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:: ‘Encontro Com os Livros’

“LENDAS BRASILEIRAS” – CÂMARA CASCUDO

DIA DO FOLCLORE – 22 DE AGOSTO.

Quando se fala em folclore lembra-se logo do grande escritor potiguar Luis da Câmara Cascudo que se dedicou ao tema. Com o estrangeirismo na nossa língua e o complexo de se imitar tudo que vem de fora, infelizmente nossa juventude prefere incorporar, em corpo e alma, os super-heróis norte-americanos (falha da nossa educação) até em cadernos escolares e esquece dos nossos personagens folclóricos. Em meio a essa perda de identidade, poucos comemoram o dia 22 de agosto, dedicado ao nosso rico folclore brasileiro. Outros nem sabem o que seja folclore.

Primeiro vamos conhecer um pouco sobre o mestre nesse assunto, Câmara Cascudo, que veio lá do Rio Grande do Norte. O professor Osmar Barbosa nos apresenta que ele iniciou sua carreira literária como jornalista do periódico “A Imprensa”, de Natal, de propriedade do próprio pai. Iniciou seus estudos de medicina na Bahia, mas por questões financeiras, se bacharelou em Direito pela Faculdade de Recife.

Câmara nasceu em 30 de dezembro de 1898 e faleceu em 30 de junho de 1986 (coincidência do 30). Era filho do coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Ana Maria da Câmara Cascudo. Na juventude, viveu na chácara Villa Cascudo, no bairro Tirol. Em sua casa acompanhava desde criança as reuniões literárias que ocorriam entre a família e amigos. Com 19 anos ingressou no jornal do seu pai, e sua primeira crônica foi “Tempo e Eu”.

Em 1920 escreveu a introdução e as notas na antológica poética de Lourival Açucena, intitulada “Versos Reunidos”. Em 1941 fundou a Sociedade Brasileira de Folclore. Foi professor de Direito Internacional entre os anos 50 e 60. Em sua viagem pelo exterior, esteve em Angola, Guiné, Congo, São Tomé, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Com resultado, escreveu “A Cozinha Africana no Brasil” (1964) e “História da Alimentação no Brasil”, entre 1967 e 1968.

Aos 21 anos, Câmara lançou seu primeiro livro “Alma Patrícia” sobre autores do Rio Grande do Norte onde foi professor de Direito Internacional. Em sua vida, publicou mais de 50 volumes.  Sempre manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, cercado de pessoas humildes e velhos amigos, quando poderia ter gozado de grandes prestígios em outros centros culturais do país.

Diz o professor Osmar, que Câmara fez-se notável folclorista dedicando todo seu tempo a buscar conhecimento no assunto. Foi o primeiro a compor um Dicionário do Folclore Brasileiro. Entre seus trabalhos merecem destaque Vaqueiros e Cantadores, Lendas Brasileiras, Contos Tradicionais do Brasil, Geografia dos Mitos Brasileiros, Trinta Estórias Brasileiras, Vida e Conto de Cangaceiros e Tradição e Ciência do Povo.

“Lendas Brasileiras” contém 21 histórias, tais como A Lenda de Iara, Cobra Nonato, Lenda da Sapucaia-Roca e Barba-Ruiva relacionadas à região Norte. Com referência ao Nordeste, destacam-se A Cidade Encantada de Jericoacoara, Carro Caído, Senhor do Corpo Santo, As Mangas de Jasmim de Itamaracá e A Morte de Zumbi. Para o oeste, O Frade e a Freira, A Serpente Emplumada da Lapa e O Sonho de Paraguaçu. Para a região Sul, O Negrinho do Pastoreio, A Lenda da Gralha Azul, Fonte dos Amores, A Virgem Aparecida e a Lenda de Itararé. Para o Centro, Tatus Brancos, A Missa dos Mortos, Chico Rei e Romãozinho. São lendas oriundas do folclore e da poesia dos estados brasileiros.

De acordo com o professor Osmar, não se faz literatura sem tradição popular. “O próprio classicismo termina se inspirando nas fontes mitológicas da velha Grécia. O folclore é um ramo da ciência antropológica que estuda as manifestações coletivas da cultura popular, abrangendo estudos e classificação de países civilizados através de contos, lendas, fábulas, canções, crendices, superstições, usos, costumes e adivinhações”, entre outras.

“Ainda hoje em todo mundo os estudiosos do tema examinam objetos, utensílios, tipos de habitação e trajes típicos regionalistas. Em todos países existem lendas, apólogos, costumes e superstições, unindo a tradição popular que faz parte da alma de um povo”. Para o professor, “os contos populares do Brasil têm o sabor de uma fruta do mato, o cheiro agreste da flor mais viçosa, a fantasia colorida com as tintas da nossa selva e o encanto de um primitivismo tropical”.

O escritor João Ribeiro dizia que “o folclore é uma pesquisa de psicologia dos povos, das suas ideias e seus sentimentos comuns, do seu inconsciente, constituindo a fonte viva donde saem os gênios…”. No folclore, a literatura encontra o veio certo para produzir obras imortais da arte que dão glória a um povo.

“Vaqueiros e Cantadores” – folclore poético do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, de Luis da Câmara Cascudo, fala dos temas O Desafio, A Donzela Teodoro, Boi Surubim, O Padre Cícero, Pedro Malasarte, As Lendas de Pedro Cem, a Criação do Mundo, A Princesa Magalona e Sertão d´Inverno.

“Tanto pego boi no fechado como canto desafio”. Câmara afirma que neste livro ele reúne quinze anos de sua vida. Notas, leituras, observações, tudo compendiei pensando um dia neste “Vaqueiros e Cantadores”. Diz o autor que o material foi colhido diariamente na memória de uma infância sertaneja, despreocupada e livre.

“Vivi no sertão típico agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. O gramofone era um deslumbramento. O velho João de Holanda, de Caiana, perto de Augusto Severo, ajoelhou-se no meio da estrada e confessou, aos berros, todos os pecados, quando avistou, ao sol-se-pôr, o primeiro automóvel”.

 

“INTELECTUAIS DAS ÁFRICAS” (Final)

Este livro conta com a participação do professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Itamar Aguiar.

“África tem uma História”. Esta frase está no volume I de “História Geral da África”, de Joseph Ki-Zerbo. Era fins da década de 1970.

Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, organizadores da obra, nos oferecem um apanhado geral sobre as ideias dos grandes intelectuais da África que interpretaram os conceitos do Pan-Africanismo e da Negritude do continente pré-colonial e pós-colônia.

Frantz Fanon foi um dos primeiros pensadores desse povo que por séculos viveu sob o jugo dos dominadores – assinalam.

Para elaborar o livro “Intelectuais da África”, por intermédio dos autores convidados, Silvio e Washington adotaram o significado de intelectual como indivíduo que reflete, teoriza, projeta e produz sobre as sociedades, imaginando novas formações sociais, políticas e econômicas.

Os intelectuais foram hábeis na arte de representar, seja na escrita, no cinema ou na música, como Fela Kuti, Sembène, Soyinka, Fatema e outros – escreveram.

