida, um homem de negócios norte-americano comum, com coragem intelectual e um dom para as palavras”. …”Tendo atrás de si anos de lupemproletariado, fome, vagabundagem, sujeira, fracasso, noites ao relento, batalhas contra agentes de imigração, lutas infinitas por um pouco de dinheiro, Miller descobre que está se divertindo”.
Sobre Walt Whitman, em “Folhas de Relva”, o ensaísta afirma que ele escreveu num período de prosperidade nos anos 30 onde a liberdade valia mais que a palavra. Voltando a Miller, assinala que existe uma correlação Whitman. “Trópico” termina com uma passagem whitmanesca, na qual, depois das luxúrias, trapaças, brigas, bebedeiras e imbecilidades, ele simplesmente se senta e observa o Sena passar, em uma espécie de aceitação (eu aceito) mística das coisas como elas são”.
“Dizer “eu aceito” em uma época como a nossa, é dizer que você aceita campos de concentração, cassetetes de borracha, Hitler, Stalin, bombas, aviões, comidas enlatadas, metralhadoras, golpes, expurgos, lemas, esteiras de linhas de produção, máscaras contra gás, submarinos, espiões, arruaceiros, censura à imprensa, prisões clandestinas, aspirinas, filmes de Hollywood e assassinatos políticos”.
Para Orweel, a verdade é que a vida cotidiana comum consiste muito mais de horrores do que os autores de ficção se dão ao trabalho de admitir. Ele faz reflexões com base em outros autores, que se encaixam no mundo atual quando fala que vivemos em um mundo que está se encolhendo. As “vistas democráticas” terminaram em arame farpado. “Aceitar a civilização como ela é, praticamente significa aceitar o declínio”.
Orweel ressalta que as pessoas em “Trópico de Câncer” chegam muito perto de serem comuns, na medida em que são preguiçosas, desonradas e mais ou menos “artísticas. Entre as décadas de 20 e 30, avaliar um livro por seu conteúdo era pecado imperdoável, e mesmo ter consciência do conteúdo era considerada falta de gosto – afirma o autor de “Dentro da Baleia”.
Nos anos 1930-1935 algo acontece e a atmosfera literária muda, na visão de Orwell, que cita Auden, Spender e outros como novo grupo de escritores que entram em cena, com “tendência diversa”. “Saímos do crepúsculo dos deuses e entramos em um tipo de clima escoteiro, com joelhos à mostra e cantorias em grupo”. O literato deixa de ser um expatriado cultural com inclinação para a Igreja, tornando-se voltado para o comunismo. Se a ideia básica dos escritores dos anos 20 é o “sentido trágico da vida”, para os novos é o “propósito sério”- observa o crítico literário.
“A DIVINA COMÉDIA-INFERNO” V
Dante Alighieri
Tradução de Pedro Xavier Pinheiro
O que Dante e Virgílio, os poetas, diriam em suas visitas ao inferno para os falsários e traidores da pátria brasileira? No Canto XXX, no décimo compartimento, são punidos os falsários, tornados hidrópicos. Eles são constantemente atormentados por furiosa sede.
Aqueles que falaram falsamente são perseguidos por febre ardentíssima. Em sua obra “A Divina Comédia”, Dante vagueia em XXXIV cantos onde narra personalidades pecadoras da sua terra Florença, religiosos, gigantes rebeldes, hipócritas, avarentos, reis e mistura figuras mitológicas gregas e romanas.
Sobre os falsários, em uma de suas estrofes, o autor descreve que “Quando a fortuna a cinzas reduzia/A pujança de Troia, em tudo altiva,/E com seu reino o morto rei jazia”.
No mesmo Canto XXX, discorre: “Súbito quando o corpo descobrira/Uivou qual cão, de angústia possuída./Tanto a pungente dor na alma a ferira”. “Escancaras a boca venenosa,/O moedeiro diz: por mal somente;/ Se sede eu tenho e a pança volumosa”.
No Canto XXXII, de acordo com o tradutor da obra, Pedro Xavier, os dois poetas se encontram no círculo, em cujo pavimento de duríssimo gelo estão presos os traidores. O círculo é dividido em quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irmão, estão os traidores do próprio sangue.
Na Antenora, de Antenor, troiano que ajudou os gregos a conquistar Troia, os traidores da pátria e do próprio partido; na Ptolomeia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu, lá estão os traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores dos benfeitores e de seus senhores.
