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:: ‘Encontro Com os Livros’

CARTAS E ORAÇÕES DOS CANGACEIROS

Durante o período do cangaço, que durou praticamente um século no Nordeste, além dos seus apetrechos que carregavam, como chapéus de couro de aba dobrada, com estrelas de Salamão, cartucheiras, bornais bordados e outros utensílios de sobrevivência no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coronéis coiteiros e oficiais das volantes, e carregavam consigo suas orações (de grande valor) para protegê-las dos seus inimigos.

As cartas, em sua maioria, principalmente de Lampião, no auge do banditismo, nas décadas de 20 e 30, eram endereçadas através de um portador do seu grupo aos fazendeiros, com cobranças (na verdade eram taxas de pedágios de proteção), aos inimigos, com intimidações e até a oficiais chefes de polícia, com recados severos para que parassem com os armamentos e as perseguições.

Com o português, considerado por estudiosos como a verdadeira língua de Camões e Gil Vicente, Lampião mandou uma dessas cartas ao major Pedro Augusto, onde em determinado trecho diz: “Não acho direito é vocês estarem armados e juntando gente. Isto não está direito. Preciso dar passagem deste lugar e não quero alarme no Ceará! Não sou moleque para andar com histórias erradas”.

Em outra, ele encaminha uma corta para Antônio Mando, onde pede dois contos de réis. Espero isto sem falta agora alarmi e não mandi qui depois vae se sahir muito mal, resposta pelo mesmo portador sem mais, não falti olhi olhi, Capm Virgulino Ferreira vulgo Lampião”.

Para Elias Barbosa, ele enviou uma carta de advertência: “O Sr. está com Um peçoal Em arma contra mim, portanto, quero qui faça como homem, sahia da Rua e mi pegue”. Mais na frente diz que “Eu tenho comido toicinho com Mais cabelo”. No final, assina seu nome com vulgo Lampião u terror do Sertão. Para o sargento José Antônio do Nascimento, em 1926, manda uma bem desaforada.

Corisco também endereçou uma carta para o padre José Bulhões, em 1935, da freguesia de Santa do Ypanema. Esta foi inusitada porque o portador levava o filho do chefe que teve com sua mulher Dadá e pedia ao vigário que criasse o menino como se fosse o seu filho, da melhor forma que pudesse.

Também o Moita Braba enviou uma carta semelhante ao promotor Manuel Cândido, em 1937, pedindo que o magistrado criasse seu filho que teve com Sebastiana Rodrigues Lima. Interessante que ele assina como Coronel Moita Braba.

No inventário dos objetos apreendidos, feito pelo Regimento Policial Militar, foram encontrados os seguintes pertences de Lampião: Chapéu de couro com seis signos de Salomão e 55 peças de ouro; peças e moedas de ouro; mosquetão mauser, modelo 1908 de uso exclusivo do Exército Nacional; faca; cartucheira para 121 cartuchos; bornais; lenços vermelhos; pistola parabélum; luvas; cobertas; anéis de ouro e prata; óculos (armação de ouro); e um pacote de orações.

Com Lampião foram encontrados vários livrinhos de orações onde, segundo a crendice e o misticismo religioso nordestino, funcionavam para fechar seu corpo contra balas e facas. Em todas essas orações eram citados os nomes de Jesus Cristo e Deus e, em uma delas, misturavam-se narrações do Antigo e do Novo Testamento.

Com o cangaceiro estavam em seus bornais as orações Da Pedra Cristalina, onde pede que se o inimigo atirar saia água pelo cano da espingarda e se for faca que caia da sua mão; a oração do Salvador do Mundo, a mais longa, intercedendo concórdia entre ele e seus inimigos (mistura trechos do Antigo com o Novo Testamento) e cita Santo Miguel Arcanjo trocando nome e sobrenome, de frente para trás e de trás para frente; a oração Das Treze Palavras Dictas e Retomadas e; por fim, a oração De Nosso Senhor Jezuz Christo.

Todas essas cartas e orações foram publicadas pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, tendo como fonte o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde se acham ainda as orações das Virgem das Virgens (prodigiosa), da Beata Catharina e de Santo Agostinho, está muito utilizada por Lampião.

 

O CANGAÇO CINZENTO E O VERDE

O árido cinzento das secas e a questão social de pobreza, num Nordeste por séculos isolado, sem lei e sem rei, foram fatores preponderantes para a disseminação e expansão do cangaço, se bem que outros, como as intrigas entre famílias, o coronelismo e as disputas entre os poderosos chefes políticas também contribuíram para nutrir este fenômeno por mais de um século.

Entre o cangaço endêmico e o epidêmico, onde Pernambuco foi de longe o celeiro do banditismo, seguido por Paraíba, existiram o chamado cinzento concentrado no agreste do sertão e o verde na zona da mata mais próximo do literal onde estavam localizados os engenhos de cana-de-açúcar, conforme pontua Frederico Pernambucano de Mello, autor da obra “Guerreiros do Sol”.

No cinzento reinou Lampião e seus bandos durante cerca de 20 anos que percorreram sete estados, além de Jesuíno Brilhante e Sinhô Pereira no início do século XX, mas foi o Antônio Silvino, tipo acabado do sertanejo do Pajeú ressequido, o maior bandido que atuou em áreas férteis do Nordeste. Em seu primeiro ataque a um engenho a serviço de um contratante, no final do século XIX, foi naquela região que ele descobriu a galinha dos ovos de ouro.

Outros também agiram nesta área dos usineiros, como Rio Preto, Relâmpago, o Ferreiro, Cocada, o André Tripa e tantos outros. Naquelas áreas estendiam, em maiores proporções, as garras do latifúndio, minando a possibilidade de surgimento de uma classe média e produzindo um proletariado sem condições de ascensão. Em alguns pontos, o verde se aproximava do cinzento, este empobrecido por séculos.

Nesse rol, entre o verde o cinzento, não podemos deixar de citar o Lucas da Feira, que atuou na região de Feira de Santana, em meio aos dois tipos. Por vinte anos, foi o Lampião da Bahia. Dizem historiadores que ele está para a Bahia como o Cabeleira para Pernambuco. Seu tempo de criminalidade se deu entre 1828 a 1848, ao lado dos escravos Flaviano, Januário e outros. Foi um típico bandido de ofício. Após preso, Lucas foi enforcado em 25 de setembro de 1849.

O legista Nina Rodrigues dele fez um perfil um tanto curioso. Era negro canhoto, espadaúdo, corpulento, rosto comprido, barbado, olhos grandes e ferozes, nariz achatado, boca grande, peito peludo, orelhas pequenas, como também os pés e as mãos.

À luz da antropologia física do último quartel do século XIX, de acordo com Nina, constatou-se que seu crânio tinha todos caracteres dos negros, mas também pertencentes a crânios superiores, com medidas excelentes, iguais às das raças brancas.

SEQUESTRO COMO RESGATE E AS ESTRADAS

Quanto ao cangaço do cinzento, em o Canto do Acauã, de Marilurdes Ferraz, a escritora destaca que Lampião foi o introdutor do sequestro e resgate, modalidade que fazia uso corrente, tendo por vítimas empresas multinacionais, como a Standard Oil Company e a Souza Cruz. Segundo ela, Virgulino foi o primeiro cangaceiro a empregar o sequestro como resgate.

Como exemplo, é citado o sequestro do escrivão de Justiça de Capim Grosso, na Bahia. O escritor sergipano Ranulfo Prata diz que o bandido “usa também dos processos civilizados dos americanos”. Ele destaca, nos anos 30, o sequestro e resgate do filho de Charles Lindbergh, nos Estados Unidos, pelo imigrante alemão Bruno Richard Hauptman, condenado à cadeira elétrica.

O banditismo não foi exclusivo do Nordeste brasileiro. Aconteceu também em outros países, como na Espanha, em Andaluzia, na pedregosa Catalunha, na Córsega e Sardenha, na Itália. Como relata Frederico, no banditismo espanhol, os primeiros sequestros ocorreram em princípios de 1869, na província de Málaga, por Alameda y Alora. “É o que nos dizem Queirós e Ardila, em El Bandoleirismo Andaluz”.

