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OS MOMENTOS DE AGONIA DE UMA NAÇÃO

OS MOMENTOS DE AGONIA DA NAÇÃO

Estão completando, exatamente, neste primeiro de abril (alcunhado de Dia da Mentira), 59 anos do golpe civil-militar que os generais ainda insistem em datar como 31 de março, quando o comandante Mourão saiu de Juiz de Fora e desceu a Serra de Petrópolis com suas tropas até o Rio de Janeiro, que muitos dizem desarmada.

O chamo de o dia em que separou os brasileiros entre classe média, estudantes, sindicatos, pobres, pais e filhos, a Igreja Católica, amigos de amigos e irmãos de irmãos. É um dia que precisa ser lembrado para que nunca mais aconteça em nossa história, e todos aqueles imbecis que pedem uma intervenção militar, ou seja uma ditadura, sejam repelidos rigorosamente e presos.

Em minha obra “Uma Conquista Cassada- cerco e fuzil na cidade do frio”, faço um relato sobre o que foi o regime em Conquista, na Bahia e no Brasil, não deixando de me reportar sobre as ditaduras na América Latina. Nele escrevi este capítulo: Os Momentos de Agonia de uma Nação.

Foi mesmo em primeiro de abril em que uma corja do Congresso Nacional decretou que o presidente João Goulart havia se ausentado do Brasil e deixado um vácuo no poder, quando ainda estava no Rio Grande do Sul. Foi este Congresso que abriu as portas para as forças armadas darem o golpe definitivo.

O quadro geral do país era de agitação e nervosismo, com intensa movimentação nos quartéis e em todos os setores da sociedade. Mas, ainda existiam possibilidades para virar o jogo a favor do presidente, se este tivesse tido mais firmeza e agido rapidamente.

Foi organizada uma brigada pelo general Luiz Tavares de Mello (1ª Divisão de Infantaria de Niterói), para combater a tropa vinda de Minas Gerais, mas sempre faltava uma ordem de Jango para agir. A brigada tomou posição no Vale do Paraibuna com seus canhões. O pessoal só esperava um sinal para atirar, enquanto o grupamento de Mourão, sem munição, continuava parado. O brigadeiro Teixeira (III Zona Aérea) enviou aviões da Base de Santa Cruz para bombardear Mourão.

Os pilotos queriam jogar as bombas, mas não tinham a ordem de Jango, que mandava esperar. Também o almirante Aragão, dos Fuzileiros Navais, esperava uma ordem de Jango. Os marinheiros esperaram uma noite inteira. Faltou o primeiro tiro, pelo menos para adiar por mais uma vez o Golpe dos Generais.

A tropa legalista recuou e Mourão andou das margens do rio Paraibuna até o Maracanã. Os sargentos e oficiais desmobilizados começaram a passar para o lado dos golpistas. Segundo observadores, Mourão não tinha tropa para enfrentar os 86 legalistas contra o golpe.

A história poderia ter sido diferente, se Jango tivesse tido pulso firme para decidir. Não é por menos que muitos até hoje o classificam de covarde, indeciso e incompetente. Dizem que ele estava negociando e não queria derramar sangue.

O general Costa e Silva, por exemplo, já não acreditava na revolta e até temia que seu grupo pudesse ser preso. Os momentos posteriores até a consumação final do golpe, em 1º de abril, foram de muitas incertezas, angústias e agonia. O povo estava atônito e perplexo; os boatos corriam como rastilhos de pólvoras; e a panela entrava em ebulição prestes a explodir a qualquer hora.

Acontece que o II Exército, em São Paulo, continuava parado e isso deu mais tempo para que os golpistas avançassem, tomassem mais forças e se consolidassem de uma vez. O general Kruel, ainda no muro, com sua cruel dúvida, soltava uma nota de que as tropas no Estado estavam na expectativa.

Caso aderisse ao presidente corria o risco de ser preso, e sabia disso. O chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Pery Bevilaqua, conforme descreve Elio Gaspari, foi o único a visitar Goulart em seu gabinete e tentar uma negociação. Foi lá exigir combate às greves e a derrubada do ministério. Os americanos ainda estavam confusos e desorientados com relação ao movimento.

O coronel Walters dizia que a rebelião estava perdendo forças por falta de adesão de São Paulo e outros estados. Com aquilo tudo, Goulart poderia ter repetido Vargas, em 1937, e decretado um Estado Novo, assim analisaram políticos e intelectuais. O deputado do PTB, Max da Costa Santos achava que Mourão seria esmagado em pouco tempo.

Àquela altura, o país estava em polvorosa com muitas notícias e boatos de prisão; de reação e rendição do governo. Tudo marchava para seu fim. O golpe seguia em ritmo mais acelerado. Soldados começavam a tomar as ruas e praças das cidades.

A ânsia era esmagar de vez o governo. Para colocar mais lenha na fogueira, o chefe das Ligas Camponesas, Francisco Julião, anunciava que a vontade do povo iria prevalecer, com ou sem o Congresso. Luis Carlos Prestes ainda teve tempo de convocar uma reunião do Comitê Central do PCB e manteve seus 40 mil militantes em alerta.

As Ligas Camponesas tinham dois mil homens. Leonel Brizola bem que tentou acionar um esquema militar, mas seus Grupos dos Onze não se moveram. A força das armas dos revoltosos era bem maior. As tímidas reações chegaram tarde demais. Mais uma vez, as esquerdas não se uniram como deveriam.

Apesar de tudo, os líderes dos movimentos, dos estudantes e dos sindicatos ainda acreditavam que as massas iriam reagir. Não paravam de soltar comunicados, mas a repressão já batia e arrombava as portas com seus fuzis. Na realidade, os grupos de esquerda e outras organizações não estavam preparados para aquele momento.