A DIVINA COMÉDIA-INFERNO IV
DANTE ALIGHIERI – Tradução José Pedro Xavier Pinheiro
OS NEGOCIANTES DE CARGOS PÚBLICOS, OS HIPÓCRITAS, OS TRAPACEIROS E OS IMPOSTORES.
No Canto XXI, Dante faz uma visita aos infernos e cruza com os demônios que punem os pecadores por diversos crimes cometidos. Nesse Canto, são punidos os trapaceiros que negociam os cargos públicos ou roubaram aos seus amos.
Conforme traduz José Pinheiro, “eles estão mergulhados em piche fervendo. Os dois Poetas presenciam a tortura de um trapaceiro luquense por ordem de um demônio. Virgílio domina os demônios que queriam avançar contra eles. Virgílio e Dante, escoltados por um bando de demônios, tomam o caminho ao longo do aterro.
Numa de suas estrofes, Dante descreve: “Assim, por fogo não, por divina arte/Betume espesso, ao fundo refervia,/As bordas enviscando em toda parte”. Noutra diz: “O maldito afundou; surdiu curvado./Sob a ponte os demônios lhe gritaram:/Não acharás aqui Vulto Sagrado”.
No Canto XXII, os dois poetas andam pelo aterro à esquerda, veem muitos trapaceiros, que, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo. Sobrevêm os diabos e um deles é lacerado. É este Ciampolo, de Navarra, que consegue depois, livrar-se das garras dos diabos, o que dá motivo a uma briga entre os demônios”.
Sobre o trapaceiro Ciampolo, destaca: “D´El-rei Tebaldo eu na privança entrara:/Vendia os seus favores fraudulentos;/Sofro a pena do mal, que praticara”. Dante ainda fala do Frei Gomita, vigário de Ugolino Visconti, que por dinheiro deu liberdade aos inimigos do seu senhor.
No Canto XXIII, Dante e Virgílio encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado. Falam com dois frades bolonheses. Um deles, inquirido por Virgílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento do inferno.
Nesse Canto, Dante faz uma narrativa dos frades que foram chamados a governa Florença, depois da derrota de Manfredo, e que aproveitaram de suas posições, causando um motim no qual foi incendiada a casa dos Urberti. Fala também de Caifás, o sumo sacerdote de Israel, que aconselhou a morte de Jesus.
A DIVINA COMÉDIA-INFERNO
DANTE ALIGHIERI – Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro
No XIX Canto, em sua visita ao inferno com Virgílio, o florentino Dante descreve que no terceiro compartimento, aonde os poetas chegam, são punidos os simoníacos (mercadores das coisas sagradas). “Estão eles, de cabeça para dentro, metidos em furos feitos no fundo e nas encostas do compartimento”.
Em sua descrição, o autor de A Divina Comédia assinala que “as plantas dos pés, que estão fora dos buracos, são queimadas por chamas. Ele quer saber quem era um danado que mais do que outros agitava os pés. É o Papa Nicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava à espera de ser rendido por outros papas simoníacos”.
O poeta descarrega toda sua verve contra a avareza e os escândalos dos papas romanos. Na primeira estrofe do Canto XIX, Dante começa dizendo: “Ó Simão Mago (queria comprar a virtude de chamar o Espírito Santo), ó míseros sequazes/Por quem de Deus os dons só prometidos/A virtude, em rapina contumazes”.
Nesse Canto, o autor fala da subversão dos papas por ouro e prata pelos quais são prostituídos. “Saber supremo! Que inefável arte/Mostras no céu, na terra e infernal mundo!/Oh! Teu poder quão justo se reparte!”
Em outro Canto da sua obra, na XVIII, Dante faz uma visita aos punidos pelo pecado da bajulação para se dar bem na vida, passando por cima dos outros, sem nenhum escrúpulo. Sua visão daquela sociedade do século XIII (Dante nasceu em Florença no ano de 1265) ainda está atual para o mundo de hoje.
Nos governos, especialmente no Brasil, os bajuladores, indicados pelos políticos, o chamado QI (não conta aqui a meritocracia) se vendem e são passíveis de corrupção e subornos e fazem o que seus chefes mandam, cometendo desatinos e malfeitos.
