:: ‘Encontro Com os Livros’
AS SECAS E AS AGITAÇÕES POLÍTICAS FAZEM PROSPERAR O CANGACEIRISMO
Por séculos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crianças, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentração. Os governantes pouco fizeram para minimizar a situação.
Além das grandes secas, os nordestinos ainda eram acossados pelas agitações políticas e o cangaceirismo que, em bandos, aproveitavam para saquear feiras, povoados e pequenas cidades, principalmente nas primeiras décadas do século passado. O povo vivia abandonado à própria sorte diante da falta de estrutura e desorganização dos governantes para conter o banditismo.
As secas alimentavam o cangaço, que se juntava às disputas entre os chefes políticos e os coronéis, gerando uma onda de violência e mortes sem precedentes no Nordeste, que por séculos viveu isolado. A justiça era a lei do mais forte numa terra onde tudo se resolvia na base da bala, sobretudo entre os séculos XVIII, XIX e até meados do século XX.
O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, em sua obra, “Guerreiros do Sol” descreve esse panorama de miséria, fome, violência e sangue. Para quem não conhece sua história de lutas, sofrimento e abandono, simplesmente vê até hoje o nordestino como um povo atrasado.
O banditismo viveu seu apogeu nos períodos de desorganização social, especialmente em razão dos fenômenos das secas, com destaques para as de 1692, 1723/27, 1774/76, 1792, 1844/45, 1877/79 (a maior de todas), 1915, 1919/20, dentre muitas outras.
As secas, ao lado das agitações políticas e o cangaço, golpeavam as incipientes estruturas, reduzindo as famílias, que prosperavam em tempos de chuvas, em estado de miséria. As lavouras eram perdidas, o gado morria à mingua e os retirantes faziam suas procissões profanas. Era o salve-se quem puder.
Descreve o autor que no coice dessas ocorrências, certamente o cangaço de ofício se manifestava com intensidade redobrada. Fazendo um balanço dos efeitos da seca de 1877/79 (na verdade começou bem antes), Irineu Joffily, em “Notas sobre a Paraíba”, lembra que era geral a falta de segurança. Muitos fazendeiros eram obrigados a levantar forças para defesa de suas propriedades.
O transporte de gêneros era difícil, Caravanas atravessavam 50 e 60 léguas de sertão, levando cada homem às costas, 40 e até 80 litros de farinha, além de armas para repelir as investidas dos famintos e os ataques dos cangaceiros.
Destaca o estudioso no assunto que, em 1692, os indígenas foragidos pelas serras reuniram-se em grupo e caíram sobre as fazendas das ribeiras devastando tudo. Em 1725 e nas outras secas desse século repetem-se as depredações e assassinatos. As disputas políticas incentivavam a proliferação da aventura cangaceira.
Paralelo à seca de 1844/45, surge no Cariri cearense o bando dos Sereno, espalhando por três estados até a Chapada do Araripe onde também aparece os Xio. No meado do século passam a atuar os Guabiraba que se fizeram bandidos nas escolas de Pajeú de Flores. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, o Pajeú se tornou numa universidade da violência e do cangaço. Com exceção de Jesuíno Brilhante (Rio Grande do Norte), de lá saíram os mais famosos como Lampião, Sinhô Pereira, Antônio Silvino, Antônio Quelé e tantos outros.
Os membros de os Guabiraba eram irmãos naturais da vila de Afogados da Ingazeira, no sertão pernambucano. De longe, Pernambuco liderou a criação de bandos na década de 20. Segundo historiadores, praticamente todos os dias aparecia um bando novo nos sertões nordestinos, destacando os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Em 1878, no auge da grande seca, salteadores infestaram todo interior, como dos Quirino, em Milagres, sob a proteção de João Calangro que, de acordo com o escritor Rodolfo Teófilo, fazia guerra de extermínio aos grupos que se formavam sem o seu consentimento. Nesta época, existiram os Mateus, formados por cem homens, os Simplício, os Meireles, os Barbosa e Viriato, todos da zona do Pajeú.
Frederico de Mello aponta que, com a seca de 1919, o cangaceirismo profissional entrou em fase de vertiginosa expansão. Quando os esforços repressores começaram nos anos seguintes, veio a Coluna Prestes, em 1926, proporcionando aos bandidos ampla recuperação devido a desorganização das forças volantes.
O ano de 1926 se converteu no maior apogeu de toda história do cangaço, tendo Lampião como principal responsável, ainda como cabra dos Maltide e dos Porcino, bem como no bando de Sinhô Pereira. Depois ele formou o seu grupo sanguinário.
Entre as agitações políticas, Frederico de Mello cita a ‘guerra santa” de Juazeiro do Norte, em 1914, a passagem da Coluna Prestes, entre 1926/27, o clima social e político do Cariri, em 1901, com inúmeras lutas armadas. As duas primeiras décadas do século XX foram as piores.
Com base em fontes de jornais e pesquisadores, o autor da obra elenca todos os anos, como em 1907, quando o coronel Gustavo Lima depõe à bala o próprio irmão Honório Lima, assumindo o comando político do município de Lavras.
Em 1909, os chefes políticos de Milagres, Missão Velha, Barbalha e outros municípios próximos reúnem mil homens para atacar o coronel Luis Alves Pequeno, do Crato. Em 1823 é assassinado, em Fortaleza, o coronel e então deputado estadual Gustavo Lima. Em 1928, o chefe político de Missão Velha, Isaias Arruda, é assassinado no trem.
Para acabar com toda essa guerra, em outubro de 1911, aconteceu um curioso encontro com vista a se firmar um pacto de paz, em Juazeiro. O Padre Cícero procurava harmonizar os conflitos dos coronéis que dominavam o Cariri.
O documento ficou conhecido como “pacto dos coronéis”, com duas clausulas principais. A primeira dizia que nenhum chefe procurará depor outro. A outra era que cada chefe, por ordem moral política, terminaria a proteção a cangaceiros, ou seja, não seriam mais coiteiros.
Nem bem secara as tintas, o Padre Cícero, mentor do pacto, derruba o Governo do Ceará, em 1914. Os coronéis fizeram o contrário. O documento foi letra natimorta. Por mais trinta anos vigorou a lei do mais forte.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO NO CANGAÇO NORDESTINO VIOLENTO
Além das fases endêmica e epidêmica entre os séculos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de “Guerreiros do Sol” aponta três características principais do cangaço nordestino, quais sejam o do meio de vida (o cangaço profissional), o da vingança e o do refúgio. Em cada um deles existem suas diferenças, como a indumentária, porte de armas, comportamento ético e duração.
Fora a oralidade, com seus boatos e falácias, muitos estudiosos se debruçaram sobre o assunto de ordem antropológica, acadêmica e psicológica. A literatura é vasta e o tema é empolgante porque chamou e ainda chama a atenção nacional e até internacional através de viajantes da época. A mídia impressa deu larga cobertura, muitas vezes de forma sensacionalista, tendenciosa e distorcida.
Para Mello, existiram dois grandes fatores de estímulo ao cangaço. Um de natureza sociológica e outro de feição mesológica, de forma imediata, mas com profundas repercussões sociológicas que foram as lutas de famílias e as secas. Estas últimas acarretaram a proliferação do cangaço profissional. A luta entre famílias armou o palco para o cangaço de vingança.
Vamos, então, ao que mais nos interessa nessa história, que deve ser cada vez mais estudada e pesquisada para que não fique na base superficial das contações de casos e causos. A lista de autores é enorme e as leituras são fascinantes. A questão precisa ser cada vez mais esmiuçada para entendermos melhor o fenômeno.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO
O cangaço meio de vida foi um tipo de maior frequência, classificado como banditismo de profissão, tendo como principais representantes os cangaceiros Luis Mansidão, Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque (século XIX), Antônio Silvino (1897-1914) e Lampião (1916-1938).
O cangaço de vingança ocorreu com menor frequência, embora suas características de banditismo, mais ético, emprestou uma imagem de destaque, principalmente literário. Sinhô Pereira, Luis Padre e Jesuíno Brilhante foram seus principais representantes.
O cangaço-refúgio foi um tipo de menor expressão. Caracterizou-se pela riqueza da estratégia defensiva. Seu maior representante foi Ângelo Roque, que manteve seu próprio grupo e depois se aliou ao bando de Lampião. Esses bandidos não chegaram a ser chefes e foi um cangaço de vigor mediano.
