:: ‘Encontro Com os Livros’
O LIVRO CONTINUARÁ VIVO
Há mais de 20 anos quando surgiu a internet e o celular, aquele Motorola chamado de tijolo, muita gente metida a entender do assunto, os mais novos empolgados internautas, saiu espalhando por aí em suas palestras que o livro estava com sua data de morte, e muitos acreditaram nisso. Falavam até que iam para o lixo, ou as traças se encarregariam de destruí-los.
Nunca acreditei nesse papo furado. Aquele discurso me fazia lembrar do mesmo quando surgiu a televisão na década de 50 quando disseram que era o fim do rádio. Depois de todo esse tempo, com o e-book e tudo, o livro de papel, ou o impresso, continua e continuará mais do que vivo, e agora, para nossa felicidade, as crianças e jovens estão criando neles o hábito da leitura.
A prova disso está nas visitações das bienais e nas feiras literárias, com novos lançamentos, e as editoras se reanimando. Todo esse quadro é um bom sinal para o futuro. Parece que a praga do celular está passando da fase da adolescência para uma juventude mais madura e consciente e daí para a idade adulta.
Todo este avanço tem mais a mão do setor privado, do surgimento de novos escritores, inclusive do gênero poético e do romance, e de ações empresariais, do que dos governos municipal, estadual e federal que, infelizmente, pouco têm ligado para a cultura, como é o caso particular de Vitória da Conquista.
De acordo com pesquisas do setor livreiro, cerca de 60% das escolas públicas ainda não têm bibliotecas, contrariando metas do poder público federal de que toda unidade escolar deveria ter seu acervo literário. É muito triste quando ouvimos candidatos pregarem que cultura não dá voto, mas isso vai mudar.
Para suprir essa lacuna, bibliotecas comunitárias de bairros urbanos e até na zona rural estão se espalhando por várias cidades do país, graças a iniciativas de pessoas abnegadas e ávidas pelo conhecimento e pelo saber. É uma constatação de que nem tudo está perdido. Podemos sim, recolocar o livro em seu pedestal dos anos 50 e 60 quando nossos estudantes andavam com um autor debaixo do braço.
Esse quadro pode até demorar mais algum tempo, mas a esperança está nas crianças que estão nos dando esses sinais de que o livro continuará imortal como sempre. É uma luz no fim do túnel depois de anos de escuridão. Esses meninos e meninas serão multiplicadores quando se tornarem pais.
Portanto, em meio a todo esse turbilhão das redes sociais, da tecnologia avançada e da inteligência artificial, o livro viverá. Com o crescimento da leitura, me arrisco a dizer que também os jornais e as revistas impressos também retomarão seus espaços nos meios de comunicação. Quem viver, verá.
“A PODEROSA CAÇADORA DE LIVROS”
Entre os séculos XV ao XIX, os grandes caçadores de livros antigos e raros, a partir da Bíblia de Gutenberg, por volta de 1456, se concentraram entre os livreiros, leiloeiros e afortunados da Grã-Bretanha.
Somente no início do século XX, no pós I Grande Guerra, esse quadro mudou, e os norte-americanos assumiram essa posição de colecionadores, inclusive trazendo livros da Inglaterra, ao ponto do governo inglês impor restrições para que essas obras não saíssem do país, sob o argumento de que essas relíquias já eram do pertencimento do Estado.
Um dos primeiros a investir nesse ramo foi o casal Edward Doheny e a senhora Estelle, mais por iniciativa dela quando o marido, dono de empresas petrolíferas, já se encontrava em decadência e passado por momentos difíceis de idade e suspeito de subornos e corrupções, além de ter perdido seu único filho que foi assassinado.
No livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, da escritora Margaret Leslie Davis, ela descreve que “rastrear o paradeiro das Bíblias ao longo do tempo produz o mapa de valor de influencias em transformação, na medida em que os livros se movem dos confins da Igreja Católica para as bibliotecas dos aristocratas da Europa continental e, em seguida, fluem para os construtores do império da Grã-Bretanha, embelezando a reputação de cada um dos sucessivos proprietários”.