A DIVINA COMÉDIA-INFERNO
DANTE ALIGHIERI – TRADUÇÃO DE JOSÉ PEDRO XAVIER PINHEIRO
No Canto XV, o autor narra que os poetas encontram a caminho do inferno um grupo de violentos contra a natureza. Entre estes está Brunetto Latini, de Florença, que dá ao poeta ligeiras notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge para reunir-se a elas.
Em suas estrofes de três versos, Dante fala da força brava do mar e dos gelos que se derretem, o que nos faz lembrar dos tempos atuais onde o próprio homem ganancioso por aumentar seu PIB destrói, impiedosamente, o meio ambiente.
Numa das estrofes Alighieri diz “Mas esse ingrato povo é tão malígno,/Que outrora de Fiesole (pequena cidade perto de Florença) viera/ E tem de penha o coração ferino”.
“Velha fama os diz cegos, sempre useiros/Na soberba, na inveja, na avareza./ Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.” Desta ainda que o vilão lavra a terra como deseja. Finaliza seu canto assinalando que “Mais ser quem vence do que ser quem perde”.
No Canto XVI, no terceiro compartimento do inferno do sétimo círculo, os poetas encontram outro bando de almas de sodomitas, no qual se destacam três ilustres compatriotas de Dante. Eles falam da decadência das virtudes políticas e civis de Florença. São temas ainda atuais aos nossos tempos.
Dante se aproxima das almas dos violentos contra a arte e reconhece alguns deles no Canto XVII. Ele e Virgílio descem ao oitavo círculo. No Canto XVIII, os poetas se encontram no oitavo círculo, dividido em dez compartimentos. Em cada um deles é punido uma espécie de pecadores, condenados por malícia ou fraude.
A DIVINA COMÉDIA-INFERNO
DANTE ALIGHIERI – Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro
Em trinta e quatro cantos, com estrofes de três versos, o poeta florentino Dante, aos 35 anos, em 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro jubileu, fica perdido numa selva escura (vícios humanos) durante toda noite. Ao amanhecer começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam uma pantera, um leão e uma loba que o fazem retroceder. Então, aparece a imagem de Virgílio (sua musa Beatriz) que oferece tirá-lo de lá e conduzi-lo até o inferno e o purgatório. Depois Beatriz, que simboliza a teologia, lhe leva até o paraíso.
O poeta Virgílio é o símbolo da razão humano e Dante, em cada canto da sua caminhada, fala das mazelas humanas, de São Paulo, da nobre Dama que é Maria, mães de Jesus, de santa Luzia, símbolo da graça iluminante, de Raquel, filha de Lobão e mulher do patriarca Jacó, dos pecados dos nobres e filósofos e de todos aqueles que não foram fiéis a Deus e nem rebeldes. Na porta do inferno encontra terríveis palavras.
Seguindo o caminho, como narra o tradutor da obra, “chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caronte que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz, e Dante cai sem sentidos”.
No terceiro canto ele diz: Deste mísero modo, tornou, chora/ Quem viveu sem jamais ter merecido/ Nem louvor, nem censura infamadora. Em outro verso “Não lhes é dado nunca esperar morte;/ É tão vil seu viver nessa desgraça,/Que invejam de outros toda e qualquer sorte”.
“De anjos (aqueles que não tomaram posição na luta entre os fiéis e os rebeldes a Deus) mesquinhos coro é-lhes unido, /Que rebeldes a Deus não se mostraram, /Nem, por si sós havendo sido, com rimas entre o primeiro e o terceiro verso. Alma inocente aqui jamais transita,/E, se Caronte contra ti assanha,/ Patente a causa está, que tanto o irrita”. Dante em seu poema épico teológico descreve vários círculos do inferno e chega a entrar no Limbo onde estão aqueles que não foram batizados. Ele fala dos sábios da antiguidade que, embora não cristãos, viveram virtuosamente.
No segundo círculo Dante cita Minos (rei de Creta e juiz do inferno na mitologia pagã), que julga as almas e designa-lhes a pena. Nesse círculo estão os luxuriosos. No terceiro os gulosos e sobre eles caem chuvas de granizo, água e neve e são dilacerados pelas unhas e dentes de Cérbero (um monstro meio cão e meio dragão, com três cabeças). No quarto, estão os pródigos e avarentos e assim o poeta vai narrando todas as camadas do inferno, daí o termo de cenas dantescas em referência a Dante.
