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:: ‘Encontro Com os Livros’

“DA LIVRE MORTE”

No capítulo “Da Livre Morte” do livro “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche diz que “muitos morrem tarde demais e alguns cedo demais. Ainda nos soa estranho esse preceito: “Morrer a Tempo”.

Quem nunca viveu a tempo, como há de morrer a tempo? “Morre sua morte, aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem”. Ele fala dos homens que ainda não aprenderam como celebrar as mais belas festas. É enigmático.

De acordo com Zaratustra, “combatente e vitorioso odeiam igualmente vossa morte cheia de caretas, que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.

Ainda sobre a morte, Nietzsche destaca que “em alguns envelhece primeiramente o coração, em outros o espírito. E alguns são grisalhos desde sua juventude, mas quem tardiamente se torna jovem por mais tempo permanece jovem”.

Prossegue em sua pregação, dizendo que “muitos falham em sua vida. Um verme venenoso lhes devora o coração. Que tratem ao menos de ter melhor êxito em sua morte”.

Ao fazer uma comparação com maçãs azedas e outros frutos, diz que existem aqueles que ficam e permanecem por excessivo tempo dependurados em seus ramos. “Que venham uma tempestade que faça cair da árvore todos esses poderes e bichados”!

“Na verdade, cedo demais morreu aquele hebreu a quem veneram os pregadores da morte lenta e para muitos foi fatalidade ter ele morrido cedo demais”.

“Ele só conhecia ainda lágrimas e melancolia dos hebreus, juntamente com o ódio dos homens de bem e dos justos, esse hebreu Jesus; por isso o acometeu o desejo da morte”.

“Por que não ficou no deserto, longe dos homens de bem e dos justos? Talvez tivesse aprendido a viver e a amar a terra e, mais ainda, a rir! Acreditai em mim, meus irmãos! Morreu cedo demais! Ele mesmo se retrataria de sua doutrina se tivesse vivido até minha idade! Era bastante nobre para se retratar” – assim falou Zaratustra aos seus discípulos.

“Mas não estava ainda maduro. O amor do jovem é imaturo e imaturo também seu ódio do homem e da terra. A alma e as asas do espírito lhes são ainda atadas e pesadas”.

“Assim, eu mesmo quero morrer, a fim de que, meus amigos, por amor de mim, ameis com mais amor a terra. E a terra quero voltar a ser, a fim de encontrar repouso naquela que me gerou”.

 

“DA VIRTUDE GENEROSA”

“Quanto mais você cresce, mais você sente sofrimento” – disse Nietzsche em seu livro “Assim Falava Zaratustra”. No capítulo “Da virtude generosa”, Zaratustra deixou seus discípulos na cidade de nome “Vaca Malhada” e falou que queria prosseguir sozinho porque era amigo das caminhadas solitárias.

Antes disso, indagou por que o ouro tinha alcançado o seu mais alto valor. “Por ser raro e inútil, de brilho cintilante e brando. É somente por ser imagem de virtude suprema que o ouro se tornou o valor supremo. A virtude suprema é uma virtude generosa”.

Ao pregar sobre o amor, assinalou que, na verdade, é preciso que esse amor generoso se faça de todos os valores sua presa, “mas eu chamo sadio e sagrado esse egoísmo”.  Ele se referia à ambição da pessoa querer se converter em vítima e oferenda. “Por isso tendes a sede de acumular todas as riquezas em vossas almas”.

Nietzsche falou sobre outro egoísmo, aquele ”demasiado pobre que morre de fome, que quer roubar sempre, o egoísmo dos doentes, o egoísmo doente”.

“Com olhos de ladrão olha tudo o que reluz, com a avidez da fome mede aquele que tem abundantemente do que comer e sempre gira em torno da mesa dos que dão”. Ele perguntou aos discípulos qual coisa parecia pior de todas, e respondeu ser a degenerescência quando falta generosidade à alma.

“Caminhamos para as alturas, ultrapassando a espécie para atingir a espécie superior, temos horror ao sentido degenerado, o sentido que diz: Tudo para mim”. Para o filósofo, o sentido quando voa para o alto, torna-se imagem do nosso corpo, imagem de uma ascensão.

“Assim caminha o corpo, ao longo da história, evoluindo e lutando. E o espírito? Que é ele para o corpo? É arauto, companheiro e eco de suas lutas e vitórias”. Prosseguiu afirmando que todos os nomes do bem e do mal são imagens. Louco é aquele que delas (imagens) quer receber o conhecimento. Recomendou ter atenção a qualquer um dos momentos em que vosso espírito quer falar em imagens. “Ali está a fonte da virtude”.

