:: abr/2023
O LIVRO “NA ESPERA DA GRAÇA” FOI LANÇADO DIA 27 NA LIVRARIA NOBEL
Não são textos pandêmicos, mas, em sua maioria foram inspirados durante o período da pandemia da Covid-19 (2020/22) quando as pessoas estavam angustiadas, isoladas e até desesperadas na espera de uma graça para se livrar do vírus.
A obra “Na Espera da Graça – Entre Engaços e Bagaços”, textos poéticos do jornalista e escritor Jeremias Macário, foi lançada em março, na Casa Regis Pacheco (Praça Tancredo Neves) e no último dia 27 de abril na Livraria Nobel, da Avenida Otávio Santos.
Quem não teve condições de comparecer ao evento, o livro pode ainda ser ainda adquirido na própria livraria, bem como outros trabalhos do autor, como “Uma Conquista Cassada”, “Andanças” e “A Imprensa e o Coronelismo no Sudoeste”.
O título “Na Espera da Graça” foi exatamente inspirado numa letra musicada pelo companheiro músico, cantor, poeta e compositor Walter Lajes, em sua viola mágica no ritmo do boi em diversos festivais.
Outros versos da obra também foram musicados por artistas locais e do Nordeste, como Edilsom Barros, de Fortaleza (A Dor da Finitude) e Antônio Dean, de Campina Grande (Lembro Ainda Menino e Minha Filha Cintia). Outras letras foram musicadas por Papalo Monteiro e Dorinho Chaves.
Além disso, diversos poemas foram gravados em vídeos com minha esposa Vandilza Gonçalves e meu amigo José Carlos D´Almeida, que resultaram em dois curtas metragens, um dos quais premiado pelo edital da Lei Aldir Blanc, lançado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
Para finalizar, o livro contém o capítulo “Entre Engaços e Bagaços”, um épico sobre o nosso resistente Nordeste. Trata-se de uma viagem que o autor faz a partir do Maranhão, descendo pelo Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e a Bahia onde são louvados Câmara Cascudo, José de Alencar, José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Tobias Barreto, Rui Barbosa, Gregório de Matos, Jorge Amado e tantos outros.
“FLUXO E REFLUXO” XVII
PRINCIPAIS COMERCIANTES DA BAHIA QUE TOMARAM PARTE NO TRÁFICO CLANDESTINO DE ESCRAVOS
No início do século XIX quando, através de tratados, convenções e acordos com a Inglaterra o tráfico de cativos foi proibido, os maiores centros comercias eram a Bahia e o Rio de Janeiro.
No livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger abre um capítulo onde aponta os maiores traficantes ilegais, com destaque para Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Uidá, como era mais conhecido. Naquela época, segundo Verger, esse comerciante era considerado o homem mais rico da terra.
Esses traficantes eram vistos como úteis e desejáveis para o bem maior da economia nacional. “Eles tinham, consequentemente, “boa consciência”. A correspondência oficial brasileira fala “de um comércio triste”, mas o único capaz de fornecer os braços indispensáveis para as minas e para as culturas do Brasil”.
O autor assinala em sua obra que os navios apresados pelos ingleses geralmente iam para a Serra Leoa onde se dava o julgamento dos traficantes. Libertados, esses negros terminavam seguindo para as Antilhas britânicas como trabalhadores livres. No entanto, de acordo com historiadores, eles não eram consultados para onde queriam ir.
Comerciantes baianos acumularam fortunas, tanto com o tráfico de escravos quanto em outras operações comerciais, como José de Cerqueira Lima, Antônio Pedroso de Albuquerque, José e Joaquim Alves da Cruz Rios e Joaquim Pereira Marinho. Este era outro rico que chegou a ser provedor da Santa Casa da Misericórdia. Até hoje tem uma estátua dele em frente do Hospital Santa Isabel.
Muitos passavam uma parte do seu tempo na Bahia e outra no Golfo do Benin, como André Pinto da Silveira e Manuel Joaquim D´Almeida. Existiam ainda aqueles que viviam completamente instalados em Benin, os casos de Francisco Félix de Souza, Domingos José Martins, Marcos Borges Ferras, Joaquim D´Almeida e José Francisco dos Santos (o Alfaiate).
