:: mar/2023
NOITE DE MUITA ALEGRIA E DANÇA NO SARAU SOBRE A VIDA DO POVO CIGANO
Danças, declamações de poemas, causos, cantorias, muita alegria e fantasias no Sarau colaborativo, realizado no último sábado (dia 11/03/23), no Espaço Cultural a Estrada, que teve como tema “Uma Nação em Correrias” sobre a história e vida dos ciganos no mundo e no Brasil.
Os trabalhos foram abertos por Jeremias Macário com a recepção calorosa da sua esposa Vandilza Gonçalves. Antes de começar a palestra, Macário agradeceu a presença de todos amigos e amigas frequentadores do evento e de outros visitantes que pela primeira vez vieram prestigiar nossa festa cultural.
Jeremias, que está completando 50 anos de jornalismo profissional, destacou a importância do sarau nesses mais de dez anos de vida (dois anos parado por causa da pandemia), acrescentando que ele já tem sua história, personalidade e identidade própria.
Ao longo desses mais de dez anos foram debatidos muitos assuntos, como sobre escritores e poetas, os movimentos revolucionários de 1968, escravidão, história do cinema e da música, Nordeste e seu povo, educação, Castro Alves, Glauber Rocha, Graciliano Ramos, Tropicália e tantos outros temas, elevando os nossos conhecimentos.
Poderíamos dizer que foi uma noite iluminado pelo espírito cigano quando o palestrante Fagner Cruz começou a discorrer sobre história, origens e a vida dos ciganos, um povo em correrias empurrados de um lugar para outro para sobreviver. Orientado pelo professor Itamar Aguiar, ele fez uma dissertação de metrado com relação ao tema.
Fagner disse que não se sabe muito bem sobre as origens precisas de qual país os ciganos vieram. Segundo ele, historiadores apontam como vindos do Egito, da Grécia e de países da Ásia, mas existem fortes evidências de que partiram da Índia para a Pérsia e de lá se espalharam pelo mundo.
Para elaborar sua dissertação, Fagner entrevistou e até conviveu com algumas comunidades da região sudoeste onde constatou que nunca existiram políticas públicas dos governantes de assistência social, especialmente nas áreas da saúde e da educação, voltadas para o povo cigano, sempre vistos de forma estereotipada como bandidos, embusteiros, vadios, sujos, trapaceiros e vagabundos.
Ele criticou esse abandono e, na ocasião, lembrou das últimas perseguições policiais contra os ciganos em Vitória da Conquista quando muitos foram mortos e outras famílias escorraçadas do município de forma truculenta.
Por fim, o palestrante citou as etnias Calon e Rom, como as principais que vieram da Europa para o Brasil. A primeira, muito perseguida no reinado de D. João V (início do século XVIII), partiram da Península Ibérica como degredados e aqui chegaram ainda por volta do século XVI e XVII quando se instalaram no Campo de Santana, no Rio de Janeiro. Eram caldeireiros, funileiros, latoeiros e exerciam outros ofícios, inclusive artísticos e circenses.
Os rons de língua Romani vieram mais, na sua quase totalidade, da Europa Central misturados como imigrante no início do século XIX e tinham mais um tino artístico chegando a se apresentar na Corte Real. Como não tinham muitas opções de trabalho, muitos ciganos entraram no ramo do comércio de escravos de segunda mão. Foram também oficiais de justiça e depois negociantes de cavalos e bestas animais.
Houve uma participação ativa nos debates por parte dos presentes que não tinham muito conhecimento sobre os ciganos e queriam saber das curiosidades e da história desse povo que até hoje não tem uma nação só deles.
Depois do bate papo, todos caíram alegremente na dança ao som de músicas ciganas, a grande maioria de mulheres fantasiadas com suas saias coloridas. Foi um espetáculo à parte que coincidiu com a semana das mulheres.
O sarau prosseguiu com as cantorias de músicas populares brasileiras na voz e violão dos cantores e compositores Dorinho Chaves, Manu di Souza, Baducha e outros. Nos intervalos, mais declamações de poemas e causos com Dorinho e Jhesus que chegou mais tarde para abrilhantar nosso evento.