Além do mais, muitos ainda receavam quanto a força que Jango iria ter nas mãos. A Igreja Católica, a classe média burguesa e a grande mídia marchavam ao lado dos generais. O Congresso virou uma torre de Babel. Os parlamentares não se entendiam e partiram para a pancadaria.

Analistas entendem que faltou coragem por parte de Goulart, bem como de todo seu staff, para por fim à rebelião. Só assim liquidaria de vez com as tropas de Mourão. Entre as conjecturas, o presidente poderia ter fechado o Congresso, expurgado oficiais e buscado reforços imediatos no seu “dispositivo” e na máquina sindical. Poderia até, se quisesse, ter usado a força aérea para bombardear as tropas de Mourão, como insinuou o ex-prefeito de Vitória da Conquista, Pedral Sampaio.

Perdeu-se muito tempo. Muitos ficaram esperando por uma ordem contra-revolucionária da parte de Goulart para agir. Caiu-se no imobilismo. Na Câmara, o vice-líder Almino Afonso chegou a discursar, declarando que os trabalhadores iriam parar porto por porto, navio por navio, fábrica por fábrica, e que as greves também iriam parar o campo.

“Querem a guerra civil, pois teremos a revolução social. Uma guerra civil não se faz com marechais, almirantes e generais. Faz-se com a tropa, e essa tropa é o povo que compõe todos os quartéis. São os sargentos, os cabos e marinheiros”.

Muitos estudiosos políticos calculam que, se Jango mandasse reagir, quem iria mandar no poder era a esquerda comunista. Mas outros entendem que a maioria das forças legalistas dentro das corporações militares (mais de 80%) era nacionalista e rejeitaria o comunismo.

O que se sabe é que, depois de ter conversado com o general Kruel, o presidente fez o trajeto de Getúlio Vargas (Distrito Federal – Porto Alegre – São Borja). Só depois foi para o Uruguai. Tudo combinado e negociado? É uma pergunta que se faz.

O “DISPOSITIVO” RUIU

Como vimos, em 31 de março, no meio de todo esse turbilhão, João Goulart mantinha-se em silêncio no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Confiou 88 demais no seu “dispositivo” de esquerda, que não tomou nenhuma iniciativa militar. Por volta das 22 horas do dia 31, o general Kruel ligou para Goulart pedindo para que ele rompesse com a esquerda, demitisse Abelardo Jurema do Ministério da Justiça e Darcy Ribeiro da chefia do Gabinete Civil, além de colocar o Comando Geral dos Trabalhadores (a CGT) fora da lei.

Jango não aceitou o emparedamento, porque depois seria totalmente enfraquecido. Afirmou que não iria trair os amigos. Se ele quisesse, que traísse, colocando suas tropas na rua. O general telefonou na presença de outros oficiais. Kruel passou todo dia 31 e parte da noite sem saber que posição tomar, inclusive não apareceu no seu QG na parte da tarde.

À noite retornou ao seu quartel e ficou com medo de ser sequestrado se aderisse ao governo. O 4º Regimento de Infantaria, de Quitaúna, estava com a rebelião. Kruel tinha que sair da toca e se decidir. Pressionado e acossado, inclusive por Castello Branco, ficou sem saída. Finalmente, quando não tinha mais para aonde ir, por volta da meia noite do dia 31 para o 1º de abril, o general Kruel resolveu aderir à rebelião através de um manifesto.

Declarava ser necessário salvar a pátria em perigo, livrando-a do jugo vermelho. Colocava-se fiel à Constituição e à manutenção dos três poderes. Dizia ainda que a intenção do II Exército era liquidar com o comunismo que estava infiltrado no governo.

O “dispositivo” de Jango começava a ruir de vez. A inércia do governo foi fatal para o seu desmoronamento. Foi assim que, no dia 1º de abril, o “Dia da Mentira” e das “pegadinhas” (ironia do destino) tudo mudou e clareou a favor do golpe definitivo dos generais. Ao amanhecer, o general Kruel, talvez com remorso e querendo remediar sua posição, ainda insistia em emparedar Jango, sem destituí-lo do cargo.

O general Justino Alves Bastos, do IV Exército, em Recife, que também sempre ficou no muro, foi se aproximando do levante. Ele e Kruel ficaram quase um dia esperando para ver onde o vento sopraria mais forte, para pegar carona. Justino recebeu o superintendente da Sudene, o economista Celso Furtado, por volta das 10 horas do dia 1º, e confessou que estava ali para prender quem atentasse contra a ordem pública.

Para o dia 1º de abril estava prevista, no Rio de Janeiro, a greve geral de transportes em apoio às medidas de João Goulart. No final da tarde haveria um comício na Cinelândia, reunindo intelectuais, estudantes e lideranças sindicais. Quem apareceu foi a força do exército com tanques, metralhadoras e equipamentos pesados.

Muita gente alí que esperava o início do comício imaginou que os soldados tinham ido a mando de Jango para prestar segurança ao evento e começou a aplaudir. Só que a tropa apontou suas armas contra o povo que trocou os aplausos pelas vaias. Houve tiros e duas pessoas foram fuziladas.

“Fora.” foi o título do editorial do jornal “Correio da Manhã” (RJ), comentando que não restava outra saída para João Goulart a não ser entregar o governo. Os últimos a segurarem as lanternas foram o Forte de Copacabana e a Fortaleza São João, que continuavam rebelados até ao meio-dia do dia 1º, mas não ofereciam mais nenhuma resistência. Eram poucos homens.

Ainda no dia 1º de abril, a sede da UNE foi incendiada pelo CCC – Comando de Caça aos Comunistas. A partir daquele símbolo destruído, começavam as manifestações de ruas e depois as lutas armadas. Os tanques que, pela manhã, guardavam o portão do Palácio das Laranjeiras, onde se encontrava Jango, à tarde foram proteger o Palácio da Guanabara, onde estava o governador Carlos Lacerda. Na mesma tarde, o governo dos Estados Unidos declarava apoio à rebelião dos generais.

O ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro pulou do barco, e Jango resolveu voar para Brasília. Seu “dispositivo” estava dissolvido e diluído. O IV Exército cuidou de cercar e imobilizar o governador de Pernambuco, Miguel Arraes. As tropas do general Kruel marchavam em direção ao Vale do Paraíba.

Em Brasília, por volta das 23 horas do dia 1º de abril de 1964, o presidente abandonou a Granja do Torto e voou para Porto Alegre (Rio Grande do Sul) num avião da FAB. Dizem que toda sua história foi resumida nos dias 31 de março e 1º de abril de 1964.

Na madrugada do dia dois de abril, ainda reuniu-se com o deputado federal Leonel Brizola, e somente aí sua ficha caiu de vez. De Porto Alegre, Jango foi com o general Assis Brasil para a fazenda Rancho Grande, em São Borja.

Não dava para ficar mais em território brasileiro. Num C-47, partiu definitivamente com sua mulher Maria Thereza e seus filhos para o doído exílio no Uruguai. Entre os dias 1º e dois de abril, alguns comandantes ainda tentaram resistir, mas foram logo dominados e presos.

Os tanques, fuzis e metralhadoras tomaram as ruas das cidades. Os suspeitos de serem comunistas, partidários do Governo Goulart, aliados das reformas de base e dos movimentos sociais, abarrotavam as cadeias nos primeiros dias de uma longa noite de trevas.

Muita gente fugia e se escondia das armas como podia. Famílias foram separadas, filhos desgarrados e mães e pais começavam a derramar suas primeiras lágrimas de muitas que viriam depois com as torturas, mortes e desaparecimentos.

Não se imaginava que a ditadura iria perdurar por tanto tempo e que o Brasil iria viver os trágicos anos de chumbo. Analisam os críticos que Jango sempre assumiu uma posição conciliatória e o acusam de ter sido incompetente, covarde, despreparado, indeciso e demagogo. Ao procurar incluir a classe trabalhadora no centro das decisões políticas e desejar realizar as reformas de base, foi tachado de populista, comenta Joviniano Neto, do Grupo Tortura Nunca Mais, da Bahia.

Os grupos de esquerda queriam pressa e criticavam que Jango demorava e abria concessões demais. Com aquele quadro todo de indefinição e espera para o pulo final, o velho general Cordeiro de Farias, depois de tudo consumado, chegou a afirmar que o Exército tinha dormido janguista no dia 31 de março, mas com o propósito já traçado de tirar o presidente do poder. Segundo historiadores, o golpe foi um acidente (foi antecipado), uma conspiração cheia de erros que terminou dando certo.

As comemorações passaram a ser feitas no dia 31 de março, justamente para evitar as chacotas do popular “Dia da Mentira”. No capítulo sobre “A Força Motriz do Processo Revolucionário”, o Centro de Estudos Victor Meyer, da Polop (Política Operária) – “Uma Trajetória de Luta pela Organização Independente da Classe Operária no Brasil”, assinala que na hora do golpe, quando as ditas correntes (Jango, Brizola e PCB) estavam em debandada, “o proletariado foi a única classe urbana que se mantinha como classe contra o golpe”.

Ainda de acordo com os estudos do Centro, o fato que possibilitou a instauração da ditadura, sem uma resistência das massas e dos partidos políticos, foi a ausência de um movimento operário independente, capaz de unir em torno de si o campesinato e as camadas radicalizadas da pequena burguesia. Na verdade, o golpe foi de classe, perpetrado pela burguesia nacional contra a classe trabalhadora, com a cobertura das forças armadas. Portanto, o golpe foi civil-militar.

“FLUXO E REFLUXO” XII

AS CUMPLICIDADES DO GOVERNO COM RELAÇÃO AO TRÁFICO ILEGAL E A COERÇÃO INGLESA

Por volta de 1840 e, precisamente, entre 48 e 49 os ingleses já estavam irritados com os descumprimentos dos acordos e das convenções desde o início do século XIX com o Brasil quanto a questão da abolição em definitivo do tráfico negreiro de africanos.

As intrigas e as cartas trocadas com os ministros e a diplomacia entre os dois países eram constantes, com as contestações do Brasil sobre os aprisionamentos de navios de bandeiras brasileiras e portuguesas. Os comerciantes de escravos jogavam o povo contra os ingleses, com manifestações e cartazes de “morte aos ingleses”.

O Império, que era conivente com os senhores proprietários e a aristocracia, alegava ser injusto as ações da Inglaterra e dizia que em 1845 haviam cessados os tratados. O imperador recorria que os ingleses indenizassem os prejuízos pelas perdas das cargas de escravos, na grande maioria feitas de forma clandestina.

A Grã-Bretanha, com seu maior poderio naval e em armas, resolveu, entre 1848/49, tomar medidas drásticas e colocou seus cruzadores em águas brasileiras com ameaça de invasão do Brasil. Começou a agir até em águas e portos nacionais, prendendo cargas.

Os negros, na sua maioria, eram enviados para as ilhas britânicas (Trindad) como trabalhadores livres, mas o Império queria sua guarda ou que fossem reexportados para seus países de origem, ou Serra Leoa.

Todos esses imbróglios sobre o tráfico proibido estão no livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, de mais de 900 páginas, com detalhes precisos sobre a escravidão na Costa da África, exatamente no Golfo do Benin, as trapaças e corrupções dos traficantes e o retorno dos cativos emancipados e participantes de levantes e rebeliões para sua terra natal, fazendo uma nova travessia do Atlântico e formando colônias na Guiné, Benin e na Nigéria.

