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:: 23/mar/2023 . 23:43

“TULIPAS RARAS”

Em conversas informais sobre como anda a cultura em nosso pobre rico país, com destaque para a literatura, ouvi de um dos presentes na Livraria Nobel, antes da apresentação da obra “Tulipas Raras”, da escritora e diretora da Casa da Cultura, Poliana Policarpo, que lançar livro no Brasil é somente para os “loucos”. Que seja no sentido figurado ou uma metáfora irônica, me considero um deles, mas um “louco” que faz parte dessa resistência e que deixa, pelo menos, seu traço e sua marca nessa vida tão passageira onde poucos dão sentido a ela. Quem nada faz para contribuir, seja no que for, simplesmente passa sem ser visto e nega sua própria existência. Dizem por aí que para você ser realizado é preciso ter um filho, plantar uma árvore e lançar um livro, mas é muito mais que isso. Tem que ter perseverança, persistência, consciência e, acima de tudo, cultivar aquilo que fez e faz.

Aqui não estou falando apenas de ter a coragem de escrever e lançar um livro, como fez Poliana na noite de ontem, dia 23 de março. “Tulipa Raras”, como diz a própria autora são histórias extraordinárias sobre coragem, força, fé, esperança e transformação. “A Capacidade feminina de converter a dor em superações”. Enfrentar essa rejeição pela cultura; viajar por esse mundo da literatura, que já foi tão enaltecida e nobre; imaginar, sonhar, contar suas vidas para uma só pessoa ou poucos, é coisa somente para “loucos”, Poliana, loucos por essa arte que nos faz crescer e nos amadurecer espiritualmente como ser humano. É um comentário que mostra como ainda estamos longe da civilização, embora digamos que somos civilizados porque sabemos manusear bem um celular, muitas vezes para odiar, xingar e soltar notícias falsas. Achamos que dominamos a tecnologia. Às vezes, somos espertos em ganhar dinheiro, mas incapazes de ler, apreciar e prestigiar uma obra literária.

   

NA DOR DA SOLIDÃO

Autoria de Jeremias Macário

Arranco na primeira;

Jogo na segunda;

Entro na terceira;

Acelero o pé

Entre a quarta e a quinta,

Na dor da solidão,

Borrado de tinta.

 

O ponteiro marca agora

Cento e cinquenta por hora,

Ouço uma balada canção,

Que me leva ao passado,

De parar o tempo,

Na dor da solidão.

 

Abro as janelas;

Desligo o ar,

Para sentir o vento assobiar,

E reduzo nas curvas,

Sem pisar no freio,

Para não capotar.

 

Avanço nas retas,

Dos cento e setenta,

Na linha do horizonte,

Que nunca some,

E desligo o presente

Que a mente consome.

 

Nada de avivar o futuro,

Trava de escuro muro,

Como aquelas nuvens

Da tempestade que vem,

Com chuva varrendo o além.

 

Volto à marcha lenta,

E no peito me atormenta,

Essa dor da solidão,

Da saudade do amor

Que um dia me deixou,

 

Falo só com o universo

No meu íntimo do verso,

Da vida finita,

De massa bruta,

De confusão e luta.

 

Ninguém me escuta,

Nem a dita filosofia,

Que não me cura

Dessa dor tão dura:

Coisa do sentimento,

Que não se fecha,

Nem com cimento.

 

É uma dor varada,

De lança sangrada,

Como fio da espada,

Essa dor da solidão,

Que não tem oração.

 





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