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:: ‘Encontro Com os Livros’

OS TORMENTOS DOS ESCRAVOS CRISTÃOS NAS GALÉS E O MEDO DE UM NOVO DONO

O pior sofrimento estava reservado para os escravos brancos ou cristãos que eram capturados pelos mouros e muçulmanos da região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli) e depois levados para remar nas galés por cinco ou seis semanas em alto mar, com a finalidade de saquear mais navios.

Eles eram acorrentados nos bancos de madeira, com grilhões e trancas nos pés, sujeitos a chuva e ao sol. As rações eram limitadas, do tipo chamada de biscoitos de marinheiros (tinham que ter bons dentes para mastiga-los). Muitos morriam de exaustão enquanto eram espancados com chibatadas e outros castigos. Os que ficam em terra temiam ser revendidos para um novo senhor e privados de possíveis resgates.

No capítulo III do livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, o autor Robert Davis fala sobre o “Trabalho Escravo” onde descreve o relato de diversos cativos que foram vítimas da escravidão branca entre os séculos XVI e final do XVIII, fazendo um paralelo com o que também passaram os negros africanos levados para as Américas.

Para começar, ele cita o português João Mascarenhas em um trecho do seu testemunho onde diz que “não há pior momento na vida do que aquele em que o escravo fica na expectativa para descobrir quem será o seu dono”. Segundo ele, se seu destino for cair nas mãos “de um senhor desumano, nada de bom poderá ser vislumbrado em seu futuro e deverá considerar-se o mais infeliz entre seus iguais: Não há pior inferno nesta vida”.

Mascarenhas assinala que o escravo poderá ser revendido, sobrecarregá-lo com trabalho, aprisioná-lo, mutilá-lo, matá-lo, sem ninguém poder interferir.  Outro cativo William Okeley destaca que “se um patrão matasse seu cativo, pelo que pude constatar, enfrentaria as mesmas consequências do que se tivesse matado seu cavalo”.

De acordo com historiadores, todos os novos cativos, assim que desembarcavam, eram separados em duas classes bastante distintas: os escravos para resgaste e aqueles para o trabalho. “Tais compradores, conforme analistas, eram na maioria das vezes “mouros” ou “tagarins” (antigos moradores muçulmanos da Península Ibérica que foram expulsos ou fugiram de lá) e renegados europeus”.

Um senhor proprietário de Argel declarou que comprou seus escravos para conseguir algum lucro com eles. Pelo pouco que se sabe do preço de venda inicial dos escravos no badistão (mercado), a expectativa de ganho girava em torno de 10 a 12% ao ano por cada cativo.

Com base em pesquisadores, o autor da obra ressalta que os compradores que “só adquiriam escravos para serví-los, não para o tráfico,” eram, na maior parte das vezes, turcos ou janízaros (gregos ou ortodoxos) renegados e alguns agentes do conselho governante local, chamados de divan.

Quando visavam mais o trabalho do que o resgate, esses proprietários estipulavam uma gama maior de tarefas aos seus vassalos do que os adquirentes para revenda. Num comparativo com a escravidão negra destinada às Américas, a principal demanda era para trabalhadores rurais com fins comerciais nas lavouras de açúcar, arroz, algodão e tabaco. Na Berbéria, as tarefas eram voltadas para homens livres que não estavam mais dispostos a realizar.

Um senhor de Argel, chamado Ali Pegelin, chegou a possuir vinte mulheres escravas, cristãs, que ficavam a serviço da sua esposa. A maior parte dos serviços eram concentrados mais nas cidades em construções diversas, carregamento de pedras, mordomos e trabalhos domésticos em geral.

No decorrer do século XVII, quando emissários de várias nações cristãs e de Roma começaram a se fixar em consulados ou missões nas capitais das regências berberes, começaram a surgir vagas para os escravos, como criados contratados desses europeus. Algumas dessas atividades eram semelhantes aos trabalhos prestados por empregados domésticos na Europa, como pegar água ao amanhecer, limpar banheiros, buscar pão quente, lavar roupas e cuidar das crianças.

No entanto, a maioria era usada para extração de pedras, construção civil, corte de árvores, colheitas e remar nas galés. “Aliás, foram as galés que se tornaram a epítome da escravidão dos europeus brancos na Berbéria, assim como foi o corte de cana para os africanos que trabalhavam nas Américas”.

Como dizia Mascarenhas, se o sujeito não foi um galeotto, não podia dizer que foi um escravo…” “É uma aflição sem tamanho ver os pobres escravos obrigados a remar sob constantes e violentas chicotadas e pauladas… De todas as agruras que esses pobres cativos são forçados a padecer, a pior, sem sombra de dúvidas, é aquela que sofrem nas galés dos turcos berberes.”

A maioria era levada para as galés porque não tinha outros talentos ou nenhuma habilidade especial, nem sinais claros de riqueza para a venda. Geralmente eram camponeses, pescadores, soldados rasos ou marujos comuns.

AS CAPTURAS DE CRISTÃOS BRANCOS EM MAR RENDIAM MAIS QUE AS TERRESTRES

Os berberes muçulmanos de Túnis, Argel e Trípoli tiravam mais proveito em termos de espólios do que de escravos quando invadiam navios mercantes em alto mar na região do Mediterrâneo. De um modo geral eram nobres e bispos da Igreja Católica que transportavam bens de valor, principalmente joias preciosas. Em terra, os escravos eram em sua maior parte camponeses e pescadores, sem muito valor de resgates.

Quando uma embarcação estava prestes a ser atacada geralmente os passageiros mais notáveis procuravam se disfarçar com roupas mais simples e até com aventais de marujos, mas muitos terminavam confessando suas identidades por intermédio de espancamentos e torturas. Outros jogavam seus pertences no mar e fugiam em barcos. Porém, muitos eram pegos de surpresa e apanhados como escravos.

Carpinteiros, oficiais da marinha e armadores eram valiosos no mercado de escravos para os serviços dos reis corsários e sultões, tanto que nem eram vendidos pelo que valorizavam. Outros eram levados para o mercado denominado de “badistão” para serem comercializados ou resgatados pelos seus reis. Cada traficante tinha direito a uma cota das apreensões de acordo com a função e o financiamento investido na incursão.

Havia algumas semelhanças nos métodos adotados entre a escravidão africana no Atlântico e a muçulmana contra os cristãos, mas nada que se iguale em dimensão dos empreendimentos e aos sofrimentos impostos aos africanos. Haviam correntes, trancas e até chibatadas, mas muitos brancos eram até bem tratados e melhor alimentados quando tinham boa serventia no mercado.

Essas descrições da escravidão branca entre os séculos XVI até final do século XVIII estão no livro “Escravos Cristão, Senhores Muçulmanos”, do historiador Robert C. Davis, quando ele deixa claro que a escravidão branca ou de cristãos se tratava mais de uma represália religiosa sofrida pelos mouros quando foram perseguidos pelas Cruzadas e expulsos da Península Ibérica. Os países mais atingidos foram a Espanha, França Itália e Portugal.