Foi mais uma noite cultural inesquecível no “Espaço A Estrada” onde se fizeram presentes Sheyla Alves, Jurandi de Oliveira, que também fez algumas apresentações musicais, Rose Emília, Armando Santos, Igor Brito, Viviane Gama, Karine, Rosângela, Sel, Baducha, Dorinho, Conça, Cleide, Manu, Maria Luiza, Leda Novais, Núbia e Núlia Coelho, professor Itamar Aguiar, Luiz Altério, Marta Moreno e Jhesus, além do palestrante Fagner.
A anfitriã da casa, Vandilza Gonçalves a todos recepcionou com dedicação e muito prestativa com os frequentadores que só deixaram o espaço lá pela madrugada ao raiar do dia, num ambiente cordial e de muita amizade.
Foi uma noite fraternal de muita troca de ideias, saber e conhecimentos, acompanhados de um bom vinho, cerveja e outras bebidas, sem falar nos tira-gostos e comidas saborosas. Como o sarau é colaborativo, todos entraram com suas contribuições. Durante as discussões foi criada uma comissão que irá dirigir e comandar os próximos saraus.
“FLUXO E REFLUXO” X
O TRÁFICO ILEGAL E OS ACORDOS
VIOLADOS PELA BAHIA E O BRASIL
Desde 1807/08 que a Inglaterra havia decretado a abolição da escravidão negreira africana e passou a fazer várias acordo e tratados com Portugal e o Brasil para pôr fim ao comércio de cativos, mas todos eles eram violados, culminando com a pressão inglesa de até uma ameaça de invasão territorial, em 1850 (Lei Eusébio de Queirós), quando os negociantes foram obrigados a parar com a atividade. Mesmo assim, alguns continuaram agindo ilegalmente.
No livro “Refluxo e Refluxo”, o autor Pierre Verger conta que em 1809 a Inglaterra concedeu um empréstimo de 600 mil libras esterlinas para o governo português, seguido de uma convenção entre as duas partes para pôr fim ao tráfico negreiro.
Uma aliança era assinada no Rio de Janeiro e o príncipe regente D. João VI, convencido das injustiças e da má política do comércio de escravos e de suas grandes desvantagens, resolveu cooperar com a majestade britânica na causa da humanidade e da justiça.
Na ocasião, se comprometeu que seus vassalos não seriam mais autorizados a traficar escravos em nenhuma parte da África que não fossem nas possessões da Coroa da Alteza Real nos territórios de Cabinda e Molembo.
Os negociantes da Bahia se manifestaram contrários e sempre davam seus jeitos para burlar as leis. Por volta de 1811/12, a Marinha da Inglaterra aprisionou dezessete navios e quase todos faziam o tráfico na costa da África.
De imediato houve uma grande reação. O conde de Linhares, ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra de Portugal contestava, dizendo que a Inglaterra queria impor a extinção do comércio, o único a poder fornecer os braços indispensáveis às minas e às culturas do Brasil.
Para o ministro, esse fim do tráfico teria que ser de forma lenta e nunca pela força como a Inglaterra adotava, que irrita os negociantes. Afirmava ainda que os direitos da Sua Alteza de fazer o comércio nas costas de Bissau, da Mina, das Ilhas de São Tomé e Príncipe, como no Porto de Calabar, Cabinda e Molembo, devem ser respeitados, e nenhum dos navios apresados deve ser feito sem que todos esses pontos sejam discutidos.
Claro que a realeza da Inglaterra se colocava como protetor das nações infelizes. Lembrava das promessas feitas por Portugal e reafirmava que toda embarcação portuguesa empregada no tráfico se arriscaria a ser capturada.
As hostilidades da população da Bahia contra os ingleses se manifestavam sob forma de vexações e ameaças às tripulações dos navios britânicos que se abasteciam no porto. Salvador não tinha somente uma grande parte de responsabilidade neste tráfico, mas fornecia falsos contratos e documentos e bandeiras aos especuladores de carne humana de todas nações.
Portugal, Espanha, Inglaterra e França podiam ir de cabeça ao reino das sombras, pouco importava, contanto que seu precioso tráfico… pudesse ser mantido. Só o argumento da força poderia controlar. Os ingleses eram até acusados de fomentar revoltas que aconteciam na Bahia desde 1807.
