:: ‘Encontro Com os Livros’
AS ADAGAS AFIADAS DOS CONSPIRADORES NO SENADO MUTILARAM O DITADOR CÉSAR
Naquela manhã do dia 15 de março do ano de 44 a.C., o ditador Julius César levantou-se indisposto, talvez pelos maus presságios das profecias dos videntes, e atrasou-se para a reunião do alvorecer do Senado que ele mesmo havia convocado dias antes. A sessão, por ironia do destino, aconteceu na Casa do Senado de Pompeu, seu maior inimigo.
Os conspiradores já estavam a postos com seus planos e suas adagas afiadas escondidas nas togas para executar a morte do grande César que pavimentava sua trajetória para se tornar rei e acabar com a República logo após seu retorno da Guerra Parta nas terras onde hoje é o Irã. Roma estava dividida entre seus antigos apoiadores e adversários inimigos com os quais fora clemente na Guerra Civil de 49 a 45 a. C.
O historiador da obra “A Morte de César”, Barry Strausss descreve muito bem o cenário da Casa do Senado de Pompeu, de grandes colunatas e do assassinato mais famoso do Império Romano. Mesmo com os agouros, César, o grande guerreiro que saiu da Gália Italiana e cruzou o rio Rubicão para lutar contra Pompeu e invadir Roma, fazia suas próprias regras. Ele não ia à reunião, mas foi convencido pelo seu próprio amigo e algoz Decimus.
Para adentrar ao complexo onde abrigava o Teatro de Pompeu e o Templo de Vênus, passava-se pelo Pórtico de Pompeu. Na extremidade mais distante do recinto havia um tribunal para o presidente da sessão que geralmente era ocupado por um cônsul. No caso de César, essa função caberia ao dictator.
Havia lugares para trezentos senadores, mas nesse dia compareceram cerca de duzentos mais dez Tribunos do Povo, quórum suficiente para os assuntos relativos às consultas aos sacerdotes. Com suas indicações, César elevou o número de seiscentos para novecentos senadores.
Os principais conspiradores, Marcus Junius Brutus, Gaius Cassius e Decimus Junius Brutos, este último já indicado como governador da Gália Italiana, estavam tensos e preocupados com o general Marco Antônio, também ameaçado de morte, que poderia levar seus homens e reverter a situação. Dentre os senadores, muitos faziam parte da conspiração. Para tanto, os conspiradores designaram Trebonius para entreter Antônio e mantê-lo fora do Senado.
Na casa legislativa, César usava uma toga especial de general triunfante, tingida de vermelho-púrpura e bordada de fios de ouro. O Senado concedera o direito de usá-la, reconhecendo-o como deus e rei. Ali estavam Dolabella, futuro cônsul, e Cícero, o grande orador.
As fontes antigas são claras de que os conspiradores usavam adagas militares romanas, ou pugiones (do latim pugnus, punho) ocultas sob suas togas e outras nas capsae, recipientes onde eram transportados pergaminhos pelos escravos. O planejamento foi antecipado e Cassius foi um dos primeiros a chegar. O ataque teria de ser repentino e veloz antes que seus apoiadores acorressem em auxílio da vítima.
O primeiro golpe no peito coube a Publius Servilius Casca, um amigo de César. De acordo com os historiadores, foi uma exigência dos apoiadores de Pompeu participantes da conspiração. Nicolaus de Damasco, Apiano e Plutarco usam o termo ksiphos, que em grego se refere a uma adaga. Suetônio diz que César agarrou o braço de Casca e o golpeou com seu stylus, um instrumento com as dimensões de um lápis. Ele tentou levantar-se, mas não conseguiu porque teria sido atingido com o segundo golpe.
O historiador Apiano escreve que César, como um grande militar, reagiu com fúria e gritos. Plutarco afirma que ele gritou em latim “Ímpio Casca”, ou “amaldiçoado”. São várias as versões do assassinato, inclusive a de que Casca chamou seu irmão Gaius para ajudá-lo e este desferiu outro golpe nas costelas do ditador.
Além destes, Nicolaus menciona mais três que participaram do atentado, como Cassius que acertou César no rosto, Decimus e Minucius Basilus. Apiano fala que Brutus acertou o ditador em uma das coxas (Plutarco diz que foi na verilha) e Bucolianus nas costas. Segundo o autor do livro “A Morte de César”, Strauss, a exclamação “Et Tu, Brutos”! (Até Tu, Brutus!) citada por Shakespeare não consta de nenhuma das antigas fontes. Para ele, ela é uma invenção da Renascença.
Na versão de Suetônio e Dio, quando Brutus o golpeou, César teria dito, em grego, “kai su, teknon, que significa “tu também, filho”! No entanto, existem dúvidas quanto a isso. Dizem que no momento de desespero, César enrolou sua toga sobre a cabeça quando viu Brutus se aproximar dele com uma adaga.
Antes da sua morte, presumem que vinte ou mais assassinos golpearam o ditador, que meses antes havia sido considerado como deus e rei pelo próprio Senado. Ao todo, César recebeu vinte e três ferimentos. Para Nicolaus, foram trinta e cinco. Vinte conspiradores (estimam que haviam mais de sessenta) são conhecidos pelos seus nomes, dentre os quais Trebonius que não chegou a apunhalar César porque estava fora do recinto.
O conquistador do mundo fora assassinado em um raio de aproximadamente três quilômetros do local do seu nascimento. Florus, um autor do primeiro século d.C. descreveu que “assim, ele que enchera o mundo todo com o sangue de seus concidadãos, afinal encheu o Senado com seu próprio sangue”.
Na descrição do autor da obra, César foi um mestre como comandante, um político habilidoso, um orador elegante e um estilista literário lapidar. Foram inúmeras suas vitórias nos campos de batalha e exercia uma grande influência sobre os homens comuns e na vida das províncias.
Fez com que leis fossem aprovadas em favor das massas, mas depois controlou as eleições de modo a enfraquecer o autogoverno. Foi um populista que tempos depois perdeu a admiração e o apoio da plebe. Roma ficou dividida quando começou a agir com tirania. “Ele renomeou o centro de Roma com o nome de sua família, como se a cidade fosse propriedade sua”.
O tribuno Cícero ironiza o fato, dizendo que “naquele Senado, cuja maior parte dos membros havia sido escolhido por ele, na Casa do Senado de Pompeu, diante da estátua do próprio Pompeu, com tantos de seus centuriões assistindo, ali ele jazeria, assassinado pelos mais nobres cidadãos, e não apenas nenhum de seus amigos aproximou-se do seu corpo, mas nem mesmo seus escravos fizeram isso”.
Depois do ato consumado, houve um grande tumulto. Os conspiradores, liderados por Brutos, Cassius e Decimus rumaram para o Fórum Romano, na Colina Capitolina, onde se refugiaram e se entrincheiraram, alegando que haviam agido em nome da liberdade do povo. Enquanto isso, Marco Antônio negociava uma saída com o Senado, de modo a evitar um banho de sangue.