De todos os banditismos em outros países, o que mais se assemelhou ao nosso, inclusive com uma gesta poética muito rica de autores nos cantos do jondo ou flamenco, de modo particular na chamada serrana, foi o espanhol da Catalunha e da Antaluzia, onde havia fundos fincados na alma do povo, sistema de coiteiros, relevo acidentado, culto à valentia, degolamentos e uma repressão ineficiente e corrupta.

No entanto, como diz Frederico de Mello, o maior banditismo rural brasileiro foi mesmo no cinzento das caatingas nordestinas onde encontrou condições extremamente favoráveis “capazes de endiabrá-lo em verdadeira praga”.

O caráter epidêmico no semiárido, “encontra-se intimamente ligado às condições mesológicas e aos processos que presidiram a formação da sociedade sertaneja, condicionando o aparecimento de um tipo de homem bem diferente do seu vizinho das regiões do litoral”.

Ranulfo Prata descreve também o ódio que o bandido Lampião tinha pelas aberturas de estradas no Nordeste. Em 1929 ele interrompe com ameaças a construção que ia unir Juazeiro a Santo Antônio da Glória, passando pelo seu predileto esconderijo que era o Raso da Catarina.

Em fins de maio de 1930, nas proximidades de Patamuté, Bahia, topa com uma turma de obras de estrada, matando um. Fez o mesmo em Mandacaru, na Bahia, com três mortes. Em 1934 ataca, em Sergipe, pelo mesmo motivo, bem como, em 1937, quando uma estrada federal é embargada a bala. O jornal A Tarde chegou a noticiar esses fatos.

AS PROPOSTAS

Nos tempos do cangaço ocorreram muitos fatos curiosos, muitos dos quais relacionados com Lampião. Em sua vida, recebeu muitas propostas para deixar o cangaço. Em 1922, no início do seu banditismo, Sinhô Pereira, ao pendurar seu rifle, o convidou a deixar o sertão. Anos mais tarde, vida já arrumada em Minas Gerais, Sinhô renovou o convite através do seu protetor político Farnesi Dias Maciel. Lampião tinha até a opção de ir morar em Mato Grosso.

Em 1924, ferido no pé em tiroteio, Belmonte, Pernambuco, recebeu oferta do então capitão Teófanes Ferraz Torres para que se entregasse juntamente com seus irmãos que seriam todos perdoados. Escondido no mato e perdendo sangue, Lampião aceita, mas com a condição de que seus cabras também fossem beneficiados. O capitão não concorda.

Em 1928, seu primo Sebastião Paulo procura Virgulino no Capiá, Alagoas, com proposta do tenente pernambucano Arlindo Rocha, para que se entregasse e seria levado sob escolta até o chefe de polícia de Recife, Eurico de Souza Leão. A proposta era que Lampião abandonasse Pernambuco e fosse para a Bahia. Lampião disse ao primo que falasse ao chefe de polícia de que ele não foi encontrado.

Apesar da recusa, dias depois ele foge de Pernambuco e se refugia na Bahia e Sergipe, isto porque o governador daquele estado, Estácio Coimbra mandou prender um bando de coiteiros, cortando a rede de proteção dos cangaceiros.

“Afora uma proposta ardilosa de perdão do presidente Vargas, feita pelo tenente João Bezerra (seu algoz em 1938), nos primeiros anos da década de 30, conhecemos mais duas, uma de Audálio Tenório, de 1937, para que abandonasse o sertão, e a de Joaquim Resende, com o beneplácito do major José Lucena (seu maior inimigo). A negociação estava em andamento quando ocorreu a morte do cangaceiro. Padre Cícero também tentou persuadi-lo de que deixasse o cangaço e fosse para Goiás, isto por volta de 1926/27.

 

 

 

 

A REPRESSÃO DO ESTADO NOVO E A FILMAGEM DE BENJAMIM ABRAHÃO

A partir de 1930, quando Getúlio Vargas assume o poder através de um golpe, os cangaceiros passaram a não ter aquela vantagem a mais com as forças das volantes em termos de armamentos. Vieram as estradas com automóveis e ônibus, o sistema de transmissão de rádio e o Nordeste começou a se modernizar com a introdução de indústrias e meios de transporte de locomoção entre as cidades.

Essas mudanças não foram nada boas para o cangaço, mas, no início, o chefe Lampião e seus bandos conseguiram driblar esses novos tempos. No entanto, a forte repressão entre os estados, com qualificação das volantes, a introdução da submetralhadora e a ditadura imposta pelo Estado Novo, em 1937, enfraqueceram o banditismo. O Estado Novo foi um dos primeiros responsáveis pela “morte” de Lampião.

Três anos antes da sua morte, em 1938, Lampião não era mais o mesmo nos combates e vivia como se fosse um burguês cheio de ouro, da cabeça aos pés. Desde 1926/27, quando o Governo de Pernambuco mandou prender os coiteiros e ele fugiu, em 1928, para a Bahia, a revolução de 1930, os acordos interestados para reforçar as tropas, em 1926 e 1935, até a filmagem da sua vida no cangaço pelo sírio Benjamim Abrahão Calil Botto, em 1936, dizem os historiadores que Lampião sofreu várias mortes físicas.

Mesmo assim, em fins de 1929, em marcha vertiginosa, penetra nas cidades de Sergipe, sob a proteção do coiteiro Eronildes Carvalho, despachando para Pernambuco, Alagoas e Bahia seus grupos. Os movimentos revolucionários de 1930 e 32, que acarretaram desorganização na campanha repressora, facilitaram a ação do cangaço a praticar seus atos de violência. Em 1932, por exemplo, muitas tropas se deslocaram para São Paulo, deixando o Nordeste desguarnecido.

A fama tomou conta da cabeça de Lampião, que ficou deslumbrado com o poder. Antes era proibido o uso do álcool em seu bando. Depois entrou a cachaça, a genebra Gato, a “zinebra” sertaneja. Para seu estado-maior, o Old Tom Gin e, para ele, o White Horse.                                                                                                                                                                                                                                                                 Abrahão, ex-secretário do “Padim Ciço”, de Juazeiro, convenceu que ele deixasse ser filmado com seu bando. O cinegrafista recolheu, entre março e outubro de 1936, um longo documentário sobre o dia a dia da vida do cangaço e isso irritou o governo federal.

Este documentário provocou a ira do Estado Novo (As fimagens foram recolhidas), mas antes disso, Getúlio Vargas e o seu Departamento de Imprensa e Propaganda, o chamado DIP, comandado por Lourival Flores, já vinham agindo com sua força repressora contra o cangaço e os movimentos dos beatos no Nordeste.

Sobre estas questões políticas, sociais e históricas, o escritor e estudioso no assunto, Frederico Pernambucano de Mello, autor de o “Guerreiros do Sol”, descreve  que o combate na gruta do  Angico (Sergipe) encarta-se no ciclo de ferro e fogo da repressão do Estado Novo a movimentos populares considerados arcaicos, que têm início não com o 10 de novembro de 1937, mas logo após o levante comunista de 1935, quando o aparelho repressor começa agir com base no regime implantado pela vigência da nova Constituição de 1934, a Polaca.

Desde 1935, a questão do cangaço ocupava a pauta de homens de estado em sintonia com os propósitos da repressão, como é o caso de José Martiniano de Alencar, presidente da província do Ceará, que propôs ao seu colega de Pernambuco, Manuel Paes de Andrade, que as tropas ignorassem a fronteira comum quando em perseguição aos bandidos.

Quanto aos movimentos populares, Frederico cita, como exemplo, o massacre do reduto de beatos do sítio Caldeirão, em 1936, na Serra do Araripe, no Ceará, tendo à frente o místico José Lourenço. Nessa época já se mantinha a imprensa na focinheira. Em 1938, o extermínio foi contra os beatos agrupados em torno do “santo” Severino Tavares, no sítio Pau-de-Colher, município de Casa Nova, na Bahia. Quatrocentos ingênuos foram sacrificados. Foi a última Canudos.