Muitos capitães de navios negreiros se tornaram proprietários de vasos comerciantes, como Inocêncio Marques de Santa Anna, antigo intérprete da embaixada do rei do Daomé, em 1805. Verger cita também João Cardosos dos Santos que, de 1825 a 1827, chegou a ser capitão do Henriqueta pertencente a José de Cerqueira Lima.
Mais tarde, este capitão passou a ser dono da goleta Umbelina. Em 1829 ele tirou um passaporte que lhe permitia trazer de Cabinda 358 escravos, só que ia para outro local proibido acima da linha do Equador. Em Lagos, por exemplo, ele embarcou 377 cativos. Sua embarcação foi capturada em 1830 e levada para Serra Leoa. Nessa travessia morreram 214 negros.
O grande nome do comerciante daquela época de 1824, conforme relata o governador Francisco Marques de Góes Calmon era José Cerqueira Lima, com um enorme tráfico de importação de escravos da costa ocidental da África, proprietário do pequeno palácio no Corredor da Vitória, que conhecemos durante muitos anos como palácio presidencial dos presidentes da província e, em seguida, dos governadores, no momento da República.
Aquele imóvel comunicava com a praia por um longo subterrâneo que servia de passagem aos comboios de escravos. Ele mandou abrir um subterrâneo, a fim de poder fazer vir com segurança sua mercadoria para terra desde o mar, tendo em vista que o tráfico não era mais permitido. Esses e outros eram riquíssimos que possuíam mansões luxuosas, móveis da Europa e pratarias em ouro.
O LÁPIS E O CONSELHO
Quem nasceu primeiro, o lápis ou a pena do tinteiro? Talvez nem um e nem o outro. Na civilização mesopotâmica e egípcia, do vegetal se extraia a tinta e se utilizava algum instrumento rústico, que não eram chamados de lápis e pena para fazer anotações e escrever as histórias em tábuas de barro e papiros. Da evolução antiga para os tempos mais modernos, o lápis e a pena de tinta guardam lembranças na memória de muitas gerações que aprenderam a ler e a escrever com essas invenções. Hoje, embora se faça quase tudo através do teclado do computador (antes era a máquina datilográfica), é a caneta que ainda é empregada para assinar documentos, tratados, contratos, convenções e emitir sentenças de juízes, empresários e até por pessoas simples no ato de compra e venda de algum bem.
Mas, onde entra mesmo essa história de Conselho? É um grupo de gentes notáveis que usas de vários objetos para, deliberar, criticar, aprovar, fiscalizar, julgar e sentenciar um réu ou ente público e privado, sem que antes não tenha passado por uma peça documental assinada pela caneta, que veio do lápis feito da madeira com a introdução de um material da espécie do carvão. Essas duas figuras, tão importantes na história da humanidade (o Conselho pode ser também um Tribunal), estão em forma de esculturas no Museu de Kard, do grande artista conquistense Alan Kardec. Essas e outras artes estão lá neste museu a céu aberto que muito orgulha a nossa cidade, embora não tenha sido citado no folheto turístico de Vitória da Conquista, lançado recentemente pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Uma pena que o museu não tenha sido incluído no roteiro do visitante, que o órgão pretende promover para atrair o turista da região e de outros estados.
SOMBRA ARTIFICIAL
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sonhei que era uma sombra,
De um primitivo passado,
De antigos ancestrais,
De atraso e evolução;
Um ente invisível global,
Fora do corpo, com razão,
Sem o emotivo sentimental.
Era mesmo uma sombra,
De inteligência artificial,
Uma cópia do carbono,
Dentro de um longo sono,
Na forma de outro animal.
Sonhei ser a deusa Atenas,
Das penas dos sábios imortais,
Sombra parida do cristão-judaico,
Dos imperadores romanos generais,
Das trevas do pensador arcaico,
Cruzado do inquisidor carrasco,
Filha dos ideais dos iluminismos,
Saída do frasco das eras dos ismos,
Sombra anarquista-comunista,
Mistura entre direita-esquerdista.
Sonhei ser apenas uma sombra,
Que se foi no vulto da luz,
No escurecer do lenho da cruz,
Em noites de sonhos me assombra,
Essa máquina maluca artificial.
