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:: ‘Encontro Com os Livros’

CABEÇAS DECEPADAS E DOIS “PARTIDOS” NORDESTINOS NA ÉPOCA DO CANGAÇO

A maioria das pessoas considera uma barbaridade a decapitação das cabeças de cangaceiros mortos pelas forças das volantes e tem suas razões, mas existem explicações.

Do outro lado, o cangaço, entre final do século XIX até 1940, fazia o mesmo com os chamados “macacos” e até esquartejavam impiedosamente. O cangaceiro Antônio Silvino tinha o prazer de sangrá-los depois de tombados em combate.

Sobre o assunto, veja o que nos diz o pesquisador e escritor Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros”. Depois das lutas, o fardamento dos soldados das volantes (vestimentas parecidas a partir de 1925) ficam em péssimas condições, muitas esfarrapadas.

Quando ganhavam os embates, de acordo com Pericás, decepavam as cabeças dos rivais por eles assassinados. O autor do livro aponta três motivos para a decapitação do inimigo.

Um deles para demonstrar desprezo e, consequentemente, humilhar o rival. Se o cristianismo defende a inviolabilidade do corpo, a decapitação seria uma forma de tirar esse “privilégio” dos bandidos. Com a cabeça separada do tronco, sua alma estaria perdida. Essa seria uma forma estranha de punição. Exemplo claro foi o de Corisco, enterrado inteiro e depois exumado e decapitado. Para alguns, o ato teve como objetivo estudar seu crânio.

Luiz Pericás deixa claro que isso funcionava para os dois lados. Ao terminar o ataque a Betânia, os civis pediram a Lampião permissão para sepultar os soldados assassinados. O “governador do sertão” respondeu que “macaco” não se enterrava. Para ele, os policiais deveriam ficar por cima da terra para serem comidos pelos urubus. Depois de muita insistência, o cangaceiro deu permissão.

Antônio Silvino (1897-1914) havia feito o mesmo. Em 1904, após assassinar o sargento Manoel da Paz, proibiu que o povo de Mogeiro o enterrasse. Não poderiam colocá-lo num cemitério, já que seria uma profanação sepultar um “bandido” daquele tipo num lugar sagrado – disse Silvino.

O segundo motivo era de implicações mais práticas. Como era inviável o transporte de cadáveres e, considerando que era fundamental exibir as provas da eliminação de muitos cangaceiros procurados, o corte das cabeças se mostrava a melhor opção. A exposição em praça pública daria mais segurança para o povo de que aqueles indivíduos não seriam mais ameaças.

O último motivo é que as cabeças serviam como troféus macabros para os oficiais, que poderiam usá-las como símbolo de suas eficiências militares. Em última estancia, seriam estudadas por cientistas, antropólogos e criminalistas, e depois guardadas em museus.

Por outro lado, as cabeças terminaram virando moeda de troca com as autoridades. Qualquer bandido arrependido que entregasse a cabeça de um cangaceiro para a polícia teria seus crimes perdoados pelo governo e ainda ganharia prêmios e garantias de vida.

Com José Osório de Faria, o Zé Rufino, que alugou serviços às autoridades baianas, havia um acordo secreto com o governo. Cada cabeça era trocada por uma promoção. Após 16 combates e 22 decapitações ele se tornou coronel de polícia.

No começo do século XX, cidadãos comuns decapitavam cangaceiros para roubar seus pertences. O sujeito que não fosse sangrado e torturado poderia se considerar um privilegiado. Depois de capturar e interrogar “Lavandeira”, o tenente Alencar decidiu sangrar o bandido, mas atendendo a um pedido do soldado, deu um tiro na cabeça.

DOIS “PARTIDOS”

No final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, o Nordeste, sem justiça, era uma terra de ninguém onde mandavam os coronéis, fazendeiros e senhores de engenho, se bem que os poderosos só mudaram de vestes e de lugar.

Os pobres e miseráveis ficavam numa linha de fogo cruzado e só tinham dois “partidos” para sobreviver, o do cangaço ou o da volante. Conforme relata Luiz Pericás, o governo contratava civis para as forças volantes.

“As tropas volantes, assim, se tornavam também uma forma de garantir um emprego e de ascensão social para muitos sertanejos. Outros se alistavam por terem recebido ameaças até mesmo de policiais e também para garantir sua segurança contra cangaceiros inimigos”.

A ideia de se perseguir desafetos que cometeram crimes contra suas famílias era um dos principais motivos de ingresso nas fileiras policiais. Pericás conta que um coiteiro de Lampião, Elias Marques, de Santa Brígida, depois de entrar em desavença com o “governador do sertão” ingressou na força policial.

Em alguns casos, quando o sertanejo não conseguia entrar nas volantes, caso do cangaceiro Tenente, decidia ingressar no grupo dos salteadores. “Fiapo”, depois de se desentender com Lampião, foi para a volante.

Quando “Volta Seca” foi capturado disse que nunca mais retornaria ao cangaço. Segundo ele, o jeito seria virar “macaco”. Também ocorria o inverso. Desertores da força pública se tornavam cangaceiros, como Ignácio Loyolla Medeiros, vulgo “Jurema”. Ficou na polícia até 1922 e depois se incorporou ao grupo de Lampião.

“Corisco” também foi militar, tendo servido no 28º Batalhão de Caçadores do Exército, em Aracaju-Sergipe. Após participar de uma rebelião, em 1924, desertou e mais tarde se tornou cangaceiro. O caso mais conhecido de um militar do exército brasileiro a se tornar um cangaceiro foi o de José Leite Santana, vulgo “Jararaca”, que chegou a lutar na revolta tenentista de São Paulo, em 1924, e também esteve no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

Um, dos filhos de Antônio Silvino se tornou oficial do exército. Certa vez Lampião disse que não havia nascido para a vida de cangaceiro.  “Se não houvesse nêgo na polícia pra manobrar com a gente, eu ainda iria ser soldado”. Joca Bernardo, coiteiro de “Corisco” e delator do paradeiro de Lampião em Angico, recebeu a oferta de cinco contos de reais e uma patente de sargento. Foi enganado e caiu em desgraça.

OS LADRÕES DE LIVROS

Estava na Feira Literária de Itapetinga e papo vem, papo vai, pintou a conversa sobre a questão da leitura que anda desmilinguida e definhada no Brasil. Falei sobre os antigos ladrões de livros que hoje são escassos nas livrarias e sebos. Um colega de lá sugeriu que eu escrevesse uma crônica sobre o tema, e aqui vou eu com essa incumbência delicada e difícil.