Antônio foi um político e militar hábil numa conciliação entre os veteranos apoiadores de César, que temiam perder suas terras e bens, e os conspiradores. Os atos de César, cremado quatro dias depois, foram mantidos, inclusive os inúmeros títulos concedidos pelo Senado, mas o pior estaria por vir quando os exércitos de Otávio, o herdeiro do ditador, começaram a se mobilizar a partir das províncias, numa disputa com Marco Antônio.
AS TRAMAS PARA ASSASSINAR CÉSAR
Tudo foi bem planejado meses antes para assassinar o ditador, considerado por muitos como rex, Julius César, nos Idos de março de 44.a.C. Brutos, Cassius e Decimus, o influente pivô da conspiração, arregimentou outros apoiadores, inclusive senadores, numa intriga de ciúmes e inveja. O temor era que César pretendia ser rei e acabar com a República, mas existiam outros motivos, segundo antigas fontes de historiadores. que envolveram o atentado.
Aos 55 anos de idade, depois de muitas batalhas e vitórias, o César arrogante já estava volúvel, mas ia travar outra guerra contra a nação Partia (região do Irã) logo após a reunião do Senado convocada por ele. César desprezou as profecias dos deuses, dos feiticeiros e adivinhos, videntes etruscos como Spurinna, da Etrúria, em Tarquínia (região da Toscana), do sonho da sua própria mulher Calpúrnia e, como era um guerreiro que não podia deixar se levar pelo medo, mesmo com atraso, compareceu à reunião que tirou sua vida.
Atraído e convencido por Decimus, seu fiel amigo de uma década, por ironia do destino, César foi atacado justamente na Casa do Senado de Pompeu (Curia Pompei), seu maior inimigo durante a Guerra Civil de 49 a 45ª.C. Era uma construção localizado na extremidade leste do grande complexo, com acesso através do Pórtico de Pompeu. Naquele dia havia jogos de gladiadores no teatro e as reuniões foram transferidas para a Casa do Senado de Pompeu. Cesar chegou atrasado por volta de 12 horas da manhã.
De acordo com o autor da obra “A Morte de César”, o historiador Barry Strauss, o ditador, que foi clemente com seus inimigos, não tinha guarda-costas. Depois de haver retornado a Roma, em 45 a.C., ele dispensou esse serviço e confiava na proteção informal dos senadores e cavaleiros, mesmo depois de ter sido vítima de outras conspirações, como em 47a.C. pelo próprio Cassius. Haviam sido guarda-costas que assassinaram alguns dos grandes homens do passado, tais como o Rei Filipe II da Macedônia.
Como ditador, em público era acompanhado por 24 lictors, homens fortes que portavam feixes de varas de lenha com um machado de carrasco atado sobre a parte externa. Serviam como guardas abrindo caminhos em meio a multidões e executando prisões e açoitamentos.
Em 46 ele foi alertado pelo tribuno Cícero, e em 45 Trebonius tentara cooptar Marcus Antônio para uma conspiração. Filemon, seus escravo e secretário prometeu a inimigos de César que envenenaria seu senhor. Quando descobriu, César demonstrou clemência para que não fosse torturado, mas executado sumariamente.
“Mais do que conspirações de assassinatos, era a má imagem na “imprensa” (folhetos e versos) que atormentava César. Fontes em Roma denunciavam as tramas da existência de reuniões secretas para seu assassinato, mas César nada fez. O historiador Cassius Dio chegou a afirmar que César se recusava ouvir informações e punia severamente quem lhe trouxesse tais notícias. Corriam boatos e rumores.
César ouvia acusações de que Brutus, Antônio e Dolabella estariam tramando revoluções. Ele suspeitava de Brutus e Cassius e fez um comentário jocoso de que não temia muito esses sujeitos gordos, de cabelos compridos, mas sim aos pálidos e magros. Quis dizer que Brutus e Cassius eram intelectuais e perigosos.
O ditador era arrogante e acreditava que os senadores haviam jurado protegê-lo com suas próprias vidas. Seu mal foi essa demasia de confiança no juramento. Achava que ninguém ousaria assassiná-lo. Era o chamado “prazer do engano” e na época andava deprimido, com desejo de flertar com a morte.
Certa vez, ele foi atacado em Roma por homens que portavam adagas ocultas. Ele queria ser melhor que o Sila, seu predecessor, que não era condescendente. César era um soldado corajoso e vivia de correr riscos, tanto que logo depois da reunião do Senado partiria com seus exércitos, ao lado do seu escolhido Otávio, para conquistar Parta ou Partia.
Aos vinte anos de idade, conquistou sua coroa cívica por ter escalado as muralhas de uma cidade grega rebelada. Sobreviveu ao desastre no Rio Sabis, na Gália, e não era agora que iria baixar a cabeça nas ruas de Roma. Ele não mais gostava da política romana e estava acostumado a dar ordens.
Os conspiradores estavam conscientes de tudo. Cassius, Trebonius e Decimus contavam com as melhores mentes militares. Compreendiam que a Casa do Senado seria o lugar mais seguro para atacar César. Em 14 de março, o dia anterior, ele foi jantar em companhia de seu Mestre de Cavalaria, Marcus Lepidus, um amigo leal.
Tiveram uma conversa sobre morte e César disse, conforme assinalou Plutarco, Suetônio e Apiano, que a melhor seria a súbita e inesperada, a morte de um guerreiro. César havia lido a clássica obra de Xenofante sobre como o rei Ciro da Pérsia dera orientações para o seu funeral, à medida que sua idade declinava. Ciro foi rei absoluto de um país que agora César estava prestes a invadir.
CASSIUS, BRUTUS E DECIMUS
Intrigas palacianas, ciúmes, inveja ou em defesa da liberdade e da República contra Julius César, um ditador tirano que almejava ser rei quando retornasse da Guerra Parta? O assassinato mais famoso da história de Roma de um conquistador que cruzou o Rio Rubicão na Gália Italiana, em 49 a.C., contra as ordens do Senado, é cheio de interrogações pelas antigas fontes que narraram o acontecimento.
Cassius, Brutos e Decimus, que serviram a César e por anos lutaram ao seu lado, foram os principais conspiradores que apunhalaram o poderoso em de março de 44 a.C., conforme descreve o historiador Barry Strauss em sua obra “A Morte de César”. Segundo ele, uma das fontes mais confiáveis é o do escritor Nicolaus de Damasco.
Outra versão diz que a clemência e o privilégio dado por César os seus inimigos durante a Guerra Civil, entre 49 a 45 a.C. foram outros motivos que levaram seus algozes a cometerem o terrível assassinato.
Sobre Gaius Cassius Longinus, Barry destaca que em janeiro de 45 a.C. ele aceitou a César como “um velho mestre, relaxado e tolerante”. Pouco mais de um ano depois, em fevereiro de 44 a.C., Cassius decidiu-se por matá-lo. “É improvável que a conspiração pudesse ter acontecido antes de fevereiro. Um dos motivos para isso seria a falta de incentivo: César não depusera os tribunos do povo nem rejeitara a coroa até fevereiro”.
