:: abr/2023
UM MUSEU DA IMPRENSA
Essa ideia surgiu há muitos anos quando eu ainda era diretor do Sindicatos dos Jornalistas da Bahia-Sinjorba, em Vitória da Conquista, no início dos 2000 e quando elaborava o livro “A Imprensa e o Coronelismo na Região Sudoeste”. Nasceu também quando conseguimos, em meu mandato como dirigente sindical, um terreno doado pela Prefeitura Municipal, no Bairro Santa Cecília, para os jornalistas conquistenses.
Essa história é longa, mas o terreno foi registrado em cartório, inclusive com a planta da Casa dos Jornalistas e nela estaria incluído este museu com a finalidade de resgatar a memória da imprensa de Conquista e região. Os tempos passaram. São mais de 20 anos e não se sabe hoje com quem está esse projeto depois do falecimento de Edna Nolasco, com a qual cheguei a tratar do assunto.
Há alguns anos retomei a ideia do museu com o companheiro Luis Fernandes (falecido) e Rui Medeiros, inclusive com a proposta de ser instalado numa casa antiga da prefeitura, mas, infelizmente, não houve continuidade. Nem chegamos a ver essa possibilidade com o prefeito da época.
Neste domingo (dia 09/04) estive no Museu Kard e apresentei a sugestão para Alan Kardec que topou, com entusiasmo, ceder um espaço no local para a criação do Museu da Imprensa de Vitória da Conquista.
Ele acrescentou que a categoria montasse uma equipe de trabalho para fazer um esboço do projeto e cair em campo no resgate de peças, equipamentos (linotipo), jornais antigos, máquinas fotográficas, gravadores, máquinas de datilografia e outros objetos relacionados com a nossa imprensa.
Por áudio tive uma longa conversa hoje com o nosso companheiro do antigo e conceituado jornal Hoje, se não me engano, Paulo Nunes (bom de memória) que fez uma leitura minuciosa sobre a história dos jornais aqui em Conquista e algumas cidades da região, considerando ser o Museu da Imprensa de fundamental importância para não deixar que toda essa memória se perca com o tempo. Trocamos boas informações, muitas das quais nem conhecia. Lembramos de nomes, periódicos e fatos curiosos.
Paulo Nunes propôs, inclusive, fazer parte de um grupo de trabalho para alavancar meios para retornarmos o terreno dos jornalistas, doado pela prefeitura, e estudar a viabilidade da construção da Casa dos Jornalistas e do Museu da Imprensa.
Sabemos que a tarefa não é tão fácil assim, mas basta uma disposição de toda classe e colocarmos aquele jargão de “a união é que faz a força” para colocarmos a ideia em prática. Até brincamos que já estamos com idades avançadas, mas isso não importa porque o projeto ficaria para a posteridade e para esses moços que estão aí na labuta da profissão.
Fico a pensar e a me indagar do porquê que as coisas em Conquista são tão difíceis de acontecer? Acho que faltam disposição e compromisso coletivo. Na realidade, existe entre nós um grande individualismo onde cada um só quer saber de si visando apenas seus interesses. A verdade é dura, mas deve ser dita.
Com o advento da internet e dos meios eletrônicos em geral, os jornais foram substituídos por sites e blogs e hoje pouca gente ler textos, mesmo sendo nas telas dos celulares ou no computador. Existem muito mais leitores de manchete e títulos. Não é por isso que não temos a missão de recuperarmos essa história da imprensa em nossa região através da implantação de um museu.
NÃO VEJO NENHUMA GRAÇA
Sei de antemão que muitos vão me censurar, mas não vejo nenhuma graça ricos e pobres correndo às prateleiras dos supermercados para comprar um ovo de Páscoa, recheado de chocolate, ao custo que varia de 10 a 300 ou 500 reais, a depender do tamanho e dos ingredientes nele embutidos!
O ovo em si tem uma relação com o coelho por simbolizar fertilidade e era presenteado para celebrar a passagem do solstício, época de fartura. Alguns historiadores dizem que essa tradição pode ter vindo dos persas ou dos chineses. Essa associação do coelho com os ovos de Páscoa foi levada da região da Alemanha para os Estados Unidos pelos imigrantes.
O de chocolate é derivado de um costume iniciado no século XII, na França, depois da volta de Luis VII da Segunda Cruzada. Ele foi recebido com festa e com vários produtos da terra, incluindo o ovo. O seu retorno coincidiu com o jejum da Quaresma.
