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:: 18/ago/2022 . 22:53

“O RESTO É MAR/É TUDO QUE NÃO SEI CONTAR” (Música “Wave”, de Tom Jobim)

(Chico Ribeiro Neto-jornalista)

Restou um homem ainda cheio de carinho e muita vontade de acreditar, no ser humano, na força do coletivo e na grande arma da paz.

Um cara com qualidades e defeitos, mas a poesia junta tudo e nos joga num grande lago cercado de verde e crianças brincando nas margens. A gente costuma mentir um pouco quando fala de si mesmo.

Aos 74 anos, acho a pior coisa do mundo um velho que não acredita mais em nada. Creio na vida, na natureza e em nossa imensa capacidade de criar. Só se muda e fica vivo através da criação. Aposentado, se não escrevesse pelo menos uma crônica por semana eu já tinha morrido (ou ficado maluco). Um dos momentos mais felizes da minha vida é quando, aos domingos, toco no comando PUBLICAR no Facebook e posto minha nova crônica.

Disse Fernando Pessoa: “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”.

Quero um dia ter fôlego e inspiração para escrever um romance. “Haja assunto”, dizia um amigo meu. O pior deve ser escrever o final. O início também é uma luta, e o resto vai saindo. Tem gente que decide se compra ou não um livro depois que lê as primeiras linhas. Nunca esqueço o que me disse um antigo vendedor da Livraria Civilização Brasileira: “Se tivesse mais tempo eu ia ler muito mais”.

Resta um homem que renasce com as manhãs, que adora caminhar, ouvir música e passarinhos, estar com a família e amigos e tomar cerveja. Não sou muito paciente, mas ainda consigo ouvir até o final a música “Eduardo e Mônica”, de Renato Russo. Não tenho paciência é pra torneira pingando nem pra fila de espera em restaurante.

Fiz jornal durante mais de 40 anos. Nada se parece mais com a vida. Como na vida, ninguém quer ler a edição de ontem. A cada manhã tem uma nova edição. Jornal é isso: mal acabou de imprimir a última edição e você já começa a preparar a próxima. Uma vez um taxista me perguntou: “Onde é que vocês acham tanta notícia pra encher tanta página?” Outra coisa aprendi na minha vida profissional: todo chefe que xinga e dá murro na mesa esconde uma incompetência.

Hoje é triste ver o jornal encalhado nas bancas servir para o cocô do cachorro ou para embrulhar peixe. Outro dia vi um cartaz numa banca: “Vendo jornais velhos”.

Resta um homem do signo de Gêmeos com ascendente em Peixes, cheio de lembranças da infância, dos amores e dissabores, das conquistas e perdas, dos beijos e das agressões, dos pecados e dos perdões, dos adeuses e dos senões, das friezas e dos tesões, dos sins e dos nãos. Resta um homem ainda com uma grande capacidade de amar e de se indignar.

Resta um senhor sentado numa pedra da Praia do Unhão olhando o mar, coração tranquilo. “Esse é o meu melhor advogado”, me disse uma vez uma senhora apontando para o mar no Farol da Barra, e explicou: “É só olhar pra ele que resolvo tudo”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

FLORES DOS CIPÓS

Dentro do próprio bioma da Mata Atlântica, ou da própria caatinga e até da ciliar, existe a chamada mata de cipó, uma espécie de vegetação que se entrelaça entre as árvores numa ramificação que se estende por toda floresta. Os cipós, os mais grossos, são até utilizados por micos e macacos como forma de ponte para se comunicarem e buscar comida em folhas e plantas frutíferas. Poucos sabem, no entanto, que os cipós brotam lindas flores como na imagem sobre o telhado do meu rancho.  Como o mandacaru e o cacto, os cipós são resistentes e não precisam de chuvas para suas subsistências, certamente por causa de suas profundas raízes que se nutrem da água do subsolo, pois corto todos os anos e, em pouco tempo, lá estão eles, que são utilizados para fazer cestos, jarros, caçuás e muitas outras peças artesanais, inclusive esculturas. Flores dos cipós também fazem parte do meu quintal, ou da minha pequena floresta caseira, já que ainda não tive a benção de retornar ao campo, como pretendo ainda em vida.

PESCADOR DE PENSAMENTOS

Mais um poeminha da minha lavra, Jeremias Macário, que em breve fará parte de uma obra intitulada “NA ESPERA DA GRAÇA”, só de textos poéticos. Aguardem!

Não sou de peixe pescar,

Nem em rio, nem em mar;

Sou mais da mata do orixá.

 

Curto minha cigana cabana,

Como recluso solitário,

Fugitivo dessa bruta sociedade,

Para ser pescador de pensamentos,

Sobre o sentido da liberdade.

 

Lá fora, o frio cortante,

No açoite dos ventos,

O coiote uiva no monte,

E a lareira aquece,

Minha prece,

Trazendo pensamentos,

 

Misturo Freud, Engls e Marx,

Na porta bate o Prudhon,

Também os antigos gregos,

Nietzsche, Tolstói e Sartre,

Existencialismos e ismos,

De Kafka, o niilismo,

De Shakespeare, o dom,

Na arte de viver sem apegos,

No dito pelo não dito,

Penso em Cristo,

No satanás maldito,

Que dizem ser mito.

 

A noite está se esvaindo,

A lua quase caiando;

Imagino não existir fronteira,

Como na origem dos tempos,

Quando amei aquela feiticeira,

Ladra do meu sonho,

Onde tudo lá deixei,

Para me tornar frei,

Pescador de pensamentos.

 

Nesse gelado inverno,

Escuto Círculo de Fogo,

Penso no céu e no inferno,

Nas palavras como jogo,

No fulk de Boby Dilan,

Milton, Raul e o pop Gil,

O bolero de Ravel,

Morricone e Joan Baez,

No som do piano de Elton John,

Que brotam de uma só vez,

Viçosos rebentos,

De pescador de pensamentos.

 

O sono no labirinto tombou,

Levando meus sentimentos,

De espírito cheio de dor,

Levanto com pensamentos,

De simples pescador.





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