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:: 13/maio/2023 . 0:09

CASA CHEIA

Coisa rara aconteceu na sessão ordinária de quarta-feira (dia 10/05) da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista que sempre é realizada pela manhã (a outra é na sexta-feira – duas sessões por semana)! A casa estava superlotada, fenômeno difícil de acontecer, mas havia uma explicação. É que os agentes comunitários de saúde resolveram invadir o plenário para solicitar apoio dos parlamentares no sentido de que o poder público implante o plano de cargo e reajuste o salário desses servidores. A administração municipal não quer negociar com o sindicato, tendo em vista o piso salarial decretado pelo governo federal. Em dias normais fala mais alto o individualismo do brasileiro, e o recinto sempre está vazio. As pessoas ou as categorias sociais só procuram a política quando têm um interesse próprio e ainda tem aquelas classes desunidas, caso dos artistas. Ao ver a Câmara cheia logo imaginei se assim estivesse se fosse uma audiência pública sobre a nossa cultura, mas cair na real que seria difícil porque cada um só pensa em si.

“FLUXO E REFLUXO” XVIII

ACEITAÇÃO DAS CULTURAS BRASILEIRA E AFRICANA E O RETORNO DOS ESCRAVOS À SUA TERRA NATAL.

Em sua pesquisa que resultou no livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger mostra duas tendências dos escravos, alforriados, mulatos e crioulos, com foco especial na Bahia. Um grupo preferia manter suas origens, costumes e religião africana e outro procurava se adaptar à cultura brasileira.

Outra questão por ele abordada foi a do retorno dos africanos para sua terra natal, principalmente para o Golfo do Benin (jêje-mahi) e para a região de Lagos, no caso povos das nações nagôs-iorubás, tapas e haussás.

Esse refluxo começou a partir do meado do século XIX com as sublevações e a chegada de colonos brancos que passaram a ocupar o trabalho dos negros. Os senhores pagavam bem mais pelos serviços prestados pelos brancos. Muitos se resignavam com a situação, mas outros se rebelavam.

LEIS DE DEPORTAÇÃO

Existiram até leis brasileira e municipais no sentido de deportar os negros, obrigando a pagar suas despesas. Os patrões abusaram dos escravos e depois resolveram abandoná-los à própria sorte.

Quanto a religião católica que obrigava que os cativos professassem, muitos “trapaceavam” e fingiam seguir o catolicismo, mas misturavam as rezas e os santos com seus rituais de candomblé.

Com receio de levantes e como forma de apaziguar os africanos, o governo até encorajava eles a se encontrarem aos domingos nos batuques organizados por nação de origem, mas isso depois foi proibido.

Para evitar que um mal comum os aproximasse, o governo achou prudente autorizar as distrações aos domingos, que lembrassem suas identidades africanas. Existiam preconceitos e ódios entre etnias africanas advindos das antigas guerras tribais. O resultado das reuniões acabou sendo o de manter o culto aos seus deuses orixás e aos vuduns, divindades dos nagôs e dos fons do Daomé.

No entanto, não demorou muito e o governo começou a impedir suas batucadas. Na Bahia, entre os objetos encontrados pela polícia nas casas africanas, destacavam-se os instrumentos musicais e acessórios destinados às sessões de candomblé.

Roger Batisde assinala que em 1618, quando da visita da inquisição na Bahia, Sebastião Barreto denunciava o costume que tinham os negros de matar animais quando em luto para lavarem-se em seu sangue, dizendo que a alma deixava o corpo para subir ao céu.

Por volta de 1768 foi denunciada a existência de verdadeiras casas de culto africanas, e muitas foram objetos de perseguição judicial em Pernambuco. As danças eram feitas às escondidas pelos negros da Costa da Mina (Golfo do Benin). Em 1785, de acordo com Verger, os cativos angolanos da Bahia pediam permissão para celebrar a Gloriosa Senhora do Rosário, com máscaras, danças e cantos como antigamente.

Os estrangeiros descreviam esses rituais como animalidades e manifestações estúpidas. Na Lavagem do Bonfim, segundo eles, os atos eram de desrespeito e os jornais noticiavam como abusos e hábitos que a civilização condena. Para os periódicos, era uma orgia desordenada e um verdadeiro bacanal dos tempos pagãos. As canções eram consideradas de prostíbulos. Muitos eram presos em suas casas por terem instrumentos dos cultos.

Em 1857 o município baixou uma decisão proibindo os batuques, danças, reuniões de escravos em qualquer lugar, sob pena de oito dias de prisão para cada um dos contraventores. Em 1859, num lugar chamado de Quinta das Beatas, 42 indivíduos foram presos por terem se reunido em batuques, dentre eles um pai de terreiro de seu candomblé (pai de santo).

A DEPORTAÇÃO DOS AFRICANOS

Por volta de 1850, com o fim do tráfico negreiro e a chegada de colonos brancos, surgia uma discriminação entre os crioulos livres e os africanos emancipados. Os brancos eram trabalhadores braçais que não aceitavam trabalhar no meio de pessoas de cor e escravas, conforme relatava o cônsul britânico no Rio de Janeiro.

Pelo recenseamento de 1848 havia no Rio 8449 africanos livres e 5012 crioulos de cor livres contra 110.512 escravos. Eram 142.403 brancos, entre os quais, 37.924 estrangeiros, sendo a grande maioria de portugueses (oito mil colonos brancos).

Os negros começaram a perder seus serviços e os ganhos eram menores que os dos brancos. Foi aí que os africanos descontentes decidiram retornar aos seus locais de origem. Um africano pediu ao cônsul para achar um navio britânico para transportar 500 pessoas. Eles recusavam ir para outro lugar que não fosse a África.

Na Bahia, o governo, mediante um decreto, encorajava o trabalho de mão de obra nacional e proibia o uso de barqueiro africano fazer seu serviço no cais e nas entradas públicas da cidade. O trabalho era somente para brasileiros e crioulos livres. Por causa disso, 750 africanos emancipados foram expulsos de seu emprego.

O Jornal da Bahia noticiava em primeiro de novembro de 1861 que aquele dia era aniversário da admissão dos homens livres para os serviços desses barcos, excluídos os africanos e os escravos. Em maio de 1853 chegou a ocorrer na Bahia um alarme de insurreição por causa da exclusão dos africanos no mercado de trabalho.

Dizia o cônsul John Morgan que as autoridades tudo faziam para se desvencilharem dos negros livres com o argumento de que a permanência deles na província era um perigo. O cônsul citou que o chefe de polícia, com base na lei brasileira, ordenou uma escuna holandesa que ficasse pronta para partir para a colônia de Elmina, tentando forçar esse pavilhão a transportar negros que estavam presos no Aljube para a costa da África.

O chefe de polícia persistia em violar leis diferentes entre as nações. “Esses africanos são agora arrancados de suas mulheres e de seus filhos com a mesma barbárie que aquela dos infames ladrões de homens que os haviam arrancado, antigamente, de seu país natal” – escrevia o cônsul. Depois de muita conversação, a escuna holandesa foi liberada.

 

 





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