– Vambora cumpadi, que na pista tombou um caminhão! Tão dizendo que é de carne, frutas, feijão, milho, celulares ou de bebidas. Nesses casos, o saque é repentino e a polícia não tem condições de controlar a multidão, como ocorreu recentemente numa zona do Rio de Janeiro.

Em pouco tempo os moradores da redondeza ocuparam o local da serra, como abelhas em enxames. Não se sabe de onde apareceu tanta gente em questão de minutos. A notícia corre com rastilho de pólvora.

Para surpresa ou decepção, era um caminhão de livros que estava indo em direção à capital e perdeu o controle na descida de uma ladeira.

– É cumpadi, perdemo a viagem. Só tem livro espalhado pelo asfalto! Coisa pra doutor! Esses papéis não serve de nada pra noís. Queremo é comida, bebida e celular. Nem pra ser de cigarro ou outro produto de contrabando.

Alguns começaram a esbravejar e até ensaiaram xingamentos. Coisa foi ver a cara do malandro que jogou óleo na estrada para provocar o acidente! Quem ia imaginar que aquela carreta estava cheia de livros! Azar da peste! – Gritou alguém irritado.

A carga permaneceu intacta sem ninguém tocar. Um olhava para o outro com o semblante de frustração e ia saindo de mãos vazias para suas casas. O policiamento só observa de longe e o carregamento foi salvo, sem precisar acionar o serviço do seguro.

Essa conversa rolou em tom de gracejo num realismo-fantástico nos dias de hoje, mas lembramos das eras dos anos 50, 60 e até início dos 70 dos ladrões de livros. Não era coisa surreal.

Eles tinham até o apelido de ratos de livrarias, sebos e bibliotecas. Os donos e funcionários responsáveis ficavam de olhos atentos, mesmo porque nem existiam câmaras para vigiá-los, como atualmente.

– Hoje não existem mais ladrões de livros como antigamente quando se levava uma obra debaixo do braço para se ler e discutir com um amigo-parceiro num botequim, bar ou restaurante – disse para um companheiro escritor.

– Você que pensa assim, mas ainda tem alguns soltos por aí. O Raí, do sebo, me contou que fica bem atento porque vez ou outra, numa feira literária, alguém lhe furta um exemplar – retrucou o amigo.

Para não perder a viagem imaginária sobre a queda de leitores e a importância do livro na vida das pessoas, tive que sair pela tangente.

– Naqueles tempos, ainda menino moço, presenciei um assalto inusitado a mão armada na cidade grande. Enquanto um jovem concentrado lia num banco de jardim, aproximou-se um sujeito mascarado de revólver na mão:

– Perdeu, meu camarada, passe o livro de Fiódor Dostoiévsk. O ladrão foi quem perdeu porque se tratava de uma obra de um autor brasileiro, o nosso maior Machado de Assis.

Aí ninguém aguentou e caiu na risada, mesmo insistindo que foi fato verdadeiro e citei até o dia, a hora e o ano, inclusive retratei o local. Nem assim acreditaram.

– Isso não passa de uma lorota. Você deve ter avançado pelo túnel do tempo futurístico e se esborrachado no celular onde tem ladrão por toda parte e um monte de gente dando bobeira, batendo com a testa até em poste e tropeçando em calçadas.

Quanto ao livro, você pode ficar em pé ou sentado num banco da praça com ele aberto e lendo que ninguém encosta. Vão é te chamar de maluco desajuizado da cabeça que anda no mundo da lula. Você já viu alguém assim por aí?

– É, mas que existem ladrões de livros, existem, mesmo raros – falou o portuga entre uma discussão e outra, para passar o tempo durante a falta de leitores interessados em comprar uma obra.

 

 

 

 

“NA PIOR EM PARIS E LONDRES”

Quando comecei a ler o livro “Na Pior em Paris e Londres”, de George Orwell, bateram em mim as lembranças dos meus tempos em Salvador nos anos 1970/71 de dias difíceis para sobreviver, sem um teto onde morar, sem contar que a fome consumia meu cérebro.

Havia passado no vestibular para Jornalismo e, para segurar a barra pesada, vivia de uns bicos aqui e acolá para comprar um pão e uma garrafinha de mel da marca Kall, se não me engano, feito de milho. Eram minhas refeições diárias, isto quando conseguia uns cruzeiros. Meu desespero não foi maior, com consequências imprevisíveis, porque um amigo me ajudou naquilo que pode.

Bem, não quero retratar esse meu passado ingrato porque quem já atravessou por ele fica com trauma e medo de que um dia tudo venha se repetir. A vantagem é que você sai dele com mais forças e tudo faz para que não mais ocorra em sua vida. Você, no entanto, não tem mais certeza se suportaria encarar outra fase de pobreza e miséria.

Algumas coisas que o autor descreve aconteceram comigo, daí as tristes recordações. Certa vez meu pai enviou um dinheiro suado do seu trabalho para mim por um conhecido “amigo” e ele não me entregou a quantia com a desculpa que teria gastado por necessidade. Era um alento ao meu espírito. Nesse dia fiquei ainda mais arrasado e aniquilado.

O autor mostra o lado miserável de Paris lá pelo final da I Guerra Mundial anos 1917/18 e inicia pela Rua Du Coq d´Or, um local de mendigos, ambulantes, brigas, crianças perseguindo cascas de laranjas nas pedras do calçamento e o fedor azedo das carroças de lixo.

Todas as casas eram hotéis lotados até os ladrilhos com inquilinos, principalmente italianos, poloneses e árabes. O seu se chamava Hôtel des Trois Moineaux. “Era um labirinto escuro (me fez lembrar de uma pensão no Politeama, em Salvador) de cinco andares, separado por divisórias de madeira em quarenta quartos. Eram sujos. A Madame F. era a patronne (patroa). Lembra “O Cortiço”, de Aloísio Azevedo.

No início ele faz uma descrição das pessoas e dos locais de pobreza. Sem emprego, seus francos foram se acabando e aí ele recorre ao amigo russo de nome Boris. Os dois unem forças no Bairro Coq d´Or, na mesma situação de miséria, e quase tudo que eles planejam não dava certo. O Boris havia lutado na Rússia durante a guerra civil e se refugiou em Paris. Chegou a ser garçom, mas caiu em desgraça.

-Você descobre o que é sentir fome. Com pão e margarina na barriga, você sai e olha as vitrines. Outra passagem que me toca quando andava esmo de barriga vazia pela Avenida Sete de Setembro e via e ouvia o tilintar dos talheres nos restaurantes cheios, com farta comida. Aquilo era como se fosse um soco no estômago.

