:: ‘Encontro Com os Livros’
DERROCADA DO CANGAÇO NORDESTINO COM A MORTE DO “SENHOR DO SERTÃO”
DEPOIS DE MAIS DE 50 ANOS, PASSANDO POR ANTÔNIO SILVINO, SENHOR PEREIRA, JESUÍNO BRILHANTE E TANTOS OUTROS CHEFES VALENTES, O CANGAÇO ENTRA EM DERROCADA COM A MORTE DE LAMPIÃO, O “SENHOR DO SERTÃO”. CURISCO TENTA OCUPAR O POSTO DO CHEFE, MAS TAMBÉM É TOMBADO EM 1940.
Lá pelos meados dos anos trinta, com o cansaço nas brigadas e persigas nos sertões das caatingas, doenças nas vistas e nos rins, a morte do seu protetor “Padim Ciço”, o padre Cícero Romão, de Juazeiro do Norte, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos, Lampião não era mais o mesmo de sempre; andava macambúzio; era descuidado; vacilava nas decisões; e não tinha mais aquela disposição nos combates contra as forças das volantes.
Os próprios companheiros do cangaço sentiam e diziam isso, principalmente os “cumpades” mais chegados, como Curisco, Labareda, Saracura, Zé Sereno, Luiz Pedro e outros. Quis o destino que um seu conterrâneo, de Serra Talhada (Pernambuco), o tenente João Bezerra, servindo no Batalhão de Alagoas, com mais as volantes de Ferreira e Aniceto, lhe tirasse a vida, em 28 de julho de 1938, na gruta de Angico, ou Angicos, em Sergipe.
Em entrevista ao médico e antropólogo Estácio Lima, autor do livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, o já coronel João Bezerra disse que a morte de Lampião não foi um mero acaso, mas resultou da tenacidade comprovada de vários anos de lutas. O já coronel Ferreira de Melo (leptossomático) leva em conta a escolha de indivíduos preparados. “Levamos a vantagem da surpresa”.
Foram ao todo onze abatidos que tiveram suas cabeças decepadas, das quais somente as de Lampião e Maria Bonita foram para o Museu Estácio de Lima, em Salvador, na Bahia.
Ferreira diz que sua força foi a primeira que atirou, mas até hoje não se sabe ao certo de onde partiu a primeira bala que pôs fim a Lampião, se de Bezerra, Ferreira, sargento Aniceto ou outro “macaco” como assim denominavam os cangaceiros quando se referiam aos soldados.
O Batalhão de Polícia de Alagoas, sediado em Santana do Ipanema, era comandado pelo coronel José Lucena, um dos maiores inimigos de Lampião, possível matador do seu pai e irmão mais novo.
Antes de tudo acontecer, Bezerra havia deixado Piranhas para ir a Pedra se encontrar com Ferreira, para umas batidas nas caatingas de Moxotó.
Bezerra havia partido quando surge um portador, em Piranhas, com um telegrama do sargento Aniceto. O texto dizia “Bois no Curral” ou “garrotes no Pasto”, o que na tradução significava “Lampião aqui por perto, venha urgente”.
Os dois, Bezerra e Aniceto, acertaram se encontrar na estrada. Com Ferreira, a tropa viajou, em 27 de julho à noite, pelo Rio São Francisco em três canoas cheias de soldados, para não deixar rastros. O destino era Entre Montes.
Os soldados não sabiam da missão e deviam ficar calados, mas temiam os bancos de areia. Um deles chegou a dizer que “nóis quer morre brigano, afogado é ruim”. Nas margens do rio, mandaram buscar o coiteiro que negou sua ligação com os bandidos. “Ponta de faca, porém não brinca”.
O coiteiro Domingos, vaqueiro e barqueiro, que cortava dos dois lados nas informações, tipo X9 dos militares, terminou abrindo o bico. O comando, então, foi pegar o segundo coiteiro parente do outro, o Pedro da Cândida. ”Ou diz tudo, ou morre”. Passava da meia noite quando os canoeiros partiram. Os coiteiros conheciam toda área e sabiam conduzir as volantes naquelas densas trevas.
Tinham que subir o morro rastejando, para não deixar pistas e suspeitas. Não foi encontrado nenhum vigia do grupo, que esqueceu as “boscadas”. No clarear do dia, o aspirante Ferreira se deparou a poucos metros dos cangaceiros. Zé Serenos e outros foram logo reconhecidos.
A volante de Ferreira estava em boa situação, só esperando o sinal do comandante Bezerra. Alguns bandoleiros pressentiram o cheiro dos “macacos” e deram o alarme. Ferreira não pode mais esperar e abriu fogo cerrado. A confusão se estabeleceu e alguns cabras caíram logo.
Os primeiros que reagiram foram Zé Sereno e Luiz Pedro, mas já era tarde demais. Um grito anunciou que o “Governador do sertão” se achava baleado. Dizem que partiu de Maria Bonita. Luiz Pedro acorreu para perto do chefe, tentando acudi-lo.
Maria Bonita teria falado: Você não disse que desejava morrer na mesma hora de Lampião? Pois agora espie, aqui, o homem como está”… O capitão agonizava, sem gemidos. Luiz Pedro tomou-lhe o mosquetão e o chapéu bordado de estrelas. A companheira tentou fugir, mas também foi tombada.
Mesmo ferido, Bezerra não deixava a metralhadora silenciar, bem como Aniceto com seus homens. Tudo foi bem planejado. No combate, Luiz Pedro foi atingido nas costas, ou no peito.
Seu afilhado Vila Nova tentou ajudá-lo, mas ele pediu que o matasse antes das volantes. Zé Sereno conseguiu escapar com sua companheira Cila que depois foi para São Paulo parar nos braços de outro. O cangaço praticamente acabou ali, mas Curisco tentou resistir, ocupar o lugar do chefe e se vingar dos traidores.
“CUMA CUNTECEU” NAS REVELAÇÕES DO VALENTE CANGACEIRO LABAREDA
O médico e antropólogo Estácio de Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” transcreve uma entrevista que fez com Ângelo Roque da Costa (Anjo), vulgo Labareda, do grupo de Lampião, na linguagem matuta, com pitadas poéticas, ipsis liter, difícil de se falar e escrever.
Na época em que Lampião foi morto, em 1938, na gruta do Angico (Sergipe), Estácio era presidente do Conselho Penitenciário da Bahia e acolheu e defendeu muitos cangaceiros presos e outros que se entregaram. Ele chegou a empregar alguns depois de indultados.