O de Páscoa, segundo Wikipédia, é um ovo, normalmente de chocolate, pintado com gravuras e em cores, para significar a ressurreição de Cristo. A Páscoa é uma festa anual dos judeus, comemorativa da saída deles do Egito para a terra prometida. Tudo isso, incluindo os festejos considerados pagãos, foi incorporado pelo cristianismo.
Nos tempos modernos, no caso específico da Páscoa, o sistema capitalista da indústria chocolateira aproveitou essa tradição secular para aumentar suas vendas e, consequentemente, incrementar o consumismo, como acontece com outras festas durante o ano, a exemplo do Natal.
Depois desse bolodoro todo, o que quero dizer é que as pessoas entram na onda como manadas no estouro da boiada para comprar um ovo de páscoa, muitas vezes sem nem saber o simbolismo daquilo. As propagandas e a mídia televisiva, sobretudo, empurram o povo a consumir o tal ovo, atraído, principalmente, pelas crianças.
Nessa época, quem mais sofre com isso é o pobre que, com seu poder aquisitivo baixo, vê o filho pedir um ovo de páscoa e termina se sacrificando para satisfazer o apetite da mídia. Mais uma vez, o pobre, sem condições financeiras, termina imitando o rico.
Podem me chamar como quiserem, mas não vejo nenhuma graça nessas festas puramente consumistas, copiadas de outros países e introduzidas pelo cristianismo. No caso da Páscoa, sua origem é judaica. Pior ainda é que o símbolo capitalista de consumismo é substituído hoje pelo o de Cristo, como o Papai Noel durante o Natal.
Como uma coisa está relacionada a outra, antigamente os cristãos católicos jejuavam (hoje são poucos) na Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira da Paixão, e comiam pouco no almoço. Atualmente se empanturram numa mistura de peixe caruru, vatapá, azeite de dendê e outros ingredientes acompanhados de bebidas alcoólicas.
O mais irônico é que muitos, sem saber o que está fazendo, trocam a Sexta-Feira da Paixão pelo Domingo de Páscoa, como vi numa entrevista de uma mulher na televisão falando do sacrifício e morte de Cristo na cruz para salvar a humanidade do pecado. Ela misturou as bolas, confundiu paixão com ressurreição, e terminou dizendo um bocado de besteiras.
“FLUXO E REFLUXO XIII
O PERÍODO MAIS CRÍTICO DO TRÁFICO NEGREIRO
No livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, de mais de 900 páginas, ele faz um trabalho detalhado e acadêmico com cartas e documentos da época, desde o século XVI, sobre o tráfico negreiro, especificamente do Golfo do Benin (Reino de Daomé) para a Bahia.
No início do século XIX, por volta de 1807/08, quando a Inglaterra decretou a abolição da escravatura, esse tráfico entrou em seu período mais crítico, justamente por ter se tornado ilegal através dos acordos e convenções estabelecidos entre os ingleses e Portugal e depois com o Brasil independente.
Como esses tratados não eram obedecidos pelos governos e comerciantes de escravos, os britânicos passaram a usar a força naval para aprisionar navios que continuavam a embarcar ilegalmente cativos para o Brasil, especialmente para os centros da Bahia e do Rio de Janeiro.
Por pressão da Inglaterra, após Brasil independente, o Governo Imperial criou várias leis, como a de 1831 que ficou conhecida para “inglês ver”, porque os traficantes faziam suas trapaças, como desvios de rotas, embarques e desembarques em outros locais fora dos portos tradicionais e uso de bandeiras estrangeiras, para manter o tráfico ilícito.
Nas trocas de cartas com as autoridades do Império (também faziam seus conluios com os senhores patrões e traficantes), os cônsules ingleses se irritavam com os brasileiros até que por volta do final dos anos 40 a Inglaterra começou a apertar o cerco com cruzadores que aprisionaram dezenas de navios que estavam com cargas irregulares.
Nesse interim, houve um acordo onde determinava que os traficantes só podiam transportar escravos abaixo da linha do Equador, ou seja, eram proibidos fazer esse tipo de negócio no Porto de Uidá ou Ajudá, no Golfo do Benin. Mesmo assim o comércio ilegal não parou de ser feito.