– Você descobre o tédio que é inseparável da pobreza; os momentos em que você não tem nada para fazer e, estando subnutrido, não pode se interessar por nada.  Passa metade do dia deitado na cama, sentindo-se como o jeune squelette (jovem esqueleto) do poema de Baudelaire.

Em um dos trechos da sua obra, Orwell desabafa afirmando que, quando você está se aproximando da pobreza, você faz uma descoberta que supera algumas das outras. Descobre o tédio, as complicações mesquinhas e os primórdios da fome, mas também descobre o grande traço redentor da pobreza: O fato de ela aniquilar o futuro.

O Boris, seu amigo, amaldiçoa o judeu com quem vivia no quarto apertado. Ele confessava ao inglês que era uma tortura para um russo de família estar à mercê de um judeu. Eu que era capitão, aqui estou, comendo o pão de um judeu.

O russo, então contou a história de um velho judeu que lhe levou uma moça de dezessete anos ao seu acampamento de guerra e lhe cobrou cinquenta francos, só que a menina era sua própria filha. O judeu! Levou meus dois francos, o cachorro, o ladrão! Ele me roubou enquanto eu dormia – disse Boris, espumando de raiva.

A parte mais forte e que me chocou é quando o escritor fala sobre a fome. “A fome reduz a pessoa a uma condição totalmente covarde e sem cérebro, mais parecida com os efeitos colaterais da gripe do que qualquer outra coisa. É como se alguém tivesse se transformado em água-viva, ou como se todo seu sangue tivesse sido bombeado para fora e substituído por água morna. A inércia completa é minha principal lembrança da fome; isso, e ser obrigado a cuspir com muita frequência, e a saliva sendo curiosamente branca e floculante, como uma secreção espumosa de inseto. Não sei a razão, mas todo mundo que passou fome há vários dias percebeu isso”.

“A GUERRA ME FEZ BEM E MAL”

Na segunda parte do oitavo capítulo do livro “Um Pouco de Ar, Por Favor”, o escritor George Orwell fala do seu personagem George Bowling que participou da I Guerra Mundial e afirmou que “a guerra me fez bem e mal”. Em sua concepção, o pior é o pós-guerra.

“Você se lembra daqueles hospitais de campanha em tempos de guerra? As longas filas de cabanas de madeira que pareciam galinheiros, presas bem no topo daquelas colinas geladas bestiais – a “Costa Sul”, as pessoas costumavam chamá-la assim, o que me faz imaginar como seria a “Costa Norte” – onde o vento parece soprar em você de todas direções ao mesmo tempo”.

Através da sua personagem, o autor da obra detalha em minúcias como era a vida nas trincheiras fedorentas onde os soldados se arrastavam na lama e “um cigarro a cada homem era exatamente como alimentar os macacos no zoológico”.

Relata que os homens nas trincheiras não eram patriotas, não odiavam o Kaiser, não ligavam a mínima para a pequena e galante Bélgica, e os alemães estuprando freiras nas mesas (era sempre “nas mesas”, como se isso tornasse tudo pior) nas ruas de Bruxelas.

A guerra fez coisas extraordinárias com as pessoas – descreveu George Bowling. O extraordinário era a maneira como matava as pessoas e como deixava de matar. “Era como uma grande enchente que o empurrava para a morte e, de repente, atirava você em algum lugar isolado, onde você se pega fazendo coisas incríveis e inúteis e ganhando dinheiro extra por elas”.

George narra que “havia batalhões de trabalho fazendo estradas através do deserto que não davam a lugar nenhum, havia caras abandonados em ilhas oceânicas para cuidar de navios alemães que haviam sido afundados anos antes, havia mistérios disso e daquilo com exércitos de escriturários e datilógrafos que continuaram existindo anos após o fim de sua função, por uma espécie de inércia”.

Durante seu tempo na guerra, George revelou que lia todos os livros onde muitos ficaram esquecidos. “Engoli todos como uma baleia que se meteu em uma espicha de camarões. Apenas me deleitei com eles. Depois de um tempo, é claro, fiquei mais intelectual e comecei a distinguí-los entre imbecis e não imbecis”.

–  Eu peguei Filhos e Amantes, de Lawrence, e meio que gostei, e me diverti muito com O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e As Nove Mil e Uma Noites, de Stevenson. Wells foi o autor que mais me impressionou.

Num dos trechos da sua narração, George destacou que, se fosse fazer a conta, admitiria que “a guerra me fez bem e mal”. De qualquer forma, aquele ano de leitura de romance foi a única educação real, no sentido de aprender com livros, que já tive. Isso fez certas coisas em minha mente”.

Ainda sobre a leitura, ressalta que lhe deu uma atitude questionadora, que provavelmente não teria se tivesse passado a vida de uma forma normal e sensata. Ele diz que não foram os livros que lhe deixaram impressionados, mas a horrível falta de sentido da vida que levava.

Em 1918, segundo ele, foi um ano sem sentido. “Aqui estava eu sentado ao lado do fogão em uma cabana do exército, lendo romances, e, a algumas centenas de quilômetros de distância, na França, os canhões rugiam, e bandos de crianças infelizes, molhando suas calças de medo, estavam sendo empurrados para a barreira de metralhadoras, do mesmo modo que você atiraria um pedaço de carvão em uma fornalha”.

– A coisa toda tinha tanto sentido quanto o sonho de um lunático. O efeito de tudo, mais os livros que estava lendo, foi me deixar com um sentimento de descrença em tudo. Eu não era o único. A guerra estava cheia de pontas soltas e cantos esquecidos…

“Seria um exagero dizer que a guerra transformou as pessoas em intelectuais, mas, naquele momento, os transformou em niilistas. … Se a guerra não matou você, certamente fez com que começasse a pensar. Depois daquela confusão idiota indescritível, não seria possível continuar considerando a sociedade como algo eterno e inquestionável, como uma pirâmide. Você sabia que era apenas uma confusão”.

A QUESTÃO SOCIAL, A I GUERRA E A DECADÊNCIA NA INGLATERRA

No livro “Um Pouco de Ar, Por Favor”, o famoso escritor George Orwell, conta a história de George Bowling desde os tempos de criança e sua obsessão pela pesca; os hábitos das pessoas mais pobres e seus problemas sociais nos idos dos anos 1909 a 1918. É uma narrativa na primeira pessoa feita por George numa pequena cidade inglesa.

Nessa época, ele mostra uma Inglaterra em decadência com grandes desigualdades sociais onde muitas empresas comerciais estavam entrando em falência. Apesar da vida corriqueira, pacata e monótona da classe média e carregada de preconceitos, o autor da obra prende o leitor com seus mínimos detalhes.