Na Itália, por exemplo, por volta de 1566, os corsários acabaram se apossando de uma imensa faixa litorânea que eles conquistaram sem a menor resistência. Naquela época, as autoridades recomendavam a evacuação da população. Muitas cidades e vilarejos eram abandonados.

Mais tarde, quando os corsários piratas voltavam para novos saques encontravam largos territórios litorâneos desabitados. De acordo com testemunhas, foi assim que eles assolaram e deixaram em ruínas a Sardenha, a Córsega, Sicília, a Calábria, as costas de Nápoles, Roma, Gênova e litorais da Espanha.

A estudiosa Mirella Mafrici, por exemplo, forneceu vasto material para fundamentar as alegações feitas por observadores sobre o despovoamento levado a cabo por essas incursões escravistas por terra. Diz o autor ser mais provável que as mulheres de haréns e casas de famílias na Berbéria tenham vindo de vilarejos costeiros do que de navios capturados.

Quando os invasores levavam um grande grupo de mulheres reprodutivas, isso se tornava um duro golpe para as comunidades que já estavam em crise demográfica, dificultando sua recuperação populacional. Diversas cidades de médio porte ficavam abarrotadas de refugiados. Isso ainda era melhor para os corsários e reis atacarem porque levavam uma maior quantidade de escravos.

No entanto, pelos meados do século XVII, esses locais foram mais reforçados e as investidas dos muçulmanos se tornaram mais raras. As incursões ficaram mais arriscadas. Quando as cidades de médio porte passaram a construir muralhas e torres de proteção, os corsários passaram a focar em presas mais frágeis, como habitações isoladas, monastérios e até indivíduos sozinhos. Eles procuravam disfarçar suas embarcações como se fossem de cristãos. Os remadores eram amordaçados para não entregar o jogo.

A COMERCIALIZAÇÃO DOS ESCRAVOS CRISTÃOS, RESGATES E A CONVERSÃO AO ISLÃ

As investidas dos muçulmanos da Berbéria (Argel, Túnis e Tripoli) na captura de escravos brancos ou cristãos na costa da Espanha e da Itália, por mar e por terra, tiveram seus picos durante o século XVI e uma queda a partir dos séculos seguintes porque as províncias costeiras se estruturaram melhor para combater os corsários reis, sem contar a queda populacional dessas regiões.

Muitos cristãos escravizados se convertiam ao islã, livremente ou forçados pelos turcos muçulmanos. Outros, por vingança contra os nobres da terra retornavam como renegados traidores se integrando o grupo de captores. Os corsários em terra, às vezes, optavam em pedir os regates nos próprios locais das apreensões. Como a maioria não tinha dinheiro para pagar, terminava recorrendo a intermediários que se apossavam dos bens dos capturados.

Esses relatos estão no livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, do historiador e escritor Robert Davis, especialmente no capítulo “Captura e Comercialização dos Escravos” onde ele cita que nos tempos do cônsul inglês em Trípoli, Thomas Baker, o rapto de escravos no Mediterrâneo era de fato algo como uma “vocação legítima”.

“Ao longo de todo século anterior (XVI), essa foi uma prática desempenhada em larga escala por cristãos e muçulmanos (hostilidade imperial entre os Habsburgos e Otomanos), para quem a captura de prisioneiros escravos em campo de batalha era a recompensa tradicional em razão da vitória nos conflitos inter-religiosos armados”.

Os confrontos armados entre os turcos e seus aliados e as forças cristãs da Espanha, Itália e Portugal levaram milhares de cativos para os mercados de escravos em Fez, Argel, Constantinopla, Malta, Livorno, Lisboa e Marselha. Por parte turca, segundo ele, a prática de escravização de cristãos foi elevada a uma espécie de política estatal, principalmente entre os anos 1530 e 1570, quando Kheir-ed-din Barbarosa e Dragut Reis foram nomeados pelo sultão de Constantinopla e os vice-reis da Berbéria como almirantes de suas frotas.

Eles podiam atacar o Mediterrâneo quando bem quisessem, bloqueando portos, como Gênova e Nápolis, ameaçando Roma e saqueando dezenas de cidades litorâneas de médio porte na Espanha e na Itália. As incursões eram praticamente anuais, como a do Hassan Pasha, em 1582, um renegado Veneziano, paxá de Argel, e comandante de 22 galés e galeotas com pelo menos 1500 janízaros soldados.

De acordo com Robert, “os traficantes de escravos do Atlântico se especializaram em transportar e vender cativos, mas raramente se envolviam em outros tipos de comércio ou no trabalho sujo e potencialmente perigoso de capturar sua própria mercadoria para despachar na Passagem do Meio”.  Em sua visão, essa atividade era deixada para Estados Africanos rivais ávidos para vender negros cativos, capturados em batalhas ou incursões.

No entanto, não era isso que os historiadores narravam. Os capitães de navios e armadores de escravos africanos também se envolviam em outras negociatas arriscadas na venda de produtos clandestinos e até armas.  Quanto aos berberes, conforme o autor do livro, nunca conseguiram criar uma logística tão diversificada de abastecimento ou distribuição.

Na questão da escravidão branca, existia um clima de conflito imperial e jihad que predominou na Bacia do Mediterrâneo ao longo do século XVI, bem como pela liberdade individual de empreender durante o século XVII. Quando o comércio era frutífero, não era difícil atrair uma boa tripulação. Muitos homens entravam na empreitada até mesmo sem salário.

Uma viagem bem-sucedida que trazia navios, bens e escravos podia transformar todas as partes envolvidas em pessoas ricas, até mesmo os escravos que recebiam uma quantia suficiente para depois comprar suas liberdades.

O historiador conta que a grande maioria dos cristãos escravizados na Berbéria era apanhada quando os corsários tomavam os navios em que eles viajavam ou raptados durante as incursões nas ilhas mediterrâneas ou nas costas da Espanha, Itália e na Grécia.

No século XVI os ataques terrestres eram mais frequentes e deixavam os povoados e cidades em pânico. Muitos fugiam para as montanhas deixando bens para trás. Províncias ficaram despovoadas por muitos anos. Milhares de aldeões começaram um grande êxodo para as grandes cidades, como Nápoles e Palermo. Muitas vezes, as investidas litorâneas costumavam render mais do que os ataques às embarcações. As defesas costeiras eram pouco guarnecidas.

 

 

 

“ESCRAVOS CRISTÃOS, SENHORES MUÇULMANOS”

“Escravidão Branca no Mediterrâneo, na Costa da Berbéria e na Itália, de 1500 a 1800”.

“Qualquer um que diga hoje que a escravidão branca chegou a proporções tão significativas quanto às da escravidão negra será invariavelmente tachado de supremacista branco e revisionista histórico”.

O comentário é da editora Vide Editorial, responsável pela publicação de “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, uma obra de autoria do historiador e professor emérito da Ohio State University, PhD em história do Mediterrâneo e da Itália, Robert C. Davis.