A obra conta todo esse ciclo do “Fluxo e Refluxo. A leitura é acadêmica e de grande importância para o conhecimento de como funcionava esse comércio vergonhoso de escravos que durou mais de 300 anos no Brasil. A pressão inglesa foi fundamental para a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, pondo fim ao tráfico de cativos no ano seguinte e finalmente com a abolição da escravidão, em 1888, mesmo com o repúdio dos senhores do café que ajudaram um ano depois a derrubar a monarquia.

Sobre essa questão específica do tráfico proibido nos tratados, mas que eram desrespeitados pelos traficantes, com a conivência das autoridades imperiais, Pierre Verger cita que para a Grã-Bretanha, sob a pena do diplomata Palmerston, as convenções e os tratados tornaram-se “tratados compromissos perpétuos” (Brasil contestava isso juridicamente), e os oficiais da Marinha de Guerra inglesa se comportaram no Brasil como em um país conquistado.

Os cruzadores receberam a instrução de apresar os navios de tráfico, tanto nas águas territoriais brasileiras, quanto fora delas. Em 23 de junho de 1849, o capitão Bailey, do Sharpshooter, tomou um navio negreiro sob os canhões do forte de Macaé. Irritados, alguns membros da Assembleia Legislativa do Brasil quiseram propor um projeto de lei anulando aquele de sete de setembro de 1831 (a chamada lei para inglês ver).

Em cinco de janeiro de 1850, Schomberg, comandante do Crormorant, fazia o apresamento do Santa Cruz em águas territoriais brasileiras. Hudson, o encarregado de negócios britânicos, advertia a Palmerston, em março de 1850: Os atos dos cruzadores de Sua Majestade excitam os espíritos e dão maior poder aos negociantes de escravos.

Relatava ainda que um ataque traiçoeiro e o assassinato a sangue frio de um marinheiro inglês foram perpetrados por um bando de cortadores de garganta, os comerciantes de escravos que são a desgraça deste século. O Hudson pedia à Sua Majestade britânica que mudasse sua maneira de agir e tomasse as próprias medidas para satisfazer o tratado-compromisso da Coroa do Brasil relativo à total e inteira supressão de escravos.

A situação chegou ao um ponto em que o Brasil ficou isolado por causa das importações maciças de escravos (os preços dos cativos subiram no mercado e as mercadorias também). O país perdeu o apoio da França e da Áustria.

Nessa história toda aconteceram fatos interessante como a compra de jornais por parte dos senhores do café para defender o tráfico. Por sua vez, os ingleses soltavam dinheiro para a Correio Mercantil, uma das mais lidas na época e antiescravista. Hudson escrevia que um dos jornais que publicavam artigos contra o tráfico de escravos, o Monarquista, foi comprado por comerciantes de escravos.

Hudson escrevia para Palmerston, em 1850, sobre os atos de corrupções que ocorriam nas alfandegas entre funcionários e traficantes. “Não vejo ainda como o governo brasileiro poderá se queixar do esforço feito pelo governo de Sua Majestade para destruir o tráfico de escravos nas costas do Brasil”.

Nessa época, cresciam os movimentos antiescravistas e os ingleses instigavam o povo a clamar contra a escravidão, inclusive financiando partidos oposicionistas e espionando com seus agentes todas ações ilegais dos comerciantes clandestinos. Os partidos pregavam contra as importações e pediam a extinção gradual da mão de obra escrava.

Esses partidos e os jornais, como o Philantropo, Correio Mercantil e o Grito Nacional expunham todos os casos de cumplicidade do governo com os comerciantes, inclusive publicando os nomes dos proprietários que privam seus escravos da fraca proteção que a lei lhes concede.

As duas câmaras legislativas falavam dessa cumplicidade do governo com os importadores, como sendo a raiz dos grandes males do país, e da origem das medidas coercitivas e desagradáveis impostas pela Grã-Bretanha nas costas brasileiras. A imprensa denunciava os atos criminosos e a versão deturpada que davam os comerciantes quando navios eram capturados.

ALMAS PERDIDAS E AS VIVAS-MORTAS

Lembro ainda menino quando falavam em fantasmas e meu pai dizia que não existia, não tinha medo e que seu maior temor era quanto aos vivos perigosos, assaltantes e traiçoeiros.  Outros comentavam que fantasmas são almas que depois da morte ficaram perdidas vagando por aí por conta de seus passados ou antepassados errantes.

Tem os causos e casos, histórias e estórias de casarões mal-assombrados que inspiraram filmes de terror e, para espantar as assombrações do lugar, entram em ação os caças-fantasmas com aquelas máquinas esquisitas estrambólicas de raios lazer que sugam os espantalhos.

Os exorcistas, padres ou especialistas parapsicólogos também são procurados para benzeções e desvendar as perturbações de batidas, abrição de portas, ventos que derrubam janelas e gemidos estranhos. É o mundo do além das almas perdidas como muitos acreditam e até falam de pé firme que já viram. Isso só acontece com quem é médium ou mais sensível.

Não sei o porquê de estar falando nesse assunto, até de certa forma macabro? Será falta de assunto neste país? Não, temos até de sobra todos os dias, muitos dos quais nos agridem, nos violentam e roubam nossos direitos humanos! Tiram nosso sono. É apenas para descontrair ou assombrar os incrédulos.

Esse negócio de almas perdidas, para mim é tudo mistério e confusão. “Só sei que nada sei”, como já disse o nosso grande filósofo Sócrates da Grécia Antiga. Esse tema dos espíritos já era discutido na Atenas dos sábios Platão, Anaxágoras e Aristóteles.

Se existem mesmo esses fantasmas, são almas de feridas abertas, coisa de carmas que ficaram presas nessa terra. Elas não conseguiram partir ou não tiveram a moeda para pagar ao barqueiro para atravessar o rio para a outra margem. Certamente ficaram por aqui a lamentar suas dores.