O termo intelectuais, de acordo com os expositores do assunto, tem sua origem em fins do século XIX, na França, por conta do caso Dreyfuss, condenado injustamente por traição à pátria.

Como dizem os autores do capitulo da obra, os estudos sobre os intelectuais entraram em descrédito após a década de 1920. No entanto, o papel deles na França foi fortalecido durante a guerra da Argélia (1954-1961). Eles interferiram na história, em especial Jean Paul Sartre.

Textos de Anta Diop, Senghor e Fanon eram divulgados no bojo do Pan-Africanismo ou da Negritude, como forma de resistência à argumentação de que a África não tinha história, e seu pensamento era atrasado e selvagem – acusam os acadêmicos.

Silvio e Washington afirmaram que o surgimento dos intelectuais está ligado a três origens, como o universo (ancestral), o isolamento e a escolarização europeia. Esses processos se misturaram e se divergem em algumas regiões – afirmaram.

Formados no período do colonialismo europeu, um traço comum entre eles foi o engajamento frente a todos os problemas nacionalistas, nas lutas pela a emancipação e nos direitos das mulheres, contribuindo para a transição de descolonização do conhecimento.

Nos textos do livro, existem fortes influências de matrizes pré-coloniais. Esses pensadores, conforme apontam, foram tragados pelo Pan-Africanismo e a Negritude. Como estrangeiro, Fanon escreveu sobre os efeitos do colonialismo na África e participou da luta pela independência da Argélia. Essa intelectualidade viveu o processo do fim da colonização, da descolonização e da emergência dos novos Estados.

O Pan e a Negritude foram dois importantes movimentos de resistência político-ideológico. O primeiro foi na questão da ancestralidade que levaria a um sentimento racional gerador da solidariedade entre os povos.

A Negritude tratou da questão específica do orgulho de ser negro e adoção da sua cultura. Esse movimento surgiu em fins da década de 30 no poema lírico “Diário de um Retorno ao País Natal, do antilhano da Martinina Aimé Césare. Senghor desenvolveu essas ideias em diferentes obras, servindo de base para outros intelectuais.

O orgulho da África, a luta, não contra o sistema, mas seus abusos, foram marcas do Pan, segundo Silvio e Washington. Somente depois do Congresso Pan-Africano (1945) e da invasão da Etiópia por Mussoline, em 1935, a luta pela independência entra na agenda dos intelectuais – relatam.

Tudo isso contribuiu para a obra cinematográfica do senegalês Sembène. A partir daí, formou-se uma rede de solidariedade contra o colonialismo. Dentro dessa ideia de coparticipação, o pan-africanista Amílcar Cabral, líder da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, na década de 60, postulava que a libertação na África não poderia caminhar apenas na linha da independência de cada colônia, mas de toda África.

Esse Pan-Africanismo passou a estimular a unificação de toda a África em um único Estado, mas esbarrou nas divergências e nos sentimentos de soberania de cada território. Nkrunah, líder de Gana (1957 -1966) foi um dos difusores da ideia. O Pan também foi prejudicado pela xenofobia entre os estrangeiros africanos, pelas distâncias geográficas, pela a esquerda e direita, pelas prioridades econômicas e interesses de cada governo.

“Os dirigentes africanos se dividiram em dois grupos, os que queriam uma união política forte e os que desejavam uma confederação com soberania. A ideia caminhou para uma união entre os estados independentes, visando combater o imperialismo. Dessa forma, surgiu em 1963, a Organização da União Africana (OUA).”

Sobre este ângulo, a escritora nigeriana Adichie faz um de seus personagens lembrar de que o negro é uma criação branca, impregnada de autoritarismo e corrupção. Com as bandeiras do combate ao racismo e da negritude, o Pan obteve a simpatia de vários intelectuais africanos. Os dois se caracterizaram por sua face racial, de provar a não inferioridade da raça negra.

Adichie em seu livro Meio Sol Amarelo (2006) fez uma personagem sustentar que os negros foram e são emparelhados pela mesma opressão branca. Porém, a crítica à branquitude teve suas reservas nas falas de Pepetela, Soyinka e Mia Couto. O próprio Soyinka propôs uma valorização das culturas do continente, sem a negação de qualquer porte. Pepetela e Mia também não defenderam uma idealização da raça negra, se colocando abertos às misturas das culturas, não acreditando numa raiz pura e intocada.

Um Rio Chamado Tempo e Uma Casa Chamada Terra, Mia narra numa conversa entre família onde um membro se espanta que nela haja tantos mulatos. “Nesse mundo, todos somos mulatos”. “Ao longo dos séculos, as culturas africanas sempre se aproveitaram de traços culturais entre si e de outras fora do continente.”

Na década de 60, o músico Fela-Kuti propôs uma arte voltada para a solidariedade negra. Tanto Amílcar Cabral, Sembène e Adichie rejeitaram a ideia homogeneizante de uma única identidade africana, Admitiram a existência de uma pluralidade cultural. Adichie fez um personagem sua declarar que o negro era em grande parte uma criação branca.

Para Mbembe, o importante não é a volta ao passado, mas a autocriação e a auto explicação realizadas pelos africanos em cada lugar da sua história através de seus instrumentos, como a religião, a música, a literatura e das artes em geral.

“Em linhas gerais, os intelectuais africanos procuraram exercer influencias sobre a opinião pública em relação a fatos, como o colonialismo, a descolonização ou os Estados e as questões sociais emergentes no pós-independência, interpretando as realidades do continente”.

Os autores desse capítulo citam a nigeriana Adichie que questiona a subalternização das mulheres africanas, testemunhas das injustiças que, diante das quais, as mulheres se calavam. Ressaltam também a luta de Soyinka contra as ditaduras nigerianas, sendo preso durante a guerra da Biafra (1967-1970).

“Alguns desses intelectuais participaram de governos, como Senghor que foi presidente do Senegal (1960-1980) e Pepetela vice-ministro da Educação angolana (1976-1982). “Tiveram de lidar frequentemente no mundo ocidental com um desconhecimento ou uma visão estereotipada dos problemas africanos. Levantaram questões embaraçosas para o colonialismo ou para os regimes autoritários ou sociedades conservadoras em África. Lutaram contra diversas formas de poder, suas estruturas estatais autoritárias no período colonial e nos pós-independência”.

“Uns engendraram no campo político e outros, como Pepetela, na literatura após deixar a cena político-partidária. Enfim, lutaram pela promoção da liberdade dos africanos e pelo conhecimento crítico das realidades vivenciadas pela África. Muitos acreditaram que a independência era o início do processo de emancipação, chegando alguns, a pensarem realidades novas, às vezes, utópicas, enquanto outros acharam que era a sua conclusão”.

“Em geral, permaneceram críticos do poder, marginais ou exilados, não sendo cooptados por governos e empresas. Poucos renegaram essa vocação. Muitos, ao assumirem governos, abandonaram a posição extremamente crítica mais fácil aos intelectuais de oposição, tendo de justificar regimes ao lado dos quais passaram a assumir a liderança ou a defesa, traindo, consequentemente, companheiros”.

