De George Orwell, de a “Revolução dos Bichos”

Para escritores e outros que ainda não leram, deve se debruçar sobre as críticas literárias de George Orwell aos livros “Trópico de Câncer” e “Primavera Negra”, de Henry Miller, bem como de outros autores, como Alfred Edward Housman, J. Joyce. T.S. Eliot, E. Poud. D. H. Lawrence,  Wyndham Lewis, Aldous Huxley e Lytton Strachey.

Sobre esse grupo, diz Orweel que eles não parecem um grupo. Lawrence  e Eliot não gostavam um do outro. Huxley adorava Lawrence, mas era repelido por Joyce. A maioria teria esnobado Huxley. Lewis atacava todos os outros.

“Se a ideia básica dos poetas georgianos era a “beleza da natureza”, a dos escritores do pós-guerra (I Guerra) seria o “sentido trágico da vida”. Todos eles têm um temperamento hostil à noção de “progresso”. O sentimento é que nem deveria acontecer.

O pessimismo de Eliot em parte é um lamento sobre a decadência da civilização ocidental. Em sua análise, a inclinação de todos os escritores desse grupo é conservadora. Muitos tinham queda pelo fascismo, outros eram indiferentes. Huxley, desespero com a vida.

Por que os principais escritores dos anos 20 são pessimistas? Por que há sempre uma sensação de decadência. Não seria, quem sabe porque essas pessoas escreveram em uma época de conforto excepcional? “É só em períodos assim que o “desespero cósmico” pode florescer. Pessoas de barriga vazia nunca se desesperam pelo universo, nem aliás, pensam sobre o universo”.

Em suas abordagens, no primeiro capítulo, Orwell fala do cenário literário dos anos 20, para ele a época de ouro, e solta reflexões sobre a arte do escrever onde o leitor é alçado a entrar nessa baleia. Ele começa pelo romance de Miller, “Trópico de Câncer” que apareceu em 1935. O próprio insiste ser pura autobiografia.

O ensaísta do cenário da época na França, narra que em alguns bairros da cidade, a quantidade dos assim chamados artistas deve ter superado a dos trabalhadores. Calculou-se que no final dos anos 20 havia trinta mil pintores em Paris, a maior parte “impostores”. “Foi a era dos azarões e dos gênios”…

Pelas suas obscenidades nauseantes, a obra de Miller tornou-se impublicável. No mundo dos túmulos sombrios, descrito entre outros por Lewis, sobre o qual Miller escreve, abordando apenas o lado de baixo: as formas do lupemproletariado.

É uma história, como descreve Orwell, de quartos infestados de percevejos em hotéis para operários, de brigas, de surtos de bebedeiras, bordeis baratos, refugiados russos (Revolução Russa), mendicância, trapaça e empregos temporários. Todo esse cheiro de azedo foi matéria-prima para o romance de Miller que se alimentou desse lixo.

Quando “Trópico de Câncer” foi publicado, os italianos marchavam sobre a Abissínia e os campos de concentração de Hitler já estavam entupidos. Os centros intelectuais do mundo eram Roma, Moscou e Berlim. Foi um romance sobre norte-americanos combalidos mendigando bêbados no Quartier Latin. Um ano mais tarde foi publicado “Primavera Negra.

Na comparação com Joyce, de Ulisses, o crítico de “Dentro da Baleia”, diz que há um traço dele, não em todo lugar. Em “Primavera Negra”, mesmo com pontos surrealista, todos se sentem iguais. “Miller escreve sobre o ser humano na rua e, a propósito, é uma pena que seja uma rua cheia de bordeias.

“Em “Primavera” há um flashback maravilhoso de Nova Iorque fervilhante de irlandeses, mas as cenas de Paris são as melhores”. No romance de “Trópico”, os bêbados e vagabundos são tratados com maestria na técnica rigorosamente única – assinala, ao pontuar que as sensações são que todas as aventuras deles acontecem com você.

“A grosseria indiferente com que os personagens de “Trópico de Câncer” falam é muito rara na ficção, mas comum na vida real. George Orwwll esclarece que “Trópico” não é um livro de um jovem. Miller tinha mais de 40 anos quando foi publicado. É um livro maturado na pobreza e na obscuridade. A prosa é um espanto e, em partes de “Primavera”, ainda melhor”. Palavras impublicáveis estão em todas as partes.

“Miller é uma pessoa falando sobre a vida, um homem de negócios norte-americano comum, com coragem intelectual e um dom para as palavras”. …”Tendo atrás de si anos de lupemproletariado, fome, vagabundagem, sujeira, fracasso, noites ao relento, batalhas contra agentes de imigração, lutas infinitas por um pouco de dinheiro, Miller descobre que está se divertindo”.

Sobre Walt Whitman, em “Folhas de Relva”, o ensaísta afirma que ele escreveu num período de prosperidade nos anos 30 onde a liberdade valia mais que a palavra. Voltando a Miller, assinala que existe uma correlação Whitman. “Trópico” termina com uma passagem whitmanesca, na qual, depois das luxúrias, trapaças, brigas, bebedeiras e imbecilidades, ele simplesmente se senta e observa o Sena passar, em uma espécie de aceitação (eu aceito) mística das coisas como elas são”.

“Dizer “eu aceito” em uma época como a nossa, é dizer que você aceita campos de concentração, cassetetes de borracha, Hitler, Stalin, bombas, aviões, comidas enlatadas, metralhadoras, golpes, expurgos, lemas, esteiras de linhas de produção, máscaras contra gás, submarinos, espiões, arruaceiros, censura à imprensa, prisões clandestinas, aspirinas, filmes de Hollywood e assassinatos políticos”.

Para Orweel, a verdade é que a vida cotidiana comum consiste muito mais de horrores do que os autores de ficção se dão ao trabalho de admitir.  Ele faz reflexões com base em outros autores, que se encaixam no mundo atual quando fala que vivemos em um mundo que está se encolhendo. As “vistas democráticas” terminaram em arame farpado. “Aceitar a civilização como ela é, praticamente significa aceitar o declínio”.

Orweel ressalta que as pessoas em “Trópico de Câncer” chegam muito perto de serem comuns, na medida em que são preguiçosas, desonradas e mais ou menos “artísticas. Entre as décadas de 20 e 30, avaliar um livro por seu conteúdo era pecado imperdoável, e mesmo ter consciência do conteúdo era considerada falta de gosto – afirma o autor de “Dentro da Baleia”.

Nos anos 1930-1935 algo acontece e a atmosfera literária muda, na visão de Orwell, que cita Auden, Spender e outros como novo grupo de escritores que entram em cena, com “tendência diversa”. “Saímos do crepúsculo dos deuses e entramos em um tipo de clima escoteiro, com joelhos à mostra e cantorias em grupo”. O literato deixa de ser um expatriado cultural com inclinação para a Igreja, tornando-se voltado para o comunismo. Se a ideia básica dos escritores dos anos 20 é o “sentido trágico da vida”, para os novos é o “propósito sério”- observa o crítico literário.