AS CPIS QUE NÃO DÃO EM NADA
É só bate-boca, aparição na mídia para ganhar mais visibilidade e voto, mais dinheiro gasto do contribuinte e depois tudo é arquivado. Os responsáveis pelos crimes cometidos continuam impunes. A mais recente que foi para apurar as responsabilidades nas possíveis compras superfaturadas de vacinas e atrasos na vacinação contra a Covid-19 é um bom exemplo disso.
Existiram tantas outras CPIs, como a do mensalão, em 2005, onde depois todos foram inocentados pela Justiça tardia e cega. Tudo não passa de uma palhaçada e um circo dos horrores que os brasileiros já estão cansados de assistir pelas redes sociais e televisão. Elas perderam totalmente a credibilidade, tanto que ninguém nem dá mais importância.
Agora estão instalando a CPI mista da Câmara e do Senado (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as invasões do oito de janeiro nos três poderes (Congresso Nacional, Executivo e Supremo Tribunal Federal), quando o próprio STF já está cuidando disso para apontar os verdadeiros culpados. Mesmo assim, tudo termina em pizza e samba, como já se diz no Brasil.
Além dessa, outras estão vindo aí para “investigar” as ações de invasões de terras do MST pelo Brasil. Tem até a das Lojas Americanas sobre o rombo que deram nas finanças da empresa. Tem outra CPI aí que agora não estou me lembrando porque são tantas!
Podemos afirmar que é uma safra de CPIs, quando o Congresso Nacional deveria sim aprovar um projeto de lei para realizar uma verdadeira reforma política eleitoral, reduzindo seu contingente de parlamentares e os custos de suas mordomais, bem como, mudar esse sistema arcaico de capitanias hereditárias no poder.
Sobre essa questão ninguém quer tocar no assunto, nem a esquerda, o centro e a direita. Todos preferem que as coisas continuem como estão onde eles utilizam a máquina e sempre se elegem. Conheço deputado, por exemplo, que já está no poder há mais de 40 anos. Esse tipo já sabe a medida certa de votos dos ignorantes e daqueles que lhe devem “favores”. De certa forma, o voto continua sendo comprado no estilo coronelista.
Quando não aguentam mais, eles transferem seus eleitores para seus filhos, sobrinhos, primos e netos como espécie de herança de bens. Transformam o público em privado. Para completar a lambança, ainda existe o senador biônico como nos tempos da ditadura civil-militar de 1964, que nunca recebeu um voto.
Quando você vota num senador existe por detrás dele um suplente na chapa que pode ser um amante ou uma amante, um parente e até um empregado seu que é pago com o dinheiro do pobre ignorante contribuinte. Ficam oito anos gozando das benesses pagas pelos otários que somos nós mesmos.
Durante as campanhas, eles nunca revelam quem é o seu suplente. O personagem ou a personagem só aparece quando ocorre um incidente ou acidente em que o eleito é impossibilitado de continuar no cargo.
Entra eleição e sai eleição, entra governo e sai governo, e tudo permanece com dantes na casa de Abrantes, ou seja, nada muda. Agora inventam esses CPIs para enganar o povo de que eles estão preocupados com os malfeitos do país quando os próprios são os malfeitores.
No final, tudo é arquivado e todos inocentados por “falta de provas”, como na Operação Lava-Jato. Esse Brasil, durante todos os meus anos de vida ainda não me deu motivos para me orgulhar dele. Não tenho nenhum receio de dizer que sinto vergonha.
UMA AÇÃO DE 30 ANOS QUE AINDA NÃO RESOLVEU O PROBLEMA DA FOME
Longe de mim criticar uma ação da cidadania de combate à fome, criada há 30 anos pelo saudoso Betinho. O mais lamentável é que depois de todo esse tempo o nosso Brasil registra hoje 33 milhões de famintos que vivem em plena miséria, dependendo de um Bolsa Família de cerca de 700 reais por mês. É bom deixar claro que, além do governo, existem ajudas de milhares de brasileiros através das doações de cestas básicas.
