:: ‘Encontro Com os Livros’
O GENOCÍDIO NORDESTINO DURANTE O FLAGELO DAS SECAS E DO CANGAÇO
Entre os anos de 1877 a 1930/35 milhares de nordestinos foram dizimados pelo flagelo das secas prolongadas e em campos de concentração por falta de amparo do governo imperial e dos presidentes das províncias. Levas de mendigos se refugiaram nas capitais, principalmente em Fortaleza, no Ceará, e lá foram abandonados à própria sorte, vítimas de um verdadeiro genocídio.
Além das estiagens que mataram milhares de fome, os sertanejos nordestinos ainda tinham em seu encalço os bandidos cangaceiros que extorquiam o povo miserável e ceifavam vidas. Para ficarem livres desse incomodo social, os governantes, no final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, incentivaram e levaram os famintos para os seringais amazonenses onde centenas foram mortos pelas doenças da floresta.
A concentração de terras nas mãos dos latifundiários e as violentas disputas políticas foram outros fatores que contribuíram para as matanças dos pobres sertanejos, apesar da prosperidade e abundância de dinheiro nos cofres públicos de algumas cidades, consideradas como terras “selvagens”, como Canhotinho, Garanhuns e Pesqueira, em Pernambuco.
A atuação de jagunços e cangaceiros foi explícita, culminando em 1917 com o episódio conhecido como a “hecatombe”, quando um grande número de bandoleiros do cangaço entrou em Garanhuns e massacrou diversos cidadãos.
Quem fala dessa situação de horror no sertão e agreste nordestino é o pesquisador Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros”. Sobre a ação das estiagens inclementes, ele cita que no Rio Grande do Norte, após a dizimação de 70% do rebanho bovino, durante a seca de 1915, o algodão atuou como uma força na economia do Nordeste.
Pericás considera as condições climáticas adversas como possíveis responsáveis pela deterioração na produção, fome, aumento da pobreza e consequente incremento nas atividades dos bandidos. No século XX, de acordo com seu estudo, ocorreram estiagens prolongadas em 1900, 1903, 1915,1916 e 1932, “mas foi no período em que não aconteciam secas que o cangaço se mostrou mais robusto”.
No ano de 1877, talvez a mais dura seca do século XIX, houve um incremento nas pilhagens e saques, sobretudo na região do Cariri. No seu entendimento, grande parte dos roubos e furtos em períodos de secas era praticada por gente comum, por retirantes e flagelados.
O principal efeito das secas foi o êxodo para as grandes cidades, inclusive para as capitais das províncias. A população do Ceará, por exemplo, em 1877, foi reduzida a um terço. No entanto, a capital inchou. Em 1872, Fortaleza tinha 21 mil habitantes. Em 1877 emigraram para lá 85 mil pessoas. Um ano mais tarde esse número ultrapassou os 100 mil. A cidade de Aracati, que tinha uma população de cinco mil moradores, em 1878, chegou a 60 mil.
“Como resultado da grande estiagem de 1877, chusmas de mendigos percorriam as ruas em busca de algum tipo de caridade. Uma carta de um leitor de “O Cearense”, daquele ano, dizia que o povo está em desespero e logo as pessoas começarão a esmolar pelas portas, ou, como último recurso, iniciarão a rapinagem”.
Um artigo de “A Opinião”, da Paraíba, de 11 de novembro de 1877, afirmava que os sertões estão ficando desertos pela emigração para os brejos, impelida pela seca, a procura de recursos para manter a própria vida; e nos brejos surge a miséria pela superabundância de emigrantes que de tudo precisam, e nada conduzem.
O mesmo jornal, um mês depois descrevia que a seca lança consternação no seio de todas as famílias, e os criminosos e desordeiros roubam o que ainda nos resta, mesmo a honra e a própria vida. “Em todas as ruas veem-se cadáveres ambulantes e nus, sem forças para implorar uma esmola.
O jornalista Rodolfo Teófilo, falando do Ceará, citava que os comissários, distribuidores de socorros, tinham a ordem de dar uma ração ao retirante unicamente no dia da chegada. No dia seguinte, se quisesse ter direito a ajuda, deveria ir à pedreira de Mucuripe, seis quilômetros da capital, carregar pedras. Aquilo era bastante para roubar-lhe a vida – ressaltava
Escreve Pericás que, de abril a dezembro de 1877, cerca de 500 mil flagelados precisavam do auxílio do governo, que enviou 2.700 contos, uma quantia insuficiente para resolver a questão. Conforme pesquisas da época, a seca de 1877/79 matou mais de 500 mil pessoas. No período entre 1877 e 1907 houve um desfalque populacional superior a dois milhões de habitantes.
As duras condições climáticas de 1915 foram responsáveis por ceifar a vida de 30 mil cearenses e de expulsar do estado 42 mil flagelados. Aliado a tudo isso, houve um significativo aumento nos preços dos alimentos.
“A população civil, esfomeada, sem ter dinheiro nem condições de esperar pela distribuição da comida, acabava saqueando os armazéns de depósitos. Políticos e cangaceiros incitavam o populacho a tomar posse dos alimentos. Alguns cangaceiros davam alimentos em busca de apoio dos sertanejos”.
Segundo dados, de 1869 até o final do século XIX, mais de 300 mil pessoas saíram do Ceará, sendo mais de 250 mil para a Amazônia e mais 45 mil para o Sul do país. Por causa da seca, mais de 50 mil retirantes saíram do Rio Grande do Norte entre 1895 e 1910 para outros estados, inclusive para a região amazônica.
O Maranhão foi outro estado de destino dos retirantes, sobretudo entre 1900 e 1920. Os estados que continuaram mandando mais gente para fora do que recebendo, entre 1920 e 1940, foram Piauí, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, em geral para o Sul do país.