Ainda jovem, entre 16 a 17 anos, o narrador se alista e participa da I Guerra Mundial (1914-1918), lutando na França contra a Alemanha. George Boelling mostra os horrores da guerra e as sujeiras nos campos e nas trincheiras das batalhas. São cenas de degradação humana, atos de estupro, inclusive de freiras.

Em toda sua narrativa, George está sempre falando de pesca, mas volta também sua atenção para a descoberta da leitura aos 10 ou 11 anos, de maneira voluntária. “Nessa idade é como descobrir um novo mundo”. Sempre me apaixono pelo best-seller do momento (Os Bons Companheiros, Lanceiros da Índia e O Castelo do Homem sem Alma).

Quando jovem ele se tornou membro do Clube do Livro da Esquerda. “Li as coisas que queria ler e tirei mais proveito delas do que jamais tirei das coisas que me ensinaram na escola”. Descreve também os semanários para meninos que circulavam naqueles tempos dos idos de 1900.

Como ocorre no Brasil de hoje e em outros países do mesmo nível desenvolvimentista, o escritor relata a situação do narrador da prosa que teve logo cedo de deixar a escola para trabalhar para ajudar sua família que tinha uma loja entrando em falência.

Num de seus diálogos de juventude, George Orwell destaca que “Algum dia, de uma forma ou de outra, haveria dinheiro suficiente para eu “me estabelecer” sozinho. Era assim que as pessoas se sentiam naquela época. Isso foi antes da guerra, lembre-se, e antes das crises e do desemprego”. Ele relata os tempos da grande concorrência comercial, mas enfatiza que havia lugar para todos.

Sobre a vida jovem, diz que “em alguma parte conhecida da cidade, os meninos caminhavam para cima e para baixo em pares, observando as meninas, e as meninas caminhavam para baixo e para cima em pares, fingindo não notar os meninos. E logo algum tipo de contato era estabelecido e, em vez de dois, estavam andando em quatro, todos os quatro totalmente mudos”.

Quanto a primavera de 1914, George, o narrador, ressalta que a vida era mais dura. “As pessoas em geral trabalhavam mais, viveram com menos conforto e morreram de forma mais dolorosa. O que era chamada de pobreza “respeitável” era ainda pior. Você via coisas horríveis acontecendo. Pequenos negócios falindo, comerciantes sólidos indo aos poucos à bancarrota, pessoas morrendo de câncer e doenças hepáticas…”

“Meninas arruinadas para o resto da vida por um bebê ilegítimo. As casas não tinham banheiro, você quebrava o gelo da sua bacia nas manhãs de inverno, as ruas de trás fediam como o diabo no tempo quente, e o cemitério ficava cheio no meio da cidade, de modo que você nunca passava um dia sem se lembrar de como teria que morrer”.

No que diz respeito à crença religiosa, o escritor assinala, através de seu personagem principal, que quase todo mundo ia à igreja, pelo menos no interior. As pessoas acreditavam em uma vida após a morte. “Mas nunca conheci alguém que me desse a impressão de realmente acreditar em uma vida futura. Acho que, no máximo, as pessoas acreditam nesse tipo de coisa da mesma forma que as crianças acreditam no Papai Noel. É fácil morrer se as coisas com que você se preocupa vão sobreviver. Você teve sua vida, está ficando cansado, é hora de ir para baixo da terra”.

Ao falar da guerra, ele indaga: “Você se lembra daqueles hospitais de campanha em tempos de guerra? As longas filas de cabana de madeira, que pareciam galinheiros, presas bem no topo daquelas colinas geladas bestiais – a Costa Sul, as pessoas costumavam chamar assim, o que me fez imaginar como seria a Costa Norte – onde o vento parece soprar de todas as direções ao mesmo tempo”.

“Qualquer um que fosse forte o suficiente costumava vagar por quilômetros nas colinas na esperança de encontrar garotas. Nunca havia suficiente para todos. Um garoto de rosto rosado, de cerca de oito anos, caminhou até um grupo de homens feridos sentados na grama, abriu um pacote de Woodbines e prontamente entregou um cigarro a cada homem, era exatamente como alimentar os macacos no zoológico”.

 

 

 

 

 

“UM POUCO DE AR, POR FAVOR”

Na primeira pessoa, com o narrador na terceira (protagonista), o escritor indiano-inglês George Orwell descreve com detalhes, em “Um Pouco de Ar, Por Favor”, a vida em Londres num período próximo da Segunda Guerra Mundial, mostrando os hábitos e costumes de uma comunidade em seu cotidiano.

A leitura é fascinante, e o autor da obra prende o leitor a partir dos primeiros capítulos, fazendo um autorretrato de uma pessoa gorda e como é visto pelos outros. George Orwell, um escritor conhecido mundialmente, fala, numa maneira ácida e amarga, como vivia a classe trabalhadora e a população geral londrina, num ar de suspense diante do espectro de uma guerra que estava por vir.

Sua prosa, como escreve o prefaciador da obra, “abre uma janela para mostrar a ansiedade do pré-guerra experimentada por pessoas comuns na Inglaterra, como o protagonista George Bowling, que transmite seus pensamentos com grande honestidade e humor autodepreciativo”.

Mesmo cheio de detalhes das pessoas e das coisas em geral ao seu redor, o personagem, gorda e de quarenta e cinco anos, na primeira pessoa, não é enfadonho, muito pelo contrário, leva o leitor a seguí-lo em sua narrativa.

Entre tantos outros em seu entorno, George cita Hilda, de 39 anos. “Quando a conheci, parecia uma lebre. Ainda parece, mas está muito magra e um tanto enrugada, com uma expressão taciturna e preocupada nos olhos”… É uma daquelas pessoas que curtem a vida ao prever desastres”.

Em sua narrativa, o autor faz uma descrição do bairro pobre em que vive, “com ruas que se alastram por todos os subúrbios, do centro ao interior”. Suas expressões são fortes quando afirma que “as casas são sempre as mesmas. Longas, longas fileiras de pequenas casas geminadas. Existe algum tipo antissocial”.

Sobre os trabalhadores, chega a enfatizar que existem muitas besteiras sendo faladas sobre o sofrimento da classe operária. “Não lamento tanto pelos proletários. Você já conheceu um marinheiro que fica acordado pensando na demissão? O proletário sofre fisicamente, mas é um homem livre quando não está trabalhando”.

Quanto a fraudes imobiliárias, aponta para sua própria área de seguros. No entanto, retruca “que é uma fraude aberta com as cartas na mesa. Porém, a beleza das fraudes na sociedade civil é que suas vítimas pensam que você está lhes fazendo uma gentileza”.

