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:: ‘Encontro Com os Livros’

“UMA HISTÓRIA DO MUNDO”

COMO SE FORMOU A PRIMEIRA CIDADE

COMO NASCEU O PRIMEIRO DEUS ÚNICO

COMO FOI INVENTADA A CULPA

Numa linguagem pedagógica e num tom simples metafórico de gozação que prende o leitor, sem aquele academicismo pesado, o jornalista e escritor de vários romances, David Coimbra começa esta obra falando do homem de neandertal que durante cerca de dois milhões de anos (outros apontam seis) viveu feliz em suas selvas, caçando, pescando e colhendo, sem pensar no futuro. Seu esquema era viver o dia de cada vez.

Costumamos afirmar que a gente era feliz e não sabia quando nos referimos há 50 ou 60 anos ainda meninos com aquelas brincadeiras tradicionais do nosso tempo onde crianças e jovens respeitavam os mais velhos e a humanidade era mais humana, sensível e solidária. Pois é, mas Coimbra nos faz entender que a felicidade total estava mesmo no neandertal solteiro de um metro e 65 centímetros, forte e cheio de músculos.

Tudo era inocência que nem se sabia que o homem era um reprodutor. O sexo era grupal, sem culpa, e a mulher ficava na caverna esperando o caçador. Quando engravidava, achava que era da lua cheia ou de um mosquito qualquer que lhe picava no rio. Veio, então, o sapiens sapiens, há 120 ou 130 mil anos, e começou a bagunçar tudo. Nessa passagem, a mulher domesticou o homem e criou a civilização a partir da agricultura. Ensinou também o sapiens a domesticar e a criar animais para o abate.

Segundo Coimbra, alguns cientistas desconfiam que haja traços de neandertal em certas pessoas do século XXI. Pode ter havido relação amorosa entre um neandertal e uma sapiens sapiens. Em sua visão, os neandertais eram mais masculinos do que nós. Saia em bandos de machos para caçar, pescar e colher, arrastar uma fêmea pelos cabelos, pegá-la no colo, jogá-la no solo e fazer dela mulher. Não arava a terra, não acumulava e nem constituía família. Não meditava sobre a existência e não se angustiava ao ponto de cair em depressão.

As sapiens queriam era criar seus filhos e, para isso, teve que domesticar os machos. Inventaram a agricultura, tornando impossível o deslocamento por serras, praias e florestas. De nômades a sedentários, fundaram a civilização, a política, a economia, a ganância, a angústia e o psicanalista para curar seus tormentos.

Hoje, o homem solteiro que bebe com os amigos, não reclama da solidão e cativa outras mulheres, é o fracasso das mulheres. Foi por isso que elas inventaram o amor romântico, “que deve seu prestígio à Idade Média quando o cristianismo temperou o sexo com a culpa e elevou o espírito em detrimento da carne”. Esse cristianismo tornou vulgar o prazer e sublime o sentimento. O amor romântico transformou-se na forma de dar sentido à vida humana neste Vale de Lágrimas.

O neandertal não precisava procurar o sentido da vida, porque o sentido da vida era viver. O escritor, com leveza sarcástica, escreve que o ócio feminino matou o neandertal. “Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer”. Durante dois milhões de anos de alegria e vadiagem, o homem não trabalhou.

Tanto um como o outro (neandertal e sapiens) viviam para comer e se reproduzir. Freud dizia que tudo na vida é casa, comida e sexo. Lá atrás, o homem nem sabia que fazia filhos. Tudo piorou quando se passou a pensar no futuro há mais de 70 ou 100 mil anos, tempo que o neandertal e o sapiens partilhavam o planeta, caçando e coletando. A agricultura deve ter surgido há 10 mil anos e dela vêm a propriedade e a herança.

A mulher, nas baladas loucas da caverna, ao transar com um chefe do clã, de acordo com Coimbra, foi quem descobriu a reprodução através do sexo. Antes ela viu um casal de filhotes de animais, caso do lobo, ancestral de todos os cães do mundo, copulando e depois parindo. Ficava na caverna cuidando dos filhos e começou a plantar as primeiras sementes extraídas dos frutos que o homem trazia.

Como foi dito antes, da agricultura vieram a propriedade e a herança, mas como o macho poderia ter certeza que o filho era dele para ter o direito de ficar com seus bens?  Só a mulher tinha porque o filho saia da sua barriga.