No Passeio Público de Fortaleza, no ano de 1915, três mil miseráveis se apinhavam em péssimas condições. O jornalista Tomaz Pompeu Sobrinho narra aquela cena como um espetáculo inédito que atraia muitos curiosos. Dizia ele que era um local de promiscuidade e imundície aos olhos de milhares de expectadores e exploradores da miséria.
Incomodado com a situação deplorável, o presidente da província determinou que os retirantes fossem transferidos para o Sítio do Alagadiço, situado ao lado norte da rua Bezerra de Menezes. O local se transformou num verdadeiro campo de concentração de milhares de pedintes, sobretudo de mulheres com seus filhos pequenos ao colo, sujos, nus ou maltrapilhos. O campo se tornou insuficiente, apesar de comportar cerca de oito a nove mil almas.
Como forma de “solucionar” o problema, o presidente resolveu fomentar a emigração para os seringais da Amazônia. Ali, o paludismo e o beriberi completavam a obra de destruição das miseráveis vítimas das secas.
“A situação era desesperadora. Crianças desnutridas, enfermidades, cadáveres empilhados em grande quantidade em caminhões, e a ajuda do governo era precária e ineficiente”. Em 1932, ano de seca intensa, ocorreram a batalha de Mranduba, a prisão de Volta Seca e escaramuças de cangaceiros com a polícia.
Para Luiz Pericás, uma parcela significativa da população pobre não entrava para o cangaço, mas os cangaceiros atacavam o povo humilde do sertão.
Em dezembro de 1932, por causa do desespero causado pela dura estiagem e atacados pela fome, Corisco, sete “cabras” e duas mulheres entraram em Mocambo, perto de Pindobaçu, e saquearam as casas de todos os moradores, comendo tudo que encontraram pela frente. O fenômeno do cangaço acabou, mas as secas e a miséria continuam.
A INFLUÊNCIA INDÍGENA NO NORDESTE FOI MAIS MARCANTE QUE A AFRICANA
Quando falamos de mestiçagem sempre damos destaque para o negro, só que no interior do Nordeste, a influência indígena, desde os tempos coloniais, foi mais presente e marcante, com a mistura de várias tribos que conviviam com os sertanejos nos aldeamentos.
De acordo com antropólogos, folcloristas e sociólogos, a mestiçagem do branco com o negro aconteceu em maior proporção no litoral. Ao longo da história, a impressão que temos é que os índios foram riscados do mapa, talvez porque foram praticamente extintos e exterminados.
Em sua obra “Os Cangaceiros”, Luiz Bernardo Pericás assinala que o termo “caboclo” muitas vezes era popularmente usado como sinônimo de índio ou de forma pejorativa. Muitos indígenas eram tratados como negros. Numa carta do Padre Nóbrega, de 1551, o clérigo se referia às mulheres indígenas como negras.
Descreve que em 1607, o Padre Luis Figueira designava na “Relação do Maranhão”, de “negro” Cobra Azul a Bóia obi, o morubixaba potiguara. “A quantidade de escravos íncolas no Nordeste, nos dois primeiros séculos do período colonial, era volumosa, explicando por si só tanto o uso dessa terminologia como a formação étnica da região”.
Houve um grande número de nativos escravizados no Nordeste porque o número de silvícolas era bem maior, bem como o preço do cativo negro. Existem relatos de que bandeirante Sebastião Raposo levou consigo para o Piauí 250 escravos indígenas carijós onde construiria uma fazenda de gado.
Foram levados para o Nordeste, pelos paulistas (mestiços mamelucos que se consideram brancos), 170 mil indígenas, só para trabalhar na produção de açúcar. Entre final do século XIX e início do XX, os indígenas viviam num acelerado processo de aculturação e dissolução tribal. No começo do século XX, os indígenas nordestinos viviam em condições precárias, em fase de assimilação.
Os membros de algumas aldeias ainda existentes apresentavam traços fenotípicos negroides ou caucasoides. Eles conviviam com os sertanejos de povoados vizinhos e recebiam em seus territórios mascates, tropeiros, padres e todos que quisessem com eles se relacionar. Muitos esqueceram até seus idiomas. Seus vestuários e construções eram similares aos dos sertanejos.
Cita Luiz Pericás, que a aldeia Cimbres, antes chamada de Ororubá, onde viviam índios xucurus, “brancos” e mestiços, que em 1855, possuía 861 habitantes, em 1861, tinha em torno de 789 moradores. Em 1897, o governo decidiu extinguir a aldeia. Os nativos ficaram sem seu território. Um século mais tarde, viviam aldeados na serra do Orurubá.
Os Pankararus, no sertão pernambucano, também são um caso sintomático. Eles remontam do século XVII, quando foi criada a vila Tacaratu. Em meados do século XIX havia apenas 580 indígenas. Em 1861, esse número diminuiu para 270 habitantes. Havia grande quantidade de posseiros “brancos” na região.
Nas primeiras décadas do século XIX ocorreu uma grande dispersão de uma diversidade de tribos indígenas no sertão de Pernambuco. Ao longo do tempo, as populações indígenas foram desaparecendo e tratadas como caboclos sertanejos.
Algumas tribos procuraram manter suas culturas, como os fulniôs (carijós) pernambucanos que preservaram sua língua iatê e continuaram realizando suas cerimônias de culto ao Juazeiro Sagrado na caatinga. Mesmo assim, foram sendo tragados pelos sertanejos que compravam seus lotes de terras.
Em 1861 o governo imperial extinguiu a aldeia devido aos conflitos entre índios e “brancos” locais. Somente em 1877 as terras nativas foram demarcadas. No entanto, a partir de 1916 a relação entre eles se tornou insustentável. Muitos dos habitantes originários foram expulsos.