Os adeptos do espiritismo explicam que a morte é vida e que as almas depois de um determinado tempo se encarnam em outras em busca da perfeição, para purgar seus erros. A umbanda faz uma viagem ao passado dos ancestrais de vidas que fizeram o bem ou o mal. Pelo olhar, todos cometeram maldades e atrocidades lá atrás.

Seriam essas almas as perdidas que ainda não conseguiram subir ao céu, ficar no mediano purgatório ou descer ao inferno, como sempre pregou a Igreja Católica com suas doutrinas e dogmas de fé? Sinceramente, nesse tempo que nunca para, o que sinto mesmo é o verão e o inverno, a dor, o sentimento, a saudade e essa gente cada vez mais perdida e desumana.

O mais concreto mesmo são as almas, milhões de vivas-mortas dos oito bilhões que se apertam nesse planeta de fronteiras e muralhas de cimento e ferro, inclusive de arame farpado. Falo dessas almas perdidas que andam por linhas tortas, que causam violências, angústias e mortes, sem me imiscuir de citar aquelas invisíveis que nada fazem de bem.

Tem aquelas almas que sempre serão lembradas pelas suas ações, feitos e trabalhos materiais ou espirituais. São pessoas que nunca serão esquecidas porque foram bondosas, generosas, ativistas e até consideradas heróis e heroínas. Tem também as almas perdidas, mornas e insossas que preferem o silêncio ao barulho. Tem as violentas e agressivas, impiedosas e tiranas matadoras de almas.

NO TÚNEL DA FLORESTA

Existem alguns locais em Vitória da Conquista que são poucos conhecidos, comentados e transitados que na entrada dão uma sensação de paz, nem que seja por alguns momentos. Minhas lentes flagraram e assim eu me sinto quando venho do Bairro Recreio ou do “Conquistinha” cortando pelo Horto Florestal para sair na Avenida Luis Eduardo Magalhães. Quando estou por aquelas bandas faço questão de passar por lá e fico encantado com as árvores e as flores quando penetro no túnel dessa floresta. É como se você, por uns instantes, deixasse para trás essa loucura do trânsito da cidade e penetrasse na alma da natureza. É uma passagem que pouca gente usa e outros até desconhecem o local. São árvores frondosas – algumas com um tapete de flores – que lhe cobrem como se fosse um manto protetor. Para mim é um dos locais mais prazerosos de Conquista e dá vontade de ficar ali pensando na vida e jogando os problemas para bem longe. Chamo de túnel florestal, mas pode ser túnel da paz espiritual, da tranquilidade, do sonho e até do amor. Sempre passo devagar por essa pequena selva florestal e peço para que ela não se acabe, mas logo entro na agitação da avenida ou do centro da selva de pedra. Melhor talvez seria passar andando para curtir melhor a sua poesia.

O AGRICULTOR E O PESCADOR

Autoria de Jeremias Macário

Um na labuta do campo,

Outro no rio e no mar,

No rigor do calor e do frio,

Nos cortes das fases lunares,

Pra plantar, colher e pescar.

 

Cada qual com suas marés

De altas e baixas.

Aguaceiro molha a terra,

Agricultor vai semear,

E renova no santo sua fé.

Tempestade agita o mar,

Pescador não vai pescar;

Roga a Iansã e Iemanjá,

Para o vento se acalmar.

 

O agricultor mira as nuvens,

O céu, a cigarra e o ar;

Sente quando a chuva vai chegar.

Pescador também pressente,

No escudo do horizonte quente,

Quando o tempo vai fechar.

 

Joga a rede pescador!

Como ensinou a Pedro, seu Senhor!

Ás vezes vem cheia de peixes,

Outras só sai lixo de lá,

Do homem que só faz sujar.

A seca mata de fome o animal,

Plantação mirrada a murchar,

Com esse aquecimento global.

 

Um com sua enxada a olhar o sol,

O outro com seu barco a navegar,

Os dois pedem a Deus uma graça,

Pra na praça da feira sua safra levar

O surubim, o vermelho e a sardinha,

O milho, feijão, arroz e a farinha.

APOSTAS, UM MERCADO EM ASCENSÃO

Carlos González – jornalista

O Ministério da Fazenda estuda uma maneira de taxar o mercado de “bettings” (apostas), uma nova loteria que veio concorrer com os jogos controlados pela Caixa Econômica Federal (CEF). Legalizados em 2018 pelo então presidente Michel Temer (PSDB-SP), os “bets” praticamente se instalaram no Brasil há cerca de 18 meses.

Nos últimos meses uma epidemia se alastrou pelo país. Dezenas de empresas com sedes no exterior, utilizando nomes famosos no cenário futebolístico internacional, como Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Marcelo, Neymar e Vinicius Jr, mexeram com o mercado publicitário. A divulgação das principais casas de apostas é feita basicamente pela televisão, atingindo mais de 15 modalidades esportivas.  

 

As apostas, proibidas para menores de 18 anos, são feitas pela internet ou pelos aplicativos, no celular ou tablet. Esse mercado rendeu no ano passado, segundo o portal BNL Data, R$ 7 bilhões, livres de impostos, e a estimativa para este ano é de R$ 12 bilhões. A lei que está em vigor não prevê a contribuição aos cofres públicos.

A Fazenda admite que a regulamentação das apostas virá no próximo mês através de medida provisória, mas não ficou definida como será implementada a taxação e quais serão as alíquotas. Os apostadores também terão os seus ganhos taxados, como já acontece com os prêmios pagos pelas loterias da Caixa.

Ao contrário do esperado, o setor de apostas torce pela regularização do serviço, o que trará maior segurança jurídica para as partes envolvidas, a empresa e o apostador, além de gerar empregos. O Tesouro Nacional, segundo os cálculos, deverá arrecadar anualmente cerca de R$ 700 milhões.

Repentinamente, os nomes dessas empresas passaram a preencher os espaços mais visíveis nas camisas dos jogadores, tanto os da elite do futebol nacional – o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, chegou a dizer que “esse patrocínio é a salvação da lavoura” –, quanto os das divisões inferiores.