“A MORTE DE IVAN ILITCH”
Ele viveu falando e dialogando com a vida e a morte. O que é o certo? O que é o incorreto? A luta entre o passado pela ascensão e o dinheiro, o presente e o futuro. Ele achava ser um ente especial que não deveria ser atingido pela morte.
“A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, é um conto que mistura existencialismo com espiritualismo e prende o leitor num só fôlego. “E a morte? Onde ela está”? Como narrador, o autor diz que ele estava procurando no seu antigo e habitual medo da morte e não o encontrava. Onde está? Que morte? Não havia medo algum, porque não havia a morte. Em vez da morte, havia luz.
O autor da obra é narrador e, seu personagem, fala em primeira e terceira pessoa quando se refere a ele mesmo em pensamentos sobre o que fez da sua vida e o interroga que poderia ter sido diferente, poderia ter sido melhor. Suas reflexões são um mergulho dentro de si mesmo, com pontos existencialistas.
O personagem, Ivan Ilitch Golovin, é um funcionário público russo, juiz de instrução, bem-sucedido. Casa-se com uma mulher exigente e por isso se dedica ao trabalho até ser um magistrado respeitado. Esse trabalho torna-se um refúgio para evitar a família.
Um dia ele adoece e começa a sentir fortes dores nos rins. Os médicos não conseguem diagnosticar seu problema. O ferimento agrava-se e Ivan passa a sofrer e a penar ao ponto de não ter mais domínio sobre si. A partir daí ele passa a questionar a vida e a morte, mas deseja morrer para se livrar das dores.
Ivan começa um longo processo em busca do sentido da vida e percebe que teve poucos momentos de significado. Eu acho uma hipocrisia fingir que o sofrimento me impede de fazer coisas práticas – confessa para um amigo.
Em certo momento da sua vida de enfermo, ele acha que, por ser um grande funcionário de uma boa posição, não deveria ser morto. Sente que é invejado. No conto, o autor trava um embate filosófico onde o personagem diz não conseguir entender que estava morrendo.
Ivan estudou a lógica do filósofo alemão Kiesewetter onde afirma que “Caio é uma pessoa, as pessoas são mortais, portanto, Caio é mortal”. Para o personagem estava correto em relação ao Caio (um Zè Ninguém comparado ao nosso), mas não em relação a ele. Caio era uma pessoa geral, e isso era perfeitamente justo; mas ele não era o Caio e nem uma pessoa geral. Ele sempre fora muito especial em relação a todas as outras criaturas.
No conto, Tolstói escancara a sociedade de mentiras, das pessoas que procuram viver de aparência imitando os mais ricos, como fazia o seu personagem. Em sua doença, ele gostaria de receber carinhos, de ser paparicado e que tivessem pena dele. O que ele via nos rostos da mulher, dos filhos e amigos era só mentiras.
No final da sua morte, o autor narra que todos os três dias, durante os quais, para ele, não havia tempo, ele rolava dentro daquele saco preto, para dentro do qual uma força superior e invisível o empurrara. Ele lutava como luta um condenado à morte nas mãos do carrasco, sabendo que não pode se salvar; e a cada minuto ele sentia que, apesar de todos os esforços da luta, estava cada vez mais próximo daquilo que o aterrorizava.
Desde o início da doença, conforme narra o escritor, sua vida dividira-se em dois estados de espírito opostos, que substituíam um ao outro: Um era o desespero e a expectativa de uma morte obscura e horrível; o outro era a esperança e o interesse em monitorar as atividades de seu corpo.
Tolstói nasceu em 1828, em Yasnaya Polyana, na Rússia, no tempo do czar, na propriedade rural de seus pais. Ingressou na Universidade de Kazan para estudar línguas orientais, mas abandonou o curso para ir a Moscou e depois para Petesburgo. Em 1851 alistou-se no exército, servindo no Cáucaso onde começou sua carreira de escritor. No auge do sucesso passa a ter sucessivas crises existenciais. Fugiu de casa aos 82 anos para se retirar em um mosteiro, mas faleceu a caminho vítima de pneumonia, na estação ferroviária de Astápovo, em 1910, quando já estava a caminho as revoluções socialistas de Lenin, Trotsky e Stalin.