Com Dyson, criador do molho inglês e das ilustradas porcelanas, a classe mercantil mostrou sua ascensão, e agora o centro do poder passa para os Estados Unidos, onde magnatas-colecionadores, como J.P. Morgan e Henry Huntington, começaram a atuar no Novo Mundo, proporcionando um mercado pronto para as bibliotecas que são vendidas para financiar fugas e a recuperação das agruras da guerra.
Os novos reis querem as Bíblias de Gutenberg. Eles obtêm por força de suas personalidades e de seus fundos. Os preços disparam, bem como a comissão paga pelo livro, agora alardeado pelos megafones norte-americanos. O colecionador Lessing J. Rosenwald anuncia que planeja comprar 84 títulos do catálogo do poderoso Dyson e indicou a Bíblia de Gutenberg entre eles.
Nesse esquema também entra a senhora Estelle Doheny, a herdeira, empresária e colecionadora da elite norte-americana que, na hora do leilão, estará no meio de uma caçada, cuja única conclusão possível será a posse do livro.
“Seu desejo por uma Bíblia de Gutenberg, com a busca de décadas que isso lhe custaria, surgiu, pela primeira vez, em 1911, logo após o surto de compras de livros antigos de Dyson, talvez sem saber ter atingido o alvo”. Na verdade, ela só veio a obter a Bíblia de Gutenberg, Número 45, em 1950, após a II Guerra Mundial. De origem católica, seu marido era um imigrante irlandês.
Doheny passou anos como garimpeiro, viajando com mochila e uma mula antes de encontrar o petróleo. Ela era uma telefonista com pouca educação e se tornou numa poderoso caçadora de livros, dentro de uma comunidade que aceita suas contribuições, como a Igreja Católica.
UM DOS MAIORES COLECIONADORES DE LIVROS E ANTIGUIDADES EGÍPCIAS
O livro “Em Busca da Bíblia Perdida de Gutenberg”, da autora Margaret Leslie Davis, faz menção ao grande colecionador de livros raros, dentre eles a Bíblia de Gutenberg, número 45, em poder do Lorde William Tyssen Amherst, que guardava esse precioso volume em sua mansão Didlington Hall, na zona rural de Norfolk, num cofre secreto.
O número 45 coroou uma biblioteca cuidadosamente montada, que traça a história de livros impressos, incluindo ainda instrumentos de corda de Stradivárius, prata finas e porcelanas de Limoges, tapetes persas, capitéis de pedra de Alhambra, em Granada, e os sinos da velha Catedral de Worcester.
No ano em que o número 45 entra em Didlington, as portas da mansão estão ladeadas por sete altas estátuas de duas toneladas de Sekhmet, a deusa egípcia com cabeça de leão, as mesmas que estão hoje ao lado do Templo de Dendur, no Museu Metropolitano de Arte, em Nova Yorque.
Sempre com um livro na mão, ou enfiado no bolso do casaco, Amherst acredita que uma pessoa não pode ser bem-educada se não conhecer e amar os livros. Ele comprou o primeiro incunábulo (livros impressos antes de 1501) em Arles, através do livreiro Bernad Quaritch, durante sua grande turnê.
Com uma grande fortuna, ele e sua família se aventuram pelo Egito e Síria, em complexas caravanas, e retornam com frequência ao Oriente Médio, às vezes permanecendo por meses, adquirindo lembranças e antiguidades a cada visita.
Nas viagens, ele e seus colegas trazem para a mansão, na Grã- Bretanha, a Pedra de Roseta, os mármores de Lorde Elgin, objetos funerários, múmias e deusas dos antigos túmulos do Egito e alguns dos primeiros livros e manuscritos da Europa e do Ocidente, polindo seus troféus de erudição e inserindo-se no discurso.
Por dez mil libras chegou a obter uma coleção de raridades de primeira classe, apenas realizada pelas Bibliotecas do Conde Grawford, do Conde de Ashburnham e da Coleção Spencer.
Finalmente, durante suas investidas, Amherst compra seu Gutenberg, número 45 de Estelle, em 1884, mais de dez anos depois de ter deixado passar os dois primeiros volumes. Ele não compra em leilão, mas em uma transação particular e não divulgada, com o livreiro James Toovey, após o leilão de Gosford.
Durante séculos trabalhou para construir uma história vultosa de livros impressos que incorporam o conhecimento, as paixões e as hostilidades das pessoas que os criaram e usaram e, esse único volume, se encaixa nesse quadro, não apenas como a fonte da impressão moderna, mas também como ponto de origem para sua coleção de primeiras edições dos livros oriundos da Reforma.