Em 1815, o Congresso de Viena dava uma solução às divergências entre Rio de Janeiro e Londres a respeito da captura dos navios portugueses. A Inglaterra marcava um ponto e aceitava pagar 300 mil libras esterlinas para satisfazer as reclamações dos prejuízos dos navios. Os ingleses até renunciaram receber o empréstimo feito de 600 mil libras.
No entanto, dali em diante o tráfico ficava proibido na Costa da Mina. Mesmo assim, os traficantes baianos não se conformavam com a proibição e prosseguiam enviando seus navios para fazer o tráfico, apesar da vigilância dos cruzadores britânicos à repressão ilícita. Durante 35 anos, os baianos iriam continuar com suas atividades, e com numa intensidade maior do que na época que era legal.
Ainda em 1815, o conde dos Arcos enviava ao Rio de Janeiro um relatório no qual propunha o abandono do castelo de Ajudá em razão da extinção do tráfico ao norte do Equador. O governo do Rio de Janeiro não aceitava abandonar o estabelecimento.
Na Bahia reinava o estado de irritação contra os ingleses, cujo cônsul descrevia que o comércio não parava, citando que o número de escravos importados nesta cidade durante 1815 montava a quase sete mil. Ele denunciava as viagens ilícitas além dos limites prescritos pelo tratado.
Em março do mesmo ano, um número considerável de marujos portugueses reuniu-se às margens das águas da Cidade Baixa e atacou os navios britânicos em terra, com facas e bastões. Chegaram a matar um jovem inglês.
Para despistar a fiscalização, navios portugueses mudavam as bandeiras para as cores de outras nações, como a espanhola. Os armadores estavam decididos a continuar fazendo o tráfico na Costa da Mina. Os laços entre a Bahia e Uidá subsistiam e não estavam prestes a se romper. As revoltas de escravos aconteciam determinando um movimento de volta à África.
Os navios do tráfico não podiam ser apresados a não ser que fossem encontrados com escravos a bordo ao norte do Equador, e não podiam sê-lo ao sul, a não ser que a perseguição tivesse começado ao norte da linha. Os navios portugueses deviam estar munidos de um passaporte. O capitão e os dois terços da tripulação dos navios deviam ser de nacionalidades portuguesas.
Ocorreram outras convenções para acabar com o tráfico negreiro, como a anglo-brasileira de 13 de novembro de 1826. O Brasil era pressionado para ter sua independência reconhecida, mas havia grande resistência dos traficantes. O governo inglês dava a entender que as relações entre os dois países dependiam somente da proclamação ou não da abolição do comércio de escravos.
Em 1825, por exemplo, a independência do Brasil foi reconhecida por Portugal e Inglaterra, e pouco tempo depois um tratado foi assinado entre Brasil e Inglaterra para abolição do tráfico, feito em 1826.
Os ingleses tinham noção que o tráfico continuaria por um sistema de contrabando, com a conivência do governo brasileiro. Pelo tratado, ratificado em março de 1827, três anos mais tarde, em 1830, o tráfico deveria ter sido totalmente abolido no Brasil, mas não foi.
Os negociantes ilegais faziam através da bandeira francesa. O Cônsul inglês Charles Weiss comentava que, considerando a organização ineficaz da justiça deste país, e a opinião unânime de todas as classes do povo sobre a moralidade do tráfico e os motivos do governo britânico para tentar suprimir, está claro que nenhuma medida efetiva será tomada pelo governo brasileiro para abolir o tráfico, ou punir os culpados…
Veio depois a conhecida lei de 1831 e esta já é conhecida como “para inglês ver”. Segundo Pierre Verger, em 1831, o governo do Brasil tomava pelo avesso a política seguida por D. Pedro I (Abdicou-se do trono em sete de abril) e inclinava-se para a abolição do tráfico de escravos, completamente proibido em 1830, após o tratado.
Os principais interessados no comércio eram os portugueses estabelecidos no Brasil. Eles haviam acumulado grandes fortunas durante o tráfico em decorrência do bom convívio com o governo precedente. Dessa forma, os sentimentos antilusitanos eram levados em conta.