Ao dirigir-se novamente aos seus discípulos, aconselhou que permanecessem fiéis à terra com todo poder de vossas virtudes. “Que vosso amor generoso e vosso conhecimento estejam a serviço da terra”.

“O espírito, bem como a virtude, tem-se extraviado e enganado assim de mil maneiras até agora em seu voo. Ai! Ainda agora habita em nosso corpo toda essa loucura e esse desvio: Tornaram-se corpo e vontade”

“Lutamos ainda passo a passo com o gigante Acaso e sobre a humanidade inteira reinou até hoje o absurdo, a falta de sentido”. Ensinou que o espírito e a virtude sirvam para o sentido da terra. Deveis ser lutadores e criadores. De acordo com Nietzsche, o corpo se purifica pelo saber e se eleva com as tentativas conscientes. Para aqueles que conhece, todos os instintos se santificam.

Em sua visão, a terra ainda deverá se tornar um lugar de cura. O homem que busca o conhecimento não só deve poder amar seus inimigos, mas também odiar seus amigos.

Ele fala também em festejar com seus discípulos o meio-dia, fazendo uma alusão à vida. “E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o ocaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã”.

O que declina, em sua opinião, se abençoará a si mesmo por estar passando para outra esfera. E o sol de seu conhecimento atingirá o zênite. Para Nietzsche, todos os deuses morreram. Agora queremos que viva o super-homem.

“ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”

Na obra famosa de Friedrich Nietzsche, no capítulo “Dos Caminhos do Criador”, o filósofo, na palavra de Zaratustra, fala do solitário, aquele que procura a busca de si mesmo. Seu pensamento é complexo com muitos anunciados que nos faz refletir ainda nos tempos contemporâneos.

O filósofo escreveu no século XIX e sobre as mulheres ele seria hoje esconjurado, machista e retrógrado pelo seu menosprezo ao gênero feminino, mas este é outro assunto. Zaratustra dialogo com uma velha senhora quando seguia seu caminho. No final da conversa a velha lhe diz que ele não conhece bastante as mulheres, se bem que tem razão no que prega. Será porque para a mulher nada é impossível?

Sobre a morte, ressalta que uns morrem cedo e outros tarde, daí o preceito de que morre a tempo. “Se nunca vive a tempo, como há de morrer a tempo? Para ele, morrer ainda não é uma festa. Morre sua morte aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem. Fala do aprender a morrer no combate, abençoando os vivos. Combatente e vitorioso odeiam a morte “que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.

Com referência ao solitário e a solidão, Zaratustra diz que, mesmo com toda tua força e coragem, um dia te há de cansar. Algum dia se abaterá teu orgulho, e tua coragem vai cerrar os dentes. Um dia clamarás: Estou só, tudo é falso!

Em sua reflexão, ele afirma que há sentimentos que querem matar o solitário. Se não conseguirem, eles mesmos terão de morrer! Quanto ao desprezo dos outros e a procura de ser justo com aqueles que te menosprezam, Nietzsche acrescenta que o solitário obriga muitos a mudarem de opinião a seu respeito. Por isso, “te odeiam com todas as forças”.

Acima deles te elevaste, mas quanto mais alto sobes, tanto menor te vêem os olhos da inveja. Ninguém é tão odiado como aquele que voa diante de todos. “Sobre o solitário, atiram baixeza e injustiça”. Zaratustra aconselha que o solitário se livre dos impulsos do amor porque ele estende depressa a mão ao primeiro que encontra.

“Há homens a quem não deves dar a mão, mas tão somente a pata. Além disso, quero que tua pata tenha garras. O pior inimigo, todavia, que poderás encontrar, és tu mesmo. Nas cavernas e nos bosques és tu que te espreitas a ti mesmo. Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, doido, incrédulo, ímpio e malvado”.

De acordo com sua fala, o solitário segue o caminho daqueles que amam. “Vai para tua solidão, com minhas lágrimas, meu irmão, com teu amor e com teu ato criador. Somente mais tarde, com passo claudicante, a justiça chegará a ti”.

No que se refere ao ser humano, Zaratustra o compara com o camelo, o leão e a criança, e afirma que existem coisas pesadas para o espírito sólido. Quanto ao camelo, o espírito é uma besta de carga a escalar altas montanhas. Padece fome na alma, ama os que nos desprezam e estende a mão aos fantasmas.