Naquela época não havia laboratório para fazer o teste de DNA. A forma segura foi obrigar a fêmea a fazer sexo só com ele. Lá vem a monogamia, subproduto da herança. Os homens podiam ter várias mulheres, mas, com o tempo, elas não se submeteram a essa nova ordem. Os problemas estavam só começando.

A MEMÓRIA DO MUNDO NA IMPRESSÃO DE GUTENBERG E A EVOLUÇÃO VIRTUAL

Como escreveu a autora do livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, Margaret Leslie Davis, “a palavra impressa mecanicamente criou a memória do mundo, como alguns estudiosos explicaram, ajudando a acender o Renascimento, a Reforma Protestante e séculos de revolução na ciência, na política e na indústria”.

Ainda de acordo com ela, Gutenberg e sua Bíblia representam a personificação dos primeiros momentos em que tantas possibilidades humanas puderam ser exploradas, multiplicadas e desenvolvidas. Para o historiador John Man, a invenção de Gutenberg preparou o terreno de onde emergiu a história moderna, a ciência, a literatura popular, o início do Estado-nação, muito de tudo aquilo com que definimos a modernidade.

No final do século XV, mais de 130 outras edições da Bíblia foram impressas e distribuídas por todo mundo. Cerca de 240 cidades europeias instalaram gráficas, que se estima que tenham imprimido cerca de 28 mil diferentes edições de inúmeras obras, produzindo um total de 10 milhões de livros.

A cidade alemã de Mainz celebra o impressor como um revolucionário tecnológico ao organizar o evento “2000: o ano de Gutenberg, marcando o 600º aniversário de seu nascimento”, com exposições em museus, apresentações em multimídia, festivais e um catálogo de 227 páginas: Gutenberg Man of the Millennium: from a Secret Enterprise to the  First Media Revolution (Gutenberg, o homem do milênio: De uma empresa secreta à primeira revolução na mídia).

A revista Life nomeou Johannes Gutenberg impressor independente que reformulou o avanço humano, como Homem do Milênio, em 2000, e colocando a impressão de suas Bíblias  no topo de sua lista dos fatos mais importantes dos últimos mil anos. Gutenberg foi um misterioso gênio-herói oprimido.

Segundo a Life, ele idealizou o primeiro sistema de tipo móvel ocidental que funcionou e permaneceu inalterado nos 350 anos seguintes. Não recebeu nada de glória. Sua ideia o levou à falência no ano em que a Bíblia foi publicada, e um credor assumiu o negócio.

A verdade é que Gutenberg transformou a cultura humana. O alcance do que se seguiu é tão vasto que parece místico e precisa ter uma história de origem para servir de referência. A escritora   Margaret destaca que a ambição de anunciar uma nova tecnologia de impressão com uma obra de 1.200 páginas é de tirar o fôlego, uma abertura para uma avalanche de mudanças.

A mais cobiçada de todas as Bíblias foi a de Número 45 que por séculos viajou pelo ocidente e foi parar no Japão, adquirido pelo conglomerado Maruzen num leilão que custou U$5,4 milhões, isso por volta de 1987, tornando-se o livro mais caro do mundo.

Um jornal importante japonês aplaudiu a aquisição da obra de tipos móveis mais antigo da história, mas sem mencionar a impressão na Ásia antes de Gutenberg. Em 770, a imperatriz do Japão, Shôtoku marcou o fim de uma guerra civil com a impressão e a distribuição de um milhão de pequenos pergaminhos com preces budistas.

O tipo móvel foi uma invenção chinesa do século XI, aprimorada na Coréia, em 1230, antes de encontrar as condições que permitiriam sua evolução na Europa, durante a época de Gutenberg, por volta de 1450/56.

Em 1996, a empresa Maruzen transferiu o livro 45 para a Universidade de Keio, uma das instituições privadas mais bem conceituada da Ásia, fundada pelo modernista Yukichi Fukuzawa, o primeiro japonês a ter visto uma Bíblia de Gutenberg, na Biblioteca Imperial, em São Petersburgo, em 1862.

O professor da Kio, Toshiyuki Takamiya, maior autoridade em manuscritos medievais, foi o primeiro a estimular a passagem da impressão de Gutenberg para o mundo virtual no século XXI. Ele liderou o projeto HUMI (humanities Media Interface) para digitalizar o acervo da Universidade Keio.

O projeto selecionou o Número 45, com seu tema inaugural, a primeira Bíblia de Gutenberg que navegou pela internet. O trabalho meticuloso produziu uma revolução digital. O número 45 foi ao ar pela internet em janeiro de 1998 e, pela primeira vez, os expectadores puderam ver as páginas de uma Bíblia de Gutenberg em suas telas. Esse projeto foi revolucionário no final dos anos 1990.