“Muitos, após a independência, com o assumir de regimes autoritários e corruptos, passaram a denunciar que todas as dificuldades atuais da África, tais como ditaduras, guerras, genocídios, machismo, fanatismo e poluição não podiam ser só atribuídas à colonização. Entre estes, “podemos apontar Soyinka, Pepetela e Fatema Mernissi”.

 

 

“INTELECTUAIS DAS ÁFRICAS”

O livro “Intelectuais das Áfricas”, organizado por Silvio de Almeida Carvalho Filho e Washington Santos Nascimento, é uma obra elaborada e comentada por várias cabeças intelectuais, inclusive conta com a colaboração do acadêmico e professor Itamar Pereira Aguiar, que nos adiantou já ser um sucesso de leitura, colocado como o 12º mais procurado no Amazon.

Não resta dúvida ser um trabalho inestimável em termos de contribuição para o conhecimento humano sobre o continente africano, e de grande valia para estudantes, professores, cientistas políticos e outros interessados pelo assunto, principalmente em salas de aulas.

Como o próprio título já diz, acadêmicos e estudiosos se debruçam em traduzir o pensamento de grandes intelectuais da África que abriram o desconhecido e construíram pilares culturais mais sólidos rumo a novas mudanças políticas continentais, especialmente no pós-colonialismo europeu.

“Intelectuais das Áfricas” é prefaciado pelo filósofo Renato Nogueira que abre o texto com Anta Diop, citando o professor Leakey na questão do povoamento do mundo onde viviam os primeiros seres na região dos Grandes Lagos. “Isso quer dizer que toda raça humana teve sua origem, exatamente como supunham os antigos, aos pés das montanhas da Lua” –

No quesito civilizações humanas, de acordo com Nogueira, a África é o continente mais antigo do planeta. Em referência aos intelectuais, objeto de abordagem do estudo, o filósofo destaca o senegalês Cheikh Anta Diop que, de uma forma ou de outra, influenciou o mundo acadêmico africano.

Para o prefaciador do livro, Diop foi o primeiro grande intelectual africano do século XX. Foi ele que deu voz em favor do protagonismo investigativo de africanas e africanos para contarem sua própria história, apresentando suas teses sobre os fenômenos filosóficos, sociais, artísticos, científicos e políticos – disse. Diop abriu caminho para todos os outros que vieram depois.

Em seguida, Nogueira aponta Achile Mbembe, Valentim Mudimbe, Paulim Jidneu, Malek Chebel, Fatema Mernissi (marroquina), Osmane Sembene, Fela Kute e o afrobeat Wole Soynka, Uanhenga Xitu, Mia Couto, Chimamanda Adichie (feminista nigeriana), Pepetela, Amílcar Cabral e Frantz Fanon. Todos eles “usam um sotaque africano para expor o que pensam”.

Nogueira fala de Isabelle Christine de Castro que faz um retrato de Fatema como uma das pioneiras no projeto de fazer uma tradução sociológica e jurídica do lugar feminino no mundo do islamismo, com uma crítica do lugar patriarcal.

Outro que fez uma incursão na cultura árabe-islâmica foi o argelino Chebel, ao argumentar que o islã  não se opõe ao ocidente. Nesse capítulo do livro, quem faz a apresentação de Chebel é o acadêmico Murilo Sebe Bon Meihy. Quem traduz o pensamento do filósofo Valentim é Regiane Augusto de Mattos. Na sua visão, Valentim é um intelectual feito no mundo colonial, herdeiro de uma tradição cultural africana, formado pela cultura católica beneditina.

Na obra aparece o professor Itamar Aguiar que descreve o pensamento do costa marfinense Paulim Jidenu. “Aguiar tem a felicidade de fazer uma bela radiografia da trajetória e interesses intelectuais de Jidenu”. Trata-se de “um filósofo influente que abriu várias linhas de investigação, incontornável quando o assunto é história da filosofia africana contemporânea” ´ressalta Nogueira.

Do nigeriano Soynka, o autor do prefácio cita seu livro “O Leão e a Jóia”. Para ele, é um trabalho onde a modernidade e a tradição disputam protagonismo na África do presente. Quem fala da literatura de Soynka é Divanize Carbonieri.

Sobre Antônio Emílio Leite Couto, Mia Couto, muito conhecido no mercado literário de língua portuguesa, Tânia Macedo abre seu texto tecendo comentários sobre uma entrevista dado pelo intelectual moçambicano onde declara que deixou a militância política para continuar fazendo política através da sua escrita.

Quem também passou a fazer militância política através da literatura foi o angolano Uanhenga Xitu. Quem se debruça sobre ele no livro é Washington Nascimento. Xitu esteve ligado às missões cristãs, inicialmente ligadas à Igreja Católica, e depois acolhido por grupos protestantes. O intelectual chegou a ser membro do Movimento Popular de Libertação de Angola.

O historiador Silvio de Almeida Carvalho Filho escreveu sobre o escritor angolano Artur Carlos Maurício dos Santos, conhecido como Pepetela. O capítulo escrito por Amilton Azevedo apresenta Fela Kuti, um dos grandes nomes da cena musical mundial, “uma reinvenção da África imersa no contexto daquilo que passou a ser chamado de renascimento africano”

Amílcar Cabral, de Guiné-Bissau, foi uma figura marcante no processo político de descolonização africana. Fábio Baqueiro deixa explícito que Cabral, apesar de ter vivido pouco (assassinado aos 48 anos), foi um ativista e líder político que influenciou todo o continente.

Muryatan Barbosa escreve sobre Frantz Fanon, que viveu apenas 36 anos, mas que foi um divisor de águas para os estudos pós-coloniais, segundo Renato Nogueira. Fanon foi um pensador muito lido pelo Movimento Negro no Brasil, nos anos 70.

E, finalmente, José Rivair Mecedo, apresenta o camaronês Achile Mbembe, um dos maiores intelectuais públicos do mundo contemporâneo. “Este livro cumpre o papel de provocar com a devida qualidade, mobilizando leitoras e leitores para descolonizar a África, abandonar ficções míticas sobre o continente, injetando em nossos corações e mentes, doses largas de elementos críticos para releitura da realidade” – finaliza Nogueira.

 

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (Final)

A COMUNIDADE DE REMANSO

Os autores acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar consideram a obra como um ensaio antropopoético e identificam o povoado de Remanso, em Lençóis, não como um quilombo, mas como uma comunidade de Jarê, com duplo pertencimento religioso católico e do candomblé orixá caboclo indígena-afrodescendente.

Trata-se de um grupo com profundas marcas, vistas como tribais, envolta na ambiência cultural das Lavras Diamantinas, miscigenada, com suas crenças, símbolos e rituais peculiares.

Narram os escritores e professores, que Remanso nasceu de uma propriedade localizada às margens esquerdada dos Marimbus, no município de Andaraí, na primeira metade do século XX. Essas terras pertenciam e ainda pertencem a membros da família Gondim que consentiu a instalação de um grupo negro de etnia angolana, isto a julgar pela quantidade de vocabulário banto. Eles nasceram nas Lavras Diamantinas.