Uma série de revoltas e insurreições ocorreu na Bahia, especialmente nos anos de 1826/28/30. Ainda haviam prenúncios de eventos sangrentos. O artigo 1º da lei de sete de novembro de 1831 dizia que todos escravos que entrarem no território ou portos do Brasil vindos de fora, ficam livres, mas existiam exceções. A lei foi complementada por um decreto de 1832 regulando a reexportação dos negros que pudessem ser trazidos futuramente ao Brasil. Era justamente esta questão que gerava mais polêmica.
QUEM CUIDA DA NOSSA CULTURA?
CARTA ABERTA
Numa troca de ideias sobre a situação em que vive a nossa cultura em Vitória da Conquista, um grupo de artistas se reuniu e, de forma sensibilizada e indignada, resolveu fazer uma carta aberta às autoridades, relatando os pontos mais graves que atualmente atravessa o setor em nosso município.
Esta carta está circulando nas principais redes sociais para ser assinada por artistas e demais pessoas da sociedade para ser entregue ao poder público, principalmente ao legislativo e ao executivo. Infelizmente, como se tudo estivesse a mil maravilhas, poucos até agora aderiram à proposta. Fica, então, uma pergunta: Quem cuida da nossa cultura?
CARTA
Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia, com mais de 300 mil habitantes, berço de Glauber Rocha e Elomar Figueira, precisa com urgência romper essa inércia na cultura que já viveu seus tempos de efervescência em todas linguagens artísticas, principalmente entre os anos 50, 60 e 70. Com tantos movimentos, chegou a ganhar a fama de cidade politicamente cultural.
Nos últimos anos, tudo isso virou mito. Os artistas de um modo geral dos setores da música, do teatro, da dança, da literatura, das artes plásticas, do audiovisual, da fotografia, artesãos e demais expressões se sentem decepcionados e desesperançosos com essa inércia do presente e de um futuro incerto desanimador.
Diante do exposto, em forma de manifesto, conclamamos todos artistas conquistenses a formarem uma frente única nesta carta aberta à sociedade em defesa da nossa cultura que tanto gera emprego e renda, e ainda devolverá à Vitória da Conquista o título de cidade cultural, com a volta dos festivais de música, teatro, dança, salões de fotografia e artes plásticas e feiras literárias.
A mudança desse cenário de inércia começa por essa mobilização dos artistas, subscrevendo este documento, divulgando seus anseios na mídia, em manifestações, mas é imprescindível o estímulo e apoio direto do poder público em suas atribuições legais de promover e realizar eventos culturais tão escassos em nossa cidade, hoje uma capital do sudoeste baiano.
Nesse conjunto de esforços para soerguer a nossa cultura, é importante também que o setor privado, as empresas em geral, se juntem a nós, acreditando que cultura é um investimento com retorno no turismo e proporcionando benefícios para as áreas do comércio e serviços.
Vivemos em tempos de acomodação e desânimo. Um exemplo disso é que hoje nossa Conquista, como bem expressam os músicos, vive limitada aos bares como opção de entretenimento e precisa retomar o caminho do crescimento cultural, a exemplo de outras cidades, até menores, onde acontecem festivais, eventos nas praças, feiras e centros culturais movimentados.
A verdade é que a nossa cultura hoje se resume aos calendários do São João e do Natal que ilumina bastante a praça e muito pouco a arte. É só vazio nos restantes dos outros meses. Necessitamos urgentemente preencher essa lacuna.
Para piorar ainda mais a situação, os equipamentos municipais, como o Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha, na rua Dois de Julho, estão fechados sem definição de reformas e reabertura, sem falar na Praça Céus (J. Murilo) no Alto Maron, que funciona de forma precária.
Sem muitos exageros, é um quadro desolador. Para reverter essa situação, queremos a reativação desses pontos ou a construção de um centro cultural à altura da nossa cidade para a constante realização de eventos.
Nós, abaixo-assinados desta carta, queremos também a implantação de um Plano Municipal de Cultura que sirva de diretrizes básicas para o estabelecimento em lei de uma política cultural do poder público, que ocupe de vez esse vazio cultural.