Outros índios que tiveram destaque na formação da mestiçagem nordestina foram os cariris, tapuaias (Ceará, Paraíba), os tupinambás, Pataxós, aymorés e outros, na Bahia. Segundo Pericás, é compreensível que os cangaceiros, portanto, fossem produto de seu meio e tivessem em suas fileiras a mesma formação ética da região.
O Cabeleira, o bandido pernambucano do século XVIII era apresentado por alguns escritores como “brancoso”, de cabelos longos encaracolados. Outros o descreviam como mameluco e mestiço. Nesse ambiente de intensa mestiçagem, onde muitos bandoleiros eram caboclos ou cafuzos, existia lá dentro o preconceito contra o homem de cor.
Os Calangros, chamados de cabras, famosos bandidos potiguares, formavam uma grande família de mestiços, produtos do cruzamento do índio e do africano. O cabra era pior do que o caboclo e o negro.
O ESTADO TEM UMA DÍVIDA COM AS MULHERES NORDESTINAS ESTUPRADAS
Durante quase 100 anos mulheres nordestinas, entre crianças, jovens e adultas, foram estupradas pelo cangaço e pelas volantes de forma cruel e brutal. O Estado corrupto foi negligente e conivente com essa situação porque suas forças, além de precárias e despreparadas, foram as maiores estupradoras dessas mulheres desprotegidas, também vítimas dos cangaceiros.
Por muitos anos, entre o meado do século XIX até quase metade do século XX, essas mulheres, além do sistema patriarcal opressor onde os homens eram seus donos e as usavam como mercadorias, viviam boa parte do seu tempo escondidas nas caatingas, ora fugindo dos bandoleiros, ora das volantes que estupravam crianças e até idosas. Elas viveram anos de terror sem nenhuma proteção do Estado.
Sobre o assunto, vejamos o que descreve o escritor e pesquisador Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros-ensaio de interpretação histórica”. Ao falar sobre o ato de ferrar pessoas pelo cangaço, ele cita que o mais famoso “ferrador” de mulheres foi o “Zé Baiano”, do bando de Lampião, também conhecido como a “pantera negra dos sertões”.
Em 1932, depois de receber em mãos uma carta “provocadora” escrita por algumas “damas respeitáveis” da cidade de Canindé, onde mandavam um recado para Lampião de que se ele desaprovava cabelos curtos em mulheres, elas iriam fazer o que bem entendessem, pois não eram donas do rei do cangaço.
Como lição, Lampião invadiu a cidade e mandou o “Zé Baiano” marcar a ferro em brasa o rosto e outras partes íntimas do corpo das mulheres casadas ou parentes de soldados, com sua marca “JB”. Ele também cortava as línguas das mulheres que usassem maquiagem e vestidos curtos.
O bandido Lucas da Feira, baiano nascido num povoado de Feira de Santana, que formou um bando a partir de 1828 até 1840, responsável pelo assassinato de cerca de 150 pessoas, estuprava as filhas dos senhores rurais num misto de bullying e de ódio racial.
“Sua crueldade chegava a tal ponto que costumava, depois de consumado o estupro, passar mel de abelha nas jovens, que eram amarradas, sem roupas, em tronco de árvores para serem devoradas pelos insetos e animais. Lucas chegou a “sangrar o ventre” de uma mulata em adiantado estado de gravidez com “lapadas de relho cru”.
Era notório sua crueldade para com as mulheres. Lucas crucificou uma jovem branca de 15 anos num pé de mandacaru, repleto de espinhos, tão somente porque foi rejeitado por ela. O bandido se relacionava muito bem com figuras políticas locais de prestígio, para as quais prestava serviços.
As volantes, que perseguiam os cangaceiros, quando chegavam em algum vilarejo ou cidade, descarregavam todas suas raivas por serem mal pagos pelos governos (muitas vezes ficavam sem receber seus soldos ou eram “pagos” com dinheiro falso) nas mulheres que eram vítimas de estupros e outras atrocidades bárbaras.
CABEÇAS DECEPADAS E DOIS “PARTIDOS” NORDESTINOS NA ÉPOCA DO CANGAÇO
A maioria das pessoas considera uma barbaridade a decapitação das cabeças de cangaceiros mortos pelas forças das volantes e tem suas razões, mas existem explicações.
Do outro lado, o cangaço, entre final do século XIX até 1940, fazia o mesmo com os chamados “macacos” e até esquartejavam impiedosamente. O cangaceiro Antônio Silvino tinha o prazer de sangrá-los depois de tombados em combate.
Sobre o assunto, veja o que nos diz o pesquisador e escritor Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros”. Depois das lutas, o fardamento dos soldados das volantes (vestimentas parecidas a partir de 1925) ficam em péssimas condições, muitas esfarrapadas.
Quando ganhavam os embates, de acordo com Pericás, decepavam as cabeças dos rivais por eles assassinados. O autor do livro aponta três motivos para a decapitação do inimigo.
Um deles para demonstrar desprezo e, consequentemente, humilhar o rival. Se o cristianismo defende a inviolabilidade do corpo, a decapitação seria uma forma de tirar esse “privilégio” dos bandidos. Com a cabeça separada do tronco, sua alma estaria perdida. Essa seria uma forma estranha de punição. Exemplo claro foi o de Corisco, enterrado inteiro e depois exumado e decapitado. Para alguns, o ato teve como objetivo estudar seu crânio.
Luiz Pericás deixa claro que isso funcionava para os dois lados. Ao terminar o ataque a Betânia, os civis pediram a Lampião permissão para sepultar os soldados assassinados. O “governador do sertão” respondeu que “macaco” não se enterrava. Para ele, os policiais deveriam ficar por cima da terra para serem comidos pelos urubus. Depois de muita insistência, o cangaceiro deu permissão.