Com sua carga, conforme seus ensinamentos, o camelo corre ao deserto. Assim é o espírito. Na extrema solidão, o espírito se transforma em leão, rei do seu próprio deserto, e luta como um dragão. Tu deves brilhar nesse caminho de escamas de ouro.

Em sua concepção, somente o leão poderá criar a liberdade. Já o espírito dócil pensa criar novos valores. Para o jogo da criação é preciso uma santa afirmação de criança. Ensina que deves reconciliar contigo mesmo, manter-se sempre acordado, apesar da fadiga e conservar a alma serena.

As coisas ruins não combinam com um bom sono, o senhor das virtudes. “Existem sábios que pensam no sono sem sonhos”. Mantenha paz com o diabo do teu próximo. Com relação ao poder, Nietzsche, na fala de Zaratustra, ressalta que ele gosta de andar com pernas tortas. Em seus diálogos filosóficos, muitas vezes ele entra em contradição, ou parece ser isso.

 

“ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”

Difícil de ser entendido, Friedrich Wilheim Nietzsche nasceu em Rocken, na Alemanha, em 15 de outubro de 1844. Ainda jovem virou pastor e tornou-se num dos mais importantes pensadores do século XIX. Aos 24 anos chegou a lecionar filologia na Universidade de Basileia, mas parou seu trabalho, em 1979, por questões de saúde. Passou a levar uma vida marcada por crises e tentativas de suicídio. Em 1882 começou a escrever sua obra famosa “Assim Falava Zaratustra”. Teve intensa produção, interrompida, em 1889, por uma loucura que durou até sua morte, em 25 de agosto de 1900.

Na apresentação do livro, editora Lafonte, escrito pelo tradutor, na palavra de Zaratustra, que viveu dez anos na montanha, Nietzsche diz que o homem e a sociedade vivem em hipocrisia, à sombra de valores que não correspondem às aspirações do ser humano, porquanto marcados e conduzidos por um conjunto de leis, costumes e tradições que já foram comprovados, além de desgastados pelo tempo e pela maldade dos homens, aleatórios e inúteis.

Nietzsche aborda os temas centrais da transformação de valores, da erradicação dos males que afligem a sociedade, da libertação do homem como ser superior e da busca da figura do verdadeiro homem ou super-homem. Quando Zaratustra desce da floresta encontra-se com um grupo de gente da cidade e faz um discurso onde as pessoas não lhe dão ouvidos. Ele se vai frustrado e decepcionado.

Em o equilibrista e o palhaço, afirma que o diabo e o inferno não existem, e que nada perco ao perder a vida. Pontua vários problemas do viver, como o trabalho, a distração e o cansaço. Para ele, pobre e rico são duas coisas penosas, como governar e obedecer. Pastor e rebanho são iguais. Nietzsche foi um tanto anarquista quando declara que o Estado é o mais frio dos frios monstros.

Vou aqui apenas citar alguns pontos da fala de Zaratustra que servem de reflexão, muitas delas confusas, contraditórias e retrógradas como dizer que a mulher não sabe fazer amizades, ao compará-la com uma ave ou uma vaca. Boa parte do seu diálogo requer análise apurada porque ele fala por meio de parábolas, linguagens figuradas e metáforas.

Num dos trechos, diz que não seja o refluxo desse fluxo. O crime mais atroz é ultrajar a terra. O homem é um rio poluído. Nessa sua lógica, é também um poluidor, máximas que servem para os tempos atuais. Tem muita coisa de filosófica e poética em suas pregações, como a de que é preciso ser mar. Seja repugnante para ser limpo. Para sair da conformidade, sua razão anseia por saber.

Em sua conversa para os homens da cidade, em seu primeiro contato após dez anos na montanha, diz que, para se chegar ao alto e o além, seja declínio. O que importa é ser ponte e não meta. Seja flecha e passagem para a outra margem. Tem que conhecer o que quer conhecer e faça da sua virtude o seu destino. Ele questiona o viver e o deixar de viver. Sobre o ser humano, ensina que deve cumprir mais do que promete. Isso serve para os nossos políticos.

A cólera do seu deus pode ser sua perdição. Quanto a alma profunda, ressalta que lhe faz esquecer de si mesmo. Aprenda a ouvir com os olhos. Terei que gritar. Vou falar do que é mais desprezível, e aconselha que o homem deve semear o germe da esperança. No que refere às suas conversações com o outro, o qual não consegue lhe entender, afirma que a minha boca não chega aos seus ouvidos.