Queremos tão somente o que nos é de direito constitucional que é o conhecimento, o saber, o fomento à cultura e o estímulo à diversidade artística de uma terra tão rica e talentosa nas artes, as quais, infelizmente, se encontram adormecidas. Queremos sair dessa inercia cultural.
Queremos o apoio de todos artistas, da sociedade em geral, dos jovens estudantes, professores, intelectuais, da Câmara Municipal de Vereadores, promotores culturais e demais interessados na subscrição dessa carta, tão fundamental para o desenvolvimento cultural e artístico da nossa cidade.
COMO ENTENDER O SER HUMANO?
Está lá bem visível, conforme mostra a imagem da nossa lente, que a vaga está reservada para o idoso, mas três motoqueiros estacionam seus veículos no lugar, num claro desrespeito ao estabelecido por um conjunto de lojas localizadas na Avenida Juracy Magalhães nas proximidades do Hotel Ibis. A própria foto já diz tudo e vale por mil palavras, mas temos que insistir num comentário, infelizmente, inglório neste país das leis que são feitas para serem transgredidas. Como entender a cabeça do ser humano? Ele é acima de tudo egoísta, individualista e hipócrita porque em público numa entrevista e numa mesa de bar são esses mesmos imbecis das motos que, no maior cinismo, defendem o respeito aos outros. O acinte é bem escancarado e se você for lá falar com eles pode levar até porrada ou ser morto, não importando se a pessoa é idosa e merece consideração. Vivemos numa sociedade primitiva brucutu dos tempos das cavernas, mas com celular na mão para fofocar, odiar, xingar, passar fake news e depois arrotar de que é um civilizado, mesmo não respeitando os outros. É uma terra de ninguém onde impera a lei do mais forte, do mais safado, do sem ética e daquele que só pensa em levar vantagem em tudo. Assim caminha a humanidade, mas, os mais otimistas acham que estamos indo em direção à harmonia e ao bem-estar igualitário de todos. Acredite se quiser e quem viver verá.
PORTA FECHADA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Como aranha a tecer sua teia,
Uma porta fechada,
É outra que se abre.
Assim é a vida, camarada,
Como onda levada,
Que espuma na areia.
Às vezes, bate em sua memória:
Sonhos do passado,
De caça e de caçado,
De porta fechada,
E de outra que lhe serviu,
Para conduzir sua história,
No calor ou no frio.
Não lamente e chore,
Se teve uma porta fechada.
O vento que assovia lá fora,
Traz depois a calmaria,
E sua porta se abre,
Para uma outra Maria.
A vida corta como sabre,
De uma porta fechada,
E de outra que se abre.
Se o futebol lhe deixou,
Médico, filósofo, cronista,
De poeta, professor ou artista,
O destino lhe reservou.
Não se apoquente, seu moço!
Você veio do ventre da terra:
É foice, facão e machado,
Montanha e serra,
Arrasto do arado,
Paz, amor e alvoroço.
POR QUE TEMOS MAIS PARLAMENTARES HOMENS QUE MULHERES NO BRASIL?
Quando se fala em desigualdades entre homens e mulheres, no campo político sempre se cita que no Brasil existe uma grande discrepância entre o número de homens, bem maior, em cargos eletivos nos legislativos do que mulheres. A isso se chama de machismo, mas não é bem assim.
É uma verdade quanto ter mais homens que mulheres na política, mas essa discussão precisa ser mais aprofundada, muito além de comentários simplistas de que o problema se resume no machismo brasileiro. Sei que a esta altura quem me ler já deve estar me chamando de machista, com interpretações equivocadas.
Ora, pelo que nos consta, mal ou bem, vivemos num regime democrático de eleições diretas onde todos, sem distinção de gêneros, sexo ou cor da pele, podem ser votados e votar, tanto para o legislativo ou para o executivo.
Se convencionou falar, principalmente a mídia que não se presta a fazer uma análise mais histórica e cultural do problema, que a raiz de tudo está no machismo, quando se deve laborar outras indagações para se encontrar a culpa ou os culpados.