Sobre a Bíblia, Amherst explica que as grandes folhas de papel eram umedecidas antes de serem impressas, para que pudessem absorver melhor a tinta, e, uma vez feito isso, cada uma era dobrada e perfurada em certos pontos próximos às extremidades com uma agulha ou um furador, fornecendo guias, para que a impressão ficasse exatamente no mesmo lugar na frente, e atrás de cada página.
As Bíblias tinham no geral 42 linhas, para distingui-las de outra Bíblia da época, que se pensa ter sido impressa por um contemporâneo de Gutenberg, que criou o livro com uma fonte semelhante com páginas de 36 linhas. No canto superior direito da capa interna estão escritas a lápis as palavras “Antes de 15 de agosto de 1456”.
EM BUSCA DA BÍBLIA PERDIDA DE GUTENBERG
A SURPREENDENTE ODISSÉIA DE 500 ANOS PELO MAIOR TESOURO LITERÁRIO DE TODOS OS TEMPOS.
Como o próprio título já diz, o livro da escritora Margaret Leslie Davis fala da Bíblia de Gutenberg, uma obra-prima da cultura mundial, mas também faz um relato sobre os grandes colecionadores ingleses de livros raros que tiveram um próspero mercado no século XIX.
Apenas 48 ou 49 exemplares desse livro sobreviveram ao tempo e, destes, somente um, o de número 45 pertenceu à colecionadora norte-americana de Los Angeles Estelle Betzold Doheny, impresso por Johannes Gutenberg, um pouco antes de 15 de agosto de 1456.
Por via aérea de Londres, a colecionadora, viúva de um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, adquiriu esse importante livro em 14 de outubro de 1950. Essa Bíblia está inserida entre os 135 incunábulos, livros impressos antes de 1501.
Os incunábulos são livros seminais da cultura ocidental como “De Officiis”, de Cícero, a “Summa Theologia”, de São Tomás de Aquino e o exemplar de 1476 de “Os Contos de Cunterbury”.
A encadernação original da Bíblia 45 é do século XV, feita em pele de bezerro marrom escuro, esticada sobre pesadas placas de madeira. O exemplar de Estelle é a primeira impressão da primeira edição do primeiro livro impresso com tipos metálicos móveis, com as páginas novas e limpas.
De acordo com a escritora Margaret, a maioria dos estudiosos acredita que Gutenberg produziu cerca de 180 exemplares e, entre estes, provavelmente 150 foram impressos em papel e os outros 30 em pele de animal, conhecida como velino.
Os especialistas presumem que o livro, ao sair da oficina custasse cerca de 30 florins, o equivalente ao pagamento de três anos de um criado. As edições com pergaminho tinham um preço mais elevado, pois eram mais trabalhosas e caras para produzir. Um único exemplar exigia a pele de 170 bezerros.
A secretária Lucille, que cuidou da biblioteca da senhora Estelle, não conseguiu ler o texto do século XIII, em latim, a chamada versão parisiense da tradução de São Jerônimo, que foi a Bíblia definitiva da Idade Média. O livro de Gutemberg foi impresso em agosto de 1456 na cidade de Mainz, no Rio Reno, na Alemanha.
Um dado interessante é que todos os funcionários da oficina de Gutenberg tinham que saber ler e escrever o latim. Outra curiosidade é que os contemporâneos de Gutenberg já haviam começado a decifrar como fazer aquele trabalho, experimentando entalhar letras em madeira ou em metal e organizando-as em palavras para serem estampadas sobre pergaminho.
Gutenberg criou molduras para segurar o tipo no lugar e adaptou prensas daquelas tradicionalmente usadas para prensar azeitonas ou uvas. Projetou letras com aparência gótica para imitar a caligrafia dos escribas e técnicas refinadas para garantir que uma pressão uniforme fosse aplicada às folhas em branco, colocadas sobre os tipos com tinta em relevo.
CIÚMES
Do livro “Suspiros Poéticos” – a beleza da lira cor, da poetisa Regina Chaves dos Santos
O amor é uma unção de beleza e cordialidade!