Os dois primeiros, o profissional e o de vingança, possuem características discrepantes entre si, com formas criminais distintas, mas com o mesmo rótulo de cangaço. O meio de vida obteve maior poder, notoriedade, fama e ganhos patrimoniais de ideal burguês.
Tanto Lampião, como Antônio Silvino, entraram no cangaço com o pretexto de vingança, mas depois foram deixando essa finalidade de lado e incorporaram o banditismo como negócio. Numa entrevista jornalística a um jornal do Nordeste, perguntado se ele deixaria o cangaço, Lampião devolveu a indagação como outra. Você deixaria um negócio que está dando certo e bons ganhos?
No entanto, Lampião viveu episodicamente períodos de vingança, como contra o cangaceiro Tibúrcio Santos, o Negro Tibúrcio, em 1924. Sinhô Pereira também praticou saques, em 1919. Nos tempos atuais, registra-se a extinção do cangaço meio de vida, bem como o do refúgio, quando o perseguido pela polícia se esconde num bando. Porém, ainda de forma esporádica, existe o de vingança.
O homem da vingança entregava-se por completo à missão moral de dar fim aos inimigos de sua família ou clã. Era um obcecado, consciente do papel destrutivo. “Se no primeiro destes, a adesão espontânea floresce num indivíduo integrado ao ofício a que se dedica, no segundo vamos encontrar um homem violentado em seus desejos de realização pessoal agindo sob coação moral irresistível, e que em seus gestos revela sua inadaptação à vida que leva” – assim analisa Frederico de Melo.
Segundo ele, o envolvido na missão de vingança vivia angustiado por sua busca obsessiva. Não encontrava na vida do cangaço os prazeres e atrativos que tanto prendiam o cangaço meio de vida como amantes desse tipo de existência a seu modo epopeico.
O interesse guerreiro-vingador reflete em sua vestimenta, restringindo o equipamento ao necessário e funcional na guerrilha. Não há estrelas nos chapéus dos vingadores. Nada de testeiras e barbicachos ornamentados em moedas de ouro, nem bornais bordados em policromia, a ponto de fazer desaparecer o brim grosso de que eram feitos. Os registros fotográficos provam isso, com clareza – aponta Frederico Pernambucano.
Muitos anos após deixar o cangaço, Sinhô Pereira disse ao Jornal do Brasil, edição de 26 de fevereiro de 1969: “Eu pessoalmente nunca gostei de enfeites. De bons apetrechos, sim. Cartucheiras de duas camadas, cinturões de revólver com duas carreiras de balas, e nada de espelho e moedas adornando chapéus”.
No caso de Lampião, as fotografias se inserem no quadro do cangaço profissional como negócio. No início se dedicou ao cangaço de vingança nas disputas contra os Nogueiras e José Saturnino, em Pernambuco, e José Lucena (matou seu irmão caçula João Ferreira), em Alagoas. Depois se acomodou no profissionalismo aventureiro, “em processo de transtipicidade”.
O Lampião da década de 30 enfeitava-se dos pés à cabeça. As estrelas de ouro e pedras preciosas apareceram e aumentaram. Essas estrelas ficaram maiores em 1936 e enormes em 1938, ano da sua morte, na gruta Angicos (Sergipe). Sua conduta divergia do vingador. Procurava ser documentado com seus riquíssimos trajes de guerra. Deixou-se filmar em 35mm, no ano de 1936.
Sinhô Pereira e Luis Padre evitavam ser fotografados com armas. Pousavam apenas em trajes civis. O comportamento dos vingadores era contido, com os chefes reprimindo os crimes sexuais e só permitindo expropriações em casos de necessidade.
Sobre os vingadores, o escritor José Américo de Almeida falou ser o destino de Jesuíno Brilhante, assassino por vingança, distribuindo os víveres dos comboios que atacava aos famintos da seca de 1877 e matando um de seus mais valentes, o escravo José, porque tentara violentar uma mulher.
Os vingadores dependiam das finanças de suas famílias que perderam seus bens. Sinhô Pereira disse uma vez que tinha terra e gado. “Vendi tudo barato para cuidar da vingança”. Os cangaceiros dos negócios se mostravam prósperos e autossuficientes. Viviam na opulência. Existem vários exemplos e testemunhas de cangaceiros que comprovavam isso.
Pernambucano de Mello destaca o nível de coesão entre esses dois grupos. Mais forte entre os vingadores, fraco entre os rapinadores, em cujo seio as deserções frequentes impunham rotatividade elevada e permanente atenção de seus chefes para com a atividade de recrutamento.
Sobre esta questão, o ex-cangaceiro Miguel Feitosa descrevia sobre o enxovalhamento dos cabras novos. Nos embates com as volantes, seus chefes gritavam seus nomes para que ficassem conhecidos dos comandantes das tropas, para dificultar-lhes um possível regresso à vida pacífica.
Quanto às origens sociais, o cangaço profissional vinha de uma origem humilde da classe média baixa de famílias não tradicionais. Os da vingança originavam-se de famílias importantes. Sinhô Pereira e Luis Padre eram netos do barão do Pajeú e descendentes de um comendador da Ordem da Rosa, do Primeiro Império. O cangaceiro Cindário pertencia à família Carvalho, do Pajeú pernambucano. O potiguar Jesuíno Brilhante chamava-se Jesuíno Alves de Melo Calado, título senhorial.
O autor de “Guerreiros do Sol” ainda descreve os aspectos existentes entre os grupos. No ponto de vista de duração no cangaço, Lampião e Antônio Silvino atuaram, respectivamente, 22 e 19 anos. Os vingadores mal atingem o lastro. Sinhô Pereira, vingado, retira-se após seis anos. Seu Primo Luis Padre, cinco anos. Pouco tempo também tiveram Cindário e Jesuíno. Quem quer vingar parte para cima do inimigo e mata (Sinhô Pereira) ou morre (Jesuíno).
Outro aspecto se refere ao campo de atuação. Lampião e Silvino percorrem sete a quatro estados da região ao longo de suas carreiras, sempre em busca de novas praças a explorar. Sinhô não foi além de três estados. O mesmo vale para Luis Padre. Jesuíno fez-se cangaceiro no Rio Grande do Norte, vindo a tombar morto no Brejo de Cruz (Paraíba) pelo seu pior inimigo, Preto Limão. Cindário jamais “navegou” além do seu Pajeú.
O último aspecto analisado é a presença de mulheres, mais no sentido existencial. Só no cangaço meio de vida foi permitido a entrada de mulheres como auxiliares não-combatentes, mais como vida do homem amado e de valquírias, após a morte deste. As mulheres ficaram praticamente restritas ao bando de Lampião.
“Em meu tempo não havia mulheres no bando. Mulher só trazia consequências, dividindo homens, fazendo o grupo brigar por ciúmes. Ninguém andava com mulher” – afirmou Sinhô Pereira. No cangaço vingança e refúgio só haviam privações. Somente a rapadura, farinha e a carne, como essenciais. Queijo, bolacha e doce quando se adquiria nas bodegas.
De acordo com Frederico Mello, mesmo no cangaço meio, as mulheres foram fator de desagregação e conflitos internos. Dizem que Lampião, após se apaixonar por Maria Déa Oliveira, a Bonita, (Santinha para ele), não foi mais o mesmo, como confirmou o cangaceiro Balão. “Enquanto não apareceu mulher, Lampião brigava até enjoar. Depois, diante do perigo, pedia para correr”.
Depois de Lampião, os chefes dos subgrupos fizeram o mesmo e os bandos foram ficando cheios de mulheres. À exceção de Dadá, final de 39/40, quando Corisco ficou com o braço quase inutilizado por uma rajada de metralhadora, as mulheres não combatiam, prestando serviços domésticos e procriando. As mulheres assinalam o início do processo de decadência guerreira, com uma vida mais sedentária.
O cangaceiro Balão dizia que homem de batalha não pode andar com mulher. “Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia onde qualquer bala atravessa”.
Um fato interessante é que no auge do cangaço, entre as décadas de 20 e 30, os jovens faziam apologia ao banditismo, àquela vida de aventuras, inclusive entre os mais ricos, filhos de fazendeiros e chefes políticos. Muitos chegaram a ingressar no cangaço como meio de vida.