Não consigo entender que durante esses anos os governantes não implantaram políticas públicas sólidas, programas e projetos para se sair desse sistema de doações e esmolas. Preferem dar o peixe do que ensinar a pescar, tanto a direita como a esquerda, porque é uma forma de manipular o voto do eleitor pobre, sem instrução e ignorante.
Imaginem se nesses 30 anos tivesse ocorrido uma ação pública e privada da sociedade no sentido de priorizar a educação, desembolsando bilhões de reais, ou até trilhões, no sentido de proporcionar um ensino de qualidade para as crianças!
Certamente hoje teríamos uma geração de jovens de 25 a 30 anos bem mais qualificada para o mercado de trabalho, e a fome não teria tomado essas proporções alarmantes e vergonhosas. Nada mais estimulante do que o cidadão ganhar o pão do seu próprio suor.
Digo isso porque sou cria de uma família de pobres lavradores que vivia na zona rural, e meus pais se sentiam dignificados de ganhar seu próprio dinheiro. Meu pai, por exemplo, aprendeu a pescar aprendendo outras atividades além da roça. Quando se dá, existe a propensão ao comodismo.
Somente neste ano o Governo Lula vai gastar do Tesouro Nacional 176 bilhões de reais com o Bolsa Família. Concordo que a fome não espera, tem pressa, mas não se apresenta uma saída para tirar esses milhões da extrema pobreza. Mesmo que a pessoa receba três refeições por dia, não quer dizer com isso que ela deixa de ser pobre e dependente.
Posso até estar falando besteiras, mas se o governo investisse esses 176 bilhões em obras de saneamento básico e construção habitacional, priorizando o emprego a todo esse contingente de miseráveis brasileiros, inclusive com programas de capacitação? Não estaria realizando dois benefícios à população?
Essas ações de Bolsa Família, Auxílio Brasil e ou qualquer coisa que se dê o nome, a depender do slogan marqueteiro de cada presidente, vão perdurar até quando? Sem educação e cultura, vamos sempre continuar sendo um país em desenvolvimento, com milhões vivendo na linha da pobreza e da desigualdade social.
Até quando a nação vai suportar volumosos gastos para matar a fome, sem ativar um mecanismo onde as pessoas vivam por conta própria? Na verdade, tudo isso não passa de uma tremenda máquina de fabricar votos e deixar ainda mais o cidadão envergonhado e usado politicamente.
OS DETRITOS DA SERRA DO PERIPERI
A natureza não perdoa, devolve todo mal que é praticado contra ela. Esse enunciado é mais do que óbvio, mas o animal homem nunca aprende e continua a destruir o meio ambiente. Quando este se rebela, os pobres são os que mais sofrem com os estragos, inclusive com mortes.
Primeiro estou me referindo à depredação da Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, quando por muitos anos ela serviu de exploração de pedras e areia, derrubando mais ainda a pouca vegetação que cobria aquela área, antes uma floresta que dela só restou aquele pedaço da Mata do Poço Escuro.
Esse processo criminoso teve início com maior intensidade a partir dos anos 60 do século passado com a construção da BR-116. Quando aqui cheguei, em 1991, caçambas e mais caçambas entravam e saiam da Serra carregadas de materiais para a construção civil. Lembro das muitas reportagens que fiz denunciando o crime, sob ameaça dos exploradores.
Como a Serra ficou sem nenhuma proteção vegetal e cheia de buracos, ela começou a despejar detritos, pedras e lama à cidade todas as vezes que batem fortes chuvas, como as desse último final de semana, destruindo casas e ruas, principalmente nos bairros Panorama e Santa Cecília, conforme apontou muito bem o arquiteto Leandro Fonseca.
Em seus vídeos, como bom conhecedor do assunto, ele mostra com evidência e propriedade as causas e as consequências advindas lá do alto da Serra, bem como a necessidade urgente do poder público implantar o canal leste-oeste para escoamento das águas. Segundo ele, se isso não for feito, a situação vai perdurar por muito tempo. “Se os canais não forem executados, a tendência é piorar com a descida dos detritos da Serra”.
Fonseca alerta que se não for realizada uma macrodrenagem profissional e dentro das técnicas exigidas, vamos ter daqui para frente cenários desse tipo, atingindo diretamente o centro da cidade, como o que acontece hoje na Praça Victor Brito e Avenida Bartolomeu de Gusmão, todas as vezes que chove.