Chegou ao ponto que os navios ingleses invadiram as águas brasileiras para impedir o tráfico e até ameaçou bombardear o Porto do Rio de Janeiro. O estopim de tudo ocorreu no Porto de Paranaguá quando o forte daquele local reagiu atirando contra um cruzador inglês matando um marujo.
Os comerciantes colocavam o povo contra os ingleses e estes tentavam comover a população de que aquele comércio era vergonhoso e desumano. Como o poderio britânico era de longe maior que o do Brasil, o Império apressou uma lei mais dura em 1950 que ficou conhecida como Lei Eusébio de Queirós. Somente em 1951 esse tráfico ilegal cessou, mas alguns ainda se atreviam a colocar navios para realizar esse comércio.
MUNDO MALUCO DESUMANO
Não me sinto mais filho desse mundo maluco desumano onde os amigos são descartados como máquinas que dão defeito e são jogadas fora para a aquisição de outras de outras mercadorias. Vivemos nessa época onde tudo é por interesse. Nesse mercado de doido, convive-se com a pessoa até onde ela lhe serve e descarta-se quando não tem mais serventia.
Ao longo do tempo, pela ganância, ambição e com aquele pensamento individualista voltado somente para seu próprio eu, as amizades foram se desgastando, como se fosse um aparelho de celular que sai de linha, um fogão ou uma geladeira que não estão mais funcionando como antes. Assim é com o amor e com o outro, que se tornaram máquinas e simples números de interesse.
É raro encontrar aquela amizade, companheiro ou companheira, que entenda seus defeitos, suas angústias, problemas e fases difíceis, para lhe confortar e dar aquele abraço de apoio. Geralmente o outro afasta-se do seu convívio e simplesmente desaparece. Poucos são sinceros e fieis que continuam ali ao seu lado nos momentos certos e incertos. O ser humano dessa revolução tecnológica tornou-se desumano nesse mundo maluco.
Queria voltar aos 40 ou 50 anos atrás e deitar nas pedras dos lagartos e sentir o cheiro da minha terra fresca ou escaldada da seca. Como na canção “Filhos de Câncer”, de Fagner e Zé Ramalho, preciso ser fera para ter as soluções das esperas, onde ainda diz que a evolução dos tempos mudou as falas.
Hoje são os filhos de Freud, de Getúlio e Lampião. Acrescentaria que da ditadura, da globalização, da geração alienada, da violência e do apego ao material. Bajulação quando se tem alguma coisa para oferecer e distanciamento quando se está na pior. Não é somente um mundo maluco desumano, mas um mundo das falsidades. Pior ainda quando se cai na velhice. Nem os filhos aparecem!
Sou filho de outra era onde a palavra valia bem mais que um documento assinado e carimbado em cartório. De que valem os acordos, convenções, tratados e promessas, se não são cumpridos? A toda hora estamos sendo garroteados pelos monstros do dinheiro e do poder político.
Sinceramente, prefiro hoje viver em minha loca como um mocó, do que ser importunado e ter que ouvir falsas palavras de que você é meu “irmão-amigo-camarada”, principalmente quando se está num bar com um copo ao lado. É um tal de trocar contatos no zap, como se fossem selos de qualidade de que aquela amizade está firmada para sempre! Que nada! Depois, tudo cai no esquecimento!
Confesso que não sou mais filho desse mundo maluco desumano, da incoerência, dos golpes e das fake news que correm como pólvoras em rastilhos nas redes sociais. Não sou filho desse consumismo desvairado que só traz felicidade momentânea e que está aos poucos destruindo a nossa mãe terra. Não sou mais filho desse mundo maluco dos assassinatos monstruosos até de crianças e nem dessa gente, que não é mais gente.
“O OLHO DA RUA”
Bem em frente das flores, das palmeiras e das árvores da Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, na Casa Régis Pacheco, uma expografia conta as personagens, histórias, profissões e culturas da região e dos bairros da cidade. Trata-se de um trabalho de fotografias dos estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, intitulado de “O Olho da Rua”, que foi aberto no último dia 30 de março e vai até 30 de abril, e pode ser visitado por fotógrafos, estudantes, professores e interessados em apreciar a boa arte.
Ainda bem que essa iniciativa está saindo do âmbito de uma universidade para se integrar à comunidade, e não fica fechada dentro da própria instituição, longe do alcance de centenas de pessoas, como, na maioria das vezes, acontecem com outras atividades acadêmicas. É como se estivesse saindo das quatro paredes para ganhar a rua.