No sentido figurado das palavras, ou não dos seus pensamentos, Nietzsche termina tocando no problema do meio ambiente quando destaca que o solo rico se tornará pobre e árido, sem germinar nenhuma árvore. Como profeta do tempo, enfatiza que o homem não mais lançara a flecha do seu desejo. Você tem um caos dentro de si para gerar a dança. A terra se tornará pequena, e insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens.

Nietzsche, como todos sabem, é um filósofo incompreensível e cada um faz suas interpretações. Zaratustra assinala, por exemplo, que nada tem de desprezível morrer por causa do teu ofício e que a vida humana é desprovida de sentido. Ele é, ao mesmo tempo, profundo, triste, descrente do ser humano e sem religião. Por falar nisso, disse que a religião matou Deus.

Em seus diálogos, fala muito do ser super-homem. Ouço uivos de lobos famintos. O criador sempre procura companheiros. Meu canto é para os solitários e que existe mais perigo entre os humanos do que os animais. Que minha altivez ande ao lado da sabedoria. Vamos ter mais Nietzsche nos próximos capítulos, esse Zaratustra, esse maluco.

No capítulo “Do Amor ao Próximo” em “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche dizia que esse amor é vosso mau por vós mesmo. O Tu foi santificado, mas o Eu não. Mais elevado que o amor ao próximo é o que está por vir, as coisas, os fantasmas. Você tem medo dos fantasmas e procura refúgio junto ao teu próximo. Ele afirma que o convívio com os homens estraga, sobretudo quando não se tem caráter.

“A MÁSCARA DA AFRÍCA” XV

GANDHI NA ÁFRICA DO SUL

  1. V. S. Naipaul narra, em sua obra, “A Máscara da África”, a visita de um grande homem que visitou a África do Sul nos anos de 1890 e terminou ficando 20 anos naquele país para ser a voz do seu povo que era discriminado e menosprezado.

Esse homem era Mohandas Gandhi. Ele saiu de Durban a Joanesburgo e a Pretória, em parte uma versão moderna da Grande Marcha, feita por trem e diligência. Foi um calvário, mas essa viagem modificou sua vida e o colocou no caminho da obra testemunhada em sua país, na Índia.

Existe um monumento para ele em Joanesburgo e em Pretória. Ele foi para África do Sul, em 1893, quando ainda tinha 24 anos por causa de conexões familiares como advogado, a convite de um empresário indiano mulçumano.

Como profissional na Índia só tinha estado no tribunal uma vez, em Bombaim, num caso ridículo de Pequenas Causas. Para Gandhi foi um fiasco porque ele se levantou no momento em que deveria interrogar as pessoas do outro lado, mas se sentiu intimidado.

Em pleno tribunal, ele se sentou e transferiu o caso para outro colega que atuou brilhantemente com a questão. A partir dali ficou mortificado e achou que, como advogado, deveria evitar tribunais e apenas rabiscar petições.

Foi aí que veio a oferta sul-africana de um amigo da sua família para passar um ano na África do Sul, com bilhete de volta na primeira classe. Na sua visão, estava indo mais como um serviçal do que como advogado, mas aceitou a ideia da aventura.

Tudo começou com uma lenta viagem marítima de Lamu, Mombaça, Moçambique e depois Durban. Lá conheceu seu empregador que lhe disse que seria um elefante branco na firma. Gandhi descobriu que o caso legal era de contabilidade. Comprou um livro e começou a estudar. Ficou sabendo tudo que precisava.

Depois de oito dias compraram um bilhete para ele de primeira classe com direito a um leito para Pretória. No entanto, ele preferiu poupar o dinheiro. Foi, então, que seu calvário começou nas paradas entre Maritzburg, Charlestown e Standerton. Nesses locais, Gandhi sofreu insultos, vergonha e medo por causa de um tratamento vil e violento.

Em Maritzburg, o atendente da ferrovia lhe perguntou se ele havia pedido um leito. Gandhi confirmou que sim. Vieram dois agentes e depois um terceiro que lhe disse que deveria se mudar para o compartimento de bagagem. Quando Gandhi se recusou, chamaram um policial que o empurrou para fora. Fazia muito frio. Tinha um casaco na bagagem, mas pensou que se pedisse seria insultado.

Naquela noite, imaginou retornar para a Índia ou seguir para Pretória. Concluiu que devia ficar e lutar contra a doença do preconceito. Decidiu pegar o próximo trem. Era um homem correto e da lei.