Depois de concluído seu intento, o professor Takamiya fez seu pronunciamento de que livros raros digitalizados, incluindo a Bíblia de Gutenberg, nunca se tornarão relíquias esquecidas da sabedoria ancestral. Eles ganharão vida toda vez que alguém tiver acesso a eles.

Em janeiro de 2001, o especialista em impressões de Gutenberg Paul Needham e Blaise Aguera, um jovem matemático computacional, anunciaram uma nova teoria descritiva sobre como Gutenberg criou seu tipo. Diziam que o impressor havia usado um processo de montagem refinada, evoluindo um sistema de “matriz de punção”.

Explicaram que letras individuais teriam sido esculpidas em pontas de hastes de aço e perfuradas em folhas de cobre para criar moldes resistentes (matriz) que poderiam ser preenchidos com uma liga de chumbo para criar um tipo de peça. Uma punção pode ter sido usada para criar vários moldes, dos quais poderiam sair uma quantidade infinita de letras idênticas.

Um artesão habilidoso levaria um dia para esculpir uma letra em aço, então o processo seria mais econômico se uma pequena coleção de punções fosse usada de forma repetida. Os estudiosos perceberam tantas diferenças que estimaram haver 204 punções diferentes.

O especialista Needham observou que esse tipo de sistema complexo, denominado de tipografia cuneiforme, era conhecido por ser usado por artesões europeus no início do século XV, incluindo os ourives. Os moldes de metal atribuídos por Gutenberg podem ter sido inventados por outra pessoa, talvez duas décadas depois de Gutenberg começar a imprimir as Bíblias.

Aguera y Arcas, que mais tarde chefiou o grupo pioneiro de inteligência artificial no Google, afirmou que as descobertas mostram que o desenvolvimento da impressão avançou em várias pequenas etapas ao invés de grandes saltos.

 

 

OS LIVROS COMO ARTES DE VELOR

A invenção da impressão pelo alemão de Mainz, Johannes Gutenberg, em meados do século XV, com a publicação da Bíblia por volta de 1456, foi o prenuncio da evolução científica e da Revolução Industrial no final do século XVIII.

A partir daquele período vieram outras gráficas e um boom de publicações de raros manuscritos e obras valiosas, como dos mais notáveis filósofos gregos (Sócrates, Aristóteles e Platão), além de ícones da intelectualidade da Igreja Católica, com destaques para São Jerônimo e São Tomás de Aquino. Eram os chamados livros incunábulos, ou seja, aqueles editados até antes de 1501.

Atrás dessas raridades houve uma corrida dos afortunados ingleses que dominaram esse mercado de arte entre os séculos XVIII e XIX. Os petroleiros norte-americanos entraram com toda força no século XX até por volta de 1985/87 quando os asiáticos (japoneses) roubaram a cena através dos famosos leilões ocorridos em Nova Iorque, Los Angeles e Londres.

Nessa época, o livro mais famoso leiloado foi a Bíblia de Número 45 de Gutenberg, o mais procurado, que alcançou um valor superior a US$5 milhões, considerado o mais caro do mundo. Até outubro de 1987 essa obra pertencia ao Seminário São João, localizado ao Sul da Califórnia, a qual foi doada 25 anos atrás pela ricaça do petróleo Estelle Doheny junto com sua coleção de raridades.

A venda desse acervo precioso, de cerca de 30 milhões de dólares pela Igreja Católica, provocou uma onda de protestos e denúncias por parte da mídia dos Estados Unidos e de personalidades de intelectuais da sociedade, mas venceu o pensamento retrógrado do arcebispado da Califórnia. Esses livros de valores incalculáveis saíram das mãos dos norte-americanos para os asiáticos.

Além da Bíblia 45, outros itens impressionantes foram leiloados, como um largo fólio que pertenceu ao Papa Alexandre VI, no século XV, uma impressão única da Bula de Demarcação, que separou as terras do Novo Mundo entre Espanha e Portugal, A Queda dos Príncipes, de Giovanni Boccacio, de 1494 e uma cópia de obras de Aristóteles em grego, impressa por Aldus Manutius, A Rationale Divinorum Officiorum, de Guillaume Durand, de 1459, a Epistolare, de São Jerônimo, de 1470 e um exemplar do mesmo ano da Summa Theológica, de São Tomás de Aquino, bem como  outras bíblias raras.