A coordenação do programa é da professora Adriana Camargo que afirma que o projeto é um espaço que se coloca aberto à experimentação da imagem, do som e das artes integradas… Acima de tudo, a exposição mostra as diversidades dos bairros de Conquista e é uma viagem à realidade da vida onde os estudantes do curso colocaram suas imaginações para trabalhar. É um grande aprendizado teórico que sai das salas de aulas para o campo da prática. Isso é o que nós chamamos de fotojornalismo onde cada estudante desenvolve sua criatividade para mostrar o que aprendeu. “O Olho da Rua” é uma exposição que merece ser visitada por todos.
ALMAS PERDIDAS
Autoria de Jeremias Macário
Dizem que fantasmas
São almas perdidas,
Que vagam no vaivém,
Coisas de carmas,
De abertas feridas.
Para espíritas, morte é vida,
Que retornam do além,
Para pagar suas dívidas,
Encarnam em alguém.
Tudo é mistério e confusão.
“Só sei que nada sei”
De céu, purgatório e inferno:
Só sinto o verão e o inverno;
O resto é assombração.
Almas perdidas!
Andantes vivas-mortas
Nesta terra de guerra,
Que não são ativas,
E circulam por linhas tortas;
Sem visível passagem
Nessa passageira viagem,
Onde ninguém nota,
Sua atribulada rota.
Almas perdidas!
Sem idas e saídas.
Almas perdidas!
Rogai por elas, oh Senhor!
Para que desatem seus nós
De seus antepassados e avós.
Almas perdidas!
Meu canto é um pranto,
Cada um com seu santo,
E cada dor em seu canto.
UMA FRENTE PARLAMENTAR PARA A CULTURA DE VITÓRIA DA CONQUISTA
Para uma cidade do porte de Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia com mais de 300 mil habitantes, infelizmente, temos poucos representantes no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa da Bahia – ALBA. Na época dos pleitos majoritários aparecem mil candidatos para arrancar votos de mais de 200 mil eleitores, mas depois desaparecem do cenário.
De Conquista mesmo temos os deputados estaduais Jean Fabrício e José Raimundo e federal apenas Waldenor Pereira, na Câmara dos Deputados. Nas campanhas, inclusive municipal, muito se fala sobre obras de infraestrutura para a cidade e quase nada com relação à nossa cultura que tem uma série de demandas reivindicadas pelos nossos artistas em geral e endossadas, continuamente, pelo nosso Conselho Municipal de Cultura.
Vou aqui citar algumas que são básicas e urgentes como razões para que se forme uma frente parlamentar, incluindo a Câmara de Vereadores, numa parceria com o setor privado, para num esforço conjunto, tornar a nossa cultura mais ativa e pujante durante todo ano, não apenas se limitando ao São João e ao Natal, como tem ocorrido ultimamente.
Para começar e ser objetivo, temos o Teatro Carlos Jheová (interditado há mais de dois anos), o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha (rua Dois de Julho), adquiridos com recursos da prefeitura, todos fechados e que necessitam de reformas para que esses equipamentos se transformem em centros culturais multiuso.
Não podemos esquecer também da conservação e manutenção do que ainda resta do Patrimônio Material Arquitetônico onde casarões estão ameaçados de cair, como um imóvel existente na Praça Tancredo Neves. Conquista é uma das cidades baianas que não conta mais com centro histórico para se visitar.
A vida cultural de Conquista hoje está praticamente resumida aos bares e restaurantes noturnos de finais de semana, com shows de bandas e música de cantadores com voz e violão. Precisamos de muito mais que isso. Por exemplo, que ocorram festivais de músicas autorais com premiações, feiras literárias, seminários, encontros da juventude e salões de artes visuais.
Nessas arenas, hoje fechadas e sendo destruídas pelo tempo, poderiam ser realizadas atividades que contemplem as mais diversas linguagens artísticas, como a música, o teatro, o cinema e o audiovisual (cinemateca), a literatura, a dança, oficinas, artes plásticas, o artesanato e tantas outras expressões, movimentando a cidade com mais geração de trabalho e renda. É a chamada economia criativa que está parada em Conquista por falta de espaços municipais.