A comunidade, conforme pesquisadores, foi fundada em 1920, habitada por aproximadamente 350 pessoas. As habitações eram simples choupanas feitas com paredes de barro (sopapo) e cobertas com folhas secas de palmeiras e tabuas. Esse quadro se modificou nos tempos atuais com o uso de paredes de tijolos de cerâmica, tetos de telhas, energia elétrica, água encanada e fogão a gás (antes era a lenha).

Os moradores de Remanso ainda praticam uma agricultura de subsistência (mandioca, feijão e milho), um pouco de pecuária e pesca. Esses produtos servem para o sustento das famílias, e a outra parte que sobra é vendida nas feiras. A área está localizada no Parque da Chamada Diamantina, criada em 1985, e é uma APA Marimbus Iraquara, fundada em 1993 por decreto estadual.

Ronaldo e Itamar chegaram a entrevistar o seu Anísio, de 83 anos, na data, sócio da Sociedade União dos Mineiros, nascida em 1930. Ele era filho de garimpeiro e informou que do outro lado do Marimbus (Andaraí) vivia um grupo de pessoas já organizado em comunidade, sob a liderança do negro “Manezim do Remanso”.

Disse seu Anísio que, do lado de cá, em Lençóis, existiu um terreiro de Jaré, cujo curador se chamava de “Manezim Bumba”. Lembra que, quando ainda menino, ia a mando do pai, à casa desse Manezim abrir “revista” e buscar remédios que ele fazia quando era procurado por garimpeiros que desconfiavam estar enfusados. ou seja, não conseguiam extrair pedras.

Seu Anísio confirmou que a casa de “Manezim Bumba” era um terreiro de Jarê onde existia festa todas as semanas, batia atabaques, tinha filhos de santo, abria revista, reza para mordida e espantar cobras do pasto e fazia remédios.

O pesquisador Gonçalves, em seu livro “Garimpo, Devoção e Festa”, em Lençóis, cita no capítulo Medicina, receitas usadas pela comunidade para curar doenças, como hortelã miúdo, das dores, Imburana, batata de purga, quebra pedra, capim lanceta, fedegoso, arruda do mato, raízes de caiçara e xiquexique, dom bernardo, dentre outras plantas. Destaca ainda a pele de sapo, usada para curar vários tipos de câncer.

Quando foi mesmo que a comunidade de Remanso mudou-se para o lugar onde se encontra hoje? Seu Anísio respondeu que foi em 1950, acreditando ter sido por causa do terreiro de seu “Manezim Bumba”, e para ficar mais perto de Lençóis. Afirmou que a comunidade vivia mesmo da pescaria e das roças que plantava. Também, muitos trabalhavam no garimpo, inclusive o Manezim, como o do Calderão, e o de  Cabaá – nome popular porque quando aprendia a ler sempre colocava o polegar na letra “A” que, com o tempo, se apagou.

Seu Anísio chegou a ser presidente da Sociedade União dos Mineiros por várias vezes quando trabalhava por conta própria no garimpo. Ela foi fundada em 1920 quando a Sociedade de Socorros Mútuos foi extinta. O velho Anísio informou que umas das atividades da Sociedade era organizar a festa em louvor a Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, cuja imagem chegou em 1855, trazida do Rio São José.

“Então o coronel Filisberto Sá reuniu os garimpeiros mais fortes, pegaram Nossa Senhora do Rosário, que é a padroeira da cidade (para as autoridades eclesiásticas é Nossa Senhora da Conceição), fizeram uma procissão e foram pegar Bom Jesus dos Passos lá no porto.  Tempos depois uns portugueses doaram um terreno onde foi construída uma igreja. Daí nasceu a relação entre Senhor dos Passos e os garimpeiros”.

Contam Itamar e Ronaldo que, no ano de 2014, o pároco da cidade entrou em desentendimento com os filiados da Sociedade União dos Mineiros, boa parte da população e o poder público municipal. O sacerdote julgou que a Sociedade não tinha o direito de participar da organização da festa, tentando modificar uma tradição centenária. Foi um embate jurídico movido pelo advogado Alexandre Aguiar onde a comunidade saiu vitoriosa. As pessoas de Remanso sempre participavam da festa com reis e marujadas.

O Hino dos Garimpeiros foi trazido de Mato Grosso por Samuel Salles, avô do cineasta Orlando Senna, segundo seu Anísio, que também apontou o nome do sr. Isaias Malaquias da Ressurreição, um grande comprador de diamantes. De acordo com os autores do livro, a letra do hino foi feita por Sá de Carvalho, com música composta por J. Toledo, de Uberlândia. A canção foi executada pela primeira vez em 1º de fevereiro de 1927, na Festa do Senhor dos Passos, e reconhecida pela Prefeitura como hino municipal, em 2010. Quanto ao hino de Senhor dos Passos, foi elaborado por Dilson Cunha, em 1954.

A comunidade se localiza à margem direita dos Marimbus, formado pelo encontro das águas dos rios Utinga, Santo Antônio e seus afluentes. Esses rios desembocam na margem esquerda do Rio Paraguaçu. O povoado é circundado por uma grande mata secundária, fronteirizada pelos Marimbus e pelos rios Roncador e São José, afluentes da margem direita do Santo Antônio.

O Remanso dista 18 quilômetros da cidade de Lençóis e se constitui no que se pode chamar de comunidade afrodescendente, num sistema tribal.  Entre os personagens do povoado, os autores da obra citam Nusenço, Aurino (músicos) e Salvador do Remanso, ator de cinema, cantador de chula, rezeiro e marujo, um típico Griô.

Existe ainda a Associação dos Pescadores de Remanso, criada em 1959, e registrada em cartório de Lençóis em 1969, sob orientação de Paulo da Silveira, que nos anos 70 foi eleito prefeito. Os moradores da cidade ainda participam da festa em louvor a São Francisco de Assis e Divino Espírito Santo, em Andaraí. Também frequentam terreiros de Jarê.

“ A julgar pelos ritos religiosos, Remanso seria uma comunidade católica semelhante a inúmeras outras existentes no sertão brasileiro, levando em conta a descrição dos aspectos físicos da comunidade. O que solta aos olhos são os símbolos do catolicismo”.

Remanso fica dentro da Área de Proteção Ambiental dos Marimbus Iraquara, na junção dos rios Utinga e Santo Antônio, onde existe uma grande variedade de peixes, como a piranha, a traíra, piaba, crumatá, tucunaré, apanhari, o martim pescador, dentre outros, sem contar os animais silvestres, como o quati, veado e tatu. Além da pesca, a comunidade também extrai mel de jataí, mandaçaia, uruçu, tubi, arapuá e italiana.

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (v)

O JARÊ, O GARIMPEIRO E OS DIAMANTES EM LENÇÓIS

“O Jarê é uma religião de base angolana, bastante influenciada pela cultura jeje e com muitas faces das aquisições que compõem as encantarias, entre as quais destacamos a caboclarização dos orixás” – ressaltam os autores da obra, Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que descrevem a formação histórica do município de Lençóis, que contou com a colaboração cultural do garimpeiro, a grande maioria vinda das Minas Gerais.

