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:: ‘Encontro Com os Livros’

“A MÁSCARA DA ÁFRICA-VISLUMBRES DAS CRENÇAS AFRICANAS”

OS REIS OU OS KABAKAS (CHEFES) CRUEIS DE UGANDA (BUGANDA) DO POVO BAGANDA DO SÉCULO XIX, A CULTURA TRADICIONAL DO CULTO AOS ESPÍRITOS ANCESTRAIS, OS SACRIFÍCIOS HUMANOS E A INVSÃO DAS RELIGIÕES ESTRANGEIRAS (O CRISTIANISMO E O ISLAMISMO).

O Prêmio Nobel de literatura de 2021, V. S. Naipaul, que escreveu “A Máscara da África” empreendeu uma viagem pelo continente em 1966 (revisitada 40 anos depois) e sentiu as mudanças, resultantes do progresso e da influência exercida pelo mundo exterior. Uganda virou uma bagunça e aumentou consideravelmente a pobreza e a miséria.

Mesmo expostos às grandes religiões do cristianismo e do islamismo, o sistema antigo de crenças, herdadas dos antepassados, ainda persistem. De Uganda, depois de mais de 40 anos, o escritor passou pela Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Gabão e África do Sul, entre 2008 e 2009, visitando locais sagrados e conversando com intelectuais, autoridades políticas, chefes religiosos e pessoas comuns.

Em sua observação, constatou que ainda existem os laços que vinculam às crenças e práticas religiosas ancestrais. Neste livro, Naipaul, nascido na ilha de Trinidad, em 1932, graduado na Universidade de Oxford, nos oferece um amplo panorama dos dilemas enfrentados pela África de hoje. Seu romance mais famoso foi “Uma Casa para o Sr. Biswas”, escrito em 1961. Vale a pena viajar nas obras desse escritor.

“A Tumba de Kasubi” é o primeiro capítulo da obra “A Máscara da África” onde ele descreve sobre os kabakas cruéis Sunna e seu filho Mutesa, passando por Idi Amim, entre 1971 até 1979 (dizem que matou mais de 150 mil pessoas), e pelo governo do feroz Milton Obete, de 1981 a 1985. Entre 2008 e 2009, apesar do deslocamento de 1,5 milhão de pessoas e da epidemia da aids ainda havia 30 a 40 milhões de habitantes vivendo em Uganda (Buganda).

Nesse capítulo “A Tumba de Kasubi”, vamos falar um pouco de Sunna e Mutesa, bem como das mudanças com a invasão das religiões estrangeiras (anglicana, a presbiteriana e o islã) que chegaram prometendo a vida além da morte, enquanto o povo tradicional praticava a cultura de venerar os espíritos ancestrais que viviam nas florestas e eram seus guias. Foi aí que Uganda se deteriorou.

Em sua viagem por Uganda, Naipaul fala do kabaka Sunna, do meado do século XIX, conhecido pela sua grande crueldade, e a chegada dos árabes que espalharam o islamismo. Depois vieram as igrejas eclesiásticas narradas pelo escritor, em 2008/09. “Nas áreas nobres superconstruídas havia estruturas cristãs “evangélicas”. Também havia mesquitas concorrentes de vários tipos, como sunitas, xiitas e ismaelitas”.

De acordo com Naipaul, até os anos 1840, Uganda tinha ficado isolada, vivendo para si mesma, até a chegada dos mercadores árabes que foram bem acolhidos por Sunna. Seu filho sucessor Mutesa, que chegou a receber o explorador John Hanning Speke, em 1861/62, era tão cruel quanto o pai.

Speke presenteou o kabaka com armas, bússola, espelho e outros instrumentos, mas o povo baganda, com seu dom para a organização social e disciplina militar, possuía sua própria civilização. “Construíam estradas tão retas quanto as dos romanos; tinham a higiene em alta conta; e dispunham de uma frota no Lago Vitória, o maior da África.

“O fruto dessa decisão de mais de 139 anos atrás podia ser visto agora em Kampala (capital). A religião estrangeira, a julgar pelos edifícios eclesiásticos que competiam entre si nos morros, era como uma doença impregnada e contagiosa, que não curava nada, não oferecia nenhuma resposta definitiva, mantinha a todos num estado de nervos, travando batalhas erradas e estreitando a mente”. Essas religiões estrangeiras, segundo Naipaul, possuíam uma teologia complexa.

O príncipe Kassim, no entanto, tinha uma outra interpretação. Em uma conversa, o príncipe disse que ambas as religiões ofereciam para os africanos um além-vida, davam às pessoas uma visão de si mesmas vivendo depois da morte. A religião africana era mais etérea, oferecendo apenas o mundo dos espíritos e os ancestrais.

Em sua visita à Tumba de Kasubi, ele conheceu uma velha guardiã do túmulo de um kabaka, considerada privilegiada por ser uma das esposas. “Os kabakas não morriam. Desapareciam e iam para a floresta, que ficava bem em frente, na parte interna da tumba”.

Quanto ao funeral de um kabaka, conta em sua narração de viagem, que envolvia rituais que teriam vindo do passado distante. O cadáver do rei tinha que ser dessecado sobre um fogo brando durante três meses. O maxilar era retirado e adornado com contas ou cauris (conchas).

Nos velhos tempos, o sacrifício humano era uma prática comum quando se levantavam as pilastras ou se assentavam as fundações de uma tumba. Ressaltou que, quando Speke veio a Uganda, em 1861, Mutesa era kabaka, exercendo o mais despótico tipo de poder em sua corte, matando pessoas “feito galinhas”.

Certa vez, numa histeria, sem nenhum motivo aparente, levou a lança consigo ao harém e matou mulheres até que sua sede de sangue fosse saciada. Nessa época, nem havia sido coroado. Em 1886, o jovem sucessor de Mutesa, Mwanga, farto das novas religiões tão inconvenientes, ordenou que seus 22 pajens cristãos fossem queimados. Antes foram espancados a pauladas e chicoteados pelos carrascos do palácio e logo picotados a machadadas.

A tradição baganda ditava que o sangue de príncipes não era algo que pudesse ser espalhado. Era uma proibição religiosa e, por isso, não poderia haver pauladas e chicotadas para eles. Só podiam ser queimados em esteiras de junco.

A ESCRAVIDÃO DOS CRISTÃOS BRANCOS PELOS TURCOS, MOUROS E MUÇULMANOS

Quando se fala em escravidão nossas mentes lembram logo de imediato a negra africana para as Américas, a mais cruel e vergonhosa, que durou cerca de 350 anos, mas ela sempre existiu desde o início da humanidade nos tempos primitivos.

Nas guerras, como no Império Romano, um exemplo, os prisioneiros se tornavam cativos do Estado e dos senhores oficiais donos das terras. A revolta dos escravos, comandados por Spartacus, reunião mais de 100 mil homens que, por pouco, não invadiram Roma.  Foi até escrito o romance “Spartacus”. E na Grécia antiga dos filósofos?

Na época das Cruzadas, nos séculos XI e XII, os derrotados dos dois lados se tornavam escravos. A Igreja Católica até criou ordens religiosas, como os trinitários, na França, e os mercedários, na Espanha, para resgatar, por altos preços, os seus fiéis do cativeiro.