Antônio Silvino (1897-1914) havia feito o mesmo. Em 1904, após assassinar o sargento Manoel da Paz, proibiu que o povo de Mogeiro o enterrasse. Não poderiam colocá-lo num cemitério, já que seria uma profanação sepultar um “bandido” daquele tipo num lugar sagrado – disse Silvino.
O segundo motivo era de implicações mais práticas. Como era inviável o transporte de cadáveres e, considerando que era fundamental exibir as provas da eliminação de muitos cangaceiros procurados, o corte das cabeças se mostrava a melhor opção. A exposição em praça pública daria mais segurança para o povo de que aqueles indivíduos não seriam mais ameaças.
O último motivo é que as cabeças serviam como troféus macabros para os oficiais, que poderiam usá-las como símbolo de suas eficiências militares. Em última estancia, seriam estudadas por cientistas, antropólogos e criminalistas, e depois guardadas em museus.
Por outro lado, as cabeças terminaram virando moeda de troca com as autoridades. Qualquer bandido arrependido que entregasse a cabeça de um cangaceiro para a polícia teria seus crimes perdoados pelo governo e ainda ganharia prêmios e garantias de vida.
Com José Osório de Faria, o Zé Rufino, que alugou serviços às autoridades baianas, havia um acordo secreto com o governo. Cada cabeça era trocada por uma promoção. Após 16 combates e 22 decapitações ele se tornou coronel de polícia.
No começo do século XX, cidadãos comuns decapitavam cangaceiros para roubar seus pertences. O sujeito que não fosse sangrado e torturado poderia se considerar um privilegiado. Depois de capturar e interrogar “Lavandeira”, o tenente Alencar decidiu sangrar o bandido, mas atendendo a um pedido do soldado, deu um tiro na cabeça.
DOIS “PARTIDOS”
No final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, o Nordeste, sem justiça, era uma terra de ninguém onde mandavam os coronéis, fazendeiros e senhores de engenho, se bem que os poderosos só mudaram de vestes e de lugar.
Os pobres e miseráveis ficavam numa linha de fogo cruzado e só tinham dois “partidos” para sobreviver, o do cangaço ou o da volante. Conforme relata Luiz Pericás, o governo contratava civis para as forças volantes.
“As tropas volantes, assim, se tornavam também uma forma de garantir um emprego e de ascensão social para muitos sertanejos. Outros se alistavam por terem recebido ameaças até mesmo de policiais e também para garantir sua segurança contra cangaceiros inimigos”.
A ideia de se perseguir desafetos que cometeram crimes contra suas famílias era um dos principais motivos de ingresso nas fileiras policiais. Pericás conta que um coiteiro de Lampião, Elias Marques, de Santa Brígida, depois de entrar em desavença com o “governador do sertão” ingressou na força policial.
Em alguns casos, quando o sertanejo não conseguia entrar nas volantes, caso do cangaceiro Tenente, decidia ingressar no grupo dos salteadores. “Fiapo”, depois de se desentender com Lampião, foi para a volante.
Quando “Volta Seca” foi capturado disse que nunca mais retornaria ao cangaço. Segundo ele, o jeito seria virar “macaco”. Também ocorria o inverso. Desertores da força pública se tornavam cangaceiros, como Ignácio Loyolla Medeiros, vulgo “Jurema”. Ficou na polícia até 1922 e depois se incorporou ao grupo de Lampião.
“Corisco” também foi militar, tendo servido no 28º Batalhão de Caçadores do Exército, em Aracaju-Sergipe. Após participar de uma rebelião, em 1924, desertou e mais tarde se tornou cangaceiro. O caso mais conhecido de um militar do exército brasileiro a se tornar um cangaceiro foi o de José Leite Santana, vulgo “Jararaca”, que chegou a lutar na revolta tenentista de São Paulo, em 1924, e também esteve no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.
Um, dos filhos de Antônio Silvino se tornou oficial do exército. Certa vez Lampião disse que não havia nascido para a vida de cangaceiro. “Se não houvesse nêgo na polícia pra manobrar com a gente, eu ainda iria ser soldado”. Joca Bernardo, coiteiro de “Corisco” e delator do paradeiro de Lampião em Angico, recebeu a oferta de cinco contos de reais e uma patente de sargento. Foi enganado e caiu em desgraça.
OS LADRÕES DE LIVROS
Estava na Feira Literária de Itapetinga e papo vem, papo vai, pintou a conversa sobre a questão da leitura que anda desmilinguida e definhada no Brasil. Falei sobre os antigos ladrões de livros que hoje são escassos nas livrarias e sebos. Um colega de lá sugeriu que eu escrevesse uma crônica sobre o tema, e aqui vou eu com essa incumbência delicada e difícil.
– Vambora cumpadi, que na pista tombou um caminhão! Tão dizendo que é de carne, frutas, feijão, milho, celulares ou de bebidas. Nesses casos, o saque é repentino e a polícia não tem condições de controlar a multidão, como ocorreu recentemente numa zona do Rio de Janeiro.
Em pouco tempo os moradores da redondeza ocuparam o local da serra, como abelhas em enxames. Não se sabe de onde apareceu tanta gente em questão de minutos. A notícia corre com rastilho de pólvora.
Para surpresa ou decepção, era um caminhão de livros que estava indo em direção à capital e perdeu o controle na descida de uma ladeira.
– É cumpadi, perdemo a viagem. Só tem livro espalhado pelo asfalto! Coisa pra doutor! Esses papéis não serve de nada pra noís. Queremo é comida, bebida e celular. Nem pra ser de cigarro ou outro produto de contrabando.