É uma coisa boa para viver com a pessoa que se ama e divide dos sonhos contigo… a pessoa que se faz presente, – te apoiando e se apoiando em tuas mãos.
Ao contrário, criar contendas sobre a pessoa que está caminhando lado a lado – se chama deslealdade.
O ciúme embota as certezas, deixando no peito, uma triste sensação de esvaziar-se: um grumo na cabeça; uma impaciência na alma; uma angústia no coração; um elo trincado…
Por conta da confiança quebrada e dos porquês não entendidos, não respondidos.
– O amor é uma unção de beleza e cordialidade e os ciúmes, – um misto de mera vaidade!
ZARATUSTRA E SUA MONTANHA COM SUAS CONTROVÉRSIAS E POLÊMICAS
Os estudiosos da área filosófica de um modo geral consideram o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), um filósofo fora da curva, controverso e polêmico, que chegou à sua loucura no final da sua vida, morando recluso com sua irmã.
Ficou órfão de pai aos cinco anos e foi criado, de acordo com nota da Editora Lafonte, que publicou “Assim Falava Zaratustra, pela mãe nos rígidos princípios da religião cristã. Dizem que ele era ateu, mas entendo que morreu intrincado em seu labirinto de dúvidas e certo da morte do Deus antigo, aquele vingativo, ríspido e carrasco idealizado pela religião, daí ter dito que a religião matou Deus.
Nietzsche cursou teologia e filologia na Universidade de Bom e ensinou na Basiléia, na Suíça. Por não conseguir levar a termo uma grande aspiração, a de casar com Lou Salomé, por causa da sífilis, contraída em 1889, isolou-se do mundo, vindo a morrer em 25 de agosto de 1900, em Weimar.
Seu espírito era irrequieto, próprio de um grande pensador. Era poeta por natureza, mas detestava os poetas, para ele mentirosos, dissimuladores e bajuladores. Era sedento por liberdade espiritual e intelectual, bem como apegado ao mundo concreto e real.
Do outro lado, foi um grande defensor da beleza da vida, da terra, dos animais e crítico feroz da fraqueza humana. Vivia uma vida de lutas contra si mesmo, controverso, polêmico e paradoxal.
Em “Assim Falava Zaratustra”, um dos trechos diz que “do alto da montanha, da caverna em que mora com seus animais, Zaratustra perscruta o horizonte, o infinito, o grande mar, o além e paira, junto com sua águia e com sua serpente envolto no pescoço da águia, seus olhares sobre o mundo sobre os pântanos em que se debate a humanidade sem rumo. No topo da sua montanha chegam visitantes desiludidos em busca de solidão, de paz, de sentido da vida”.
Entre os visitantes, o filósofo cita um ilusionista, um mendigo por opção, um viajante, o mais feio dos homens, dois reis, o Papa destronado, um adivinho e um jumento que se tornar novo líder desses homens e adorado como um deus. Eles tentam conviver em harmonia, aprendendo a sorrir, a dançar e sentir suas próprias almas. Terão coragem de se superar, vencer a si mesmos, suas angústias, de se transformar em homens superiores e atingir o ápice de super-homem? – indaga Zaratustra.
Em sua obra, Nietzsche nos deixa vários de seus pensamentos, como a de que a coragem mata a própria morte para recomeçar a vida. Quando o homem mergulha na vida, em seu olhar interior, também mergulha no sofrimento. Toda verdade é sinuosa. No céu e no sol está toda sabedoria, não no homem.
Em sua montanha, Zaratustra chega a fazer uma ode ao sol e ao céu. Ao se referir ao sol, em suas reflexões na caverna da sua montanha, chega a firmar ter desejos de ser fios de ouro como o relâmpago e tocar também em tua pança. Segundo Zaratustra, a liberdade total e a racionalidade são impossíveis e irascíveis.
“FORA DE SERVIÇO”
UM DIÁLOGO ENTRE UM ANTIGO PAPA E ZARATUSTRA SOBRE DEUS E SEU FILHO, NO LIVRO “ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”, DE NIETZSCHE
No capítulo “Fora de Serviço”, Zaratustra, personagem do livro de Nietzsche, se encontra, em sua caminhada, com um homem alto e escuro, na verdade o último Papa, um compungido, difamador do mundo, segundo sua avaliação.