Na manhã seguinte enviou um longo telegrama ao gerente geral da ferrovia. O trem em que embarcou, com o bilhete do leito, o levou até Charlestown. Acontece que o calvário continuou. Não havia ferrovia para Joanesburgo, apenas uma diligência. O condutor lhe atormentou não permitindo que Gandhi se sentasse dentro do carro, mas no estribo da carruagem. Passou a viagem toda chutando Gandhi, tanto que os outros passageiros protestaram.

A diligência parou no vilarejo de Standerton para passar a noite. Havia enviados lá a mando do empregador para recebê-lo. Ele aproveitou o tempo para escrever uma longa carta ao agente da empresa de diligências. Recebeu uma resposta encorajadora. A diligência era maior e o funcionário estúpido não estaria nela.

Os indianos do empregador encontraram um bom lugar para ele e, finalmente, chegou a Joanesburgo. Para o trecho final até Pretória, redigiu um bilhete ao chefe da estação dizendo quem era e foi pessoalmente de casaca e gravata comprar o bilhete (existe na África do Sul uma fotografia dele com esses trajes).

O homem da bilheteria era da Holanda e lhe tratou bem. Naquela época, segundo o autor do livro, Gandhi acreditava no Império Britânico. “Acreditava que os indianos na África do Sul eram discriminados porque eram politicamente indiferentes e não eram organizados”.

Quando terminou o seu trabalho, com sucesso, se preparou para retornar para Índia. Foi a Durban esperar um navio e lá viu uma nota no jornal sobre o direito de voto dos indianos onde a Câmara local buscava destituir os indianos de votar. Ele ficou chocado com isso e procurou conversar com os empresários indianos, que não estavam preocupado com a questão.

Gandhi era ainda um jovem tímido e destreinado. Depois de uma discussão, os empresários transferiram o fardo do protesto para Gandhi que adiou sua volta. Então, sua permanência na África do Sul se estendeu por vinte anos.

Estava na meia idade quando partiu, com suas ferramentas políticas e espirituais aperfeiçoadas. Tudo aconteceu naquela longa viagem onde tornou-se um grande líder de homens e passou a ser chamado de mahatma (grande alma).

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” XII

No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, o autor de “A Máscara da África, V. S. Naipaul, após visitar o Museu do Apartheid, destaca o monumento africâner no final da rodovia Joanesburgo-Pretória em homenagem à Grande Marcha dos Bôeres da Colônia do Cabo para o interior na metade do século XIX.

Segundo Naipaul, eles marcharam para se livrar dos britânicos, levando consigo todos seus bens e animais, e foram em carros de boi, numa jornada lenta e árdua. “Os caminhantes nem sempre sabiam o que estavam enfrentando” e muitos deles morreram.

Sobre sua guia turística Fátima, a mestiça coloured, disse que ela na escola teve que estudar sobre A Grande Marcha; todas as escaramuças no caminho se tornaram batalhas. Fátima tinha que saber todos os detalhes de cor. Mesmo assim, num lance de crueldade, a ela não foi permitido visitar o monumento.

A obra é composta de um acampamento circular em seu entorno, com sessenta e quatro carros de bois. Esse número de carros compunha o acampamento quando os participantes foram atacados pelos zulus em 16 de dezembro de 1838. Os zulus foram massacrados e o monumento celebra essa vitória, a de Blood River (rio de sangue).

De acordo com o escritor, as obras do monumento foram iniciadas em 16 de dezembro de 1938, o centenário da batalha. Foi inaugurado na presença de uma multidão de 250 mil pessoas em 16 de dezembro de 1949 por D.F.Malan quando se completou o primeiro ano da política do apartheid, que ele e seu governo do Partido Nacionalista instituíram na África do Sul.

Em seu livro, Naipaul cita o escritor africâner Herman Charles Bosman e sua obra, Mafeking Road, uma das quatro coletâneas de contos. “ O maior conto trata de uma marcha fictícia. A Grande Marcha do Cabo faz parte do folclore daquela gente simples; em sua imaginação, é algo que todos podem tentar. É fácil agora, depois de terminada a guerra dos bôeres, que foi perdida, persuadi-los de que estão prestes a ser oprimidos pelos britânicos lá onde vivem e que devem marchar para a liberdade, para a Namíbia, a África do Sudoeste Alemã”.

