maio 2026
D S T Q Q S S
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

:: ‘Encontro Com os Livros’

“DO CORPO INSEPULTO À LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA-Um Estudo do Caso Dinaelza Coqueiro”

“DINAELZA COQUEIRO: MILITÂNCIA IDEIAS E GUERRILHA”

De forma didática, a professora Gilneide Padre pontua com detalhes a militância política da conquistense Dinaelza Coqueiro contra o regime ditatorial iniciado com o golpe civil-militar de 1964, desde estudante, em Jequié, e depois em Salvador. Ela conta como como se deu sua opção para entrar na Guerrilha do Araguaia, na região chamada de Bico do Papagaio (Amazonas, Pará e Goiás).

A autora do livro “Do Corpo Insepulto à luta por Memória, Verdade e Justiça” faz um mapeamento da região e uma cronologia da guerrilha. Em conversa com seus pais, Dinaelza diz que “só nos resta este caminho e é com amor que vamos percorrê-lo”. Ela se referia também ao seu companheiro esposo Vandick Coqueiro. O PC do B, de orientação maoísta, decidiu pela luta armada a partir da zona rural, enquanto outros grupos realizaram seus movimentos na área urbana.

Conforme assinala Gilneide, às vésperas do golpe, em 29 de março de 1964, um grupo de dez militantes viajou para a China com a finalidade de ali realizar um curso político-militar e aprender as táticas empregadas por Mao Tsé-tung, de “quando o inimigo avança, recuamos; quando para, o fustigamos, quando se cansa, o atacamos; quando se retira, o perseguimos”, só que as forças no Araguaia eram desproporcionais, de cinco a seis mil das forças armadas contra 69 combatentes.

Sobre a guerrilha, segundo apurou a autora, quem primeiro chegou à região foi Osvaldo Orlando da Costa, mais conhecido como Osvaldão, em 1966. Era um negro forte, alto e tinha a simpatia da população do local. Em 1967 chegou o médico João Haas Sobrinho, o Juca, que montou um hospital em Porto Franco. A seguir foi a vez de Elza de Lima Monnerat, Líbero Giancarlo e Maurício Grabois, que se tornaria o comandante geral. João Amazonas e Ângelo Arroyo chegaram em 1968. Outros foram chegando depois, assim entre os anos de 1969 e 1972 até formarem um contingente de 69, dentre os quais Dinaelza e Vandick, em 1971, adotando os nomes de Mariadina ou Dina e João Goiano.

O comando dividiu o grupo em três destacamentos: A, na Faveira, B, na Gamaleira e o C, nos Caianos. Dinaelza e Vandick fizeram parte do Destacamento B, sob o comando de Osvaldão. As forças armadas, a maioria da polícia militar, só entraram na área em 12 de abril de 1972 surpreendendo as Forças Guerrilheiras do Araguaia. Ocorreram três expedições e as investidas do regime só terminaram dois anos depois.

Praticamente todos foram aniquilados (56 foram mortos) de forma cruel, inclusive com cabeças decepadas. Os corpos dos 56 continuam desaparecidos até os dias atuais, inclusive de Dinaelza e Vandick. Muitos foram jogados nos rios e no mar.

 

 

“DO CORPO INSEPULTO À LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA”

UM ESTUDO DO CASO DINAELZA COQUEIRO

COLEÇÃO EDUCAÇÃO, MEMÓRIA E RELIGIÃO (VOLUME 3)

A professora aposentada de Matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba), mestra em Pedagogia Profissional pelo ISPETP-Cuba, pesquisadora do Museu Pedagógico-Uesb, doutora no Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb, Gilneide Padre, com seu conhecimento do assunto, elaborou uma obra digna de estudo sobre o desaparecimento da guerrilheira conquistense Dinaelza Santana Coqueiro que lutou no Araguaia durante a ditadura civil-militar de 1964.

Quero aqui agradecer seu livro a mim entregue e dizer que seu trabalho é bastante consistente porque a autora não se prendeu apenas à trajetória da personagem em questão, mas fez uma profunda contextualização sobre aquele triste período da repressão onde mais de 300 pessoas foram desaparecidas depois de presas, torturadas e mortas.

Seu trabalho é um apanhado geral sobre o que foi o regime onde Gilneide levanta questões importantes da política de memória e memória política com base em estudiosos que remontam aos tempos da antiga Grécia e outras civilizações desde os tempos antes de Cristo.

A autora não se fixou apenas nas entrevistas aos familiares de Dinaelza e foi mais longe nos estudos quando cita várias obras de estudiosos e presos políticos que foram vítimas da ditadura e se debruçaram no tema, os quais tive o prazer de ler para concluir meu livro “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”. Sinto-me honrado por meu nome estar também incluído em sua pesquisa esclarecedora sobre os fatos.

Antes de tudo, recomendo uma leitura apurada da sua obra para entender aqueles tempos de chumbo onde milhares de brasileiros lutaram pela causa da liberdade e da democracia. Infelizmente, depois de quase 60 anos de tormentos, poucos conhecem essa história, que não mais se repita, principalmente nossos jovens que, ainda recente, foram contaminados pela onda negativista da extrema direita do governo passado.

Posso afirmar que é uma obra bem amarrada e contextualizada, fonte de pesquisas para outros interessados que queiram escrever sobre o assunto. Na introdução do livro, Gilneide fala de Dinaelza, terceira dos seis filhos do casal Junília Soares Santana e Antônio Pereira Santana, nascida no distrito de São Sebastião (Conquista) e que depois foi morar em Jequié. Fez o curso de Geografia na Universidade Católica de Salvador onde foi líder militante com outros companheiros no combate ao regime dos generais.

