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“DO CORPO INSEPULTO À LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA”

UM ESTUDO DO CASO DINAELZA COQUEIRO

COLEÇÃO EDUCAÇÃO, MEMÓRIA E RELIGIÃO (VOLUME 3)

A professora aposentada de Matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba), mestra em Pedagogia Profissional pelo ISPETP-Cuba, pesquisadora do Museu Pedagógico-Uesb, doutora no Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb, Gilneide Padre, com seu conhecimento do assunto, elaborou uma obra digna de estudo sobre o desaparecimento da guerrilheira conquistense Dinaelza Santana Coqueiro que lutou no Araguaia durante a ditadura civil-militar de 1964.

Quero aqui agradecer seu livro a mim entregue e dizer que seu trabalho é bastante consistente porque a autora não se prendeu apenas à trajetória da personagem em questão, mas fez uma profunda contextualização sobre aquele triste período da repressão onde mais de 300 pessoas foram desaparecidas depois de presas, torturadas e mortas.

Seu trabalho é um apanhado geral sobre o que foi o regime onde Gilneide levanta questões importantes da política de memória e memória política com base em estudiosos que remontam aos tempos da antiga Grécia e outras civilizações desde os tempos antes de Cristo.

A autora não se fixou apenas nas entrevistas aos familiares de Dinaelza e foi mais longe nos estudos quando cita várias obras de estudiosos e presos políticos que foram vítimas da ditadura e se debruçaram no tema, os quais tive o prazer de ler para concluir meu livro “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”. Sinto-me honrado por meu nome estar também incluído em sua pesquisa esclarecedora sobre os fatos.

Antes de tudo, recomendo uma leitura apurada da sua obra para entender aqueles tempos de chumbo onde milhares de brasileiros lutaram pela causa da liberdade e da democracia. Infelizmente, depois de quase 60 anos de tormentos, poucos conhecem essa história, que não mais se repita, principalmente nossos jovens que, ainda recente, foram contaminados pela onda negativista da extrema direita do governo passado.

Posso afirmar que é uma obra bem amarrada e contextualizada, fonte de pesquisas para outros interessados que queiram escrever sobre o assunto. Na introdução do livro, Gilneide fala de Dinaelza, terceira dos seis filhos do casal Junília Soares Santana e Antônio Pereira Santana, nascida no distrito de São Sebastião (Conquista) e que depois foi morar em Jequié. Fez o curso de Geografia na Universidade Católica de Salvador onde foi líder militante com outros companheiros no combate ao regime dos generais.

Seus irmãos Diva, Dilma, Dinorá, Dirceneide e Getúlio ainda hoje choram pelo luto de um corpo insepulto, o qual ainda não foi fechado ritualmente, conforme reza a nossa cultura. Dinaelza foi casada com Vandick Reidner Pereira Coqueiro e os dois ingressaram no PC do B. Perseguidos políticos e procurados, o casal optou por lutar na Guerrilha do Araguaia no início dos anos 70 no governo carrasco do general Médici.

Como pontuou a professora Gilneide, “desde o final da década de 1970, seus familiares vêm empreendendo incessante luta em busca do seu corpo insepulto”. Sobre essa questão, a autora cita Panizo (2012) quando declara que o desaparecido é um sujeito ativo, e, por meio dele, mantém-se a busca da memória, verdade e justiça; busca não apenas restrita aos desmandos do período ditatorial, mas que assume atualidade, na medida em que vai se ampliando na luta pelos direitos humanos alhures e aqui.

“Com relação aos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, o que hoje se sabe é que todos os guerrilheiros combatentes da terceira campanha estão mortos” – assinala a autora da obra. Acrescenta que os familiares dos desparecidos políticos, ainda nos dias atuais, são submetidos à tortura interminável, até que um ponto final seja colocado nessa história.