“Eu associei os contos de Bosman com o Monumento Voortreker porque ambos compartilham uma ambiguidade, que reside no tema. O Monumento Voortreker não fala apenas da Grande Marcha. Fala também da derrota africana e do sofrimento africano”.

Ao se referir aos contos de Bosman, o escritor de “A Máscara da África” diz que “aquelas pessoas não são apenas gente simples do campo por causa do seu caráter simplório, de sua falta de imaginação, elas trazem um sofrimento indescritível aos africanos que estão entre elas”.

 

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” X

Em sua última viagem pela África, entre 2008/09, V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, nascido em Trinidad, descreve a África do Sul como um outro continente não tropical, de uma outra civilização. Em seu livro-reportagem “A Máscara da África”, partindo de Uganda, ele passou pela Nigéria, Gabão, Congo, Gana e Costa do Marfim.

No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, Naipaul descreve que, “dois dias depois, no centro de Joanesburgo, vi o que tinha acontecido com uma área pós-apartheid da cidade. Os brancos apreensivos com o que o fim do apartheid (durou 36 anos) poderia causar, tinham ido embora, simples assim, e os africanos se mudaram para o lugar, mas não pessoas da região, e sim gente desimpedida dos países ao redor, Moçambique, Somália, Congo e Zimbábue”.

Naipaul cita o escritor Rian Malan, nascido em 1954, de que os brancos construíram uma base lunar para sua civilização; quando ela desmoronou, não havia nada ali para negros ou brancos. “Quarenta anos antes, em Ruanda, às margens do lago Kivu, eu tinha visto uma colônia de férias belga bem mais simples arrebatada pela floresta e pela gente da floresta”.

Os notáveis edifícios e rodovias foram reduzidos a favelas, difíceis de serem reconstruídas. “Havia descobertas adicionais a se fazer dentro daquela nova favela. Um velho e robusto armazém tinha sido ocupado por novas mercadorias, o que parecia uma paródia do que teria existido aqui. Era um mercado de artigos de curandeirice.

“Havia artigos que os curandeiros exigiam que seus clientes comprassem, para serem usados pelo curandeiro como ele bem entendesse, normalmente para fazer remédios que o infeliz enfeitiçado tinha de beber. Os mais inofensivos eram os maços de ervas utilizados para fumigar um cômodo ou uma casa tornar desagradável à vida de um espírito do mal”.

“E logo chegávamos ao reino dos horrores: Partes de corpos de animais expostas numa espécie de plataforma. O ambulante estava sentado num tamborete baixo ao lado de seus artigos, que eram armazenados no próprio mercado. Entre os produtos existiam cabeças de cavalos e cervos rachados ao meio por golpes afiados de facão”.

De acordo com Naipaul, o cheiro era abominável. Além das partes dos corpos dispostos horizontalmente na banca do ambulante, havia pedaços de estômago pendurados em cordões, como peças de pano, de modo que o especialista pudesse escolher ou examinar o que quisesse.

Os ambulantes vendiam porquinhos-da-índia, sacrificados de maneira ritual, com uma faca no coração, um modo muito doloroso. Seu sangue fresco era tomado sob indicação do curandeiro como parte do sacrifício.

“O povo da África do Sul havia travado uma grande batalha. Eu esperava que uma grande batalha tivesse dado origem a um povo maior, um povo cujas práticas mágicas pudessem apontar um caminho para a frente ou para algo mais profundo – observou Naipaul.

Segundo o escritor, “não havia aqui nada de beleza que eu encontrara na Nigéria entre os iorubas, com seu culto, como me pareceu do mundo natural; nada aqui parecia com a ideia gabonesa de energia, vinculada à ideia e ao assombro das florestas portentosas”. Ele fala ainda sobre a rua dos adivinhos, com espaços exíguos e balcões brancos para os clientes ocuparem.

Naipaul escreve também sobre o Museu do Apartheid e apresenta sua guia Fátima, muito discriminada por ser coloured, ou seja, uma pessoa mestiça. Pelo lado materno tinha um bisavô inglês e seu avô paterno era negro, mas a família falava africâner e odiava a pele negra. Sua bisavó era xhosa. As meninas xhosas na escola tinham uma identidade, mas ela não.

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” IX

OS CURANDEIROS E MESTRES DAS FLORESTAS

O autor de “a Máscara da África”, V. S. Naipaul, em sua viagem pelo Gabão, entre 2008/09, quis saber sobre os pigmeus, o pequeno povo, mestres das florestas e descobridores da planta iboga, um alucinógeno usado nos rituais de iniciação. Eles não são muito respeitados pelas outras tribos.