Seus irmãos Diva, Dilma, Dinorá, Dirceneide e Getúlio ainda hoje choram pelo luto de um corpo insepulto, o qual ainda não foi fechado ritualmente, conforme reza a nossa cultura. Dinaelza foi casada com Vandick Reidner Pereira Coqueiro e os dois ingressaram no PC do B. Perseguidos políticos e procurados, o casal optou por lutar na Guerrilha do Araguaia no início dos anos 70 no governo carrasco do general Médici.

Como pontuou a professora Gilneide, “desde o final da década de 1970, seus familiares vêm empreendendo incessante luta em busca do seu corpo insepulto”. Sobre essa questão, a autora cita Panizo (2012) quando declara que o desaparecido é um sujeito ativo, e, por meio dele, mantém-se a busca da memória, verdade e justiça; busca não apenas restrita aos desmandos do período ditatorial, mas que assume atualidade, na medida em que vai se ampliando na luta pelos direitos humanos alhures e aqui.

“Com relação aos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, o que hoje se sabe é que todos os guerrilheiros combatentes da terceira campanha estão mortos” – assinala a autora da obra. Acrescenta que os familiares dos desparecidos políticos, ainda nos dias atuais, são submetidos à tortura interminável, até que um ponto final seja colocado nessa história.

O projeto “Brasil: Nunca Mais”, arquitetado por D. Paulo Evaristo Arns, da Igreja Católica, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright, assegura “uma prática de tortura muito mais cruel do que o mais criativo dos engenhos humanos”. Como bem ressaltou Gilneide, no caso da Guerrilha do Araguaia, em que não houve inquéritos, e, mais ainda, houve ação determinada do Estado para apagar qualquer vestígio daquele confronto, a situação fica bem mais difícil.

“É possível que corpos tenham sido deixados insepultos na mata ou que tenham sido removidos de um lugar de inumação para outro com maior dificuldade de ser encontrado, ou podem ter sido lançados na água dos rios e mares”. Em seu livro, a pesquisadora fala de ritos de passagem, separação, ritos de margem e ritos de agregação.

Desses ritos, destaca as eras do homem de Neandertal, Paleolítico e Neolítico. Nas palavras de Martin, “o homem é tradicionalmente conservador no culto aos seus mortos e a mudança das culturas reflete mais lentamente nos rituais e nos costumes funerários do que na evolução da vida cotidiana”.

Por fim, queria aqui deixar a minha opinião de que a Anistia de 1979, planejada pelos generais da linha dura, foi intencional e visou abrir caminhos para o processo de limpeza da área e proteger os torturadores de seus crimes, mais do que propriamente anistiar os presos políticos.

Essa anistia, digo, deixou feridas abertas que jamais serão curadas porque não houve um acerto de contas com os verdadeiros opressores. Não contentes, torturaram também a nossa memória, diferente da Argentina, do Chile e do Uruguai, nossos vizinhos, que fecharam as feridas com a punição dos criminosos.

“FLUXO E REFLUXO” XXVII

POSFÁCIO – VERGER HISTORIADOR, POR JOÃO JOSÉ REIS.

No posfácio, o escritor João José Reis diz que “Fluxo e Refluxo” (livro de Pierre Verger) é um estudo detalhado do tráfico negreiro para a Bahia a partir do Golfo do Benim, região então considerada pelos luso-brasileiros como Costa da Mina. Ela se estende do sudoeste da Nigéria ao litoral do Togo, passando pela República do Benim.

No entanto, segundo ele, para efeito do tráfico baiano, “a geografia abrange também paisagens mais interioranas do Golfo, como o reino de Oyó, ao norte do território iorubá, chegando mesmo ao país haussás, ainda mais adentro, no norte da Nigéria”. Antes de realizar o livro, Verger já tinha percorrido vários lugares.

Em seu comentário, José Reis destaca que, “se os jejes foram maioria entre os africanos traficados ao longo do século XVIII, os nagôs predominaram no século seguinte, numa concentração nunca antes verificada, pois chegaram a constituir cerca de 80% dos cativos nascidos na África que viviam na Bahia no final da década de 1850”.

Os números apresentados por Verger sobre o tráfico no Golfo do Benim foram revisados pelo projeto Slave Voyages que documentou cerca de 36 mil viagens negreiras entre a África e as diversas regiões das Américas. Pelos dados levantados, o Brasil figura como a região que mais importou mão-de-obra africana escravizada, em torno de 45% dos pertos de 11 milhões de vítimas do tráfico transatlântico.

De acordo com Verger, a Bahia teria recebido 1,2 milhão de cativos, 71% dos quais vindos do Golfo do Benim. “Esses números agora cresceram para 1,5 milhão, o que corresponde a 32% do tráfico brasileiro, mas a proporção registrada por Verger para os vindos do Golfo do Benim se mantém, pelo menos para o século XIX”.

Ainda conforme o autor do posfácio, Verger noticia com detalhes que a autonomia baiana no tráfico era relativa, ou melhor, era disputada no sentido de que os negociantes estavam em constante tensão com a Coroa Portuguesa e seus representantes coloniais quanto a regulamentação e ao controle do comércio de gente. A metrópole buscou por diversos meios disciplinar o comércio entre as duas regiões, no que encontrou acirrada oposição de uns traficantes.