O projeto “Brasil: Nunca Mais”, arquitetado por D. Paulo Evaristo Arns, da Igreja Católica, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright, assegura “uma prática de tortura muito mais cruel do que o mais criativo dos engenhos humanos”. Como bem ressaltou Gilneide, no caso da Guerrilha do Araguaia, em que não houve inquéritos, e, mais ainda, houve ação determinada do Estado para apagar qualquer vestígio daquele confronto, a situação fica bem mais difícil.

“É possível que corpos tenham sido deixados insepultos na mata ou que tenham sido removidos de um lugar de inumação para outro com maior dificuldade de ser encontrado, ou podem ter sido lançados na água dos rios e mares”. Em seu livro, a pesquisadora fala de ritos de passagem, separação, ritos de margem e ritos de agregação.

Desses ritos, destaca as eras do homem de Neandertal, Paleolítico e Neolítico. Nas palavras de Martin, “o homem é tradicionalmente conservador no culto aos seus mortos e a mudança das culturas reflete mais lentamente nos rituais e nos costumes funerários do que na evolução da vida cotidiana”.

Por fim, queria aqui deixar a minha opinião de que a Anistia de 1979, planejada pelos generais da linha dura, foi intencional e visou abrir caminhos para o processo de limpeza da área e proteger os torturadores de seus crimes, mais do que propriamente anistiar os presos políticos.

Essa anistia, digo, deixou feridas abertas que jamais serão curadas porque não houve um acerto de contas com os verdadeiros opressores. Não contentes, torturaram também a nossa memória, diferente da Argentina, do Chile e do Uruguai, nossos vizinhos, que fecharam as feridas com a punição dos criminosos.

5 respostas para ““DO CORPO INSEPULTO À LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA””

  • Diva santana says:

    Meu caro jeremias Macário. Felizmente a ditadura não mataram todos e todas, ficaram os resistentes e sobreviventes para continuarem na luta, denunciando e resistindo na luta em defesa da memória verdade, justiça e reparação. Muito obrigada por vc existir.

  • Meu caro amigo jornalista Jeremias Macário, sou militante comunista (marxista-leninista) e integro como militante o “Comitê de memória, verdade e justiça” do Norte-Nordeste. Li seu artigo de opinião que também é uma belíssima apresentação da obra “DO CORPO INSEPULTO À LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA”, da Professora Dra. Gilneide Padre, pesquisadora do Museu Pedagógico-Uesb.
    Embora seja nascido em Vitória da Conquista, morei uma década na cidade de Jequié entre os anos de 1979 e 1988. Em 1985 comecei minha militância estudantil como integrante do Grêmio Livre do Instituto de Educação Regis Pacheco (IERB) que presta uma justa homenagem a camarada e guerrilheira Dinaelza Coqueiro.
    Sou militante do PCR e tenho a honra de militar ao lado do camarada Cajá, militante torturado e preso político da ditadura militar. Cajá fora secretário de Dom Helder Câmara e integra atualmente a executiva nacional do comitê N-Nordeste. Se for do seu interesse, tallvez pudéssemos organizar alguma atividade em Vitória da Conquista, ou quem sabe o próprio comitê. Seria bom se organizássemos essa atividade no auditório da OAB Subseção de Vitória da Conquista para darmos início (ou retomarmos) a discussão com a professora Gilneide Padre, Rui Medeiro e tantas outras pessoas que atuaram na clandestinidade durante os anos de chumbo da ditadura militar que integra o comitê para integrar essa atividade.
    Herberson Sonkha
    (77) 98836-4758

    • Editor says:

      Que bom e agradeço sua atenção e aceitamos sua colaboração

    • Editor says:

      É uma ótima ideia para debatermos essa questão na OAB com a professora e Diva Santa, principalmente depois do negacionismo do governo passado sobre o assunto. Tenho um livro publicado UMA CONQUISTA CASSADA QUE FALA DA DITADURA EM CONQUISTA, NA BAHIA, NO BbRASIL E NA AMÉRICA lATINA

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