Cassius se orgulhava de ter tido vários cônsules em sua família, inclusive seu pai, um homem que fora derrotado em combate pelo gladiador rebelde Espártaco. Em 53 a.C., ele viveu seu grande momento no Oriente Romano.
Serviu como governador-tenente e comandante substituto para Marcus Licinius Grassus, o governador da Síria. Tal como a maioria dos governantes romanos, ele era um homem ganancioso. Cassius extorquia os provincianos. Ele chegou a invadir a Judéia e dizem que escravizou cerca de trinta mil judeus.
Quando adveio a Guerra Civil, ele apoiou Pompeu. Em 48 a.C., Cassius recebeu o comando de uma frota naval que ele empregou contra as forças de César, na Sicília e no sul da Itália. Sua deserção foi uma grave ofensa e um insulto para os filhos de Pompeu. Mesmo assim, ele pôde dizer que continuava a servir à República ao promover a paz. César deu-lhe boas vindas e fez dele um de seus generais.
Quanto a Marcus Junius Brutus, o autor da obra afirma que ele foi essencial para a conspiração contra Julius César. “Não fosse Brutos, não haveria assassinato. Os conspiradores insistiam em sua presença. Diziam que seria preciso um rei para matar a um rei. Pelo menos, Brutus era praticamente um príncipe republicano”.
Supostamente, ele provinha de uma das mais antigas famílias da República: aquela que destronara reis. Ele contava com um registro público de mais de uma década de defesa da liberdade e oposição à ditadura. Em 54 a.C., por exemplo, ele se pronunciou contra uma proposta de concessão de uma ditadura a Pompeu.
Dois anos mais tarde, ele argumentaria que um homem que cometesse um assassinato pelo bem da República deveria ser considerado inocente. De acordo com Nicolau de Damasco, ele foi respeitado durante toda sua vida pela clareza de sua mente, pela fama de seus ancestrais e por seu caráter supostamente razoável.
Na versão do grego Plutarco, Brutos e Cassius recrutaram Decimus Junius Brutus Albinus. Para Strauss, o historiador da obra, pode ter sido o contrário. “Uma coisa é certa, Decimus desempenhou um papel central. Se Brutus foi o coração da conspiração e Cassius foi o cabeça, Decimus foi seus olhos e ouvidos”.
Decimus era um amigo íntimo e confidencial de César. “ O autor antigo que enfatiza o papel de Decimus na conspiração contra César é Nicolaus de Damasco, ao qual Shakespeare jamais leu. Ele tampouco leu Cassius Dio ou as cartas de Cícero, outras fontes que atribuem importância a Decimus”.
Segundo Barry, foi Decimus quem César escolheu para acompanhá-lo ao jantar na noite de 14 de março. “Decimus era a melhor fonte de informação quanto aos pensamentos e planos do ditador e a melhor esperança de mover César para qualquer direção que fosse necessária. Ele é amplamente reconhecido pelas fontes antigas como um dos principais agentes da conspiração”.
Aos trinta anos de idade, ele tinha um registro brilhante. Era um nobre de pedigree impecável e um dos confidentes de César. Foi um grande comandante na Gália, tanto na Guerra Gaulesa como na Civil. Ele chegou a governar a província para César, entre 48.a.C e 45. Tudo indica que ele também tenha sido pretor em Roma.
A MORTE DE CÉSAR
ROMA ANTIGA E O ASSASSINATO MAIS FAMOSO DA HISTÓRIA.
Como ditador perpétuo por dez anos, Gaius Julius César (100 a 44 a.C.), foi um dos maiores conquistadores da história; contrariava e não gostava do Senado; detestava a velha nobreza romana; era admirado pelo povo para o qual lhe concedeu benefícios e depois se voltou contra ele; ostentava poder e riqueza; tinha vários inimigos; e aspirava ser rei. Ele se considerava um dignitas (dignidade, valor e honra). Tudo isso lhe custou a vida em 44 a.C.
Pela sua trajetória como um dos maiores conquistadores que expandiu o Império Romano por quase toda Europa, da Irlanda, Norte da África, Grécia, parte da Ásia e Oriente até as cercanias do Irã, foi considerado um semideus ou deus dos romanos. Foi o pivô de uma guerra civil (49 a.C.), mas o Senado lhe encheu de honrarias e bajulações, incitando-o a ser rei. César zombou dos Tribunos do Povo, provocando a ira da plebe; sabotou eleições; esnobou riquezas; e terminou estimulando o ódio de conspiradores que queriam sua morte.
Julius César era um populista e foi um dos primeiros na história a criar um tipo de política pública para os pobres quando reduziu os aluguéis, deu terras e criou um sistema de assentamento para os colonos. Disse que os romanos deveriam ser vistos como habitantes cidadãos e não súditos, mas, depois foi hostilizado por uma ardilosa trama política dos seus inimigos, quando tentaram lhe empurrar para o reinado.
Quem escreveu a respeito do seu assassinato e quem foi César, o terror das mulheres (quando chegava a Roma os maridos da elite que se cuidassem), foi o historiador, pesquisador e arqueólogo Barry Strauss, mestre na Universidade Cornell, especialista em história militar da antiguidade, escritor de vários livros e premiado pelo governo italiano.
Na abertura da obra, ele faz um elenco dos personagens dessa história, desde Otávio que depois se tornou Augustus, o primeiro imperador, ao general Marcus Antonius, Marcus Junius Brutus, traidor, aproveitador dos provincianos que colaborou na morte de César, Gaius Cassius Longinus, apoiador de Pompeu, derrotado pelo ditador na guerra civil, Decimus Junius Brutos, o terceiro e principal conspirador que lhe deu o golpe fatal, Sérvilia, amante de César e também conspiradora, Catão que preferiu se suicidar a render-se ao conquistador, Cleópatra, do Egito, amante de César e Marco Antônio, o grande tribuno e orador Cícero (Marcus Tulius Cícero), Dolabella, um autêntico vira-casaca e o grande general Pompeu.
Barry faz um relato das grandes conquistas e da vida de César, principalmente na Hispania e conta como ele provocou a segunda guerra civil, iniciada em 49 a.C. Ele desobedeceu às ordens do Senado e cruzou o rio Rubicão. Por lei ele não podia atravessar o outro lado do rio com seu exército gaulês. Passou por cima do Senado e Pompeu decretou guerra a César que terminou entrando vitorioso em Roma. César era uma lenda.
“Cada guerra refletia os insolúveis problemas que assolavam Roma, desde a miséria na Itália, a opressão nas províncias, a política cegamente egoísta e reacionária da velha nobreza ao encantamento por um ditador carismático que pretendia que as coisas fossem feitas à sua maneira” – descreveu o autor do livro. O poder em Roma não estava nas mãos do Senado ou do povo, mas do exército.