Numa crítica ao capitalismo, num trecho do seu texto, assinala “que cada um desses pobres diabos oprimidos, suando até pagar o dobro do preço adequado por uma casa de boneca de tijolos,  que se chama  Belle Vue – que não tem vista e não é bela – cada um desses pobres otários morreria no campo de batalha para salvar seu país do bolchevismo”.

Bem, como todos já devem saber, George Orwell nasceu Eric Arthur Blair, em 25 de junho de 1903, em Bengala, na Índia, onde seu pai trabalhava para o Departamento de Ópio do Serviço Público Indiano da Grã-Bretanha. Estudou em instituições de elite e foi ele próprio durante cinco anos agente da polícia imperial da Birmânia. Viveu com os miseráveis em Paris e Londres. No final dos anos 20 lutou pela causa republicana na Guerra Civil Espanhola.

FONTES ANTIGAS DE “A MORTE DE CÉSAR”

O escritor e historiador Barry Strauss, de “A Morte de César” nos apresenta no final da sua eloquente obra as fontes antigas em que ele se baseou para realizar seu estudo acadêmico. Barry cita Plutarco, Apiano, Nicolaus de Damasco, Cassius Dio, Suetônio, dentre outros que podem ser pesquisados.

De acordo com ele, a moderna e a mais influente pesquisa sobre a transição da República Tardia para o Império Primordial é o livro de Sir Ronald Syme (A Revolução Romana, de 1939). O foco principal do trabalho é Augustus, mas o livro contém capítulos sobre os últimos anos de César e a conspiração contra ele.

Alguns dos temas abordados por Syme são o uso personalístico da política para a obtenção do poder, o papel chave desempenhado por Otávio na incitação das tropas contra o Senado em 44 e 43 a.C., e a realidade da monarquia por trás da retórica de Augustus quanto a restauração da República.

“O que podemos compreender da conspiração que matou César depende, em larga medida, do que podemos depreender das fontes antigas”. Robert Etienne traz este ponto à baila em seu excelente livro “Les Ides de Mars: La Fin de César ou de la dictature?” – “Os idos de Março: O Fim de César ou da Ditadura? ”

Plutarco, que foi a principal fonte de Shakespeare, enfatiza o papel desempenhado por Brutus e seu idealismo – ressalta Barry, ao acrescentar que Nicolaus, a quem o dramaturgo inglês não leu, acentua o sangue frio e mesmo as motivações cínicas dos conspiradores e ele também faz de Decimus um personagem chave.

Na análise do autor de “A Morte de César”, acadêmicos antigos tendem a desprezar as opiniões de Nicolaus porque ele trabalhou para Augustus. “Recentemente, os trabalhos de acadêmicos como Malitz e Toher reabilitaram Nicolaus como uma fonte contemporânea a sagaz…” Nicolaus foi um estudioso dos escritos de Aristóteles e Trucidides, duas mentes brilhantes quando se trata de política.

A vida de César é uma fonte inspiradora para muitos livros. “Para um homem de poucas palavras é difícil encontrar um pequeno volume melhor do que o excelente trabalho de J.P.V.D. Balsdon, intitulado Julius Caesar”.

Para alguns historiadores e pesquisadores, os assassinos de César (15 de março de 44 a.C.) eram aristocratas arrogantes, enquanto César seguia as regras da lei e contava com o apoio do povo romano. O tribuno Cícero disse que Decimus almejava fama e grandeza. Outros que os conspiradores tinham ciúmes mesquinhos.

Sobre o que César teria dito a Brutus, veja-se o artigo de P. Arnaud, “Toi  aussi, mon fils, tu mangeras ta part de notre pouvoir – Brutos le Tyrani? (“Tu Também, Meu Filho, Comerás a Tua Parte do Nosso Poder – Brutus, o Tirano?”)

Quando César foi apunhalado (mais de vinte vezes) pelos conspiradores, na versão de Shakespeare, quando ele viu Brutus, teria dito “Et tu, Brute? ou “Até tu, Brutus”. Suetônio já escreve que ele falou em grego : Kai su, Teknon, que significa “Tu também, filho”.

AUGUSTUS ENTRA TRIUNFAL EM ROMA

Depois de quinze anos de guerra civil, Otávio César Augusto entra triunfal em Roma como primeiro imperador no verão de 29 a. C., conforme descreve Barry Strauss em seu livro “A Morte de César”.

Decimus não causou problemas por muito tempo. Brutus e Cassius haviam sido oponentes mais fortes, mas foram liquidados três anos após os Idos de 15 de Março com o assassinato de Júlio César. Sextus Pompeu sobreviveu por mais sete anos. Marco Antônio constituiu para Otávio o maior desafio e se suicidou com sua amante Cleópatra.

Otávio comemorou um triplo triunfo. No primeiro dia celebrou as vitórias nos Balcãs. No segundo a conquista no Egito e, no último, o Estado grego era agora uma província romana. Na época, o Egito era um dos países mais ricos do mundo, uma conquista de Roma.

Como dois Césares não seria uma boa coisa, o no imperador ordenara executar Cesário, o filho de César que tivera com Cleópatra. Com a vitória em Actium, Otávio pode adquirir terras na Itália e ao redor de todo império para estabelecer novas colônias de assentamento de seus veteranos de guerra, sem confisco de propriedades.

Nas celebrações, o novo imperador dedicou ao Templo de Júlio Deificado uma série de realizações de jogos e banquetes públicos. Era esperado para o templo ser inaugurado em Julho (antigo Quintilis), aniversário de Júlio César, mas o objetivo era consagrar Otávio.

Em 8 a.C., o mês sextilis foi renomeado como agosto em memória dos três triunfos, e em reconhecimento ao título que Otávio assumira de Augustus, o reverenciado.

No novo regime, nas decorações do templo constava uma estátua de César envolto em um manto de sacerdote supremo. Entre as peças, uma obra-prima da pintura grega, representando Vênus, a deusa poderosa de César e sua suposta ancestral. Cleópatra, sua amante, e Antônio, seu braço direito, agora eram seus inimigos públicos.

As comemorações voltavam-se para o passado e para o futuro, como na dedicação do Templo da Mãe Vênus por César, em 46 a.C., incluindo os jogos de Troia. Haviam jogos de gladiadores e alusões ao Egito.

Os Idos de Março passaram a ser chamados como Dia do Parricídio onde nenhuma corte de justiça poderia reunir-se, nem qualquer lei ser aprovada. A Casa do Senado de Pompeu não foi mais usado para reuniões do Senado. O local foi transformado em banheiros públicos.

O culto a César era algo novo. Os romanos haviam glorificado grandes líderes, mas somente Rômulo, o legendário fundador de Roma, contava com um templo em sua homenagem.