Na introdução desse capítulo, os acadêmicos dão ao leitor uma visão político-administrativa sobre o município de Lençóis, antes pertencente a Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu), tornando-se cidade em 20 de maio de 1864, e comarca das Lavras Diamantinas até 31 de dezembro de 1937.

Em seguida, citam os nomes dos intendentes e prefeitos, inclusive do famoso coronel Horácio Queiroz de Mattos, dentre outros que contribuíram para o desenvolvimento socioeconômico do município, hoje uma referência no turismo, tanto no âmbito nacional, como internacional.

Falam da grande presença dos católicos na formação religiosa da população, assinalando, no entanto, que muitos também eram adeptos do Jarê, incorporando orixás, caboclos e encantados. Essas pessoas sempre evitaram declarar dupla pertença religiosa.

Por outro lado, conforme pesquisadores figurados no livro, existia também essa dupla pertença do povo de santo ao catolicismo e ao culto dos orixás, responsável pelo sincretismo afro-brasileiro. Segundo os professores, esse referencial procede, pois “na realidade é uma composição de crenças tribais africanas, que se dividem em nações, que indicam a procedência do culto e o tipo de deus que o rege” (Epega, p. 160).

Ao localizar a área onde o Jarê viceja, Ronaldo e Itamar observam que ela foi constituída por brasileiros vindos de diversos lugares, como Minas Gerais, principalmente da região do Grão Mongol, e da cidade de Diamantina, como também do Vale do São Francisco e da Zona do Recôncavo. Contou ainda com a presença de estrangeiros árabes, judeus, franceses e africanos.

Na comparação com a agricultura e a pecuária, mais ou menos de previsibilidades, os autores dizem que a garimpagem de gemas orienta-se, na realidade, por regras do jogo, sendo o próprio garimpo um jogo. Mais adiante falam sobre a prospecção e o comércio.

Nesse quadro tem o dono da serra (proprietário de um trecho de terra), o dono do garimpo que arrenda a área por uma quantia fixa anual, ou faz um acordo com o dono da serra pela subdivisão do quinto, e o capangueiro, que é um tipo de comprador. Existe ainda o chamado meia-praça, a parte dividida entre o garimpeiro e o fornecedor (o empresário).

Itamar e Ronaldo detalham o papel de cada um dentro da garimpagem, e afirmam que o garimpo pode ser classificado como seco ou molhado, isto é, aquele em que os garimpeiros têm de deslocar água até o seco. No caso dos molhados, são garimpos de grunas de olhos d´água, ou leitos dos rios.

Existem também os garimpos equipados com infraestrutura de tanques. Neles ocorrem várias formas de pagamento e relações entre as partes, terminando no lapidário que transforma a pedra num brilhante, o qual é revendido a outros comerciantes, como ourives e joalheiros.

Quanto a decadência, descrevem que esta fase motivou o comportamento de não pagar o quinto, sob alegação de não ser roubo. Houve também a época de pagamentos de diárias por donos de garimpo e garimpeiros, relação que dispensa o fornecedor. Isso era muito usado nos tempos da florescência (corrida do diamante).

“O passado é uma referência constante; o presente, um lamento impregnado do sentido de perda; e o futuro, algo difuso, confuso, ausente como projeto, fugidio” – assinalam os autores do livro, fazendo pontuação sobre as lutas políticas dos coronéis e jagunços, durante a República Velha.

 

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (IV)

A GARIMPAGEM E A CULTURA DIAMANTINA NA BAHIA

Nesse capítulo, os autores e acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar e Aguiar falam da Chapada Diamantina como polo produtor e comercial das pedras, atraindo indivíduos de etnias e culturas diferentes. Essa cultura garimpeira, como já foi dito, prosperou mais em Mucugê, Andaraí, Lençóis, Iraquara e Palmeiras onde foram criadas as áreas de proteção ambiental, o Parque Nacional da Chapada e a APA Marimbus Iraquara.

Os autores citam no livro que os pesquisadores alemães Spix e Martius percorreram o interior da Bahia, entre os anos de 1817 e 1820, indo de Malhada de Pedras à capital. Os estrangeiros descreveram os aspectos do solo e as atividades agrícola, pecuária e a mineração, além dos costumes e hábitos dessa gente. Na Villa do Rio de Contas encontraram semelhanças com a região do Tijuco (Diamantina) Minas Gerais.

Como em Minas Gerais, também se verificou a presença do diamante no cascalho aurífero, caso de Rio de Contas. Na obra “Remanso”, ainda são citados os pesquisadores e estudiosos da região, como o engenheiro Teodoro Sampaio e o escritor Afrânio Peixoto.

O primeiro percorreu o Vale do São Francisco e da Chapada pelos anos de 1979 a 1980, tendo visitado Mucugê (Santa Isabel do Paraguaçu) onde teve início a garimpagem do diamante, predominando a etnia mestiça. A Serra do Sincorá foi onde se encontrou grandes quilatagens das gemas (Andaraí, Mucugê, Lençóis, Palmeiras e a Villa de Xiquexique-Igatu).

Os autores constataram em seus trabalhos, que o ciclo do ouro (um século) foi bem mais longo que do diamante (um quarto de século). Em Lençóis, a decadência foi extrema, não se encontrando diamantes de mais de uma oitava, mas os carbonatos (utilizados na indústria de perfuração de túneis) eram mais abundantes.

O segundo indicado no livro foi o romancista e escritor de Lençóis, Júlio de Afrânio Peixoto (1876-1947), membro da Academia Brasileira de Letras, com vários livros que falam da Chapada, narrando costumes e hábitos do povo.  A obra “Bugrinha”, inclusive, serviu de argumento para o roteiro de “Diamante Bruto”, do diretor Orlando Senna, em 1977, filmado em Lençóis.

De acordo com os acadêmicos, a cultura garimpeira se organizou através da economia do diamante e do carbonato. Itamar e Ronaldo descrevem sobre a consciência mineral da magia, com seus mitos, códigos e mitemas, apontando os aspectos folclóricos das festas populares (sacerdotes, brincantes e músicos). A população do município acompanha com fervor a dois principais calendários, de 20 de dezembro a seis de janeiro (reisados) e o 2 de fevereiro, que é a festa do Senhor Bom Jesus dos Passos.

Esses eventos sempre tiveram uma grande participação dos garimpeiros, moradores do município e de vizinhanças da Chapada. Dois hinos neste calendário, o dos garimpeiros e do Senhor dos Passos são citados no livro. “No mês de abril, também era comum alguns terreiros realizarem toques para os caboclos de pena, em função da data do descobrimento do Brasil. Nestes dias, rendem-se homenagens aos índios”.

“Nos dias 7, 17 e 27 de setembro soam os tambores de pau cavalo, herança dos atabaques de feituras dos candomblés nagôs… Os tambores de homens livres ecoam dos quatro cantos da cidade, em louvor aos santos Cosme e Damião. No mês de outubro, algumas casas de Jarê batem atabaques para os meninos, os Êres”.

“Os anos 70 foram uma década importante para o processo de mudanças culturais na cidade, uma vez que nela registra-se a criação da Casa de Cultura Afrânio Peixoto. A cidade foi tombada e transformada em Monumento Histórico, Artístico e Cultural Nacional”. Ainda nesta década aconteceu a filmagem de “Diamante Bruto” e tiveram início as primeiras medidas para a criação do Parque Nacional da Chapada (1985).

“REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (III)

A GARIMPAGEM DO DIAMANTE DE MINAS GERAIS À BAHIA

No livro, os autores e professores Ronaldo Senna e Itamar Aguiar fazem um relato histórico importante e bem fundamentado sobre a garimpagem do diamante em Minas Gerais e na Bahia, destacando os municípios de Mucugê, Andaraí, Lençóis e Palmeiras onde as primeiras explorações se deram por volta de 1848. Na cata do diamante, segundo eles, nesses pontos a Chapada Diamantina foi colonizada pelos mineiros e pela mineração.

Os primeiros achados do diamante no Brasil deram-se através do processo da garimpagem do ouro em Minas Gerais. De acordo com os acadêmicos, Bernardo Fonseca Leão foi quem primeiro passou a informação do descobrimento do diamante às autoridades portuguesas, mas as provas não são precisas. Conforme historiadores, a descoberta se deu em 1720. A identificação dessa gema foi feita por um missionário enviado ao Tijuco (Diamantina).

Versões de historiadores dão conta de que a primeira descoberta de diamante na Chapada ocorreu entre 1817 e 1818, na Serra do Gagau. “Também se fala em achados no Sincorá, em 1821, quando os naturalistas alemães Spix e Mratius atravessaram a região”. Registros, no entanto, descrevem que até 1838 os garimpos de diamante estavam circunscritos a Minas Gerais.

No ano seguinte, o minério foi encontrado em terras baianas, no local denominado de Tamanduá, próximo a Gentil do Ouro (Sales 1994 p. 30).  Na Bahia, a primeira companhia de mineração foi criada por volta de 1848, nas proximidades da Villa Santa Isabel (Mucugê). A minuta do primeiro contrato foi elaborada por Teófilo Ottoni. Consta que existiram oito companhias.

Logo depois da descoberta, citam os autores do livro “Remanso”, a Coroa Portuguesa cuidou de fazer uma declaração como proprietária dos diamantes. “Caçou as licenças para exploração dos garimpos de ouro e estabeleceu uma taxa de cinco mil réis por pessoa nos garimpos de diamantes”. Outra providência foi proibir os escravos de adquirir o minério.

A partir de 1º de janeiro de 1740, a Coroa permitiu que o trabalho fosse destinado a empreiteiros, impedindo a exploração individual. Cada empreiteiro, com até 600 escravos no máximo, era obrigado a recolher um imposto anual de 236 mil réis por cada negro cativo. O governo passou à condição de único explorador dos garimpos até 1832, ano da liberação geral da garimpagem. A partir daí houve uma corrida à procura clandestina das gemas.

Com isso, a vigilância foi apertada contra os contrabandistas, e o transporte do diamante tinha que ter uma licença. Os casos de fraudes eram punidos com o confisco da mercadoria e dos bens. O fraudador, segundo os escritores, era encarcerado e podia até ser deportado para África. A repressão gerou mais clandestinidade e muitos foram mandados para Angola.

Ronaldo e Itamar contam que, na segunda metade do século XIX, estudiosos viajaram pelo interior da colônia, inclusive estrangeiros, como o inglês John Mawe que narrou os atos de truculência usados pela fiscalização contra os garimpeiros de diamantes.

Entre casos pitorescos para burlar as normas, o viajante descreve a história de um negro escravo que com sua astúcia conseguiu passar num posto com uma pedra. Num tição de fogo ele colocou um diamante na cavidade. En- quanto tocava os animais ia acendendo seu cigarro de palha. Ao empacar um deles demonstrou excesso de raiva e atirou o tição que foi cair do outro lado do posto. Depois da carga ser revistada, o negro apanhou o tição e seguiu acendendo seu cigarro.

A legislação editada em 1832 foi sucedida pela lei de 24 de setembro de 1845 e exigiu outra organização administrativa através da regulamentação de 17 de agosto de 1846 definindo o preço de arrendamento das áreas. Uma nova lei, segundo Sales, foi editada em 1852 que passou a vigorar no ano seguinte.

Esta lei vigorou até 1870, quando surgiu a notícia de descobertas do minério no Cabo, na África do Sul, o que provocou baixa do produto e decadência na exploração no Brasil, com a consequente crise nas cidades das Lavras Diamantinas, como Mucugê, Andaraí e Lençóis.

Com isso, o Visconde do Rio Branco baixou o regulamento 5955, de 1875, ordenando as atividades garimpeiras. Esta portaria vigorou até a lei de Minas do Estado, em 1906, sendo, posteriormente, reformulada. A descoberta do diamante, em Mucugê, coincide com a perturbação da ordem pública em Minas e a chegada dos irmãos Ottoni entre 1847 e 1848, nascendo daí a fundação das companhias de mineração nas Lavras.

Nos anos de 1990, o governo, pressionado pelos movimentos ambientalistas e pelas empresas de turismo, decretou o fechamento dos garimpos em Lençóis. Até então, prevalecia o sistema de garimpagem, sucessor das companhias. Conforme pesquisa dos acadêmicos de “Remanso”, após o declínio da extração do diamante restaram os garimpos artesanais, que foram substituídos, na segunda metade do século XX, pela mecanização através das dragas, em Lençóis e Andaraí.

Esse sistema chegou a atrair muita gente de outros estados e até mesmo empresas multinacionais. “Esse cenário devastador provocou a fundação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, por decreto da Presidência da República, abrangendo toda Serra do Sincorá, onde estão localizados os municípios de Lençóis, Andaraí, Mucugê e Ibicorá” – destacam os autores da obra.

“REMANSO-UMA COMUNIDADE MÁGICO-RELIGIOSA” (II)

“A CONSCIÊNCIA MINERAL DA MAGIA”

“O diamante chama o seu dono através de luz e som: o garimpeiro ouve batidas nas picarras e vê a luz correr a serra”. … O diamante é visto como ser encantado”…

A obra dos acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar é dividido em seis  capítulos: A Consciência Mineral da Magia, Garimpagem do Diamante de Minis Gerais à Bahia, Garimpagem e a Cultura Diamantina na Bahia, O Jarê, o Garimpeiro e os Diamantes em Lençóis, Comunidade de Remanso e Marimbus, Joia Viva da Natureza.

Em “A Consciência Mineral da Magia”, os professores colocam o homem garimpeiro como um deslumbrado pela magia do diamante, com sua cultura e ritos que procura sair das trevas para se encontrar com a luz que é a pedra preciosa, a qual irá transformá-lo. Falam da dualidade benefício/malefício.

“O diamante em seu estado bruto, natural, puro, tende, normalmente, a ser visto como portador maior do encantamento – nas suas mais diversas manifestações – que aquele que já se encontra lapidado, com mais equilíbrio e brilho”.

“O homem é um ser que se criou a si mesmo ao criar a linguagem” (Paz, 1990,p. 34) … O homem constrói sua própria natureza…( Berger, 2001, p 72).  Nesse capítulo, os autores destacam que “a sacralidade faz o homem sair do seu casulo, interagir com a sobrenatureza necessária e responder as perguntas mais exultantes que a si mesmo sempre fez: Quem sou eu, de onde vim e por que estou aqui”?