Duas ações contribuíram para a extinção do clima social e político favorável ao cangaço. Uma foi a relativização do valor da fronteira interestadual e a outra foi a quebra da inviolabilidade do latifúndio com o desmantelamento dos “coronéis” e dos coiteiros.

Tanto Lampião, como seu assassino João Bezerra da Silva, conforme relata Pernambucano de Mello, são produtos acabados desse laboratório cultural sertanejo que viveu por séculos em completo isolamento.

“No quebrar da barra do dia 28 de julho de 1938, atacado em quatro frentes por forças do estado de Alagoas, no comando do tenente João Bezerra, cai Lampião, juntamente com Maria Déa e mais nove cabras”. No meio se achava o fiel lugar-tenente Luis Pedro. Os soldados exultavam por ter atingido o “tigre dos sertões”.

No imediatismo da ação militar, tudo começou com a denúncia do vaqueiro Joca Bernardes, da fazenda Novo Gosto, à prisão, tortura e decorrente delação do também coiteiro Pedro de Cândido. Para os onze bandidos mortos, inclusive o chefe, perdeu-se apenas um soldado. O combate durou cerca de 15 minutos quando, em tempos passados, durava horas e até um dia ou uma noite.

Muitos fatores ajudaram nesse extermínio. Mello aponta a exiguidade de espaço da gruta, concentrando dezesseis toldos armados, num procedimento desaconselhável. O pouso de Lampião foi em coito de uma só saída, segundo relatos de cangaceiros sobreviventes. Corisco teria dito que Angico era uma “cova de defunto”. Além do mais, a grota fica próxima à cidade de Piranhas, sede, na época, de grande número de volantes.

No final de sua vida, Lampião (foi morto com 40 anos) já sofria de reumatismo, dores renais, mau-humos, fadigas no corpo, displicência e problemas no olho esquerdo e direito. As doenças começaram a minar a sua carcaça onde se alojava meia dúzia de balas antigas. Andava com um tubo de estricnina e um frasco metálico de gasolina, para se matar e queimar sua fortuna caso ficasse cego. “Não vou deixar nada para os macacos”.

E quem era João Bezerra? Nascido na mesma região de Lampião, em Afogados da Ingazeira (Pernambuco), primo de Antônio Silvino, com quem aprendeu a atirar, sua vida foi pautada por fatalidades, como sujeito e objeto do jogo político e social nordestino.

Por causa de umas surras que tomou do pai, fugiu para Recife e depois para Jaboatão onde trabalhou em pedreiras. Em suas andanças, conheceu uma tia e terminou, por recomendação do próprio pai, indo para Maceió (Alagoas) onde se alistou como voluntário no serviço militar, em 9 de março de 1922.

QUANDO GILBERTO FREYRE EXPULSOU LAMPIÃO E SEU BANDO DE PERNAMBUCO

SÓ A UNIÃO DE FORÇAS DOS ESTADOS NORDESTINOS, COM ARMAMENTOS MODERNOS E A PRISÃO DE COITEIROS MINARAM AS AÇÕES DO CANGAÇO. O SOCIÓLOGO GILBERTO FREYRE FOI UM DOS IDEÓLOGOS E ESTRATEGISTA, QUE CONTRIBUIU PARA ESTE ENFRAQUECIMENTO.

A partir de 1919, com a grande seca, e durante toda década 20, o cangaceirismo profissional entrou em franca expansão. Novos bandos surgiam praticamente quase todos os dias, e Pernambuco chegou a ser o maior celeiro do cangaço, principalmente vindos da região do Pajeú, tendo como foco Vila Bela, hoje Serra Talhada.

Além de desorganizadas e sem estrutura financeira, o armamento das forças das volantes era totalmente arcaico em relação às armas modernas usadas pelos cangaceiros. Havia um tipo de pistola tão obsoleta que servia de piada para os nordestinos quando diziam que “eram dois tiros e uma carreira”.

Antes havia o impedimento de uma força de um estado entrar no território do outro quando em perseguição aos bandos. Os governantes em geral estavam desestruturados, sem contar a corrupção de que se valiam os cangaceiros para subornar soldados e oficiais.

Naquela época (década de 20), os bandos mais perigosos, a maioria aliada a Lampião, eram os de Jararaca, os Patriotas, os Sipaúbas, os Sabinos, os Pereiras, os Pinheiros, Manuel Vitor, os Marianos, os Melões, Paizinho Baio, Tibúrcio Santos, Vinte e Dois, os Pedros, os Porcinos, Casa Velha, dentre tantos outros. Eles contavam com a cobertura dos coiteiros, tendo como maior centro a Serra D´Umã.

Os coiteiros eram um dos maiores Calcanhares de Aquiles dos governos, mas a ação repressora surtiu bons efeitos logo no início dos anos 20, mediante acordos realizados, primeiro entre os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, em 1922. Depois vieram outros nos anos de 1926 e 35 em que se juntaram os governos de Alagoas, Sergipe e Bahia.

Vale ressaltar que em 1912 os estados mais atingidos pelo cangaço também se reuniram para combater o cangaceiro Antônio Silvino, mas foi no período de Lampião que as alianças surtiram melhores resultados.

Nesses acordos, além de uma repressão mais firme, os governadores decidiram outras medidas estratégicas, como construção de rodovias, controle sobre as canoas nos rios, distribuição de cem fuzis militares entre civis de confiança pelo Governo de Pernambuco, introdução da submetralhadora de 500 disparos por minuto, entre outras ações.

Nesse meio houve um fato interessante que conseguiu deter o ímpeto de Lampião e seus bandos. Em 1927, no Governo de Estácio Coimbra (Pernambuco), por recomendação do sociólogo Gilberto Freyre, seu secretário de Gabinete, foram estabelecidas novas diretrizes para repressão ao banditismo, e uma delas foi a prisão dos coiteiros. Muitos, inclusive chefes políticos e fazendeiros, foram sendo presos e recambiados para a capital, culminando com o maior deles que era o coronel Ângelo Lima, o Ângelo da Jia.

Sem o coiteiro, o cangaceiro não era nada. Em decorrência dessa eficácia, em agosto de 1928, Lampião com um grupo já reduzido de cabras, depois de ter sido repelido em Mossoró durante sua tentativa de invasão à cidade (50 homens contra 150 do prefeito), em março de 1927, abandona sua terra natal e se interna nos sertões da Bahia.

Antes disso, porém, um episódio político contribuiu em muito para o avanço do cangaço, que foi a passagem da Coluna Prestes pelos sertões nordestinos, logo no início de 1926, ano em que foi o marco do banditismo na região, especialmente em Pernambuco, conforme aponta o autor do livro “Guerreiros do Sol”, Frederico Pernambucano de Mello.

Lampião começou sua carreira por volta de 1919/20, ainda como cabra nas hostes surgidas dos Matildes e dos Porcinos, bem como em etapa seguinte no bando de Sinhô Pereira. Seu auge se deu em 1926, com suas andanças pelos estados da Paraíba, Ceará, Alagoas, Bahia e Pernambuco.

Em fevereiro de 1926, ele tocaia e mata seu velho inimigo José Nogueira, em Vila Bela (Serra Talhada). Em março entra em Barbalha (Ceará) à frente de 49 cabras se hospedando no Hotel Centenário onde pousou para fotos e deu entrevistas como se fosse governador do sertão. Em agosto ataca a fazenda Tapera, Floresta, matando treze pessoas de uma mesma família. Em setembro invade Cabrobó à frente de 150 bandoleiros, sob toque de cornetas e em formação militar. Em novembro, com 90 homens, enfrenta a batalha da Serra Grande (Vila Bela) contra 260 soldados. Em dezembro, na localidade de Juá, destrói a tiros 127 bois do fazendeiro Joaquim Jardim.