Na entrevista, Labareda descreve o chefe que muitas vezes vacilava nas decisões e era afrontado. Quando “carmo” “agia como uma moça, mas aperreado era uma fera”. Era cruel e até justo em algumas ocasiões. Ás vezes se apiedava da pobreza e distribuía algum dinheiro. Não perdoava quem o denunciava aos “macacos”.
Labareda, nascido pelas bandas de Santo Antônio da Glória (Curral dos Bois), na Bahia, conta que ajudava os véio na roça. “Minha mãe era mulé da cusinha, dus fio i da inxada. Eram arremediados. “Só nus tempo di seca qui parecia u mundo i si acaba!”
Como Anjo Roque se bardiô prô cangaço? Tudo foi por causo da sua irmã Sabina, de quinze anos. O soldado Horácio Caboclo (Couro Seco) mandou uma carta para sua irmã chamando-a para fugir. Anjo foi ao juiz de Direito. “Ele entonces mi arrespondeu qui u sordado tamém tinha irimã e cumo ele namorava cum a minha irimã, eu fizesse u mesmo, cum a do sordado”. Naquele tempo, soldado mandava no interior mais que o prefeito.
– Entonces, Doutô, visto isso, só si tomano pruvidença, pru conta da gente.
– Vá si cria, mínimo – foi a resposta do juiz. – Já tô criado, Doutô.
O soldado disse que ia buscar a Sabina. “Cabra zarro, ele disse i compareceu. Mas num vortou! Ficou ispichado nu chão”. O Pai de Couro Seco (André Cabôco) deu uma facada nas costas de Anjo Roque, que o enganou dizendo que ia para São Paulo. No dia seguinte ele recebeu um “certêro”. “Ele miricia; era ordinário i ruim Cuma a peste. Foi duas onça qui eu tirei du pasto, us povo dizia”.
Dias depois, Anjo Roque foi cercado em sua casa. Houve brigada e seu irmão e sua mulher foram mortos. Tocaram fogo em sua casa com seu pai dentro, bem como no curral, na casa de farinha e no chiqueiro – conforme relata.
Labareda conta que a única saída foi pedir proteção ao um coronel de Jeremoabo. Depois se entranhou no Raso da Catarina onde lutou contra a força e matou um sargento. Houve violência contra seus parentes.
No aperto, Anjo Roque, o Labareda, procurou Lampião e entrou para o grupo composto por oito homens (Curisco, Arvoredo, Virginio, Luis Pedro, Ezequiel, Fortaleza, Volta Seca, entre outros), isto em 1928.
Depois disso ele narra as viagens das brigadas e persigas pelas caatingas que fez com Lampião pela Bahia, inclusive em Queimadas, onde muitos soldados foram mortos. Em seu português caipira, ele conta os aperreios dos cangaceiros, o dia em que Lampião quase morre de sede no sertão.
“Bebemo cum muita ganaça e u rezurtado foi qui provequemo, i a gente gumitô tudo”. Segundo ele, quando se está com muita sede, água só segura na barriga, quando misturada com rapadura ou farinha.
“Tivemo nutiça qui, in Juazêro, havia u´a viúva véia muito rica: Viajemo na procura da viúva. Cheguemo in casa dela, cum u quilariá du dia”. Levaram tudo dela e mais 10 contos de réis.
Em Pernambuco, num lugar chamado de Tacutiara, o bando se encontrou com um soldado da força que mentiu dizendo ser tangedor de burro. Após ser descoberto, “Lampião cortô a cabeça dele vivo deitano ele no chão Cuma si faz cum galinha.
Anjo Roque conta outras histórias macabras e que havia desentendimentos entre os cangaceiros, mas sempre se acertavam, inclusive que algumas vezes o chefe Lampião chegava a ser contrariado, mas tinha suas saídas estratégicas e até se compadecia dos mais pobres em alguns casos.
Certa vez, Lampião resolveu matar um fazendeiro com quem tinha se desentendido e Labareda tentou impedi-lo, dizendo que o filho havia dado cinco contos para livrar o pai. Era seu conhecido. Mesmo assim, Virgulino Ferreira não aceitou e os dois tiveram um entrevero. No final, o chefe concordou desde que o coronel desse um conto a cada cangaceiro do seu grupo.
O CANGACEIRO CANTOR E COMPOSITOR
Entre os grupos de cangaceiros nordestinos, alguns se destacaram como verdadeiros artistas anônimos, cantando e divertindo seus companheiros depois das brigadas e das persigas, em acampamentos armados de forma improvisada nos agrestes dos sertões.
Muita coisa foi perdida, mas alguns pesquisadores conseguiram recuperar preciosidades escritas em sua linguagem que, até certo ponto, era diferenciada do povo nordestino comum. O antropólogo Estácio de Lima afirma que “a obra de arte é o que foi e é o que será”.
“Conhecer o seu semelhante, interpretar-lhe o sentimento, decifra-lhe os arcanos da alma, é algo, realmente, complexo” – diz Estácio. Segundo ele, poetas e prosadores convencionais costumam fazer-se escravos da sintaxe, da rima, do que lhes parece harmônico, dos dicionários, do estilo, da metrificação e, em última análise, dos ditames das escolas literárias, que amarram as ideias, comprometem a inspiração e alteram a realidade.
Nos versos populares, nota-se que para o jagunço, para o sertanejo em geral, o grande vaqueiro, corredor das caatingas, vale mais que um doutor. Lampião, que foi sanfoneiro, antes de entrar para o cangaço, foi um valente vaqueiro. Era grande a aproximação entre o cangaceiro e o Padre Cícero Romão, e o artista Theo Brandão retratou bem isso em seus versos.
O poeta José Cordeiro conta os preparativos, os planos e o combate em Mossoró, em 1927, onde Lampião saiu derrotado. O metrificador Antônio Theodoro fala dos apelidos dos bandidos em sextilhas de cordel.
No entanto, não se encontrou na literatura e na poesia referências sobre o Código de Honra dos cangaceiros, principalmente quanto ao tráfico de armas. Existia entre as partes um pacto de silêncio. Sabe-se, porém, que muitos oficiais da polícia, chefes políticos e coronéis de patente estiveram envolvidos, como acontece até hoje no âmbito do narcotráfico e das quadrilhas organizadas.
Quanto a arte no cangaço, entre os cangaceiros, Gitirana (não gostava que colocasse o “J” na inicial do seu nome), voz de barítono, foi o destaque e animador das festas, nas bem traçadas emboladas, com gritos guerreiros. Descreve o autor Estácio, de “ O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, que ele mesmo se comovia, quase às lágrimas e também aos ouvintes. Ele era acompanhado pelo realejo do bandoleiro Jandaia.