Ele praguejava e, então, se dirigiu a Zaratustra que tentou se desviar dele. No entanto ele foi ao seu encontro, dizendo que “isto aqui é um mundo estranho e longínquo. Ouvi rugido de feras. Quem poderia me acolher já não existe. Procuro um santo, um ermitão, único que ainda não ouvira dizer o que toda gente hoje sabe”.
– “Que é que toda gente sabe hoje?” – perguntou Zaratustra. Talvez já não esteja vivo o Deus antigo, o Deus em quem antes toda gente acreditava.
O velho Papa respondeu ter servido a este Deus antigo até sua última hora. “Agora, porém, estou fora de serviço. Encontro-me sem amo e, apesar disso, não sou livre. Por isso só tenho alegrias com minhas recordações”.
Logo depois afirmou ter subido até a montanha para celebrar uma festa, pois “sou o último Papa!” , mas morreu o mais piedoso dos homens, o santo do bosque que louvava Deus. Como não encontrou na cabana, o homem ressaltou ter visto dois lobos que uivavam por causa da sua morte.
– Então meu coração decidiu procurar outro, o mais piedoso de todos os que não acreditam em Deus, Zaratustra, que pegou em sua mão e com olhar fixo disse: “Olha reverendo, que bela e longa mão que sempre deu a benção”.
-Eu sou Zaratustra, o ímpio que diz : “Quem há mais ímpio do que eu, para me alegrar com seus ensinamentos?” O Papa afirmou que agora o mais ímpio era ele.
Então Zaratustra indagou se o Papa sabia como ele morreu. “É certo o que se diz, que o asfixiou a compaixão? Ou ver o homem suspenso na cruz e não poder suportar que o amor pelos homens viesse a ser seu inferno e afinal sua morte?”
O antigo Papa não respondeu. – Deixa-o ir, já partiu – acrescentou Zaratustra. “É certamente em tua honra que nada de mal se deva dizer a respeito desse morto, mas tu sabes que ele seguia caminhos singulares”.
O Papa foi um bom servidor ao longo de seus anos e enfatizou que era um Deus oculto, cheio de mistérios, “Na verdade, teve um filho por estranhos caminhos oblíquos. Às portas de sua fé se encontra o adultério”. O velho Papa desatou a conversar:
– Aquele que o louva como Deus do amor, não forma juízo bastante elevado do amor em si. Esse Deus não queria ser juiz também? Mas amar é amar acima do castigo e da recompensa.
– Quando moço, esse Deus do oriente era ríspido e estava sedento de vingança. Criou um inferno para alegria de seus prediletos.
– Por fim, fez-se velho e meigo, terno e compassivo, assemelhando-se mais a um avô do que a um pai e até, mais a uma avó decrépita.
– Lá estava ele sentado, tristonho, ao lado do lume, preocupado com a fraqueza das pernas, cansado do mundo, cansado de querer, e um dia acabou por se afogar em sua excessiva compaixão.
Zaratustra interrompeu o Papa perguntando se tinha visto tudo que ele dizia com seus próprios olhos. “Pode muito bem ter sido assim. Assim e também de outra maneira. Quando os deuses morrem, é sempre de várias espécies de mortes”.
Desta ou de outra maneira já não existe. Era contrário ao gosto dos meus olhos e de meus ouvidos, isso é o pior que tenho a dizer dele – replicou o Papa.
Então, Zaratustra emendou que “gostava de tudo que tem o olhar claro e a fala franca. Ele, porém, bem o sabes, antigo sacerdote, tinha qualquer coisa de tua raça, dos sacerdotes: Era ambíguo”.
– Também era confuso. Quantas coisas não nos lançou no rosto, esse colérico, por falta de compreensão. Mas por que ele não falava mais claro?
– E se a culpa era de nossos ouvidos, por que nos deu ouvidos que o ouvissem tão mal? Se nos nossos ouvidos havia lama, quem a pôs lá? … Basta de um deus desses! É melhor não ter nenhum, é melhor cada um criar os destinos a seu capricho, é melhor ser doido, é melhor sermos nós mesmos deuses”.
O Papa ficou espantado e falou a Zaratustra que, com sua incredulidade, era mais piedoso do que pensava. “Foi algum deus que, convertendo-te fez de ti um sem-deus”. Disse ainda que sua excessiva lealdade iria conduzí-lo mais além do bem e do mal.