Alguns começaram a esbravejar e até ensaiaram xingamentos. Coisa foi ver a cara do malandro que jogou óleo na estrada para provocar o acidente! Quem ia imaginar que aquela carreta estava cheia de livros! Azar da peste! – Gritou alguém irritado.
A carga permaneceu intacta sem ninguém tocar. Um olhava para o outro com o semblante de frustração e ia saindo de mãos vazias para suas casas. O policiamento só observa de longe e o carregamento foi salvo, sem precisar acionar o serviço do seguro.
Essa conversa rolou em tom de gracejo num realismo-fantástico nos dias de hoje, mas lembramos das eras dos anos 50, 60 e até início dos 70 dos ladrões de livros. Não era coisa surreal.
Eles tinham até o apelido de ratos de livrarias, sebos e bibliotecas. Os donos e funcionários responsáveis ficavam de olhos atentos, mesmo porque nem existiam câmaras para vigiá-los, como atualmente.
– Hoje não existem mais ladrões de livros como antigamente quando se levava uma obra debaixo do braço para se ler e discutir com um amigo-parceiro num botequim, bar ou restaurante – disse para um companheiro escritor.
– Você que pensa assim, mas ainda tem alguns soltos por aí. O Raí, do sebo, me contou que fica bem atento porque vez ou outra, numa feira literária, alguém lhe furta um exemplar – retrucou o amigo.
Para não perder a viagem imaginária sobre a queda de leitores e a importância do livro na vida das pessoas, tive que sair pela tangente.
– Naqueles tempos, ainda menino moço, presenciei um assalto inusitado a mão armada na cidade grande. Enquanto um jovem concentrado lia num banco de jardim, aproximou-se um sujeito mascarado de revólver na mão:
– Perdeu, meu camarada, passe o livro de Fiódor Dostoiévsk. O ladrão foi quem perdeu porque se tratava de uma obra de um autor brasileiro, o nosso maior Machado de Assis.
Aí ninguém aguentou e caiu na risada, mesmo insistindo que foi fato verdadeiro e citei até o dia, a hora e o ano, inclusive retratei o local. Nem assim acreditaram.
– Isso não passa de uma lorota. Você deve ter avançado pelo túnel do tempo futurístico e se esborrachado no celular onde tem ladrão por toda parte e um monte de gente dando bobeira, batendo com a testa até em poste e tropeçando em calçadas.
Quanto ao livro, você pode ficar em pé ou sentado num banco da praça com ele aberto e lendo que ninguém encosta. Vão é te chamar de maluco desajuizado da cabeça que anda no mundo da lula. Você já viu alguém assim por aí?
– É, mas que existem ladrões de livros, existem, mesmo raros – falou o portuga entre uma discussão e outra, para passar o tempo durante a falta de leitores interessados em comprar uma obra.
“NA PIOR EM PARIS E LONDRES”
Quando comecei a ler o livro “Na Pior em Paris e Londres”, de George Orwell, bateram em mim as lembranças dos meus tempos em Salvador nos anos 1970/71 de dias difíceis para sobreviver, sem um teto onde morar, sem contar que a fome consumia meu cérebro.
Havia passado no vestibular para Jornalismo e, para segurar a barra pesada, vivia de uns bicos aqui e acolá para comprar um pão e uma garrafinha de mel da marca Kall, se não me engano, feito de milho. Eram minhas refeições diárias, isto quando conseguia uns cruzeiros. Meu desespero não foi maior, com consequências imprevisíveis, porque um amigo me ajudou naquilo que pode.
Bem, não quero retratar esse meu passado ingrato porque quem já atravessou por ele fica com trauma e medo de que um dia tudo venha se repetir. A vantagem é que você sai dele com mais forças e tudo faz para que não mais ocorra em sua vida. Você, no entanto, não tem mais certeza se suportaria encarar outra fase de pobreza e miséria.
Algumas coisas que o autor descreve aconteceram comigo, daí as tristes recordações. Certa vez meu pai enviou um dinheiro suado do seu trabalho para mim por um conhecido “amigo” e ele não me entregou a quantia com a desculpa que teria gastado por necessidade. Era um alento ao meu espírito. Nesse dia fiquei ainda mais arrasado e aniquilado.
O autor mostra o lado miserável de Paris lá pelo final da I Guerra Mundial anos 1917/18 e inicia pela Rua Du Coq d´Or, um local de mendigos, ambulantes, brigas, crianças perseguindo cascas de laranjas nas pedras do calçamento e o fedor azedo das carroças de lixo.
Todas as casas eram hotéis lotados até os ladrilhos com inquilinos, principalmente italianos, poloneses e árabes. O seu se chamava Hôtel des Trois Moineaux. “Era um labirinto escuro (me fez lembrar de uma pensão no Politeama, em Salvador) de cinco andares, separado por divisórias de madeira em quarenta quartos. Eram sujos. A Madame F. era a patronne (patroa). Lembra “O Cortiço”, de Aloísio Azevedo.
No início ele faz uma descrição das pessoas e dos locais de pobreza. Sem emprego, seus francos foram se acabando e aí ele recorre ao amigo russo de nome Boris. Os dois unem forças no Bairro Coq d´Or, na mesma situação de miséria, e quase tudo que eles planejam não dava certo. O Boris havia lutado na Rússia durante a guerra civil e se refugiou em Paris. Chegou a ser garçom, mas caiu em desgraça.
-Você descobre o que é sentir fome. Com pão e margarina na barriga, você sai e olha as vitrines. Outra passagem que me toca quando andava esmo de barriga vazia pela Avenida Sete de Setembro e via e ouvia o tilintar dos talheres nos restaurantes cheios, com farta comida. Aquilo era como se fosse um soco no estômago.
– Você descobre o tédio que é inseparável da pobreza; os momentos em que você não tem nada para fazer e, estando subnutrido, não pode se interessar por nada. Passa metade do dia deitado na cama, sentindo-se como o jeune squelette (jovem esqueleto) do poema de Baudelaire.