Persuasivo e violento, César queria mudar o mundo, arrebatado pelo seu amor a Roma e desejo de dominador. Seus exércitos, formados por centuriões (capitãs), tribunos militares (coronéis) e soldados, bem pagos e privilegiados com benesses, mataram e escravizaram milhões de pessoas, inclusive mulheres e crianças.
Dentre seus oficiais, César escolheu Decimus, Antônio e Otávio, o jovem de 18 anos, seu predileto para lhe substituir. Decimus provinha de uma família nobre que dizia descender do fundador da República, Lucius Junius Brutos. Alguns falavam que ele era filho ilegítimo de César. Conquistou a Batalha do Atlântico que dominou a Bretanha.
Pompeu e Catão eram seus maiores opositores. Este último jovem idealista era ridicularizado por achar que Roma fosse a República de Platão. A República, na verdade, não passava de uma Cloaca de Rômulo, o lendário fundador.
Com Decimus, seu fiel escudeiro, o ditador levou oito anos (58 a 50 a.C.) para conquistar a beligerante região a que os romanos chamavam de Gália dos Cabelos Longos. Era um território que incluía a França, Bélgica, Holanda e uma parte da Alemanha. No final, a Gália fez de César o homem mais rico de Roma.
Depois de mais de uma década a serviço do ditador, Decimus retornou para casa rico como um herói. Ele assumiu a função de pretor (oficial de alto escalão que administrava a justiça). César o promoveu como governador da Gália Italiana.
Brutus, Cassius e Decimus, este último o líder personagem-chave, foram os principais mentores do atentado contra César que cometeu erros de relações públicas e instaurou uma crise de confiança no império. César abusou da amizade de seus algozes porque não foram recompensados, quebrando uma regra romana.
Em 49 a.C., para algumas fontes, César parecia um segundo Aníbal, o comandante que cavalgou desde o Ocidente e invadiu a Itália. Em 44 a.C. o ditador se assemelhava a um segundo Alexandre, o Grande, pois pretendia travar uma guerra no Oriente, em Partia (Irã) e voltar triunfante como rei. César já era um ditador perpétuo, declarado um deus e desprezava o Senado e o povo. Foi acusado de protestar por não pretender ser rex. Os romanos temiam que ele substituísse a República por uma monarquia.
Vamos ficar por aqui sobre essa história de Julius César. No próximo capítulo vamos falar dos fatos e principais incidentes que culminaram na conspiração e no fatal assassinato de César que realizou grandes reformas em Roma, como a do calendário anual lunar de 354 dias, para o solar com 365 dias e um ano bissexto a cada quatro passados. Esse calendário teve início em primeiro de janeiro de 45 a.C.
Vamos descrever um pouco sobre o general Marcus Antonius, os quatro cavaleiros, os melhores homens que representavam os privilégios herdados, centrada na nobreza romana que deveria continuar a governar o império, bem como sobre os populistas, alinhados às mudanças, defensores dos pobres, os sem-terra, os estrangeiros, os nobres pressionados por dívidas e pelos homens de toda Itália. Naquela época, não havia partidos em Roma. César chegou a ser um populista, mas Brutus pensava o contrário.
O REI INVENTOR DO MONOTEÍSMO E O SACERDOTE MOISÉS GUIA DOS HEBREUS
Dizem os historiadores que os faraós do Egito reinaram por cerca de três mil anos. Nesse tempo, tivemos reis famosos, um negro, uma mulher, tiranos unificador como Menés, construtores de pirâmides, como Quépes, Quéfren e Miquerinos e tantos outros. Foi uma civilização que demorou ser reconhecida pelo mundo ocidental. Isso só começou a acontecer graças a Napoleão Bonaparte, os cientistas e arqueólogos a partir dos séculos XIX ao XX.
Um desses reis se destacou por ter sido chamado de rebelde ao se dedicar à poesia e à cultura e inventado o monoteísmo numa terra onde existiam milhares de templos com mais de três mil deuses. Trata-se de Akenaton, o intelectual devoto de Aton, o círculo solar, o Deus Único. Seus sucessores desfizeram suas obras e restauraram o politeísmo.
Este faraó mudou até as artes plásticas e os artistas tiveram a liberdade de mostrar suas feições ao lado da sua célebre esposa Nefertiti acariciando os filhos sob as bênçãos do sol. Ele viveu por volta do ano mil a.C. e compôs lindos hinos em louvor a Aton, como narra o jornalista e escritor David Coimbra em sua obra “Uma História do Mundo”.
Akenaton escreveu um encantador poema onde deixa claro o perfil do novo deus. Como seu sacerdote, Moisés absorveu sua ideia monoteísta e levou ao povo hebreu. A Bíblia situa o Êxodo no reinado de Ramsés II que nasceu cerca de sessenta anos depois do desaparecimento de Akenaton. Sobre essa passagem, o arqueólogo C.W Ceram fez uma comparação elucidativa em “Deuses, Túmulos e Sábios”.
Além de sacerdote, provavelmente Moisés foi governador da província do Alto Egito onde viviam os hicsos e hebreus, semíticos invasores do Egito. Akenaton foi sucedido pelo seu genro Tutancâmon, imagem viva do deus maior chamado Amon. Foi ele quem mandou apagar as imagens do sogro. Os sacerdotes foram perseguidos e banidos, inclusive Moisés. Sem seus seguidores, não havia mais lugar para ele no Egito. Depois de assassinar um feitor do faraó, Moisés se refugiou em Madiã, na Arábia Saudita. Lá se casou com Séfora, filha de Jetro. Com a mulher teve dois filhos.
“Moisés fundiu a religião de Jetro com a de Akenaton e, dessa forma, fundou o judaísmo”. A nova religião foi encenada no Monte Sinai através dos Dez Mandamentos, um resumo das leis existentes no Egito e na Mesopotâmia dos sumérios. Outras passagens copiadas foram a lenda do Dilúvio e do nascimento do próprio Moisés, encontrado num cesto no rio Nilo.
Das leis, Moisés adaptou apenas para dez, e o primeiro foi “Amar a Deus sobre todas as coisas”. “Foi um grande lance de marketing”. O primeiro mandamento é garantidor dos demais. A grande façanha dos Dez Mandamentos foi o monoteísmo, derrotado no ocidente pelo próprio cristianismo, que é politeísta.
No cristianismo, as divindades cristãs são guiadas por um triunvirato, Pai, Filho e Espírito Santo. Abaixo desses foi recuperada a antiga deusa dos tempos do matriarcado, do nomadismo e das religiões orientais como o mitraísmo. A Virgem Maria assume milhares de formas a depender de cada lugar com nomes para todo gosto.
Depois das deusas poderosas, abaixo vem uma legião de santos, os semideuses responsáveis por cada dia e cada área da atividade humana. Existem mais de dez mil deles. “O cristianismo é a nova vitória dos tradicionais sacerdotes egípcios politeístas”.
Dentro do próprio cristianismo existem também a culpa herdada dos hebreus com o estabelecimento dos Dez Mandamentos. Os hebreus inventaram o pecado e daí nasceu a culpa. A não obediência dos mandamentos acarreta punição e o cumprimento oferece recompensa.