– Porque esse Deus antigo já não está vivo. Está morto e bem morto” – assim falou Zaratustra, encerrando sua conversa com o antigo Papa.
“DIÁLOGO COM OS REIS”
Zaratustra estava caminhando por suas montanhas e bosques quando passava um singular cortejo de dois reis adornados de coroas e faixas de púrpura. Diante deles ia um jumento carregado. Zaratustra pensou consigo e falou em meia voz: “Que querem esses reis aqui em meu reino, caso raro, dois reis e um asno”!
Essa narrativa está no livro “Assim Falava Zaratustra”, do filósofo alemão Nietzsche, no capítulo “Diálogo com os Reis”. Os dois ouviram alguma coisa na moita e imaginaram ser algum pastor de cabras ou um ermitão. Um deles disse que “a absoluta ausência da sociedade também prejudica os bons costumes”.
No diálogo, o outro replicou que “antes viver com ermitões e pastores do que com nossa plebe dourada, falsa e polida, embora a ela se costume chamar a boa sociedade, a nobreza. Veja aqui que Nietzsche classifica a nobreza de plebe dourada.
Na conversa, um afirmou para o outro que ali tudo é falso e corrompido, a começar pelo sangue, graças a estranhas e malignas enfermidades e a piores curandeiros.
– O melhor para mim e o que hoje prefiro é um camponês sadio, tosco, astuto, tenaz e resistente. Hoje o camponês é o mais nobre, o melhor que temos e a raça dos camponeses deveria reinar. Vivemos, porém, no reinado da plebe, num amontoado. Já não me iludo mais – assinalou um deles.
O outro respondeu: “Amontoado de massas. Ali tudo está misturado: O santo e o bandido, o fidalgo e o judeu e todos animais da arca de Noé”.
– Os bons costumes! Entre nós tudo é falso e corrupto! Já ninguém sabe reverenciar. Disso, justamente, é que nos devemos livrar. São cães domesticados e importunos. Ocupam-se em dourar palmas – exclamou o outro.
– O desgosto que me sufoca é nos termos nós mesmos, reis, tornado falsos e nos cobrirmos e nos disfarçarmos com o fausto passado de nossos ancestrais. Não passamos de medalhas para os mais tolos e os mais astutos e para todos os que hoje traficam com o poder!
Ao ouvir tudo isso, Zaratustra saiu de lá e se apresentou. Ressaltou ter gostado quando os reis disseram para que servimos ainda nós, os reis. “Aqui estais em meu reino e sob o meu domínio. Talvez aqui possais encontrar pelo caminho o que eu procuro, o homem superior”.
Eles falaram que a espada da palavra de Zaratustra cortava a mais profunda escuridão de seus corações. “Descobristes nossa angústia porque nós vamos em busca do homem superior a nós. Para ele trazemos este jumento”.
Então, Zaratustra resolveu dizer uns versos para os reis: “Nunca o mundo caiu tão baixo – enfatizou. – Roma se tornou prostituta e antro de prostitutas. O César de Roma degenerou em besta. O próprio Deus se tornou judeu. Os reis gostaram do que ele falou.
Em seguida, revelaram que os inimigos de Zaratustra nos mostravam tua imagem num espelho. Vimos a figura de um demônio de riso sarcástico, de modo que nos amedrontaste. Que nos importa seu semblante”!
Ao se dirigirem a Zaratustra, disseram ser preciso ouvir aquele que nos ensina que “deveis amar a paz como meios de novas guerras e a breve paz mais do que a prolongada”!
– Ó Zaratustra! A estas palavras ferveu em nossos corpos o sangue de nossos pais. …Nossos pais tinham sede de guerras, à semelhança dessas espadas.
Quando os reis falaram da felicidade de seus pais, Zaratustra sentiu vontade de zombar daquele ardor pelas guerras, porque eram reis pacíficos… Zaratustra, então, levou os reis até sua caverna para prosear.
“OS POETAS SÃO MENTIROSOS”
Além de depreciar as mulheres, no livro “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche diz através de seu personagem, que “os poetas são mentirosos”. Um dos seus discípulos, então, indaga por que dizeis que eles mentem?