Na introdução do seu livro, Robert procura esclarecer que a escravidão branca ou dos cristãos, paralela à escravidão africana, foi uma forma de vingança dos muçulmanos em resposta às perseguições que os islâmicos sofreram durante as Cruzadas (séculos XI e XII) e a expulsão dos mouros pela Espanha (final do século XV).

Essa escravidão se deu na região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli), praticada por corsários e piratas do mar que saqueavam impiedosamente embarcações da Inglaterra, Alemanha, Espanha, Irlanda, França, Portugal e da Itália. Muitas vezes eles adentravam o continente e os prisioneiros se tornavam escravos nas galés, nas lavouras, na mineração e até em fábricas.

Segundo o autor, “ao expulsar os mouros do sul da Espanha, Ferdinando e Isabel conceberam um inimigo implacável para seu reino ressurgente, e que veio a se estabelecer bem perto deles, em Marrocos, Argélia e, por fim, ao longo de todo o Magreb”.

O historiador também afirma que “na Berbéria, aqueles que caçavam e comercializavam escravos certamente esperavam obter lucro, mas, ao traficar cristãos, também havia sempre um elemento de vingança, quase de jihad, pelas injustiças de 1492, pelos séculos de violência nas Cruzadas que as precederam e pelas contínuas batalhas entre cristãos e muçulmanos que continuaram a assolar o mundo mediterrâneo até os tempos modernos”.

O próprio autor da obra reconhece que os números sobre a escravidão branca ou de cristãos, que ocorreu com maior intensidade entre os séculos XVI e XVII, são desencontrados por falta de notificações mais precisas. As estatísticas são mais baseadas nos relatos dos cônsules dos diversos país vítimas e de pessoas que sofreram esse tipo de servidão.

Robert destaca que até mesmo os ingleses, apesar de distantes da Berbéria, e eles próprios já figurando entre os captores de escravos mais agressivos nos anos 1630, foram escravizados por corsários muçulmanos operando a partir de Túnis, Argel e Marrocos.

De acordo com ele, os piratas de Argel e Salé podem ter escravizados cerca de mil britânicos por ano, praticamente o mesmo número de africanos cativos. Diz que, por volta de 1640, mais de três mil foram escravizados só em Argel e cerca de 1500 em Túnis.

“Foi dito que os argelinos tomaram, ao menos, 353 navios britânicos entre 1672 e 1682 – o que representaria que eles ainda agrilhoavam entre 290 e 430 novos escravos britânicos todos os anos”.

O historiador assinala ainda que os corsários berberes foram uma ameaça muito mais expressiva àquelas localidades mais próximas de seus litorais, como os povos flamengos, franceses, espanhóis, portugueses e italianos. Tudo isso ocorria, segundo ele, ao mesmo tempo em que acontecia o comércio de escravos africanos.

O escritor descreve, através de outro pesquisador no assunto, que o Mediterrâneo era “um mar abarrotado de piratas selvagens” e que “o papel perverso desempenhado pelos piratas muçulmanos em geral, e pelos corsários da Berbéria em particular, foi muito exagerado”.

Em seu livro, Robert ressalta que relatórios diplomáticos, jornais da época e o simples boca a boca contavam histórias sobre cristãos sendo capturados às centenas e milhares em alto mar ou durante surtidas litorâneas. Diziam que eles eram acorrentados e submetidos a uma morte em vida de tanto trabalhar em Marrocos, Argel, Túnis e Trípoli.

Fontes contemporâneas, conforme dito por ele, entre novembro de 1593 e agosto de 1594 os tunisianos trouxeram cerca de 28 espólios com 1.722 prisioneiros. Entre 1628 e 1634, os argelinos capturaram, só dos franceses, 80 navios mercantes, levando 986 cativos. Dos ingleses tomaram 131 navios e embarcações entre 1628 e 164, totalizando 2.555 cativos. Os viajantes de Trípoli tomaram 75 navios cristãos com 1.085 prisioneiros entre 1677 e 1685.

A INDENIZAÇÃO DOS PROPRIETÁRIOS

Legítimo, ilegítimo e imoral foram as indenizações concedidas pela Inglaterra e a França aos colonos que escravizaram os negros africanos por toda vida, para não dizer irônico e incoerente. Os cativos que deveriam ser ressarcidos.

Esse debate foi colocado pelo escritor e historiador, Marcel Dorigny, em seu livro Abolições da Escravatura no Brasil e no Mundo”, no capítulo “A Questão das Indenizações”.

Uns colocavam como argumento que a escravidão foi institucionalizada pelo Estado e, portanto, o cativo era uma propriedade legítima. Outros contestavam com base na Declaração dos Direitos Humanos, de 1789, onde todos eram iguais por direito, sem contar a Lei de Deus.

“A propriedade de um homem sobre o outro era sempre uma violência ilegítima”. O deputado francês Condorcet levantou esta questão desde 1781 com base no iluminismo do final do século XVIII.

Ele afirmava que a destruição da escravidão não prejudicaria nem o comércio nem a riqueza de cada nação, já que não resultaria disso nenhuma diminuição na cultura.

Segundo o autor da obra, mesmo sendo legal, a legislação da escravidão é ilegítima, pois se opõe radicalmente às leis da natureza. Em 1835, Cyrille Bissette, invertia o raciocínio dos senhores: Como o escravo nunca é uma propriedade legítima, a abolição não pode ser considerada como atentado à propriedade”…

Seria imoral aquele que possuía ilegitimamente um homem – argumenta Marcel. No entanto, em 1791, o deputado Louis-Marthe lembra que os armadores e os colonos investiram na escravidão sob a proteção da lei e que, por conseguinte, o Estado não pode expoliá-los: Assim, a propriedade sobre os escravos é um direito inviolável e sagrado”…

Os defensores dos senhores pressionavam pelo reembolso, tanto que no artigo 5 do decreto de 27 de abril de 1848, que abole a escravidão nas colônias francesas, a Assembleia Nacional decidirá o valor do pagamento que deverá ser concedido aos colonos.

Nas colônias francesas, a média de reembolso foi de 40%, em Porto Rico, de 100%, nas colônias britânicas e holandesas, de 50%, e de 20% nas colônias dinamarquesas. Lembramos, porém, que a primeira abolição francesa pelo decreto da Convenção Nacional, de 4 de fevereiro de 1794, não previa nenhuma indenização.

O caso de São Domingos (Haiti) foi atípico porque a abolição foi abolida em 1793-1804 por uma insurreição e nunca foi reestabelecida. Diferente das outras colônias de escravos.

Acontece que a França exigiu 90 milhões de francos para reconhecer a independência do Haiti 25 anos depois. Esse dinheiro foi pago pelos novos proprietários dos lotes distribuídos através de um tributo do café imposto pelo novo governo. Foi a exportação do café produzido por eles que indenizou os ex-colonos.

No Brasil (a abolição se deu em 13 de maio de 1888, a última do mundo), os senhores do café tentaram emplacar a indenização com ameaças de processos na justiça, mas o ministro Ruy Barbosa mandou queimar uma série de documento, de acordo com historiadores, para evitar esse reembolso injusto.