Nessa época, a fama de Lampião corria o país inteiro e ocupava espaços nobres nos jornais. A opinião pública criticava as forças policiais, enquanto o bandido alardeou invadir Rio Branco, hoje Arcoverde. Até o governador de Pernambuco, na época, Sérgio Loreto, ironizava que sendo o bandido reconhecido como governador do sertão, nada mais justo que sediasse seu comando em Rio Branco. O governador se queixava da colaboração prestada aos bandidos pelos sertanejos.

Como ocorreu em 1914, com a revolução de Juazeiro (guerra santa), nos anos de 1926/27, os sertões de Pernambuco, Paraíba e Ceará foram inundados de armas distribuídas pelo governo federal quando da organização de milícias (batalhões patrióticos), para combater a Coluna Prestes.

Grande parte dessas modernas armas, fuzis e mosquetões de fabricação europeia, caiu nas mãos dos bandidos, sobretudo de Lampião, quando esteve em Juazeiro, em 1926, convocado pelo deputado baiano Floro Bartolomeu da Costa e Padre Cícero, para se juntar ao exército contra Prestes. Cada cangaceiro ganhou um fuzil novo.

 

AS SECAS E AS AGITAÇÕES POLÍTICAS FAZEM PROSPERAR O CANGACEIRISMO

Por séculos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crianças, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentração. Os governantes pouco fizeram para minimizar a situação.

Além das grandes secas, os nordestinos ainda eram acossados pelas agitações políticas e o cangaceirismo que, em bandos, aproveitavam para saquear feiras, povoados e pequenas cidades, principalmente nas primeiras décadas do século passado. O povo vivia abandonado à própria sorte diante da falta de estrutura e desorganização dos governantes para conter o banditismo.

As secas alimentavam o cangaço, que se juntava às disputas entre os chefes políticos e os coronéis, gerando uma onda de violência e mortes sem precedentes no Nordeste, que por séculos viveu isolado. A justiça era a lei do mais forte numa terra onde tudo se resolvia na base da bala, sobretudo entre os séculos XVIII, XIX e até meados do século XX.

O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, em sua obra, “Guerreiros do Sol” descreve esse panorama de miséria, fome, violência e sangue. Para quem não conhece sua história de lutas, sofrimento e abandono, simplesmente vê até hoje o nordestino como um povo atrasado.

O banditismo viveu seu apogeu nos períodos de desorganização social, especialmente em razão dos fenômenos das secas, com destaques para as de 1692, 1723/27, 1774/76, 1792, 1844/45, 1877/79 (a maior de todas), 1915, 1919/20, dentre muitas outras.

As secas, ao lado das agitações políticas e o cangaço, golpeavam as incipientes estruturas, reduzindo as famílias, que prosperavam em tempos de chuvas, em estado de miséria. As lavouras eram perdidas, o gado morria à mingua e os retirantes faziam suas procissões profanas. Era o salve-se quem puder.

Descreve o autor que no coice dessas ocorrências, certamente o cangaço de ofício se manifestava com intensidade redobrada. Fazendo um balanço dos efeitos da seca de 1877/79 (na verdade começou bem antes), Irineu Joffily, em “Notas sobre a Paraíba”, lembra que era geral a falta de segurança. Muitos fazendeiros eram obrigados a levantar forças para defesa de suas propriedades.

O transporte de gêneros era difícil, Caravanas atravessavam 50 e 60 léguas de sertão, levando cada homem às costas, 40 e até 80 litros de farinha, além de armas para repelir as investidas dos famintos e os ataques dos cangaceiros.

Destaca o estudioso no assunto que, em 1692, os indígenas foragidos pelas serras reuniram-se em grupo e caíram sobre as fazendas das ribeiras devastando tudo. Em 1725 e nas outras secas desse século repetem-se as depredações e assassinatos. As disputas políticas incentivavam a proliferação da aventura cangaceira.

Paralelo à seca de 1844/45, surge no Cariri cearense o bando dos Sereno, espalhando por três estados até a Chapada do Araripe onde também aparece os Xio. No meado do século passam a atuar os Guabiraba que se fizeram bandidos nas escolas de Pajeú de Flores. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, o Pajeú se tornou numa universidade da violência e do cangaço. Com exceção de Jesuíno Brilhante (Rio Grande do Norte), de lá saíram os mais famosos como Lampião, Sinhô Pereira, Antônio Silvino, Antônio Quelé e tantos outros.

Os membros de os Guabiraba eram irmãos naturais da vila de Afogados da Ingazeira, no sertão pernambucano. De longe, Pernambuco liderou a criação de bandos na década de 20. Segundo historiadores, praticamente todos os dias aparecia um bando novo nos sertões nordestinos, destacando os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Em 1878, no auge da grande seca, salteadores infestaram todo interior, como dos Quirino, em Milagres, sob a proteção de João Calangro que, de acordo com o escritor Rodolfo Teófilo, fazia guerra de extermínio aos grupos que se formavam sem o seu consentimento. Nesta época, existiram os Mateus, formados por cem homens, os Simplício, os Meireles, os Barbosa e Viriato, todos da zona do Pajeú.

Frederico de Mello aponta que, com a seca de 1919, o cangaceirismo profissional entrou em fase de vertiginosa expansão. Quando os esforços repressores começaram nos anos seguintes, veio a Coluna Prestes, em 1926, proporcionando aos bandidos ampla recuperação devido a desorganização das forças volantes.

O ano de 1926 se converteu no maior apogeu de toda história do cangaço, tendo Lampião como principal responsável, ainda como cabra dos Maltide e dos Porcino, bem como no bando de Sinhô Pereira. Depois ele formou o seu grupo sanguinário.

Entre as agitações políticas, Frederico de Mello cita a ‘guerra santa” de Juazeiro do Norte, em 1914, a passagem da Coluna Prestes, entre 1926/27, o clima social e político do Cariri, em 1901, com inúmeras lutas armadas. As duas primeiras décadas do século XX foram as piores.

Com base em fontes de jornais e pesquisadores, o autor da obra elenca todos os anos, como em 1907, quando o coronel Gustavo Lima depõe à bala o próprio irmão Honório Lima, assumindo o comando político do município de Lavras.

Em 1909, os chefes políticos de Milagres, Missão Velha, Barbalha e outros municípios próximos reúnem mil homens para atacar o coronel Luis Alves Pequeno, do Crato. Em 1823 é assassinado, em Fortaleza, o coronel e então deputado estadual Gustavo Lima. Em 1928, o chefe político de Missão Velha, Isaias Arruda, é assassinado no trem.

Para acabar com toda essa guerra, em outubro de 1911, aconteceu um curioso encontro com vista a se firmar um pacto de paz, em Juazeiro. O Padre Cícero procurava harmonizar os conflitos dos coronéis que dominavam o Cariri.

O documento ficou conhecido como “pacto dos coronéis”, com duas clausulas principais. A primeira dizia que nenhum chefe procurará depor outro. A outra era que cada chefe, por ordem moral política, terminaria a proteção a cangaceiros, ou seja, não seriam mais coiteiros.

Nem bem secara as tintas, o Padre Cícero, mentor do pacto, derruba o Governo do Ceará, em 1914. Os coronéis fizeram o contrário. O documento foi letra natimorta. Por mais trinta anos vigorou a lei do mais forte.

MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO NO CANGAÇO NORDESTINO VIOLENTO

Além das fases endêmica e epidêmica entre os séculos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de “Guerreiros do Sol” aponta três características principais do cangaço nordestino, quais sejam o do meio de vida (o cangaço profissional), o da vingança e o do refúgio. Em cada um deles existem suas diferenças, como a indumentária, porte de armas, comportamento ético e duração.

Fora a oralidade, com seus boatos e falácias, muitos estudiosos se debruçaram sobre o assunto de ordem antropológica, acadêmica e psicológica. A literatura é vasta e o tema é empolgante porque chamou e ainda chama a atenção nacional e até internacional através de viajantes da época. A mídia impressa deu larga cobertura, muitas vezes de forma sensacionalista, tendenciosa e distorcida.