Ele responde que não pertence ao número daqueles a quem é lícito interrogar sobre seu porquê. “Por acaso nasci ontem? Há muito tempo, tudo o que opino repousa sobre experiências vividas”. É bom lembrar que Nietzsche é um filósofo complexo e fora da curva que viveu no século XIX.
Zaratustra também é um poeta. Julgas, então, que ele falava a verdade? Que razão tens de acreditar? O discípulo respondeu que acreditava em Zaratustra, que maneou a cabeça e sorriu: “A fé não me torna feliz, e a fé em mim mesmo, menos ainda que qualquer outra. Nós somos mentirosos demais”.
“Sabemos também pouco demais e aprendemos mal demais. Assim somos forçados a mentir. Logo, quem entre nós, poetas, não terá alguma vez adulterado seu vinho? Muitas misturas envenenadas se têm feito em nossas tabernas”.
“E é por sabermos pouco que nos seduzem os pobres de espírito, especialmente quando são mulheres jovens”. Para ele, só as mais velhas têm o eterno feminino. “É como se existisse um caminho secreto que conduzisse ao saber que seria subtraído aos que aprendem alguma coisa, assim cremos no povo e em sua “sabedoria”.
De acordo com a fala de Zaratustra, os poetas supõem sempre que a própria natureza está apaixonada por eles. E que desliza até seus ouvidos para sussurrar coisas secretas e palavras carinhosas. “Disso de gabam e se gloriam, perante todos os mortais”.
“Ah, existem tantas coisas entre o céu e a terra que só os poetas puderam por um pouco sonhar”. Para Zaratustra, sobretudo no céu porque todos os deuses são símbolos de poetas e subterfúgios de poeta.
“A verdade é que sempre nos sentimos atraídos para o reino das nuvens. Sobre elas instalamos nossos manequins multicoloridos, a quem chamamos de deuses e super-homens”.
Quando ele afirmou que estava farto dos poetas, o discípulo ficou um tanto irritado. Zaratustra também se calou, mas depois confirmou que estava cansado dos antigos e dos novos. “Para mim todos são superficiais, todos são mares sem profundidade”.
Em seu diálogo sobre os poetas ainda destacou que “gostam de se fazer passar por conciliadores. Mas, para mim, são sempre pessoas de meios termos, de sonhadores…”! ”Lanceira minhas redes nos mares deles para apanhar belos peixes, mas pesquei somente a cabeça de um deus antigo”. Segundo Zaratustra, talvez os próprios poetas tenham nascido do mar.
“Também do mar aprenderam sua vaidade. Não é verdade que o mar é o primeiro dos pavões reais? Já vi poetas se transformarem e já os vi voltar contra si mesmos seu olhar. Vi chegar redentores do espírito, Tinham nascido entre os poetas”.
ALGUNS DE SEUS PENSAMENTOS
Estou finalizando a leitura de “Assim Falava Zaratustra”, de Nietzsche, um filósofo ateu, complexo e um ponto fora da curva do século XIX que, para começar, menospreza, deprecia os poetas e as mulheres. Para ele, só as mais velhas são mais sensíveis e maduras que merecem atenção. Quanto aos poetas – por ironia, sua linguagem é quase toda poética entre metáforas e parábolas – são mentirosos e enganadores fúteis.
Bom, vamos a alguns de seus pensamentos, os mais lúcidos e que nos servem de ensinamentos para a vida. No capítulo “DE PASSAGEM”, depois de atravessar muitos povos e cidades, Zaratustra retorna para sua montanha e sua caverna. De passagem, ele se depara com um louco na porta da cidade, que o povo o chamava de “macaco de Zaratustra” porque imitava o próprio em sua linguagem e pensar.
O louco abriu os braços e disse que ali Zaratustra nada tinha a procurar, mas tudo a perder. Ali era um lamaçal! “Isto é um inferno para os pensamentos dos solitários. Aqui se cozinham vivos os grandes pensamentos, aqui se reduzem a papa. Aqui apodrecem todos os grandes sentimentos…”
O “macaco” continuou a falar para Zaratustra: “Não percebes como aqui o espirito se tornou um jogo de palavras? Cospem repugnantes intrigas verbais! E dessas intrigas fazem, os de cá, ainda jornais (hoje poderia ser redes sociais).