“Do outro lado do tabuleiro, os africanos negociavam com absoluta soberania junto aos comerciantes e representantes europeus, muitos deles dublês de traficantes. O poder e a riqueza dos reis, chefes e negociantes africanos cresceram à sombra do tráfico, pelo que competiam e guerreavam entre si em busca da preferência no fornecimento dos cativos. Por vezes, vários governantes da África enviavam embaixadas à Bahia e a Lisboa (mais tarde ao Rio de Janeiro), para negociar termos das relações comerciais…”

Portugal, França, Holanda, Inglaterra e Espanha, principalmente, foram nações envolvidas no tráfico com seus impérios coloniais. Verger deixa claro que os europeus foram os principais responsáveis pela trágica história do tráfico.

Apesar de alguns historiadores apontarem o ano de 1931 como primeira proibição do tráfico para o Brasil, no caso da Bahia essa data é anterior, já que pelo tratado de 1815, entre Portugal e Inglaterra, esse comércio seria oficialmente abolido acima da linha do Equador. Nessa latitude estavam os principais portos que faziam o tráfico com a Bahia, localizados no Golfo do Benim. Desde 1810, os cruzadores ingleses aprisionavam navios baianos naquela linha.

“No caso da Bahia, o caráter internacional do tráfico ilegal permanece até o último e trágico desembarque, em 1851, que resultou na morte de dezenas de escravos afogados ou de cansaço e fome. No chamado desembarque da Pontinha, o navio negreiro Relâmpago tinha por capitão um venezuelano, o piloto e o copiloto espanhóis de Málaga, um italiano como seu último proprietário e o rei de Lagos (Onim) como principal interessado na carga humana”.

No mesmo ano de 1851, a Inglaterra bombardeou Lagos, depôs o rei Kosoko e o substituiu por Akitoyê, que aceitou a política antitráfico inglês. Assim tinha início a ocupação britânica na Nigéria. Verger denuncia em sua obra que o espírito dos colonizadores na África era de que o branco, “mesmo se um bandido em território africano, devia sempre ser respeitado pelas autoridades africanas”.

Segundo Verger, os iorubás, enquanto nagôs, teriam criado na Bahia uma nova civilização harmônica, tendo na religião os orixás, o seu principal pilar. Sobre as rebeliões na Bahia, como a Revolta dos Malês, em 1835, Verger seguiu os passos de Nina Rodrigues através de pesquisas no Arquivo Público da Bahia. Eles atribuíam ao islã militante a responsabilidade pelos movimentos.

 

“FLUXO E REFLUXO” XXVI

OS MALÊS E OS MAIORES TRAFICANTES NEGREIROS

Estudiosos e historiadores apresentam diversas versões sobre o significado da palavra malês que levantaram uma rebelião na Bahia em 1835, os quais foram massacrados, muitos condenados à morte, a trabalhos forçados, banidos às galeras na África e a chicotadas.

Para Nina Rodrigues e Manuel Querino, os malês ou malinkés, do Alto do Senegal, teriam sido importados para a Bahia com os haussás e mulçumanos. A Bahia também recebeu um grande número de jejes e nagôs-iorubás.

Francis de Castelnau, cônsul da França na Bahia, acreditava na existência de um grupo de negros “niam-niam”, vivendo na região norte da atual Nigéria. Sem muita consistência ele escreve que se tratava de “malais” todos os infiéis, aqueles que não são mulçumanos.

Braz Amaral, em notificações no livro “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, compara malé com má-lei, aqueles que não seguiam a lei de Deus. O padre Étienne Brazil cita seus autores para fazer de mali-nke o homem do hipopótamo (A Revolta dos Malês).

Jacques Raymundo dá a essa palavra iorubá o sentido de renegado que adotou o islamismo (Jornal do Comércio, Rio de Janeiro), apontado por Querino. Historiadores contam na Gazeta de Alagoas que ouviram de uma discussão entre negros um chamar o outro de “malé o cô o”. Concluíram que malé era uma expressão pejorativa entre os nagôs, enquanto o conjunto da frase que dizer “camponês”, ou filhos de uma concubina dos campos.

De acordo com Raymundo, todo dicionário iorubá traduz a palavra “imalê” não como renegado, mas como mulçumano. Tanto Querino como Nina Rodrigues concordam quanto a época da origem dessa palavra entre os iorubás da Nigéria, mas tal fato não entra no âmbito deste estudo. Segundo anotações de Verger, sua presença no reino de Ardra e em Ajudá (Uidá) era assinalada no século XVIII.

Fora essa questão dos malês, Francisco Félix de Souza, Domingos José Martins (moravam no Golfo do Benin), Joaquim Pereira Marinho e Joaquim Alves da Cruz Rios (Na Bahia) foram os maiores traficantes de escravos no Brasil, mesmo depois do tráfico ter sido proibido pelos ingleses no início do século XIX através de tratados e convenções com Portugal, Brasil e outras nações.

Somente em 1850, com a decretação da Lei Eusébio de Queirós, esse tráfico cessou, mas alguns se atreviam a burlar a lei. O primeiro artigo da Lei Eusébio dizia que “as embarcações brasileiras encontradas em qualquer lugar, e as estrangeiras encontradas nos portos brasileiros, tendo a bordo escravos, cuja importação é proibida pela lei de 7 de novembro de 1831, e tendo-se desembarcado, serão apresados pelas autoridades brasileiras ou pelos navios de guerra brasileiros e considerados como importadoras de escravos”.

Aqueles que não tiverem escravos a bordo e nem desembarcados, mas com características daquelas utilizadas para o tráfico, serão igualmente apresadas e consideradas como tentado importar cativos. Serão autores do crime os proprietários, o capitão ou mestre, o piloto e o contramestre da embarcação, bem como o sobrecarga.