O CANGAÇO ENDÊMICO E O EPIDÊMICO
O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, autor de “Guerreiros do Sol”, classifica o cangaço em duas fases, o endêmico e o epidêmico. O primeiro se situa a partir da segunda metade do século XIX, um tipo mais romântico e bonachão, com suas regras, normas e éticas. O segundo, nas primeiras décadas do século XX, tendo como auge 1926, mais violento e com maior número de grupos atuantes. Lampião foi o expoente dessa fase,
Sobre os dois ciclos nordestinos, o da cana e o do gado, ele cita Câmara Cascudo, quando enfatiza que o primeiro não poderia ter produzido o cangaceiro. Exagero a parte, o homem do cangaço disputa com o próprio vaqueiro a primazia, no representar do modo mais completo, o conjunto dos atributos que caracterizam o ciclo do gado.
Ninguém mais que ele (o vaqueiro) soube gozar e sofrer, a um só tempo, as peculiaridades do viver nômade. “Foi, a ferro e fogo, senhor de suas próprias ventas, atuando sem lei, nem rei”. Frederico destaca que sempre existiu uma tradição de simbiose e simpatia entre o cangaceiro e o coronel através de gestos de auxílio constante entre um e outro.
Existiam entre eles uma relação de alianças de apoios mútuos, numa forma espontânea onde uma parte não era patrão da outra para sua sobrevivência. Mediante os acordos, o bando colocava-se a serviço do fazendeiro ou chefe político. Tudo se convertia em contrapartida, “naquela figura tão decisivamente responsável pela conservação do caráter endêmico de que o cangaço sempre desfrutou no Nordeste, que foi o coiteiro.
O escritor alagoano Graciliano Ramos, em “Viventes das Alagoas” ressalta que a aliança se mostrava vantajosa às duas partes porque ganhavam os bandoleiros, que obtinham quartéis e asilos na caatinga, e os proprietários que se fortaleciam cada vez mais. O relacionamento não representava vínculo de subordinação entre os dois. Existia ausência de patrões.
De acordo com estudos publicados pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (1974), houve cangaço dentro do cangaço, isto é, modalidades criminais distintas. Em cada modalidade tinha uma forma de viver, bem como de conduta e violência empregada.
Para Frederico Mello, existia o cangaço-meio de vida, o da vingança e aquele do refúgio, principalmente quando o sertanejo cometia algum crime e estava sendo perseguido pelas volantes. Na primeira forma, Mello aponta Lampião e Antônio Silvino como representantes máximos.
O de vingança foi o traço definidor mais forte, na opinião de Mello, o cangaço nobre, representado pelo Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante ou Luis Padre. Na terceira forma, o cangaço figura como última instância de salvação para o homem perseguido.
Quanto aos modos de guerrear dos indígenas e dos cangaceiros em território inóspito, difícil de penetração, o autor de “Guerreiros do Sol” escreve que os portugueses, que usavam doutrinas militares clássicas, tiveram muito que aprender. Essa situação ocorreu não somente entre os portugueses, mas também no caso holandês que sofreu movimentos de resistência.
Na guerra contra os holandeses, por exemplo, historiadores destacam a contribuição militar do rastejador. O frei Manuel Calado de Salvador cita o capitão Francisco Ramos, índio ou mameluco, como o um dos mais espertos homens em diligência no Brasil.
Quem descreve com detalhes o papel do rastejador durante a década de 30 é Ranulfo Prata. Em trecho da sua narração diz que ele “segue a tropa pressurosa, com o batedor à frente, “escanchado” no rastro. Sem perde-la, trazendo-a sempre debaixo dos olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas, até que as feras humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga precipite”.
O rastejador percebe pequena folha machucada, cinza de cigarro ou barulho, um fósforo, toiças de capim acamado. “Segue os pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a vegetação sob seu peso leve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o chão com sutiliza de quem traz veludo nos pés”.
No que tange ao banditismo no Nordeste, Frederico de Mello faz referência a salteadores ainda no século XVII. “Ao longo do período de colonização holandesa, vamos surpreender nosso banditismo caboclo enriquecido pela presença de estrangeiros, desertores das tropas de ocupação…”
Segundo ele, houve chefes de grupos que eram holandeses, como o caso do célebre Abraham Platman e Hans Nicolaes, que agia na Paraíba, à frente de 30 bandoleiros, por volta de 1641. Ele lembra ainda que foi na segunda metade do século XVII que o bandoleiro pernambucano, José Gomes, o Cabeleira, desenvolveu sua atividade.
No entanto, somente em fins do século XVII, o banditismo começa a se converter no cenário por excelência, até porque, no litoral, a colonização florescia em todos os sentidos. O ciclo do gado, com sua malha vegetal quase impenetrável e uma cultura receptiva à violência, fornecia um cenário propício ao banditismo. Graciliano Ramos afirma que o cangaço era um fenômeno próprio da zona de indústria pastoril, no Nordeste.
No entanto, Câmara Cascudo assinala que o cangaço não existia somente no sertão, mas que era uma figura também presente em outros países. O historiador Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”, lançado em 1969, reafirma a tese da universalidade. Segundo ele, o banditismo social se encontra em todas as Américas, na Europa, no mundo islâmico, na Ásia e até na Austrália.
O CICLO DO GADO E OS VALENTÕES
Por muitos séculos os nordestinos, acossados pelas secas intermitentes e cruéis, nas lutas com os índios, pela falta de ordenamento dos governantes, sem lei e justiça, longe dos litorais e a conviver com o banditismo, viveram em total isolamento apegados ao misticismo religioso, suas crenças e suas culturas.
Sobre o flagelo das secas, vários narradores traçam cenas de terror. O padre Joaquim José Pereira, do Rio Grande do Norte, escreve que, além da seca, apareceu nos sertões do Apodi uma tal quantidade de morcegos, que mesmo à luz solar, atacavam as pessoas e os animais, já inanidos pela fome. Homens, mulheres e crianças eram encontrados mortos e moribundos pelas estradas. Entre os mortos, encontravam-se miseráveis ainda vivos prostrados no chão, cobertos pelos vampiros.
Frederico Pernambucano de Mello, em “Guerreiros do Sol”, um estudioso do Nordeste e do cangaço, nos narra que, “quando em fins do século XVII e ao longo do século XVIII a necessidade de expansão colonizadora empurrou o homem para além das léguas agricultáveis do massapê, projetando-se no universo cinzento da caatinga, fez surgir um novo tipo de cultura cujos traços mais salientes podem ser resumidos na predominância do individual sobre o coletivo”.
O homem passou a ser condicionado pelo cenário agressivo que é o sertão. Ele experimentou sobreviver através das plantações, mas foi vencido pelas secas. Então, partiu para a criação do gado, criando assim um novo ciclo que fez surgir os valentões nas figuras dos cabras, dos capangas, dos jagunços, dos pistoleiros e dos cangaceiros.
O escritor Graciliano Ramos escreveu em um dos seus livros que, “sendo a riqueza do sertanejo, principalmente constituída de animais, o maior crime que lá se conhece é o furto de gado. A vida humana exposta à seca, à fome, à cobra e à tropa volante, tinha valor reduzido – e pior que isso, o júri absolve regularmente o assassino. O ladrão de cavalo é que não acha perdão. Em regra, não o submete a julgamento, matam-no”.
Na verdade, o maior crime no sertão naquela época era roubar cavalos e bois. Para o ladrão, só restava a morte e de forma sangrenta. Aliados ao misticismo, ao culto da coragem e o apego ao direito de propriedade, os sertanejos estabeleciam um quadro de violência do ciclo do gado.
O viajante holandês Adriaen Verdonck constatou, em 1630, que na região próxima ao rio São Francisco, os moradores possuíam muito gado, que era principal riqueza e constituía na melhor mercadoria destas terras.
Além das intempéries do tempo e outros fatores adversos, os nordestinos tiveram que enfrentar uma guerra desesperada contra os índios, os verdadeiros donos daquelas terras, expulsos das zonas litorâneas.
Como exemplo, Frederico de Mello nos conta a luta que Teodósio de Oliveira Ledo teve que levar a cabo no início do século XVIII contra as nações tapuias, dos pegas e dos coremas, para se estabelecer com sua gente nos campos de Piancó (Paraíba). Essa guerra chegou a durar mais de 10 anos contra cerca de 10 mil indígenas.