 

A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA E A ABOLIÇÃO NA “PÉROLA DAS ANTILHAS”

Os negros cativos de São Domingos (hoje Haiti – “Pérola das Antilhas”) conseguiram a abolição da escravatura em 29 de agosto de 1793, mas a luta só foi totalmente consolidada com a independência, decretada em 1º de janeiro de 1804. Era a segunda independência nas Américas, após a dos Estados Unidos, em 1783.

Quem conta toda essa história é o escritor Marcel Dorigny em seu livro “As Abolições da Escravatura no Brasil e no Mundo”, no capítulo “A Primeira Abolição da Escravatura (1789-1804). Em “o fracasso da abolição do tráfico” (1789-1790), ele narra que a ofensiva contra o comércio negreiro foi inaugurada pelos ingleses através de uma moção parlamentar entregue a William Wilberforce, em maio de 1788.

No entanto, um lobbie ligado às colônias e aos armadores se mobilizaram contra a proposta com 14 mil assinaturas recolhidas em Liverpool. O projeto foi rejeitado. Do outro lado, os fundadores da Sociedade dos Amigos do Negros, de Paris, acompanharam os debates e seguiram a escola inglesa numa força conjunta pela abolição do tráfico.

Os dirigentes da Sociedade, liderados por Condorcet, lançaram em todo país francês uma vasta campanha contra o tráfico, mas não diretamente contra a escravidão em si. Nessa linha, um parlamentar inglês abriu a discussão no sentido do governo reduzir as comissões pagas para estimular o tráfico negreiro.

No início de 1789 o foco das proposições era a abolição do tráfico, mas, por detrás disso, questionava-se a abolição da escravatura. Da Inglaterra, o avanço voltou-se para Paris a partir da Declaração dos Direitos do Homem, votada em 26 de outubro de 1789, cujo artigo primeiro dizia que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos”.

Mesmo assim, segundo Marcel, a lei colocava de fora a escravidão e o tráfico. Nesse contexto, a Sociedade Amigos dos Negros confiou ao parlamentar Mirabeau a missão de preparar um discurso contra o tráfico negreiro com o fim de arrancar uma lei de abolição de todo comércio de seres humanos. O trabalho mobilizou toda uma equipe de políticos, como Étienne Dumont, Étienne Clavière, Salomon Reybaz e o inglês Thomas Clarkson.

Com objetivo de sensibilizar a opinião pública, Mirabeau recorreu a fortes ilustrações de mortes e castigos impostos aos negros, como as máquinas de abrir a boca dos cativos para alimentá-los à força. Na verdade, o discurso não chegou a ser proferido, mais uma vez por causa dos movimentos em favor das colônias e dos armadores de navios.

O famoso discurso só foi lançado em 22 de março de 1790 diante da Sociedade dos Amigos dos Negros, só que não houve repercussão devido ao boicote dos conservadores. O assunto deixou de existir nas assembleias revolucionárias até que o deputado Grégoire retomou a questão, em 27 de julho de 1793. Uma convenção resolveu, então, acabar com o subsídio da República concedido ao tráfico.

Os “livres de cor”, mestiços e negros das colônias passaram a reivindicar os direitos civis e cívicos do artigo primeiro da Declaração dos Direitos Humanos. Os colonos reagiram e chegaram a excluir essa categoria de libertos das assembleias, criadas pelo decreto de 28 de março de 1790.

Diante disso, os “livres de cor” de São Domingos resolveram, no final de 1790, pegar em armas, seguindo o exemplo dos parisienses que tomaram a Bastilha. Mal organizados, os revoltosos foram logo esmagados e seus principais líderes Vicent Ogé e Jean-Baptiste Chavannes condenados ao apedrejamento em praça pública, em 25 de fevereiro de 1791. Os outros foram enforcados e sentenciados às galés.

Apesar do fracasso, as ideias de liberdade não deixaram de existir e tiveram um fértil terreno na cisão dos adversários que estavam em guerra, como a Inglaterra, França, Holanda e Espanha, que aliviaram a repressão. Outra rebelião começou em 23 de agosto de 1791, perto de Cap-Français, a partir de uma cerimônia noturna mágico-religiosa, de inspiração vudu e mesclada a ritos cristãos, no “bosque Caiman”.

Desse ato, 54 escravos prometeram jurar por liberdade. Boukman, letrado, vindo da Jamaica, foi o mestre da cerimônia. Logo foi morto, mas continua como um mito no Haiti. A Assembleia da França enviou tropas para combater os rebeldes, mas depois, como manobra, decidiu criar um decreto para aproximar brancos e “livres de cor”, concedendo a estes direitos políticos.

Dominada pelos partidários de Brissot, a Assembleia enviou três comissários a São Domingos (Léger-Felicité Sonthonax, Étienne Polverel e Ailhaud), para fazerem valer o decreto. Eles chegaram em 1792 em meio a uma guerra entre espanhóis e ingleses. A comissão fracassou e tiveram como saída a abolição, em 29 de agosto de 1793.

Abolida a escravidão, três novos deputados representando o povo de São Domingos foram eleitos e enviados a Paris, sendo eles Louis-Pierre Dufay (branco), Jean-Baptiste Mills (mestiço) e Jean-Baptiste Belley (negro). Eles chegaram em Paris em 1794 e foram detidos, mas soltos depois quando relataram tudo o que estava ocorrendo na colônia.

A convenção votou pela abolição da escravatura em Haiti, estendida às outras colônias, mas na prática a escravidão continuou em Guadalupe e na Guiana, conquistada tempos depois, em dezembro de 1794. Pela lei de 1º de janeiro de 1798, as colônias foram transformadas em departamentos.

Após o golpe de Estado de Napoleão Bonaparte, uma nova Constituição ignorou a integração das colônias, abrindo caminho para o restabelecimento da escravidão, principalmente com o fim da guerra com a Inglaterra (Tratado de Londres – 1801 e de Amiens – 1802). Em Guadalupe houve uma forte repressão e a escravidão voltou em 7 de julho de 1802. Em São Domingos, o enviado de Napoleão, seu cunhado Emmanuel Leclerc, se deu mal.

O exército indígena, liderado pelos generais Toussaint Louverture,  Jean- Jacques Dessalines e Jérôme Péttion conseguiu vencer a reconquista militar da colônia. Apesar da captura de Louverture, morto depois em Paris, as tropas francesas, comandadas por Rochambeau, capitularam em 18 de novembro de 1803.

A escravidão não foi restabelecida e São Domingos se tornou República do Haiti, em 1º de janeiro de 1804. “Assim, a Revolução Francesa nas colônias foi marcada pela revolta vitoriosa dos escravos de São Domingos, que lhe impuseram uma abolição radical da escravidão, estendida às outras colônias…” – conforme assinalou o escritor e historiador Marcel Dorigny.