Em um dos trechos da sua obra, Orwell desabafa afirmando que, quando você está se aproximando da pobreza, você faz uma descoberta que supera algumas das outras. Descobre o tédio, as complicações mesquinhas e os primórdios da fome, mas também descobre o grande traço redentor da pobreza: O fato de ela aniquilar o futuro.
O Boris, seu amigo, amaldiçoa o judeu com quem vivia no quarto apertado. Ele confessava ao inglês que era uma tortura para um russo de família estar à mercê de um judeu. Eu que era capitão, aqui estou, comendo o pão de um judeu.
O russo, então contou a história de um velho judeu que lhe levou uma moça de dezessete anos ao seu acampamento de guerra e lhe cobrou cinquenta francos, só que a menina era sua própria filha. O judeu! Levou meus dois francos, o cachorro, o ladrão! Ele me roubou enquanto eu dormia – disse Boris, espumando de raiva.
A parte mais forte e que me chocou é quando o escritor fala sobre a fome. “A fome reduz a pessoa a uma condição totalmente covarde e sem cérebro, mais parecida com os efeitos colaterais da gripe do que qualquer outra coisa. É como se alguém tivesse se transformado em água-viva, ou como se todo seu sangue tivesse sido bombeado para fora e substituído por água morna. A inércia completa é minha principal lembrança da fome; isso, e ser obrigado a cuspir com muita frequência, e a saliva sendo curiosamente branca e floculante, como uma secreção espumosa de inseto. Não sei a razão, mas todo mundo que passou fome há vários dias percebeu isso”.
“A GUERRA ME FEZ BEM E MAL”
Na segunda parte do oitavo capítulo do livro “Um Pouco de Ar, Por Favor”, o escritor George Orwell fala do seu personagem George Bowling que participou da I Guerra Mundial e afirmou que “a guerra me fez bem e mal”. Em sua concepção, o pior é o pós-guerra.
“Você se lembra daqueles hospitais de campanha em tempos de guerra? As longas filas de cabanas de madeira que pareciam galinheiros, presas bem no topo daquelas colinas geladas bestiais – a “Costa Sul”, as pessoas costumavam chamá-la assim, o que me faz imaginar como seria a “Costa Norte” – onde o vento parece soprar em você de todas direções ao mesmo tempo”.
Através da sua personagem, o autor da obra detalha em minúcias como era a vida nas trincheiras fedorentas onde os soldados se arrastavam na lama e “um cigarro a cada homem era exatamente como alimentar os macacos no zoológico”.
Relata que os homens nas trincheiras não eram patriotas, não odiavam o Kaiser, não ligavam a mínima para a pequena e galante Bélgica, e os alemães estuprando freiras nas mesas (era sempre “nas mesas”, como se isso tornasse tudo pior) nas ruas de Bruxelas.
A guerra fez coisas extraordinárias com as pessoas – descreveu George Bowling. O extraordinário era a maneira como matava as pessoas e como deixava de matar. “Era como uma grande enchente que o empurrava para a morte e, de repente, atirava você em algum lugar isolado, onde você se pega fazendo coisas incríveis e inúteis e ganhando dinheiro extra por elas”.
George narra que “havia batalhões de trabalho fazendo estradas através do deserto que não davam a lugar nenhum, havia caras abandonados em ilhas oceânicas para cuidar de navios alemães que haviam sido afundados anos antes, havia mistérios disso e daquilo com exércitos de escriturários e datilógrafos que continuaram existindo anos após o fim de sua função, por uma espécie de inércia”.
Durante seu tempo na guerra, George revelou que lia todos os livros onde muitos ficaram esquecidos. “Engoli todos como uma baleia que se meteu em uma espicha de camarões. Apenas me deleitei com eles. Depois de um tempo, é claro, fiquei mais intelectual e comecei a distinguí-los entre imbecis e não imbecis”.
– Eu peguei Filhos e Amantes, de Lawrence, e meio que gostei, e me diverti muito com O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e As Nove Mil e Uma Noites, de Stevenson. Wells foi o autor que mais me impressionou.
Num dos trechos da sua narração, George destacou que, se fosse fazer a conta, admitiria que “a guerra me fez bem e mal”. De qualquer forma, aquele ano de leitura de romance foi a única educação real, no sentido de aprender com livros, que já tive. Isso fez certas coisas em minha mente”.
Ainda sobre a leitura, ressalta que lhe deu uma atitude questionadora, que provavelmente não teria se tivesse passado a vida de uma forma normal e sensata. Ele diz que não foram os livros que lhe deixaram impressionados, mas a horrível falta de sentido da vida que levava.
Em 1918, segundo ele, foi um ano sem sentido. “Aqui estava eu sentado ao lado do fogão em uma cabana do exército, lendo romances, e, a algumas centenas de quilômetros de distância, na França, os canhões rugiam, e bandos de crianças infelizes, molhando suas calças de medo, estavam sendo empurrados para a barreira de metralhadoras, do mesmo modo que você atiraria um pedaço de carvão em uma fornalha”.
– A coisa toda tinha tanto sentido quanto o sonho de um lunático. O efeito de tudo, mais os livros que estava lendo, foi me deixar com um sentimento de descrença em tudo. Eu não era o único. A guerra estava cheia de pontas soltas e cantos esquecidos…
“Seria um exagero dizer que a guerra transformou as pessoas em intelectuais, mas, naquele momento, os transformou em niilistas. … Se a guerra não matou você, certamente fez com que começasse a pensar. Depois daquela confusão idiota indescritível, não seria possível continuar considerando a sociedade como algo eterno e inquestionável, como uma pirâmide. Você sabia que era apenas uma confusão”.