O nome de César passou a designar uma categoria. Depois de Augustus, cada governador de Roma seria chamado César imperador. As palavras kaiser, em alemão, e tsar (czar) russo significavam imperador.

Assinala Strauss, autor da obra, que o sangue de César santificara o Império Romano. Onde César se elevara aos céus, Otávio viera à terra. Ele era imperator, o conquistador filho do Deificado. Em 27 a.C., Augustus aceitou o título do Senado.

Otávio César Augustus governou o Império Romano por mais 41 anos até 14 d.C. A era Augusta, foi considerada como um dos pontos altos da literatura latina, um período clássico, durante o qual os poetas Virgílio, Horácio e Ovídio e o historiador Lívio se encontravam em plena atividade.

Augustus, que vivia na Colina Palatino e, como todo soberano, olhava Roma lá do alto, criou uma dinastia. Quando ele morreu, seu filho adotivo Tiberius assumiu o posto e, depois da sua morte, em 37 d.C., outros membros da família serviram como imperadores. Em 69 d.C. outra dinastia substituiu a família.

O império prosseguiu por séculos, passando por guerras, revoluções, invasões, pestes e rebeliões. Um governador comandou a Itália até o ano de 476 da nossa era e, em Constantinopla (Istambul-Turquia), no Império Romano do Oriente, ou bizantino, os imperadores se sucederam até 1453.

César e sua compaixão pelos pobres permaneceram vivos, enquanto sua guerra à República pelo governo de um único homem e sua sanha assassina que escravizou e matou milhões foram esquecidos.

Depois de Pompeu e César, Roma necessitava de um executivo mais forte na administração imperial. Os mandatos governamentais passaram a ser limitados, para evitar a ascensão de um novo César; maior compartilhamento de poder com as províncias para evitar revoltas; e maior taxação das grandes riquezas para reforçar o exército.

Após as dinastias, o governo não mais pertenceria a uma única família. Uma República foi reformada com um governo constitucional, eleições livres, mandatos limitados, liberdade de expressão.

Senadores que se desgastaram com a pressão da dinastia, filósofos que sonhavam com a liberdade, todos apelavam a Brutus e Cassius como lendas. Até Augustus se permitia a um certo revisionamento. Ao deparar-se com uma estátua de Brutos, em Mediolanum (Milão), Augustus não ordenou sua destruição, mas, sim, sua preservação.

Com o passar do tempo, Roma tornou-se uma autocracia, mas não pelos trezentos anos seguintes, até o reinado de Deocleciano nos anos 285 a 309 d.C., tampouco sob o comando de Augustos. Diferente de Júlio César, ele jamais usou uma toga púrpura ou uma coroa de ouro. Ele mesmo dizia que havia restaurado a República.

 

 

 

CONSPIRADORES SÃO ELIMINADOS E OTÁVIO SE TORNA REI IMPERADOR

Quase todos conspiradores, principalmente os maiores líderes e aqueles que apunhalaram Júlio César com suas afiadas adagas tiveram mortes trágicas e alguns cometeram suicídio durante uma guerra civil de quinze anos que se seguiu após os idos de março de 44 a.C.

Otávio, o sobrinho herdeiro de César, que passou a usar seu nome e depois Augustus, foi mais esperto e venceu todas as batalhas, com entrada triunfal em Roma como rei imperador até 14 d.C. Estava estabelecida uma dinastia. Com um templo erguido em sua memória, Júlio César passou a ser cultuado como um deus santo e seu nome se perpetuou como imperador.

Brutos, Cassius e Decimus caíram em desgraça. Este último foi aprisionado com disfarce de gaulês e executado, segundo antigos historiadores, a mando de Marco Antônio que se uniu a Otávio e depois lutou contra ele. Foi amante de Cleópatra e ambos se suicidaram depois das derrotas no Egito.

Barry Strauss, autor da obra “A Morte de César” narra precisamente com detalhes todos os fatos de um império, que mesmo dividido, conseguiu sobreviver até 1453. Nessa luta pelo poder imperial, até Cícero, o grande tribuno orador da Quinta Filípica, que disse que o dinheiro é o alicerce da guerra, foi morto por Antônio em vingança por ter sido criticado pelo seu inimigo.

Em 42 a.C., Brutus e Cassius abriram centros de resistência. Cassius fez guerra na Ilha de Rhodes. Depois de duas derrotas, os habitantes abriram os portões da cidade para os romanos. Brutus atuou na Anatólia (Turquia), nas cidades de Lícia e Xanto que foram rendidas.

Em junho de 42 a.C. os dois se encontraram em Sadis, no oeste da Anatólia. No encontro, resolveram suas diferenças e decidiram rumar para a Macedônia. Do outro lado, Antônio e Otávio, que faziam parte dos triúnviros, deixaram Lepidus para trás cuidando da Itália. Eles cruzaram o Mar Adriático com dezenove legiões (cada uma com cerca de cinco mil soldados).

Vários orientais enviaram tropas auxiliares para Brutos e Cassius, tanto Deiotarus como o rei da Pártia (Îrã). Por um ano ou mais, os comandantes se dedicaram a levantar dinheiro, pela diplomacia ou pela força. Seus oficiais cunharam moedas.

A mais importante e famosa foi a denarius de prata de Brutos, com a inscrição de Imperator e a figura de duas adagas, justamente ele que sempre defendeu a República e a liberdade do povo. César nunca se fez retratar em moedas.

O grande confronto teve lugar nos arredores de Philippi (cidade em homenagem ao rei Felipe, pai de Alexandre, o Grande, da Macedônia). Numa noite, Brutos teve uma visão de um gênio ruim. Esta visão alertava Brutos: “Você me verá em Philippi”. No dia seguinte, Cassius teria avistado o fantasma de César, vestido com uma capa de comandante militar vermelho-púrpura.

Antes dos combates, Brutos escreveu a Aticus: “Ou eles libertariam o povo romano, ou morreriam e seriam libertados da escravidão”. Em Cassius, um comandante bom e em Brutus, um competente. Em contraste, Antônio, um general inteligente e versátil, e Otávio tinham poucos suprimentos.

No entanto, construíram fortificações para isolar o inimigo de seu acesso ao mar. Brutos e Cassius iniciaram operações de contrafortificações. Antônio atacou com toda sua fúria. Os homens de Cassius fugiram em debandada, mas os de Brutos conseguiram tomar o acampamento de Otávio que não estava ali, pois se ausentara a tempo devido a uma visão divina. Ele usou um anel de César como amuleto de boa sorte.