“A culpa é a argamassa da civilização. Se o homem não sente culpa, ele pode fazer o que bem quiser. Se fizer o que quiser, não poderá viver com os outros. Não haverá civilização. A civilização depende da coerção dos instintos” – diz o autor do livro, ao acrescentar que entre os hebreus, a culpa foi especialmente vitoriosa.
Para entender o sucesso da culpa entre os hebreus, basta imaginar quem eram eles quando saíram do Egito e quem era o homem que os levou deserto a fora. Os hebreus eram escravos e Moisés o sacerdote de um deus caído, de uma religião derrotada lá atrás quando Akenaton se foi.
OS LADRÕES DE TÚMULOS
Por volta de 1600 a 1500 a. C., os faraós deixaram de erguer pirâmides e passaram a escavar os rochedos do Vale dos Reis, para dentro deles construir galerias e câmaras que serviriam de sepulturas para os seus faraós. Outros eram enterrados nas areias do deserto no sentido de coibir a ação criminosa dos ladrões de túmulos que roubavam valiosos tesouros e dividiam entre suas comunidades, numa espécie de distribuição de renda pós morte.
Mesmo assim, os ladrões continuaram agindo em grupos e eram exímios caçadores de túmulos. As peças encontradas eram vendidas no mercado clandestino para o exterior. Muitas antiguidades preciosas terminaram sendo contrabandeadas para museus de países estrangeiros.
Por muito tempo, o ocidente era desinformado quanto a civilização egípcia, mas foi com Napoleão Bonaparte entre o final do século XVIII com seus sábios quem conquistou o Egito para a Europa, a começar pela Pedra de Roseta, conforme descreve o jornalista e escritor David Coimbra através da sua obra “Uma História do Mundo”.
O livro “A Descrição do Egito”, de autoria de Dominique Vivant Denon, um dos participantes da comitiva de Napoleão, incendiou a imaginação europeia e despertou a atenção de arqueólogos e cientistas ingleses, alemães e norte-americanos.
Por incrível que pareça, foram os próprios europeus que reprimiram o tráfico de antiguidades e fundaram o Museu Egípcio do Cairo. O inglês Howard Carter foi autor de uma das maiores descobertas da arqueologia que foi a tumba do faraó Tutancâmon, uma das poucas que haviam se mantido a salvo dos ladrões de sepulturas. Sua descoberta se deu no final de 1922.
Mesmo assim, segundo Coimbra, o mausoléu do rei foi conspurcado por pelo menos dois arrombamentos, mas, por algum motivo, os ladrões não conseguiram acessar os tesouros nem o cadáver do faraó. Esses ladrões sempre agiram durante os três mil anos em que os faraós governaram o Egito.
Pelo seu feito, Carter se tornou no arqueólogo mais famoso da história, sendo comparado a Heinrich Schliemann, o descobridor de Troia, ou a de Jean-François Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios da Pedra de Roseta.
A fim de manter as múmias e seus tesouros a salvo das violações, os administradores egípcios camuflavam os túmulos das formas mais engenhosas nas areias do deserto e atrás de paredes de pedras. Se um ladrão descobrisse a entrada, poderia se perder em um labirinto.
No começo dos anos 80 do século XIX, um grupo de arqueólogos europeus vivia e trabalhava no Egito, com o objetivo de descobrir e estudar as antiguidades do tempo dos faraós. Seguindo a pista de um desses ladrões, o alemão Emil Brugsch-Bey fez uma descoberta impressionante.
Ao tentar ameaçar entregar o ladrão às autoridades muçulmanas, ele levou o cientista ao local onde subtraia as antiguidades. Em julho de 1881, o alemão conseguiu encontrar em desordem os ataúdes, as múmias e objetos dos maiores soberanos do Egito Antigo, como os corpos de Amósis I, Tumés III e o próprio Ramsés II, o Grande e mais poderoso de todos os tempos.
AS TRAPAÇAS E ASTÚCIAS DOS HEBREUS QUE EM CANAÃ FUNDARAM O JUDAÍSMO
Hebreus e árabes são meios-irmãos, mas brigam há milênios por propriedade e herança, conforme narram historiadores arqueólogos e a própria Bíblia através do livro do Gênesis. Tudo começou com Abraão quando saiu de Ur, da terra dos caldeus, na Mesopotâmia, e foi parar em Canaã (Retenu Superior), na Palestina, com seu clã.
O jornalista e escritor David Coimbra, em “Uma História do Mundo” faz um relato numa linguagem simples da trajetória desse patriarca, inspirador do judaísmo, e de seus descendentes de forma compreensível ao leitor e recheado de trapaças e astúcias. Na verdade, o cristianismo e o islamismo também têm Abraão, o seminômade, em suas escrituras religiosas.
Por volta de 2000 ou mais a.C. aconteceu uma seca braba em Canaã que causou muita fome e, como fazem os nordestinos, Abraão e sua bela Sara, ou Sarai, seu sobrinho Lot e demais formaram uma caravana até o Egito onde existia alimentos em fartura. Como os egípcios não podiam ver um rabo de saia, Abraão combinou com sua cobiçada Sara a dizer para o faraó que eles eram irmãos.
Uma versão conta que o patriarca temia ser morto pelo rei se ele contasse que Sara era sua mulher e outros dizem que Abraão fez uma negociação para ser bem recebido e adquirir o que queria. De qualquer forma, ele foi astuto e Sara serviu o faraó em seu harém. Por causo dela, Abraão foi bem tratado e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e camelos. Se deu bem com seu esquema.
Ocorre que logo depois da chegada dos hebreus houve uma praga nas lavouras do Egito, fato que levou os egípcios a suspeitarem que a culpa estava em Sara que foi devolvida ao marido e seu povo expulso de suas terras. Cita a Bíblia que o Senhor ficou furioso e feriu o faraó e toda sua casa.
Abraão retornou com seus rebanhos para Canaã e Lot foi para Sodoma, a cidade do pecado que foi queimada por Jeová, juntamente com Gomorra. No entanto, Lot, sua esposa, que virou uma estátua de sal que, por curiosidade (coisa de mulher), ter olhado para trás, e suas duas filhas foram poupados. Ele foi para uma cidade chamada Segor e depois refugiou-se numa caverna com suas filhas, as quais embriagaram o pai e fizeram sexo com ele. Cada uma gerou um filho, Moab, o pai dos moabitas e Bem-Ami, pai dos amonitas.
O Antigo Testamento tem muita lenda, mas também verdade. A história descreve que Sara era estéril e Abraão, com o consentimento de Jeová, deitou-se com a escrava Agar com a qual teve Ismael que fundou os ismaelitas e se tornou patriarca de todos os povos árabes depois de ter sido expulso de casa sem nada com sua mãe pelo próprio pai por insistência da ambiciosa Sara logo após gerar Isaac com noventa anos de idade. Ela temia que o mais velho se tornasse o verdadeiro herdeiro da família, como assim regia o costume antigo.