O arquiteto foi bem claro quando apontou para o alto da Serra de onde são carreados todo lixo e detritos para as partes mais baixas dos bairros que estão localizados nas encostas e depois para as ruas do centro de Conquista.
A invasão de terra e lamas das chuvas nas casas já era anunciada por muito anos quando lá atrás as máquinas perfuraram a Serra do Periperi deixando enormes crateras, sem contar que aterraram todos os pontos de minação. Imaginem que nela chegou a funcionar um lixão por muitos anos.
De volta ao ponto inicial, a natureza está apenas devolvendo o mal que lhe fizeram através da ganância de ganhar mais dinheiro. Os prefeitos e os políticos passados foram coniventes com a destruição, em alguns locais irrecuperáveis. O maior predador da Serra foi o próprio poder público.
Não é nenhuma surpresa que os danos à cidade iam logo surgir. E, como declarou o arquiteto Leandro, se não houver construção de canais de escoamento, virão tragédias maiores, não somente materiais, como também de vidas humanas.
QUAL O DESTINO DO MADRIGAL?
Por várias vezes já comentei aqui sobre este assunto, ou esse equipamento municipal que há anos está fechado, mas não custa nada voltar à questão. Os artistas, principalmente do audiovisual e do teatro, estão ansiosos que suas portas se abram para espalhar cultura pela cidade.
Uma pergunta que constantemente está sendo levantada é qual o destino do antigo Cine Madrigal? Estava previsto para ser reaberto em setembro de 2021, e o Conselho Municipal de Cultura já colocou a questão em pauta diversas vezes, inclusive através de ofícios e documentos, um deles entregue em audiência com a prefeita, em julho do ano passado.
Lá está aquele imponente prédio na rua Ernesto Dantas fechado há 16 anos, sendo desgastado pelo tempo. Ali tem história quando bons filmes atraíram milhares de conquistenses. Guarda lembranças na mente de muita gente, namorados, casais, jovens, professores, intelectuais e gente do nosso povo. Eu mesmo estive lá por várias vezes assistindo boas películas.
Com capacidade para mais de mil assentos (poltronas luxuosas) o Cine Madrigal foi aberto em 22 de maio de 1968 com o filme “A Noite dos Generais” e fechado em 2001. Um ano depois, em 2002, voltou às suas atividades, mas teve que encerrar em definitivo suas ações em 30 de julho de 2007. Portanto, foram 38 anos de bons filmes, como o Titanic, que teve maior público. Conquista foi pioneira em salas de cinema (chegou a ter cinco abertas) e experimentou seu bum na década de 40.
O Madrigal foi o último dos cinemas de rua de Vitória da Conquista. Como se diz no popular, o último dos moicanos. Quando fechou as portas por causa da onda da internet, dos DVDs e fitas cassetes, a Igreja Universal – se não me engano – tentou comprar o prédio, mas não deu certo.
Depois de muito discutir, a Prefeitura Municipal, entre os anos 2015/16, no governo de Guilherme Menezes, adquiriu o antigo Cine Madrigal por cerca de um milhão e 100 mil reais, barato pela sua estrutura e localização. Foi utilizado o dinheiro do Tesoura, isto é, do povo, e passado para a gestão da Secretaria de Educação.
São sete anos sem ser utilizado, coisas da Bahia e do nosso Brasil. A intenção do governo passado era transformar o antigo Madrigal num cineteatro, conforme garantiu o secretário de Educação da época, Valdemir Dias, hoje vereador. Até o momento nada aconteceu e lá está o “elefante branco”.
Quando de uma audiência do Conselho Municipal de Cultura, a prefeita Sheila Lemos explicou que o propósito era reativar o Cine Madrigal, mas antes teriam que ser realizadas obras de reforma interna e externa de acessibilidade, de modo a atender as exigências do Corpo de Bombeiros e do Conselho de Engenharia e Arquitetura.
Estamos sabendo que já existe um projeto de licitação para fazer os devidos reparos visando a abertura de suas instalações. No entanto, fica uma interrogação, inclusive dos artistas em geral e da população sobre a sua utilização. Vai ser mesmo um cineteatro, ou apenas mais um estabelecimento de uso da Secretaria de Educação para reuniões, oficinas de capacitação e local de eventos de formatura? É isso que toda sociedade está querendo saber.