Para Mello, existiram dois grandes fatores de estímulo ao cangaço. Um de natureza sociológica e outro de feição mesológica, de forma imediata, mas com profundas repercussões sociológicas que foram as lutas de famílias e as secas. Estas últimas acarretaram a proliferação do cangaço profissional. A luta entre famílias armou o palco para o cangaço de vingança.

Vamos, então, ao que mais nos interessa nessa história, que deve ser cada vez mais estudada e pesquisada para que não fique na base superficial das contações de casos e causos. A lista de autores é enorme e as leituras são fascinantes. A questão precisa ser cada vez mais esmiuçada para entendermos melhor o fenômeno.

MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO

O cangaço meio de vida foi um tipo de maior frequência, classificado como banditismo de profissão, tendo como principais representantes os cangaceiros Luis Mansidão, Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque (século XIX), Antônio Silvino (1897-1914) e Lampião (1916-1938).

O cangaço de vingança ocorreu com menor frequência, embora suas características de banditismo, mais ético, emprestou uma imagem de destaque, principalmente literário. Sinhô Pereira, Luis Padre e Jesuíno Brilhante foram seus principais representantes.

O cangaço-refúgio foi um tipo de menor expressão. Caracterizou-se pela riqueza da estratégia defensiva. Seu maior representante foi Ângelo Roque, que manteve seu próprio grupo e depois se aliou ao bando de Lampião. Esses bandidos não chegaram a ser chefes e foi um cangaço de vigor mediano.

Os dois primeiros, o profissional e o de vingança, possuem características discrepantes entre si, com formas criminais distintas, mas com o mesmo rótulo de cangaço. O meio de vida obteve maior poder, notoriedade, fama e ganhos patrimoniais de ideal burguês.

Tanto Lampião, como Antônio Silvino, entraram no cangaço com o pretexto de vingança, mas depois foram deixando essa finalidade de lado e incorporaram o banditismo como negócio. Numa entrevista jornalística a um jornal do Nordeste, perguntado se ele deixaria o cangaço, Lampião devolveu a indagação como outra. Você deixaria um negócio que está dando certo e bons ganhos?

No entanto, Lampião viveu episodicamente períodos de vingança, como contra o cangaceiro Tibúrcio Santos, o Negro Tibúrcio, em 1924. Sinhô Pereira também praticou saques, em 1919. Nos tempos atuais, registra-se a extinção do cangaço meio de vida, bem como o do refúgio, quando o perseguido pela polícia se esconde num bando. Porém, ainda de forma esporádica, existe o de vingança.

O homem da vingança entregava-se por completo à missão moral de dar fim aos inimigos de sua família ou clã. Era um obcecado, consciente do papel destrutivo. “Se no primeiro destes, a adesão espontânea floresce num indivíduo integrado ao ofício a que se dedica, no segundo vamos encontrar um homem violentado em seus desejos de realização pessoal agindo sob coação moral irresistível, e que em seus gestos revela sua inadaptação à vida que leva” – assim analisa Frederico de Melo.

Segundo ele, o envolvido na missão de vingança vivia angustiado por sua busca obsessiva. Não encontrava na vida do cangaço os prazeres e atrativos que tanto prendiam o cangaço meio de vida como amantes desse tipo de existência a seu modo epopeico.

O interesse guerreiro-vingador reflete em sua vestimenta, restringindo o equipamento ao necessário e funcional na guerrilha. Não há estrelas nos chapéus dos vingadores. Nada de testeiras e barbicachos ornamentados em moedas de ouro, nem bornais bordados em policromia, a ponto de fazer desaparecer o brim grosso de que eram feitos. Os registros fotográficos provam isso, com clareza – aponta Frederico Pernambucano.

Muitos anos após deixar o cangaço, Sinhô Pereira disse ao Jornal do Brasil, edição de 26 de fevereiro de 1969: “Eu pessoalmente nunca gostei de enfeites. De bons apetrechos, sim. Cartucheiras de duas camadas, cinturões de revólver com duas carreiras de balas, e nada de espelho e moedas adornando chapéus”.

No caso de Lampião, as fotografias se inserem no quadro do cangaço profissional como negócio. No início se dedicou ao cangaço de vingança nas disputas contra os Nogueiras e José Saturnino, em Pernambuco, e José Lucena (matou seu irmão caçula João Ferreira), em Alagoas. Depois se acomodou no profissionalismo aventureiro, “em processo de transtipicidade”.

O Lampião da década de 30 enfeitava-se dos pés à cabeça. As estrelas de ouro e pedras preciosas apareceram e aumentaram. Essas estrelas ficaram maiores em 1936 e enormes em 1938, ano da sua morte, na gruta Angicos (Sergipe). Sua conduta divergia do vingador. Procurava ser documentado com seus riquíssimos trajes de guerra. Deixou-se filmar em 35mm, no ano de 1936.

Sinhô Pereira e Luis Padre evitavam ser fotografados com armas. Pousavam apenas em trajes civis. O comportamento dos vingadores era contido, com os chefes reprimindo os crimes sexuais e só permitindo expropriações em casos de necessidade.

Sobre os vingadores, o escritor José Américo de Almeida falou ser o destino de Jesuíno Brilhante, assassino por vingança, distribuindo os víveres dos comboios que atacava aos famintos da seca de 1877 e matando um de seus mais valentes, o escravo José, porque tentara violentar uma mulher.

Os vingadores dependiam das finanças de suas famílias que perderam seus bens. Sinhô Pereira disse uma vez que tinha terra e gado. “Vendi tudo barato para cuidar da vingança”. Os cangaceiros dos negócios se mostravam prósperos e autossuficientes. Viviam na opulência. Existem vários exemplos e testemunhas de cangaceiros que comprovavam isso.

Pernambucano de Mello destaca o nível de coesão entre esses dois grupos. Mais forte entre os vingadores, fraco entre os rapinadores, em cujo seio as deserções frequentes impunham rotatividade elevada e permanente atenção de seus chefes para com a atividade de recrutamento.

Sobre esta questão, o ex-cangaceiro Miguel Feitosa descrevia sobre o enxovalhamento dos cabras novos. Nos embates com as volantes, seus chefes gritavam seus nomes para que ficassem conhecidos dos comandantes das tropas, para dificultar-lhes um possível regresso à vida pacífica.

Quanto às origens sociais, o cangaço profissional vinha de uma origem humilde da classe média baixa de famílias não tradicionais. Os da vingança originavam-se de famílias importantes. Sinhô Pereira e Luis Padre eram netos do barão do Pajeú e descendentes de um comendador da Ordem da Rosa, do Primeiro Império. O cangaceiro Cindário pertencia à família Carvalho, do Pajeú pernambucano. O potiguar Jesuíno Brilhante chamava-se Jesuíno Alves de Melo Calado, título senhorial.

O autor de “Guerreiros do Sol” ainda descreve os aspectos existentes entre os grupos. No ponto de vista de duração no cangaço, Lampião e Antônio Silvino atuaram, respectivamente, 22 e 19 anos. Os vingadores mal atingem o lastro. Sinhô Pereira, vingado, retira-se após seis anos. Seu Primo Luis Padre, cinco anos. Pouco tempo também tiveram Cindário e Jesuíno. Quem quer vingar parte para cima do inimigo e mata (Sinhô Pereira) ou morre (Jesuíno).

Outro aspecto se refere ao campo de atuação. Lampião e Silvino percorrem sete a quatro estados da região ao longo de suas carreiras, sempre em busca de novas praças a explorar. Sinhô não foi além de três estados. O mesmo vale para Luis Padre. Jesuíno fez-se cangaceiro no Rio Grande do Norte, vindo a tombar morto no Brejo de Cruz (Paraíba) pelo seu pior inimigo, Preto Limão. Cindário jamais “navegou” além do seu Pajeú.

O último aspecto analisado é a presença de mulheres, mais no sentido existencial. Só no cangaço meio de vida foi permitido a entrada de mulheres como auxiliares não-combatentes, mais como vida do homem amado e de valquírias, após a morte deste. As mulheres ficaram praticamente restritas ao bando de Lampião.