O ciclo do gado também teve que enfrentar o felino. “A onça faz dura guerra a todos os gados do sertão”, escreve Fernando Denis, na primeira metade do século XIX. Esse animal, que atacava os rebanhos, foi exterminado pela bravura dos nordestinos.
Diante das guerrilhas indígenas, dos facínoras poderosos, o nordestino se tornou num homem desconfiado e exposto a emboscadas dos temidos “tiros de pé-de-pau, ou dos que dormiam na pontaria.
Frederico de Mello cita diversos autores, como Câmara Cascudo que chama a atenção para a carta régia de 1701 pela qual os criadores, em divergência com os plantadores de cana e mandioca, viram-se obrigados a procurar no sertão terras diferentes das exigidas por essas culturas
Este fator respondeu pelo incremento da internação sertaneja ao longo do século XVIII, tendo que enfrentar temperaturas infernais. A carta régia determinava que o criatório só poderia fundar-se para além de uma faixa de dez léguas da costa.
O autor de o “Guerreiros do sol” faz um paralelo sobre o ciclo do gado no Nordeste com a epopeia norte-americana da conquista do Oeste, quando relata que “quanto mais demorada tenha sido a fase cruenta de um processo de colonização, tanto mais duradoura se mostrará a permanência de hábitos violentos que não mais se justificam”.
O sertanejo sofreu uma estagnação em sua evolução por conta do isolamento em que esteve secularmente relegado. Sobre a questão dos valentões, Mello destaca a impressão que teve o viajante Henry Koster. Em sua visão, esses valentões eram homens de todos os níveis, cujo serviço consistia em procurar oportunidades para lutar. Onde chegavam, nas feiras ou nas festas, eles amedrontavam as pessoas.
Para o escritor paraibano José Américo de Almeida, o cangaceiro originou-se da instituição do guarda-costas, como uma necessidade de defesa das fazendas ameaçadas pelo gentio. Segundo ele, quando o cabra era despedido, sua reação era procurar um bando, mas historiadores contestam esta tese.
“O emprego do capanga, do cabra e do jagunço fez-se largamente no Nordeste ao longo de todo o ciclo do gado, nas questões de terra, nas lutas de famílias e, de modo particular, nas disputas políticas” – descreve Frederico de Mello.
Mais uma vez, Mello cita, o folclorista Câmara Cascudo, quando escreve que o sertão foi povoado dos fins do século XVII para o correr do século XVIII, por gente fisicamente forte e etnicamente superior.
Diz ele que esse nordestino enfrentava os índios, que não tinha medo de morrer nem remorso de matar. “As famílias seguiam o chefe que ia fazer seu curral nas terras povoadas de paiacus, janduís, panatis, pegas, caicós, nômades atrevidos, jarretando o gado e trucidando os brancos”.
Os sucurus, panatis e os coremas nutriam ódio contra os portugueses que tomaram seus lugares marítimos. Em contrapartida, eles se levantaram em todas as partes contra os sertanejos que não se sentiam seguros.
“GUERREIROS DO SOL”
“Como “homem pecuário”, denominação da preferência do autor (Frederico Pernambucano de Mello), o sertanejo do Nordeste, ao mesmo tempo que manteve, através do isolamento, o idioma do colonizador europeu – inclusive o uso de termos lusitanamente náuticos – tornou-se, em grande parte, um já sugerido autocolonizador, quer pela necessidade de seguir exemplos de indígenas em suas defesas das fúrias dos animais traiçoeiros e de variantes, também traiçoeiros, de clima não-europeu, quer pelo ânimo de desconfiar um tanto caboclamente de estranhos”.
Essa é uma caracterização do sertanejo feita pelo sociólogo Oliveira Viana, citado por Gilberto Freire, no prefácio da segunda edição do livro “Guerreiros do Sol”, de Frederico de Mello.
Em sua descrição sobre a obra, Freire destaca que, em certa página, o escritor apresenta um desses tipos de bandido como, em dias de cangaceirismo ortodoxo, indiferente tanto a prazeres de alimentação como à constância de convívio com mulher, enquanto em atividade absorvente e monossexualmente belicosa. Daí a presença da mulher, no cangaço, só se ter feito notar em época diferente.
Na classificação sobre formas de cangaceirismo, Pernambucano de Mello, de acordo com Freire, fala do cangaço meio de vida, ou de profissão; cangaço de vingança; cangaço-refúgio, este caracterizado pelo que chama de “estratégia defensiva”. Quanto as fases do cangaço, o prefaciador da segunda edição, Gilberto de Mello Kujawski, divide em endêmica (final do século XIX) e a epidêmica, a partir dos anos 1920 que se deu o auge.
Gilberto Freira assinala que o cangaço no Nordeste é tema brasileiro e sob alguns aspectos, transbrasileiro, e não apenas nordestino. Sob perspectiva anglo-americana, Fletcher e Kidder, apontado por Freire, retratam o cangaço como o tipo mais marcante de sertanejo nordestino, atribuindo-lhe aparência de homem bronzeado pelo sol – e talvez, em alguns casos, pelo sangue ameríndio – mas de aspecto predominantemente europeu, isto é, português.
Ao se referir ao trajo masculino do sertanejo, Freire afirma que o mais interessante é o desenho que apresenta, caracterizado por uma camisa de algodão, mais longa que a geralmente em uso pelo homem canavieiro ou o do Recife, e solta por fora das calças, um trajo arcaico.
Sobre as origens do cangaceirismo, alguns estudiosos falam de rixas em famílias, favoráveis ao uso dos chamados cabras em lutas. Diz Gilberto Freire que o compadrio, em conexão com estas rivalidades, não pode deixar de ser considerado fator importante, ora de atenuação, ora de acentuação, de ódios entre famílias.
O padrinho, como compadre, afilhado, como protegido, são personagens a ser considerados no familismo sertanejo do Nordeste, até há poucos anos, e um pouco sobrevivente, ainda hoje, ligado a lutas entre famílias rivais: lutas às quais não raro associou-se um cangaço vingador de desentendimentos endogâmicos e, até, incestuosos. Lutas em torno de terras, bois e cavalos, orgulhos de avós.
Frederico Pernambucano de Mello, o autor de “Guerreiros do Sol”, em “Nota à Segunda Edição”, faz uma descrição sobre o cangaceirismo, cujos protagonistas, desde os períodos regencial, imperial e mesmo republicano, enveredaram no desesperado mito brasileiro do viver sem lei e sem rei, com cada homem podendo ser o rei de si mesmo, e ser feliz, de arma na mão, contra os valores da colonização europeia.
Nesse cenário nordestino de vida difícil, de paisagem cinzenta pela seca, do fatalismo religioso embrutecido, do misticismo, desde quando o homem foi empurrado da mata e da terra massapê para a caatinga e depois para o ciclo do gado, “o menino sertanejo muito cedo banha-se em sangue, ajudando o pai a sangrar o boi ou o bode para o preparo da carne-de-sol, cortando o pescoço do capão, da galinha, do peru, ou esfolando o mocó para a refeição imediata”.
Segundo Mello, “a cultura sertaneja abonava o cangaço, malgrado o caráter criminal declarado pelo oficialismo, com as populações indo ao extremo de torcer pela vitória dos grupos com os quais simpatizavam, quase como se dá hoje nos torneios entre clubes de futebol”.
Nesse quadro, entrava a literatura de cordel que se encarregava dessa celebração, capaz de atingir, com um João Calangro, Jesuíno Brilhante, um Viriato, um Guabiraba, um Rio Preto, um Cassimiro Honório, um André Tripa, um Vicente do Arraial, um Antônio Silvino, um Sinhô Pereira ou um Lampião, abrangência especial e intensidades difíceis de avaliar, tal o volume.
O autor da obra também se reporta aos cangaceiros artistas que faziam seus versos e modinhas populares, como o cantador Rio Preto, no final do século XIX, e o Sinhô Pereira, no início do século XX. Cita ainda José Baiano e Mourão, nos anos 30, e Jitirana nos anos finais, que dividiam a palma da composição e da execução musical no grupo do capitão Virgulino.