Gitirana foi o cantor das caatingas e se impôs como o barítono maior de “Mulher Rendeira”. Ele gostava dos cocos. De acordo com Estácio, que entrevistou alguns de seus companheiros, Gitirana gostava dos remexidos, como “Bala in balaxo/ Bala in riba/Bala in baxo…/ Foi pru mode o cararú…/Eu não quero nem fala…/ Quem num come de castanha/ Num percebe du caju/ Num conhece du fubá…/ Quem num pode cum mandiga/ Num carrega patuá!
Nos pousos (remanso do “ponto”), nos coitos ou nas marchas penosas, ouvia-se sua voz: “Laranjeira, laranjeira/ Laranjeira, laranjá/ Eu disse pra laranjeira/ Qui num botasse fulô…/ Que passasse Cuma eu passo,/Qui passasse sem Amô!
Na alma do cangaceiro, suas rimas eram agudas, cortantes, de expressões bélicas, explosivas, nostálgicas e de afeto. Em redondilhas, outra possivelmente de Gitirana dizia: “Quem num prova de castanha/ Num conhece du caju,/ Mulé sortêra tem manha/ Qi nem sapo cururu…// Se nóis prova du dendê/ Sem cumê du caruru/ Num sabe a gente cumê/ Nem briga num suruú!
Gitirana nos deixou essa doçura de canção: “Amô remexe cá gente/Chegando di supetão…/ Mais pió qui dô di dente/ É senti parpitação. Como ele apreciava a cabrocha, cantava essa: “Cabrocha pra sê bunita/Bonita cumo os amô,/Basta um vestido de chita/ I na cabeça u´a frô!//Toda cabrocha bunita/ Num sabe tê sentimento…/Vistida entonces di chita/ Só sabe tê trivimento!
O artista chegou a ser recolhido à cadeia de Jeremoabo, na Bahia, ao se entregar, atendendo a promessa do perdão, mas a alma de poeta, habituado a viver livre no agreste, não se adaptou ao local. Revoltou-se, arrombou a prisão e partiu para Sergipe onde morreu tuberculoso, no anonimato.
Estácio de Lima nos revela que “Todamerica” gravou em disco a voz de Volta Seca, incorporando corretamente à “Mulé Rendêra”. Labareda também cantava, mas não tinha o mesmo talento de Gitirana.
Os “macacos” tinham seus cantadores que falavam dos seus embates contra os cangaceiros. Em versos, os bandidos eram sempre tratados com deboches, sem falar nas vantagens que levavam contra os inimigos.
O CANGAÇO E AS MULHERES
Somente no final dos anos 20, quando Lampião fugiu de Pernambuco para a Bahia, foi que as mulheres começaram a entrar no cangaço, com Maria Déa, ou Maria Bonita, nascida em Santo Antônio de Gloria (Paulo Afonso), na Bahia.
A princípio, muitos cangaceiros não gostaram dessa novidade porque consideravam que a prática do sexo e o convívio com a mulher enfraquecia e amolecia o homem nos embates com a volantes nos sertões das caatingas. Alguns compadres chegaram a fazer advertências ao chefe.
O médico e antropólogo estudioso do assunto, Estácio de Lima, abre um capítulo em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” sobre a participação das mulheres no cangaço. Na época, início dos anos 40, ele era presidente do Conselho Penitenciário da Bahia e penetrou bastante nesta questão.
Naquela época, especialmente no Nordeste, o número de mulheres nas penitenciárias era mínimo em relação aos homens. Com o tempo, cresceu o contingente feminino, mas ainda existe uma proporção bem maior de homens na criminalidade.
De acordo com Estácio, “a mulher, aparentemente, é menos atraída para a delinquência em razão das personalidades de sua estrutura somática e dinâmica humoral; de uma força física menor, levando-a a maiores precauções; de uma educação multissecular, objetivando torná-la submissa e mais recatada; de uma sexualidade antes passiva que ativa, e isto é da mais alta importância; e não menos, do instinto maternal, que a às ternuras, sob variados aspectos”.
Acontece mestre, que este quadro em geral mudou muito com as lutas femininas na busca por igualdade social e de gênero. A mulher não é mais hoje aquela passiva e submissa de antigamente. Passou a buscar suas conquistas na sociedade, se bem que a criminalidade continua predominando mais entre os homens.
No reino das caatingas, segundo Estácio, “não encontramos, todavia, as mulheres nem mais cruéis, nem mais inconsequentes ou corruptas, embora experimentassem as vivências fundamentais dos companheiros. O caboclo, escravo da terra e escravizado por seus “donos”, encontra, na companheira, solidariedade e compreensão”.
Ele destaca que no país dos vaqueiros, dos jagunços, dos camponeses muito pobres e retirantes, a mulher não costuma viver parasitariamente. Ela maneja o arado, a enxada e sepulta as sementes com firmeza na dura nesga de terra.
Apesar de atingida pela sociedade, maltratada pelo clima e aniquilada pela fome, a propensão para o crime era menor. Mesmo assim, enfrentou de forma destemida as volantes, sugerindo medidas, discutindo e decidindo nas horas difíceis.
RAINHA E PRINCESA
Estácio descreve as mulheres no cangaço, destacando Maria Bonita, de Lampião, e Dadá (a Sérgia), de Curisco. A primeira como rainha e a segunda como princesa, diferente, que pegou em armas, lutando ao lado do marido, mesmo quando ele teve os braços esbagaçados por metralhadoras num enfrentamento.
Sobre Maria Bonita, o autor da obra afirma que jamais poderia ser considerada uma cangaceira, mas foi a figura feminina primordial do grupo. Portava somente armas curtas e dava um ou outro tiro nas brigadas. Não fugia da liça. Teve seis ou sete filhos, mas só uma criança sobreviveu.
A Déa, depois que se separou do marido sapateiro José, passou a ser chamada de Maria Bonita e nunca mais quis um destino diferente. Não se sabe se ambos eram fiéis, mas ela, sem dúvida. Virgulino sempre falava que era agradável “cobrir uma fêmea”. Existiram boatos de um certo namorico de Maria com Luiz Pedro, “mas é uma gritante inverdade”.
O FIM MACABRO DE LÍDIA
O antropólogo descreve as personalidades de várias mulheres do bando, como da Lídia, a Desdêmona, mulher de Zé Baiano, caso principal e trágico. Zé Baiano era um negro feio, alto, forte, valente, malvado e ferrava em brasa as mulheres que ele achava que deviam merecer castigo.
Zé Baiano apaixonou-se por Lídia, fogosa, moderna, jeitosa, sapeca e linda de corpo. Encontrou-a em Paripiranga e roubou a moça. Dizem que ela gostava de deixar os seios um bocado para se ver, com casacos folgados.