 

 

“AS ABOLIÇÕES DA ESCRAVATURA NO BRASIL E NO MUNDO”

Marcel Dorigny – Editora Contexto

“…Quem pretende transformar um ser humano em coisa, também se coisifica”. Este pensar está na abertura do prefácio da obra de Marcel Dorigny, um historiador do Departamento de História da Universidade de Paris VIII.

Marcel delineia as diferenças entre antirracista, antirracismo, abolicionista e abolicionismo, cujas ideias tiveram início no século XVIII na França e na Inglaterra. Destaca as primeiras rebeliões ou resistência dos escravos africanos. Os embates amadureceram no século XIX.

O historiador, de acordo com seus estudos, nos oferece uma série de fatores que resultaram no fim da escravidão, como o desenvolvimento da indústria, a necessidade de ampliação do mercado consumidor, o fenômeno da urbanização, a consciência dos intelectuais em decorrência das ideias da Revolução Francesa, mas, sobretudo, a resistência dos cativos africanos.

Ao se referir aos países mais “avançados” da Europa, assinala que as ideias de tolerância e afirmação dos direitos naturais do homem (liberdade e igualdade) foram uma poderosa força no processo que levou à condenação da escravidão.

“Do mesmo modo, as novas teorias de economia política da segunda metade do século XVIII contribuíram para tornar a escravidão cada vez mais desnecessária para o desenvolvimento da nova economia”.

Sobre as “resistências à escravidão”, o historiador cita o debate parlamentar das Leis de Mackau, de 1845, enquanto os defensores da continuidade nas colônias diziam que os escravos eram mais felizes que os operários das minas ou das fábricas. Um dos dirigentes da Sociedade Francesa pela Abolição da Escravatura (1834), Agénor de Gasparin, contestou esse absurdo com dados sobre a venda de escravos, as rebeliões e a manutenção da força de repressão, cada vez mais onerosa. Lembra que o movimento em São Domingos (Haiti), no final do século XVIII, representava um constante perigo de uma concentração maior de “não livres”.

Em 1840, Victor Schoelcher observou que para evitar um levante a solução era a abolição imediata. Em contraste com as belas pinturas e ilustrações, existia um trabalho pesado nas plantações de cana-de-açúcar ou de algodão, o trabalho braçal nas cidades, os castigos dos chicotes, do pelourinho e da prisão.

Quanto as resistências à escravidão, o autor do livro aponta que o primeiro navio a levar escravos africanos a São Domingos chegou em 1503. A resistência tinha início nos embarques dos escravos nos porões dos navios e continuava na recusa ao trabalho forçado (uma prova do arcaísmo), o suicídio, a recusa de gerar filhos (abortos e assassinatos), a fuga das plantações e desleixo na execução dos serviços. Só o chicote do capataz os estimulava.

Na resistência ainda ocorriam o envenenamento dos animais, dos poços de água ou dos próprios senhores nas tarefas domésticas. Tudo era resultado de uma opressão insuportável.  Os fugitivos se refugiavam em zonas de difícil acesso para as forças de repressão, como nas Montanhas Azuis, na Jamaica (lugares de memória da marronagem, os marrons), que se transformaram em centros de fortificações semelhantes aos nossos quilombos.

Os ingleses perderam a guerra contra eles em 1739. Um tratado deu autonomia ao enclave das Montanhas Azuis. O mesmo aconteceu no Suriname Holandês e na Guiana Francesa. “ Em São Domingos, em meados do século XVIII, essa grande marronagem foi liderada por Makandal, que semeou o terror nas plantações, culminando depois com a Revolução Haitiana, entre 1791 e 1803.

No Brasil, os fugitivos se escondiam no coração das florestas, fora do alcance das tropas portuguesas. Ali se formaram os famosos quilombos, como dos Palmares. Marcel cita a famosa frase de Diderot: “Aquele que justifica um tal sistema merece do filósofo um profundo desprezo, e do negro, uma facada”.

No capítulo “As contestações ao Tráfico e à Escravidão”, o autor da obra fala sobre os antiescravistas, abolicionistas e reformadores coloniais, bem como, no emprego da palavra antiescravista e antiescravismo, abolicionista e abolicionismo. O primeiro limita sua ação a uma condenação moral da escravidão, que pode ser religiosa, ética ou econômica, sem dar uma solução.

O abolicionista é um ato político que prevê modalidades concretas de abolição e o tipo de sociedade que se criará depois. O abolicionista (moderado e radical) queria a destruição da escravidão. O moderado considerava a abolição por etapas e o radical recusava a ideia do fim progressivo. Entre servidão e liberdade não poderia haver categorias jurídicas intermediárias – defendia.

O historiador faz uma distinção entre o antiescravismo, que estabelece as bases da condenação de um sistema, e o abolicionismo que dá um passo a mais e propõe as modalidades da própria abolição, além de prevê as formas de transição entre o trabalho forçado e o livre. Existia ainda o reformador colonial na primeira metade do século XIX, que defendia a manutenção da escravidão por um curto prazo. Propunha “arranjos” e não a destruição radical.

Houve um antiescravismo cristão, cuja origem filosófica se baseava no igualitarismo evangélico (os quarkers), fundado no Gênesis, onde Adão e Eva representam a origem da humanidade, vinda da mesma fonte primitiva, o que condena de início a ideia de hierarquia entre as raças humanas, isto é, a exploração de uns contra os outros.

Essa concepção igualitária eliminava as justificativas da escravidão por natureza, que se baseavam no pressuposto da desigualdade entre os diferentes ramos da espécie humana, ou na maldição de Cam. A corrente do igualitarismo, de inspiração evangélica, foi dominante na Inglaterra e nos Estados Unidos, numa dissidência da Igreja Anglicana. Assim surgiu o movimento antiescravista e depois o abolicionista inglês e americano até o século XIX, liderado por pastores, tendo como maior exemplo os quakers, primeiros a proibir por parte dos seus membros a escravidão na Pensilvânia. “Não se pode ser Quaker e dono de escravo ao mesmo tempo”.

Marcel afirma que a teoria da extinção da escravidão ficou explicita no discurso de Mirabeau (um dos precursores do fim do cativeiro foi Montesquieu) e seu grupo, entre agosto de 1789 e março de 1790, onde propõe à Assembleia Constituinte votar a abolição do tráfico, num acordo franco-inglês. Ele mantinha troca de ideias com o abolicionista inglês Thomas Clarhson que apresentava a tese de um fim gradual da escravidão.

No século XVIII os abolicionistas eram minoritários e isolados, pois imaginar o futuro das colônias sem cativos era uma audácia, denunciada como contrária aos interesses nacionais. Eram considerados inimigos das colônias e da França. A Sociedade dos Amigos dos Negros, na França, foi acusada de instrumento nas mãos da Inglaterra para destruir a França. Os colonos e armadores denunciaram os deputados da Assembleia que votaram a favor da igualdade de direitos políticos aos “livres de cor” das colônias.