Sem muita visibilidade porque poucos escreveram sobre o tema, em paralelo à escravidão africana, entre os séculos XVI e final do XVIII, aconteceu a dos cristãos brancos na região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli) pelos corsários mouros, turcos e muçulmanos, sob o comando de Constantinopla, mais por motivos religiosos.

Alguns métodos e práticas de torturas foram até semelhantes. Quem explorou bem o assunto foi o historiador e pesquisador em Phd, Robert C. Davis, que publicou o livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”. Foi mais uma barbárie pouco divulgada onde os corsários em galés capturavam cristãos brancos da Inglaterra, França, Espanha, Portugal e Itália, principalmente.

Depois exigiam resgates caros ou eram levados para os chamados banhos públicos, um centro prisional no estilo dos campos de concentração nazistas. Como na escravidão negra, existia também um mercado de vendas desses cativos não resgatados pelo Estado e seus familiares, denominado de “Badistão”. Esses banhos públicos foram depois demolidos, sem deixar vestígios para preservar a memória.

Naquela época, as moedas mais utilizadas de compras eram os xelins ingleses, dinares argelinos, cequins venezuelanos, dólar espanhol, sultani de ouro turco, ducado veneziano, escudos romanos, patacas, grossi napolitano, piastras, onças sicilianas, dentre outras. Não se usava mercadorias como na Costa da África, no Congo, na Guiné e no Benin.

Os argelinos, com mais navios e piratas, foram os que mais investiram nas capturas de escravos cristãos brancos nobres, oficiais da marinha e pobres, na grande maioria camponeses e pescadores, entre início do século XVI ao XVIII. Eles visavam mais os italianos, muitos dos estados papais que tinham mais dinheiro para pagar.

Muitos, os mais pobres, ficavam 10, 20 e até 30 anos como escravos na Costa da Berbéria. Outros morriam nos cativeiros ou não resistiam aos espancamentos, torturas, surras, trabalhos forçados nas galés e terminavam se convertendo ao islamismo.

Os senhores reis, paxás e ricos das regências aproveitavam as mulheres para serem suas concubinas ou fazerem parte de seus haréns. Os homens eram seduzidos para serem seus cativos sexuais. Nos banhos públicos, devido a própria superlotação, eram comuns as práticas homossexuais, embriaguez, brigas constantes e mortes

 

 

AS CARTAS E AS PROCISSÕES DAS ORDENS COM OS ESCRAVOS CRISTÃOS RESGATADOS

No último capítulo, “Celebrando a Escravidão”, do livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, o autor, historiador e pesquisador Robert C. Davis divulga as cartas dos cativos libertados, especialmente pelas ordens dos trinitários e mercedários. Descreve a figura do pecado e da redenção na escravidão, bem como as procissões espetaculares para comover os fiéis a participar de mais doações. Esses atos promoviam o trabalho das missões de resgates dos escravos na Costa da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli).

As negociações de remições de escravos entre as ordens e os senhores proprietários, reis, paxás, turcos e mouros, já naquela época dos séculos XVI e XVII, eram constituídas de trapaças, subornos e corrupções. Os escravos libertos caiam nas mãos do Estado, de seus tutores e passavam por um processo de humilhação e descriminação social, sem falar do período de quarentena que eram submetidos para voltarem às suas famílias. Como sempre, os mais pobres eram os mais excluídos da integração na sociedade.

O pecado, a misericórdia, a punição e a salvação são onipresentes nos escritos dos escravos brancos na Berbéria. Como diz Robert, todos abraçavam esses conceitos como forma de compreender qual seria o propósito de Deus para infligir tanto flagelo a seus fiéis. Certa vez o abade Pietro Caissotti perguntou qual será o crime desses pobres escravos para serem sujeitos a uma punição tão severa? Ele mesmo respondeu que suas culpas e crimes eram reconhecer Cristo como o mais divino salvador.

“Pelos meus pecados, fui capturado num lugar chamado Ascea” – disse um cativo, em 1678. Esses homens e mulheres sempre se colocavam como passíveis da ira de Deus num inferno especialmente criado com essa finalidade. Escreveu (as cartas duravam cinco, seis meses ou mais para chegarem aos seus destinatários) outro em 1735: “Sinto-me como se estivesse em outro mundo de sofrimentos e dos tormentos do inferno”. Outro descreveu como uma alma no purgatório à espera de algum tipo de alívio. “Minha grande aflição, a aflição do purgatório e das chamas do inferno”.

Segundo Robert, essa penitência, sob o cruel jugo da escravidão, significava para a maioria dos escravos que eles seriam “espancados, praguejados e chamados de cães infiéis” por seus carrascos. Eles eram expostos aos riscos mais severos. Alguns viam a escravidão de uma forma mais positiva. Seria uma maneira como Deus testava os fiéis, colocando à prova a força de sua devoção diante do flagelo da escravidão.

Muitos não passavam no teste e abandonavam suas crenças, “vivendo como meras bestas”, em total embriaguez e depravação. Outros abraçavam o islamismo, desistindo de suas almas, como se tivessem feito um pacto com o satanás – escreviam alguns observadores da época.

De acordo com o autor da obra, o mínimo que se esperava de seus familiares é que mantivessem contato com o escravo, na esperança de que suas cartas ajudassem a levantar seu ânimo para suportar os efeitos corrosivos da submissão sobre sua fé.

Muitas das mulheres, crianças e idosos, conforme ressalta Robert, perderam para a escravidão o homem que trazia o sustento para dentro de casa, e agora, tendo de enfrentar a fome, rebaixavam-se e deixavam a fé de lado para recorrer à mendicância, ao crime ou à prostituição, para sobreviver.

Eram os lamentos que os cativos reportavam em suas cartas e acusavam, por vezes, suas comunidades e terras natais por não responderem aos seus clamores. “Ai de nós, pobres e abandonados, sem ninguém movido por compaixão, já que, com essa esperança… poderíamos continuar vivendo e crendo, sem abjurar em decorrência de muitas chibatadas que temos de tolerar nas mãos desses bárbaros”. Quem abjurava à sua fé e depois retornava ao cristianismo, era condenado à morte.

Os problemas dos agentes redentores estatais ficaram piores com o passar do tempo por causa da escassez de financiamento confiável, informação fidedigna sobre quem estava escravizado e habilidades comerciais para negociar com os proprietários. Os religiosos trinitários e mercedários eram mais espertos e começaram a mudar o quadro no final do século XVII.

No início dos anos 1700, os muçulmanos na Berbéria que investiam em escravos expandiram seus negócios nesse mercado cada vez mais, pois estavam interessados no lucro rápido advindo dos resgates, ao invés de explorar a mão-de-obra deles. Segundo registros do observador Laurent D´ Arvieux, por conta da Coroa Espanhola, os escravos dessa nacionalidade eram comprados e libertados com mais presteza.

Também os trinitários, criados na França no tempo das Cruzadas, eram talentosos negociadores, quando, em 1762, ofereceram seus serviços aos venezianos. Mesmo proibidos de coletar ofertas nesse território, os padres se colocaram apenas como agentes de remição do governo veneziano. Eles forneceram ao Senado Veneziano uma vasta coleção de materiais convincentes, como listas impressas com todos escravos que tinham remido em nome de outros estados clientes, bem como uma tabela comparativa entre os resgates que pagavam e os cobrados pelos “hereges e judeus”.