Os espaços reservados à publicidade nos estádios e arenas são utilizados por um tipo de campanha que pode ser chamada de audaciosa, e que se alastra pelo interior do pais. No domingo (26), placas colocadas nas laterais do gramado do “Valfredão”, em Riachão do Jacuípe, na partida de ida da final do Campeonato Baiano, induziam o público a fazer uma “fezinha”.

A maioria dos 40 clubes das séries “A” e “B” do Brasileirão já está usufruindo das cotas pagas pelo setor de apostas. Uma das exceções é o Vitória, de Salvador, que optou por um outro tipo de jogo, o jogo do amor, da sensualidade. O rubro-negro baiano firmou um contrato de patrocínio com um site que promove encontros fugazes e relacionamentos que podem se tornar permanentes.

Denúncias e suspeitas de corrupção vêm ocupando a programação esportiva e policial da imprensa. Há poucos dias, o “Correio do Povo”, de Goiânia, relatou que o Ministério Público do Estado deflagrou a operação Penalidade Máxima, com a finalidade de interromper as ações criminosas de um grupo de apostadores.

O pedido de investigação foi feito pelo Vila Nova, que se sentiu prejudicado na disputa da série “B” do Brasileirão de 2022. Investindo elevados valores em apostas, os criminosos escolhem como alvos jogadores com salários atrasados, que chegam a receber R$150 mil de “gratificação”, se “colaborarem” com a equipe adversária.

“Você só tem que jogar algumas bolas para escanteio. Dependendo do número de bolas você pode ganhar até R$ 8 mil”. Esta proposta foi feita a um zagueiro, cujo nome foi mantido em segredo, do sub 20 do Zumbi, de União dos Palmares (AL). O clube alagoano estava disputando a Copa São Paulo de Futebol Júnior. O caso foi levado pelo atleta à presidência do clube e registrado na Polícia.

A morte trágica do zagueiro da seleção colombiana Andrés Escobar, 27, em julho de 1994, repercutiu no mundo do futebol. O jogador recebeu 12 tiros do narcotraficante Humberto Muñoz Castro. As autoridades policiais concluíram que a motivação do crime foi a desclassificação da Colômbia para os Estados Unidos, graças a um gol contra de Escobar, resultado que deu um vultoso prejuízo aos apostadores do cartel de Medellin. Condenado a 45 anos de prisão, Muñoz cumpriu apenas 11 anos.

 

 

 

 

 

O IPTU DA ESCORCHA EM CONQUISTA E UMA DEMOCRACIA DA ESMOLA

Parece mentira, mas não é. Eu vi e testemunhei com meus próprios olhos porque fui uma das vítimas. Como não recebo mais meu boleto (há dois anos) em minha residência, fui hoje à Secretaria de Finanças pegar meu IPTU e fiquei estarrecido com tanta gente para pouco atendimento.

Para começar, esperei quase três horas, isso mesmo, para o painel sinalizar o aquele “plim” da minha senha IPO75. Ficou em minha memória de tanto olhar para a tela. Só havia dois caixas preferenciais, segundo a portaria, para entrega dos carnês. Vi idosos agoniados e atordoados, capengando de um lado para o outro, sem saber o que fazer.

Do barulho infernal de tanta gente, veio-me à cabeça aquelas cenas dantescas de Dante Alighieri, ou o livro “Inferno”, de Dan Brown. Em nosso Brasil existem as camadas terríveis de sofrimentos até o indivíduo atingir as profundezas mais quentes e dolorosas das torturas.

O mais incrível é que nosso povo passa por todas elas (camadas) sem reclamar, sem se indignar, sem protestar, diferente dos franceses, dos israelenses, dos ingleses e até dos nossos vizinhos hermanos da Argentina, Colômbia e do Chile que saem às ruas em multidões e chegam a derrubar ministros e governos. Pensei comigo que a nossa democracia é indolente e feita de esmolas.

Como se não bastasse tudo isso de estresse e falta de respeito, de quase três horas de espera, levei ainda um susto com o aumento escorchante do imposto, de mais de 100 reais em relação ao do ano passado, um índice bem acima da inflação, de pouco mais de 10%.

Verdadeiramente, não somos considerados cidadãos e sim, peças de manipulação dessa política do roubo e da corrupção do voto eleitoreiro alienado. Como não me revoltar, se as autoridades (Câmara, OAB, Ministério Público, Defensoria, magistrados e outras entidades) não nos representam? Muito pelo contrário!

O trabalhador incansável, que derrama seu suor e sangue durante toda sua vida, com seriedade e honestidade, não tem valor neste país da democracia das esmolas, da impunidade e do assistencialismo do cala boca que transforma a pessoa em apenas num número invisível.

Alguém pode estar aí achando estranho quando falo em democracia das esmolas e até dizendo que estou agindo com incoerência em relação aos meus princípios socialistas. Respondo que ser socialista não é concordar com este Estado Assistencialista que procura sempre deixar nossa gente na ignorância e no comodismo.

Existem aqui em Vitória da Conquista e em quase todas cidades brasileiras os chamados andarilhos de rua que recebem abrigos em todas cidades por onde chegam, com dormida e uma boa comida, muitos dos quais rejeitam qualquer oferta de trabalho e emprego de empresas que abrem colocações.

Quase todos ainda recebem o Bolsa Família e gastam em farras. Muitos deles deixaram suas famílias para viver assim. Não pagam luz, água, IPTU ou outro imposto e são bem acolhidos e tratados. Não podem ser aborrecidos e, qualquer coisa, falam palavrões e desaforos para funcionários que os recebem.

Não estou condenando o amparo aos mais necessitados, principalmente os que vivem na miséria e pobreza nos casebres e favelas passando fome, mas desses aproveitadores e oportunistas que recusam trabalhar e preferem viver assim porque têm prioridade total, inclusive no atendimento numa UPA, num posto de saúde ou hospital.