Não queremos apenas a revitalização do Cristo da Serra do Periperi, obra do artista Mário Cravo Junior. Muitos esquecem do Museu Cajaíba que está lá na serra a céu aberto sendo destruído e carece de um projeto de restauração e preservação por parte do poder executivo. As obras de célebres personagens brasileiras e internacionais, muitas das quais desapareceram, precisam de um local seguro, para que a memória do artista não seja apagada do nosso cenário cultural.
Todos esses pontos e mais outros de fundamental interesse para o fortalecimento da nossa arte, como a implantação de um Plano Municipal de Cultura, têm sido exaustivamente discutidos e cobrados pelo nosso Conselho Municipal de Cultura à Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer- Sectel durante suas reuniões, mas sempre se esbarra na alegação da falta de recursos.
Por falar em Plano Municipal de Cultura, uma luta do Conselho, foi elaborado e está com a prefeita para ser aprovado e colocado em prática, o Plano de Turismo para Conquista, mas, tenho dito que, sem uma cultura forte e ativa na cidade, fica aquela lacuna que por certo irá desmotivar a atração dos turistas da região e de outros estados. Sem eventos culturais constantes, pouco adianta projeto de turismo.
Confesso que da minha parte é muito triste ver a nossa cultura nessa situação de perda de sua identidade e memória. Mais lamentável ainda é não ter as demandas dos artistas atendidas. Existe um sentimento de frustração e até de revolta que, muitas vezes, acirram os ânimos entre a classe e os entes do executivo responsáveis pela cultura municipal.
Não basta a realização de editais e projetos de lei, que, vez por outra ajudam os artistas. Não podemos ficar dependentes das leis federais, como a Paulo Gustavo, Aldir Blanc, Rouanet e outras. O município tem que destinar mais recursos para promoção da sua política cultural própria, especialmente quanto a preservação e funcionamento dos seus equipamentos que estão fechados.
Para somar forças nessa empreitada (a Prefeitura Municipal sempre alega escassez de verbas) é por isso que aponto aqui a necessidade da formação de uma frente parlamentar suprapartidária que destine emendas para nossos projetos numa parceria com os empresários.
Essa provocação e cobrança têm que partir dos diversos segmentos da sociedade, dos órgãos públicos e demais entidades. O Conselho Municipal de Cultura tem levantado essa questão em seus debates mensais, mas não tem o poder de ir mais do que além disso, tendo em vista que não se trata de um órgão executor.
O TEMPO E AS INVERSÕES DE VALORES
Quando se fala em minha época era assim, alguém pula de lá para dizer que os tempos mudaram, que você está antiquado e que isso é puro saudosismo. Tudo bem, mas estou me referindo às inversões de valores dos seres humanos. Com o “progresso” e o avanço da tecnologia moderna, será que houve mudanças para melhor em termos humanos?
Como estava dizendo acima, em meu tempo, lá pela década de 50 e 60 do século passado, quando se tinha 12 anos ou pouco mais que isso, ainda chamava-se de idade da inocência. A criança ou o pré-adolescente dava benção aos pais quando acordava e ia dormir. Brincava-se de amarelinha, esconde-esconde, bola de gude, pião, pular de corda, cavalo de pau e até com ossos de animais. Os carrinhos eram feitos de madeira.
Na escola, todos iam de farda limpa – quem não estava uniformizado não era recebido – e fazia-se fila para entrar na sala de aula depois de cantar o Hino Nacional. Lembro que meu fardamento tinha uma gravatinha com listras que marcavam o ano em que cursava. No primário eram cinco anos. Os estudantes obedeciam aos professores. Os mais peraltas eram castigados e até ficavam de joelhos em caroços de milho. Fiquei muitas vezes.
Quando um aluno fazia uma coisa errada, a diretora chamava o pai ou a mãe que dava aquela bronca no filho. Não se xingava os mestres. Em casa ainda recebia o castigo. As crianças aprendiam desde pequenas a respeitar os mais velhos ou idosos, como queiram, e até pediam licença para passar entre os adultos. Haviam algumas brigas, mas logo se fazia amizade e se pedia desculpas.
Os tempos mudaram e nem se canta mais o hino. Não se usa mais fardas e estudante entra até armado na escola para matar colegas e professores. Os pais brigam com a diretora quando recebe uma queixa de um filho. O professor tem que ter o maior cuidado para repreender o aluno que está perturbando a aula.
