GANDHI NA ÁFRICA DO SUL

  1. V. S. Naipaul narra, em sua obra, “A Máscara da África”, a visita de um grande homem que visitou a África do Sul nos anos de 1890 e terminou ficando 20 anos naquele país para ser a voz do seu povo que era discriminado e menosprezado.

Esse homem era Mohandas Gandhi. Ele saiu de Durban a Joanesburgo e a Pretória, em parte uma versão moderna da Grande Marcha, feita por trem e diligência. Foi um calvário, mas essa viagem modificou sua vida e o colocou no caminho da obra testemunhada em sua país, na Índia.

Existe um monumento para ele em Joanesburgo e em Pretória. Ele foi para África do Sul, em 1893, quando ainda tinha 24 anos por causa de conexões familiares como advogado, a convite de um empresário indiano mulçumano.

Como profissional na Índia só tinha estado no tribunal uma vez, em Bombaim, num caso ridículo de Pequenas Causas. Para Gandhi foi um fiasco porque ele se levantou no momento em que deveria interrogar as pessoas do outro lado, mas se sentiu intimidado.

Em pleno tribunal, ele se sentou e transferiu o caso para outro colega que atuou brilhantemente com a questão. A partir dali ficou mortificado e achou que, como advogado, deveria evitar tribunais e apenas rabiscar petições.

Foi aí que veio a oferta sul-africana de um amigo da sua família para passar um ano na África do Sul, com bilhete de volta na primeira classe. Na sua visão, estava indo mais como um serviçal do que como advogado, mas aceitou a ideia da aventura.

Tudo começou com uma lenta viagem marítima de Lamu, Mombaça, Moçambique e depois Durban. Lá conheceu seu empregador que lhe disse que seria um elefante branco na firma. Gandhi descobriu que o caso legal era de contabilidade. Comprou um livro e começou a estudar. Ficou sabendo tudo que precisava.

Depois de oito dias compraram um bilhete para ele de primeira classe com direito a um leito para Pretória. No entanto, ele preferiu poupar o dinheiro. Foi, então, que seu calvário começou nas paradas entre Maritzburg, Charlestown e Standerton. Nesses locais, Gandhi sofreu insultos, vergonha e medo por causa de um tratamento vil e violento.

Em Maritzburg, o atendente da ferrovia lhe perguntou se ele havia pedido um leito. Gandhi confirmou que sim. Vieram dois agentes e depois um terceiro que lhe disse que deveria se mudar para o compartimento de bagagem. Quando Gandhi se recusou, chamaram um policial que o empurrou para fora. Fazia muito frio. Tinha um casaco na bagagem, mas pensou que se pedisse seria insultado.

Naquela noite, imaginou retornar para a Índia ou seguir para Pretória. Concluiu que devia ficar e lutar contra a doença do preconceito. Decidiu pegar o próximo trem. Era um homem correto e da lei.

Na manhã seguinte enviou um longo telegrama ao gerente geral da ferrovia. O trem em que embarcou, com o bilhete do leito, o levou até Charlestown. Acontece que o calvário continuou. Não havia ferrovia para Joanesburgo, apenas uma diligência. O condutor lhe atormentou não permitindo que Gandhi se sentasse dentro do carro, mas no estribo da carruagem. Passou a viagem toda chutando Gandhi, tanto que os outros passageiros protestaram.

A diligência parou no vilarejo de Standerton para passar a noite. Havia enviados lá a mando do empregador para recebê-lo. Ele aproveitou o tempo para escrever uma longa carta ao agente da empresa de diligências. Recebeu uma resposta encorajadora. A diligência era maior e o funcionário estúpido não estaria nela.

Os indianos do empregador encontraram um bom lugar para ele e, finalmente, chegou a Joanesburgo. Para o trecho final até Pretória, redigiu um bilhete ao chefe da estação dizendo quem era e foi pessoalmente de casaca e gravata comprar o bilhete (existe na África do Sul uma fotografia dele com esses trajes).

O homem da bilheteria era da Holanda e lhe tratou bem. Naquela época, segundo o autor do livro, Gandhi acreditava no Império Britânico. “Acreditava que os indianos na África do Sul eram discriminados porque eram politicamente indiferentes e não eram organizados”.

Quando terminou o seu trabalho, com sucesso, se preparou para retornar para Índia. Foi a Durban esperar um navio e lá viu uma nota no jornal sobre o direito de voto dos indianos onde a Câmara local buscava destituir os indianos de votar. Ele ficou chocado com isso e procurou conversar com os empresários indianos, que não estavam preocupado com a questão.

Gandhi era ainda um jovem tímido e destreinado. Depois de uma discussão, os empresários transferiram o fardo do protesto para Gandhi que adiou sua volta. Então, sua permanência na África do Sul se estendeu por vinte anos.

Estava na meia idade quando partiu, com suas ferramentas políticas e espirituais aperfeiçoadas. Tudo aconteceu naquela longa viagem onde tornou-se um grande líder de homens e passou a ser chamado de mahatma (grande alma).