Entre a Bíblia de Estelle, a de Número 45, constava do leilão um ensaio manuscrito de Mark Twain sobre Gutenberg, escrito em 1900, para comemorar a inauguração do Museu do inventor da impressão, em Mainz.

Em uma parte do texto ele dizia que a conquista de Gutenberg criou uma terra nova e maravilhosa, mas, ao mesmo tempo, também um novo inferno. Durante os últimos 500 anos, a invenção de Gutenberg forneceu à terra e ao inferno novas ocorrências, novas maravilhas e novas fases – assinalou.

Segundo Mark, a invenção criou verdade livre e deu-lhe asas, mas a inverdade também se espalhou, e a ela foi fornecido um duplo par de asas. O que o mundo é hoje, bom e mau, ele deve a Gutenberg. Destacou que o mal que sua colossal invenção trouxe é mil vezes ofuscado pelo bem que a humanidade recebeu.

 

O LIVRO CONTINUARÁ VIVO

Há mais de 20 anos quando surgiu a internet e o celular, aquele Motorola chamado de tijolo, muita gente metida a entender do assunto, os mais novos empolgados internautas, saiu espalhando por aí em suas palestras que o livro estava com sua data de morte, e muitos acreditaram nisso. Falavam até que iam para o lixo, ou as traças se encarregariam de destruí-los.

Nunca acreditei nesse papo furado. Aquele discurso me fazia lembrar do mesmo quando surgiu a televisão na década de 50 quando disseram que era o fim do rádio. Depois de todo esse tempo, com o e-book e tudo, o livro de papel, ou o impresso, continua e continuará mais do que vivo, e agora, para nossa felicidade, as crianças e jovens estão criando neles o hábito da leitura.

A prova disso está nas visitações das bienais e nas feiras literárias, com novos lançamentos, e as editoras se reanimando. Todo esse quadro é um bom sinal para o futuro. Parece que a praga do celular está passando da fase da adolescência para uma juventude mais madura e consciente e daí para a idade adulta.

Todo este avanço tem mais a mão do setor privado, do surgimento de novos escritores, inclusive do gênero poético e do romance, e de ações empresariais, do que dos governos municipal, estadual e federal que, infelizmente, pouco têm ligado para a cultura, como é o caso particular de Vitória da Conquista.

De acordo com pesquisas do setor livreiro, cerca de 60% das escolas públicas ainda não têm bibliotecas, contrariando metas do poder público federal de que toda unidade escolar deveria ter seu acervo literário. É muito triste quando ouvimos candidatos pregarem que cultura não dá voto, mas isso vai mudar.

Para suprir essa lacuna, bibliotecas comunitárias de bairros urbanos e até na zona rural estão se espalhando por várias cidades do país, graças a iniciativas de pessoas abnegadas e ávidas pelo conhecimento e pelo saber. É uma constatação de que nem tudo está perdido. Podemos sim, recolocar o livro em seu pedestal dos anos 50 e 60 quando nossos estudantes andavam com um autor debaixo do braço.

Esse quadro pode até demorar mais algum tempo, mas a esperança está nas crianças que estão nos dando esses sinais de que o livro continuará imortal como sempre. É uma luz no fim do túnel depois de anos de escuridão. Esses meninos e meninas serão multiplicadores quando se tornarem pais.

Portanto, em meio a todo esse turbilhão das redes sociais, da tecnologia avançada e da inteligência artificial, o livro viverá. Com o crescimento da leitura, me arrisco a dizer que também os jornais e as revistas impressos também retomarão seus espaços nos meios de comunicação. Quem viver, verá.

“A PODEROSA CAÇADORA DE LIVROS”

Entre os séculos XV ao XIX, os grandes caçadores de livros antigos e raros, a partir da Bíblia de Gutenberg, por volta de 1456, se concentraram entre os livreiros, leiloeiros e afortunados da Grã-Bretanha.

Somente no início do século XX, no pós I Grande Guerra, esse quadro mudou, e os norte-americanos assumiram essa posição de colecionadores, inclusive trazendo livros da Inglaterra, ao ponto do governo inglês impor restrições para que essas obras não saíssem do país, sob o argumento de que essas relíquias já eram do pertencimento do Estado.

Um dos primeiros a investir nesse ramo foi o casal Edward Doheny e a senhora Estelle, mais por iniciativa dela quando o marido, dono de empresas petrolíferas, já se encontrava em decadência e passado por momentos difíceis de idade e suspeito de subornos e corrupções, além de ter perdido seu único filho que foi assassinado.

No livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, da escritora Margaret Leslie Davis, ela descreve que “rastrear o paradeiro das Bíblias ao longo do tempo produz o mapa de valor de influencias em transformação, na medida em que os livros se movem dos confins da Igreja Católica para as bibliotecas dos aristocratas da Europa continental e, em seguida, fluem para os construtores do império da Grã-Bretanha, embelezando a reputação de cada um dos sucessivos proprietários”.

Com Dyson, criador do molho inglês e das ilustradas porcelanas, a classe mercantil mostrou sua ascensão, e agora o centro do poder passa para os Estados Unidos, onde magnatas-colecionadores, como J.P. Morgan e Henry Huntington, começaram a atuar no Novo Mundo, proporcionando um mercado pronto para as bibliotecas que são vendidas para financiar fugas e a recuperação das agruras da guerra.

Os novos reis querem as Bíblias de Gutenberg. Eles obtêm por força de suas personalidades e de seus fundos. Os preços disparam, bem como a comissão paga pelo livro, agora alardeado pelos megafones norte-americanos. O colecionador Lessing J. Rosenwald anuncia que planeja comprar 84 títulos do catálogo do poderoso Dyson e indicou a Bíblia de Gutenberg entre eles.

Nesse esquema também entra a senhora Estelle Doheny, a herdeira, empresária e colecionadora da elite norte-americana que, na hora do leilão, estará no meio de uma caçada, cuja única conclusão possível será a posse do livro.

“Seu desejo por uma Bíblia de Gutenberg, com a busca de décadas que isso lhe custaria, surgiu, pela primeira vez, em 1911, logo após o surto de compras de livros antigos de Dyson, talvez sem saber ter atingido o alvo”. Na verdade, ela só veio a obter a Bíblia de Gutenberg, Número 45, em 1950, após a II Guerra Mundial. De origem católica, seu marido era um imigrante irlandês.

Doheny passou anos como garimpeiro, viajando com mochila e uma mula antes de encontrar o petróleo. Ela era uma telefonista com pouca educação e se tornou numa poderoso caçadora de livros, dentro de uma comunidade que aceita suas contribuições, como a Igreja Católica.

UM DOS MAIORES COLECIONADORES DE LIVROS E ANTIGUIDADES EGÍPCIAS

O livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, da autora Margaret Leslie Davis, faz menção ao grande colecionador de livros raros, dentre eles a Bíblia de Gutenberg, número 45, em poder do Lorde William Tyssen Amherst, que guardava esse precioso volume em sua mansão Didlington Hall, na zona rural de Norfolk, num cofre secreto.

O número 45 coroou uma biblioteca cuidadosamente montada, que traça a história de livros impressos, incluindo ainda instrumentos de corda de Stradivárius, prata finas e porcelanas de Limoges, tapetes persas, capitéis de pedra de Alhambra, em Granada, e os sinos da velha Catedral de Worcester.

No ano em que o número 45 entra em Didlington, as portas da mansão estão ladeadas por sete altas estátuas de duas toneladas de Sekhmet, a deusa egípcia com cabeça de leão, as mesmas que estão hoje ao lado do Templo de Dendur, no Museu Metropolitano de Arte, em Nova Yorque.

Sempre com um livro na mão, ou enfiado no bolso do casaco, Amherst acredita que uma pessoa não pode ser bem-educada se não conhecer e amar os livros. Ele comprou o primeiro incunábulo (livros impressos antes de 1501) em Arles, através do livreiro Bernad Quaritch, durante sua grande turnê.

Com uma grande fortuna, ele e sua família se aventuram pelo Egito e Síria, em complexas caravanas, e retornam com frequência ao Oriente Médio, às vezes permanecendo por meses, adquirindo lembranças e antiguidades a cada visita.

Nas viagens, ele e seus colegas trazem para a mansão, na Grã- Bretanha, a Pedra de Roseta, os mármores de Lorde Elgin, objetos funerários, múmias e deusas dos antigos túmulos do Egito e alguns dos primeiros livros e manuscritos da Europa e do Ocidente, polindo seus troféus de erudição e inserindo-se no discurso.

Por dez mil libras chegou a obter uma coleção de raridades de primeira classe, apenas realizada pelas Bibliotecas do Conde Grawford, do Conde de Ashburnham e da Coleção Spencer.