Na fuga e prestes a ser capturado, Cassius preferiu o suicídio, fazendo com que um escravo o decapitasse, mas historiadores dizem que não foi bem assim. O homem o matou sem que tivesse recebido ordens. Era o dia do aniversário de Cassius. Ele foi um político de convicções, membro dos Melhores Homens e contra um governo exercido por um único homem. Ele era favorável que Antônio também tivesse sido morto nos idos de março (14) de 44 a.C. Não concordou também com o funeral público para Julius César.

Brutos fez com que Cassius fosse enterrado em segredo para não deprimir seu exército. Com Brutus no comando (não era um general), as chances de vitória se reduziram. Não existia mais Decimus. O traidor Deiotarus, folha seca, passou para o lado de Antônio.

Brutos resolveu atacar e foi rompido pelas linhas do inimigo. Antônio foi o arquiteto da vitória, em Philippi. Brutos conseguiu fugir, viajando pelas colinas em companhia de alguns amigos. Como filósofo, recitou versos gregos sob as estrelas. Ele decidiu morrer feliz e deixar para trás sua reputação virtuosa, como descreveu Plutarco.

O poeta Horácio fez as pazes com o novo regime depois do seu combate em Philippi. Criticou Brutos e indagou do porquê ele não continuou a lutar ao invés de ter tirado a própria vida, mas tempos depois ele foi glorificado como Homem de Virtude, filho da grande Servília. Era final de 42 a.C. O corpo de Brutus foi cremado e Antônio mandou levar suas cinzas para a Vila Servília.

Sobre sua cabeça, segundo fontes, Otávio mandou que fosse decepada, tal como fez com Decimus.  Certa vez, Antônio declarou que Brutos fora o único a conspirar contra César, que era motivador pelo esplendor e a nobreza do ato. Quanto aos outros, somente o ódio e a inveja os motivavam.

A vitória ainda não estava consolidada. Da Sícilia, a frota de Sextus Pompeu controlava o mar. Ele fora derrotado em uma batalha, em 36 a.C. Fugiu para Anatólia onde foi capturado e executado. Lepidus sofreu um declínio implacável. Em 40 a.C. trocou a Hispania Próxima e a Gália Narbonesa pela província da África Romana. Depois, Otávio mostrou-se forte para afastar Lepidus. Em 36 a.C. foi forçado a um exílio numa cidade costeira ao sul de Roma.

Antônio e Otávio dividiram o império entre si, mas não tardou a se enfrentarem. Antônio ficou com o Oriente, onde foi amante de Cleópatra, e Otávio com o Ocidente com a tarefa de confiscar terras para dar aos seus veteranos de guerra. A poesia falava da miséria dos despossuídos.

Fúlvia, a esposa de Antônia, e Lucius, seu irmão, incitaram oposição à apropriação de terras. Isso só podia gerar guerra no centro da Itália, extinta pelas forças de Otávio. Um grande número de senadores e cavaleiros foi massacrado e exposto no altar Deificado Júlio nos Idos de Março. Eram sacrifícios humanos ao espírito de César. Depois da morte da sua mulher Fúlvia, em 40 a.C., Antônio casou-se com Otávia, irmã de César, mas tinha seu caso amoroso com Cleópatra.

Se Otávio tinha o nome de César, Antônio tinha a amante de César. O mundo romano não suportaria dois Césares, então foi guerra entre Otávio de um lado e Antônio e Cleópatra do outro. Senhor dos mares, Otávio teve sua frota vencedora na Batalha de Actium, a oeste da Grécia, em 31 a.C. Antônio e Cleópatra cometeram suicídio. Otávio se tornou soberano do império.

Dos conspiradores ainda haviam dois sobreviventes, Decimus Turullius que se juntou a Sextus Pompeu e depois a Antônio. Otávio mandou executá-lo na ilha grega de Cos. O próximo a ser morto foi o grande poeta de poemas curtos e cultos, Cassius de Parma, em 30 a.C. Este também teria se juntou a Sextus e a Antônio.

DEPOIS DAS ADAGAS ENTRARAM AS ESPADAS NA DISPUTA PELO IMPÉRIO

A história antiga e até a moderna nos conta que quando um grande líder poderoso se vai, entram as divisões e as disputas pela posse do comando do reino. Muitas delas foram lutas fraticidas e ambiciosas que se transformam em guerra civil, com muito sangue derramado.

Assim aconteceu com Alexandre, o Grande, da Macedônia, onde três grandes generais resolveram partilhar o império; com os faraós mais famosos, no Egito; entre reis na Mesopotâmia; quando o czar Nicolau foi destronado na Rússia, em 1917; durante a Revolução Francesa, em 1789; com Tito, na Iugoslávia, no final do século passado, dentre tantos outros episódios históricos dessa natureza.

Com o antigo império romano não poderia ser diferente. Quando cravaram as adagas assassinas, em 44 a.C., no ditador tirano Júlio César, que pretendia acabar com a República e ser rei, entram em ação as espadas de seus próprios algozes Brutos, Cassius e Decimus, que travaram batalhas sangrentas contra o herdeiro Otávio, Marco Antônio e Lepidus que se juntaram na disputa do maior reino da época.

Quando assassinaram César, em 15 de março de 44 a.C., temendo pelas suas seguranças, os líderes da conspiração se afastaram de Roma e até foram agraciados pelos atos do Senado deixados pelo ditador morto. Assumiram cargos de governadores no Oriente (Brutus e Cassius) e na Gália Italiana (Decimus), visando apaziguar os ânimos, mas as intrigas continuaram. Foram até anistiados.

De um lado, os veteranos da Guerra Civil (49 a 45 a.C.) e os apoiadores de César que tinham sede de vingança e, do outro, os mais moderados e negociadores que tentavam um acordo, mas agiam nos bastidores para arrebatar o poder. Um ano depois, todos já estavam no campo de batalha com suas legiões e cavalarias, como descreve o historiador Barry Strauss, autor do livro “A Morte de César”.

No início, os conspiradores se refugiaram na Colina Capitolina, um tipo de fortaleza segura, para se defender da fúria dos romanos. Argumentando que agiram em nome da liberdade do povo, eles deram demonstração de força ao marcharem do Pórtico de Pompeu para o Fórum Romano, na Colina Capitolina. O principal marco da Colina era o Templo de Júpiter, maior ponto religioso de Roma.

Com o assassinato de César, houve saques e a construção de barricadas por gente que tentava se proteger dentro de suas casas. Houve um pânico generalizado e a situação não foi mais grave porque Marco Antônio costurou um acordo com o Senado para manter os atos de César e não punir os assassinos.