Por negociarem a libertação de escravos há anos, os trinitários e mercedários eram treinados em gerenciar os resgates com destreza. Sabiam dos truques que os proprietários usavam para elevar o preço. Usavam de artimanhas, como comprar o médico do rei, para declarar que o escravo estava doente, fazendo acreditar que o cativo corria o risco de morte. Terminavam adquirindo o escravo por uma quantia irrisória.

PROCISSÕES DE EX-ESCRAVOS

Como habilidosos, bons pregadores e arrecadadores na Espanha e na França, eles levaram aos estados italianos uma combinação de misericórdia e organização que encontrou forte eco nos sentimentos religiosos da península. Eles eram conhecidos por suas grandes procissões de ex-escravos, eventos que o padre Camillo di Maria chegou a chamar de “um triunfo da paz, da liberdade e do júbilo…”

Essas procissões eram incrivelmente populares entre as pessoas de todas as classes. Eram espetáculos urbanos mais característicos na Itália do século XVIII. Quando os cativos libertos eram apresentados aos romanos, em 1701, “as ruas ficavam lotadas com as inúmeras carruagens e com a aglomeração de pessoas, desde a Igreja de Santa Sussanna até o Palácio Apostólico do Quirinal.

Um acadêmico chegou a chamar essas procissões de fuzuê, que não passava de um meio para gerar contribuições, um espetáculo que visava, nada mais nada menos, estimular as emoções e, assim, as doações das pessoas mais religiosas.

O historiador narra uma procissão que houve em janeiro de 1764, quando houve uma parada com 91 escravos pela cidade de Veneza, com gastos em torno de 2.550 ducados, um valor cinco a dez vezes à quantia arrecadada nessas ocasiões.

Dentro do esquema dessas ordens, todo contingente de ex-escravos, os padres que os acompanhavam e seus auxiliares eram submetidos a uma quarentena. No século XVII, um período de isolamento era necessário e obrigatório para qualquer um que chegasse à Itália do norte da África e do Levante, porque estavam assolados de praga.

Após terminada a quarentena, os ex-escravos eram reunidos numa das igrejas relacionadas à ordem redentora. Era costume entre os mercedários, nas procissões que realizavam na Espanha e na França, vestir os escravos libertos com trapos que usavam na Berbéria, ornando-os também com correntes, porém quebradas.

Os padres redencionistas compravam humanos como qualquer outro traficante de escravos. Assim também pensavam muitos que viviam na Berbéria, conscientes de que não apenas missionários e cônsules estavam acostumados a alugar escravos cristãos como criados. Os padres redentores frequentavam o mercado badistão e davam seus lances ao lado de traficantes de escravos turcos e mouros.

Mesmo depois de comprados, os escravos, de certa forma, continuavam na posse dos padres, simbolizados pelas fitas no lugar das correntes durante as procissões. Os que contribuíam com alguma parte do resgate, tinham mais liberdade de ação, voltando diretamente para suas casas sem ter de antes viajar para a capital. Escravos pobres tinham noção de suas dívidas que estavam contraindo perante os padres e seus conterrâneos.

As procissões significavam um processo de purificação. A própria recompra tinha conotações interessantes. Os padres redencionistas compraram humanos como qualquer outro traficante de escravos. Homens e mulheres deixavam de ser mercadorias de um senhor muçulmano para serem tutelados pelos padres e pelo Estado. Logo que chegavam às cidades, eles eram entregues às autoridades estatais e confinados em quarentena por mais de um mês por causa da praga.

Os clérigos, na maioria jesuítas, trabalhavam para recatequizá-los, purificar suas almas da influência do islã. Muitos dos escravos remidos entravam em depressão, especialmente aqueles mais pobres que tinham poucas opções de trabalho, a não ser retornar ao mar e arriscar serem escravizados novamente. Quando estavam na escravidão, muitos apelavam para as elites para serem libertados, com a promessa de serem seus escravos.

AS ORDENS RELIGIOSAS E OS RESGATES

Na Itália Barroca e na França dos séculos XVI e XVII foram criadas várias ordens religiosas, com a finalidade de arrecadar fundos para resgatar escravos cristãos da região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli), de Constantinopla, Turquia e até do Marrocos. Essa prática secular também foi copiada pelos cativos africanos nas Américas visando alforriar seus escravos.

Entre tantas, as duas mais importantes, desde os séculos XII e XIII, eram a dos trinitários, da Santíssima Trindade, em Paris, na França, e a dos mercedários, a Santa Casa das Mercês, na Espanha.

Por mais que tenham se dedicado, essas entidades conseguiram poucos resultados por causa das barganhas dos senhores proprietários dos cativos. Só poucos foram beneficiados. As remições tornavam-se difíceis quando o capturado era vendido para terceiros.

Por outro lado, os mais privilegiados sempre eram os clérigos, os nobres e os personagens com maior posição social. Essas ordens espalharam uma grande rede de coletores de doações por toda Europa, o que abriu, já naqueles tempos, espaços para os golpistas que se faziam passar por arrecadadores. Muitos também davam moedas falsificadas. Tudo isso, há mais de 600 anos, nos faz lembrar os dias atuais de corrupções e falcatruas.

Estas e outras questões descritas sobre a escravidão branca estão no livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, do autor historiador Robert Davis. Sobre o tema, ele afirma que “a Península Itálica, até então, vinha sendo uma das presas preferidas dos corsários berberes por dois ou mais séculos e, com isso, houve um grande êxodo das populações litorâneas para vilarejos cercados por muros e no alto de montanhas, ou para cidades como Rimini, deixando quilômetros de territórios costeiros, antes populosos, nas mãos de vagabundos e piratas”.

O modo como esses cristãos brancos eram levados pelos corsários da Berbéria variava pouco. O que aconteceu com eles, segundo Robert, durante o tempo das Marcas Papais, foi praticamente o mesmo que houve com aqueles que foram sequestrados ao longo dos desprotegidos litorais napolitanos, genovês e das ilhas espanholas.

Para Davis, nos três séculos da jihad cristã-muçulmana, que começou por volta do ano de 1500, a pirataria e a escravidão se tornaram instrumentos políticos de Estado para ambos os lados. Escravizar pessoas não só despojava o inimigo de milhares de cidadãos produtivos, mas também fornecia mão-de-obra capaz e uma fonte de renda por meio dos resgates.

No final do século XVI, as galés corsárias à caça de escravos, tanto cristãs quanto muçulmanas, rondavam o Mediterrâneo em busca de espólio humano – descreve o escritor. Da Catalunha ao Egito, homens e mulheres, turcos e mouros, judeus e católicos, protestantes e ortodoxos eram vítimas em potencial. Eles eram capturados e arrebanhados nos currais de escravos em Constantinopla, Argel, Túnis, Trípoli, Malta, Nápoles ou Livorno, e lá eram revendidos como remadores de galés, trabalhadores rurais ou serviçais domésticos – destacou.

A Itália, posicionada bem na linha de frente dos dois impérios em guerra, de acordo com Robert, estava entre as regiões mais devastadas, conhecida como “o Olho do Mundo Cristão”. Esse território era desguarnecido e ficava a mercê dos otomanos. Os mais expostos eram aqueles que trabalhavam no cultivo das terras costeiras, até 15 ou 30 quilômetros do mar.

