A natureza não perdoa, devolve todo mal que é praticado contra ela. Esse enunciado é mais do que óbvio, mas o animal homem nunca aprende e continua a destruir o meio ambiente. Quando este   se rebela, os pobres são os que mais sofrem com os estragos, inclusive com mortes.

Primeiro estou me referindo à depredação da Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, quando por muitos anos ela serviu de exploração de pedras e areia, derrubando mais ainda a pouca vegetação que cobria aquela área, antes uma floresta que dela só restou aquele pedaço da Mata do Poço Escuro.

Esse processo criminoso teve início com maior intensidade a partir dos anos 60 do século passado com a construção da BR-116. Quando aqui cheguei, em 1991, caçambas e mais caçambas entravam e saiam da Serra carregadas de materiais para a construção civil. Lembro das muitas reportagens que fiz denunciando o crime, sob ameaça dos exploradores.

Como a Serra ficou sem nenhuma proteção vegetal e cheia de buracos, ela começou a despejar detritos, pedras e lama à cidade todas as vezes que batem fortes chuvas, como as desse último final de semana, destruindo casas e ruas, principalmente nos bairros Panorama e Santa Cecília, conforme apontou muito bem o arquiteto Leandro Fonseca.

Em seus vídeos, como bom conhecedor do assunto, ele mostra com evidência e propriedade as causas e as consequências advindas lá do alto da Serra, bem como a necessidade urgente do poder público implantar o canal leste-oeste para escoamento das águas. Segundo ele, se isso não for feito, a situação vai perdurar por muito tempo. “Se os canais não forem executados, a tendência é piorar com a descida dos detritos da Serra”.

Fonseca alerta que se não for realizada uma macrodrenagem profissional e dentro das técnicas exigidas, vamos ter daqui para frente cenários desse tipo, atingindo diretamente o centro da cidade, como o que acontece hoje na Praça Victor Brito e Avenida Bartolomeu de Gusmão, todas as vezes que chove.

O arquiteto foi bem claro quando apontou para o alto da Serra de onde são carreados todo lixo e detritos para as partes mais baixas dos bairros que estão localizados nas encostas e depois para as ruas do centro de Conquista.

A invasão de terra e lamas das chuvas nas casas já era anunciada por muito anos quando lá atrás as máquinas perfuraram a Serra do Periperi deixando enormes crateras, sem contar que aterraram todos os pontos de minação. Imaginem que nela chegou a funcionar um lixão por muitos anos.

De volta ao ponto inicial, a natureza está apenas devolvendo o mal que lhe fizeram através da ganância de ganhar mais dinheiro. Os prefeitos e os políticos passados foram coniventes com a destruição, em alguns locais irrecuperáveis. O maior predador da Serra foi o próprio poder público.

Não é nenhuma surpresa que os danos à cidade iam logo surgir. E, como declarou o arquiteto Leandro, se não houver construção de canais de escoamento, virão tragédias maiores, não somente materiais, como também de vidas humanas.