“ESCRAVOS CRISTÃOS, SENHORES MUÇULMANOS”
“Escravidão Branca no Mediterrâneo, na Costa da Berbéria e na Itália, de 1500 a 1800”.
“Qualquer um que diga hoje que a escravidão branca chegou a proporções tão significativas quanto às da escravidão negra será invariavelmente tachado de supremacista branco e revisionista histórico”.
O comentário é da editora Vide Editorial, responsável pela publicação de “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, uma obra de autoria do historiador e professor emérito da Ohio State University, PhD em história do Mediterrâneo e da Itália, Robert C. Davis.
Na introdução do seu livro, Robert procura esclarecer que a escravidão branca ou dos cristãos, paralela à escravidão africana, foi uma forma de vingança dos muçulmanos em resposta às perseguições que os islâmicos sofreram durante as Cruzadas (séculos XI e XII) e a expulsão dos mouros pela Espanha (final do século XV).
Essa escravidão se deu na região da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli), praticada por corsários e piratas do mar que saqueavam impiedosamente embarcações da Inglaterra, Alemanha, Espanha, Irlanda, França, Portugal e da Itália. Muitas vezes eles adentravam o continente e os prisioneiros se tornavam escravos nas galés, nas lavouras, na mineração e até em fábricas.
Segundo o autor, “ao expulsar os mouros do sul da Espanha, Ferdinando e Isabel conceberam um inimigo implacável para seu reino ressurgente, e que veio a se estabelecer bem perto deles, em Marrocos, Argélia e, por fim, ao longo de todo o Magreb”.
O historiador também afirma que “na Berbéria, aqueles que caçavam e comercializavam escravos certamente esperavam obter lucro, mas, ao traficar cristãos, também havia sempre um elemento de vingança, quase de jihad, pelas injustiças de 1492, pelos séculos de violência nas Cruzadas que as precederam e pelas contínuas batalhas entre cristãos e muçulmanos que continuaram a assolar o mundo mediterrâneo até os tempos modernos”.
O próprio autor da obra reconhece que os números sobre a escravidão branca ou de cristãos, que ocorreu com maior intensidade entre os séculos XVI e XVII, são desencontrados por falta de notificações mais precisas. As estatísticas são mais baseadas nos relatos dos cônsules dos diversos país vítimas e de pessoas que sofreram esse tipo de servidão.
Robert destaca que até mesmo os ingleses, apesar de distantes da Berbéria, e eles próprios já figurando entre os captores de escravos mais agressivos nos anos 1630, foram escravizados por corsários muçulmanos operando a partir de Túnis, Argel e Marrocos.
De acordo com ele, os piratas de Argel e Salé podem ter escravizados cerca de mil britânicos por ano, praticamente o mesmo número de africanos cativos. Diz que, por volta de 1640, mais de três mil foram escravizados só em Argel e cerca de 1500 em Túnis.
“Foi dito que os argelinos tomaram, ao menos, 353 navios britânicos entre 1672 e 1682 – o que representaria que eles ainda agrilhoavam entre 290 e 430 novos escravos britânicos todos os anos”.
O historiador assinala ainda que os corsários berberes foram uma ameaça muito mais expressiva àquelas localidades mais próximas de seus litorais, como os povos flamengos, franceses, espanhóis, portugueses e italianos. Tudo isso ocorria, segundo ele, ao mesmo tempo em que acontecia o comércio de escravos africanos.
O escritor descreve, através de outro pesquisador no assunto, que o Mediterrâneo era “um mar abarrotado de piratas selvagens” e que “o papel perverso desempenhado pelos piratas muçulmanos em geral, e pelos corsários da Berbéria em particular, foi muito exagerado”.
Em seu livro, Robert ressalta que relatórios diplomáticos, jornais da época e o simples boca a boca contavam histórias sobre cristãos sendo capturados às centenas e milhares em alto mar ou durante surtidas litorâneas. Diziam que eles eram acorrentados e submetidos a uma morte em vida de tanto trabalhar em Marrocos, Argel, Túnis e Trípoli.
Fontes contemporâneas, conforme dito por ele, entre novembro de 1593 e agosto de 1594 os tunisianos trouxeram cerca de 28 espólios com 1.722 prisioneiros. Entre 1628 e 1634, os argelinos capturaram, só dos franceses, 80 navios mercantes, levando 986 cativos. Dos ingleses tomaram 131 navios e embarcações entre 1628 e 164, totalizando 2.555 cativos. Os viajantes de Trípoli tomaram 75 navios cristãos com 1.085 prisioneiros entre 1677 e 1685.