Como todos sabem, Isaac quase foi sacrificado pelo pai por ordem de Jeová para testar sua fé, mas depois tornou-se homem descendente de todos hebreus. Está escrito que Sara morreu com 127 anos e Abraão ainda teve seis filhos com Quetura e faleceu com 175 anos.
Issac casou-se Rebeca que levou vinte anos para engravidar e deu os gêmeos Esaú, o peludo, e Jacó que significa o suplantado. A mãe gostava mais do segundo filho, um dos patriarcas dos hebreus, pacífico que preferia morar na tenda, enquanto o primeiro, um hábil caçador, despojado de valores materiais e de caráter era o querido do pai.
Por ser mais sedentário, Jacó representava a civilização. Como era o primogênito, Esaú tinha direito a ser o chefe da família e a herdar os bens na morte do pai, mas cedeu esse lugar para o irmão em comum acordo ou por ter caído na lábia de Jacó. Mesmo assim, Jacó usou o irmão lá na frente para trapacear e chantagear.
De acordo com o autor da obra, o que temos nesse episódio são a civilização e a selvageria, e também o homem e a mulher, a fraqueza e o ardil, a imprevidência e a astúcia. No final de sua vida, muito doente e cego, Isaac sentiu ser a hora de dar a benção simbólica paterna que confirmaria a primogenitura.
Isaac resolveu, então, abençoar Esaú e mandou que ele preparasse um prato bem suculento da sua caça. Esaú partiu com sua arma para caçar um animal. Ao ouvir a conversa por detrás da porta, a gananciosa Rebeca chamou Jacó e preparou outro plano para trapacear Esaú e o marido.
– Faça o que digo: Vá ao rebanho e traga dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato para teu pai, como ele gosta. Tu vais levar o prato a ele e Isaac comerá e vai te abençoar no lugar de Esaú.
– Mas, mãe, argumentou Jacó – meu irmão é peludo e eu tenho pele lisa. Se meu pai me tocar passarei por embusteiro e serei amaldiçoado. No entanto, Rebeca orientou Jacó a cobrir os braços e as pernas com as peles dos cabritos esfolados de forma que o pai, se o tocasse, iria pensar se tratar do cabeludo Esaú.
Isaac até que desconfiou, mas terminou dando a benção para Jacó. Quando Esaú chegou com sua caça para oferecer ao pai já era tarde demais. Esaú ficou amargurado e mesmo assim pediu a sua benção, mas não tinha como o velho voltar atrás. Apenas disse que ele foi trapaceado pelo irmão.
– Eis que a tua habitação será desprovida de gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás da tua espada, servindo ao teu irmão, mas se te libertares, quebrarás o teu jugo de cima do teu pescoço. Com essa alternativa, Isaac deu permissão a Esaú para vingar-se de Jacó.
Ao sentir o perigo, Rebeca mandou o filho para a casa do seu irmão Labão que morava na Mesopotâmia. Como para um esperto, outro mais esperto ainda, o tio deu uma boa enrolada nele ao ter se apaixonado pela bela prima Raquel.
Labão disse que seria uma honra tê-lo como genro, mas teria que serví-lo de graça por sete anos. Foi aí que Jacó caiu no esparro. Trabalhou por sete anos e no dia do casamento tomou aquele porre de deixar embriagado e terminou se deitando com Lia, a irmã baranga mais velha.
No outro dia tomou aquele susto e foi reclamar do tio que teria sido passado para trás. Labão astucioso explicou que havia mandado Lia para seu leito conjugal, em vez de Raquel, porque em sua terra o hábito era casar a irmã mais velha antes da mais moça.
Para consolar Jacó, afirmou que ele teria também a Raquel desde que trabalhasse mais sete anos como escravo para ele. Jacó, doido pela Raquel (homem é um bicho besta e romântico), topou a empreitada e terminou ganhando ainda as duas criadas Zilpa e Bila. Ficou com as quatro e passou mais seis anos como administrador de Labão, acumulando posses e filhos.
Depois de vinte anos possuía um tremendo rebanho, quatro mulheres, doze filhos e uma filha. Os doze terminaram sendo os fundadores das doze tribos de Israel, nome pelo qual Jacó passou a ser chamado.
Quando esse novo Israel decidiu retornar para Canaã, o tio não permitiu. Então ele tramou uma fuga com Raquel, que esperta levou as estatuetas ou terafins do pai. Esses terafins eram deuses que, além de servirem para adoração e idolatria, davam a quem as possuía o direito à herança familiar. Essas estatuetas eram uma prova de que alguns hebreus pioneiros também praticavam o politeísmo sem serem incomodados.
Na fuga houve outras trapaças entre Raquel e o pai, mas Jacó conseguiu se safar e chegar a Canaã onde fez boa fortuna ao ponto de ser o mais rico da Palestina. Entre seus filhos aparece o José, Judá (a tribo de Judá é a Judeia donde veio a designação “judeu”) que acabou sendo jogado num poço seco pelos irmãos, não por inveja por ser o mais querido do pai, mas porque era um tipo dedo duro, um X-9 das conversas dos irmãos.
Como todos conhecem bem a história, esse José, casado com uma cananeia de nome Sué (é um outro caso interessante) foi vendido pelos irmãos, sem o mais velho Rúben saber, a uma caravana de ismaelitas que levava resina, bálsamo e ládano (muito usados para embalsamar múmias) para o Egito. O José, Judá, terminou sendo escravo de Putifar, o chefe da guarda do faraó. Como era bonitão de corpo, a bela e gostosona da mulher de Putifar tentou seduzí-lo dando em cima dele na cara de pau.
José caiu na besteira de rejeitá-la e a mulher contou outra versão ao marido de que seu escravo havia flertado ela. José foi direto para o cárcere e lá começou a adivinhar os sonhos dos presos. Caiu nas graças dos guardas e de lá foi chamado para morar no palácio para desvendar os sonhos do faraó.
O resto da história já é conhecido de todos quando ele se encontrou com os irmãos famintos no Egito. Com uma seca em Canaã eles foram procurar abrigo na terra dos faraós que governaram o Egito por mais de três mil anos.
NAPOLEÃO E SEUS SÁBIOS NO EGITO
Quando Napoleão Bonaparte esteve no Egito com seus 34 mil homens do exército e seus sábios, por volta de 1799, um dos seus primeiros feitos foi criar o Instituto do Egito que elevou este antigo país ao conhecimento do Ocidente, principalmente a partir da Pedra de Roseta, decifrada pelo gênio Jean-François Champollion.
O autor da obra “Uma História do Mundo”, David Coimbra, jornalista e escritor, citou que o Instituto foi a reunião de 167 cientistas convocados por Napoleão para participar da campanha do Egito, com seu general Junot e seus soldados que descobriram o granito negro.