As famílias (idosos, crianças, mulheres) dos capturados ficavam sem seus provedores e passavam miséria nas cidades ao ponto de comerem restos do lixo. Além do mais, não tinham condições financeiras e bens para pagar os resgates pedidos pelos sequestradores e proprietários, principalmente quando os escravos caiam nas mãos destes últimos. Ficava ainda mais complicado a comunicação com os cativos. Muitos iam trabalhar nas galés ou outros lugares desconhecidos.

Foi então que nações europeias, ordens religiosas e indivíduos engajados começaram a se mobilizar em prol de iniciativas de remição que viriam a ser um dos maiores movimentos sociais do início do mundo moderno mediterrâneo. As remições seguiram um padrão estabelecido séculos antes pelas duas principais ordens redentoras: A Ordem da Santíssima Trindade, ou trinitários, fundada na França, em 1193, e a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, ou mercedários, em Barcelona, em 1203. Ambas foram criadas para libertar escravos cristãos, em particular os cruzados, das mãos dos muçulmanos.

Em 1548, o imperador Carlos V fundou a Real Casa Santa dela Redentione de Cattivi. Esta estrutura napolitana forneceu o modelo para outros estados italianos quando vieram a criar suas próprias sociedades redentoras. O próprio Vaticano utilizou esse padrão em 1581/82 para tratar do resgate de seus súditos. Uma das confrarias mais prestigiadas de Roma era a Santa Maria del Gonfalone.

A tarefa de solicitar esmolas para as remições recaiam mais entre os padres e freis que eram homens treinados a pregar em busca de contribuições e podiam explorar as estruturas e os costumes católicos. Os capturados eram sempre levados para o porto de Dulcigno e de lá vendidos para a Berbéria se não pagassem os resgates num tempo determinado.

Apesar dos requisitos austeros que essas instituições impunham àqueles que ansiavam pela ajuda humanitária, nem todas pagavam o valor total da remição de um cativo. Algumas, como os Provveditori sopra Luoghi Pii de Veneza e a Santa Casa Napolitana ofereciam apenas uma quantia fixa, na forma de uma nota promissória, conhecida como “Cristo”, em Veneza, e como albarano, em Nápoles. Eles emitiam suas notas em nome do próprio escravo.

 

AS PRÁTICAS HOMOSSEXUAIS NA BERBÉRIA E AS CRUELDADES NOS BANHOS PÚBLICOS

SOBRE AS TAVERNAS NOS BANHOS PÚBLICOS, MISSIONÁRIOS MANIFESTAVAM SUA REPULSA PELO QUE VIAM, CHAMANDO DE LUGARES ABOMINÁVEIS ONDE HOMENS COMETIAM CRIMES TERRÍVEIS. A MAIORIA DOS CRIMES FOI APRENDIDO COM OS TURCOS. UMA TENEBROSA LIBERTINAGEM RESULTADO DA EMBRIAGUEZ.

AS NARRATIVAS DO ESCRAVO JOÃO MASCARENHAS FORAM PUBLICADAS EM 1627 NA FORMA DE PANFLETO, EXEMPLO DE LITERATURE COLPORTAGE, DIFUNDIDA NO INÍCIO DA IDADE MODERNA. FOI ADQUIRIDFO POR PORTUGAL POR LIVREIROS INTINERANTES QUE COMERCIALIZAVAM COM O NOME DE LITERATURA DE CORDEL, POIS OS VOLUMES ERAM AMARRADOS UNS AOS OUTROS COM BARBANTES PARA SEREM VENDIDOS EM VÁRIOS LUGARES.

Os senhores proprietários, turcos, mouros, paxás e reis da Costa da Berbéria (Argel, Túnis e Trípoli) se aproveitavam dos escravos novos cristãos para práticas sexuais, na maioria das vezes forçados a isso, sem falar do homossexualismo existente nos banhos públicos superlotados, considerados por pesquisadores e testemunhos da época (séculos XVI a XVIII) como campos de concentração, semelhantes aos nazistas e aos gulag soviéticos.

Alguns chegaram a contestar as crueldades e torturas dos senhores, como as que existiram contra os escravos africanos trazidos para as Américas (12 milhões) em mais de três séculos, mas foram comprovadas por cativos cristãos brancos.

Diferente do que ocorreu com os mercados de gente na Costa Africana, cujas memórias dos locais foram preservadas, esses banhos públicos foram destruídos entre os séculos XVIII e XIX, principalmente com a invasão francesa a Argel em 1830. Essa escravidão na Berbéria era uma represália religiosa. Os muçulmanos também foram cativos dos cristãos, sobretudo na Espanha, Portugal e Itália durante as guerras dos dois impérios (cristãos e muçulmanos).

O historiador e pesquisador Robert Davis, que escreveu a obra “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, se debruçou sobre esse tema pouco explorado e conta também as brigas internas que existiam entre católicos e não católicos. No livro, ele cita por diversas vezes testemunhas do escravo d´Aranda sobre uma intriga entre russos ortodoxos e espanhóis italianos.

“Um deles foi até o pequeno cômodo (banho público ou prisão) onde se encontravam os russos moscovitas saudando-os da seguinte forma: cães, hereges, selvagens, inimigos de Deus, o banho agora está trancado (era fechado ao entardecer), e o zelador (o feitor) mandou dizer que, se tiverem coragem de lutar, vocês deveriam sair dessa sua toca, aí veremos quem leva a melhor”.

Robert Davis ressalta que qualquer divisão secular, como língua ou política, servia de justificativa para gerar discórdia entre os escravos, tanto quanto as crenças religiosas, e há indicativos de que esses subgrupos, provenientes de culturas mais próximas, eram os que mais estavam propensos a trocar farpas entre si.

DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO

As brigas constantes, segundo ele, entre espanhóis, franceses, portugueses ou italianos são inícios de que esses escravos se entendiam o suficiente para trocar insultos. Entretanto, as dificuldades de comunicação entre escravos e seus senhores era uma fonte inesgotável de conflitos na Berbéria, como aconteceu com os africanos de primeira geração nas Américas.

Para desenrolar esse entrave, havia uma língua franca (pidgin), modelo para todas as outras línguas francas ao redor do mundo. A predominância era dos espanhóis do Mediterrâneo, parte da Berbéria e do italiano no leste. Essa língua (uma versão do europeu românico) tinha suas raízes nos idiomas dos marinheiros e mercadores e preencheu suas lacunas com uma série de palavras locais (árabe, turco e grego). Servia para dar ordens aos escravos.

Nas galés, no entanto, os escravos eram proibidos de falar uns com os outros em qualquer outra língua que não fosse a franca, para que seus capatazes pudessem compreender o que discutiam ou tramavam. Não era um idioma muito fácil de ser entendido, principalmente em situações tensas.

Às vezes o senhor usava termos em espanhol e o italiano para humilhar o escravo com a palavra cão (perro cane ou cani perru). Alguns termos evoluíram, como do italiano mangiar no sentido de comer, ser consumido. Outras palavras eram derivadas do árabe ou do turco.