“Provocam-se sem saber porquê. Entusiasmam-se e não sabem porquê. Sacodem suas latas, tilintam com seu ouro. Sentem frio e procuram calor na aguardente. Aquecem-se e procuram frescor nos espíritos gelados. Estão todos infectados e contaminados pela opinião pública”.
O “louco macaco” insistiu em lhe aconselhar, afirmando que “eu sirvo, tu serves, nós servimos. Assim rezam ao soberano todas as virtudes hábeis, para que a merecida estrela se prenda afinal ao peito esquálido. A lua, porém, ainda gira em torno de tudo o que é terrestre. Assim também o soberano gira em torno do que há de mais terrestre: O ouro dos lojistas. Aqui corre sangue pútrido, pobre e espumoso, por todas as veias. Cospe sobre a grande cidade, que é o grande depósito onde se acumulam todos os detritos”.
Como se percebe, o diálogo tem sua própria antítese, e Zaratustra manda o “louco” se calar exclamando que ele tem vivido muito tempo à beira do pântano ao ponto de teres convertido em sapo e rã. Por que não te retirastes para o bosque. “Desprezo teu desdém e já que me prevines, porque não te preveniste a ti mesmo?
Zaratustra ficou longo tempo calado e disse: “Também sinto repugnância por esta grande cidade e não só deste “louco”. Aqui e acolá, nada há que melhorar, nada há que piorar”.
“DO ESPÍRITO DO PESO”, na fala de Zaratustra, o Nietzsche ressalta que sua linguagem é do povo. Falo de modo rude e franco para os delicados. “Meu pé é casco de cavalo. Com ele troto e galopo por montes e vales, pelo comprido e de cá para lá, e em toda corrida rápido fico endiabrado de prazer”.
Mais adiante, assinala que aquele que ensinar os homens a voar, destruirá todas as barreiras. “O avestruz corre mais depressa que o mais veloz cavalo, mas também enterra a cabeça na pesada terra. Assim faz o homem que ainda não sabe voar”.
“A terra e a vida parecem-lhe pesadas e é isso o que quer o espírito do peso! Mas aquele que deseja ser leve como uma ave deve amar-se a si mesmo”.
“É preciso aprender a amar-se a si próprio com amor sadio, a fim de aprender a suportar a si mesmo e a não vaguear fora de si mesmo”
“Amor ao próximo”, assim se chama o fato de vaguear fora de si mesmo. É com esta expressão que se tem mantido e fingido mais, especialmente por parte daqueles a quem todo mundo dificilmente suporta”.
“A única coisa pesada, porém, para o homem levar é o próprio homem! É que carrega aos ombros demasiadas coisas estranhas. Como o camelo, ajoelha-se e deixa-se carregar bem”. Diz que o interior do homem se parece muito com a ostra: Repelente, viscosa e difícil de apanhar.
“Também nos enganamos muito acerca do homem, por haver muita casca pobre e triste de excessiva grossura. Há muita força e bondade ocultas que jamais foram desvendadas…”
“O homem é difícil de descobrir, e ainda mais para si mesmo. A inteligência mente muitas vezes acerca do coração. Isso é o que faz o espírito do peso”.
“Na verdade, também não gosto daqueles para quem todas as coisas são boas e que chamam a este mundo o melhor dos mundos. Chamo-os de oni-satisfeitos”.
“A facilidade de gostar de tudo não é dos melhores gostos. Louvo as línguas delicadas e os estômagos escrupulosos que aprendem a dizer: “Eu” e “Sim” e “Não”.
“Mastigar e digerir tudo, porém, é fazer como os suínos. Dizer sempre sim, isso só os asnos e os de sua espécie aprendem. O que meu gosto deseja é o amarelo intenso e o roxo quente, mistura de sangue com todas as cores. Mas aquele que cai de branco revela ter uma alma caiada de branco”.
“Eu não quero estar ou morar onde toda gente escuta. Este é agora meu gosto: Prefiro viver entre perjuros e ladrões. Ninguém tem boca de ouro. O animal mais repugnante que tenho visto entre os homens chamei-o de parasita. Não queria amar e queria viver de amor”.
“Chamo desgraçados todos aqueles que só podem escolher entre duas coisas: Tornar-se animais ferozes ou ferozes domadores de animais. Não gostaria de erguer minha tenda ao lado deles”