Para que houvesse uma trégua, contaram muito os discursos inflamados e os escritos do tribuno Cícero, que variava muito de lado. A princípio, para ele, os conspiradores eram libertadores que colocaram a liberdade da pátria acima dos laços de amizade (Decimus era um grande amigo e homem de confiança de César). Para outros, os criminosos não passavam de traidores. Durante vida, o ditador sempre demonstrou clemência para com seus opositores, que retribuíram com ingratidão.

Durante anos os plebeus estiveram ao lado de César, mas no transcorrer dos seis últimos meses começaram a mudar de ideia. O tirano acabou com as eleições e depôs alguns Tribunos do Povo. No início, os conspiradores negaram que haviam assassinado César para tomar o poder. Eles se referiam aos seus ancestrais que haviam destronado reis e acusaram o ditador por ter obtido o poder através da violência. As tramas só estavam começando. O Senado classificou o assassinato como eliminação do tirano, ou tiranicídio.

Após a morte de César, no outro dia o destino de Roma começava a ser decidido em inúmeras reuniões, muitas delas convocadas por Marco Antônio. Ocorreram discursos no Senado, exibições e ameaças de emprego de forças militares, bem como planos escusos. Lepidus até convocou uma reunião popular, cada um fazendo seu jogo e reunindo suas tropas para tomar o reino.  Os seguidores de Pompeu, o maior inimigo de César, controlavam a Síria e parte da Hispania.

O filho Sextus Pompeu alardeava que possuía navios de guerra e sete legiões (cada uma tinha quatro a cinco mil soldados). No dia 17 de março, o Senado realizou uma reunião no Templo de Tellus, deusa romana da terra.

Os veteranos de César temiam perder suas terras e bens. Uns achavam que os assassinos mereciam recompensa, outros que apenas que deviam ser agradecidos. Por ironia, um que concordava com a recompensa foi Tiberius Claudius Nero. Mais tarde teria um filho que se tornou imperador tirano. Muitos se mostraram dispostos a conceder anistia aos conspiradores.

Marco Antônio e Lepidus desejavam vingança, mas acharam mais importante poupar vidas romanas. A presença dos veteranos de César em Roma era um temor. Todos estavam armados. Queriam que a memória do chefe fosse honrada. Antônio propôs clemência e anistia e até citou o caso de Atenas, onde depois de uma guerra civil, o povo optou por esta causa.

Depois dos discursos, um decreto foi aprovado garantindo aos assassinos a imunidade de perseguições e ratificando todos os atos e decretos de César. Por sua vez, sob pressão dos veteranos, para estabelecer uma reconciliação, o Senado aprovou dois decretos confirmando os direitos dos novos colonos que estavam em vias de assumir a posse de suas terras. Antônio propôs uma moção de abolição da ditadura. O Senado concedeu, e o maior ditador, jamais surgido em Roma, teve seu sepultamento memorável no dia 20 de março de 44.a.C.

Após seu testamento, cuja maior parte dos bens coube ao seu sobrinho-neto Otávio, o novo César, aí entraram as disputas ferrenhas pelo poder.  Brutus consolidava seu poder a partir de uma base em Atenas onde era exaltado como herói. Ele tentava abrir caminho para o controle das províncias da Macedônia, partes da Albânia e da antiga República Iugoslávia da Macedônia. Em fevereiro de 43 a.C., o Senado lhe conferiu o cargo de governador dessas províncias.

Do Egito, Cleópatra assistia a tudo com preocupado interesse. César havia deixado quatro legiões em seu território e, tanto Cassius como Dolabella as requisitava. A rainha atendeu a Dolabella, mas Cassius as capturou no caminho para a Síria, formando doze legiões. Enfraquecido, Dolabella foi derrotado. Ela resolveu auxiliar os oponentes de Brutus e Cassius que montaram uma estratégia para dominar todo Mediterrâneo.

Em abril de 43 a.C. o Senado confiou o destino da República a Cassius como governador da Síria, Brutus como governador da Macedônia e a Sextus Pompeu como almirante da frota. Cícero passou a apoiar Brutos, e sua mãe Servília procurou cuidar dos interesses do filho e de Cassius, em Roma, através de reuniões familiares.

Do outro lado, Otávio fazia seus movimentos e exigiu do Senado que lhe concedesse um consulado, mas a Casa negou o pedido sob o argumento de que ele não tinha idade (18 anos) suficiente. Prometeu para quando ele tivesse 33 anos. Um de seus soldados jurou fazer dele um cônsul através da espada. Com sua empáfia, Otávio cruzou o Rubicão, como fizera César, e marchou sobre Roma com oito legiões.

Na base da força, Otávio fez com que ele e seu primo Quintus Pedius fossem nomeados cônsules adjuntos e assim conseguiram aprovar uma lei (Lex Pedia) que rescindia a anistia aos assassinos de César, condenando os conspiradores.

Em setembro de 43 a.C, Antônio reentrou na Gália Italiana com dezenove legiões. No mês seguinte, ele, Otávio e Lepidus formaram um triunvirato com poderes ditatoriais. Juntos contavam com mais de quarenta legiões. Então, eles dividiram o império, cabendo a Antônio a maior parte da Gália. Lepidus ficou com a Gália Narbonesa e a Hispania, enquanto Otávio tomou a Sicília, a Sardenha e a África Romana. Em novembro de 43 uma lei tornou o triunvirato legal.

Sangue, dinheiro e propriedades imobiliárias foram seus primeiros interesses, sem clemência para quem matou César. Trezentos senadores e dois mil cavaleiros constavam de suas listas de expurgo e confisco de bens. O primeiro executado foi um juiz que votou pela absolvição de Brutus. Ganges de executores se espalharam por toda parte. O objetivo principal era levantar dinheiro para custear suas tropas. Para tanto, confiscaram terras para assentar seus soldados e instituíram novos impostos.

Brutus e Cassius entenderam que a guerra estava declarada. Em dezembro de 43, Cícero foi apanhado ao tentar fugir de sua vila e depois foi executado. Ele morreu com dignidade e sua cabeça foi levada a Roma e exposta na plataforma dos oradores, no Fórum Romano. Sua morte foi um marco na história da civilização ocidental. Outro que foi executado foi Decimus quando tentava entrar na Macedônia para se juntar a Brutus. De acordo com historiadores, sua morte foi ordenada por Antônio.

Os triúnviros aprovaram uma lei para que um templo fosse erguido e instituíram o culto público ao Divus Julius, o Deificado Júlio César. Essa deificação foi oficializada quando Antônio tornou-se sacerdote supremo. Isso dava direito a Otávio chamar-se a si mesmo de divi filius, o Filho do Homem Feito Deus. Aclamado como imperador, Otávio tornou-se Imperator Caesar Divi Filius.

 

 





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