Finalmente, durante suas investidas, Amherst compra seu Gutenberg, número 45 de Estelle, em 1884, mais de dez anos depois de ter deixado passar os dois primeiros volumes. Ele não compra em leilão, mas em uma transação particular e não divulgada, com o livreiro James Toovey, após o leilão de Gosford.

Durante séculos trabalhou para construir uma história vultosa de livros impressos que incorporam o conhecimento, as paixões e as hostilidades das pessoas que os criaram e usaram e, esse único volume, se encaixa nesse quadro, não apenas como a fonte da impressão moderna, mas também como ponto de origem para sua coleção de primeiras edições dos livros oriundos da Reforma.

Sobre a Bíblia, Amherst explica que as grandes folhas de papel eram umedecidas antes de serem impressas, para que pudessem absorver melhor a tinta, e, uma vez feito isso, cada uma era dobrada e perfurada em certos pontos próximos às extremidades com uma agulha ou um furador, fornecendo guias, para que a impressão ficasse exatamente no mesmo lugar na frente, e atrás de cada página.

As Bíblias tinham no geral 42 linhas, para distingui-las de outra Bíblia da época, que se pensa ter sido impressa por um contemporâneo de Gutenberg, que criou o livro com uma fonte semelhante com páginas de 36 linhas. No canto superior direito da capa interna estão escritas a lápis as palavras “Antes de 15 de agosto de 1456”.

EM BUSCA DA BÍBLIA PERDIDA DE GUTENBERG

A SURPREENDENTE ODISSÉIA DE 500 ANOS PELO MAIOR TESOURO LITERÁRIO DE TODOS OS TEMPOS.

Como o próprio título já diz, o livro da escritora Margaret Leslie Davis fala da Bíblia de Gutenberg, uma obra-prima da cultura mundial, mas também faz um relato sobre os grandes colecionadores ingleses de livros raros que tiveram um próspero mercado no século XIX.

Apenas 48 ou 49 exemplares desse livro sobreviveram ao tempo e, destes, somente um, o de número 45 pertenceu à colecionadora norte-americana de Los Angeles Estelle Betzold Doheny, impresso por Johannes Gutenberg, um pouco antes de 15 de agosto de 1456.

Por via aérea de Londres, a colecionadora, viúva de um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, adquiriu esse importante livro em 14 de outubro de 1950. Essa Bíblia está inserida entre os 135 incunábulos, livros impressos antes de 1501.

Os incunábulos são livros seminais da cultura ocidental como “De Officiis”, de Cícero, a “Summa Theologia”, de São Tomás de Aquino e o exemplar de 1476 de “Os Contos de Cunterbury”.

A encadernação original da Bíblia 45 é do século XV, feita em pele de bezerro marrom escuro, esticada sobre pesadas placas de madeira. O exemplar de Estelle é a primeira impressão da primeira edição do primeiro livro impresso com tipos metálicos móveis, com as páginas novas e limpas.

De acordo com a escritora Margaret, a maioria dos estudiosos acredita que Gutenberg produziu cerca de 180 exemplares e, entre estes, provavelmente 150 foram impressos em papel e os outros 30 em pele de animal, conhecida como velino.

Os especialistas presumem que o livro, ao sair da oficina custasse cerca de 30 florins, o equivalente ao pagamento de três anos de um criado. As edições com pergaminho tinham um preço mais elevado, pois eram mais trabalhosas e caras para produzir. Um único exemplar exigia a pele de 170 bezerros.

A secretária Lucille, que cuidou da biblioteca da senhora Estelle, não conseguiu ler o texto do século XIII, em latim, a chamada versão parisiense da tradução de São Jerônimo, que foi a Bíblia definitiva da Idade Média. O livro de Gutemberg foi impresso em agosto de 1456 na cidade de Mainz, no Rio Reno, na Alemanha.

Um dado interessante é que todos os funcionários da oficina de Gutenberg tinham que saber ler e escrever o latim. Outra curiosidade é que os contemporâneos de Gutenberg já haviam começado a decifrar como fazer aquele trabalho, experimentando entalhar letras em madeira ou em metal e organizando-as em palavras para serem estampadas sobre pergaminho.

Gutenberg criou molduras para segurar o tipo no lugar e adaptou prensas daquelas tradicionalmente usadas para prensar azeitonas ou uvas. Projetou letras com aparência gótica para imitar a caligrafia dos escribas e técnicas refinadas para garantir que uma pressão uniforme fosse aplicada às folhas em branco, colocadas sobre os tipos com tinta em relevo.