“Não há luz sem trevas, enquanto o inverso não é verdadeiro”… (Durand, 1989, p, 49). Quanto a esse enunciado, os escritores ressaltam que tanto o conhecimento como a sabedoria, são vistos comumente como a luz que se projeta sobre as trevas; A luz do conhecimento e do saber que aclara e realça os elementos das trevas e da ignorância”.

Ronaldo e Itamar fazem uma descrição do poder do mito, do encantamento da pedra que encanta o homem. Reza a mitologia, que cada pedra preciosa tem o seu dono único. Ele, o homem, crê nessa magia e, por isso, muitos garimpeiros recorrem ao Jarê, ao orixá que vai lhe conduzir, lhe orientar para que o diamante seja só seu.

Os escritores de Remanso, antes de falar diretamente sobre a comunidade afro-brasileira, e não propriamente quilombola como muitos a consideram, descrevem sobre o poder do diamante que risca e corta. “Sim: Aquilo que risca e corta possui, em sua natureza, o poder de escolha do objeto ou do outro (daquele) a ser atingido”.

“…O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares”. ( Eliade, 1972, p, 11). Sobre o encanto do diamante, os acadêmicos citam a crença que concebe a união espiritual do diamante com os astros. “Para cada estrela no céu existe um diamante na terra e, nenhum garimpeiro conseguirá apanhá-lo se a força de seus astros não permitirem o bambúrrio”…

Na história do imaginário, Ronaldo e Itamar lembram frases populares como, um é pouco, dois é bom e três é demais. Cavalo ganhou uma vez, sorte; duas, coincidências; cavalo ganhou três vezes: Aposte no cavalo – dito chinês. De acordo com um velho garimpeiro, o diamante tem três “Ds” – diamante, dia e dono. Os autores relatam sobre a chegada das dragas quando, então, os garimpeiros perdem suas obrigações rituais, perdem a magia e deixam de procurar o Curador Jarê.

 

REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO RELIGIOSA

O FANTÁSTICO APOIADO EM UMA MUNDIVIDÊNCIA AFRO-DESCENDENTE – ASPECTOS DAS AMBIÊNCIAS SOCIAIS, GEOGRÁFICAS E HISTÓRICAS.

Estou lendo e gostando do livro dos meus amigos acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que tem como objeto de estudo a comunidade de Remanso, em Lençóis, encravado na Chapada Diamantina. Os professores fazem uma distinção muito clara do que seja uma comunidade quilombola e afro-brasileira, objeto de estudo de Remanso, confundido com a primeira classificação popular.

Na apresentação da obra, a professora Graziela de Lourdes Novato Ferreira, ressalta que os próprios autores informam que o grupo não se autorreconhece como quilombola e faz referência como “terra de herança”. Os professores usam a nomenclatura comunidade auto-indígena brasileira. Quilombo nasce dos negros fugidos das chibatas dos patrões que se refugiavam em algum lugar. Trata-se de um movimento de resistência.

No caso de Remanso, são pessoas remanescentes dos garimpos de diamantes, que também subsistem da pecuária e da agricultura. “ Remanso é uma comunidade com características de preservação de valores culturais próprios de um pertencimento ao arquétipo das populações da Chapada Diamantina. Traz fortes elementos ligados ao processo de garimpagem do diamante. Sua vivência e tradições se traduzem num místico cultural e religioso…”Os autores são defensores da preservação ético-culturais da região.

A professora explica que Itamar, em suas conversas sempre fala dos traçados dos caminhos, capaz de nos fazer viajar por um universo mágico-poético, com seus apaixonados relatos sobre Lençóis e sobre a manifestação religiosa, denominada de Jarê, um candomblé dos encantados caboclos, que se dá sob o toque da viola. “Vejo uma presença indígena aí muito forte, salve os caboclos! Orixás, caboclos e encantados que agregam elementos indígenas e católicos.

Itamar conceitua que o Jarê demonstra a pluralidade das expressões religiosas neste nosso “sertão profundo”. No prefácio do livro, editado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Josildeth Gomes fala das lavras diamantinas e diz que a obra é o resultado do esforço de dois apaixonados pelo mundo do garimpo que não chegaram às lavras em busca do diamante, mas que se tornaram garimpeiros da alma e de coração.

Ele classifica Remanso como uma comunidade garimpeira afro-indígena. Diz que os autores procuram esclarecer que Remanso é uma comunidade resultante da ocupação de negros, provavelmente de origem banto, que se deslocaram no século XVIII para a região direita dos Marimbus, um imenso pantanal existente na região.

O Jarê é uma expressão religiosa de origem africana que cultua orixás e caboclos, um candomblé de caboclos, ou candomblé do sertão.  Nessa religião, o Caboclo Boiadeiro ocupa o lugar de maior destaque no Jarê de Remanso, mas faz seu ritual é feito através do vaqueiro cuidador do gado. O Boiadeiro é mais o dono da fazenda e da boiada.

Ao lado do Boiadeiro, os caboclos Sete Serras e o Tomba Morro fazem parte dos personagens mais representativos da cultura da Chapada. O primeiro numa alusão à mineração, aos mistérios da mata. O segundo na presença do jagunço arruaceiro briguento.

Nas considerações iniciais, o professor Itamar faz uma viagem sobre o tempo dos coronéis (Horácio de Matos) e o papel dos jagunços como servidores dos mandantes do poder na época, muito diferente dos cangaceiros. Ele traça um mapa geográfico da região com seus municípios, grutas e principais rios que formam o marimbus.

O leitor é fisgado pelas histórias do coronel Horácio de Matos, um dos mais famosos do sertão nordestino, espécie de governador do interior dentro de um estado. Descreve sobre a criação da vila de Jacobina, em 5 de agosto de 1720, por determinação do rei. Jacobina abrangia uma vasta região que ia do Arraial da Conquista, das Minas Gerais, Cachoeira, Ilhéus e o Vale do São Francisco.

Em sua introdução, Itamar descreve a estrutura coronelista da época, sobre os donos de garimpos, lapidários, pedristas, campamgueiros, bambúrrios e demais comerciantes de pedras, Cita vários pesquisadores do assunto, como Américo Chagas, Olímpio Barbosa, Walfrido Moraes, dentre outros.

Em 1906, quando os diamantes estavam esgotados. Itamar lembra da criação do de um dos primeiros colégios do interior em \ponte Nova (Wagner) por missionários presbiterianos, de onde saíram grandes cabeças intelectuais. Tem também as histórias dos valentes João Requisado que enfrentava do alto da serra as tropas do Governo do Estado, do curador Zé Rodrigues, o tenente Zacarias, do deputado, poeta e intelectual Manoel Alcântera de Carvalho, Horácio de Matos e do jagunço Montalvão.