Quando refletimos sobre o assunto, caímos sempre num paradoxo do porquê não temos mais mulheres exercendo cargos políticos no âmbito legislativo do que homens, se existem mais eleitoras que eleitores no Brasil?
Uma das explicações pode ser porque a nossa sociedade, desde os tempos coloniais, sempre foi patriarcalista e, por isso, as mulheres demoraram de avançar em suas conquistas. Elas só vieram ter o direito de votar a partir de 1932. Portanto, há mais de 90 anos.
De lá para cá, em outros setores sociais e trabalhistas, tanto no privado quanto no público, as mulheres progrediram e avançaram muito mais que no político. Existem empresas que existem mais mulheres que homens. Será que o xis do problema não está na falta de interesse de ingressar na política, como fazem os homens mais sérios, honestos e éticos?
Com mais candidatas, as mulheres não poderiam votar em mais mulheres, já que representam a maioria? Os homens mais preparados em nível intelectual e que não são corruptos também não se arriscam na política porque sabem que são excluídos. É o chamado silêncio dos bons.
A culpa também não pode estar no próprio sistema anacrônico eleitoral onde quem tem mais poder econômico para gastar numa eleição se elege do que aquele desprovido de recursos? Isso hoje vale para a mulher e para o homem.
Não estaria ainda na perpetuação do cargo, tanto nas câmaras de vereadores, nas assembleias, câmaras de deputados e no senado onde quem entra se utiliza da máquina e não dá chance para uma renovação? Não deveria se acabar com essa reeleição indefinida?
Um exemplo mais próximo está aqui mesmo na Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista onde de 21 parlamentares só existem duas mulheres que também se perpetuam no poder como os homens, caracterizando machismo dos dois lados. A questão não se resume simplesmente dizer que a Câmara de Conquista é machista, ou outra casa legislativa qualquer.
É correto o ex-governador Ruy Costa, hoje ministro da Casa Civil do Governo Lula indicar sua mulher para o Tribunal de Contas do Estado, sabendo que tem os deputados em suas mãos para elegê-la? Se os direitos são iguais, não deveria levar em conta a meritocracia, não importando ser homem ou mulher?
Quando todos são picados pela mosca azul do poder, termina não havendo distinção de comportamento entre ambos os sexos. Talvez pelo mau exemplo dos homens, que sempre foram maioria no poder, muitas mulheres também enveredaram no caminho dos malfeitos.
Qual critério teve o ministro Alexandre de Morais de conceder alvará de soltura para mais de 100 mulheres que invadiram os três poderes em oito de janeiro com a intenção de dar um Golpe de Estado, exatamente no Dia Internacional da Mulher? Todos não são culpados e têm as mesmas responsabilidades e consciências do que estavam fazendo?
A PATRULHA DAS FOBIAS E DOS ISMOS
Sou veementemente contra qualquer tipo de racismo, de homofobia, misoginia, machismo, xenofobia, intolerância religiosa ou discriminação por ideologia, mas, chegamos a um ponto onde existe uma vigilância radicalizada, insensata, incoerente e instintiva que ousaria chamar de patrulha das fobias e dos ismos.
Somos latino-americanos e, pela própria natureza da nossa formação cultural, temos heranças preconceituosas, mesmo as mais tênues, mas precisamos discernir e separar formas de pensar, para que não se jogue todos na mesma vala dos extremos. Não quer dizer que a pessoa de direita seja nazifascista, negativista ou de ideias retrógradas, como de que a terra é plana.
Infelizmente, os preconceitos vão se arrastar enquanto a humanidade existir. No entanto, o que quero dizer é que chegamos a um ponto em que as pessoas, especialmente as mais esclarecidas, vivem hoje numa bolha de autorregulação ou autocensura quando vão escrever ou falar nesses temas das fobias e dos ismos.
O termo certo para isso é patrulhamento, porque você tem que ter muito cuidado quando estiver tratando desses assuntos numa roda de amigos, num evento ou discussão, para não ser mal interpretado e acabar sendo carimbado de machista, racista, homofóbico ou intolerante religioso, sem ser nada disso.