O assistencialismo eleitoreiro só faz alimentar o ócio e vicia o cidadão, como dizia Luiz Gonzaga, nosso rei do baião. Enquanto isso, os outros pobres que dão um duro danado para pagar as coisas e tentar viver com certa dignidade, são humilhados nas repartições públicas, como na Secretaria de Finanças de Conquista. É por essas e outros que digo que no Brasil existe uma democracia das esmolas.

 

 

TODOS PREFEREM SER CHAMADOS DE “JORNALISTA” E NÃO DE REPÓRTER

Está no dicionário que jornalista é a pessoa que escreve em jornal e jornalismo se entende por imprensa periódica, profissão de jornalismo referente a jornal. Jornalista era somente aquele que escrevia em jornal.

Quando surgiram, o rádio, a televisão e, nos últimos anos, a internet, manteve-se por algum tempo a distinção entre jornalista, radialista, o profissional de TV e aquele que atua no mundo virtual dos sites e blogs.

Hoje, justamente quando os jornais entraram em decadência em decorrência do avanço dos meios eletrônicos, todos que lidam nos veículos de comunicação são chamados de jornalistas, mesmo sem trabalhar em jornais. Basta uma pessoa colocar um blog e logo vira jornalista.

Repórter, de reportare do latim (trazer uma resposta, levar ou trazer; refletir a luz) é aquele que procura notícias para a imprensa periódica. Informador ou noticiarista dos periódicos do rádio e da televisão. O fotógrafo está incluído como repórter que colhe material fotográfico.

Não houve aí uma deturpação do termo jornalista? Não seria melhor que todos fossem denominados de repórteres. Ninguém diz eu sou blogueiro, radialista ou repórter, mas jornalista porque é mais bonito e charmoso.

Em Vitória da Conquista, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb e em Guanambi, por exemplo, existem os cursos de jornalismo, com disciplinas mais voltadas para esta área. Não deveria ser de comunicação que abrange todos meios noticiosos?

Aos poucos os jornais estão sumindo porque nos tempos atuais só um número restrito ler, embora sempre vá existir um periódico por aí, como o livro de papel. Mesmo assim, todos fazem questão de dizer que são jornalistas no lugar de repórter ou radialista.

Por falar em repórter, não existe mais como antigamente, com raras exceções, que sabia como conduzir uma entrevista, cutucar, investigar e extrair do entrevistado as respostas do interesse do público. Perdeu-se a objetividade, a técnica do entrevistar, do ser sucinto e direto nas perguntas, sem rodeios.

Hoje, talvez por querer se exibir, por mera vaidade de “jornalista” que acha que “sabe tudo”, o repórter-entrevistador passa o tempo falando mais que o entrevistado e acaba adiantado o assunto, deixando o convidado numa posição até desconfortável.

Muitas vezes, as perguntas se tornam respostas e afirmativas do próprio entrevistado. Para não ser deselegante ele afirma que é isso mesmo, ao invés de dar uma de seu Lunga e dizer: Nada mais a declarar, se você já adiantou o tema e a informação.

As escolas não ensinam mais técnica de entrevista? Quando o assunto, por exemplo, é complicado que incrimina o personagem da entrevista, as perguntas mais difíceis devem ficar por último depois descontrair e passar confiança à pessoa em questão.

O repórter não está ali para concordar ou julgar. Quem deve fazer isso é o público. Faça a pergunta que alguém de fora gostaria de fazer. Seja atrevido e ousado, sem ser arrogante. Seja mais repórter que jornalista.

 

QUEM TEM A FELICIDADE?

Estava aqui pensando numa maluquice, dessas de deixar qualquer um pirado. Já imaginou, pelo menos por um ano, todos os brasileiros se tornarem, em corpo e alma, norte-americanos ianques (me deixa fora dessa) e forem viver nos Estados Unidos, com tudo quanto tem direito! Por sua vez, eles viriam para o Brasil, para sentirem a barra pesada e descobrirem o que é mesmo felicidade!

Poderia proceder o mesmo colocando os países africanos mais pobres dentro dos nórdicos, e vice-versa.  Riquinhos passando fome! Os latinos seriam asiáticos, e os asiático latinos. A Europa seria o Oriente (Iraque, Turquia, Egito e outros do mundo islâmico), ou poderia o Brasil ser Europa e levar os EUA para a terra dos “infiéis” terroristas islâmicos. Cada um se colocando no lugar e na pele do outro.

Seria a maior experiência laboratorial nunca realizada na história da humanidade. Quem sabe assim, depois de um ano, o mundo não seria melhor e mais feliz? Coisa de doido, mas que deve ser analisada com muita seriedade. Impossível, mas vale a pena tentar! Poderia ser uma solução e uma aprendizagem e tanta de vida!

Não sou muito de acreditar em estatísticas e tem aquelas óbvias ululantes, como as que dizem que o Brasil é um dos países mais desigual do mundo e que nossa educação é uma das piores. Tem também certas pesquisas, sem muita utilidade prática, que são feitas por cientistas desocupados. Não que seja negativista do tipo da terra plana!

Nos tempos atuais, valorizam mais os animais silvestres e domésticos que os seres humanos, que também são animais, os quais são chamados de racionais. Nem tanto assim, meu amigo camarada! São tantas as barbaridades, violências, ganâncias, incoerências e paradoxos! Como são racionais? É questionável!

O que tudo isso tem a ver com a felicidade? Que cara chato sou eu que não entra logo no âmago do assunto proposto! É que vi uma pesquisa, não olhei bem quem fez e qual o órgão, dizendo que os países gelados são os que têm mais felicidade. Pensei logo, por que não despejar toneladas de gelos em nossas cabeças? O Brasil se tornaria numa grande geleira, como no Alasca, no Polo Norte!

