MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO NO CANGAÇO NORDESTINO VIOLENTO
Além das fases endêmica e epidêmica entre os séculos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de “Guerreiros do Sol” aponta três características principais do cangaço nordestino, quais sejam o do meio de vida (o cangaço profissional), o da vingança e o do refúgio. Em cada um deles existem suas diferenças, como a indumentária, porte de armas, comportamento ético e duração.
Fora a oralidade, com seus boatos e falácias, muitos estudiosos se debruçaram sobre o assunto de ordem antropológica, acadêmica e psicológica. A literatura é vasta e o tema é empolgante porque chamou e ainda chama a atenção nacional e até internacional através de viajantes da época. A mídia impressa deu larga cobertura, muitas vezes de forma sensacionalista, tendenciosa e distorcida.
Para Mello, existiram dois grandes fatores de estímulo ao cangaço. Um de natureza sociológica e outro de feição mesológica, de forma imediata, mas com profundas repercussões sociológicas que foram as lutas de famílias e as secas. Estas últimas acarretaram a proliferação do cangaço profissional. A luta entre famílias armou o palco para o cangaço de vingança.
Vamos, então, ao que mais nos interessa nessa história, que deve ser cada vez mais estudada e pesquisada para que não fique na base superficial das contações de casos e causos. A lista de autores é enorme e as leituras são fascinantes. A questão precisa ser cada vez mais esmiuçada para entendermos melhor o fenômeno.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO
O cangaço meio de vida foi um tipo de maior frequência, classificado como banditismo de profissão, tendo como principais representantes os cangaceiros Luis Mansidão, Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque (século XIX), Antônio Silvino (1897-1914) e Lampião (1916-1938).
O cangaço de vingança ocorreu com menor frequência, embora suas características de banditismo, mais ético, emprestou uma imagem de destaque, principalmente literário. Sinhô Pereira, Luis Padre e Jesuíno Brilhante foram seus principais representantes.
O cangaço-refúgio foi um tipo de menor expressão. Caracterizou-se pela riqueza da estratégia defensiva. Seu maior representante foi Ângelo Roque, que manteve seu próprio grupo e depois se aliou ao bando de Lampião. Esses bandidos não chegaram a ser chefes e foi um cangaço de vigor mediano.
Os dois primeiros, o profissional e o de vingança, possuem características discrepantes entre si, com formas criminais distintas, mas com o mesmo rótulo de cangaço. O meio de vida obteve maior poder, notoriedade, fama e ganhos patrimoniais de ideal burguês.
Tanto Lampião, como Antônio Silvino, entraram no cangaço com o pretexto de vingança, mas depois foram deixando essa finalidade de lado e incorporaram o banditismo como negócio. Numa entrevista jornalística a um jornal do Nordeste, perguntado se ele deixaria o cangaço, Lampião devolveu a indagação como outra. Você deixaria um negócio que está dando certo e bons ganhos?
No entanto, Lampião viveu episodicamente períodos de vingança, como contra o cangaceiro Tibúrcio Santos, o Negro Tibúrcio, em 1924. Sinhô Pereira também praticou saques, em 1919. Nos tempos atuais, registra-se a extinção do cangaço meio de vida, bem como o do refúgio, quando o perseguido pela polícia se esconde num bando. Porém, ainda de forma esporádica, existe o de vingança.
O homem da vingança entregava-se por completo à missão moral de dar fim aos inimigos de sua família ou clã. Era um obcecado, consciente do papel destrutivo. “Se no primeiro destes, a adesão espontânea floresce num indivíduo integrado ao ofício a que se dedica, no segundo vamos encontrar um homem violentado em seus desejos de realização pessoal agindo sob coação moral irresistível, e que em seus gestos revela sua inadaptação à vida que leva” – assim analisa Frederico de Melo.
Segundo ele, o envolvido na missão de vingança vivia angustiado por sua busca obsessiva. Não encontrava na vida do cangaço os prazeres e atrativos que tanto prendiam o cangaço meio de vida como amantes desse tipo de existência a seu modo epopeico.
O interesse guerreiro-vingador reflete em sua vestimenta, restringindo o equipamento ao necessário e funcional na guerrilha. Não há estrelas nos chapéus dos vingadores. Nada de testeiras e barbicachos ornamentados em moedas de ouro, nem bornais bordados em policromia, a ponto de fazer desaparecer o brim grosso de que eram feitos. Os registros fotográficos provam isso, com clareza – aponta Frederico Pernambucano.
Muitos anos após deixar o cangaço, Sinhô Pereira disse ao Jornal do Brasil, edição de 26 de fevereiro de 1969: “Eu pessoalmente nunca gostei de enfeites. De bons apetrechos, sim. Cartucheiras de duas camadas, cinturões de revólver com duas carreiras de balas, e nada de espelho e moedas adornando chapéus”.
No caso de Lampião, as fotografias se inserem no quadro do cangaço profissional como negócio. No início se dedicou ao cangaço de vingança nas disputas contra os Nogueiras e José Saturnino, em Pernambuco, e José Lucena (matou seu irmão caçula João Ferreira), em Alagoas. Depois se acomodou no profissionalismo aventureiro, “em processo de transtipicidade”.