FATOS CURIOSOS DO NORDESTE II
OS CANGACEIROS SE ENTREGARAM
Depois do assassinato de Lampião, em 1938, um grande grupo de cangaceiros entregou as armas. Em 19 de setembro de 38, Pancada, sua mulher Maria Juvenina e outros cinco bandoleiros, Vila Nova, Santa Cruz, Cobra Verde, Vinte e Cinco e Peitica se entregaram à policia de Alagoas e Sergipe. No começo de 1939 foi a vez de Francelino José Nunes, o Português, sua mulher Quitéria, Velocidade, Pedra Roxa e Barra de Aço.
ORAÇÕES
De acordo com os pesquisadores Ilda Ribeiro de Souza e Israel Araújo Orrico, os sertanejos e cangaceiros faziam dezenas de orações, como a oração preciosa, oração de São Jorge, oração do Anjo Custódio, oração das Doze Palavras Ditas e Retornadas, oração Reservada, oração de Santa Catarina, oração Poderosa, o Creio em Cruz, a Força do Credo, o Credo às Avessas, a oração do Sonho de Santa Helena, oração de São Silvestre, de São Bento, oração das 34 Almas, das Nove Almas, do Salvador do Mundo, de Santo Agostinho, a oração de Nosso Senhor Jesus Cristo e tantas outras. Em sua algibeira, Lampião levava consigo rosários e orações de São Gabriel, de São Jorge e de São Pedro. Também carregava o livro “A Vida de Jesus”.
NO PIAUÍ
Segundo historiadores, ainda que seja mais difícil encontrar indícios de cangaceirismo no Piauí, houve casos de banditismo rural naquele estado. O chefe de polícia do Ceará recebia ordens do presidente da província para que suas tropas de Ipu e São João do Príncipe mantivessem ligações constantes com autoridades policiais no Piauí, para saber a direção tomada pelos bandidos que atravessavam a divisa.
O SEBASTIANISMO
O Rei de Portugal, D. Sebastião (século XVI) estava convencido de que teria que intervir na sucessão dos governantes da África. Sem apoio popular, resolveu invadir Marrocos. Ele desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Desde, então, criou-se uma lenda de que algum dia ele retornaria. Essa história atravessou o Atlântico e chegou até o sertão nordestino, cujo povo via em D. Sebastião uma figura divina que voltaria para salvar a todos e trazer justiça para os pobres.
XXX
Silvestre José dos Santos, chamado de Profeta, tornou-se um peregrino asceta, viajando por Alagoas e Pernambuco até se radicar, em 1817, na Serra do Rodeador. Ali criou o vilarejo denominado Paraíso Terrestre, com 400 moradores. Ele acreditava que havia uma cruz dentro de uma rocha e que de lá sairia D. Sebastião e seus soldados. Se o povo da vila fosse atacado, o rei português o tornaria invisível. Mesmo assim, a comunidade andava armada. Em outubro de 1820 foram atacados e destruídos por ordens do presidente da província de Pernambuco. O “profeta” fugiu.
XXX
Sebastianista convicto, o beato João Ferreira, líder da comunidade de Pedra Bonita, Pernambuco, acreditava que D. Sebastião retornaria se fossem realizados sacrifícios humanos. O episódio do Reino Encantado de Vila Bela, em 1830, representou o sacrifício de dezenas de pessoas, que foram decapitadas ou esmagadas contra as pedras. O povo acreditava que os mulatos e negros seriam transformados em brancos, e os pobres em ricos. Os fanáticos cantavam hinos religiosos e conclamavam o retorno do seu rei.
LUNÁRIO PERPÉTUO
A primeira edição do Lunário Perpétuo, publicado em Portugal é de 1703. Tinha como título O non plus ultra do lunário e prognóstico perpétuo geral e particular para todos os reinos e províncias, composto por Jerônimo Cortez. Valenciano fez emendas conforme o expurgatório da Santa Inquisição, e traduziu em português. A edição de 1921, conforme Câmara Cascudo, tinha 350 páginas e incluía astrologia, mitologia, horoscopo, receitas, calendários, biografias de santos e de papas, temas da agricultura, ensinamentos de como construir um relógio de sol, formas de aprender como ver as horas pelas estrelas, veterinária e outros temas. Era o livro mais popular do sertão.
VÍTIMAS DAS SECAS
Sem contar a terrível seca de 1877/78, a pior de todas, que levou levas de famintos para Fortaleza (Ceará), houve muitas outras que provocaram saques e violências. Ocorreu o episódio do ataque do cangaceiro romântico Jesuíno Brilhante contra o carregamento de alimentos do governo, para distribuí-los às vítimas da seca de 1877, mas essa não era uma regra geral a partir do período lampiônico. Aconteceram vários casos de flagelados e saques no Nordeste entre 1979 e 1982. Em abril de 79, cinquenta mil flagelados no Ceará fizeram o governo decretar emergência. Na ocasião, 300 flagelados invadiram a cidade de Mombaça, no Rio Grande do Norte, 100 invadiram São José da Penha, em abril de 1980. Ocorreram saques às feiras e comércio de Garrotes, Itapuranga e Itaperoá, na Paraíba, enquanto 1.600 flagelados se reuniram nas ruas de Irauçuba, Ceará, para pedir trabalho e comida. PENICO FLORAL DE LOUÇA AZUL
O historiador José Anderson Nascimento narra a entrada de Lampião em uma fazenda, em 1927, onde havia um penico de louça azul e branco, com decoração floral, em cujo fundo se lia Made in England. Na casa encontrou ainda anéis, brincos, pulseiras, escravas de ouro, gargantilhas, broche de platina e brilhantes, um barrete de diamantes, um rico colar de esmeraldas e outras joias caras, um lenço de seda chinesa, 15 libras esterlinas e dois relógios de bolso da marca Parek.
Do livro “OS CANGACEIROS”, do historiador Luiz Bernardo Pericás.
FATOS CURIOSOS DO NORDESTE
CANGA E CANGAÇO
Existem muitas controvérsias em relação às origens do termo cangaço (cangalha). Para alguns estudiosos do assunto, sua origem vem de “canga” e surgiu no século XIV. Arrumação de madeira sobre telhados de palha, peça para prender junta de bois a carro ou arado. Pode ser instrumento de suplício chinês, ganga, domínio, opressão. A origem poder ser ainda quicongo kanga de nhanga. Outros falam da origem tupi acanga. Há quem diga que o termo cangaço é de origem africana.
GATO
Quando já era membro do bando de Lampião, certa feita o cangaceiro Gato pediu permissão ao chefe para irt visitar seus parentes. Aproveitou a ocasião para massacrar toda família. Como não tinha mais pais vivos, matou a avó, duas tias, quatro irmãs e dois primos. Adolfo Meia-Noite, de Afogados do Ingazeira, Pernambuco, foi espancado pelo tio para não cortejar sua filha. O cangaceiro se vingou e assassinou o agressor.
CIVILIZAÇÃO DO COURO
Para o pesquisador João Capistrano de Abreu, ao falar sobre a civilização do couro, dizia que essa pele era muito usado nas portas das cabanas, no rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde serviu de cama para partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforge de levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, ou para apurar sal; as broacas e surrões, a roupa de entrar no mato; os banguês para curtume.
A CAATINGA E SUAS DIVISÕES
A caatinga é o bioma predominantemente nordestino único no mundo, mas tem suas subdivisões. Dentro dela temos o Sertão (sete milhões de hectares), o Seridó, com 3,5 milhões, o Agreste (seis milhões de hectares, o Brejo e a Mata. Na caatinga, os solos podem ser rasos, de origem arqueana, como em Pernambuco. O Agreste do Piauí é todo em formação sedimentar, a topografia é bem plana e o solo carece de corretivo. Entre a Mata, parte chuvosa e a Caatinga interior, está o Agreste.
A ESTRADA DE FERRO
De acordo com o pesquisador Robert Levine, a estrada de ferro não só possibilitou novas ligações com a costa, como implementou mudanças no modo de vida do sertanejo. Numa região onde os únicos eram padres missionários, chegavam agora imigrantes para trabalhar como engenheiros das ferrovias. Mil trabalhadores vieram da Sardenha e da Itália, sendo a maioria de Turim, isto na segunda metade do século XIX. Os missionários evangélicos não eram bem vistos pelos católicos. Conta que o escocês David Law foi expulso de fábricas de Recife por distribuir e divulgar livros religiosos para os operários.