Com todas aquelas provocações, namorou o Bem-te-viu, um tanto meloso e derretido. O Besouro, um cangaceiro ordinário, vivia paquerando a Lídia. Certo dia, ele ouviu o mato estalar a certa distância e também “um ronco de onça comendo bezerro”.
Besouro aproximou-se como um felino e viu a moça agarrada ao Bem-te-viu. Disse que também queria. Lídia se recusou e ele ameaçou contar tudo a Zé Baiano. Percebendo o perigo, Bem-te-viu fugiu.
Na vista de todos, inclusive na presença do chefe-capitão, Besouro contou tudo. Lídia era corajosa e sustentou todo acontecido e ainda da chantagem de Besouro que queria lhe comer. “Se tenho de morrer que morra logo, mas esse cabra safado não me come”.
Ao ouvir tudo, Lampião pulou de onde estava como um acrobata e abriu com uma foice, em duas metades, a cabeça do delator. Por sua vez, Zé Baiano decretou o fim de Lídia. Lampião não interviu por achar que a moça era propriedade do preto e tinha todos direitos sobre ela. O código das caatingas era inflexível.
Com suas garras brutais, Zé Baiano matou a formosa Lídia com cacete. Foi um espetáculo macabro, com pancadas estúpidas, arrasadoras que esmagaram a cabeça da moça. O Bem-te-viu conseguiu escapulir para as bandas de Alagoas.
O Zé Baiano ficou ainda mais selvagem, mas teve um triste fim. Conheceu a filha do coiteiro Antônio da Chiquinha que não aprovou a união, mas não podia fazer muita coisa. No entanto, ajudado por camaradas, pegou Zé Baiano e seu grupo dormindo e a todos degolou a machado e a foice.
Os jornais noticiaram que “o ferrador das mulheres morre por causa de um rabo de saia”. No entanto, os sebastianistas acreditaram que Zé Baiano houvesse escapado para São Paulo. Antônio da Chiquinha foi morar em Salvador e se tornou camelô em Água de Meninos.
DADÁ, A GUERREIRA
Quanto a guerreira princesa Dadá (Sérgia Ribeira da Silva), criada em Glória (Bahia), mas nascida em Belém, Pernambuco, tinha personalidade mais incisiva e era uma grande combatente ao lado do seu marido Cristino Gomes da Silva, o Curisco, ou Diabo Loiro. Não teve a mesma fama de Maria Bonita, mas bem que merecia mais que a rainha.
Além de Maria Bonita e Dadá, ainda estiveram no cangaço, a Nenem, que pertencia a Luiz Pedro, que morreu baleada num combate que se feriu em Mucambo, perto do Rio São Francisco; Moça, mulher de Cirilo, que sabia atirar de fuzil; Otília, muito alegre e companheira de Mariano; Durvalina, amante de Vírginio, cunhado de Lampião e um dos cangaceiros mais temidos; Cila (Ismerilda), bonita e letrada, sabia ler e escrever, que foi mulher de Zé Sereno; Inacinha, mulher de Gato; Áurea que pertencia ao cangaceiro Manuel Moreno; Maria dos Santos que acompanhou Labareda por mais de 10 anos; Enedina pertencente a José Julião; Cristina, mulher de Português, bandoleiro que mal conhecia Portugal; Dulce, mulher de Criança; Verônica, mulher de Beija-Flor; e Lili, companheira de Moita Brava que levou seis tiros do marido por suposta traição.
O FATOR SOCIAL NO CANGACEIRISMO
Com seu olhar mais antropológico sobre a questão do meio social no sertão nordestino, o médico e escritor Estácio de Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” descarta a teoria lambrosiana de que a criminalidade é nata em determinados indivíduos a partir de suas características físicas.
O médico assinalou que, diante da empola radiológica, as cabeças de Lampião, Maria Bonita, Corisco, Zabelê, Cangica, Azulão e mais outra Maria abatida em combate, não ofereceram o mínimo vestígio do chamado lombrosionismo. “Para sermos rigorosos, entretanto, diremos que Zé Baiano exibia traços morfológicos que se ajustariam à clássica descrição de Lombroso.
“Em resumo: O meio hostil feriu um homem abandonado, de atributos contraditórios, muitos deles grandes atributos, respondendo esse homem desordenadamente, às vezes cruelmente, exibindo sua alma cheia de primitivismo”. Nasceu assim o cangaceiro, o delinquente.
Outro ponto por ele contestado é que a miscigenação étnica nordestina, de acordo com certos estudiosos, tenha contribuído para o banditismo na região, no caso específico do cangaceiro, do jagunço e do pistoleiro. Estácio, no entanto, foca especialmente no problema da injustiça social, mesológico das secas na caatinga e de um judiciário protetor dos mais fortes e cego com os pobres.
“A Bahia conheceu, no século dezenove, assassino brutal, que estarreceu o Brasil. Houve, na época, a falsa interpretação de que o escravo Lucas da Feira era o que era, porque trazia, na epiderme, a pigmentação da melanina. Os seus atos refletiriam a “criminalidade dos pretos”.
Segundo o estudioso e pesquisador no assunto, o mestiço passou para alguns exegetas, a ser considerado um tipo em degeneração, sem possuir as boas qualidades, exibindo as más, ou deturpando as melhores. Pensadores, então, terminaram interpretando certos índices de incapacidade das nossas populações como resultante dessa mistura de sangues heterogêneos, colocando o negro como inferior.
Estácio destaca que essas interpretações falsas levaram a exageros, ou erros, em sentido contrário. “Os mulatos chegaram a ser endeusados”.
“Os irmãos Ferreira não se constituíram nos maiores cangaceiros do tempo, influenciados, fosse qual fosse a dose, por qualquer das nossas três raças básicas, ou pela conjunção de todas. Denotavam eles, na fisionomia, traços evidentes da tríplice convergência étnica… Não foi isso, todavia, que os levou ao banditismo… Mas toda uma série de fatores cósmicos, telúricos, sociais e biológicos”.
Na figura do caipira e do matuto nos sertões nordestinos, prossegue Estácio, percebe-se um esboço de definição racial. Como exemplos, cita o cangaceiro Saracura, tez morena, como a de Maria Bonita, cobreada, um tanto pelo sol, um tanto por discreta melanina, legado dos ancestrais, como também em Lampião.
“O cangaceirismo tem aquele aspecto – e não será fastidioso repeti-lo – de reivindicações, de protesto contra as desigualdades, de vingança face as injustiças, ou revide ante as extremas provocações”.