“Em meu tempo não havia mulheres no bando. Mulher só trazia consequências, dividindo homens, fazendo o grupo brigar por ciúmes. Ninguém andava com mulher” – afirmou Sinhô Pereira. No cangaço vingança e refúgio só haviam privações. Somente a rapadura, farinha e a carne, como essenciais. Queijo, bolacha e doce quando se adquiria nas bodegas.

De acordo com Frederico Mello, mesmo no cangaço meio, as mulheres foram fator de desagregação e conflitos internos. Dizem que Lampião, após se apaixonar por Maria Déa Oliveira, a Bonita, (Santinha para ele), não foi mais o mesmo, como confirmou o cangaceiro Balão. “Enquanto não apareceu mulher, Lampião brigava até enjoar. Depois, diante do perigo, pedia para correr”.

Depois de Lampião, os chefes dos subgrupos fizeram o mesmo e os bandos foram ficando cheios de mulheres. À exceção de Dadá, final de 39/40, quando Corisco ficou com o braço quase inutilizado por uma rajada de metralhadora, as mulheres não combatiam, prestando serviços domésticos e procriando. As mulheres assinalam o início do processo de decadência guerreira, com uma vida mais sedentária.

O cangaceiro Balão dizia que homem de batalha não pode andar com mulher. “Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia onde qualquer bala atravessa”.

Um fato interessante é que no auge do cangaço, entre as décadas de 20 e 30, os jovens faziam apologia ao banditismo, àquela vida de aventuras, inclusive entre os mais ricos, filhos de fazendeiros e chefes políticos. Muitos chegaram a ingressar no cangaço como meio de vida.

O CANGAÇO ENDÊMICO E O EPIDÊMICO

O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, autor de “Guerreiros do Sol”, classifica o cangaço em duas fases, o endêmico e o epidêmico. O primeiro se situa a partir da segunda metade do século XIX, um tipo mais romântico e bonachão, com suas regras, normas e éticas.  O segundo, nas primeiras décadas do século XX, tendo como auge 1926, mais violento e com maior número de grupos atuantes. Lampião foi o expoente dessa fase,

Sobre os dois ciclos nordestinos, o da cana e o do gado, ele cita Câmara Cascudo, quando enfatiza que o primeiro não poderia ter produzido o cangaceiro. Exagero a parte, o homem do cangaço disputa com o próprio vaqueiro a primazia, no representar do modo mais completo, o conjunto dos atributos que caracterizam o ciclo do gado.

Ninguém mais que ele (o vaqueiro) soube gozar e sofrer, a um só tempo, as peculiaridades do viver nômade. “Foi, a ferro e fogo, senhor de suas próprias ventas, atuando sem lei, nem rei”. Frederico destaca que sempre existiu uma tradição de simbiose e simpatia entre o cangaceiro e o coronel através de gestos de auxílio constante entre um e outro.

Existiam entre eles uma relação de alianças de apoios mútuos, numa forma espontânea onde uma parte não era patrão da outra para sua sobrevivência. Mediante os acordos, o bando colocava-se a serviço do fazendeiro ou chefe político. Tudo se convertia em contrapartida, “naquela figura tão decisivamente responsável pela conservação do caráter endêmico de que o cangaço sempre desfrutou no Nordeste, que foi o coiteiro.

O escritor alagoano Graciliano Ramos, em “Viventes das Alagoas” ressalta que a aliança se mostrava vantajosa às duas partes porque ganhavam os bandoleiros, que obtinham quartéis e asilos na caatinga, e os proprietários que se fortaleciam cada vez mais. O relacionamento não representava vínculo de subordinação entre os dois. Existia ausência de patrões.

De acordo com estudos publicados pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (1974), houve cangaço dentro do cangaço, isto é, modalidades criminais distintas. Em cada modalidade tinha uma forma de viver, bem como de conduta e violência empregada.

Para Frederico Mello, existia o cangaço-meio de vida, o da vingança e aquele do refúgio, principalmente quando o sertanejo cometia algum crime e estava sendo perseguido pelas volantes. Na primeira forma, Mello aponta Lampião e Antônio Silvino como representantes máximos.

O de vingança foi o traço definidor mais forte, na opinião de Mello, o cangaço nobre, representado pelo Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante ou Luis Padre. Na terceira forma, o cangaço figura como última instância de salvação para o homem perseguido.

Quanto aos modos de guerrear dos indígenas e dos cangaceiros em território inóspito, difícil de penetração, o autor de “Guerreiros do Sol” escreve que os portugueses, que usavam doutrinas militares clássicas, tiveram muito que aprender. Essa situação ocorreu não somente entre os portugueses, mas também no caso holandês que sofreu movimentos de resistência.

Na guerra contra os holandeses, por exemplo, historiadores destacam a contribuição militar do rastejador. O frei Manuel Calado de Salvador cita o capitão Francisco Ramos, índio ou mameluco, como o um dos mais espertos homens em diligência no Brasil.

Quem descreve com detalhes o papel do rastejador durante a década de 30 é Ranulfo Prata. Em trecho da sua narração diz que ele “segue a tropa pressurosa, com o batedor à frente, “escanchado” no rastro. Sem perde-la, trazendo-a sempre debaixo dos olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas, até que as feras humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga precipite”.

O rastejador percebe pequena folha machucada, cinza de cigarro ou barulho, um fósforo, toiças de capim acamado. “Segue os pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a vegetação sob seu peso leve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o chão com sutiliza de quem traz veludo nos pés”.

No que tange ao banditismo no Nordeste, Frederico de Mello faz referência a salteadores ainda no século XVII. “Ao longo do período de colonização holandesa, vamos surpreender nosso banditismo caboclo enriquecido pela presença de estrangeiros, desertores das tropas de ocupação…”

Segundo ele, houve chefes de grupos que eram holandeses, como o caso do célebre Abraham Platman e Hans Nicolaes, que agia na Paraíba, à frente de 30 bandoleiros, por volta de 1641. Ele lembra ainda que foi na segunda metade do século XVII que o bandoleiro pernambucano, José Gomes, o Cabeleira, desenvolveu sua atividade.

No entanto, somente em fins do século XVII, o banditismo começa a se converter no cenário por excelência, até porque, no litoral, a colonização florescia em todos os sentidos. O ciclo do gado, com sua malha vegetal quase impenetrável e uma cultura receptiva à violência, fornecia um cenário propício ao banditismo. Graciliano Ramos afirma que o cangaço era um fenômeno próprio da zona de indústria pastoril, no Nordeste.

No entanto, Câmara Cascudo assinala que o cangaço não existia somente no sertão, mas que era uma figura também presente em outros países. O historiador Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”, lançado em 1969, reafirma a tese da universalidade.  Segundo ele, o banditismo social se encontra em todas as Américas, na Europa,  no mundo islâmico, na Ásia e até na Austrália.

O CICLO DO GADO E OS VALENTÕES

Por muitos séculos os nordestinos, acossados pelas secas intermitentes e cruéis, nas lutas com os índios, pela falta de ordenamento dos governantes, sem lei e justiça, longe dos litorais e a conviver com o banditismo, viveram em total isolamento apegados ao misticismo religioso, suas crenças e suas culturas.

Sobre o flagelo das secas, vários narradores traçam cenas de terror. O padre Joaquim José Pereira, do Rio Grande do Norte, escreve que, além da seca, apareceu nos sertões do Apodi uma tal quantidade de morcegos, que mesmo à luz solar, atacavam as pessoas e os animais, já inanidos pela fome. Homens, mulheres e crianças eram encontrados mortos e moribundos pelas estradas. Entre os mortos, encontravam-se miseráveis ainda vivos prostrados no chão, cobertos pelos vampiros.

Frederico Pernambucano de Mello, em “Guerreiros do Sol”, um estudioso do Nordeste e do cangaço, nos narra que, “quando em fins do século XVII e ao longo do século XVIII a necessidade de expansão colonizadora empurrou o homem para além das léguas agricultáveis do massapê, projetando-se no universo cinzento da caatinga, fez surgir um novo tipo de cultura cujos traços mais salientes podem ser resumidos na predominância do individual sobre o coletivo”.