DE BELÉM PARA O NORDESTE
Quando o imperador D. Pedro II visitou lugares sagrados no território da Palestina, em 1887, conversou com autoridades locais que conseguiram recursos na França e enviaram grupos de Belém para o Nordeste. Essas pessoas, em sua maioria, foram morar no Ceará e no Piauí, mas não suportaram as duras condições climáticas e nem se adaptaram à cultura local. No entanto, em 1930, os árabes, sobretudo de origem palestina, controlavam o comércio atacadista de Recife.
ESTRANGEIRAS
As empresas estrangeiras, especialmente as ferroviárias, não eram bem vistas pelos cangaceiros porque serviam para transportar as forças volantes e transmitir informações. Lampião chegou a capturar representantes de vendas da Standart Oil e da Souza Cruz no sertão. Servidores que atuavam em empresas nacionais e estrangeiras levavam muitas notícias para aquelas áreas. Em Mossoró, no Rio Grande do Norte, entre 1872 e 1874, pelo menos dezoito firmas estrangeiras se registraram na cidade.
MINORIA DE ESCRAVOS
Na segunda metade do século XIX, os escravos existentes no sertão nordestino eram minoria e de interesse econômico menor do que os trabalhadores livres. No casso específico do cangaceiro romântico Jesuíno Brilhante, podia-se dizer que ele não fazia parte dos mais pobres. Era originário de uma família de posses.
RASO DA CATARINA
Os historiadores, de uma forma em geral, descrevem o Raso da Catarina (seis mil quilômetros quadrados), entre Paulo Afonso Glória) e Jeremoabo, na Bahia, como uma região inóspita e muito seca, de difícil acesso. Lampião e vários grupos de cangaceiros sempre utilizaram esse deserto dentro da caatinga como esconderijo, pois as volantes evitavam entrar ali, temerosas de enfrentarem as agressividades e a inclemência do clima.
SUBORNO DE POLICIAIS
Desde o início do cangaço, na segunda metade do século XIX, a maioria dos policiais era subornada pelos cangaceiros que requisitava dinheiro dos vilarejos para pagar os chamados “macacos”. Uma pequena parte dos roubos era distribuída entre os pobres, como fazia Antônio Silvino. Foi assim que ele chegou a conseguir apoio popular. As extorsões não tinham como principal objetivo redistribuir renda, mas assegurar quantias necessárias para si e para seus homens. Uma pequena porção do coletado era para os pobres.
GUERRA DO PARAGUAI
O historiador Ulysses Lins de Albuquerque narra que o “coronel” Tomás de Aquino Cavalcante, em 1866, como diretor dos índios carnijós, convocou todos eles para uma reunião em frente da Cadeia Pública de Águas Belas. Mandou a rapaziada entrar no salão e então anunciou que o pessoal teria que ir lutar na Guerra do Paraguai. Os indígenas foram algemados e enviados para Recife e, em seguida, para o combate.
O FIM DO CANGAÇO E SEUS MOTIVOS
Desde Jesuíno Brilhante, passando por Antônio Silvino a Lampião e Corisco, entre o final do século XIX até as quatro primeiras décadas do século XX, o cangaço durou mais de 50 anos e viveu seu auge a partir dos anos 1920. Alguns historiadores e pesquisadores falam do “arcaico” ao moderno e outros que houve o pré-cangaço e o cangaço, que vigorou até 1940.
Para entender melhor os motivos que levaram ao fim do cangaço no Nordeste temos que recuar um pouco no tempo quando nas primeiras décadas as forças volantes eram deficientes, despreparadas, mais violentas com a população, corruptas e os chamados “macacos” não podiam atravessar as fronteiras de outro estado em perseguição aos bandoleiros.
Até por volta de 1930, os vínculos dos cangaceiros com os coronéis, donos de engenhos, fazendeiros e os próprios políticos eram mais fortes e muitos contavam com os serviços deles para resolver encrencas com seus adversários. Isto tudo começou a ser desmantelado no Governo de Getúlio Vargas, com o fim dos “coronéis de patentes” que representavam a Guarda Nacional criada a partir de 1831.
Por outro lado, os estados nordestinos, em sua maioria, fizeram um pacto ou acordo de ajuntamento das forças para combater o cangaço, abolindo a proibição de uma força de uma província entrar na outra para lutar contra o banditismo. Esta medida contribuiu em muito para enfraquecer o movimento.
O autor da obra “Os Cangaceiros”, Luiz Bernardo Pericás, destaca que a quantidade de foras da lei no Sertão e Agreste nordestinos no final do século XIX e nas quatro primeiras décadas do século XX causou grande impacto econômico e cultural na região.
O pesquisador cita que teriam lutado, somente ao lado de Lampião, durante os anos em que esteve em atividade, mais de quinhentos bandoleiros. Há estimativas que tenha havido mais de mil baixas de ambos os lados, ou seja, polícia e criminosos. Optato Gueiros chega a afirmar que só em Pernambuco, onde o cangaço foi mais atuante, foram presos ou assassinados mais de mil cangaceiros.
Pericás aponta que os aspectos tecnológicos, logísticos, humanos e políticos tiveram grande contribuição para pôr fim ao cangaço. Após o assassinato de Lampião, o único “grande “ cangaceiro que restou foi Corisco, que não tinha as mesmas habilidades e qualidades do companheiro. Como a maioria se rendeu, o número de asseclas que poderia seguí-lo se reduziu em muito.
“Uma atuação maior da polícia, ofertas e garantias de vida para os que se entregassem, aperto ao cerco contra os bandidos, utilização de armas pesadas e modernas por parte das tropas, aumento de verbas federais para o combate aos quadrilheiros, a vontade política de Vargas para acabar com o banditismo que manchava a imagem do Brasil lá fora, a perda da força dos “coronéis”, a perseguição aos coiteiros, a presença da União nos assuntos do Sertão, foram alguns dos motivos para o término do cangaceirismo”.
A filmagem de Virgulino por Benjamim Abrahão Botto, mostrando ao mundo a existência de uma país supostamente “arcaico” e atrasado, fora da lei, que afrontava e desrespeitava a ordem jurídica vigente no novo regime, foi a gota d´água para eliminar os cangaceiros.
Luiz Pericás assinala ainda ser importante lembrar que muitos “coronéis” perderam seu prestígio e deixaram de apoiar os bandos. Muitos oficiais da polícia corruptos, que forneciam armas para os grupos, resolveram parar de negociar e seguir as ordens das autoridades estaduais.
A quantidade maior de soldados, todos dispostos e bem armados, dificultou a ação dos bandoleiros e fez com que muitos abandonassem o crime. Nos tempos passados, os “macacos” e sertanejos contratados para o combate recebiam pequenos soldos atrasados e, às vezes, até com dinheiro falso dos próprios governantes. Não existiam motivações por parte das volantes que eram mais violentas com o povo do que os próprios cangaceiros.
ENTRE O ARCAICO E O MODERNO
Uma das peculiaridades nordestina é o seu misticismo religioso, que ainda perdura até hoje. Os cangaceiros não fugiam disso, mas os tempos foram se modernizando e os sertanejos de um modo geral tiveram que conviver entre o arcaico e o moderno.
Dentro desse quadro, o folclorista Câmara Cascudo descreve que o sertão achava que a chuva vinha do céu e o trovão era castigo. O sol se escondia no mar até o outro dia. “Imperavam tabus de alimentação e os cardápios cheiravam ao Brasil colonial. Mandava-se fazer uma roupa de casimira para durar toda existência”.
Luiz Bernardo Pericás, em sua obra “Os cangaceiros” falava que o sebastianismo também estava arraigado na cultura oral, tanto de místicos como de cangaceiros. O povo do interior achava que algum dia o rei de Portugal, D. Sebastião, sairia das ondas do mar com todo seu exército e entraria no sertão para salvar os nordestinos das injustiças e da miséria.
No tempo arcaico, os livros mais lidos eram Lunário Perpetuo, a Missão Abreviada, o Dicionário da Fábula e o Manual Enciclopédico. Só homens iluminados liam o Lunário. A Missão também foi muito difundida no sertão nordestino na metade do século XIX. Era a principal obra dos beatos, “profetas” e religiosos leigos.