Quanto aos banhos públicos, o pesquisador da obra, diz ser difícil quantificar a população escrava, mesmo porque alguns zeladores alugavam suas dependências a proprietários individuais de cativos, as quais serviam para armazenar a mercadoria humana quando não queriam manter esses escravos dentro de casa. Eles eram obrigados depois a reembolsar seus senhores pelos custos desses alojamentos, com a venda de água ou até roubando.

Com o declínio das galés corsárias (final do século XVIII), a relação entre escravos públicos de banhos e os privados sofreu uma queda. Em 1696, padre Lorance, vigário de Argel, observou que o número de escravos particulares excedia em muito ao de públicos confinados nos banhos.

ABANDONADOS

Os banhos privados começaram a ser abandonados a partir de 1700, inclusive o maior deles do poderoso Ali Pegelin, que por volta de 1640 mantinha cerca de 800 homens dentro de seu estabelecimento. Durante o forte declínio da escravidão na Berbéria, entre 1690 e 170, a maioria dos escravos deve ter vivido com mais conforto, nas casas de seus senhores. Porém, no transcorrer do século XVIII, o número de escravos particulares caiu e o do Estado permaneceu estável.

TORTURAS E TORMENTOS

A respeito das crueldades e torturas, alguns eram céticos. No entanto, o padre Pierre Dan conta todas as penúrias impostas aos escravos cristãos, e ele fez um catálogo dos tormentos que lhes foram infligidos pelos muçulmanos. Os editores intercalaram prosa com um conjunto de ilustrações horrendas. Muitos foram esmagados vivos, outros empalados, queimados e crucificados.

O escravo John Foss, por exemplo, dedicou um capítulo inteiro ao assunto, denominando-o de “As punições mais comuns para cativos cristãos pelas mais diferentes ofensas”. Robert destaca que tais castigos cruéis, sem motivos aparentes, tinham razão de ser, pois costumavam garantir a disciplina entre os escravos.

As surras tinham o condão de encourager les autres, como alerta aos outros para que mantivessem bom comportamento. O Estado e o Ali Pegelin chegavam a matar alguns deles. Esses tipos de violências eram também difundidos entre proprietários e feitores de escravos nas Américas. Como declarou um fazendeiro no sul dos Estados Unidos: “O medo da punição é o princípio a que deveríamos e temos de recorrer, se quisermos manter os cativos atordoados e obedientes”.

O pesquisador Stephen Clissold concluiu que os escravos da Berbéria descreviam uma vida nos banhos como uma mistura entre um campo de concentração nazista, uma prisão inglesa e um campo de trabalhos forçados soviéticos, os gulag. Os cativos eram largados à própria sorte pelos paxás. Eram vítimas de surras aleatórias, alimentação e acomodações miseráveis, roupas degradantes, além do celibato forçado.

Os públicos eram condenados pelo resto de suas vidas, não por um processo judicial, mas em razão de seu status. Quem pertencia ao Estado não era ninguém. Não contava com um senhor privado para libertá-lo ou pagar seu resgate.  O escravo João Mascarenhas dizia que estes homens nunca vão embora, já que não serão libertados.

 

 

SITUAÇÕES SEMELHANTES ENTRE A ESCRAVIDÃO NEGRA E A DOS CRISTÃOS BRANCOS

Nas duas escravidões, a africana entre os séculos XVI e XIX e a dos cristãos ou brancos na região da Berbéria (Argel, Túnis e Trípoli) nos séculos XVI ao XVIII, existiram algumas semelhanças, conforme atesta o livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos” do historiador e pesquisador Robert Davis.

Não se pode quantificar os cenários de degradação e sofrimento dessas escravidões que esses cativos passaram, uns nas Américas pelos países europeus, de ordem comercial, e os outros na Berbéria, praticada pelos mouros, turcos e muçulmanos, de cunho mais religioso, como represália. No entanto, ocorreram métodos parecidos na forma de tratamentos.

Assim como várias etnias africanas trazidas da África para as Américas não se entendiam e até brigavam entre si, também os cristãos andavam às turras quando se tratava de católicos romanos, ortodoxos e correntes protestantes. No cativeiro, as intrigas eram muitas, mas aconteciam momentos de se unir nas resistências.

As senzalas negreiras eram locais degradantes, abafados e superlotados, propícios às promiscuidades, e sempre fechados ao anoitecer depois de um dia cansativo de trabalho. Na Berbéria, esses “aposentos” lotados eram denominados de banhos públicos ou prisões, com praticamente as mesmas regras impostas pelos feitores, capatazes ou responsáveis por guardar os escravos. As portas eram trancadas no final do dia para não haver fugas.

Robert Davis faz esses relatos baseados em testemunhos (D´Aranda, João Mascarenhas, Pierre Dan e padres) que foram vítimas dessa escravidão, além de pesquisadores no assunto. Ele fala dos escravos dos banhos públicos, aqueles desafortunados que eram comprados pelos governantes e depois remetidos à vida nos dormitórios/prisões, os quais os cativos chamavam de bains, baños ou bagni.

Segundo Davis, há indícios que essas mansões sombrias de horror começaram em Constantinopla onde antigas casas de banhos se tornaram em confinamentos de escravos em 1500. Na Berbéria, elas foram construídas para abrigar cativos dos governantes e particulares.

De acordo com as pesquisas, o primeiro banho público, o Bagno Beyliç, surgiu em Argel, em 1553, durante o período de Barbarosa, com capacidade para dois mil cativos. Esses prédios se multiplicaram com o tempo, passando a seis em Argel, nove em Túnis e um em Trípoli. Nos anos de 1660, Argel já possuía oito, quinze em Túnis e cinco em Trípoli.

O interessante é que os nomes desses banhos públicos eram sempre de santos, como St. Roche, Lorenzo, São Miguel, Santo Antônio, Santa Luzia, São Sebastião, São Leonardo, Trindade, Santa Catarina, São Francisco, Santa Cruz e tantos outros.

Em Argel, por exemplo, o banho público St. Roche, pertencia ao senhor Ali Pegelin, o mais poderoso e rico de toda região. “É tentador pensar que esse sistema alternativo de nomenclaturas agia como forma de resistência planejada por parte dos escravos e dos abolicionistas cristãos, contra o domínio e autoridade islâmica vigente…”

Muitos desses nomes eram deturpados e escritos de maneira incorreta. O do Paxá era chamado de Banho do Estado, ou do rei. Os trinitários e mercedários, responsáveis pelas capelas (as fazendas dos senhores das Américas também tinham suas capelas) disputavam entre si e com os missionários da Congregação de Propaganda Fide.

De acordo com o autor da obra, esses tipos de desavenças entre os ocupantes dos banhos, principalmente quando envolviam os papassi ou sacerdotes, eram motivos de graça para os turcos. Os senhores gostavam de incitar as discórdias entre seus escravos, com intuito de enfraquecer a resistência.

“O principal ponto de tensão, ao menos nos séculos XVI e XVII, era a religião, “embora isso possa ser apenas parte do exagero entre padres e missionários católicos que representavam a menor fonte de estudos”. Em Argel e Túnis, os católicos eram maioria nos banhos escravos, ao passo que as cidades marroquinas teriam mais britânicos e holandeses. Trípoli era povoada por cativos gregos, segundo alguns relatos.