“FLUXO E REFLUXO” XXV

BRIGAM OS PORTUGUESES, OS INGLESES, HOLANDESES, FRANCESESS E OS BRASILEIROS PELO TRÁFICO NEGREIRO NO GOLFO DO BENIN, NA COSTA DA ÁFRICA OU SOTAVENTO, TUDO PELA COMPRA DE CARNES HUMANAS EM TORCA DO TABACO, DO AGUARDENTE, DO AÇÚCAR, DO OURO CONTRABANDEADO E ATÉ POR CONCHAS – MOEDAS CHAMADAS DE CAURI (MALDÁVIA) e do ZIMBO (ILHA DE LUANDA, NA ANGOLA.

Em Notas de pesquisadores, relatadas no livro “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, conta que o rei do Dahomey (Daomé) Adandozan, por volta de 1778, tinha visto durante muito tempo com olhos invejosos Apée, Porto Novo (pertencente a Ardra) e Badagre, em razão do grande número de vasos que iam traficar nesses portos, enquanto Whidah (Uidá) estava quase totalmente abandonado. Ele adotou a política do seu avô Agaja, e resolveu estender suas possessões e apropriar-se das mercadorias europeias acumuladas por seus vizinhos.

Como seus vizinhos estavam cercados de lagos e pântanos, difíceis de serem atingidos, o rei resolveu fazer amizades com um dos príncipes da região, no caso o rei de Ardra. No fim a conspiração foi descoberta. Apée era a vítima prevista, que foi devastada e muitos foram feitos prisioneiros pelos daomeanos. Mesmo assim, o rei com sua tropa de fieis conseguiu escapar para outro reino. Apée resistiu e colocou Ardra em fuga, com ajuda de um negro brasileiro negociante chamado Antônio Vaz Coelho que conseguiu uma boa posição política em Ardra.

AS LUTAS NAS BUSCAS POR ESCRAVOS

Durante mais de 300 anos, entre o final do século XV ao XIX, os traficantes donos de navios, capitães das embarcações (os vasos), os senhores de engenhos e das minas, diretores de feitorias, negociantes de todas as partes e até escravos emancipados arriscavam suas vidas na busca incessante por cativos que rendiam altos lucros.

Nesse comércio ambicioso, valia a lei do mais forte, as astúcias, armadilhas, as trapaças e as traições entre eles. Cabeças eram decapitadas, muitos eram encarcerados em calabouços e exilados por reis por enganar e sonegar o pagamento do fisco pela parte que cabia aos reinos e coroas. Holandeses e piratas perseguiam e saqueavam as cargas dos navios, principalmente dos portugueses e brasileiros.

Nessa época, a costa africana era um coito de intrigas e um enxame de maribondos na disputa para ver quem mais lotava de escravos os navios negreiros nos porões da morte, sujos e fedorentos. Os oceanos se transformaram em cemitérios de negros que eram jogados vivos e doentes nos mares para a festa dos tubarões.

Os reis do Daomé (Golfo do Benin) sempre foram os poderosos e guerreiros que brigavam pelo domínio de outros reinos (de Ardra, Porto Novo, Badagre, Lagos) na conquista por mais e mais prisioneiros que eram vendidos como escravos. Reis, rainhas e príncipes, considerados como inimigos, eram embarcados em navios como cativos.

Toda essa tragédia humana, vergonhosa e criminosa, institucionalizada pelos governantes onde até o escravo desejava ter um escravo como um bem que dava status e servia como uma  hipoteca, inspirou escritores, intelectuais, pesquisadores e, especialmente, poetas, como o baiano Castro Alves em “Espumas Flutuantes” no célebre poema “O Navio Negreiro” onde clama num trecho: Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…/ Ô mar! Por que não apagas/ Com a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?…/ Astros! Noite! Tempestades!/ Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão… / Quem são estes desgraçados…

Foram estes negros trazidos de vários reinos da África, dominados pelas potências de colonizadores que aqui deixaram no Brasil suas culturas na música, nas comidas, na capoeira, em seus gingados, nas palavras e no sincretismo religioso.

Aqui foram colocados nos troncos e sofreram horríveis torturas de seus senhores, e até a Igreja Católica foi escravista e conivente. No entanto, até hoje são vítimas de racismo e de todo tipo de discriminação, como a social. A maioria vive na pobreza em favelas e nas periferias das cidades.

Muitos desses relatos estão na obra do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, “ Fluxo e “Refluxo”, que da Bahia se fez filho e se tornou adepto da religião de matriz africana. Pelos meados do século XIX, a partir de 1835, com a revolta dos malês, esses negros, por vontade própria e outros por expulsão das autoridades brasileiras, fizeram  a viagem de volta para suas terras de origens e formaram colônias, sobretudo em Ajudá (Uidá), Porto Novo, Badagre e em Lagos.

Eram várias etnias e nações, como os nagôs-iorubás, os jêjes-mahis, os tapas, haussás que atravessaram o Atlântico com suas bagagens e pertences, mas, mesmo assim, a grande maioria não teve o destino certo porque os brancos roubaram seus bens e não lhes deixaram nos portos desejados e contratados.

Tiveram que amargar o sofrimento de se aventurar pelo interior africano para alcançar sua terra natal ou aportar em outros reinos diferentes. Em vários locais formaram “colônias brasileiras”, hostilizadas pelos nativos e indígenas. Muitos eram até chamados de “brancos” por serem considerados boçais que falavam o português e praticavam o catolicismo e o islamismo.