A religião, seja a institucionalizada ou popular, utiliza os instrumentos acessíveis do contexto em que está situada. De acordo com Pericás, assim, um conjunto de tradições solidificadas determinará o sentido do normal, do aceitável, do permitido e do proibido. Os códigos morais e as leis não escritas não precisam ser impostos pela força.
No caso do sertão, o que se constatou foi uma religião vinda de fora que se impôs lentamente por meio da penetração dos colonos portugueses e mamelucos e se modificando ao longo do tempo. Qualquer elemento de fora que pudesse pôr em risco ou aparentar ser uma heresia, era rechaçado. Um exemplo disso é que os sertanejos não aceitaram levar dromedários para o Nordeste. A população se assustou quando levaram esses animais de Argel para o Ceará porque vinham acompanhados de árabes a caráter, inclusive com turbantes. Para os cristãos, eles eram inimigos hereges.
Em 1894, o missionário escocês Henry John e auxiliares chegaram a Garanhuns para pregar o evangélio. Eles foram recebidos com resistência pelo pároco local que convocou a população para perturbar e impedir a pregação. Num missa, o padre disse aos fiéis que havia chegado o satanás na cidade. Em torno de 200 cidadãos, carregando facões, foram atrás dos missionários, arrebentaram a porta de entrada do edifício onde se reuniam, destruíram o púlpito e os bancos da sala de culto.
Nas primeiras décadas republicanas, o império permaneceu entranhado nas mentes sertanejas. Em novembro de 1897, um cangaceiro emboscou uma patrulha policial, matou dois soldados e gritou vivas a Antônio Conselheiro e à monarquia. Era enorme o respeito dos cangaceiros pelos clérigos e aos santos católicos.
Conta Pericás que houve casos de padres que benzeram cacetes de jagunços antes dos combates. Padre Macário chegou a ser chefe de cangaceiros. Cangaceiros molhavam seus punhais em água benta e carregavam medalhas com imagens religiosas. O padre Mato Grosso, de Uauá-Bahia, chegou a dizer que Lampião era um enviado de Deus. Em dezembro de 1929, o “rei do cangaço” deu dia santo e feriado em Queimadas, além de ter batizado crianças e realizado casamentos.
Quase todos os cangaceiros importantes diziam ter o corpo fechado. O bandoleiro Cobra Verde garantia que Jesuíno Brilhante tinha o diabo no corpo. Apesar de toscos, os bandoleiros sabiam da existência das inovações tecnológicas e tinham noção do ambiente cosmopolita das grandes cidades. Lampião, por exemplo, se apropriava de tudo quanto era novidade, como lanterna elétrica, capa de borracha, binóculo e até garrafa térmica, para melhorar a vida do seu bando. Portanto, eles foram se adaptado ao moderno, bem como a população sertaneja.
Em sua bolsa, Lampião carregava algodão, iodo, ácido fênico, pinça, sonda, gaze e comprimidos. Por outro lado, dependendo do tratamento, preparava chás ou emplastros de pimenta malagueta com casca de angico torrada. O misticismo e o moderno passaram a conviver juntos.
Um episódio interessante foi o passeio de carro de Lampião, de Cumbe a Tucano. Ao saber que o padre César Berenguer era dono de um moderno Ford modelo T, ordenou ao clérigo que levasse ele e mais sete homens até Tucano. Os cangaceiros chegaram a transitar de automóvel, em novembro de 1929, de Capela a Nossa Senhora das Dores. Eles trocaram suas armas antigas pelas modernas.
OS COMUNISTAS FLERTARAM COM O CANGAÇO QUE PREFERIU O BANDITISMO
O PCB “PAQUEROU O CANGAÇO, QUE RECEBEU CONVITE DO GOVERNO PARA COMBATER A COLUNA PRESTES, MAS PREFERIU CONTINUAR NO MUNDO DO CRIME.
A nação nordestina tem suas peculiaridades na religiosidade do seu povo, na cultura popular, nas inclementes secas, na profunda desigualdade regional, na sua mestiçagem diversa, no cangaço, no seu misticismo e na sua intelectualidade artística e cultural que precisam ser mais estudados, pesquisados e analisados.
Existem fatos inéditos e inusitados desconhecidos, como a primeira guerrilha armada do Brasil de enfrentamento às injustiças sociais contra os poderosos ter ocorrido no Nordeste. Na época da Coluna Prestes, os comunistas, que pouco conheciam a realidade da região, idealizaram conquistar e incorporar o cangaço às suas lutas, achando, ingenuamente, que os cangaceiros eram revolucionários.
Pela sua profunda religiosidade e crenças populares, o povo nordestino de um modo geral era bem mais anticomunista que simpatizante do sistema. A Igreja Católica que, naquela época exercia muita influência na população, via em Prestes o satanás, bem como a União Soviética.
SEM COMPONENTE IDEOLÓGICO
De acordo com o pesquisados Luiz Bernardo Pericás, os bandoleiros nunca tiveram um componente ideológico e nem uma consciência de classe, apesar de alguns militantes terem procurado a existência de embriões de guerrilhas sociais. Na verdade, o que os camponeses queriam mesmo era um pedaço de terra para trabalhar e produzir.
“As raízes da importância revolucionária das massas camponesas, há que buscá-las no arcaísmo do mundo rural, um mundo onde não apresenta os elementos que permitem o desenvolvimento do processo dialético”- comenta Pericás em sua obra “Os Cangaceiros”. Nunca houve uma “revolução camponesa”.
Os militantes socialistas estavam mal preparados intelectual e ideologicamente para elaborar um projeto de mudanças estruturais no campo. Havia escassez de livros marxistas no Brasil, ainda que a partir de 1930 textos de Marx, Lenin, Bukharin e Engels começassem a ser divulgados e vendidos no país.
As discussões e as questões do campo eram insuficientes. Mesmo assim, em 1928 foi criado o BOC – Bloco Operário e Camponês. Em 1932, membros do Comitê Central do PCB, por sugestão do dirigente José Caetano Machado, influenciado pela atuação dos cangaceiros, apoiaram a ideia de se constituir guerrilhas no campo.
Documentos avaliavam que grupos de cangaceiros de Lampião e outros arrastavam massas de jovens camponeses. Esta faixa que perdeu as esperanças de receber alguma coisa do Estado Feudal Burguês chegou a organizar grupos armados.
Para os teóricos, os cangaceiros tinham um potencial revolucionário que deveria ser aproveitado pelos comunistas. Na concepção deles, seria valido que se desse mais atenção ao interior de São Paulo e ao sertão nordestino.
O PCB insistiu nessa tese. Num informe para a III Conferência de Partidos Comunistas da América Latina e Caribe, realizado em Moscou, em 1934, preparado pelo chefe da delegação brasileira, Antônio Maciel Bonfim, houve uma posição oficial com relação à situação do campo e uma interpretação distorcida da realidade.
Imaginaram que os cangaceiros estavam unindo e chamando os camponeses à luta. Após a Conferência, os comunistas soviéticos, segundo assinala Pericás, iriam apoiar a intensificação dos contatos com os cangaceiros. Para a Secretaria Nacional do Partido, o cangaceiro era um revolucionário porque lutava contra o Estado.
Os comunistas achavam que se poderia dar um caráter revolucionário ao cangaço, ao ponto de idealizar que grupos de bandoleiros iriam adotar o programa da ALN-Aliança Nacional Libertadora, mas existiam várias pedras no caminho, como a religiosidade tradicional, o todo poderoso Padre Cícero Romão Batista, o “Padim Cicço” e os governos.
O projeto de guerrilhas no Nordeste se intensificou. O jornal A Classe Operária, na edição de 31 de julho de 1935, defendia que as lutas no campo deveriam estar ligadas com os cangaceiros. Entendiam que podiam ser conquistados e elevados ao nível político de suas lutas, só que não houve nada disso.
Desde os anos 20, a organização do PCB no Nordeste era frágil. Pelos meados da década de 30 seus componentes tinham que lutar contra os integralistas locais, contra o Governo Vargas e ainda atuar no campo onde os “coronéis” tinham muita força. As disputas políticas regionais, os caudilhos, os jagunços e os cangaceiros contavam com mais visibilidade que a luta armada comunista.