Estamos chegando a um ponto que é melhor ficar calado, porque tudo o que você disser no tribunal pode se tornar contra você. Me reporto aqui à questão mais polêmica do possível assédio moral do qual vem sendo vítimas jornalistas da Assessoria de Comunicação e do sistema Surte da Uesb- Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Não vou entrar aqui no julgamento das denúncias, mesmo porque elas carecem de uma maior investigação e apuração para que tudo fique esclarecido e os culpados sejam punidos, mas o tema está rolando nas redes sociais, principalmente no Grupo do Sinjorba-Sindicato dos Jornalistas da Bahia. Quem sou eu para dar sentenças!
Não entendo, porém, o porquê de dois integrantes fazerem uma ligação desse problema, que é grave, para dizer que a Uesb é machista porque nunca teve uma reitora no cargo, como se caso fosse uma mulher não aconteceria um assédio moral ou outro tipo de discriminação lá dentro.
Por ter dito que tanto faz ser homem ou mulher, para mim não faria nenhuma diferença, fui visto como machista. Ora, todos sabem que a reitoria da instituição segue uma linha de esquerda e, por suposição e entendimento ideológico, não admite que lá dentro aconteça nenhuma discriminação, a exemplo do assédio moral. E se a direção fosse alinhada à direita? O que falariam? Por favor, não estou aqui fazendo nenhuma defesa da Uesb.
Mesmo sendo relativa, estamos numa democracia de eleições para o cargo de reitor ou reitora, o que não impede de ser uma mulher, desde que ela saia como candidata e receba os votos dos eleitores aptos ao exercício da votação, inclusive da categoria feminina. O sistema eleitoral anacrônico como um todo é que está errado.
Ainda são poucas, mas em muitas outras unidades universitárias da Bahia e do Brasil temos mulheres como reitoras. Isso não quer dizer que estejam livres desses problemas internos. Não me importa se seja homem ou mulher. Para mim, o que mais conta é meritocracia.
Qualquer pessoa que exerce um cargo público, seja prefeito ou prefeita, vereador ou vereadora, diretor ou diretora de algum órgão, deputado ou deputada está sujeito à crítica. Não se pode generalizar que quando a crítica recai em uma prefeita, o ato seja machista.
Pode até ser de alguém em particular, mas nesse país se convencionou falar que aquela pessoa está sendo vítima de machismo por ser mulher. Então, chegamos ao ponto radical de que uma mulher não pode ser criticada quando está a exercer uma função importante dentro da sociedade, mesmo cometendo falhas.
Poderia aqui me estender a outros tantos exemplos de julgamentos equivocados quando uma pessoa é mal interpretada e vista como homofóbica, racista, machista, misógina e outras formas de preconceito só por expressar seu pensamento de discordância de que tal ato não caracteriza propriamente uma discriminação.
LANÇAMENTO DE “NA ESPERA DA GRAÇA-ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS
Não são textos pandêmicos, mas, em sua maioria foram inspirados durante o período da pandemia da Covid-19 quando as pessoas estavam angustiadas, isoladas e até desesperadas na espera de uma graça.
A obra “Na Espera da Graça – Entre Engaços e Bagaços” foi lançada no último dia 3 de março, na Casa Regis Pacheco (Praça Tancredo Neves), às 19 horas, com apoio da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
O público prestigiou o evento que contou com uma apresentação do cantor e compositor, Walter Lages, que musicou a letra Na Espera da Graça, de autoria do próprio jornalista e escritor Jeremias Macário. Estiveram também presentes Luis Altério, da Editora Nzamba e o coordenador da Secretaria de Cultura, Alexandre Magno.
O professor Itamar Aguiar fez a apresentação da obra, destacando a forte pegada nordestina dos textos poéticos do autor quando descreveu sobre os costumes, hábitos e a cultura popular da região, inclusive citando personalidades importantes (escritores, pensadores, poetas e artistas) no poema Entre Engaços e Bagaços.
Segundo Itamar, Jeremias fala justamente desse povo sofrido do Nordeste de um modo direto, objetivo e seco num estilo catingueiro, sem arrodeios, não deixando de abordar também questões políticas, filosóficas, sociais, amor, dor, saudades e o cotidiano da vida.