Sobre crianças que entraram no cangaço, Estácio analisa que seguiram nas hostes pela imitação, pelo espírito de aventura inerente à pouca idade, pela ideia de que aquilo era brinquedo divertido. “Não levaram protestos, nem objetivos predeterminados”. Quanto aos idosos, serviam para levar recados, sem contar a missão de rufiões pela metade.
O escritor de o “Mundo Estranho” também ressalta sobre o período de maior desenvoltura dos cangaceiros, entre 18 a 35 anos, em razão dos enfrentamentos das caatingas, dos embates com as volantes, da terra seca e da vida precária que levavam.
Os bandoleiros menos idosos passaram a observar que Lampião declinava quando atingiu os 40 anos. Vinha mostrando gradual pendor pela “sombra e água fresca”. Ainda era infernal, um grande satanás, porém, não mais o mesmo gênio dos malefícios quando ultrapassou os 35.
– Derna qui “o Padinho Pade Cirço” si mudou pru céu qui o cumpade Lampião passou a viver meio inculido! Estácio faz mapeamento da biotipologia do homem cangaceiro, como esguio, raramente baixo (um metro e setenta), pernas e braços finos, com relevos musculares ao nível do bíceps, magro, rosto comprido, barriga murcha e bacia estreita. Um leptossomático típico.
“Se o determinismo fosse diverso, uma educação apropriada interferisse, as condições do ambiente se mostrassem bem menos agressivos, o caboclo perduraria silencioso e esquivo, sem mergulhar, porém, no cangaço.
“TEMPO DE INTENSA CRUELDADE”
RESISTÊNCIA MANTIDA PELA LUTA E PELO AMOR
A professora Ana Isabel Macedo, aposentada do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, onde durante 30 anos lecionou Língua Portuguesa, lançou na noite de ontem (sexta-feira, dia 26/02), no Foyer do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, o seu quinto livro romanceado, intitulado “Tempo de Intensa Crueldade: Resistência Mantida pela Luta e pelo Amor”.
Na obra, a autora apresenta histórias de amor, de amizade, de militância política e revela duros episódios da ditadura civil-militar no Brasil com o golpe de 1964. O lançamento foi um momento muito especial de diálogo entre a literatura e a música quando, na ocasião, Elton Becker e Damian Lima cantaram “porque não dizer que falei das flores”, do poeta e compositor Geraldo Vandré.
Na abertura da apresentação do livro, o professor e advogado Ruy Medeiros fez um longo relato do que foi a ditadura civil-militar de 1964, citando vários presos políticos que, em combate contra o regime, foram cruelmente torturados e mortos pelos generais no poder, como o caso do frei Tito, que não suportou em vida as torturas do delegado Fleury e terminou se suicidando.
Como prefaciador do livro, Ruy, em sua fala condenou os discursos de raiva e os grupos que se movimentam pregando uma intervenção militar no país. De acordo com ele, somente quem não viveu aquele duro período de opressão se levanta em defesa de uma nova ditadura. Lembrou os momentos difíceis, principalmente durante os chamados anos de chumbo a partir de 1968 com o AI-5 onde o preso não tinha nem direito a um habeas corpus.
Na contracapa da obra, a historiadora Isabel Cristina Leite, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, recorda que “na cidade de Petrópolis foi mantida pelo Centro de Informações do Exército (CIE), uma casa clandestina, cujo fito único era praticar crimes terríveis, como torturas extremas, tipo horas de pau-de-arara: estupros e tentativas de afogamentos em quem os militares supunham ser guerrilheiros. E para completar este quadro tão macabro, muitos e muitos prisioneiros, nesta casa foram assassinados”.
Como escritora, Ana Isabel já lançou Malva: Um Meio-Sorriso e um Certo Olhar (1995), Heloísa: A do Povo de Vicente (2014), Carmela: Uma História de Amor (2017) e Maria Mar: Estrela das Ideias e do Amor (2023).
“O MUNDO ESTRANHO DOS CANGACEIROS”
Numa descrição poética do árido do sertão nordestino, o professor e escritor Estácio Luiz Valente de Lima, em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, coloca estes personagens como produto das agressões mesológicas, do solo castigado pelas estiagens das secas repetidas, mas não descarta outros fatores que contribuíram para o surgimento do cangaço, como a injustiça social.
No capítulo de abertura sobre “O Meio”, ele diz que “o clima, no império dos bandoleiros, é um clima áspero, esse mesmo que prossegue desafiando a técnica e a inércia dos nossos governos e diante do qual falazes têm sido todas as ajudas internacionais”.
Sua linguagem é dura como o chão rachado pelo sol inclemente que deixa o sertanejo endurecido e o transforma, muitas vezes, numa alma cruel, ao ponto de perder as esperanças em determinados momentos da vida.
Com sua visão da poligenia nordestina, com sua multiplicidade de raças, o médico, odontólogo e presidente do Conselho Penitenciário da Bahia, no final dos anos 30, Estácio de Lima penetra fundo no psicológico do cangaceiro ao ponto de se colocar como advogado em defesa da sua regeneração.
Na prática, como presidente do Conselho, Estácio controlou a vida de muitos cangaceiros presos que pertenceram ao bando de Lampião, depois da sua morte, em 1938. A prefaciadora da sua obra, professora Maria Thereza Pacheco, relata que o mestre acompanhava seus afazeres e mantinha permanente contato com eles.
Muitos foram trabalhar em hospitais de Salvador, na condição de vigias. O lugar-tenente de Lampião, o Ângelo Roque, conhecido como Labareda, tornou-se porteiro do Conselho Penitenciário, no Fórum Ruy Barbosa. Outros também exerceram a mesma função no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, como o Benício, chamado de Saracura.
A professora conta que Estácio encontrou dificuldades para indultar o cangaceiro Antônio dos Santos, vulgo “Volta Seca”, que entrou no grupo ainda criança, e entre os 14 e 15 anos, obedecendo ordens do capitão, executou três soldados que estavam montando guarda na cadeia de Queimadas (Bahia). Foi capturado depois pela polícia e condenado a cem anos de prisão.
Após 20 anos de pena, mesmo tendo tentado evadir-se da cadeia, Estácio de Lima defendeu a sua liberdade, se colocando como responsável. Além de “Volta Seca”, o presidente do Conselho, após estudos minuciosos sobre os condenados, escreveu ao presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, solicitando o livramento condicional.
Mesmo temeroso, o presidente aceitou o pedido, mas colocou sobre os ombros do mestre toda capacidade de responder pelos atos dos cangaceiros então em liberdade. De acordo com a professora Thereza, na época, o fato foi noticiado com muita admiração ao mestre em todo Brasil.
