A IGREJA FOI CONIVENTE E ESCRAVISTA
De um modo geral, os jesuítas, os beneditinos e outras ordens religiosas sempre foram escravistas e participaram do tráfico negreiro, mas algumas vozes se levantaram contra. Na época, todos tinham escravos, do rico ao pobre e até negros forros libertos, como se fosse uma coisa comum.
Da parte da Igreja Católica, um que se destacou contrário a esse sistema foi o frei José de Bolhona, missionário capuchinho italiano residente na Bahia que, segundo carta de 1794 ao governador da capitania dom Fernando José de Portugal, como relata o jornalista escritor Laurentino Gomes, em sua segunda trilogia “Escravidão”, tentou persuadir seus fiéis de que “a escravidão era ilegítima e contrária à religião”.
A pregação do missionário inquietava as consciências dos habitantes da cidade de Salvador. Diante disso, Bolonha foi proibido de ministrar a confissão e logo despachado para Lisboa. Na Inglaterra, os ventos libertários já sopravam fortes vindos da parte de uma corrente protestante, com o empurrão da Revolução Industrial.
NAUFRÁGIO TRÁGICO
No final da segunda trilogia de “Escravidão”, Laurentino narra um naufrágio trágico que abalou o mundo daquela época. Esse fato aconteceu em dezembro de 1794 com o navio português “O São José Paquete d´África”, capitaneado por Manuel João Pereira.
Essa embarcação saiu de Lisboa em abril e, depois de navegar por mais de 12 mil quilômetros, ancorou em Moçambique, onde foram embarcados cerca de quinhentos negros com destino ao Maranhão, produtor de algodão, arroz e cana-de-açúcar.
Na noite de 27 de dezembro, depois de atravessar o Cabo da Boa Esperança (Cabo das Tormentas), foi pego por forte tempestade e seu casco espatifou-se num banco de pedras. Os alarmes soaram. Socorridos por moradores, os tripulantes e o capitão sobreviveram.
Como era esperado, o desastre sobrou para os escravos aprisionados no porão, onde 212 morreram afogados. Os demais foram resgatados e arrematados pelo melhor preço em leilão nos dias seguintes na Cidade do Cabo. A nau ficou sepultada até meados de 1980, quando arqueólogos conseguiram localizá-la.
POMBAL E A CRISE
De acordo com dados apurados por Laurentino, na história da escravidão foram registrados cerca de mil naufrágios ao longo dos 350 anos do comércio de escravos africanos no Atlânticos, a maior parte no século XVIII, época em que o reino de Portugal vivia em crise. A corrida do ouro e do diamante logo se esgotou.
Em 1750, após a morte de D. João V, o governo passou para as mãos de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal. Assim como Rasputin, na Rússia, Pombal foi defenestrado do poder por D. Maria I. Ele era uma espécie de primeiro-ministro do novo rei D. José I.
O período de Pombal ficou conhecido como “despotismo esclarecido”, forma moderna de governar, baseada em princípios do iluminismo europeu, visando reformar a economia, as leis e as instituições.
Pombal enfrentou três principais dificuldades. Uma delas foi a necessidade de reconstruir Lisboa, devastada por um terremoto seguido de um maremoto, no dia 1º de novembro daquele ano. O fenômeno deixou a capital em ruínas, matando 20 mil pessoas. Só três mil, das 20 mil casas, continuaram habitáveis. Das 40 igrejas, 35 desmoronaram. Apenas 11, dos 65 conventos, continuaram de pé.
Outro problema de Pombal foi conter os gastos e pagar as dívidas resultantes de uma sequência de guerras contra a Espanha, entre 1760 e 1770. A pior crise foi o esgotamento das minas de ouro e diamante do Brasil.
Para vencer este último fracasso, Portugal apertou os mineradores na cobrança de altos impostos. Veio, então, a chamada “derrama”, estopim da Inconfidência Mineira. Os preços do açúcar brasileiro também sofreram queda devido a competição das lavouras de engenho nas colônias britânicas, francesas e holandesas. Uma recessão derrubou o volume e a receita no Porto de Lisboa. Muitos comerciantes entraram em falência. No entanto, os gastos na corte não pararam de subir.
Para contornar as dificuldades, Pombal procurou imprimir uma reforma administrativa, inclusive com a polêmica expulsão dos jesuítas de todos domínios portugueses, com o confisco de seus bens. Suas propriedades incluíam 17 plantações de açúcar, sete fazendas com mais de mil cabeças de gado na ilha de Marajó e 186 edificações em Salvador. Era ainda grande proprietária de escravos no Brasil e em Angola.
Outra medida controvertida de Pombal foi o alvará de 1761 onde declarava que todos escravos negros desembarcados em solo português seriam automaticamente livres. Foi apenas uma medida prática de interesse econômico.
O ciclo de reforma terminou em fevereiro de 1777, com a morte de D; José. Sua filha dona Maria I foi a primeira mulher a ocupar o trono, trazendo o conservadorismo. Pombal caiu no ostracismo, e em 16 de agosto de 1781 foi proibido de se aproximar da corte. Ele tinha de guardar uma distância mínima de 110 quilômetros de onde quer que estivesse a rainha.