O título foi exatamente inspirado numa letra musicada pelo companheiro músico, cantor, poeta e compositor Walter Lajes, em sua viola mágica e apresentada em diversos festivais.
Outros versos da obra também foram musicados por artistas locais e do Nordeste, como Edilsom Barros, de Fortaleza (A Dor da Finitude) e Antônio Dean, de Campina Grande (Lembro Ainda Menino e Minha Filha Cintia). Na obra, outras letras foram musicadas por Papalo Monteiro e Dorinho Chaves.
Outros poemas foram gravados em vídeos com minha esposa Vandilza Gonçalves e meu amigo José Carlos D´Almeida, que resultaram em dois curtas metragens, um dos quais premiado pelo edital da Lei Aldir Blanc, lançado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
Para finalizar, o livro contém o capítulo “Entre Engaços e Bagaços”, um épico sobre o nosso resistente Nordeste, uma viagem que o autor faz a partir do Maranhão, descendo pelo Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e a Bahia onde são louvados Câmara Cascudo, José de Alencar, José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Tobias Barreto, Rui Barbosa, Gregório de Matos, Jorge Amado e tanto outros.
Este é o quinto livro do jornalista e escritor Jeremias Macário que já lançou “Terra Rasgada”, “A Imprensa e o Coronelismo”, “Uma Conquista Cassada” (seis em um) e “Andanças” (dois em um). “Na Espera da Graça” são textos poéticos inéditos e impactantes para o leitor refletir, criticar e divulgar entre amigos, parentes e familiares.
VÍTIMA DE XENOFOBIA
Não é de agora que a região Nordeste vem sendo vítima de chacotas e xenofobia por parte, principalmente, de sulistas nazifascistas e racistas que se consideram raça superior. Essa carga de ódio e intolerância tem acontecido com maior intensidade em épocas de eleições porque os votos dos eleitores daqui não batem com suas ideologias, muitas das quais de direita e de extrema retrógrada medieval. Em alguns estados eles se referem aos nordestinos de baianos. Em outros de paraíbas e até de cabeças chatas e paus-de-arara, como já se pronunciou o capitão-presidente Bozó psicopata que fugiu do país. No caso recente do trabalho escravo em vinícolas de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, o vereador Sandro Fantinel, do partido Patriota de Caxias do Sul, extrapolou sua ignorância e burrice quando se referiu os operários baianos de gente lá de cima suja que só sabe pegar praia e bater tambor. Todos vereadores conquistenses repudiaram sua horrível fala na última sessão de quarta-feira (dia 01/03). Não sabe o dito parlamentar que o Sul foi colonizado por imigrantes europeus com dinheiro do governo central tirado do Nordeste, que sempre foi discriminado na distribuição dos recursos federais, daí a grande desigualdade regional gerando miséria e fome. Tenho orgulho de ser nordestino, especialmente pela sua rica cultura de grandes nomes da literatura, da música, do folclore, do pensamento filosófico, da jurisprudência e tantas outras linguagens artísticas. Esses sulistas retardados e doentes mentais acham que o nordestino é uma raça inferior que deveria ser exterminada em câmaras de gás como fez Hitler e seus seguidores contra judeus, ciganos e outras etnias. Esses indivíduos não se evoluíram como seres humanos. Nem podem ser considerados de animais irracionais. São estrumes e vermes.
DOMADOR DE BURRO
Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Êta Nordeste bom de se ver!
De escritor, artista, senhora e senhor,
Rezadeira, penitente e você,
Vendedor de quebra-queixo,
Amolador e tocador de realejo,
Nessa terra de tanto casmurro:
Tem até o domador de burro,
Não mais na tora da espora,
Mas com nova terapia, sem pia.
O domador de hoje rodeia,
Sem na mão a taca e a peia,
Conversa com o burro,
Faz ele sentir seu cheiro;
Coloca seu chapéu por inteiro,
Num ritual de interação,
Segue o passo a passo do manual,
Até ele lhe chamar de doutor.
É tanto jeito e mania,
Que o burro dá sua montaria,
Confia que em seu lombo suba,
Sem coice, pulo e derruba,
Mais manso que essa gente bruta,
Fanática e inconsequente,
Que não tem domador nenhum,
Para o desumano anormal comum.
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