A QUESTÃO SOCIAL, A I GUERRA E A DECADÊNCIA NA INGLATERRA
No livro “Um Pouco de Ar, Por Favor”, o famoso escritor George Orwell, conta a história de George Bowling desde os tempos de criança e sua obsessão pela pesca; os hábitos das pessoas mais pobres e seus problemas sociais nos idos dos anos 1909 a 1918. É uma narrativa na primeira pessoa feita por George numa pequena cidade inglesa.
Nessa época, ele mostra uma Inglaterra em decadência com grandes desigualdades sociais onde muitas empresas comerciais estavam entrando em falência. Apesar da vida corriqueira, pacata e monótona da classe média e carregada de preconceitos, o autor da obra prende o leitor com seus mínimos detalhes.
Ainda jovem, entre 16 a 17 anos, o narrador se alista e participa da I Guerra Mundial (1914-1918), lutando na França contra a Alemanha. George Boelling mostra os horrores da guerra e as sujeiras nos campos e nas trincheiras das batalhas. São cenas de degradação humana, atos de estupro, inclusive de freiras.
Em toda sua narrativa, George está sempre falando de pesca, mas volta também sua atenção para a descoberta da leitura aos 10 ou 11 anos, de maneira voluntária. “Nessa idade é como descobrir um novo mundo”. Sempre me apaixono pelo best-seller do momento (Os Bons Companheiros, Lanceiros da Índia e O Castelo do Homem sem Alma).
Quando jovem ele se tornou membro do Clube do Livro da Esquerda. “Li as coisas que queria ler e tirei mais proveito delas do que jamais tirei das coisas que me ensinaram na escola”. Descreve também os semanários para meninos que circulavam naqueles tempos dos idos de 1900.
Como ocorre no Brasil de hoje e em outros países do mesmo nível desenvolvimentista, o escritor relata a situação do narrador da prosa que teve logo cedo de deixar a escola para trabalhar para ajudar sua família que tinha uma loja entrando em falência.
Num de seus diálogos de juventude, George Orwell destaca que “Algum dia, de uma forma ou de outra, haveria dinheiro suficiente para eu “me estabelecer” sozinho. Era assim que as pessoas se sentiam naquela época. Isso foi antes da guerra, lembre-se, e antes das crises e do desemprego”. Ele relata os tempos da grande concorrência comercial, mas enfatiza que havia lugar para todos.
Sobre a vida jovem, diz que “em alguma parte conhecida da cidade, os meninos caminhavam para cima e para baixo em pares, observando as meninas, e as meninas caminhavam para baixo e para cima em pares, fingindo não notar os meninos. E logo algum tipo de contato era estabelecido e, em vez de dois, estavam andando em quatro, todos os quatro totalmente mudos”.
Quanto a primavera de 1914, George, o narrador, ressalta que a vida era mais dura. “As pessoas em geral trabalhavam mais, viveram com menos conforto e morreram de forma mais dolorosa. O que era chamada de pobreza “respeitável” era ainda pior. Você via coisas horríveis acontecendo. Pequenos negócios falindo, comerciantes sólidos indo aos poucos à bancarrota, pessoas morrendo de câncer e doenças hepáticas…”
“Meninas arruinadas para o resto da vida por um bebê ilegítimo. As casas não tinham banheiro, você quebrava o gelo da sua bacia nas manhãs de inverno, as ruas de trás fediam como o diabo no tempo quente, e o cemitério ficava cheio no meio da cidade, de modo que você nunca passava um dia sem se lembrar de como teria que morrer”.
No que diz respeito à crença religiosa, o escritor assinala, através de seu personagem principal, que quase todo mundo ia à igreja, pelo menos no interior. As pessoas acreditavam em uma vida após a morte. “Mas nunca conheci alguém que me desse a impressão de realmente acreditar em uma vida futura. Acho que, no máximo, as pessoas acreditam nesse tipo de coisa da mesma forma que as crianças acreditam no Papai Noel. É fácil morrer se as coisas com que você se preocupa vão sobreviver. Você teve sua vida, está ficando cansado, é hora de ir para baixo da terra”.
Ao falar da guerra, ele indaga: “Você se lembra daqueles hospitais de campanha em tempos de guerra? As longas filas de cabana de madeira, que pareciam galinheiros, presas bem no topo daquelas colinas geladas bestiais – a Costa Sul, as pessoas costumavam chamar assim, o que me fez imaginar como seria a Costa Norte – onde o vento parece soprar de todas as direções ao mesmo tempo”.
“Qualquer um que fosse forte o suficiente costumava vagar por quilômetros nas colinas na esperança de encontrar garotas. Nunca havia suficiente para todos. Um garoto de rosto rosado, de cerca de oito anos, caminhou até um grupo de homens feridos sentados na grama, abriu um pacote de Woodbines e prontamente entregou um cigarro a cada homem, era exatamente como alimentar os macacos no zoológico”.
“UM POUCO DE AR, POR FAVOR”
Na primeira pessoa, com o narrador na terceira (protagonista), o escritor indiano-inglês George Orwell descreve com detalhes, em “Um Pouco de Ar, Por Favor”, a vida em Londres num período próximo da Segunda Guerra Mundial, mostrando os hábitos e costumes de uma comunidade em seu cotidiano.
A leitura é fascinante, e o autor da obra prende o leitor a partir dos primeiros capítulos, fazendo um autorretrato de uma pessoa gorda e como é visto pelos outros. George Orwell, um escritor conhecido mundialmente, fala, numa maneira ácida e amarga, como vivia a classe trabalhadora e a população geral londrina, num ar de suspense diante do espectro de uma guerra que estava por vir.