No fundamento da igualdade entre os homens (Iluminismo) sobre a igualdade natural, Diderot, Raynal e Voltaire são exemplos dessa corrente de pensamento. A Igreja Católica jamais condenou a escravidão enquanto instituição. Nem o Antigo e o Novo Testamento condenam a redução dos povos vencidos na guerra à escravidão, mas apresentam como uma prática que poupava a vida dos vencidos que o direito da guerra permitia matar.

Existiram exceções individuais, como do abade Grégoire, excomungado pela Igreja de Roma. A Europa foi a primeira a formular uma condenação filosófica, religiosa e econômica da escravidão. Na trajetória do antiescravismo para o abolicionismo, essa primeira etapa ocorreu até o início dos anos 1770. No antiescravismo, o argumento era de que o fim da escravidão não seria o fim das colônias, mas permitira, ao contrário, um aumento de prosperidade e a fundação de novas colônias, organizadas nas relações de igualdade entre os povos. Novas correntes foram desenvolvidas a partir do final dos anos 1750. Para os filósofos, a escravidão era uma forma de trabalho ultrapassado, arcaica e pouco produtiva, ao contrário de trabalho livre.

Diderot e o abade Raynal escreveram os textos mais radicais. Segundo eles, o fim da escravidão se dará pela violência da revolta e não por uma série de reformas que abram o caminho para sua extinção pacífica.

Esses dois nomes foram objetos de ódio e de rancor nos meios coloniais, principalmente após a revolta dos escravos em São Domingos, em 1791. Eles propunham soluções de abolições graduais. A sociedade colonial vivia no temor constante de revoltas, mais numerosas na segunda metade do século XVIII.

Foi nessa lógica que, já nos anos 1770, na América do Norte, e nos anos 1780, na Inglaterra e na França criaram-se as primeiras sociedades antiescravistas, com projetos políticos de um movimento abolicionista.

Em 1775, foi fundada a primeira sociedade antiescravista na Filadélfia, sob a égide do próprio Benjamim Franklin. Diante disso, os ingleses e os franceses acreditavam que o fim da escravidão começaria nos Estados Unidos

ESCRITORES BRASILEIROS E REGIONAIS

Tenho observado que os nossos escritores, intelectuais e professores em geral costumam citar pensamentos e obras de autores estrangeiros e pouco sobre os nossos brasileiros, principalmente os nordestinos, muitos dos quais chamados de regionais, sem falar dos locais, no caso específico dos nossos conquistenses.

Não sei se posso considerar esse tipo de comportamento como esnobismo de conhecimento, ou incluir naquela máxima de Nelson Rodrigues, de que temos o “complexo de vira-lata”, isto é, de inferioridade, por não valorizar o que é nosso, a prata da casa. É um tal de norte-americano, inglês, russo, francês, português, espanhol, polonês, argentino, uruguaio, colombiano e tantos outros.

Até parece mais chique citar um “gringo” do que um brasileiro, um regional ou local. Nosso país é rico em grandes escritores, como Jorge Amado, Câmara Cascudo, José de Alencar, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Aloísio Azevedo, Fernando Sabino, Paulo Coelho, Rubem Braga, João Ubaldo Ribeiro, Euclides Neto, Raul Pompéia, Guimarães Rosa, Afrânio Peixoto, Gilberto Freire, Luiz Gama, Oswaldo de Andrade, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, sem contar os grandes poetas que temos.

Vamos ser mais simples e abrir mais discussões literárias em torno dos nossos escritores que falam da nossa cultura com seus personagens que se identificam com a gente, embora os estrangeiros tenham grande importância e não devemos deixar eles de lado porque o saber tem que ser universal.

Mesmo entre nós brasileiros, temos a mania de desprezar o talento da terra e prestigiar o de fora, muitas vezes até de nível duvidoso. Vemos isso nas feiras literárias regionais onde os organizadores procuram sempre convidar os considerados “famosos” de outra região ou estado, em detrimento daqueles onde o evento está se realizando.

Na avaliação dos programadores, a feira só tem audiência e visibilidade maior se chamar um nome que esteja mais badalado na mídia e na propaganda das editoras, mesmo que não tenha lá esse conteúdo todo. Esse tipo de coisa não ocorre somente na literatura, mas também em festas culturais que abrangem outras linguagens artísticas, como a música, as artes plásticas e visuais.

Entendo que antes de tudo, uma feira literária, seja aonde for, só alcança seus objetivos de criação quando coloca em primeiro lugar os escritores locais que já sofrem com a falta de apoio dos poderes públicos. Muitos são independentes ou publicam suas obras através de pequenas editoras e lutam para vender suas obras e se tornarem conhecidos do leitor.

Claro que o intercâmbio e a troca de ideias não devem deixar de existir, mas vamos priorizar o escritor local e assim despertar e estimular o surgimento de novos talentos. Aqui mesmo em Vitória da Conquista temos grandes escritores e poetas que não vou citar nomes para não cometer certas injustiças.

Agora mesmo vamos ter a Feira Literária de Conquista, a Fliconquista, que já é um grande passo e elogiável iniciativa para prestigiar e valorizar esta linguagem artística, por tantos anos esquecida do nosso público.

No entanto, deixo aqui minha sugestão de que passada esta feira, seja realizado um encontro de escritores conquistenses, um foro de discussões, para dizermos quem somos, como atuamos e, principalmente, falarmos das nossas dificuldades em escrever e lançar um livro.

Precisamos montar estratégias de cooperação, deixando de lado as vaidades das fogueiras, para nos tornarmos mais conhecidos incluindo todas as faixas etárias, desde o mais jovem estudante ao mais idoso. Precisamos fazer chegar nossas obras até às mãos de novos leitores, a começar pelas escolas, bibliotecas e associações.

 

 

“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS” (Final)

REFLEXÕES SOBRE A LITERATURA NOS REGIMES TOTALITÁRIOS E NAS DEMOCRACIAS; A PROSA E O POEMA; OS CIENTISTAS; E OS MALÉFICIOS DA MECANIZAÇÃO NAS ARTES. “COMO ACONTECE COM CERTOS ANIMAIS SELVAGENS, A IMAGINAÇÃO NÃO SOBREVIVE EM CATIVEIRO”.

O escritor indiano-inglês, George Orwell, em sua obra “Dentro da Baleia e Outros ensaios” faz uma reflexão sobre a literatura nos regimes totalitários e nas democracias e como ela consegue sobreviver. Sobre o poema e a prosa, diz que o primeiro pode ser elaborado em conjunto, até na batida de um instrumento onde uma inspiração vai se juntar com a do outro, enquanto a segunda requer mais solidão e trabalho individual.

No capítulo “A Prevenção contra a Literatura”, ele começa citando “Pen Club” (clube internacional de escritores fundado em 1921) e a Areopagítica de John Milton, de 1644, um panfleto em defesa da liberdade de imprensa. Sobre o clube, descreve que, de um lado, estavam os apologistas do totalitarismo e do outro os inimigos do monopólio e da burocracia (a concentração da imprensa nas mãos de uns poucos ricos).