Ela escreveu no prefácio que Estácio foi um pioneiro no estudo multifário do cangaceirismo no Brasil. Cita que o autor do livro faz uma interessante síntese associativa entre os italianos que se rebelaram em grupos a jeito dos rebeldes como os homens do cangaço nordestino, estudando a personalidade e o meio em que viveram.
Em sua obra, Estácio faz também uma comparação com os gângsteres, os homens do faroeste, concluindo que eles não dariam jamais o cangaceiro. “O meio tem sua influência maior”. Sobre a lei para o sertanejo e o nordestino, o médico afirma que “o mais forte prosseguia, com as garantias do seu poder, e os fracos, pobres e desamparados, defender-se-iam como pudessem”!
“A primeira atitude humana contra as ações nocivas do agressor trazia um aspecto negativo, tão indisciplinado nas cavernas, quanto nas catingas. O revide, a pouco e pouco, é que foi perdendo o caráter das ações arbitrárias, individuais, para tornar-se coletivo, num esboço de legalidade”- destaca o autor.
Em sua opinião, o elemento telúrico explica, em parte, o cangaceiro brutal e cruel como a seca. O cangaceiro, segundo Estácio, “possui assim, aquelas características do homem das cavernas…”
OS SACRIFÍCIOS DA PEDRA BONITA
AS LENDAS, ATRAVÉS DA TRADIÇÃO ORAL, GERAM O MISTICISMO QUE SE ENTRELAÇA E GRUDA NO CONSCIENTE POPULAR EM FORMA DE CRENÇA, TRANSFORMANDO O IRREAL EM REAL. O MÍSTICO FAZ A LAVAGEM CEREBRAL QUE INDUZ O INDVÍDUO AO SACRIFÍCIO DO ALTAR.
O naturalista escocês George Cardner, em suas viagens pelo interior do nosso país, nos anos de 1840, constatou que o sebastianismo no Brasil, especialmente no Nordeste, era mais forte que em Portugal. Os seguidores dessa seita acreditavam que com a volta do Rei D. Sebastião, o Brasil gozaria da mais perfeita felicidade.
Conta a história que no dia 4 de agosto de 1578, o soberano português D. Sebastião pereceu na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, contra os mouros comandados pelo sultão Abdal-Malik.
Mesmo a contragosto de seus oficiais, o soberano foi lutar na África por meio de uma Cruzada de guerra santa contra os infiéis, visando expandir o território português. Desde sua infância, diziam que ele foi predestinado à glória. Como católico fervoroso e ávido de conquistas, o povo aspirava por uma Idade do Ouro para Portugal.
O desaparecimento do rei-guerreiro foi misterioso, mas fez surgir as lendas e os movimentos místicos que passaram a invocar o seu ressurgimento. Essas lendas e o mito alcançaram terras desbravadas pelos portugueses.
De acordo com a professora e escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, falam que o primeiro movimento sebastiânico no Brasil surgiu em Pernambuco, no ano de 1819, no município de Bonito.
No ano de 1836, em Vila Bela (Serra Talhada), no sertão de Pernambuco, apareceu um caboclo de nome João Antônio dos Santos com duas brilhantes pedrinhas na mão e com um folhetim. Em suas andanças, contava a lenda do rei desaparecido, visando conquistar adeptos para sua nova seita.
Com suas palavras de persuasão, arrastou seguidores, como nas redes sociais de hoje, e atingiu o ápice emocional, resultando numa carnificina que ficou na história e abalou o sertão, em maio de 1838.
Mais de 50 pessoas foram sacrificadas de forma bárbara no altar da Pedra Bonita, localizada na Serra Formosa. O João Antônio se tornou “rei” e fez um rebanho acreditar que os sacrifícios humanos purificariam a pedra e abririam espaço para o retorno de D. Sebastião. Aliás, dizia que era um pedido do próprio rei desaparecido.
As narrativas de João Antônio tornaram-se motivo de grande poder persuasivo por estarem integradas à cultura da região nordestina, isolada por séculos do resto do Brasil. O povo cultuava o hábito de contar histórias reais e imaginarias, encantando e impressionando as pessoas mais simples.
Pela sua habilidade do saber dosar as narrativas, com seus gestos e expressões corporais, extraindo emoções, João tinha a magia da arte de contador de histórias, ao ponto de fazer com que o sertanejo acreditasse nelas.
Ele lidava com as pedrinhas brilhantes e o folhetim, tornando o irreal em real. Com seus instrumentos de indução, passou a convidar a todos a acompanhá-lo ao local onde aconteceria o desencantamento de D. Sebastião, com todo o esplendor do seu reino.
Na Serra Formosa existiam (ainda existem) duas grandes pedras quadrangulares que eram as “torres de uma igreja”, conforme relatava João Antônio. Na verdade, era só uma pedra bonita em virtude da incrustação de malacachetas que faziam pratear e serem vistas pelos moradores como coisa inusitada e misteriosa. Próxima à pedra, existia uma lagoa, também encantada. De lá, João retirou as pedrinhas que eram exibidas por onde passava.
O místico dizia ter sido guiado pela mão de El-Rei que lhe oferecera a visão do que seria o reino encantado. O vidente passou a dizer que tudo que era encantado só desencantaria com muito sangue para regar todo “campo santo” e romper o encanto que aprisionava D. Sebastião.
As promessas aos seguidores eram irresistíveis, como pretos que se tornariam brancos e seriam todos imortais, ricos e poderosos. Os velhos voltariam a ser jovens. O lugar passou a ser um “santuário”, a pedra dos sacrifícios e o torno de João Antônio, donde ele fazia suas pregações e dava ordens aos fiéis.
Na tarefa de doutrinação, Antônio era auxiliado por uma equipe de pessoas da sua família e parentes de confiança, como seu pai Gonçalo José dos Santos.
Contava ainda com a colaboração de muitos outros para efetuar a peregrinação e propagação da seita que atraiu muita gente de outros lugares, como das ribeiras do São Francisco, Cariri, Riacho do Navio e do Piancó (Paraíba). Todos queriam ver as coisas “bonitas” que iriam acontecer.
As pessoas concentradas na “Pedra Bonita” perdiam o direito de se retirar do local. Nas tarefas, criadas por João, os grupos de trabalho eram vigiados por guardas da seita. Fazendeiros entregaram todo seu gado e economias, acreditando que depois tudo seria devolvido em dobro.
Existia uma rígida disciplina, como a proibição de banhos e lavagem de roupas até que ocorresse o grande evento que seria o retorno de D. Sebastião. Durante todo tempo, todos entoavam cânticos religioso, benditos e rezas. A alimentação era à base de legumes colhidos nas fazendas das redondezas.