Para entender mais sobre eles, Naipaul conversou com sua guia Claudine, uma apaixonada pelos pigmeus, que vivia na floresta bem perto deles. Disse que achava ser um horror eles serem considerados sub-humanos e incapacitados e ficarem confinados em reservas.

“Não temos nenhum respeito por eles, mas recorremos a eles em segredo para nos curarmos”. Disse: “Quanto mais perto ficamos dos pigmeus, mais entendemos que o mundo tem uma alma e uma vida. Tem energia. Os pigmeus são como nossas lembranças do passado. Eles detêm o conhecimento do mundo”.

De acordo com o escritor, os eventos da segunda metade do século XIX escancararam o continente. No entanto, os pigmeus continuaram apegados à floresta, preservando seu conhecimento onde residia sua civilização. Outras tribos perderam muito disso.

No entendimento de Claudine, no mundo místico você pode fazer um feitiço com a sobra de comida de alguém para ferir essa pessoa. E essa pessoa terá de ir correndo ao pigmeu para ter ajuda. Explicou que aqui existem dois tipos de curandeiro, um que lida apenas com a malária e a gripe e outro que trabalha com problemas maiores, como os feitiços. Para esse tipo, “tem que ser o curandeiro mestre”.

Claudine fala também da existência de duas tribos no sul do Gabão. Uma que lida com as cerimônias da iniciação e os pigmeus que cuidam das plantas, inclusive da iboga. “Por isso se podia dizer que as duas culturas, a dos bantos e a dos pigmeus, tinham se juntado”.

Quanto ao dom da adivinhação, a importância está na comunicação com o ancestral, depois de feita a iniciação. A pessoa só podia aprender sobre sua posição na sociedade através do ancestral. Para isso eram necessários o crânio e os ossos do ancestral, não podendo ser de um sacrifício ritual qualquer – ressalta.

“O crânio e os ossos para esse ritual precisavam vir de um ancião, que, perto de morrer, dava à pessoa permissão de guardar seus ossos como uma relíquia”.

Sobre a ingestão da iboga, Claudine afirma para Naipaul que “a planta é muito amarga. A boca e o corpo ficam dormentes, e toda sensação é realçada. No verdadeiro bwiti (ritual), o ancestral chega às três da manhã e fala uma língua antiga que ninguém entende. Somente os iniciados do terceiro nível conseguem entendê-lo”.

Outra coisa é que para ser um curandeiro é preciso ter um ancestral em algum ponto do passado que tenha sido curandeiro. Naipaul perguntou se os pigmeus são felizes. “São felizes e são gentis, mas são uma raça muito prevenida. Não confiam com facilidade. Ainda caçam à noite e agora têm armas no lugar de armadilhas”.

“Os pigmeus acreditam na natureza. Acreditam que procedem da terra e é por isso que não querem poluí-la com os mortos. Eles não enterram os mortos. Quando um mestre morre, eles o envolve numa esteira e coloca o morto sob uma grande árvore. Deixam ali para apodrecer e ninguém vai àquele lugar. Não vão caçar nem coletar alimento ali. Quando a decomposição está completa, colocam os ossos numa tumba e põem a área em quarentena”.

No cristianismo eles consideram difícil ver Jesus como todo poderoso. Para eles, o poder deve ser distribuído entre os chefes. A média de vida deles é de cinquenta anos porque a civilização introduziu neles várias doenças, como o HIV.

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” VIII

No livro “a Máscara da África”, o autor V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, indaga ao seu amigo Rossatanga sobre o processo de iniciação. Ele responde que tinha ouvido muito acerca da iniciação quando jovem. “Todos no Gabão falam disso, ou ao menos parece. Ela requer um mestre, uma cerimônia com danças e tambores que dura a noite toda, e comer a raiz amarga de uma planta alucinógena, a iboga”.

Naipaul quis saber se nesse ritual de honra ao ancestral também está contida a ideia de virtude. Segundo Rossatanga, “não. Os ancestrais estão lá somente para oferecer resposta para nossos problemas e nos dar o que queremos. Você não tem voz na aldeia nem nos problemas dela se não tiver sido iniciado”.

Quanto ao fruto da banana, ele afirma que é um símbolo sexual da virilidade do menino, que se alimenta dela e o resto das frutas é esfregado em seu corpo. Com respeito às mulheres, ressaltou que elas têm o poder real. “Uma mulher pode não exercer o poder, mas o transmite ao seu filho”.