“Eram engenheiros, arqueólogos, botânicos, matemáticos, artistas, todo um time de sábios chamados de “savants de Napoleão”. O rei francês tinha a intenção de imitar seu maior ídolo conquistador do mundo, Alexandre, o Grande, que era também um militar-político. Ao chegar ao Egito, vindo da Macedônia, o primeiro lugar que Alexandre visitou foi o Templo do Deus Amon, por isso deram-lhe o nome de filho de Zeus.
Alexandre levou seus filósofos que registraram e refletiram sobre tudo o que viram. Napoleão quis fazer o mesmo e, por isso levou seus sábios porque a escrita hieróglifa egípcia era desconhecida. Um dia, seus soldados encontraram um granito negro, a famosa Pedra de Roseta que continham inscrições em hieróglifos, grego e copta.
Os cientistas tiraram cópias das inscrições, mas Napoleão perdeu para os ingleses na guerra e a Pedra de Roseta terminou sendo transferida para Londres onde ainda está no Museu Britânico, quando deveria ter sido devolvida para o Cairo. Por falar nisso, grande parte do nosso patrimônio foi levado ou roubado para o exterior, inclusive espécies de plantas e ervas medicinais da Amazônia.
Quem decifrou a Pedra de Roseta sem nunca tê-la visto foi Jean-François Champollion, o gênio da linguística. De acordo com o escritor David Coimbra, ele nasceu em Figeac, no ano de 1790. Dez anos depois sabia falar latim e grego, além de todas as línguas europeias. Por essa época começou os estudos de hebraico. Aos treze anos, lia e escrevia em árabe, siríaco e caldaico. Falava copta consigo mesmo para treinar a pronúncia. Antes dos 15 estudou a gramática chinesa. Em seguida aperfeiçoou-se no zenda, no pálavi e no farsi. Aos 17 escreveu um livro elogiado pela Academia de Grenoble: “O Egito sob os Faraós”. Quando completou 19 anos tornou-se professor universitário.
Ainda criança Champollion entrou em contato com os ministérios do Egito e prometeu decifrar os hieróglifos da Pedra de Roseta através das cópias tiradas pelos sábios de Napoleão. Alguns historiadores suspeitam que os hieróglifos sejam mais antigos que a escrita cuneiforme dos sumérios. No entanto, Coimbra entende que antes de 3000 a. C. e de Menés, o primeiro faraó, os hieróglifos deviam ser somente ideogramas, como a escrita chinesa.
O REI REBELDE DO EGITO E O EDIFÍCIO MAIS ANTIGO DA HISTÓRIA HUMANA
O Egito foi uma civilização que surgiu depois dos sumérios e sua grandeza foi forjada ao longo do rio Nilo, conforme relata o jornalista e escritor David Coimbra em “Uma História do Mundo”. Como já citei aqui antes, Akhenaton foi o único rei egípcio que se rebelou contra um mundo antigo. Foi, por assim dizer, um revolucionário.
O grego Heródoto, que visitou a região, escreveu que o Egito foi uma dádiva do Nilo. O país está ali no Oriente Médio, no nordeste do chamado Continente Negro, ao lado de Israel, da Jordânia, do Líbano e da minúscula Faixa de Gaza, num ponto nevrálgico onde hoje o Benjamim Netanyahu, o “Bibi” carniceiro, já exterminou mais de 40 mil palestinos.
Para entrar na terra prometida por Deus, os hebreus que saíram fugidos dos faraós ficaram 40 anos circulando pelo deserto em círculos. Alguns historiadores dizem que foi uma determinação de Moisés enquanto Josué, o estrategista militar, conseguia uma brecha para invadir Jericó.
David Coimbra afirma que foi por causa do Javé ciumento, possessivo e vingativo dos hebreus. Deus pretendia purgar o povo dos seus vícios. No Egito eram escravos e depois homens livres e, para que a Terra Prometida fosse habitada por eles, Javé esperou a extinção de toda uma geração que tinha sido escravizada.
Outra questão controversa é quanto a construção das pirâmides, de que elas foram erguidas por escravos. O autor da obra contesta esta versão e ressalta que foram feitas por agricultores assalariados durante as enchentes anuais do Nilo.
Nesse período eles recuavam para lugares mais altos e iam trabalhar para os faraós. Contam que a primeira greve registrada pela história foi promovida por operários de pirâmides que estavam com os salários atrasados. Os egípcios tinham dificuldade de lidar com a terra e é aí que entram os sumérios com suas técnicas, isto há uns 5,5 mil anos a.C.
Outro fato diz respeito ao edifício mais antigo do mundo. Os arqueólogos continuam nos tempos atuais escavando ruínas. Nas pesquisas encontraram o Gobekli Tepe, uma estrutura de pilares e esculturas parecidas com a inglesa Stonehenge, situada na Turquia. Acreditam ser o mais antigo edifício da história humana.
Os cientistas estão intrigados porque o Gobekli não foi construído às margens do Nilo e nem do Tigre e do Eufrates, na Mesopotâmia, onde nasceu a civilização. Na concepção deles, houve uma mudança fundamental no espírito dos seres humanos que se estabeleceram na Mesopotâmia por volta de oito mil anos a. C. e que isso os empurrou para a civilização.
A história, por não ser uma ciência exata, tem seus pontos controversos. Como assinala Coimbra, na escola aprendemos que Bartolomeu Dias foi o primeiro a dobrar o Cabo da Boa Esperança com suas caravelas.
Historiadores destacam que está errado. Quem primeiro dobrou o Cabo da Boa Esperança foram os fenícios, vinte séculos antes dele, a mando dos egípcios. Por volta de 600 a.C., o faraó Necho II queria descobrir uma forma de navegar a África, na época chamada Líbia. A ideia era sair do Mar Vermelho em direção ao sul e chegar ao Delta do Nilo, no norte do Egito.
Os fenícios eram ótimos marinheiros. Saíram e se foram. Por meses continuaram descendo até que cruzaram o Trópico de Capricórnio. Eles se espantaram quando viram o sol ao norte e, foi por isso, que cruzaram o Cabo da Boa Esperança, no século VI a. C. Subiram pela costa da África e depois de três anos de viagem entraram pelas Colunas de Hércules (Gibraltar) de volta para casa.
DOS RIOS DO PARAÍSO À ESCRITA E O MOISÉS HEBREU NA VISÃO DE FREUD
Conversa vai e conversa vem, os egípcios, há 25 séculos, acreditavam ser os pioneiros da civilização humana, como defendia o faraó Psamético. Ele mandou pesquisar com seus métodos macabros e viu que não era bem assim.
Primeiro tomou duas crianças pobres (sempre sobra para os pobres) e entregou-as a um pastor (ele não podia falar nada para os bebês), com as instruções de que deveriam ser criadas longe dos outros seres humanos. Como a mulher tem a “língua solta”, ordenou aos seus soldados que cortassem as línguas das mulheres que viviam com o pastor.
