:: 30/mar/2023 . 22:45
ALMAS PERDIDAS E AS VIVAS-MORTAS
Lembro ainda menino quando falavam em fantasmas e meu pai dizia que não existia, não tinha medo e que seu maior temor era quanto aos vivos perigosos, assaltantes e traiçoeiros. Outros comentavam que fantasmas são almas que depois da morte ficaram perdidas vagando por aí por conta de seus passados ou antepassados errantes.
Tem os causos e casos, histórias e estórias de casarões mal-assombrados que inspiraram filmes de terror e, para espantar as assombrações do lugar, entram em ação os caças-fantasmas com aquelas máquinas esquisitas estrambólicas de raios lazer que sugam os espantalhos.
Os exorcistas, padres ou especialistas parapsicólogos também são procurados para benzeções e desvendar as perturbações de batidas, abrição de portas, ventos que derrubam janelas e gemidos estranhos. É o mundo do além das almas perdidas como muitos acreditam e até falam de pé firme que já viram. Isso só acontece com quem é médium ou mais sensível.
Não sei o porquê de estar falando nesse assunto, até de certa forma macabro? Será falta de assunto neste país? Não, temos até de sobra todos os dias, muitos dos quais nos agridem, nos violentam e roubam nossos direitos humanos! Tiram nosso sono. É apenas para descontrair ou assombrar os incrédulos.
Esse negócio de almas perdidas, para mim é tudo mistério e confusão. “Só sei que nada sei”, como já disse o nosso grande filósofo Sócrates da Grécia Antiga. Esse tema dos espíritos já era discutido na Atenas dos sábios Platão, Anaxágoras e Aristóteles.
Se existem mesmo esses fantasmas, são almas de feridas abertas, coisa de carmas que ficaram presas nessa terra. Elas não conseguiram partir ou não tiveram a moeda para pagar ao barqueiro para atravessar o rio para a outra margem. Certamente ficaram por aqui a lamentar suas dores.
Os adeptos do espiritismo explicam que a morte é vida e que as almas depois de um determinado tempo se encarnam em outras em busca da perfeição, para purgar seus erros. A umbanda faz uma viagem ao passado dos ancestrais de vidas que fizeram o bem ou o mal. Pelo olhar, todos cometeram maldades e atrocidades lá atrás.
Seriam essas almas as perdidas que ainda não conseguiram subir ao céu, ficar no mediano purgatório ou descer ao inferno, como sempre pregou a Igreja Católica com suas doutrinas e dogmas de fé? Sinceramente, nesse tempo que nunca para, o que sinto mesmo é o verão e o inverno, a dor, o sentimento, a saudade e essa gente cada vez mais perdida e desumana.
O mais concreto mesmo são as almas, milhões de vivas-mortas dos oito bilhões que se apertam nesse planeta de fronteiras e muralhas de cimento e ferro, inclusive de arame farpado. Falo dessas almas perdidas que andam por linhas tortas, que causam violências, angústias e mortes, sem me imiscuir de citar aquelas invisíveis que nada fazem de bem.
Tem aquelas almas que sempre serão lembradas pelas suas ações, feitos e trabalhos materiais ou espirituais. São pessoas que nunca serão esquecidas porque foram bondosas, generosas, ativistas e até consideradas heróis e heroínas. Tem também as almas perdidas, mornas e insossas que preferem o silêncio ao barulho. Tem as violentas e agressivas, impiedosas e tiranas matadoras de almas.
NO TÚNEL DA FLORESTA
Existem alguns locais em Vitória da Conquista que são poucos conhecidos, comentados e transitados que na entrada dão uma sensação de paz, nem que seja por alguns momentos. Minhas lentes flagraram e assim eu me sinto quando venho do Bairro Recreio ou do “Conquistinha” cortando pelo Horto Florestal para sair na Avenida Luis Eduardo Magalhães. Quando estou por aquelas bandas faço questão de passar por lá e fico encantado com as árvores e as flores quando penetro no túnel dessa floresta. É como se você, por uns instantes, deixasse para trás essa loucura do trânsito da cidade e penetrasse na alma da natureza. É uma passagem que pouca gente usa e outros até desconhecem o local. São árvores frondosas – algumas com um tapete de flores – que lhe cobrem como se fosse um manto protetor. Para mim é um dos locais mais prazerosos de Conquista e dá vontade de ficar ali pensando na vida e jogando os problemas para bem longe. Chamo de túnel florestal, mas pode ser túnel da paz espiritual, da tranquilidade, do sonho e até do amor. Sempre passo devagar por essa pequena selva florestal e peço para que ela não se acabe, mas logo entro na agitação da avenida ou do centro da selva de pedra. Melhor talvez seria passar andando para curtir melhor a sua poesia.
O AGRICULTOR E O PESCADOR
Autoria de Jeremias Macário
Um na labuta do campo,
Outro no rio e no mar,
No rigor do calor e do frio,
Nos cortes das fases lunares,
Pra plantar, colher e pescar.
Cada qual com suas marés
De altas e baixas.
Aguaceiro molha a terra,
Agricultor vai semear,
E renova no santo sua fé.
Tempestade agita o mar,
Pescador não vai pescar;
Roga a Iansã e Iemanjá,
Para o vento se acalmar.
O agricultor mira as nuvens,
O céu, a cigarra e o ar;
Sente quando a chuva vai chegar.
Pescador também pressente,
No escudo do horizonte quente,
Quando o tempo vai fechar.
Joga a rede pescador!
Como ensinou a Pedro, seu Senhor!
Ás vezes vem cheia de peixes,
Outras só sai lixo de lá,
Do homem que só faz sujar.
A seca mata de fome o animal,
Plantação mirrada a murchar,
Com esse aquecimento global.
Um com sua enxada a olhar o sol,
O outro com seu barco a navegar,
Os dois pedem a Deus uma graça,
Pra na praça da feira sua safra levar
O surubim, o vermelho e a sardinha,
O milho, feijão, arroz e a farinha.
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