“A independência do escritor e do artista é devorada por forças econômicas vagas e, ao mesmo tempo, corroída por aqueles que deveriam ser seus defensores”… “A liberdade de pensamento e de imprensa são normalmente atacadas com argumentos que nem vale a pena mencionar”. É claro que ele fala da sua época dos anos 30/40, mas sua observação vale para nossos tempos atuais.

Em sua análise, afirma que os católicos e os comunistas são semelhantes na suposição de que um oponente não pode ser ao mesmo tempo honesto e inteligente. Cada um deles alega que a verdade já foi revelada e que o herético está secretamente ciente da “verdade” e resiste a ela meramente por razões egoístas.

Em sua crítica, a liberdade do intelecto significa liberdade para relatar o que se viu e sentiu, e não ser obrigado a fabricar fatos e sentimentos imaginários. “O argumento de que contar a verdade “seria inoportuno” ou “favoreceria o jogo” de alguém é considerada irrespondível, e poucas pessoas se incomodam com a perspectiva de as mentiras que elas toleram irem para os jornais e livros de história”.

Orwell destaca que a mentira organizada, praticada por estados totalitários, é algo inerente ao totalitarismo. Para ele, uma mentira grande não é pior do que uma pequena. “Uma sociedade totalitária que tivesse sucesso em se perpetuar estabeleceria provavelmente um sistema de pensamento esquizofrênico”… Segundo o escritor, existem pessoas que consideram um escândalo falsificar um texto científico, mas que nada seria errado falsificar um fato histórico.

Na literatura política, em sua avaliação, o totalitarismo exerce maior pressão sobre o intelecto. “Isso explica em parte o fato de em todos os países ser mais fácil para os cientistas do que para os escritores alinhar-se aos respectivos governos”.

Sobre a Inglaterra, onde os inimigos da verdade são os barões da imprensa e na Rússia soviética ser um território proibido na imprensa britânica, certos temas são excluídos do debate. “Todo escritor é um político, e cada livro é necessariamente um trabalho de reportagem honesta”. Muitos supõem que o escritor é uma pena de aluguel – assinala.

Em sua ótica, o jornalista não é livre e tem consciência da falta de liberdade quando é forçado a escrever mentiras ou a suprimir o que a ele parecem notícias importantes. “O escritor imaginativo não é livre quando precisa falsificar os sentimentos subjetivos que, de um ponto de vista, são fatos. Ele pode distorcer a realidade de forma a tornar mais claros seus objetivos, mas não pode adulterar seu cenário mental. Se ele for forçado a fazer isso, o único resultado será que suas faculdades criativas vão secar”.

Em sua opinião, literatura genuinamente apolítica é coisa que não existe, menos ainda em uma época como a nossa, quando medos, ódios e lealdades de um tipo claramente político estão próximos da superfície na consciência de todas as pessoas.

A PROSA E A POESIA

Em seu ensaio, ressalta que a literatura algumas vezes floresceu sob regimes despóticos, porém conforme foi assinalado com frequência, os despotismos do passado não eram totalitaristas. A prosa literária atingiu seu nível mais alto nos períodos de democracia e livre reflexão.  Essa prosa desapareceu durante a única era de fé que a Europa já teve. Ao longo da Idade Média, quase não existiu prosa literária imaginativa, e bem pouco texto histórico.

De acordo com ele, não está claro se os efeitos do totalitarismo sobre a poesia são necessariamente tão fatais quanto sobre a prosa. Há uma série de razões convergentes pelas quais é um pouco mais fácil para um poeta do que para um prosador sentir-se à vontade em uma sociedade autoritária. Burocratas e outros homens “práticos” desprezam os poetas por terem grande interesse no que ele está dizendo.

“A ideia contida em um poema é sempre simples. Um poema é uma combinação de sons e associações, como uma pintura é um combinado de pinceladas. Para fragmentos curtos, na verdade, como no refrão de uma música, a poesia pode até mesmo abrir mão totalmente do significado. É relativamente fácil para um poeta manter-se distante de temas perigosos e evitar expressar heresias e, mesmos quando expressam, elas podem passar despercebidas”.

Na poesia existe, segundo o ensaísta, o tipo de colaboração, o contrário da prosa que é feita mais na solidão. “A poesia pode sobreviver até mesmo sob regime mais inquisitorial. Mesmo em uma sociedade em que a liberdade e a individualidade foram extintas, ainda haveria necessidade de músicas patriotas e baladas heroicas que comemorassem conquistas e bajulação”.

A história das sociedades totalitárias sugere que a perda de liberdade é inimiga de todas as formas de literatura – segundo sentencia Orwell, ao apontar que a literatura alemã quase desapareceu durante o governo de Hitler, e a situação não foi diferente na Itália, bem como na Rússia desde que se deteriorou nos primeiros dias da Revolução em 1917, embora alguns poemas pareçam ser melhores do que na prosa.

Sobre a Europa Ocidental e a América, destaca que parcelas da literatura passaram pelo Partido Comunista ou foram simpatizantes, mas esse movimento para a esquerda produziu poucos livros dignos de se ler. “O catolicismo ortodoxo parece ter um efeito esmagador sobre certos gêneros, como o romance. Ninguém jamais escreveu um bom livro em louvor à Inquisição”.

Em sua crítica, a poesia pode sobreviver em regimes totalitários, mas o escritor da prosa não teria escolha entre o silêncio e a morte. “A destruição da liberdade mutila o jornalista, o escritor, o historiador, o romancista, o crítico e o poeta, nessa ordem”.

A MECANIZAÇÃO NAS ARTES

George Orwell chegou a prever a mecanização das artes como um todo onde haveria uma queda de produção, autenticidade e conteúdo. “É provável que romances e contos sejam substituídos por filmes e programas de rádio. Um processo de mecanização já pode ser visto em funcionamento no cinema e no rádio em níveis mais baixos de jornalismo”.

Os filmes da Disney são produzidos por um processo fabril de forma mecânica, em parte por grupos de artistas que precisam sujeitar seu estilo individual. Peças de rádio são escritas por redatores exaustos. O que eles escrevem é um material bruto, fatiado e formatado por produtores censores, bem como livros encomendados por departamentos do governo – ressalta o autor.

Nessa mecanização ele cita contos, seriados e poemas para revistas mais baratas. Declara que em jornais abundam anúncios de escolas de literatura, todas oferecendo enredos prontos por poucos xilins por hora. Outras fornecem frases de abertura e de encerramento de cada capítulo. Algumas, pacotes de cartões, com anotações sobre personagens e situações…

A imaginação, conforme diz, seria eliminada do processo de escrita. De forma indireta ele chegou a prever a criação da inteligência artificial quando afirmou que a imaginação seria eliminada do processo de escrita. Os livros seriam planejados por burocratas e depois passariam por tantas mãos que terminariam não sendo mais um produto individual do que um carro da Ford ao fim da linha de montagem. Para o autor, algo assim seria uma porcaria.