Existe a discussão de que haja uma gestão compartilhada entre as Secretarias de Educação e a de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel, mas até o momento pouco se sabe e se anunciou sobre o assunto. O poder público tem a obrigação de informar e dar uma satisfação, mesmo porque é recurso do contribuinte. A Câmara de Vereadores também precisa se pronunciar e entrar nesse debate.
Com a interdição do Teatro Carlos Jheová, na Praça 10 de Novembro, os artistas em geral, músicos, as artes cênicas e outras linguagens ficaram sem local para realizar seus ensaios e eventos. Estão indo, com sacrifícios para outros locais, como o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima que pertence ao estado.
O antigo Cine Madrigal seria o ideal para atender a demanda, mas a nossa cultura, infelizmente, está órfã de pai e mãe. Essa nossa “pobre” cultura anda aí pelas ruas como uma mendiga maltrapilha com a cuia na mão pedindo esmolas. Todos passam e poucos dão atenção jogando umas moedinhas em seu prato.
Queremos uma posição sobre este e outros equipamentos culturais, como a Casa Glauber Rocha, que também se encontra fechada a mercê do tempo que não perdoa no quesito desgaste e destruição do nosso patrimônio histórico, na verdade, um resto que ainda está de pé.
“FLUXO E REFLUXO” XV
OS DETALHES SOBRE O TRÁFICO ILEGAL DE ESCRAVOS NA BAHIA.
Eram muitas as trapaças dos navegantes baianos para burlar as vigilâncias inglesas contra o tráfico ilegal de escravos da África na Costa do Benin, principalmente ao norte acima da linha do Equador. Todas irregularidades e transgressões às leis, tratados e convenções estão documentadas na obra “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo francês Pierre Verger.
Veja o que o autor descreve, através de cartas do cônsul Poter, sobre o assunto: “Uma declaração feita em 10 de abril de 1834 (o tráfico tornou-se ilegal no início do século XIX) por um marinheiro do navio Musca dá detalhes a respeito do desembarque na Bahia de 228 escravos mandados pelo Xaxá de Souza (Francisco Félix de Souza).
O marinheiro desceu para terra com o segundo capitão para tomar disposições com o consignatário na região da “Torre” (Casa Garcia D´Ávila). Então navegaram quatro ou cinco dias ao largo da “Torre”, e uma grande garoupeira veio pegar os escravos a bordo e trouxe uma carga de pedras como lastro”.
Em outra passagem, conta que um cruzador britânico vindo do Rio de Janeiro, em setembro de 1838, trazia uma declaração sobre o caso do brigue americano Dido que chegou a Salvador com 575 escravos e estava à vista das dunas de areia das praias da Bahia.
Como viu uma corveta inglesa, o Dido içou as cores americanas. Na mesma noite, 570 cativos (cinco morreram na travessia) foram entregues no povoado perto da ponta de Itapuã. O navio foi limpo e no dia seguinte apareceu na Bahia com a bandeira dos Estados Unidos.
Em agosto de 1841, o cônsul Poter escrevia para Hamilton Hamilton, no Rio de Janeiro, a respeito do brigue Picão que havia desembarcado 480 escravos na costa oeste da ilha de Itaparica. Após o sucesso da empreitada, indivíduos organizaram uma companhia a fim de promover o tráfico. Compraram cinco vasos (navios) que estão prontos para partir para a Costa da África. O cônsul pedia reforço de cruzadores britânicos para apertar a fiscalização.
Em 1842, o cônsul confirmava que os mercadores de escravos, para evitar as intervenções no livre usos das embarcações, declaravam que retornavam de portos afastados da costa da África, o que tornava difícil a obtenção de informações corretas com relação ao movimento dos navios.
No ano de maio 1846, o cônsul assinalava a carga sem precedentes de 1350 cativos (perdeu 40 na viagem) que o Três Amigos tinha desembarcado. Esse navio figurava na lista de partida de três de julho para os Açores, de onde voltou em setembro em arribada depois de 71 dias. Não havia dúvidas que tinha ido fazer seu tráfico nesse intervalo e deixado uma carga em um dos pontos de desembarque nos arredores da cidade da Bahia.