O homem passou a ser condicionado pelo cenário agressivo que é o sertão. Ele experimentou sobreviver através das plantações, mas foi vencido pelas secas. Então, partiu para a criação do gado, criando assim um novo ciclo que fez surgir os valentões nas figuras dos cabras, dos capangas, dos jagunços, dos pistoleiros e dos cangaceiros.

O escritor Graciliano Ramos escreveu em um dos seus livros que, “sendo a riqueza do sertanejo, principalmente constituída de animais, o maior crime que lá se conhece é o furto de gado. A vida humana exposta à seca, à fome, à cobra e à tropa volante, tinha valor reduzido – e pior que isso, o júri absolve regularmente o assassino. O ladrão de cavalo é que não acha perdão. Em regra, não o submete a julgamento, matam-no”.

Na verdade, o maior crime no sertão naquela época era roubar cavalos e bois. Para o ladrão, só restava a morte e de forma sangrenta. Aliados ao misticismo, ao culto da coragem e o apego ao direito de propriedade, os sertanejos estabeleciam um quadro de violência do ciclo do gado.

O viajante holandês Adriaen Verdonck constatou, em 1630, que na região próxima ao rio São Francisco, os moradores possuíam muito gado, que era principal riqueza e constituía na melhor mercadoria destas terras.

Além das intempéries do tempo e outros fatores adversos, os nordestinos tiveram que enfrentar uma guerra desesperada contra os índios, os verdadeiros donos daquelas terras, expulsos das zonas litorâneas.

Como exemplo, Frederico de Mello nos conta a luta que Teodósio de Oliveira Ledo teve que levar a cabo no início do século XVIII contra as nações tapuias, dos pegas e dos coremas, para se estabelecer com sua gente nos campos de Piancó (Paraíba). Essa guerra chegou a durar mais de 10 anos contra cerca de 10 mil indígenas.

O ciclo do gado também teve que enfrentar o felino. “A onça faz dura guerra a todos os gados do sertão”, escreve Fernando Denis, na primeira metade do século XIX. Esse animal, que atacava os rebanhos, foi exterminado pela bravura dos nordestinos.

Diante das guerrilhas indígenas, dos facínoras poderosos, o nordestino se tornou num homem desconfiado e exposto a emboscadas dos temidos “tiros de pé-de-pau, ou dos que dormiam na pontaria.

Frederico de Mello cita diversos autores, como Câmara Cascudo que chama a atenção para a carta régia de 1701 pela qual os criadores, em divergência com os plantadores de cana e mandioca, viram-se obrigados a procurar no sertão terras diferentes das exigidas por essas culturas

Este fator respondeu pelo incremento da internação sertaneja ao longo do século XVIII, tendo que enfrentar temperaturas infernais. A carta régia determinava que o criatório só poderia fundar-se para além de uma faixa de dez léguas da costa.

O autor de o “Guerreiros do sol” faz um paralelo sobre o ciclo do gado no Nordeste com a epopeia norte-americana da conquista do Oeste, quando relata que “quanto mais demorada tenha sido a fase cruenta de um processo de colonização, tanto mais duradoura se mostrará a permanência de hábitos violentos que não mais se justificam”.

O sertanejo sofreu uma estagnação em sua evolução por conta do isolamento em que esteve secularmente relegado. Sobre a questão dos valentões, Mello destaca a impressão que teve o viajante Henry Koster. Em sua visão, esses valentões eram homens de todos os níveis, cujo serviço consistia em procurar oportunidades para lutar. Onde chegavam, nas feiras ou nas festas, eles amedrontavam as pessoas.

Para o escritor paraibano José Américo de Almeida, o cangaceiro originou-se da instituição do guarda-costas, como uma necessidade de defesa das fazendas ameaçadas pelo gentio. Segundo ele, quando o cabra era despedido, sua reação era procurar um bando, mas historiadores contestam esta tese.

“O emprego do capanga, do cabra e do jagunço fez-se largamente no Nordeste ao longo de todo o ciclo do gado, nas questões de terra, nas lutas de famílias e, de modo particular, nas disputas políticas” – descreve Frederico de Mello.

Mais uma vez, Mello cita, o folclorista Câmara Cascudo, quando escreve que o sertão foi povoado dos fins do século XVII para o correr do século XVIII, por gente fisicamente forte e etnicamente superior.

Diz ele que esse nordestino enfrentava os índios, que não tinha medo de morrer nem remorso de matar. “As famílias seguiam o chefe que ia fazer seu curral nas terras povoadas de paiacus, janduís, panatis, pegas, caicós, nômades atrevidos, jarretando o gado e trucidando os brancos”.

Os sucurus, panatis e os coremas nutriam ódio contra os portugueses que tomaram seus lugares marítimos. Em contrapartida, eles se levantaram em todas as partes contra os sertanejos que não se sentiam seguros.

“GUERREIROS DO SOL”

“Como “homem pecuário”, denominação da preferência do autor (Frederico Pernambucano de Mello), o sertanejo do Nordeste, ao mesmo tempo que manteve, através do isolamento, o idioma do colonizador europeu – inclusive o uso de termos lusitanamente náuticos – tornou-se, em grande parte, um já sugerido autocolonizador, quer pela necessidade de seguir exemplos de indígenas em suas defesas das fúrias dos animais traiçoeiros e de variantes, também traiçoeiros, de clima não-europeu, quer pelo ânimo de desconfiar um tanto caboclamente de estranhos”.

Essa é uma caracterização do sertanejo feita pelo sociólogo Oliveira Viana, citado por Gilberto Freire, no prefácio da segunda edição do livro “Guerreiros do Sol”, de Frederico de Mello.

Em sua descrição sobre a obra, Freire destaca que, em certa página, o escritor apresenta um desses tipos de bandido como, em dias de cangaceirismo ortodoxo, indiferente tanto a prazeres de alimentação como à constância de convívio com mulher, enquanto em atividade absorvente e monossexualmente belicosa. Daí a presença da mulher, no cangaço, só se ter feito notar em época diferente.

Na classificação sobre formas de cangaceirismo, Pernambucano de Mello, de acordo com Freire, fala do cangaço meio de vida, ou de profissão; cangaço de vingança; cangaço-refúgio, este caracterizado pelo que chama de “estratégia defensiva”. Quanto as fases do cangaço, o prefaciador da segunda edição, Gilberto de Mello Kujawski, divide em endêmica (final do século XIX) e a epidêmica, a partir dos anos 1920 que se deu o auge.

Gilberto Freira assinala que o cangaço no Nordeste é tema brasileiro e sob alguns aspectos, transbrasileiro, e não apenas nordestino. Sob perspectiva anglo-americana, Fletcher e Kidder, apontado por Freire, retratam o cangaço como o tipo mais marcante de sertanejo nordestino, atribuindo-lhe aparência de homem bronzeado pelo sol – e talvez, em alguns casos, pelo sangue ameríndio – mas de aspecto predominantemente europeu, isto é, português.

Ao se referir ao trajo masculino do sertanejo, Freire afirma que o mais interessante é o desenho que apresenta, caracterizado por uma camisa de algodão, mais longa que a geralmente em uso pelo homem canavieiro ou o do Recife, e solta por fora das calças, um trajo arcaico.

Sobre as origens do cangaceirismo, alguns estudiosos falam de rixas em famílias, favoráveis ao uso dos chamados cabras em lutas. Diz Gilberto Freire que o compadrio, em conexão com estas rivalidades, não pode deixar de ser considerado fator importante, ora de atenuação, ora de acentuação, de ódios entre famílias.

O padrinho, como compadre, afilhado, como protegido, são personagens a ser considerados no familismo sertanejo do Nordeste, até há poucos anos, e um pouco sobrevivente, ainda hoje, ligado a lutas entre famílias rivais: lutas às quais não raro associou-se um cangaço vingador de desentendimentos endogâmicos e, até, incestuosos. Lutas em torno de terras, bois e cavalos, orgulhos de avós.