AS FEIRAS LITERÁRIAS PRECISAM TER UMA PARTICIPAÇÃO MAIS DEMOCRATIZADA
Quando se decide organizar uma feira literária logo se pensa no convite de um, dois ou três escritores famosos de fora e nos palestrantes mais conhecidos do público. Sempre se esquece da prata da casa por considerar que não é atrativo de público e o evento pode se tornar num fracasso.
Até certo ponto isso é lógico em se tratando de mercado, maior visibilidade na divulgação da mídia e até na atração de visitantes locais e de fora, mas é preciso colocar mais o foco na democratização dos autores onde a festa vai ser realizada para que as pessoas conheçam e interajam com os novos talentos da sua cidade e região.
No entanto, quando vemos vários municípios realizando feiras literárias como agora no interior baiano, inclusive por parte de pequenas cidades, isso nos enche de esperanças e expectativas porque servem de incentivos para disseminar a leitura, principalmente entre nossos jovens que perderam o hábito de pegar um livro para ler.
Só para citar algumas cidades, como Feira de Santana, Salvador (Flipelô), Cachoeira, Rio de Contas, Lençóis, Andaraí, Caculé, Barreiras, Itabuna, Ilhéus, Mucugê, Belo Campo aqui perto de nós e outras que estão se programando para também ter a sua, como escritores isso nos deixa animados e a sensação que, até enfim, a literatura, como a músicas e outras linguagens artísticas, está sendo prestigiada e valorizada pela sociedade e os poderes públicos.
Por que não formar um consórcio de feiras literárias regionais para fortalecer o setor? Seria uma maneira de reduzir os custos e também introduzir as empresas como patrocinadoras. Está na hora dos organizadores pensarem nisso e criarem uma rede de feiras entre os municípios. Com isso, os escritores poderiam ter uma ajuda de custos para participar da festa.
As feiras literárias são por demais saudáveis para a nossa cultura, para todos aqueles que com muita luta e garra produzem suas obras, a maioria sem apoio do poder público e privado. Por outro lado, fica a frustração porque somente poucos têm condições financeiras próprias de se deslocar de suas cidades para participar dessas festas literárias.
Por isso é que falo da democratização e ajuda aos escritores locais desde seu processo de produção, divulgação e distribuição até o apoio financeiro para se fazer presentes nas feiras. Para ser mais claro, como um escritor ou poeta independente, sem recursos, pode sair de Vitória da Conquista para ir divulgar suas obras em Salvador, Feira de Santana, Barreiras, Ilhéus ou Itabuna?
Bem que todos gostariam de mostrar seu trabalho e, ao mesmo tempo, adquirir mais conhecimento e aprendizagem de como os outros estão lidando com suas dificuldades inerentes ao fazer literatura. É, sem dúvida, uma troca de informações. Está faltando esse intercâmbio entre as organizações das cidades para que haja um engajamento de autores, de forma a enriquecer e democratizar mais a arte literária.
Se está ocorrendo uma onda de feiras é porque delas estão saindo bons resultados socioeconômicos, como nos festivais de músicas, bem como na divulgação das cidades, especialmente se ela tem vocação turística. Porém, é necessário que essas feiras sejam mais democratizadas e socializadas porque no fim todos ganham.
Gasta-se muito com a contratação de escritores já consagrados, com estruturas até sofisticadas, com embalagens exageradas e não se tem dado o devido espaço para os autores regionais. Por que o poder público não oferece uma ajuda de custo aos seus escritores locais (nem todos) para que estes representem a cultura de sua cidade em outro município, ou que se faça um intercâmbio entre as diversas feiras? Garanto que todos saem ganhando, inclusive as populações em geral.
As feiras têm que ser menos fechadas, mais abertas e democráticas e não somente premiar os “grandes” já conhecidos. Existem muitos talentos escondidos por falta de oportunidades, como aqui mesmo em Vitória da Conquista que deve seguir o exemplo dos outros municípios e realizar sua feira literária, não aquela com viés totalmente político e eleitoreiro onde somente poucos têm acesso.
Como modesto jornalista, escritor e agora tateando na poesia, como minhas obras de contos, poemas, causos, prosa, inclusive no gênero de ensaios históricos, me sinto mais otimista com essa onda de feiras literárias, se bem que, infelizmente, não posso ir em todas como desejaria. É por isso que defendo a união ou uma associação de escritores conquistenses para possibilitar a participação de nossos companheiros nessas feiras.