Tudo isso funcionou muito bem para o êxito de uma lavagem cerebral onde todos estavam dispostos aos sacrifícios humanos. As consciências ficaram ainda mais entorpecidas através da ingestão do “vinho encantado” preparado com a infusão da jurema e manacá, acompanhado pelo hábito de fumar cachimbos que continham ervas entorpecentes misturadas ao fumo.
Os fatos tenebrosos passaram do limite e forçaram o padre missionário Francisco Correia, que perdeu seus fiéis para a seita, investigar a situação. Organizou missões e chamou João Antônio para uma conversa, que entregou as duas pedrinhas e partiu para o Cariri. O padre, então, retornou para a comarca de Flores, crente de que a seita teria sido extinta.
Ledo engano, os sebastianistas retornaram, agora guiados por um novo “rei”, João Ferreira, que sentou no trono e ditou as novas regras, como a de que o homem poderia se casar até com três mulheres, contanto que todas elas passassem a primeira noite com ele que já era casado com Josefa, a irmã do primeiro “rei”.
A grande tragédia da Pedra Bonita, que depois passou a ser chamada de Pedra do Reino, aconteceu na manhã do dia 14 de maio de 1838 e se estendeu entre os dias 15 e 16. Os próprios integrantes da seita foram dizimados. Depois avisou que El-Rei estava desgostoso com o povo que não tinha fé e não podia desencantar. Os sebastianistas indagaram, então, o que poderia ser feito.
João Ferreira respondeu que era preciso regar todo “campo santo” e as pedras das “torres da catedral” para que o “reino” surgisse em sua glória. Todos ouviram uma “voz” no fundo da pedra e interpretaram como a se fosse a de D. Sebastião.
Nesse momento, a turba ficou ensandecida com cânticos e rezas. O pai de João Ferreira foi o primeiro a colocar seu pescoço na pedra para ser sacrificado. Outros fiéis imitaram o gesto. Um idoso de nome João Pilé, agarrou seus netos e com eles mergulhou para a morte do alto de um rochedo, mas na queda deu conta da loucura e conseguiu se salvar. Os netos não tiveram a mesma sorte. Uma mulher matou dois filhos menores, mas os maiores fugiram e um deles conseguiu abrigo na casa do fazendeiro Manoel Ledo de Lima. Josefa, que estava grávida, foi tão violentamente golpeada que provocou o nascimento do filho, mas este rolou pelas pedras para a morte. Outros pais deceparam as cabeças de seus filhos.
No final do terceiro dia, estavam lavadas de sangue as bases das pedras e o solo do “reino encantado”. Foram trucidados 12 homens, 30 crianças e 11 mulheres. Além dos humanos, 14 cães foram executados, destinados a serem os “dragões do reino”.
Quando o ar ficou empestado pelo mau cheiro da carnificina, os sobreviventes foram para outro campo. Construíram cabanas e ficaram esperando a chegada de D. Sebastião.
No dia 17, o Pedro Antônio, irmão de Josefa, sentou-se no trono e ordenou a execução do cunhado João Ferreira, com o argumento de que para completar o sacrifício, D. Sebastião havia lhe dito que só faltava o “rei”. Os fanáticos torturam João Ferreira, quebraram sua cabeça e arrancaram suas entranhas.
No mesmo dia, o vaqueiro José Gomes, que estava na Pedra Bonita, conseguiu escapar da chacina e correu até a fazenda Belém onde se encontrava o major Manoel Pereira da Silva, da Guarda Nacional, e denunciou os fatos. Outros também foram até a fazenda de Manoel Ledo narrando a mesma história.
O major reuniu uma força de 26 homens e pelo caminho a tropa foi aumentando. Quando os combatentes chegaram à Pedra Bonita, os homens, nus da cintura para cima, estavam armados de facões e cassetes. Enquanto isso, o Pedro Antônio agitava seus adeptos com gritos de guerra a defenderem o reino. Com cânticos, rezas e ladainhas todos avançaram contra os soldados, no corpo a corpo.
No combate ficaram 22 cadáveres, sendo o do “rei” com 16 de seus sectários e dois irmãos do comissário-major, além de muitos feridos entre outros soldados. Dois meses depois dos acontecimentos, o missionário Francisco Correia foi sepultar os mortos e contou 53 corpos. Todas as ossadas foram enterradas numa grande vala. Até hoje contam que o local em torno da Pedra Bonita (Pedra do Reino) ficou mal-assombrado.
AS CRENDICES NORDESTINAS QUE REGIAM A VIDA DOS CANGACEIROS
Pelo seu próprio misticismo secular religioso, o Nordeste sempre foi uma região pródiga em crenças e superstições populares. Essas crendices regiam a vida dos cangaceiros desde os episódios e sinais mais comezinhos da natureza, incluindo a fauna e a flora.
A professora e escritora Marilourdes Ferraz, em sua obra “O Canto do Acauã” comenta que “ao trilhar uma certa rota, os cangaceiros retornavam imediatamente por outro caminho se uma acauã, ou acoã, como o chamavam, cruzasse os céus sobre suas cabeças com o canto característico do agouro”.
Mesmo havendo necessidade de uma viagem para atacar o inimigo ou resolver algum negócio, eles desistiam do intento se entre as dezoito horas e as vinte e duas horas da noite anterior ouvissem o canto do galo.
As primeiras segundas-feiras do mês de agosto eram dias em que evitam fazer encontros com as forças das volantes. Para eles, eram dias considerados aziagos, no seu linguajar “dias e águas”. No entanto, quando ocorria por acaso, não tinha jeito, todos entravam na luta.
Quando um cangaceiro estava deitado no chão, o outro não passava por cima do seu corpo ou das suas pernas sob pena de haver feroz briga devido ao “enguiço” causado. Tinha que haver o “desenguiço”.
Outra crendice consistia em não se dar passadas por cima dos calçados, nem de armas devido a “atrasos” na vida que isso poderia causar. Não conduziam o rifle ou fuzil atravessado às costas, formando uma cruz, por ser um mau presságio. A cruz tem um simbolismo relacionado com a morte.
Os cangaceiros desistiam de uma viagem se os sabiás se reunissem agitados junto ao grupo. Essas crendices também se estendiam às volantes e aos sertanejos em geral. Quando passavam próximo a uma cruz, todos se benziam para que seus corpos continuassem “fechados”. De um modo geral, as pessoas cristãs, ou mesmo não religiosas, praticam esse hábito e ainda fazem posições de reverencia.