Frederico Pernambucano de Mello, o autor de “Guerreiros do Sol”, em “Nota à Segunda Edição”, faz uma descrição sobre o cangaceirismo, cujos protagonistas, desde os períodos regencial, imperial e mesmo republicano, enveredaram no desesperado mito brasileiro do viver sem lei e sem rei, com cada homem podendo ser o rei de si mesmo, e ser feliz, de arma na mão, contra os valores da colonização europeia.

Nesse cenário nordestino de vida difícil, de paisagem cinzenta pela seca, do fatalismo religioso embrutecido, do misticismo, desde quando o homem foi empurrado da mata e da terra massapê para a caatinga e depois para o ciclo do gado, “o menino sertanejo muito cedo banha-se em sangue, ajudando o pai a sangrar o boi ou o bode para o preparo da carne-de-sol, cortando o pescoço do capão, da galinha, do peru, ou esfolando o mocó para a refeição imediata”.

Segundo Mello, “a cultura sertaneja abonava o cangaço, malgrado o caráter criminal declarado pelo oficialismo, com as populações indo ao extremo de torcer pela vitória dos grupos com os quais simpatizavam, quase como se dá hoje nos torneios entre clubes de futebol”.

Nesse quadro, entrava a literatura de cordel que se encarregava dessa celebração, capaz de atingir, com um João Calangro, Jesuíno Brilhante, um Viriato, um Guabiraba, um Rio Preto, um Cassimiro Honório, um André Tripa, um Vicente do Arraial, um Antônio Silvino, um Sinhô Pereira ou um Lampião, abrangência especial e intensidades difíceis de avaliar, tal o volume.

O autor da obra também se reporta aos cangaceiros artistas que faziam seus versos e modinhas populares, como o cantador Rio Preto, no final do século XIX, e o Sinhô Pereira, no início do século XX. Cita ainda José Baiano e Mourão, nos anos 30, e Jitirana nos anos finais, que dividiam a palma da composição e da execução musical  no grupo do capitão Virgulino.

 

FATOS CURIOSOS DO NORDESTE II

OS CANGACEIROS SE ENTREGARAM

Depois do assassinato de Lampião, em 1938, um grande grupo de cangaceiros entregou as armas. Em 19 de setembro de 38, Pancada, sua mulher Maria Juvenina e outros cinco bandoleiros, Vila Nova, Santa Cruz, Cobra Verde, Vinte e Cinco e Peitica se entregaram à policia de Alagoas e Sergipe. No começo de 1939 foi a vez de Francelino José Nunes, o Português, sua mulher Quitéria, Velocidade, Pedra Roxa e Barra de Aço.

ORAÇÕES

De acordo com os pesquisadores Ilda Ribeiro de Souza e Israel Araújo Orrico, os sertanejos e cangaceiros faziam dezenas de orações, como a oração preciosa, oração de São Jorge, oração do Anjo Custódio, oração das Doze Palavras Ditas e Retornadas, oração Reservada, oração de Santa Catarina, oração Poderosa, o Creio em Cruz, a Força do Credo, o Credo às Avessas, a oração do Sonho de Santa Helena, oração de São Silvestre, de São Bento, oração das 34 Almas, das Nove Almas, do Salvador do Mundo, de Santo Agostinho, a oração de Nosso Senhor Jesus Cristo e tantas outras. Em sua algibeira, Lampião levava consigo rosários e orações de São Gabriel, de São Jorge e de São Pedro. Também carregava o livro “A Vida de Jesus”.

NO PIAUÍ

Segundo historiadores, ainda que seja mais difícil encontrar indícios de cangaceirismo no Piauí, houve casos de banditismo rural naquele estado. O chefe de polícia do Ceará recebia ordens do presidente da província para que suas tropas de Ipu e São João do Príncipe mantivessem ligações constantes com autoridades policiais no Piauí, para saber a direção tomada pelos bandidos que atravessavam a divisa.

O SEBASTIANISMO

O Rei de Portugal, D. Sebastião (século XVI) estava convencido de que teria que intervir na sucessão dos governantes da África. Sem apoio popular, resolveu invadir Marrocos. Ele desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Desde, então, criou-se uma lenda de que algum dia ele retornaria. Essa história atravessou o Atlântico e chegou até o sertão nordestino, cujo povo via em D. Sebastião uma figura divina que voltaria para salvar a todos e trazer justiça para os pobres.

XXX

Silvestre José dos Santos, chamado de Profeta, tornou-se um peregrino asceta, viajando por Alagoas e Pernambuco até se radicar, em 1817, na Serra do Rodeador. Ali criou o vilarejo denominado Paraíso Terrestre, com 400 moradores. Ele acreditava que havia uma cruz dentro de uma rocha e que de lá sairia D. Sebastião e seus soldados. Se o povo da vila fosse atacado, o rei português o tornaria invisível. Mesmo assim, a comunidade andava armada. Em outubro de 1820 foram atacados e destruídos por ordens do presidente da província de Pernambuco. O “profeta” fugiu.

XXX

Sebastianista convicto, o beato João Ferreira, líder da comunidade de Pedra Bonita, Pernambuco, acreditava que D. Sebastião retornaria se fossem realizados sacrifícios humanos. O episódio do Reino Encantado de Vila Bela, em 1830, representou o sacrifício de dezenas de pessoas, que foram decapitadas ou esmagadas contra as pedras. O povo acreditava que os mulatos e negros seriam transformados em brancos, e os pobres em ricos. Os fanáticos cantavam hinos religiosos e conclamavam o retorno do seu rei.

LUNÁRIO PERPÉTUO

A primeira edição do Lunário Perpétuo, publicado em Portugal é de 1703. Tinha como título O non plus ultra do lunário e prognóstico perpétuo geral e particular para todos os reinos e províncias, composto por Jerônimo Cortez. Valenciano fez emendas conforme o expurgatório da Santa Inquisição, e traduziu em português. A edição de 1921, conforme Câmara Cascudo, tinha 350 páginas e incluía astrologia, mitologia, horoscopo, receitas, calendários, biografias de santos e de papas, temas da agricultura, ensinamentos de como construir um relógio de sol, formas de aprender como ver as horas pelas estrelas, veterinária e outros temas. Era o livro mais popular do sertão.

VÍTIMAS DAS SECAS

Sem contar a terrível seca de 1877/78, a pior de todas, que levou levas de famintos para Fortaleza (Ceará), houve muitas outras que provocaram saques e violências. Ocorreu o episódio do ataque do cangaceiro romântico Jesuíno Brilhante contra o carregamento de alimentos do governo, para distribuí-los às vítimas da seca de 1877, mas essa não era uma regra geral a partir do período lampiônico.  Aconteceram vários casos de flagelados e saques no Nordeste entre 1979 e 1982. Em abril de 79, cinquenta mil flagelados no Ceará fizeram o governo decretar emergência. Na ocasião, 300 flagelados invadiram a cidade de Mombaça, no Rio Grande do Norte, 100 invadiram São José da Penha, em abril de 1980. Ocorreram saques às feiras e comércio de Garrotes, Itapuranga e Itaperoá, na Paraíba, enquanto 1.600 flagelados  se reuniram nas ruas de Irauçuba, Ceará, para pedir trabalho e comida.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            PENICO FLORAL DE LOUÇA AZUL

O historiador José Anderson Nascimento narra a entrada de Lampião em uma fazenda, em 1927, onde havia um penico de louça azul e branco, com decoração floral, em cujo fundo se lia Made in England. Na casa encontrou ainda anéis, brincos, pulseiras, escravas de ouro, gargantilhas, broche de platina e brilhantes, um barrete de diamantes, um rico colar de esmeraldas e outras joias caras, um lenço de seda chinesa, 15 libras esterlinas e dois relógios de bolso da marca Parek.

Do livro “OS CANGACEIROS”, do historiador Luiz Bernardo Pericás.





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