 

“FLUXO E REFLUXO” XXIV

CURIOSIDADES HISTÓRICAS DO TRÁFICO NEGREIRO, COMO A CAPELA DO SENHOR DO BONFIM E A REVOLTA DO PORTO.

A obra de Pierre Verger, “Fluxo e Refluxo” traz várias curiosidades a partir de pesquisas do autor em documentos e correspondências entre cônsules, vice-reis, capitães de navios e os próprios traficantes de carnes humanas. As negociações entre a Bahia e o Golfo do Benin eram cheias de intrigas e mortes que violavam as leis e os tratados.

Em uma de suas anotações, Verger registra que, em 1745, o capitão Theodózio Rodriguez de Faria, um traficante dono de três embarcações, construiu, por devoção, uma capela dedicada ao Senhor do Bonfim Crucificado de Setúbal, em Portugal, a mesma que, ainda hoje ergue-se acima do altar da mais popular igreja da Bahia. A capela foi inaugurada por ele em 1754.

Diante da desorganização que era o tráfico negreiro, um grupo de negociantes da Bahia propôs criar uma companhia onde limitaria o número de navios em 24 que iriam fazer o comércio na Costa da Mina, divididos e repartidos de três em três com uma espera de três meses entre a saída de uns e a partida de outros, fazendo assim o turno de dois anos. A empresa seria constituída entre Bahia e Pernambuco.

A companhia teria 31 artigos e o projeto previa a duração de dez anos. Os diretores seriam eleitos pelos interessados e a administração da Bahia, sob a proteção do vice-rei. Os navios seriam de uma capacidade de 440 a 600 escravos cada um e seriam armados para se defenderem dos piratas.

A carga principal seria o tabaco, completada com açúcar e aguardente. O tráfico seria feito à razão de cinco a seis rolos de tabaco, e não doze, quinze ou vinte, como acontecia de se fazer, por força da concorrência. A companhia seria obrigada a trazer todos os anos pelo menos quatro mil escravos à Bahia. Os cativos seriam vendidos por 130 mil reis os da primeira escolha, e por um preço menos elevado os de segunda e terceira escolhas.

Outra questão abordada por Verger foi quanto a criação da Companhia das Vinhas do Alto Douro, em 1757, da qual Joaquim Ignácio da Cruz era o administrador. Isso ocorreu durante o vice-reinado do conde dos Arcos. Fazia parte dessa sociedade o futuro marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello.

Na mesma época, na cidade do Porto, os atos e críticas dirigidos contra um organismo administrativo sob a proteção do rei de Portugal, na época D. José, eram considerados crimes de lesa-majestade, conforme a doutrina do futuro marquês de Pombal.

Alguns meses após a sua constituição, a Companhia das Vinhas (um monopólio) tornou-se tão impopular que todos os habitantes do Porto se levantaram contra ela, e os taverneiros lesados provocaram um tumulto, em fevereiro de 1757. Gritavam: Viva o povo! Morra a Companhia! Eles levaram o “juiz do povo” ao chanceler, rogando que a empresa fosse abolida, com ordens para que cada um pudesse vender e comprar o vinho livremente.

Os revoltosos invadiram a casa da companhia, quebraram móveis e rasgaram os documentos. O castigo exigido pelo governo foi o mais severo e foi conduzido pelo desembargador João Pacheco Pereira de Vasconcelos e o escrivão José Mascarenhas.

A manifestação foi considerada como crime de lesa-majestade. No total, 478 pessoas foram condenadas (424 homens e 54 mulheres), sendo 21 homens e cinco mulheres condenadas à pena capital. Outros tantos foram mandados para o exílio em diversas galés da África, além de outras penas, como proibição de permanecer no Porto, confiscos e penas pecuniárias.

“FLUXO E REFLUXO” XXIII

“INCENTIVO OFICIAL DAS AUTORIDADES BRITÂNICAS AOS IMIGRANTES “BRASILEIROS”

De acordo com a obra “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, os imigrantes de Serra Leoa formavam em Lagos uma classe média de comerciantes e de funcionários subalternos na administração britânica.

A formação que recebiam em seu pais, a adoção da língua inglesa, o protestantismo que exibiam e a sua condição de cidadãos britânicos os tornavam mais próximos dos funcionários e comerciantes ingleses vindos da metrópole do os imigrantes brasileiros, separados dos britânicos pelos seus hábitos do Brasil, pela religião católica e pela própria condição de estrangeiros.

Os “brasileiros” simplesmente eram vistos como parentes pobres ao lado dos habitantes de Serra Leoa. A administração britânica adotava um certo preconceito com relação ao Brasil e aos brasileiros. No entanto, africanos emancipados que voltavam para Lagos eram bem-vindos, e o cônsul Benjamin Campbell procurava estimular os navios da Bahia a irem para Lagos e não para Uidá.

A mesma linha de conduta foi também seguida pelos governadores de Lagos até fins do século XIX, mas eles consideravam “iorubás repatriados” e não “imigrantes brasileiros”.

Em 1871, o governador de Lagos, John Hawley Glover, dizia que a terra estava destinada a ser povoada e cultivada pelos escravos emancipados de volta do Brasil e pelos imigrantes do interior. Em 1872 ele escrevia sobre as constantes chegadas de imigrantes brasileiros. John recomendava que esses brasileiros, para ele semicivilizados, fossem acolhidos por serem bons agricultores.

Em mensagem entre autoridades brasileiras, o governador afirmava que o repatriamento de seus artesãos e agricultores qualificados é particularmente desejável e deveria receber incentivo geral. Em 1887, o inglês parlamentar Cornelius Alfred Moloney foi um dos maiores incentivadores para a ida de brasileiros para Lagos. Na época ele sugeriu uma linha direta de navios a vapor saindo da Bahia para Lagos, ao invés da viagem ser feita por veleiros.