Outra coisa abordada pelo historiador diz respeito aos dialetos africanos, enquanto na Berbéria se usava a língua franca (substantivos e verbos) como meio de comunicação entre os senhores proprietários e os cativos, para emitir ordens.

Além das capelas, os banhos também contavam com as tabernas onde os bêbados perturbavam os atos religiosos com palavrões e xingamentos. Como esses dormitórios/prisões, somente para homens, eram superlotados (todos dormiam amontoados) havia muita promiscuidade.

Outro traço era o homossexualismo praticado entre escravos que, por outro lado, sofriam assédio sexual por parte dos seus proprietários, reis, paxás e governantes, tendo como maiores alvos escravos novos e os jovens garotos de nove a 15 anos. Eles eram bem tratados nos palácios e induzidos a se converter ao islamismo. Na verdade, não havia uma repressão velada quanto ao ajuntamento homossexual.

AINDA AS GALÉS E AS VESTIMENTAS DOS ESCRAVOS CRISTÃOS NA BERBÉRIA

Comentamos aqui nos outros capítulos do livro “Escravos Cristãos, Senhores muçulmanos”, do autor Robert Davis, que aqueles capturados pelos mouros da região da Berbéria (Túnis, Trípoli e Argel) nos navios e por via terrestre e que não possuíam talentos, nem sinais de riqueza e posição social ao serem colocados à venda, iam servir nas galés por meses em alto mar. Eram acorrentados, espancados e trabalhavam sob chuva e sol. Muitos não resistiam e morriam.

“É uma aflição sem tamanho ver os pobres escravos cristãos ou brancos, obrigados a remar sob constantes e violentas chicotadas e pauladas… De todas as agruras esses pobres cativos são forçados a obedecer, a pior, sem sobra de dúvidas, é aquela que sofrem nas galés dos turcos berberes” – lamentou o padre Pierre Dan. Geralmente eram camponeses, pescadores, soldados rasos e marujos comuns. Os nobres de estirpe ficavam longe das galés porque eram valiosas propriedades para o resgate.

Segundo Robert, por volta da metade do século XVI, tanto as potências cristãs quanto o Império Turco eram capazes de concentrar imensas frotas com centenas de galés e galeotas, cada uma composta de 150 a 300 remadores. Essa força de trabalho deve ter atingido seu ápice na época da Batalha de Lepanto, em 1571, quando por volta de 80 mil remadores foram mandados para o fronte uns contra os outros, sendo a maioria escravos. Não eram somente muçulmanos.

Nas galés da Espanha, França, Itália e Malta haviam milhares de mouros, turcos, prisioneiros católicos e protestantes condenados aos remos. Na segunda metade dos anos 1560, a escravidão das galés era mais uma instituição islâmica do que cristã. Os berberes eram melhores em capturar escravos. A maior demanda por escravos de galés ocorreu entre o fim das décadas de 1580 e 1640. Os reis de Argel, Túnis e Trípoli precisavam de 10 a 15 mil remadores.

VESTIMENTAS

No capítulo “Vida de Escravo”, o historiador da obra cita o testemunho do escravo William Okeley. Aliás, sua pesquisa está recheada de testemunhas. Robert destaca que Okeley e seus companheiros escravos compunham um quarto da população de Argel, uma cidade baseada na pirataria corsária e no mercado escravista. Em Túnis e Trípoli a proporção era menor, entre 10 a 20%.

No topo dos escravos estavam os turcos e renegados cristãos. De acordo com Robert Davis, esses homens reinavam sobre os nativos mouros e mouriscos, os quais, por sua vez, desfrutavam de status maior do que a sempre numerosa população judia nas capitais das regências. Os escravos ficavam nas camadas inferiores e os judeus ainda num patamar mais baixo.

Na Berbéria, os homens se diferenciavam nas roupas, cortes de cabelos e no direito de usar armas. Os turcos usam turbantes (um tipo de boné vermelho). Os mouros vestes mais sombrias, um longo albornoz com capuz, sendo de cor branca no caso dos mais abastados.

Os escravos cristãos não tinham nenhum traje distintivo e vestiam o que lhes eram fornecidos pelos seus senhores. No caso dos escravos domésticos, como na Europa, trajavam uniformes. Nas ruas usavam roupas condizentes com o nível social de seus proprietários. Portar o turbante era uma expressão de conversão ao islamismo e os escravos cristãos, na sua maioria, não aceitavam.

As garotas jovens récem-capturadas podiam ter a cabeça raspada, para torná-las turcas. As mulheres mais velhas podiam ser forçadas a vestir as roupas turcas devido ao hábito das regências. No entanto, o autor da obra conta um caso de uma mulher que não aceitou mudar sua fé. Por isso, sua dona mandou que ela levasse trezentas chibatadas. Ao continuar firma em seu propósito, a escrava foi despida e a vestira à moda turca.

Segundo Robert, quando os corsários berberes estavam prestes a capturar um navio, era comum os passageiros trocarem suas vestes por outras que ajudassem a esconder suas origens de modo a confundir os captores quanto ao valor potencial do resgate. Outros mantinham as mesmas vestimentas por orgulho de seu posto, como os membros da Igreja, nobres e comandantes militares. Eles iam para alojamentos dos consulados com conforto.

Diz o autor que esses escravos de alto escalão eram deixados ociosos no cativeiro, certamente por terem pago uma taxa, um suborno por fora. Ficavam livres para se locomover na cidade, apenas com uma tornozeleira de ferro. As mulheres da elite recebiam mais ou menos o mesmo tratamento, mas mantidas dentro de casa, longe das vistas do público. Alguns usavam suas roupas europeias.

Muitos eram levados para os chamados banhos públicos (badistão) ou prisões, onde se transformavam em figuras imundas com trapos e desmazelados. Os turcos e mouros chamavam esses récem-chegados de selvagens. Quando eram vendidos recebiam um traje distintivo de escravos.

Um pesquisador observou que, na década de 1620, os chefes dos banhos forneciam aos escravos nada além de um albornoz com capuz, um par de calças de lona por ano. Meio século mais tarde, o frei Francisco San Lorenzo referiu-se a roupas semelhantes, como uma camisa e um par de calças de tecido cru. Os que não conseguiam conservar seus sapatos ficam descalços.

“Pelo visto, nenhum escravo teve direito a receber uma muda de roupas até os anos 1720”. Um estudioso no assunto descreveu que, quando um escravo é levado para Argel, recebe uma camisa grosseira, um carpete de tecido rústico, um pequeno cafetã, um gorro vermelho e um cobertor de lá.

“Tudo leva a crer, na melhor das hipóteses, que nos anos 1790, as roupas destinadas aos escravos na Berbéria ficam aquém até mesmo da indumentária dada pelos senhores no sul dos Estados Unidos, como dois trajes completos de algodão para a primavera e verão e dois de lá para o inverno, quatro pares de sapatos e três chapéus”.

“A disparidade entre a vestimenta dos escravos negros no início do século XIX no sul dos Estados Unidos e dos cativos no Magreb ainda é surpreendente”. O pesquisador Eugene Genovese, com base num tal de senhor Robert Collins, ressaltou que “no sul dos EUA, até a trouxa mais generosa restringia os escravos a lavar e trocar de roupas no máximo uma vez por semana. Isso era inimaginável no caso dos escravos da Berbéria, confinados nos banhos públicos”.