CIÚMES

Do livro “Suspiros Poéticos” – a beleza da lira cor,  da poetisa Regina Chaves dos Santos

O amor é uma unção de beleza e cordialidade!

É uma coisa boa para viver com a pessoa que se ama e divide dos sonhos contigo… a pessoa que se faz presente, – te apoiando e se apoiando em tuas mãos.

Ao contrário, criar contendas sobre a pessoa que está caminhando lado a lado – se chama deslealdade.

O ciúme embota as certezas, deixando no peito, uma triste sensação de esvaziar-se: um grumo na cabeça; uma impaciência na alma; uma angústia no coração; um elo trincado…

Por conta da confiança quebrada e dos porquês não entendidos, não respondidos.

– O amor é uma unção de beleza e cordialidade e os ciúmes, – um misto de mera vaidade!

ZARATUSTRA E SUA MONTANHA COM SUAS CONTROVÉRSIAS E POLÊMICAS

Os estudiosos da área filosófica de um modo geral consideram o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), um filósofo fora da curva, controverso e polêmico, que chegou à sua loucura no final da sua vida, morando recluso com sua irmã.

Ficou órfão de pai aos cinco anos e foi criado, de acordo com nota da Editora Lafonte, que publicou “Assim Falava Zaratustra, pela mãe nos rígidos princípios da religião cristã. Dizem que ele era ateu, mas entendo que morreu intrincado em seu labirinto de dúvidas e certo da morte do Deus antigo, aquele vingativo, ríspido e carrasco idealizado pela religião, daí ter dito que a religião matou Deus.

Nietzsche cursou teologia e filologia na Universidade de Bom e ensinou na Basiléia, na Suíça. Por não conseguir levar a termo uma grande aspiração, a de casar com Lou Salomé, por causa da sífilis, contraída em 1889, isolou-se do mundo, vindo a morrer em 25 de agosto de 1900, em Weimar.

Seu espírito era irrequieto, próprio de um grande pensador. Era poeta por natureza, mas detestava os poetas, para ele mentirosos, dissimuladores e bajuladores. Era sedento por liberdade espiritual e intelectual, bem como apegado ao mundo concreto e real.

Do outro lado, foi um grande defensor da beleza da vida, da terra, dos animais e crítico feroz da fraqueza humana. Vivia uma vida de lutas contra si mesmo, controverso, polêmico e paradoxal.

Em “Assim Falava Zaratustra”, um dos trechos diz que “do alto da montanha, da caverna em que mora com seus animais, Zaratustra perscruta o horizonte, o infinito, o grande mar, o além e paira, junto com sua águia e com sua serpente envolto no pescoço da águia, seus olhares sobre o mundo sobre os pântanos em que se debate a humanidade sem rumo. No topo da sua montanha chegam visitantes desiludidos em busca de solidão, de paz, de sentido da vida”.

Entre os visitantes, o filósofo cita um ilusionista, um mendigo por opção, um viajante, o mais feio dos homens, dois reis, o Papa destronado, um adivinho e um jumento que se tornar novo líder desses homens e adorado como um deus. Eles tentam conviver em harmonia, aprendendo a sorrir, a dançar e sentir suas próprias almas. Terão coragem de se superar, vencer a si mesmos, suas angústias, de se transformar em homens superiores e atingir o ápice de super-homem? – indaga Zaratustra.

Em sua obra, Nietzsche nos deixa vários de seus pensamentos, como a de que a coragem mata a própria morte para recomeçar a vida. Quando o homem mergulha na vida, em seu olhar interior, também mergulha no sofrimento. Toda verdade é sinuosa. No céu e no sol está toda sabedoria, não no homem.

Em sua montanha, Zaratustra chega a fazer uma ode ao sol e ao céu. Ao se referir ao sol, em suas reflexões na caverna da sua montanha, chega a firmar ter desejos de ser fios de ouro como o relâmpago e tocar também em tua pança. Segundo Zaratustra, a liberdade total e a racionalidade são impossíveis e irascíveis.

“FORA DE SERVIÇO”

UM DIÁLOGO ENTRE UM ANTIGO PAPA E ZARATUSTRA SOBRE DEUS E SEU FILHO, NO LIVRO “ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”, DE NIETZSCHE

No capítulo “Fora de Serviço”, Zaratustra, personagem do livro de Nietzsche, se encontra, em sua caminhada, com um homem alto e escuro, na verdade o último Papa, um compungido, difamador do mundo, segundo sua avaliação.