O mais importante nisso tudo é que a nossa mãe literatura, alicerce para todas as outras linguagens, está sendo lembrada e valorizada, sem contar o estímulo que esses eventos proporcionam para que as pessoas, jovens e idosos retornem ao antigo hábito da leitura. Essas feiras devem ser compartilhadas entre as secretarias de Cultura e Educação.
A DITADURA, A GUERRILHA DO ARAGUAIA E OS MORTOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS
As feridas continuam abertas porque a Anistia de 1979 não permitiu a punição dos torturadores da ditadura civil-militar de 1964, que, aliás, foi negada durante todo governo do capitão-presidente aloprado, isso sem contar as comemorações do primeiro de abril (dia da mentira) dos generais das forças armadas à “revolução”, assim considerada por eles.
Até o momento, por parte do governo esquerdista do PT, não vi nenhuma alusão a esta questão no sentido de desfazer essa negação de que não houve uma ditadura. O Ministério dos Direitos Humanos e outros correlatos precisam resgatar a nossa história, a nossa memória e fazer respeitar a luta pela liberdade de todos aqueles que tombaram durante a ditadura, de forma cruel e covarde.
A literatura está recheada de fatos documentados e testemunhados, como no livro “Uma Conquista Cassada”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, e não podemos deixar que tudo isso caia no esquecimento, inclusive entre nossos jovens que foram induzidos nestes últimos quatro anos de que esse regime opressivo de brutalidades não existiu. É necessário que o governo coloque esse item em pauta para discussão.
Dentro dessa ditadura, da qual milhares de brasileiros que se opuseram ao regime foram vítimas (só de desaparecidos tivemos 243), existiu a Guerrilha do Araguaia, no Bico do Papagaio (Amazonas, Pará e Goiás) que está completando 50 anos que 69 combatentes do PC do B e mais camponeses da região foram esquartejados, tiveram suas cabeças cortadas e seus corpos desaparecidos, jogados em rios, no mar e enterrados no meio da selva.
Entre os tantos desaparecidos insepultos, cujas famílias até hoje choram pelos seus filhos, filhas, sobrinhos e primos, temos aqui de Vitória da Conquista a guerrilheira Dinaelza Santana Coqueiros e seu marido Vandick. Seus irmãos, como Diva Santana, até hoje não tiveram o direito de realizar o ritual fúnebre da sua irmã, conforme mandam os costumes. Não tiveram o direito de fechar esse ciclo porque o Estado deixou de fazer a justiça e negou a verdade. Muitos arquivos daqueles anos tenebrosos ainda continuam fechados e secretos.
Sobre esse assunto, de forma didática, fundamentada e pesquisada em livros de autores, bem como em entrevista com seus familiares, a obra “Do Corpo Insepulto à Luta por Memória, Verdade e Justiça”, da professora Gilneide Padre, desseca a problemática dos desaparecidos políticos no Brasil, focando o caso de Dinaelza Coqueiro.
Gilneide também faz um mapeamento sobre a Guerrilha do Araguaia que começou entre o final dos anos 60 e início dos 70 por um grupo do PC do B que, sob orientação da linha maoísta chinesa, acreditou na luta armada contra a ditadura a partir do campo. As forças armadas chegaram no Araguaia em abril de 1972 e só saíram de lá no início de 1974 quando executaram e deram sumiço aos corpos de mais de 50 combatentes.
Devido a repressão e a censura na mídia que era fortemente vigiada naquela época na base da força bruta das prisões, das torturas e das mortes, a existência da Guerrilha do Araguaia só passou a ser conhecida lá pelo final dos anos 70.
A questão dos desaparecidos (estima-se mais de mil mortos e desaparecidos) só tomou força a partir dos movimentos dos familiares que antecederam a Anistia de 1979, a Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos, o Grupo Tortura Nuca Mais, culminando com a caravana dos familiares dos guerrilheiros que estiveram no Araguaia em outubro de 1980.
O Governo do PT, através do seu Ministério dos Direitos Humanos, além de outras demandas em pauta, como das desigualdades sociais, da defesa das mulheres, do combate ao racismo e a homofobia, precisa também voltar seu olhar para reafirmar que a ditadura existiu sim e evitar que essa memória caia no esquecimento. Muita coisa tem ainda que ser feita para que essas feridas não continuem abertas e esse episódio tão triste e vergonhoso da nossa história nunca mais se repita.





