Collins afirmou que no geral era necessário pagar a água e poucos tinham condições para isso. Só o necessário para beber. Por isso, a maioria dos membros da classe de cativos atraia todos os olhares para aquele espetáculo lamentável de cabelos e barbas cortados com uma adega. “Seus rostos eram machucados e cobertos de lama e poeira. Eles perambulavam pela cidade com aparência de mendigos, com as roupas todas cobertas de vermes”.

Os escravos de Túnis e Trípoli costumavam mancar em razão das correntes e grilhões pesando cerca de 10 a 15 quilos, ou com um gambetto, como os italianos chamavam (grilheta de ferro). Dizem que os escravos das galés eram marcados com uma cruz na sola dos pés.

As condições de vida variavam tanto quanto a quantidade de roupas, dependendo se estivessem hospedados nas casas de seus senhores ou fossem cativos públicos, isto é, dos governantes, designados ao trabalho braçal nas galés, nas pedreiras ou arredores das cidades.  Quem se dava melhor eram aqueles cujos senhores os alugavam para os missionários cristãos e cônsules na cidade. Esses tinham uma vida praticamente idêntica aos serviçais da Europa

OS TORMENTOS DOS ESCRAVOS CRISTÃOS NAS GALÉS E O MEDO DE UM NOVO DONO

O pior sofrimento estava reservado para os escravos brancos ou cristãos que eram capturados pelos mouros e muçulmanos da região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli) e depois levados para remar nas galés por cinco ou seis semanas em alto mar, com a finalidade de saquear mais navios.

Eles eram acorrentados nos bancos de madeira, com grilhões e trancas nos pés, sujeitos a chuva e ao sol. As rações eram limitadas, do tipo chamada de biscoitos de marinheiros (tinham que ter bons dentes para mastiga-los). Muitos morriam de exaustão enquanto eram espancados com chibatadas e outros castigos. Os que ficam em terra temiam ser revendidos para um novo senhor e privados de possíveis resgates.

No capítulo III do livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, o autor Robert Davis fala sobre o “Trabalho Escravo” onde descreve o relato de diversos cativos que foram vítimas da escravidão branca entre os séculos XVI e final do XVIII, fazendo um paralelo com o que também passaram os negros africanos levados para as Américas.

Para começar, ele cita o português João Mascarenhas em um trecho do seu testemunho onde diz que “não há pior momento na vida do que aquele em que o escravo fica na expectativa para descobrir quem será o seu dono”. Segundo ele, se seu destino for cair nas mãos “de um senhor desumano, nada de bom poderá ser vislumbrado em seu futuro e deverá considerar-se o mais infeliz entre seus iguais: Não há pior inferno nesta vida”.

Mascarenhas assinala que o escravo poderá ser revendido, sobrecarregá-lo com trabalho, aprisioná-lo, mutilá-lo, matá-lo, sem ninguém poder interferir.  Outro cativo William Okeley destaca que “se um patrão matasse seu cativo, pelo que pude constatar, enfrentaria as mesmas consequências do que se tivesse matado seu cavalo”.

De acordo com historiadores, todos os novos cativos, assim que desembarcavam, eram separados em duas classes bastante distintas: os escravos para resgaste e aqueles para o trabalho. “Tais compradores, conforme analistas, eram na maioria das vezes “mouros” ou “tagarins” (antigos moradores muçulmanos da Península Ibérica que foram expulsos ou fugiram de lá) e renegados europeus”.

Um senhor proprietário de Argel declarou que comprou seus escravos para conseguir algum lucro com eles. Pelo pouco que se sabe do preço de venda inicial dos escravos no badistão (mercado), a expectativa de ganho girava em torno de 10 a 12% ao ano por cada cativo.

Com base em pesquisadores, o autor da obra ressalta que os compradores que “só adquiriam escravos para serví-los, não para o tráfico,” eram, na maior parte das vezes, turcos ou janízaros (gregos ou ortodoxos) renegados e alguns agentes do conselho governante local, chamados de divan.

Quando visavam mais o trabalho do que o resgate, esses proprietários estipulavam uma gama maior de tarefas aos seus vassalos do que os adquirentes para revenda. Num comparativo com a escravidão negra destinada às Américas, a principal demanda era para trabalhadores rurais com fins comerciais nas lavouras de açúcar, arroz, algodão e tabaco. Na Berbéria, as tarefas eram voltadas para homens livres que não estavam mais dispostos a realizar.

Um senhor de Argel, chamado Ali Pegelin, chegou a possuir vinte mulheres escravas, cristãs, que ficavam a serviço da sua esposa. A maior parte dos serviços eram concentrados mais nas cidades em construções diversas, carregamento de pedras, mordomos e trabalhos domésticos em geral.

No decorrer do século XVII, quando emissários de várias nações cristãs e de Roma começaram a se fixar em consulados ou missões nas capitais das regências berberes, começaram a surgir vagas para os escravos, como criados contratados desses europeus. Algumas dessas atividades eram semelhantes aos trabalhos prestados por empregados domésticos na Europa, como pegar água ao amanhecer, limpar banheiros, buscar pão quente, lavar roupas e cuidar das crianças.

No entanto, a maioria era usada para extração de pedras, construção civil, corte de árvores, colheitas e remar nas galés. “Aliás, foram as galés que se tornaram a epítome da escravidão dos europeus brancos na Berbéria, assim como foi o corte de cana para os africanos que trabalhavam nas Américas”.

Como dizia Mascarenhas, se o sujeito não foi um galeotto, não podia dizer que foi um escravo…” “É uma aflição sem tamanho ver os pobres escravos obrigados a remar sob constantes e violentas chicotadas e pauladas… De todas as agruras que esses pobres cativos são forçados a padecer, a pior, sem sombra de dúvidas, é aquela que sofrem nas galés dos turcos berberes.”

A maioria era levada para as galés porque não tinha outros talentos ou nenhuma habilidade especial, nem sinais claros de riqueza para a venda. Geralmente eram camponeses, pescadores, soldados rasos ou marujos comuns.

AS CAPTURAS DE CRISTÃOS BRANCOS EM MAR RENDIAM MAIS QUE AS TERRESTRES

Os berberes muçulmanos de Túnis, Argel e Trípoli tiravam mais proveito em termos de espólios do que de escravos quando invadiam navios mercantes em alto mar na região do Mediterrâneo. De um modo geral eram nobres e bispos da Igreja Católica que transportavam bens de valor, principalmente joias preciosas. Em terra, os escravos eram em sua maior parte camponeses e pescadores, sem muito valor de resgates.

Quando uma embarcação estava prestes a ser atacada geralmente os passageiros mais notáveis procuravam se disfarçar com roupas mais simples e até com aventais de marujos, mas muitos terminavam confessando suas identidades por intermédio de espancamentos e torturas. Outros jogavam seus pertences no mar e fugiam em barcos. Porém, muitos eram pegos de surpresa e apanhados como escravos.

Carpinteiros, oficiais da marinha e armadores eram valiosos no mercado de escravos para os serviços dos reis corsários e sultões, tanto que nem eram vendidos pelo que valorizavam. Outros eram levados para o mercado denominado de “badistão” para serem comercializados ou resgatados pelos seus reis. Cada traficante tinha direito a uma cota das apreensões de acordo com a função e o financiamento investido na incursão.