Sua prosa, como escreve o prefaciador da obra, “abre uma janela para mostrar a ansiedade do pré-guerra experimentada por pessoas comuns na Inglaterra, como o protagonista George Bowling, que transmite seus pensamentos com grande honestidade e humor autodepreciativo”.
Mesmo cheio de detalhes das pessoas e das coisas em geral ao seu redor, o personagem, gorda e de quarenta e cinco anos, na primeira pessoa, não é enfadonho, muito pelo contrário, leva o leitor a seguí-lo em sua narrativa.
Entre tantos outros em seu entorno, George cita Hilda, de 39 anos. “Quando a conheci, parecia uma lebre. Ainda parece, mas está muito magra e um tanto enrugada, com uma expressão taciturna e preocupada nos olhos”… É uma daquelas pessoas que curtem a vida ao prever desastres”.
Em sua narrativa, o autor faz uma descrição do bairro pobre em que vive, “com ruas que se alastram por todos os subúrbios, do centro ao interior”. Suas expressões são fortes quando afirma que “as casas são sempre as mesmas. Longas, longas fileiras de pequenas casas geminadas. Existe algum tipo antissocial”.
Sobre os trabalhadores, chega a enfatizar que existem muitas besteiras sendo faladas sobre o sofrimento da classe operária. “Não lamento tanto pelos proletários. Você já conheceu um marinheiro que fica acordado pensando na demissão? O proletário sofre fisicamente, mas é um homem livre quando não está trabalhando”.
Quanto a fraudes imobiliárias, aponta para sua própria área de seguros. No entanto, retruca “que é uma fraude aberta com as cartas na mesa. Porém, a beleza das fraudes na sociedade civil é que suas vítimas pensam que você está lhes fazendo uma gentileza”.
Numa crítica ao capitalismo, num trecho do seu texto, assinala “que cada um desses pobres diabos oprimidos, suando até pagar o dobro do preço adequado por uma casa de boneca de tijolos, que se chama Belle Vue – que não tem vista e não é bela – cada um desses pobres otários morreria no campo de batalha para salvar seu país do bolchevismo”.
Bem, como todos já devem saber, George Orwell nasceu Eric Arthur Blair, em 25 de junho de 1903, em Bengala, na Índia, onde seu pai trabalhava para o Departamento de Ópio do Serviço Público Indiano da Grã-Bretanha. Estudou em instituições de elite e foi ele próprio durante cinco anos agente da polícia imperial da Birmânia. Viveu com os miseráveis em Paris e Londres. No final dos anos 20 lutou pela causa republicana na Guerra Civil Espanhola.
FONTES ANTIGAS DE “A MORTE DE CÉSAR”
O escritor e historiador Barry Strauss, de “A Morte de César” nos apresenta no final da sua eloquente obra as fontes antigas em que ele se baseou para realizar seu estudo acadêmico. Barry cita Plutarco, Apiano, Nicolaus de Damasco, Cassius Dio, Suetônio, dentre outros que podem ser pesquisados.
De acordo com ele, a moderna e a mais influente pesquisa sobre a transição da República Tardia para o Império Primordial é o livro de Sir Ronald Syme (A Revolução Romana, de 1939). O foco principal do trabalho é Augustus, mas o livro contém capítulos sobre os últimos anos de César e a conspiração contra ele.
Alguns dos temas abordados por Syme são o uso personalístico da política para a obtenção do poder, o papel chave desempenhado por Otávio na incitação das tropas contra o Senado em 44 e 43 a.C., e a realidade da monarquia por trás da retórica de Augustus quanto a restauração da República.
“O que podemos compreender da conspiração que matou César depende, em larga medida, do que podemos depreender das fontes antigas”. Robert Etienne traz este ponto à baila em seu excelente livro “Les Ides de Mars: La Fin de César ou de la dictature?” – “Os idos de Março: O Fim de César ou da Ditadura? ”
Plutarco, que foi a principal fonte de Shakespeare, enfatiza o papel desempenhado por Brutus e seu idealismo – ressalta Barry, ao acrescentar que Nicolaus, a quem o dramaturgo inglês não leu, acentua o sangue frio e mesmo as motivações cínicas dos conspiradores e ele também faz de Decimus um personagem chave.
Na análise do autor de “A Morte de César”, acadêmicos antigos tendem a desprezar as opiniões de Nicolaus porque ele trabalhou para Augustus. “Recentemente, os trabalhos de acadêmicos como Malitz e Toher reabilitaram Nicolaus como uma fonte contemporânea a sagaz…” Nicolaus foi um estudioso dos escritos de Aristóteles e Trucidides, duas mentes brilhantes quando se trata de política.
A vida de César é uma fonte inspiradora para muitos livros. “Para um homem de poucas palavras é difícil encontrar um pequeno volume melhor do que o excelente trabalho de J.P.V.D. Balsdon, intitulado Julius Caesar”.
Para alguns historiadores e pesquisadores, os assassinos de César (15 de março de 44 a.C.) eram aristocratas arrogantes, enquanto César seguia as regras da lei e contava com o apoio do povo romano. O tribuno Cícero disse que Decimus almejava fama e grandeza. Outros que os conspiradores tinham ciúmes mesquinhos.
Sobre o que César teria dito a Brutus, veja-se o artigo de P. Arnaud, “Toi aussi, mon fils, tu mangeras ta part de notre pouvoir – Brutos le Tyrani? (“Tu Também, Meu Filho, Comerás a Tua Parte do Nosso Poder – Brutus, o Tirano?”)
Quando César foi apunhalado (mais de vinte vezes) pelos conspiradores, na versão de Shakespeare, quando ele viu Brutus, teria dito “Et tu, Brute? ou “Até tu, Brutus”. Suetônio já escreve que ele falou em grego : Kai su, Teknon, que significa “Tu também, filho”.
