O Lampião da década de 30 enfeitava-se dos pés à cabeça. As estrelas de ouro e pedras preciosas apareceram e aumentaram. Essas estrelas ficaram maiores em 1936 e enormes em 1938, ano da sua morte, na gruta Angicos (Sergipe). Sua conduta divergia do vingador. Procurava ser documentado com seus riquíssimos trajes de guerra. Deixou-se filmar em 35mm, no ano de 1936.
Sinhô Pereira e Luis Padre evitavam ser fotografados com armas. Pousavam apenas em trajes civis. O comportamento dos vingadores era contido, com os chefes reprimindo os crimes sexuais e só permitindo expropriações em casos de necessidade.
Sobre os vingadores, o escritor José Américo de Almeida falou ser o destino de Jesuíno Brilhante, assassino por vingança, distribuindo os víveres dos comboios que atacava aos famintos da seca de 1877 e matando um de seus mais valentes, o escravo José, porque tentara violentar uma mulher.
Os vingadores dependiam das finanças de suas famílias que perderam seus bens. Sinhô Pereira disse uma vez que tinha terra e gado. “Vendi tudo barato para cuidar da vingança”. Os cangaceiros dos negócios se mostravam prósperos e autossuficientes. Viviam na opulência. Existem vários exemplos e testemunhas de cangaceiros que comprovavam isso.
Pernambucano de Mello destaca o nível de coesão entre esses dois grupos. Mais forte entre os vingadores, fraco entre os rapinadores, em cujo seio as deserções frequentes impunham rotatividade elevada e permanente atenção de seus chefes para com a atividade de recrutamento.
Sobre esta questão, o ex-cangaceiro Miguel Feitosa descrevia sobre o enxovalhamento dos cabras novos. Nos embates com as volantes, seus chefes gritavam seus nomes para que ficassem conhecidos dos comandantes das tropas, para dificultar-lhes um possível regresso à vida pacífica.
Quanto às origens sociais, o cangaço profissional vinha de uma origem humilde da classe média baixa de famílias não tradicionais. Os da vingança originavam-se de famílias importantes. Sinhô Pereira e Luis Padre eram netos do barão do Pajeú e descendentes de um comendador da Ordem da Rosa, do Primeiro Império. O cangaceiro Cindário pertencia à família Carvalho, do Pajeú pernambucano. O potiguar Jesuíno Brilhante chamava-se Jesuíno Alves de Melo Calado, título senhorial.
O autor de “Guerreiros do Sol” ainda descreve os aspectos existentes entre os grupos. No ponto de vista de duração no cangaço, Lampião e Antônio Silvino atuaram, respectivamente, 22 e 19 anos. Os vingadores mal atingem o lastro. Sinhô Pereira, vingado, retira-se após seis anos. Seu Primo Luis Padre, cinco anos. Pouco tempo também tiveram Cindário e Jesuíno. Quem quer vingar parte para cima do inimigo e mata (Sinhô Pereira) ou morre (Jesuíno).
Outro aspecto se refere ao campo de atuação. Lampião e Silvino percorrem sete a quatro estados da região ao longo de suas carreiras, sempre em busca de novas praças a explorar. Sinhô não foi além de três estados. O mesmo vale para Luis Padre. Jesuíno fez-se cangaceiro no Rio Grande do Norte, vindo a tombar morto no Brejo de Cruz (Paraíba) pelo seu pior inimigo, Preto Limão. Cindário jamais “navegou” além do seu Pajeú.
O último aspecto analisado é a presença de mulheres, mais no sentido existencial. Só no cangaço meio de vida foi permitido a entrada de mulheres como auxiliares não-combatentes, mais como vida do homem amado e de valquírias, após a morte deste. As mulheres ficaram praticamente restritas ao bando de Lampião.
“Em meu tempo não havia mulheres no bando. Mulher só trazia consequências, dividindo homens, fazendo o grupo brigar por ciúmes. Ninguém andava com mulher” – afirmou Sinhô Pereira. No cangaço vingança e refúgio só haviam privações. Somente a rapadura, farinha e a carne, como essenciais. Queijo, bolacha e doce quando se adquiria nas bodegas.
De acordo com Frederico Mello, mesmo no cangaço meio, as mulheres foram fator de desagregação e conflitos internos. Dizem que Lampião, após se apaixonar por Maria Déa Oliveira, a Bonita, (Santinha para ele), não foi mais o mesmo, como confirmou o cangaceiro Balão. “Enquanto não apareceu mulher, Lampião brigava até enjoar. Depois, diante do perigo, pedia para correr”.
Depois de Lampião, os chefes dos subgrupos fizeram o mesmo e os bandos foram ficando cheios de mulheres. À exceção de Dadá, final de 39/40, quando Corisco ficou com o braço quase inutilizado por uma rajada de metralhadora, as mulheres não combatiam, prestando serviços domésticos e procriando. As mulheres assinalam o início do processo de decadência guerreira, com uma vida mais sedentária.
O cangaceiro Balão dizia que homem de batalha não pode andar com mulher. “Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia onde qualquer bala atravessa”.
Um fato interessante é que no auge do cangaço, entre as décadas de 20 e 30, os jovens faziam apologia ao banditismo, àquela vida de aventuras, inclusive entre os mais ricos, filhos de fazendeiros e chefes políticos. Muitos chegaram a ingressar no cangaço como meio de vida.