O celular na mão virou o brinquedo para revirar as redes sociais das mentiras, das pornografias, com língua em códigos e sinais esquisitos. Não se é mais inocente como antigamente. O idoso é visto como coisa velha, caduco, que só fala besteiras e é um imprestável ranzinza. O ensino mudou para pior e o mestre é encarado como se fosse um inimigo. Praticamente não existe mais essa de repetir de ano, isto é, não passar para o outro curso.
O tempo foi passando e surgiram outras gerações, como a atual, que é bem mais violenta, estúpida, egoísta e agressiva. Não há mais o senso humanitário de um ajudar o outro. Irmão mata irmão e até pai e mãe. O professor tem medo de ensinar em determinadas escolas porque o aluno pode bater nele ou fazer coisa pior.
Houve uma tremenda inversão de valores onde nem se sabe o que é ética e honestidade. O errado tornou-se certo, e o certo ocupou o lugar do errado. O anormal em normal. O incomum em comum. Vale a lei do levar vantagem em tudo. Por qualquer motivo um atira no outro numa simples discussão de trânsito. A população ficou desumana e ninguém confia mais em ninguém. Temos hoje um mundo mais selvagem.
SEMANA DO JORNALISTA E O DIPLOMA
Há 50 anos me lembro muito bem quando recebi o diploma de bacharel em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e também já são passados 50 anos que comecei a minha carreira profissional no jornal “A Tarde”, como revisor, função que não mais existe, mas que oferecia uma boa formação profissional depois de uma faculdade.
Nessa época uma medida reconhecia a profissão e exigia que as redações dos jornais só recebessem graduados, acabando aos poucos com os chamados provisionados. O registro no Ministério do Trabalho passava a ser definitivo. Lembro que os veteranos, que já atuavam no mercado há anos, criticavam os diplomados quando cometiam algum erro e diziam que a escola não prestava para nada.
Os repórteres, editores, chefes de redação e redatores antigos tudo faziam para desqualificar os diplomados afirmando que chegavam cheios de teorias e quase nada de prática. De certa parte aquilo tinha até razão de ser porque, na verdade, era o dia a dia, ali no batente das matérias, que terminava por formar um grande jornalista.
No entanto, o jornalismo se tornou mais profissional, sério, com maior credibilidade e ética a partir da formação acadêmica somada à prática. O tempo passou e há cerca de 20 anos, se não me engano, um movimento contrário à obrigatoriedade da graduação fez com que o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovasse que, para ser jornalista, não seria mais necessário ter o diploma.
Todo esse “nariz de cera” é para também lembrar que estamos na Semana do Jornalista que se comemora no próximo dia sete de abril. A Federação Nacional dos Jornalistas-Fenarj e os seus sindicatos tentaram reverter aquela decisão do STF, mas, infelizmente, se acomodaram politicamente. Perdemos essa prerrogativa que é dada à grande maioria das profissões.
O resultado disso é que nos tempos atuais, principalmente com o advento das novas tecnologias eletrônicas da informática, dos meios virtuais, todos são chamados de jornalistas e nem mais se pergunta se você tem ou não um diploma. Isso deixa um veio de frustação em quem passou quatros anos numa faculdade.
Agora, a própria Fenarj e os sindicatos estão lançando a chamada Campanha da PEC do Diploma nessa Semana do Jornalista, movimento esse tardio, mas que nunca deixa de ser providencial, e vamos torcer que a categoria se una em torno desse projeto que deverá ser aprovado pelo Congresso Nacional.
Outra questão que deve ser sempre combatida é a da violência contra o jornalista que começou a existir desde os primeiros jornais com a chegada de D. João VI ao Brasil. O profissional sofreu seus períodos mais duros nas eras do coronelismo e, notadamente, nas ditaduras de Getúlio Vargas (1930-45) e na mais recente de 1964 que experimentou o brutal AI-5.
Nessa Semana, o jornalismo tem que lembrar e debater o problema da violência, da qual fui vítima por várias vezes. Essa história da agressão ao jornalista, bem viva entre nós no governo passado do capitão-presidente Bozó, tem que ser contada e discutida.
Não basta a reconquista do diploma, mas também criar dispositivos para que a liberdade de expressão jornalística nunca mais seja tolhida. Temos que permanecer lutando diariamente por uma livre imprensa, porque os agressores contra à democracia continuam sempre de plantão.


