Havia algumas semelhanças nos métodos adotados entre a escravidão africana no Atlântico e a muçulmana contra os cristãos, mas nada que se iguale em dimensão dos empreendimentos e aos sofrimentos impostos aos africanos. Haviam correntes, trancas e até chibatadas, mas muitos brancos eram até bem tratados e melhor alimentados quando tinham boa serventia no mercado.

Essas descrições da escravidão branca entre os séculos XVI até final do século XVIII estão no livro “Escravos Cristão, Senhores Muçulmanos”, do historiador Robert C. Davis, quando ele deixa claro que a escravidão branca ou de cristãos se tratava mais de uma represália religiosa sofrida pelos mouros quando foram perseguidos pelas Cruzadas e expulsos da Península Ibérica. Os países mais atingidos foram a Espanha, França Itália e Portugal.

Na Itália, por exemplo, por volta de 1566, os corsários acabaram se apossando de uma imensa faixa litorânea que eles conquistaram sem a menor resistência. Naquela época, as autoridades recomendavam a evacuação da população. Muitas cidades e vilarejos eram abandonados.

Mais tarde, quando os corsários piratas voltavam para novos saques encontravam largos territórios litorâneos desabitados. De acordo com testemunhas, foi assim que eles assolaram e deixaram em ruínas a Sardenha, a Córsega, Sicília, a Calábria, as costas de Nápoles, Roma, Gênova e litorais da Espanha.

A estudiosa Mirella Mafrici, por exemplo, forneceu vasto material para fundamentar as alegações feitas por observadores sobre o despovoamento levado a cabo por essas incursões escravistas por terra. Diz o autor ser mais provável que as mulheres de haréns e casas de famílias na Berbéria tenham vindo de vilarejos costeiros do que de navios capturados.

Quando os invasores levavam um grande grupo de mulheres reprodutivas, isso se tornava um duro golpe para as comunidades que já estavam em crise demográfica, dificultando sua recuperação populacional. Diversas cidades de médio porte ficavam abarrotadas de refugiados. Isso ainda era melhor para os corsários e reis atacarem porque levavam uma maior quantidade de escravos.

No entanto, pelos meados do século XVII, esses locais foram mais reforçados e as investidas dos muçulmanos se tornaram mais raras. As incursões ficaram mais arriscadas. Quando as cidades de médio porte passaram a construir muralhas e torres de proteção, os corsários passaram a focar em presas mais frágeis, como habitações isoladas, monastérios e até indivíduos sozinhos. Eles procuravam disfarçar suas embarcações como se fossem de cristãos. Os remadores eram amordaçados para não entregar o jogo.

A COMERCIALIZAÇÃO DOS ESCRAVOS CRISTÃOS, RESGATES E A CONVERSÃO AO ISLÃ

As investidas dos muçulmanos da Berbéria (Argel, Túnis e Tripoli) na captura de escravos brancos ou cristãos na costa da Espanha e da Itália, por mar e por terra, tiveram seus picos durante o século XVI e uma queda a partir dos séculos seguintes porque as províncias costeiras se estruturaram melhor para combater os corsários reis, sem contar a queda populacional dessas regiões.

Muitos cristãos escravizados se convertiam ao islã, livremente ou forçados pelos turcos muçulmanos. Outros, por vingança contra os nobres da terra retornavam como renegados traidores se integrando o grupo de captores. Os corsários em terra, às vezes, optavam em pedir os regates nos próprios locais das apreensões. Como a maioria não tinha dinheiro para pagar, terminava recorrendo a intermediários que se apossavam dos bens dos capturados.

Esses relatos estão no livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, do historiador e escritor Robert Davis, especialmente no capítulo “Captura e Comercialização dos Escravos” onde ele cita que nos tempos do cônsul inglês em Trípoli, Thomas Baker, o rapto de escravos no Mediterrâneo era de fato algo como uma “vocação legítima”.

“Ao longo de todo século anterior (XVI), essa foi uma prática desempenhada em larga escala por cristãos e muçulmanos (hostilidade imperial entre os Habsburgos e Otomanos), para quem a captura de prisioneiros escravos em campo de batalha era a recompensa tradicional em razão da vitória nos conflitos inter-religiosos armados”.

Os confrontos armados entre os turcos e seus aliados e as forças cristãs da Espanha, Itália e Portugal levaram milhares de cativos para os mercados de escravos em Fez, Argel, Constantinopla, Malta, Livorno, Lisboa e Marselha. Por parte turca, segundo ele, a prática de escravização de cristãos foi elevada a uma espécie de política estatal, principalmente entre os anos 1530 e 1570, quando Kheir-ed-din Barbarosa e Dragut Reis foram nomeados pelo sultão de Constantinopla e os vice-reis da Berbéria como almirantes de suas frotas.

Eles podiam atacar o Mediterrâneo quando bem quisessem, bloqueando portos, como Gênova e Nápolis, ameaçando Roma e saqueando dezenas de cidades litorâneas de médio porte na Espanha e na Itália. As incursões eram praticamente anuais, como a do Hassan Pasha, em 1582, um renegado Veneziano, paxá de Argel, e comandante de 22 galés e galeotas com pelo menos 1500 janízaros soldados.

De acordo com Robert, “os traficantes de escravos do Atlântico se especializaram em transportar e vender cativos, mas raramente se envolviam em outros tipos de comércio ou no trabalho sujo e potencialmente perigoso de capturar sua própria mercadoria para despachar na Passagem do Meio”.  Em sua visão, essa atividade era deixada para Estados Africanos rivais ávidos para vender negros cativos, capturados em batalhas ou incursões.

No entanto, não era isso que os historiadores narravam. Os capitães de navios e armadores de escravos africanos também se envolviam em outras negociatas arriscadas na venda de produtos clandestinos e até armas.  Quanto aos berberes, conforme o autor do livro, nunca conseguiram criar uma logística tão diversificada de abastecimento ou distribuição.

Na questão da escravidão branca, existia um clima de conflito imperial e jihad que predominou na Bacia do Mediterrâneo ao longo do século XVI, bem como pela liberdade individual de empreender durante o século XVII. Quando o comércio era frutífero, não era difícil atrair uma boa tripulação. Muitos homens entravam na empreitada até mesmo sem salário.

Uma viagem bem-sucedida que trazia navios, bens e escravos podia transformar todas as partes envolvidas em pessoas ricas, até mesmo os escravos que recebiam uma quantia suficiente para depois comprar suas liberdades.

O historiador conta que a grande maioria dos cristãos escravizados na Berbéria era apanhada quando os corsários tomavam os navios em que eles viajavam ou raptados durante as incursões nas ilhas mediterrâneas ou nas costas da Espanha, Itália e na Grécia.

No século XVI os ataques terrestres eram mais frequentes e deixavam os povoados e cidades em pânico. Muitos fugiam para as montanhas deixando bens para trás. Províncias ficaram despovoadas por muitos anos. Milhares de aldeões começaram um grande êxodo para as grandes cidades, como Nápoles e Palermo. Muitas vezes, as investidas litorâneas costumavam render mais do que os ataques às embarcações. As defesas costeiras eram pouco guarnecidas.

 

 

 





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