Sobre os “brasileiros”, Cornelius dizia que eram os nascidos na região iorubá que foram capturados e enviados para o Brasil como escravos; ou os seus descendentes; ou, em certos casos, alguns que, tendo sido levados também como escravos para o Brasil de outros pontos da África, fixaram-se em Lagos.

Segundo Cornelius, os brasileiros começaram a ser estabelecer em Lagos por volta de 1847, desde que passou a haver certa segurança, em consequência do incentivo e das garantias dadas aos negros do Brasil por uma visita do chefe tapa, conhecido como Osodi, sob a autoridade de Kosoko, então rei de Lagos.

Em 1871 havia 1237 repatriados do Brasil. Dez anos depois esse número passou para 2.732. A mão-de-obra do Brasil naquela época era constituída sobretudo de ex-escravos e seus descendentes e de negros escravos. Só na Bahia, segundo relatório consular de 1884, existiam 108 mil escravos de todo Império do Brasil, a maioria nas culturas de cacau, café, arroz, índigo, tabaco e algodão. Todos esses produtos podiam ser aclimatados em Lagos.

Foram criadas linhas de navios a vapor da Bahia para Lagos em comum acordo com os governos e companhias particulares, mas não deram bons resultados, sem bem que muitos continuaram a fazer esse caminho de volta através de veleiros. O sr. Conerlius acreditava que o retorno dos trabalhadores africanos do Brasil proporcionaria a criação de novas culturas em Lagos.

Os “brasileiros” e os cubanos formavam um grupo homogêneo e compunham uma sociedade em que as preocupações mundanas não estavam ausentes. A abolição da escravidão, em 1888, foi bastante festejada nas colônias em Lagos, conforme descreviam os jornais locais africanos.

“FLUXO E REFLUXO” XXII

“NO DAOMÉ, DECADÊNCIA PROGRESSIVA DOS DESCENDENTES DOS GRANDES COMERCIANTES BRASILEIROS; LENTA FORMAÇÃO DE UMA SOCIEDADE DE PEQUENOS COMERCIANTES E DE ARTESÃOS QUE RETORNARAM DO BRASIL”.

Como vimos em comentários anteriores, a partir de 1835, com a Revolta dos Malês, muitos africanos escravos e libertos fizeram a viagem de retorno para o Golfo do Benin e lá se estabeleceram como comerciantes e artesãos (pedreiros, carpinteiros, marceneiros e outras profissões). Na África, para os nativos e indígenas eles eram chamados de “brasileiros brancos”.

Em “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, nas cidades de Uidá, Agoué, Porto Novo e Lagos, os “brasileiros” emancipados que tinham voltado encontravam-se até 1850 diante de um grupo numeroso de brasileiros e portugueses. Viajantes calculavam em duzentos, todos mais ou menos envolvidos no tráfico de escravos e integrados na vida da região.

Alguns eram até mesmo dignitários do reino de Abomé (Daomé), com direito a guarda-sol e uma escolta de músicos, carregadores de redes e servidores armados, como os chefes daomeanos. Eram submissos às leis do país e, quando morriam, todos seus bens passavam para o rei, que transmitia apenas uma parte aos herdeiros.

Pierre Verger relata que quando o Xaxá Francisco Félix de Souza, o todo poderoso, morreu, em 1849, os cargos por ele desempenhados foram divididos entre os três filhos Isidoro, que se tornou Xaxá, Inácio, o cabeça e Antônio que recebeu o título de amigo do rei.

Sobre o Isidoro, o cônsul inglês Beecroft escrevia que este homem está agora vendido ao rei do Daomé, por toda vida e não ousará sair do país. “É um personagem aborrecido, e eu não gostaria de me encontrar em seu caminho”.

Tanto o comandante Forbes como o cônsul ressaltam a forte autoridade que o rei de Daomé exercia sobre os brasileiros e de quanto eles lhes eram submissos. Numa relação entre os ingleses e o rei, afirmavam que o Xaxá parecia contrariado e não sabia exatamente qual era a sua posição.

A partir de 1863, com o fim do tráfico de escravos em Cuba e com a morte de Domingos José Martins (grande traficante), a situação dos “brasileiros” sofreu um eclipse durante uns trinta anos. O comércio de azeite de dendê era praticamente monopolizado pelos comerciantes franceses Regis. Somente os Xaxás (Isidoro tinha morrido em 1858) possuíam algum prestígio.

Quanto ao comércio, o Journal Officiel dava uma dimensão da importância ocupada pelos “brasileiros”. Citava, por exemplo, que em 1882, sete dos 25 negociantes instalados em todo país eram “brasileiros”, e que 78 dos 154 comerciantes também o eram. Quase um terço dos negociantes e metade dos comerciantes.

Em Lagos, segundo o cônsul Benjamin Campbell, existiam 130 famílias emancipadas por seus próprios esforços no Brasil que faziam parte da população desta cidade, isto em 1853. Esses africanos, outrora escravos, trabalharam nas plantações e minas do Brasil. “Eles souberam com sua capacidade e conduta resgatar a própria liberdade e a de suas mulheres e filhos”. Eram todos originários da região iorubá, da província dos egbás.