Ele praguejava e, então, se dirigiu a Zaratustra que tentou se desviar dele. No entanto ele foi ao seu encontro, dizendo que “isto aqui é um mundo estranho e longínquo. Ouvi rugido de feras. Quem poderia me acolher já não existe.  Procuro um santo, um ermitão, único que ainda não ouvira dizer o que toda gente hoje sabe”.

–  “Que é que toda gente sabe hoje?” – perguntou Zaratustra. Talvez já não esteja vivo o Deus antigo, o Deus em quem antes toda gente acreditava.

O velho Papa respondeu ter servido a este Deus antigo até sua última hora. “Agora, porém, estou fora de serviço. Encontro-me sem amo e, apesar disso, não sou livre. Por isso só tenho alegrias com minhas recordações”.

Logo depois afirmou ter subido até a montanha para celebrar uma festa, pois “sou o último Papa!” , mas morreu o mais piedoso dos homens, o santo do bosque que louvava Deus. Como não encontrou na cabana, o homem ressaltou ter visto dois lobos que uivavam por causa da sua morte.

– Então meu coração decidiu procurar outro, o mais piedoso de todos os que não acreditam em Deus, Zaratustra, que pegou em sua mão e com olhar fixo disse: “Olha reverendo, que bela e longa mão que sempre deu a benção”.

-Eu sou Zaratustra, o ímpio que diz : “Quem há mais ímpio do que eu, para me alegrar com seus ensinamentos?” O Papa afirmou que agora o mais ímpio era ele.

Então Zaratustra indagou se o Papa sabia como ele morreu. “É certo o que se diz, que o asfixiou a compaixão? Ou ver o homem suspenso na cruz e não poder suportar que o amor pelos homens viesse a ser seu inferno e afinal sua morte?”

O antigo Papa não respondeu. – Deixa-o ir, já partiu – acrescentou Zaratustra. “É certamente em tua honra que nada de mal se deva dizer a respeito desse morto, mas tu sabes que ele seguia caminhos singulares”.

O Papa foi um bom servidor ao longo de seus anos e enfatizou que era um Deus oculto, cheio de mistérios, “Na verdade, teve um filho por estranhos caminhos oblíquos. Às portas de sua fé se encontra o adultério”. O velho Papa desatou a conversar:

– Aquele que o louva como Deus do amor, não forma juízo bastante elevado do amor em si. Esse Deus não queria ser juiz também? Mas amar é amar acima do castigo e da recompensa.

– Quando moço, esse Deus do oriente era ríspido e estava sedento de vingança. Criou um inferno para alegria de seus prediletos.

– Por fim, fez-se velho e meigo, terno e compassivo, assemelhando-se mais a um avô do que a um pai e até, mais a uma avó decrépita.

– Lá estava ele sentado, tristonho, ao lado do lume, preocupado com a fraqueza das pernas, cansado do mundo, cansado de querer, e um dia acabou por se afogar em sua excessiva compaixão.

Zaratustra interrompeu o Papa perguntando se tinha visto tudo que ele dizia com seus próprios olhos. “Pode muito bem ter sido assim. Assim e também de outra maneira. Quando os deuses morrem, é sempre de várias espécies de mortes”.

Desta ou de outra maneira já não existe. Era contrário ao gosto dos meus olhos e de meus ouvidos, isso é o pior que tenho a dizer dele – replicou o Papa.

Então, Zaratustra emendou que “gostava de tudo que tem o olhar claro e a fala franca. Ele, porém, bem o sabes, antigo sacerdote, tinha qualquer coisa de tua raça, dos sacerdotes: Era ambíguo”.

– Também era confuso. Quantas coisas não nos lançou no rosto, esse colérico, por falta de compreensão. Mas por que ele não falava mais claro?

– E se a culpa era de nossos ouvidos, por que nos deu ouvidos que o ouvissem tão mal? Se nos nossos ouvidos havia lama, quem a pôs lá? … Basta de um deus desses! É melhor não ter nenhum, é melhor cada um criar os destinos a seu capricho, é melhor ser doido, é melhor sermos nós mesmos deuses”.

O Papa ficou espantado e falou a Zaratustra que, com sua incredulidade, era mais piedoso do que pensava. “Foi algum deus que, convertendo-te fez de ti um sem-deus”. Disse ainda que sua excessiva lealdade iria conduzí-lo mais além do bem e do mal.

– Porque esse Deus antigo já não está vivo. Está morto e bem morto” – assim falou Zaratustra, encerrando sua conversa com o antigo Papa.

 





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