No mesmo ano, o Andorinha, pertencente a Joaquim Pereira Marinho, um dos maiores traficantes da Bahia (tem uma estátua dele em frente do Hospital Santa Isabel), começava uma série de viagens à costa da África, anunciando sua primeira partida em outubro de 1846 para as Canárias. O cônsul dizia que a importação era feita com a maior atividade, citando que três mil foram desembarcados na Bahia durante o último trimestre de 1846.
Os comerciantes e as autoridades afirmavam que o tráfico cessaria com a saída dos cruzadores britânicos na fiscalização. O lorde Palmerston argumentava que isso não passava de uma falácia. Segundo relatos de 1847, a importação aumentou ainda mais. Foram 2233 escravos no terceiro trimestre, contra 1500 para o segundo e 1180 para o primeiro.
Fazia-se o tráfico sem esconder. Na ilha de Itaparica foram construídos locais de desembarques normais. Em plena noite eram utilizadas luzes para guiar os vasos. Dali os cativos eram levados para depósitos da cidade da Bahia, onde são vendidos sem medo de intervenção das autoridades, apontavam os agentes do cônsul Poter. “Tenho a satisfação de declarar que sete vasos pertencentes a este porto foram capturados pelos cruzadores ingleses. Apesar das perdas, muitos estão equipados para irem à costa africana”. Foram desembarcados 3.500 escravos nos arredores da cidade durante o quarto trimestre de 1847, a maior importação que houve durante os últimos oito anos.
Os vasos chegavam frequentemente dos Estados Unidos e do Mediterrâneo comprados por essas companhias e enviados à África sob a bandeira das nações às quais pertencem originalmente. A bandeira do Brasil é substituída no momento em que recebem suas cargas a bordo.
Tem ainda o caso do brigue George, que partiu para África, em agosto de 1847, e voltou com o nome de Tentativa com cores brasileiras, com uma carga de 726 cativos em um miserável estado de fome (11 morreram por falta de água e provisões). O iate Andorinha, de Joaquim Pereira Marinho fez oito viagens com sucesso. Desembarcou 3392 escravos no porto da Bahia. O lucro era considerável. Em agosto de 49 foi capturado. Fez dez viagens, desembarcou 3.800, ganhando 46 mil libras no curto espaço de 32 meses.
Em maio de 1850, “o tráfico de escravos continua na Bahia com o maior sucesso. Durante o último mês, foram desembarcados mais de 1100, na maioria nagôs, haussás, tapas e jejes. A maior parte provém dos portos de Onim e Ajudá” – relatava o cônsul.
LIVRARIAS E LANÇAMENTOS
Que bom que as vendas de livros em Vitória da Conquista estão registrando uma forte retomada depois do período da pandemia, conforme nos relata o empresário José Maria, da Livraria Nobel. De acordo com ele, o crescimento é tímido, mas constante. Isso já é uma boa notícia, mas o lamentável é que numa cidade do porte de Conquista, com cerca de 350 mil habitantes ou mais, só tenha três lojas, sendo duas nos shoppings e a outra na Avenida Otávio Santos, que é a Nobel, onde acontece a maioria dos lançamentos de obras dos autores locais, inclusive já fiz várias apresentações dos meus trabalhos naquele local de cultura e tenho outro marcado para o próximo dia 27/04 (quinta-feira) a partir das 19 horas. São textos poéticos intitulados “Na Espera da Graça”. Agradeço a José Maria e sua esposa Valmária que sempre têm recebido bem os escritores da nossa cidade. Acho muito importante prestigiar a nossa prata da casa que, sem dúvida, tem grandes talentos, mas carece de mais apoio de toda sociedade e de mais leitores. Da minha parte, dentro do possível, procuro valorizar a literatura regional que, de uma forma ou de outra, não importando o gênero, está enaltecendo a cultura conquistense e elevando o nome da cidade lá fora, inclusive em outros estados. A Livraria Nobel está de parabéns por receber nossos escritores de braços abertos.



