Passados dois anos, ele notou que, ao entrar na cabana, os nenês falavam a palavra “becos”, “becos”. Os sábios do faraó estudaram e descobriram que na língua frígia, “becos” quer dizer pão. Pronto, a Frígia era mais antiga, mas também não era bem assim. Apenas foram os frígios os primeiros adoradores de Cibele, a Deusa-Mãe que rivalizou com o cristianismo. O imperador romano Juliano era um devoto de Cibele.
Essa narração está no livro “Uma História do Mundo”, do jornalista e escritor David Coimbra, ao afirmar que o homem foi domesticado pela mulher, provavelmente na Mesopotâmia, em grego mezo (meio) e tâmia (rios), entre os rios Tigre e Eufrates, próximos ao Ganges, na Índia, e ao Nilo, no Egito.
A Bíblia, através da sua lenda do Gênesis, informa que havia quatro rios no paraíso perdido de Adão e Eva. Está aí a charada. Os cientistas informam que o Big Bang ocorreu há 13 bilhões de anos e a terra se formou há 4,6 bilhões (na tradição judaica, Deus criou a terra há quatro mil anos a. C.).
O que mais importa é que as primeiras civilizações surgiram naquela região dos quatro rios. Ali fundaram a primeira civilização (em latim civitas – cidade), o oposto do caçador e coletor de Adão e Eva que convenceu seu companheiro a ser agricultor e criador de animais (pastor). Dos seus filhos, Abel era pastor e o Caim agricultor. Deus preferia o primeiro porque o segundo feria a terra, mas ele se tornou fundador de cidades depois de matar o irmão.
O autor da obra descreve que a Mesopotâmia é reconhecida pelos hebreus como sítios originais da humanidade civilizada (12 mil anos de sociedades formadas naquela faixa doTigre e Eufrates). Warka (mãe das cidades) é mencionada no Gênesis como Ereque, criada por Nemrod, filho de Cus que, por sua vez, era filho de Cam, um dos três filhos de Noé.
Para a ciência, houve outras antes, como Eridu. No entanto, a mais viva até hoje é Jericó, na Palestina, hoje arrasada pelos judeus perversos. Por volta de 1.300 a. C. esta cidade foi invadida pelos hebreus fugidos do Egito e comandados por Josué (Deus é salvação), um estrategista militar. Conta a lenda que eles derrubaram as muralhas de Jericó com suas trombetas. Na época, viviam lá os cananeus na chamada “Terra de Leite e Mel”.
“Os hebreus invadiram a cidade de Jericó seguindo as ordens de Jeová. Passaram o fio de espada tudo o que nela vivia, homens, mulheres, velhos e crianças, e até mesmos bois e jumentos” – ressalta David Coimbra. Pelo visto, Deus não gostava de Jericó, e os hebreus criaram o primeiro holocausto da história. Os únicos sobreviventes foram uma prostituta de nome Raab e sua família, espiões de Josué.
SOBRE A INVENÇÃO DA ESCRITA
Nos desculpem, mas somente agora vamos falar das palavras, da escrita e depois um pouco de Moisés. Para começar, nosso sistema de escrita é fonético, o que significa que cada letra representa um som. A escrita chinesa, por exemplo, é pictográfica. Os chineses precisam decorar cada desenho e existem mais de 40 mil caracteres.
A nossa escrita é auditiva e a dos chineses visual. Um alfabeto com sons é mais prático e inteligente do que imitar imagens. É aí que entra um sumério que por volta de 4 mil anos a. C. inventou a irrigação e os canais para domar as enchentes dos rios Tigre e Eufrates. Os vizinhos imitaram a invenção e logo toda região foi rasgada por canais.
Em pouco tempo houve produção em abundância, e o excedente liberou alguns homens do campo, com mais horas livres para pensar e planejar. Eles inventaram instrumentos para medir os terrenos, o fluxo das águas, o aperfeiçoamento da matemática e a organização das comunidades, produzindo cada vez mais e trabalhando menos.
Nessa toada, criaram os impostos, o comércio e um modelo para registrar as compras e vendas. Como uma coisa puxa outra, chegaram até a escrita cuneiforme que tinha um desenho para cada produto, com objetivo de não perder dinheiro. A partir desse processo, avançaram para as sílabas e a escrita fonética. Isso se deu há uns 5,5 mil anos. Mais na frente, depois de 2 mil anos, vieram os fenícios e criaram o alfabeto.
A outra etapa foi o esforço de colocar os jovens para ler e escrever. Para isso, os sumérios também instituíram a primeira escola formal do mundo, chamada de “edubba”, ou casa de placas, porque eram feitas de argila.
Naquela época, diferente dos tempos atuais, os professores eram mantidos por elevadas taxas pagas pelos pais dos alunos, e o método de ensino era implacável, somente para meninos, que entravam na escola ainda crianças e só saiam depois de adultos.
MOISÉS, O EGÍPCIO?
Quanto a Moisés, o libertador dos hebreus e fundador do judaísmo (religião mosaica), de acordo com o escritor de “Uma História do Mundo”, Freud, que era judeu (escreveu “Moisés e o Judaísmo”) afirmava que ele era egípcio.
Na tradição judaica, Moisés significa em hebraico “porque das águas o tenho tirado”. Sua mãe hebreia, conforme o mito, o lançou num cesto nas águas do grande rio Nilo, para escapar à perseguição do faraó aos filhos do seu povo. O faraó queria um controle populacional dos escravos. O cesto teria sido descoberto por uma princesa egípcia que o criou como se fosse seu filho.
Foi essa princesa que deu o nome de Moisés a Moisés. Por que ela deu logo um nome hebreu? É aí que Freud explica que Moisés é um nome egípcio, que quer dizer “filho” ou criança. O autor da obra afirma que os egípcios tinham o hábito de colocar essa partícula no nome de seus filhos, como “Amon-mose”, significando “Amon-uma-criança, forma contraída de “O deus Amon deu uma criança”.
Moisés deveria se chamar Tutmoses ou Ahmoses, nomes comuns da época. No entanto, Freud não apenas se baseou no nome para chegar à conclusão que ele era egípcio. Citou também o caso de um homem que pode ter sido protagonista da história, um tal de Sargão I, o Grande, ou o Acádio, que fundou o primeiro império do planeta, na Mesopotâmia.
Como Moisés, segundo a lenda, ele também foi largada num cesto de vime nas águas do rio Eufrates, sendo depois recolhido por Akki. As histórias são parecidas, só que Sargão viveu mil anos antes de Moisés.
Freud ressalta que o mito do nascimento do herói é semelhante em várias culturas. Depois de Sargão, se reproduziu em Moisés, Ciro, Rômulo, Édipo, Páris, Hércules e tantos outros, mas o grande argumento de Freud é quando ele lança mão da história de Akhenaton, o faraó mais intrigante do Egito porque foi um revolucionário.
Com base no livro do prêmio Nobel de Literatura (1988), Naguib Mahfuz, sobre o rei rebelde, Freud acredita que Moisés era um sacerdote da religião de um único deus, a primeira monoteísta do mundo, fundada por Akhenaton.