A avaliação dos comunistas sobre os bandoleiros estava equivocada. Os cangaceiros eram bandidos e não havia possibilidade de vínculo com os programas de mudanças sociais no meio social.
GRUPOS ARMADOS E OS “BANDIDOS VERMELHOS”
A experiência guerrilheira que mais tempo durou foi no Rio Grande do Norte, de julho de 1935/36, mas fracassou. Foram três grupos armados de doze homens cada, dois deles no município de Açu e um de Areia Branca. Contam que o cangaceiro Rouxinol, do bando de Lampião, preso e sentenciado a 30 anos de prisão, fugiu e se uniu a Gavião, membro do PCB, para formar um núcleo guerrilheiro.
Esses “bandoleiros vermelhos”, ou “bandidos vermelhos” eram compostos de gente do Partido. Muitos ingressaram nesse bando para encontrar refúgio, já que eram ladrões e assassinos sentenciados e condenados ao encarceramento.
Dos grupos citados, somente um, com 40 pessoas, entrou em ação. Os líderes reuniam seus homens no meio da caatinga, discutiam aumentos salariais e métodos para convocar camponeses para atacar fazendas de algodão e eliminar seus donos. Suas ações se limitavam a assaltos e assassinatos.
Com poucas armas e com gente participando à força, o bando foi perdendo seu potencial “revolucionário”. A maioria nem sabia o que era comunismo. Em setembro de 35, alguns guerrilheiros serraram os trilhos da ferrovia Areia Branca – Mossoró, na tentativa de descarrilhar o trem que levava uma comitiva de integralistas para o sertão. As autoridades descobriram a sabotagem e evitaram o ataque.
No Levante Comunista, os “bandidos vermelhos” não tiveram nenhuma ação de destaque. Embrenhados no Nordeste, os comunistas faziam de tudo para sobreviver. Contavam com o apoio de caudilhos, alguns deputados da Aliança Social e pequenos comerciantes que forneciam armas, alimentos e esconderijos.
Nos poucos combates, os guerrilheiros cantavam e gritavam. No lugar de “Mulher Rendeira” dos cangaceiros, se ouvia gritos de Viva a ANL, Viva Luis Carlos Prestes. A aventura terminou com a denúncia contra os combatentes feita Manoel Feliciano Pereira, que se entregou à polícia e indicou onde ficava o esconderijo. Todos “revolucionários” foram detidos.
Durante todo período do cangaço, apenas o bandoleiro comerciante pernambucano Manuel Vitor, que iniciou sua vida no cangaço, em 1926, se tornou comunista e foi assassinado pela polícia alagoana, em 1937. Outro cangaceiro que demonstrava sensibilidade política foi Antônio Silvino (1897-1914). Foi até admirador da Revolução Russa de 1917 quando estava preso na Casa de Detenção de Recife. Teve até contato com Gregório Bezerra.
Destaca Luiz Pericás, que o PCB, nos anos 30, parecia interpretar a situação de forma equivocada, tanto quanto os jornais do Ceará na segunda metade do século XIX. Alguns periódicos, impressionados com a Comuna de Paris, viam perigo do comunismo nas fileiras do cangaço. Para os jornais, a ação dos salteadores seria suficiente para caracterizar a “proclamação do comunismo no sertão”.
A situação incomodava tanto os sertanejos que, supostamente, o “Padim Ciço” teria sonhado, em 1872, ter visto um urso feroz com grandes patas sobre todo o planeta, causando sofrimento e ruínas aos países.
Correu boatos que em 1925 quando estava na fazenda do Poço, no Ceará, Lampião teria demonstrado simpatia pelos revoltosos da Coluna Prestes. Sua admiração ao “Cavalheiro da Esperança” seria tanta que planejava formar um batalhão para se unir aos rebeldes tenentistas para travar uma guerra aos estados de Pernambuco e Paraíba. Nessa época, os revoltosos estavam tentando aliciar o “rei do cangaço”, conforme Flores da Cunha. Comentou-se até que uma farda do exército teria sido presenteada a Virgulino.
No entanto, não existem documentos oficiais de que Lampião tivesse manifestado entusiasmo em se unir aos rebeldes. Pelo contrário, o cangaceiro se aliou, por um breve tempo, ao governo para combater Prestes e seus soldados. O apoio da população a Prestes foi uma decepção e ele mesmo confessou isso. “Achávamos que éramos uns loucos, uns aventureiros…” disse o próprio Prestes, ao acrescentar que jovens, que queriam sair de casa, aderiram à causa.
Pericás diz que “de fato os “tenentes” tinham um projeto ideológico e intelectual insuficiente e horizontes políticos limitados. Seu conhecimento das particularidades do meio rural nordestino era grande”. O próprio Prestes afirmava que não existia essa noção de classe.
Quando A Coluna Prestes cruzava uma localidade era comum haver saques e roubos praticados por bandos de ladrões. Em seguida as forças regulares chegavam pilhando o que restava, praticando todo tipo de violência contra os habitantes.
APELO A LAMPIÃO E AOS CANGACEIROS
Pelas dificuldades em combates contra os “revoltosos” no Nordeste, o governo do presidente Artur Bernardes apelou para a ajuda de jagunços e cangaceiros. Quem fez essa intermediação foi o deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”.
No início o sacerdote não queria ter participação na luta contra os homens de Prestes. Chegou a enviar uma carta ao “Cavaleiro da Esperança”, exaltando sua bravura, mas sugeriu que suas tropas fizessem paz e que seriam acolhidas em Juazeiro, com todas garantias. Disse não se sentir bem ver esse espetáculo de brasileiros contra brasileiros numa luta fraticida e exterminadora. Na longa carta, insistiu em dar garantias legais e ser advogado de todos perante os poderes constitucionais da República. Em seu convite pela paz, falou em Deus e pátria.
Do outro lado, o Floro Bartolomeu, que foi nomeado para administrar o Ceará, encaminhou uma carta a Lampião por meio de emissários. A missiva, assinada pelo caudilho e o “Padim Ciço”, convocava o “rei do cangaço” a um encontro com o padre, em Juazeiro, onde estariam sediados mil homens recrutados com vistas a lutar. Na bagagem, Floro conseguiu, no Rio de Janeiro, mil contos de reais e um vasto material bélico para organizar um “Batalhão Patriótico”. Em 31 de dezembro de 1925 ele se deslocou de trem de Fortaleza até Juazeiro, para realizar tal objetivo. Antes, o Floro sediou as tropas em Campos Sales.
Lampião ficou desconfiado em ir ao encontro por acreditar ser uma armadilha e uma traição, com a intenção de prendê-lo. Só depois de mostrarem a assinatura do sacerdote foi que ele aceitou ir a Juazeiro com 49 cangaceiros, no dia quatro de março de 1926, ficando ali por três dias.
Virgulino foi recebido com muita festa por cerca de quatro mil pessoas que cercaram os bandidos para ver de perto aqueles homens. O chamado “governador do sertão” foi assediado por repórteres e fotógrafos. O padre foi o responsável por convencê-lo a entrar na luta contra a Coluna Prestes e pediu que Lampião largasse a vida de bandido.
“Padim Ciço” mandou buscar o inspetor agrícola do Ministério da Agricultura, Pedro de Albuquerque Uchoa, que ficou incumbido de, em nome do governo, entregar as patentes militares. Com as anotações do padre, Uchoa fez a suposta “promoção”. Nomeou Lampião ao posto de “capitão” e outros a primeiro e segundo tenentes. A carta foi data em 12 de abril de 1926, mas só que o “capitão” se encontrava em Juazeiro no começo de março. Era uma farsa. Além disso, o suposto documento concedia a Lampião e seus comparsas a liberdade de se locomoverem, podendo atravessar as fronteiras de qualquer estado nordestino.
Antes de receber a patente forjada de ‘capitão, Lampião teria contado que chegou a combater a Coluna entre São Miguel e Alto de Areias, mas teve que recuar depois de forte tiroteio. Contou ainda que chegou a ter o desejo de se incorporar às forças patrióticas de Juazeiro.
Depois de supostamente se tornar militar, Lampião não foi levado a sério. Em pouco tempo percebeu que continuaria sendo considerado um bandido pelas policias dos estados e que o documento não seria respeitado. Diante disso, resolveu permanecer na vida do crime.