“Somos uma sociedade matrilinear, e as mulheres dão a vida. Esse país não foi feito para homens. O corpo das mulheres é mais forte e, por isso, são feiticeiras”. Informou ainda que “existem diversos sacrifícios rituais em que os olhos são removidos e a língua arrancada de vítimas vivas. Todo dia há um sacrifício ritual”.

Naipaul também conversou com o professor Gassiti, que também era farmacêutico por conta própria, e quis saber dele sobre a planta milagrosa do Gabão, o iboga. Respondeu que desde tempos imemoriais, a iboga tem sido usada em rituais de iniciação, e esses rituais são exclusivos do Gabão. “Podem ser chamados de patrimônio gabonês. A primeira tribo a conhecer a iboga foram os pigmeus”.

Foram os pigmeus que passaram todo esse conhecimento para outras tribos. “Eram os verdadeiros mestres e agora um americano tem uma patente e ganha milhões com ela”. De acordo com Naipaul, os pigmeus, o pequeno povo, foram os primeiros habitantes da floresta e se tornaram mestres para outras tribos. Conheciam outras incontáveis plantas, suas propriedades curativas ou venenosas. Foram os primeiros a desvendar a iboga alucinógena. Sobre este pequeno povo, vamos falar na próxima postagem.

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” VII

Ainda em sua viagem ao Gabão, pelos idos de 2008/09, a terra dos mestres da floresta, os pigmeus, V. S. Naipaul observou que “qualquer que fosse a religião formal professada pela família (cristã, no caso) havia aqueles antigos costumes africanos que tinham de ser honrados e que eram talvez mais prementes do que a fé exterior formal”.

Ele conversou com seu amigo Rossatanga-Rignault que contou a história dos quatros macacos sentados num cemitério com faixas vermelhas nas testas. “ O vermelho é uma cor muito poderosa do Gabão. Estavam perdidos e, por fim, encontraram o caminho de volta para a aldeia.

Por falar em aldeia, Rossatanga diz que, levado pela sua mãe, quis fugir dela. Lembra que, quando chegaram lá, um homem lhes disse que não jogassem lixo, nem qualquer outro elemento poluente, no córrego que passava pela aldeia. Um espírito ou gênio vivia ali e não gostava que o córrego ficasse sujo. Um americano afirmou que aquilo era magia negra e, para provar sua tese, cuspiu no córrego.

Rossatanga narrou para Naipaul que dez minutos depois não havia mais água ali, e o povo gritou e protestou. A aldeia ficou em pé de guerra. “Tivemos que fazer um monte de coisas por meio do curandeiro local para aplacar o gênio do espírito”. Assinala que “gastamos muito dinheiro e, depois de várias cerimônias e rituais, a água voltou depressa”.

Rossatanga se tornara um crente na magia da floresta e, como outros crentes, tinha diversas histórias para provar sua tese. Ele descreve outra passagem sobre uma ponte que tinham que fazer no rio e que a comunidade alertou para que os engenheiros pedissem permissão ao gênio.

Os engenheiros holandeses apenas riram daquilo. “Todos os dias morria um operário na obra. As pessoas ficaram muito assustadas e até mesmo os engenheiros acharam que deviam suspender o trabalho. Disseram que iam trazer um exorcista junto com o curandeiro local para aplacar o gênio. Executaram diversos rituais e, finalmente, tiveram licença para construir a ponte”.

“Acredito que esses espíritos da floresta estão ligados à psique do nosso povo, mesmo das pessoas que vivem na cidade. Essa é uma razão pela qual as igrejas evangélicas americanas tiveram tanto sucesso aqui. Elas também invocam o espírito do Senhor para remover o mal. É parecido com o que fazemos quando vamos ao curandeiro para remover o mal. O princípio é o mesmo. O ponto comum é o espírito”- comentou Rossatanga.

Para ele, não se trata de uma religião, mas de uma crença. Em sua comparação, a crença da floresta, o mundo orgânico, o mundo que conta, é como uma pirâmide. “O primeiro nível são os minerais, o segundo nível são as árvores e a flora, o terceiro são os animais e o quarto são os seres humanos”.

Em falando dos idosos, em seu entendimento, são especiais porque têm o poder e estão próximos aos ancestrais. Somente os ancestrais podem anteceder junto a Deus. “Cada família tem um ancião que consegue falar com o ancestral. Em cada família existe um homem escolhido para a função. O modo de cultuar é através da iniciação, um rito e uma prática fundamental”.





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