“FLUXO E REFLUXO” XXI
“FORMAÇÃO DE UMA SOCIEDADE BRASILEIRA NO GOLFO DO BENIN NO SÉCULO XIX”
Neste capítulo do seu livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger observa que após a Revolta do Malês, em 1835, uma grande leva de negros africanos libertos, por conta próprio (pressão dos senhores patrões) e outros por expulsão das autoridades e da polícia (sublevações e rebeliões) decidiu retornar para suas terras de origem e lá formaram colônias brasileiras nas cidades de Agoué, Uidá, Lagos e Porto Novo, adotando costumes hábitos, religião e cultura.
Verger cita em sua obra que “em discurso sobre reexportação dos negros, Miguel Calmon du Pin e Almeida, deputado da Bahia, declarava que um dos chefes de um país da Alta Guiné, exatamente onde o tráfico de escravos era mais florescente, mostrava-se mais esclarecido do que os outros: Ele não só tinha acolhido muito bem os africanos libertos e expulsos da Bahia, mas também lhes havia concedido terra onde se instalarem; e como existia entre eles um bom número de pedreiros e carpinteiros, parece que construíram uma aldeia e passaram a cultivar a terra”.
LIGADOS AO MODO DE VIDA
Os que voltaram para a África permaneceram ligados ao modo de vida adquiridos no Brasil. Ao saberem da boa acolhida dos emigrantes, muitos africanos da Bahia começaram a organizar, voluntariamente, o seu transporte (um dos líderes foi Joaquim d´Almeida) para a nova colônia no Golfo do Benin. Mais de quatrocentos passaportes foram expedidos pelo governo da província às pessoas e famílias que os requeriam – relatava o deputado.
Miguel du Pin dizia: “Vejo nesse estabelecimento não somente um lugar em que os nossos africanos libertos podem viver sem despesas, mas também um núcleo de população, talvez mesmo um novo Estado, que, participando da nossa língua e da mesma civilização, contribuirá um dia para a extensão de nosso comércio e de nossa indústria nascente”.
O retorno era resultado de duas influências, a espontânea, feita pela lealdade à terra de onde tinham sido arrancados à força, e a outra involuntária, provocada pelas medidas tomadas pela polícia em consequência das revoltas e sublevações dos africanos, escravos e emancipados.
Sobre essa questão, o estudioso Gilberto Freyre destaca que esses africanos vindos do Brasil (grande maioria da Bahia) se tornaram “brasileiros” (abrasileirados) por meio da natureza e da cultura vigorosamente mestiça. Voltaram com costumes, hábitos, modos de vida, abaianados, aportuguesados e até mesmo nos vícios. Levaram o gosto pela farinha da mandioca, da goiabada e até mantiveram devoções como a do Senhor do Bonfim, além de festas, danças e cantos.
Muitos se estabeleceram na região Mahi, ao norte de Abomé, na cidadezinha de Agoué, na fronteira entre Daomé e o Togo. Viajantes estrangeiros descreviam esses negros como de aparência cristã, mas muitos tinham suas próprias religiões (islamismo e dedicação às suas divindades negras). Eles chegaram a construir uma igrejinha em Agoué. Por volta de 1842/43, Joaquim d´Almeida, crioulo brasileiro emancipado, estava prestes a deixar a Bahia. Adquiriu objetos necessários à celebração da missa.
Ele levantou uma capela, em 1845, e foi dedicada ao Senhor Bom Jesus da Redenção, em lembrança a uma capela da Bahia. As origens cristãs de Agoué remontam há mais de trinta anos da nossa chegada definitiva – descrevia o abade Pierre Bouche.
O abade Laffite constatava em sua narrativa, que “foi nesse momento que chegaram muitos negros que reconheci serem escravos libertos do Brasil, por causa de suas roupas de camisões estampados de flores. Os “brasileiros” me conduziram a uma pequena capela que o mais rico deles (Joaquim) tinha mandado construir nos limites de sua propriedade”.
No entanto, Pierre Bouche observava que eles de cristãos só tinham o nome, e aqui retornaram às práticas do paganismo ou da religião muçulmana. Na verdade, havia um sincretismo religioso entre o cristianismo e o fetichismo. Laffite dizia que os africanos “brasileiros” só tinham de cristão o batismo e que continuavam a invocar as divindades negras.
OS GRUPOS
O governador do forte de São João Batista de Ajudá classificava os libertos como “passageiros” (aqueles que foram para o Brasil nos navios negreiros e depois voltaram). Afirmava que esses “passageiros” eram considerados brancos de uma nova espécie em que a cor da pele não interferia em nada para a classificação.
A sociedade brasileira que se formava em algumas cidades do Golfo do Benin, como Agoué, Porto Novo, Uidá e Lagos era composta de comerciantes de escravos vindos de Portugal e do Brasil, de seus descendentes mulatos, de capitães de navios negreiros estabelecidos na África e de africanos libertos, que tinham retornado do Brasil, principalmente da Bahia.
Um outro grupo era constituído de escravos libertos em Serra Leoa, iorubás em sua maioria. Eles eram chamados de akus em Freetown por causa de várias saudações que começavam por oku e salôs ou sarôs, diminutivo de Serra Leoa. Os sarrôs separavam-se dos “brasileiros” por sua conversão ao protestantismo e pela língua crioula, baseada no inglês. Os que vinham do Brasil e Cuba falavam o português ou o espanhol. Os muçulmanos do Brasil formavam outro grupo, mas eram próximos dos hábitos e o modo de vida dos católicos.