“Para exercer seu direito à liberdade de expressão, você precisa lutar contra a pressão econômica e contra parcelas poderosas da opinião pública, mas não, ainda contra a polícia secreta. O grande público não se importa com a questão, de uma forma ou de outra. Eles são ao mesmo tempo lúcidos demais e estúpidos demais para desenvolverem o ponto de vista totalitário”.

OS CIENTISTAS PRIVILEGIADOS

Segundo Orwell, a Rússia é um pais grande em desenvolvimento que tem uma necessidade aguda de cientistas e, por isso, trata eles com generosidade. Desde que não se metam com psicologia, eles são privilegiados. Por sua vez, os escritores são perseguidos e deles é extirpada a liberdade de expressão. O cientista deve dizer: Os escritores são perseguidos. “E daí, eu não sou escritor”. O Estado totalitário tolera o cientista porque precisa dele, a exemplo da Alemanha nazista onde eles não ofereceram resistência a Hitler- enfatiza Orwell.

O cientista pode até gozar de certo grau de liberdade, mas Orwell adverte que se ele quer salvaguardar a integridade da ciência, é seu dever ser solidário para com os colegas literários e não considerar com indiferença que escritores sejam silenciados ou levados ao suicídio, e os jornais falsificados.

Por fim, ele ressalta que a literatura está condenada se a liberdade de pensamento perecer. Em seu ponto de vista, uma mente vendida é uma mente estragada, tornando impossível a criação literária. “No momento, sabemos apenas que a imaginação, como certos animais selvagens, não sobrevive em cativeiro”.

 

 

 

“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS” III

AS CRÍTICAS DE TOLSTÓI ÀS PEÇAS DE SHAKESPEARE E A DEFESA DE GEORGE ORWELL EM RESPOSTA AO RUSSO.

No capítulo “Lear, Tolstói e o Bobo”, o autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, George Orwell expõe as críticas de Tolstói contra o escritor e dramaturgo Shakespeare onde, ao mesmo tempo, rebate o russo relatando partes negativas de sua vida e afirma que ele não tinha propriedade para menosprezar as obras do poeta inglês, especialmente quanto a sua habilidade para com as palavras, que soavam como música.

Ao analisar a peça Rei Lear, Tolstói, através do seu panfleto, considera que Shakespeare não é nem “um autor mediado”, quanto mais um gênio. Em sua apresentação sobre o do enredo de Rei Lear, o russo julga como estúpido, verborrágico, antinatural, incompreensível, bombástico, vulgar, tedioso e repleto de episódios inverossímeis, “loucos desvarios”, cheio de obscenidades, sem contar as faltas morais e estéticas.

“Lear é, de qualquer forma, plágio de uma peça mais antiga e muito melhor, Rei Leir, de autoria desconhecida, que Shakespeare roubou e arruinou”. Em seu panfleto, o russo arrasa o inglês com termos depreciativos. O veredicto final de Tolstói sobre Lear, conforme descreve Orwell, “é que nenhum observador não hipnotizado, se um observador assim existisse, conseguiria ler a peça até o fim com nenhum sentimento, exceto “aversão e fastio”.

Sua crítica áspera inclui todas suas outras peças, segundo ele, sem sentido que foram, dramatizados, como Péricles, Noite de Reis, A Tempestade, Cimbelino, Troilo e Créssida. Ele acha que Shakespeare tem alguma habilidade técnica, devido em parte ao seu passado, como ator, mas absolutamente nenhum outro mérito.

Para Tolstói, a linguagem do inglês é exagerada e ridícula, que enfia os próprios pensamentos aleatórios na boca de qualquer personagem que por acaso esteja à mão. “Demonstra “uma ausência completa de senso estético, e suas palavras ”não têm nada em comum com a arte e nem com a poesia. Shakespeare pode ter sido o que você quiser, mas ele não era um artista” – diz Tolstói, acrescentando que sua tendência é do “tipo mais baixo e imoral”. “Seu princípio é que o fim justifica o meio”.

Na análise do russo, a fama do inglês está em uma espécie de “hipnose das massas” ou em uma “sugestão epidêmica”. Ressalta ainda que o mundo civilizado vem sendo induzido a pensar que Shakespeare é um bom escritor. Sobre a fama do inglês, o russo declara que ela foi promovida por acadêmicos alemães no final do século XVIII. “Sua reputação surgiu na Alemanha e de lá foi transferida para a Inglaterra”.

Do outro lado, com relação às críticas de Tolstói, o autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, retruca que o sentimento que se tem é de que, ao descrever o inglês como um mau escritor, ele está dizendo algo demonstrativamente inverídico. Para Orwell, não existe nenhum tipo de evidência ou argumento pelo qual se possa demonstrar que Shakespeare, ou qualquer outro escritor, seja “bom”, nem que seja “ruim”. “Não existe teste de mérito literário, a não ser a sobrevivência”.

“Teorias artísticas como a de Tolstói são bastante inúteis porque não apenas partem de princípios arbitrários como dependem de termos vagos, que podem ser interpretados de qualquer forma que se queira”. Orwell indaga o porquê dos ataques de Tolstói. Em sua opinião, o russo usa muitos argumentos fracos ou desonestos. “Sua análise sobre Rei Lear é “imparcial”, como duas vezes ele alega ser. Ao contrário, é um longo exercício de distorção”.

Orwell afirma que nenhuma dessas interpretações equivocadas é por si muito grosseira, mas o efeito cumulativo é exagerar a incoerência psicológica da peça. Diz também que Tolstói não é capaz de explicar por que as peças de Shakespeare ainda estavam sendo impressas e encenadas duzentos anos depois de sua morte. Mais diante chama o trabalho de Tolstói de simples adivinhação, pontuado por declarações falsas explícitas.

Destaca que muitas das acusações do russo se contradizem mutuamente. “De modo geral, é difícil sentir que as críticas de Tolstói são feitas de boa-fé”. Entende ser impossível que ele acreditasse na tese principal que, por um século ou mais, todo mundo civilizado tenha sido engolfado por uma mentira enorme e palpável que ele, e somente ele, tenha sido capaz de perceber.

Em determinado trecho, Orwell chega a concordar com Tolstói quando critica que a peça Lear não é muito boa por ser longa demais e ter excessos de personagens e de subtramas.

Entretanto, assinala que “Tolstói era capaz de repudiar a violência física e de enxergar o que isso implica, mas não era capaz de tolerância nem de humildade, e, mesmo sem conhecer nenhum de seus outros textos, uma pessoa poderia deduzir sua tendência à intimidação espiritual a partir desse único panfleto”. Sua rixa com Shakespeare vai além. É uma rixa entre as atitudes religiosas e as humanistas diante da vida – rebate Orwell.

O autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios” observa que existe um episódio de semelhanças entre a peça de Lear e a vida de Tolstói que foi seu ato imenso e gratuito de renúncia. “Em sua velhice renunciou às propriedades, aos títulos e direitos autorais e fez uma tentativa, não bem-sucedida de escapar de sua posição privilegiada e levar a vida de um camponês. Tolstói renunciou ao mundo na expectativa de que isso o faria feliz, mas não foi feliz”.

 

 





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