A condução, junto ao corpo, de espelhos ou alpercatas atraiam balas. Se um cachorro uivasse em redor da casa ou se as corujas cacarejassem na comieira, esses sinais eram interpretados como “mau agouro”. Pedregulhos correndo nas telhas e gado mugindo à noite indicavam que alguma pessoa da família iria morrer.
Pela superstição, sentar à porta tornava o corpo “aberto”, isto é, vulnerável a ferimentos. Matar uma cobra era o mesmo que atrair balas. Os uivos de raposas eram agourentas e tornavam as pessoas cismadas. Os ofícios de Nossa Senhora deviam ser assistidos de joelhos. Os que assistiam em pé não teriam sucesso em suas atividades.
Lampião tinha seus artifícios para se livrar de emboscadas e provocar o despistamento. Muitas vezes, em viagem, ele tirava o chapéu e colocava-o no ombro. Às vezes apanhava um ramo verde de árvore e cruzava-o no caminho. Depois dava ordem para que todos se dispersassem e se encontrassem em outro local, ou mudava de rota.
Essas crendices e superstições não estavam somente ligadas aos cangaceiros, mas aos nordestinos em geral. Muitas dessas crenças permanecem em nossas memórias e se arrastam pelo tempo, especialmente entre as velhas gerações.
Quando menino, lembro que meus pais e os antigos respeitavam determinados crenças que foram adquiridas de seus antepassados e ancestrais, sobretudo aquelas ligadas à religiosidade. O terço, por exemplo, tinha que ser rezado de joelhos.
LAMPIÃO FOGE DE PERNAMBUCO E FAZ ESTRAGOS NO SERTÃO BAIANO
Com o cerco ao banditismo pelo governo pernambucano de Estácio Coimbra, tendo como comandante Geral das Forças Volantes, Teófanes Torres Ferraz, o mesmo que capturou, em 1914, o cangaceiro Manoel Alves Batista de Moraes, o famoso Antônio Silvino, o temido Lampião foge para a Bahia em final de agosto de 1928 e faz estragos no sertão.
Na realidade, Virgulino Ferreira já estava enfraquecido, com seu bando reduzido depois da frustrante invasão à cidade de Mossoró (Rio Grande do Norte), em 1927, com 90 homens bem armados quando esteve em Juazeiro do Norte, em 1926, e recebeu modernas armas do governo federal para combater a Coluna Prestes.
Um dos primeiros atos de Estácio Coimbra foi mandar prender os coiteiros (sertanejos, fazendeiros coronéis, usineiros e até chefes políticos), deixando os bandoleiros desorientados. Outro fator que pesou na caça aos cangaceiros foi o apoio do governo pernambucano através da reposição de provisões de armas, munições e o soldo nos prazos determinados.
Essas medidas, conforme relata a escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, resgatariam a campanha em Pernambuco, tornando-a numa eficiente realidade. Foram conservadas as táticas de lutas e as vestimentas apropriadas à caatinga e às modalidades de combate nela desenvolvidas, porque eram as tradicionais da região.
Em 1928, o bando de Lampião já se encontrava reduzido e não tinha condições de enfrentar as volantes. Sua tática foi fugir para a Bahia onde as forças policiais estavam enfraquecidas e não tinham experiências de combates na caatinga. Então, ele atravessou o Rio São Francisco em demanda do sertão baiano, partindo do sopé da Serra Negra, em Floresta, com apenas cinco homens (chegou a ter 130 a 150), entre eles o Luis Pedro, seu fiel escudeiro.
Seu itinerário englobou a Serra Tonã, a fazenda Salgado e o povoado Várzea da Ema, município de Glória. Naquela localidade, Lampião encontrou refúgio na fazenda Gangorra. Mesmo assim, as tropas pernambucanas foram ao seu encalço, mas sem sucesso.
Essa perseguição rendeu alguns versos, como “A força de Pernambuco/ É um bando de urubu/ Perseguindo Lampião/ Que é filho de Pajeú”. De início, Lampião mudou estrategicamente seu comportamento na Bahia, de cabra violento para pacato e bondoso, capaz de esbanjar dinheiro para a população, com intuito de fazer crer que ele era vítima de uma injusta perseguição.
O povo baiano acreditou nessa farsa e chegou a impressionar o coronel Petronilo Reis, chefe político de muito prestígio na área de Glória. Foi o primeiro protetor de Lampião na Bahia, tanto que o governo do estado solicitou o retorno das volantes pernambucanas à sua terra de origem.
Virgulino só estava esperando o momento certo para atacar, reforçando o seu bando, e Petronilo terminou sendo o principal objeto da sua ira quando deixou de ser-lhe útil. Depois que conheceu a região, coligou-se aos irmãos Engrácia no vizinho estado de Sergipe.
Na Bahia, incluiu novos elementos, como seu irmão mais novo Ezequiel, Corisco e as mulheres Dadá e Cila, uma grande novidade para o cangaço, pois na cultura sertaneja, a relação sexual tornava o homem vulnerável, com o “corpo aberto” a balas e facadas, e embotava seus sentidos para os perigos da caatinga.
Não demorou muito para o governo baiano pedir reforço às volantes de Pernambuco, inclusive com a aquiescência do coronel Petronilo e outros fazendeiros. Em 1929, os cangaceiros chegaram a assassinar quatro soldados baianos. Sucederam-se outras mortes, incêndios, roubos e sequestros.
Ainda nesse mesmo ano, em julho, ocorreu o assalto à vila de Pedra Branca e, no povoado de Brejões, foram aprisionados e mortos mais quatro policiais e um cabo. Em outubro, o bando ameaçou os trabalhadores da estrada de Juazeiro a Santo Antônio de Glória, visando interromper os trabalhos (Lampião tinha pavor a estradas). Nove homens da obra foram mortos.
Em dezembro de 1929 aconteceu um episódio macabro que deixou a população de Queimadas, na Bahia, aterrorizada. Com dezoito cangaceiros, Lampião forçou o juiz a preparar uma lista para a coleta de dinheiro e realizou diversas atrocidades, como o fuzilamento de sete soldados na porta do quartel.
De acordo com o major Optato Gueiros, em seu livro “Lampião”, em Queimadas ocorreu um fato curioso. Ao penetrar na vila, um policial ao deparar-se com a situação do destacamento, ajoelhou-se e começou a orar. Lampião aproximou-se dele e deu ordens para que seus cabras não bulissem com o homem. “Não estão vendo que ele está doido?
Quando caiu a noite, os cangaceiros fizeram uma festa em comemoração pelos lucros auferidos em Queimadas. Em 1930 aconteceu outra tragédia nas proximidades da Serra do Urubu. Num tiroteio, morreram o tenente Geminiano Santos, um sargento e mais cinco companheiros.