São histórias empolgantes que despertam a curiosidade do leitor, ávido pelos causos contados pelos nossos ancestrais e que serviram de subsídios para pesquisadores e estudiosos. Quem já ouviu fala do livro de São Supriano da Capa Preta? De acordo com a lenda, a reza era capaz de transformar o “devoto” numa moita, num touco, num animal e tantos outros seres. Possuía o encantamento de tornar invisíveis o jagunço, o valente ou o coronel aos olhos dos seus inimigos. Leia que é muito interessante o trabalho de Ronaldo e Itamar. .

“DESUMANIZADOS”

Um romance com um misto de crônica da vida cotidiana de Nelson Rodrigues, que descreve personagens com seus variados dilemas filosóficos e existenciais. Essas pessoas se encontravam num ônibus, cujo motorista (um dos personagens) perdeu o controle do veículo e bateu num muro de concreto, provocando sete mortes e outros feridos.

O livro “Desumanizados”, do conquistense Gledinélio Silva Santos – Nélio Silzantov – licenciado em Filosofia pela UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e mestre em Estudos de Literatura pela Universidade Federal de São Carlos, é um rasgo de puro realismo sobre as mazelas do ser humano e da nossa sociedade com seus baús fedorentos de hipocrisia e moralismos.

Nélio não poupa os nossos políticos com suas ambições fraudulentas de enganar os outros, e vai até as entranhas de seus personagens, deixando expostos seus problemas, manias e angústias. Em suas 186 páginas, o autor desbrava correntes de pensamentos de muitos filósofos, como Sartre, Heidegger e Schopenhauer.

A obra romanesca e cronística faz uma reflexão sobre o homem e o sentido da vida, num alinhamento com Clarice Lispector e José Saramago. O escritor usa termos fortes e até em tom de desabafo para descrever o papel da Igreja, ou da religião, e o que as pessoas pensam de Deus. Em seus textos usa muitas imagens poéticas, impressionistas, surrealistas e abstratas.

Seus personagens são uma explosão de erotismo, ternura em algumas passagens, maldades e violência como fruto de um sistema perverso e cruel em que vivemos. É um retrato da luta pela vida, o estrange for live, onde só os mais fortes sobrevivem.

Digo que “Desumanizados” deve ser lido porque tem uma linguagem aberta e escancarada, sem subterfúgios, e lhe faz pensar sobre o seu eu e o das pessoas que lhe cercam, como elas agem, muitas vezes lobos em peles de cordeiros. A obra tem como cenário Vitória da Conquista, e é todo focado no ônibus coletivo da linha R19A.

Nélio não tem rodeios e emprega termos fortes, mas realistas sobre cada um de seus personagens vilões e vítimas dessa sociedade. Por isso, é também um livro sociológico que mexe com o eu psicológico da cada um. É, antes de tudo, um trabalho de reflexão, sem medo de vomitar as nossas sujeiras e até de bons atos.

Me atrevo a citar aqui poucos nomes fictícios de seus personagens e trechos que impactam o leitor, que pode fazer seu julgamento pessimista do autor sobre a vida, ou encará-lo como realista. Na abertura, por exemplo, Nélio assinala que “temos tanto a aprender sobre os grandes mistérios, e a sede é tamanha para aliviarmos a angústia, que atropelamos as pequenas coisas sem nenhuma atenção”.

As frases de impacto do narrador Sebastião, na terceira pessoa, são fortes sobre seus personagens, como “… o coração e a mente são insondáveis, feito a imensidão do universo… E quando tudo nos escapa ao toque, lamentamos não termos uma segunda chance”.

O narrador sempre está dialogando com seu amigo fiel Van Gogh. “Voltei a ser a sujeira varrida pra debaixo do tapete. A escória do mundo que envergonha a todos. Ceifadores da escória humana, é isso o que eles são. …pois matei toda aquela gente a sangue frio…”

Sobre o trágico acidente do coletivo R19A, ele começa descrevendo que onze pessoas foram retiradas do ônibus. Quatro morreram no local, e as demais foram levadas para o HGVC, mas houve sete perdas no total.

“A ligação entre duas pessoas segue a mesma lógica. Amores, amizade, desafetos, relações de todo tipo constituem-se cada um à sua maneira, e a mensura da intensidade e duração delas independem do tempo… Ao fim de tudo, o que importa é aquilo que fica, o que atingiu a plenitude da sua existência e fixou-se na eternidade”. Ele fala de duas almas, Dolores e Elizabete, no Orfanato Lar Santa Catarina de Sena que se unem e se separam e, depois de muitos anos, se reencontram.

O escritor não segue a linha do corretamente político em termos de palavras, como foder, filho da puta e outras do tipo que ainda até hoje são vistas como palavrões e recolhidas lá num canto do seu íntimo. “Dolores retraia-se o quanto podia, ocultando seu corpo dentro do uniforme… Em resumo, estava apaixonada”. Descreve Dolores hipnotizada pelo movimento dos lábios de Elizabete.

Nélio trata das opções sexuais de cada um de seus personagens, sem nenhum pudor, e critica os preconceitos homofóbicos e racistas. São temas atuais que sempre estamos nos debatendo no dia a dia. …”lábios macios e úmidos de quem amava tanto… Luxúria e fornicação são pecados abomináveis para o Senhor, diziam as freiras, alertando as garotas do Orfanato para não caírem em tentação, permitindo que o mal se apossasse de suas almas por meio delas. … o corpo inteiro inundado de pecado. Estava suja! Uma pecadora imunda, digna dos castigos mais severos”. Das lamentações bíblicas: “Vê Senhor, e considera a escória em que me tornei! Os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Dolores queria mesmo era se perder na Memória de Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez”.

“Os coroinhas são servos de Deus que adoram imitar o capeta”. Essa frase me lembra muito quando eu era sacristão e depois seminarista na década de 60. “O mundo é um purgatório carente de almas, e os corpos que transitam a esmo pertencem aos desalmados desse mundo. Eles vagueiam dia e noite, na certeza de que estão vivos”… “Nenhuma conquista é obtida sem a perda de algo. … A vida é um jogo de concessões…”

No final do livro, o narrador-escritor dá voz a um dos principais personagens, o motorista do ônibus de nome Marco que diz: “Foda-se o patrão e o emprego. …Colidir contra uma parede de concreto, ou alguma carreta vinda na direção contrária seria um favor a mim mesmo e a esses miseráveis, era o pensamento que não sai da sua cabeça. Camille deixou o semblante expressar uma espécie de desejo mórbido que dominou a todos naquela manhã”.

No Posfácio, o escritor abre o texto afirmando que “um corpo, enquanto vivo, carrega em si as marcas do tempo, das horas transformadas em dias repletos de alegria e dor. Ele fala da finitude, “quando o espírito abandona o corpo, o semblante de quem morre se modifica…. A morte exerce sobre os homens toda a sua impetuosidade”. “Um bando de hipócritas é o que são todos eles”!

Em tom poético, destaca que “a brisa que agora percorre as ruas desertas, tocando levemente os ciprestes nos jardins, anuncia o inverno que vem chegando. Labaredas de fogo lambem a noite. Metamorfose de um tempo que conclui o seu ciclo de início, meio e fim”. … “Sempre soube o que você tentou me dizer, velho Van Gogh, com olhos de quem conhece a escuridão da minha alma”.





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