Pela apuração dos desocupados, a Finlândia é o país mais feliz do mundo pela sexta vez. Os outros são os gelados nórdicos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Islândia e, nesse caso, por que não a Rússia, especialmente a região siberiana onde para lá são levados os opositores do governo, desde os tempos de Stalin. Os presos políticos chegam lá e ficam logo felizes.

O que mais transmite felicidade? É o gelo, o grau de instrução, a soberania, a segurança, a proteção e a qualidade de vida?  Ah sim, ia me esquecendo que no ranking da pesquisa o Brasil ocupa a quadragésima nona posição no item felicidade. Aleluia! Aleluia!

Para dizer a verdade, sob a análise do nosso caldeirão de problemas, desde o racismo, a xenofobia, a homofobia, a pobreza e a miséria, o ódio e a intolerância, até que estamos numa boa colocação. Merecemos até umas medalhinhas, mesmo que sejam de latão. É por isso que não sou muito ligado nessas estatísticas.

Outra pesquisa feita por uma professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro aponta que o dinheiro, sim o dindim, todas daquelas notas de 100 numa carreta (as de 200 são fake news), fabrica felicidade. Nesse sistema capitalista burguês consumista sou obrigado a concordar, com algumas controvérsias, como dizia o aluno da “Escolinha do Professor Raimundo”. “Há controvérsias mestre”!

É, sem dinheiro a pessoa fica macambúzia e banza, como africano escravo aprisionado num porão de navio negreiro e levado para longe da sua terra natal, para receber chibatadas do seu dono, essas de cortarem o lombo. Dizem que comprar presentes em shopping aflora a felicidade, mesmo que seja por um certo período.

Viver em mansões, ter carrões de luxo e viajar, mesmo que sejam frutos da corrupção, também oferecem felicidade. Que se dane a consciência e a ética! Ela também tem seu preço e se rende quando se possui sacos e sacos de grana. A pesquisadora esqueceu de citar que o poder também traz felicidade. Aliás, poder e dinheiro andam de mãos dadas. São donos da felicidade.

Entretanto, como o homem não é tão racional assim, o money dos imbecis traz desgraças e até mortes em famílias (as malditas heranças) e incita o indivíduo a passar a rasteira no outro, sem dó e compaixão. A corrida do ouro, tão comentada pela história, deve ter ligação direta com a corrida pela felicidade, não importando o preço a pagar. Que viva a felicidade, mesmo que seja uma mera ilusão pas

“FLUXO E REFLUXO” XI

AS REBELIÕES, OS MOTINS E O

RETORNO DOS NEGROS Á ÁFRICA

A partir do início do século XIX, por volta de 1807, ocorreram na Bahia várias rebeliões dos negros nagôs, haussás e da etnia tapas, culminando com a grande revolta dos malês, em 1835, que deixaram os brancos assustados com um possível massacre como aconteceu no Haiti no final do século XVIII.

Esses fatos narrados em “Fluxo e Refluxo”, obra do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, deram sequência a um retorno dos africanos para suas terras de origem. Muitos ainda eram escravos recém-chegados como levas do tráfico ilegal e foram deportados como punição por participarem dos levantes.

A partir de 1835, o cerco da polícia começou a se fechar contra os negros nascidos no Brasil, mesmo os emancipados, com punições severas e todos passaram a ser vistos como ameaças à segurança da província. Não podiam sair à noite e, por qualquer motivo, eram presos e submetidos a chibatadas em praça pública.

Diante da situação, houve um movimento de retorno dos africanos livres para suas nações de origens, com o consentimento do próprio governo da província e apoio dos brancos que temiam por mais rebeliões. Com os acontecimentos, as outras províncias recusavam comprar os negros escravos que fossem da Bahia. Com isso, os preços despencaram e os donos tiveram grandes prejuízos.

Conta Pierre Verger que a primeira rebelião na Bahia estava prevista para 28 de maio de 1807. Os escravos haussás haviam preparado arcos e flechas, facões, pistolas e até fuzis. Tanto os negros da cidade quanto os dos engenhos deviam se juntar fora de Salvador na noite do dia 28. A proposta era fazer guerra aos brancos, matar seus senhores e envenenar as fontes públicas.

Eles tinham também em mente retornar à África apoderando-se de navios ancorados no porto. No entanto, dias antes o governador foi prevenido por uma habitante, colocado a par da conspiração por um de seus escravos. O movimento foi abafado e seu líder de nome Antônio, haussás, e seu amigo Balthazar foram condenados à morte.

Ocorreram outras tentativas de rebeliões entre os anos de 1809 e 1810. Em fevereiro de 1814, todos escravos das peixarias Manuel Ignácio da Cunha, João Vaz de Carvalho e de agricultores vizinhos, entre mais de seiscentos, atacaram as instalações dos senhores aos quais pertenciam, ateando-lhes fogo. Ao todo, treze brancos foram mostos e oito gravemente feridos. Os negros resistiram às tropas de infantaria e 56 negros perderam a vida, a maioria de haussás.

Apesar das medidas de repressão, as revoltas continuaram, como em 1816, 1826/27/28, com invasões em engenhos, peixarias e instalações de empresas. Em 1830, mais de uma dezena de negros invadiram uma loja de Francisco José Tupinambá, na rua Fonte dos Padres, na Cidade Baixa.

A polícia e a tropa fizeram quarenta prisioneiros e mataram cinquenta negros. Muitos outros fugiram na mata e foram perseguidos pelos policiais. A revolta de 1835 teve maior repercussão em toda colônia.

As autoridades da província da Bahia e os senhores patrões suspeitavam que os ingleses, que formavam a maior colônia de estrangeiros em Salvador, moradores do corredor da Vitória e vizinhanças, estivessem envolvidos nessas conspirações por causa das proibições ao tráfico que não eram cumpridas.

 





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