“FLUXO E REFLUXO” XXI

“FORMAÇÃO DE UMA SOCIEDADE BRASILEIRA NO GOLFO DO BENIN NO SÉCULO XIX”

Neste capítulo do seu livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger observa que após a Revolta do Malês, em 1835, uma grande leva de negros africanos libertos, por conta próprio (pressão dos senhores patrões) e outros por expulsão das autoridades e da polícia (sublevações e rebeliões) decidiu retornar para suas terras de origem e lá formaram colônias brasileiras nas cidades de Agoué, Uidá, Lagos e Porto Novo, adotando costumes hábitos, religião e cultura.

Verger cita em sua obra que “em discurso sobre reexportação dos negros, Miguel Calmon du Pin e Almeida, deputado da Bahia, declarava que um dos chefes de um país da Alta Guiné, exatamente onde o tráfico de escravos era mais florescente, mostrava-se mais esclarecido do que os outros: Ele não só tinha acolhido muito bem os africanos libertos e expulsos da Bahia, mas também lhes havia concedido terra onde se instalarem; e como existia entre eles um bom número de pedreiros e carpinteiros, parece que construíram uma aldeia e passaram a cultivar a terra”.

LIGADOS AO MODO DE VIDA

Os que voltaram para a África permaneceram ligados ao modo de vida adquiridos no Brasil. Ao saberem da boa acolhida dos emigrantes, muitos africanos da Bahia começaram a organizar, voluntariamente, o seu transporte (um dos líderes foi Joaquim d´Almeida) para a nova colônia no Golfo do Benin. Mais de quatrocentos passaportes foram expedidos pelo governo da província às pessoas e famílias que os requeriam – relatava o deputado.

Miguel du Pin dizia: “Vejo nesse estabelecimento não somente um lugar em que os nossos africanos libertos podem viver sem despesas, mas também um núcleo de população, talvez mesmo um novo Estado, que, participando da nossa língua e da mesma civilização, contribuirá um dia para a extensão de nosso comércio e de nossa indústria nascente”.

O retorno era resultado de duas influências, a espontânea, feita pela lealdade à terra de onde tinham sido arrancados à força, e a outra involuntária, provocada pelas medidas tomadas pela polícia em consequência das revoltas e sublevações dos africanos, escravos e emancipados.

Sobre essa questão, o estudioso Gilberto Freyre destaca que esses africanos vindos do Brasil (grande maioria da Bahia) se tornaram “brasileiros” (abrasileirados) por meio da natureza e da cultura vigorosamente mestiça. Voltaram com costumes, hábitos, modos de vida, abaianados, aportuguesados e até mesmo nos vícios. Levaram o gosto pela farinha da mandioca, da goiabada e até mantiveram devoções como a do Senhor do Bonfim, além de festas, danças e cantos.

Muitos se estabeleceram na região Mahi, ao norte de Abomé, na cidadezinha de Agoué, na fronteira entre Daomé e o Togo. Viajantes estrangeiros descreviam esses negros como de aparência cristã, mas muitos tinham suas próprias religiões (islamismo e dedicação às suas divindades negras). Eles chegaram a construir uma igrejinha em Agoué. Por volta de 1842/43, Joaquim d´Almeida, crioulo brasileiro emancipado, estava prestes a deixar a Bahia. Adquiriu objetos necessários à celebração da missa.

Ele levantou uma capela, em 1845, e foi dedicada ao Senhor Bom Jesus da Redenção, em lembrança a uma capela da Bahia. As origens cristãs de Agoué remontam há mais de trinta anos da nossa chegada definitiva – descrevia o abade Pierre Bouche.

O abade Laffite constatava em sua narrativa, que “foi nesse momento que chegaram muitos negros que reconheci serem escravos libertos do Brasil, por causa de suas roupas de camisões estampados de flores. Os “brasileiros” me conduziram a uma pequena capela que o mais rico deles (Joaquim) tinha mandado construir nos limites de sua propriedade”.

No entanto, Pierre Bouche observava que eles de cristãos só tinham o nome, e aqui retornaram às práticas do paganismo ou da religião muçulmana. Na verdade, havia um sincretismo religioso entre o cristianismo e o fetichismo. Laffite dizia que os africanos “brasileiros” só tinham de cristão o batismo e que continuavam a invocar as divindades negras.

OS GRUPOS

O governador do forte de São João Batista de Ajudá classificava os libertos como “passageiros” (aqueles que foram para o Brasil nos navios negreiros e depois voltaram). Afirmava que esses “passageiros” eram considerados brancos de uma nova espécie em que a cor da pele não interferia em nada para a classificação.

A sociedade brasileira que se formava em algumas cidades do Golfo do Benin, como Agoué, Porto Novo, Uidá e Lagos era composta de comerciantes de escravos vindos de Portugal e do Brasil, de seus descendentes mulatos, de capitães de navios negreiros estabelecidos na África e de africanos libertos, que tinham retornado do Brasil, principalmente da Bahia.

Um outro grupo era constituído de escravos libertos em Serra Leoa, iorubás em sua maioria. Eles eram chamados de akus em Freetown por causa de várias saudações que começavam por oku e salôs ou sarôs, diminutivo de Serra Leoa. Os sarrôs separavam-se dos “brasileiros” por sua conversão ao protestantismo e pela língua crioula, baseada no inglês. Os que vinham do Brasil e Cuba falavam o português ou o espanhol. Os muçulmanos do Brasil formavam outro grupo, mas eram próximos dos hábitos e o modo de vida dos católicos.

 

“FLUXO E REFLUXO” XX

DO TRÁFICO DE ESCRAVOS AO COMÉRCIO DO AZEITE DE DENDÊ APÓS 1810

Por volta de 1850/51 os ingleses “engrossaram o caldo” com seus potentes cruzadores para impedir de vez o tráfico ilegal de escravos e chegaram a invadir as águas brasileiras. Na África, derrubaram à força os reinos de Lagos e Daomé, no Golfo do Benin. Nessa época estava em ascensão o comércio do azeite de dendê no lugar do tabaco e da cachaça.

Os aprisionamentos de navios negreiros eram levados a julgamento para a colônia de Serra Leoa e lá os libertos não tinham muita opção a não ser irem para as ilhas britânicas (Jamaica, Barbados, Demerara, Trindad) para o trabalho da cana de açúcar como “trabalhadores livres”, com salário reduzido. Pelos tratados, os negros capturados deviam ser fixados nas colônias da nação de origem. Muitos eram empregados na marinha e no exército, sem suas próprias vontades.

De qualquer forma, os ingleses aproveitavam da situação. Essa emigração era confundida pelas potências estrangeiras como tráfico de escravos. Os inglese ofereciam casa e um terreno para cultivar seus vegetais e cada trabalhador recebia meio dólar, meia libra de peixe e uma pequena quantidade de rum. Assim eles reduziam custos se os negros ficassem em Serra Leoa. Além do mais, vendiam fuzis e armas. As outras nações aproveitavam para fazer seus negócios, inclusive de bíblias. O capitão Canot dizia que o tráfico dos negros é a abominação das abominações, mas o ouro não traz o cheiro de onde vem. Os tratados são legais e pagos pontualmente.

Um estudo do Select Commitee apontava que os produtos manufaturados serviam para facilitar o comércio de escravos. Indiretamente, através do Brasil e Cuba, pelas mercadorias da Inglaterra vendidas às pessoas que as utilizavam para trocá-las por escravos. Entretanto, o impedimento do comércio seria um sério prejuízo para o povo da África. Não havia meio de distinguir o que era legal do ilegal. O único meio de lutar contra o tráfico era o bloqueio, segundo as autoridades inglesas.

O homem mais rico da terra, o baiano Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Souza, foi o único a resistir na negociação de escravos, ao lado de Joaquim Pereira Marinho, Domingos Martins e José Cerqueira Lima. Ele, o Xaxá, sempre aparece no livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger como maior protagonista da história da escravatura. O navio Brasileiro Relâmpago foi o último a atravessar o Atlântico na prática do tráfico ilegal por volta de 1851.

Mesmo com o abandono dos fortes inglês, francês e português, na cidade de Uidá, o maior porto africano a transportar escravos e outras mercadorias, o Xaxá de Souza continuou lá com seus interesses na Bahia, mesmo com as explosões feitas pelo rei de Daomé, Abandozan.

Apesar do tratado de 1810 com os portugueses que permitia realizar seu “diabólico comércio”, os navios examinados em Porto Novo e Onim (Lagos) eram levados para Serra Leoa e acabavam condenados. Na época havia 45 navios da Bahia fazendo o tráfico entre Palmas e Calabar. Todos partiam para a Costa da Mina e traficavam em Popo, Ajudá (Uidá), Porto Novo, Badagri e Onim.

Mesmo com a proibição, o tráfico continuou florescente no século XIX até por volta de 1851. A Bahia era o porto principal de onde os navios partiam sob as cores brasileiras e estrangeiras para burlar a vigilância inglesa. Colocavam como destino Molembo, mas iam para Lagos. Usavam falsos livros, passaportes e bandeiras diferentes. A bandeira brasileira desapareceu do tráfico pela entrada em vigor, em 13 de março de 1830, do tratado de 1826, mas o comércio permaneceu sob bandeira portuguesa.

Verger relata que em 1835 quatro vasos portugueses e doze espanhóis foram julgados e condenados, quando 4.645 escravos foram libertados. O total desde 1819 é de 37.248 africanos. Após o tratado com a Espanha, em 1835, um grande passo foi dado em direção á abolição. No entanto, no futuro os espanhóis obtiveram documentos portugueses.

Em 1839 houve uma diminuição do tráfico por causa da vigilância dos cruzadores ingleses e pelos incêndios das feitorias em Onim que continham bens de valor. Por volta de 1840, os britânicos começaram também a destruir instalações e depósitos de escravos na costa da África. Os navios presos e condenados eram por vezes recomprados pelos comandantes dos cruzadores ingleses que os transformavam em auxiliares da esquadra ou pelos próprios donos e capitães dos vasos.

O autor da obra também fala das lucrativas negociações com mercadorias encontradas a bordo dos navios negreiros condenados. Eram vendidas em leilão a um preço baixo. Graças a isso, a população negra de Serra Leoa se beneficiava das vendas e os moradores se tornavam mascates e comerciantes ambulantes em países vizinhos. Eles eram bons comerciantes e chegaram a acumular bens. Os akus, por exemplo, eram os judeus da África e fizeram fortunas, retornando para seu país.

O COMÉRCIO DO AZEITE DO DENDÊ

A conversão do tráfico de escravos para o azeite de dendê, do algodão, de peles e outros produtos que vinham se juntar ao comércio estabelecido de ouro, da goma arábica, da pimenta, da cera e do marfim foi, no começo, mais o resultado de iniciativas privadas de alguns comerciantes de Londres e Marselha, do que de uma política deliberada dos governos. Foi criado o Comitê dos Mercadores de Londres.

Do lado francês, armadores de Havre, Bordeaux, Marselha e Nantes enviavam navios para fazerem trocas na costa. Os irmãos Regis Victor e Louis tinham o monopólio e chegaram a fundar feitorias em Uidá, em 1841, o maior centro do tráfico de escravos.

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia