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:: 25/ago/2022 . 22:57

GUERRA SANTA BRASILEIRA

Carlos González – jornalista

O insurgente abandonou a trincheira, desfez-se da camuflagem, e se declarou contra o estado laico. Uma nova “guerra santa” estava declarada, incentivada por pregações durante serviços litúrgicos, nas redes sociais e até do alto dos trios elétricos. O objetivo é manter o poder político numa nação de maioria católica, mesmo que seja necessário o uso de armas de fogo, que vão poder ser compradas até em supermercados.

Numa época em que há uma preocupação com a fome, o desemprego, a agressão ao meio ambiente e ao surgimento de novas doenças, o governo brasileiro monta um cenário de guerra da Idade Média. São os talibãs da América Latina.

Oficializada a intolerância religiosa, recente reportagem da “Folha” revelou que caiu o silêncio na maioria dos lares brasileiros, onde religião e política são temas proibidos, principalmente durante as refeições.

“Em nome de Deus”, pastores, alguns deles investigados e condenados por atos ilícitos, no Brasil e no exterior, promovem uma lavagem cerebral nos seus seguidores, incutindo-lhes o medo do comunismo, um fantasma que deixou de assombrar com a dissolução da União Soviética, em 1991.

O teatro de guerra vem sendo montado há anos, por meio de atos terroristas, denunciados às delegacias de polícia de cidades de todo o país, inclusive de Vitória da Conquista. Rituais de religiões de raízes africanas continuam sendo interrompidos por práticas violentas, como a invasão dos terreiros, destruição de símbolos sagrados e agressões às filhas e mães de santo.

A repressão não se prende apenas aos afro-brasileiros. A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Seprom) atendeu em 2021 a 270 casos de intolerância religiosa na Bahia. A de maior repercussão ocorreu na cidade de Itatim, a 214 kms de Salvador, onde um jovem evangélico quebrou imagens e móveis de uma igreja e de uma capela (cenário do premiado filme “Central do Brasil”). O padre José Bento Farias Filho teve que interferir para impedir que a população revoltada linchasse o criminoso.

A tentativa de agressão ao padre Lino Allegri, de 82 anos, indignou os católicos da Paróquia da Paz, em Fortaleza, em julho de 2021. A igreja foi invadida por bolsonaristas, protestando contra o tema do sermão do sacerdote, alusivo ao combate à Covid-19 por parte do governo federal. Padre Lino deixou o local escoltado pela PM.

A Justiça de São Paulo determinou nessa terça-feira (dia 24) que o empresário bolsonarista, membro de um grupo golpista, Luciano Hang, indenize o padre Júlio Lancellotti, vigário da Paróquia de Mooca (SP), em 8 mil reais, por danos morais. O religioso foi chamado de bandido por fornecer sopa e cobertores aos moradores de rua nas madrugadas frias paulistanas.

A sucessão de ataques a templos católicos, com nítida característica de desrespeito à liberdade de religião, remete-nos a dois condenáveis acontecimentos, ocorridos em épocas distintas, que tiveram a cidade de Salvador como palco.

Nas comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil, o nome da abadessa Joana Angélica de Jesus (1762-1822) deve ser lembrado como uma das mártires das atrocidades cometidas pelas tropas portuguesas, que invadiam e saqueavam moradias e instituições católicas, a procura de revoltosos brasileiros. No dia 19 de fevereiro de 1822, num ato de extrema bravura, a madre recebeu um golpe de baioneta ao tentar barrar a entrada dos soldados lusos no Convento da Lapa.

A outra profanação ocorreu em 8 de agosto de 1968, no período mais desumano da ditadura militar, com constantes perseguições violentas aos estudantes. Naquele dia, centenas deles que protestavam contra o regime na Praça Castro Alves, se refugiaram no Mosteiro de São Bento, perseguidos por militares. O abade Dom Timóteo Anastácio 1910-1994), que se notabilizou por dar acolhida aos que lhe pediam ajuda, não impediu a invasão, mas propiciou tempo para que os estudantes, orientados pelos beneditinos, saíssem pela porta do fundo do convento.

No intervalo dos dois turnos das eleições presidenciais de 2018, bolsonaristas, gritando palavras de ordem, invadiram uma reunião da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Chamados de comunistas – até o papa Francisco é citado como adepto dessa ultrapassada ideologia -, altos prelados da Igreja assistiram em silêncio a um surto psicótico, que só poderia ser contido com camisa de força, assim como na Idade Média.

 

 

 

“NOSSO TEMPLO”

Uma vez estávamos aqui numa discussão acalorada e aí levantou-se um amigo para apaziguar os ânimos e disse: Vamos baixar o tom gente, porque estamos num templo sagrado! Aquilo me marcou, não no sentido religioso das palavras, mas, essencialmente cultural porque em nosso espaço, onde realizamos nossos memoráveis saraus com artistas, professores, intelectuais, visitantes e outras categorias, grandes autores brasileiros e estrangeiros nos vigiam e nos inspiram, sem contar o artesanato, as esculturas, as pinturas, as fotografias, as coleções de facas e até os chapéus, dos quais tanto ciúmo. Aqui nos confraternizamos, debatemos temas importantes, declamamos, contamos causos e histórias da vida, trocamos ideias, tudo ao som do canto cancioneiro da viola violada do cantor compositor. Não vou aqui citar os nomes dos frequentadores, a maioria com mais de dez anos, porque poderia faltar alguém, mas a todos agradecemos a participação, e digo que nos enriquecemos com a permuta de conhecimentos e saber. Estamos retomando nossos saraus com mais força nesse templo sagrado com cerca de seis mil itens que só nos fazem engrandecer, ao ponto de ter gente que já sugeriu tombar, e outros perguntarem se era um espaço público. Esse templo é carinhosamente chamado de “Espaço Cultural A Estrada” que já se imortalizou nas mentes dos estradeiros. Aqui é onde se sacode a poeira da labuta do corpo e do espírito. No final de setembro, ou início de outubro, estaremos de voltar para nos reencontrarmos.

A CONTA NÃO BATE

Mais uma produção do jornalista Jeremias Macário sobre a destruição do meio ambiente

Da ficção nasce o real,

Em cenas chocantes,

De gemidos lamuriantes:

Labaredas lambem a terra,

Da serra derrete o gelo,

Pelo calor infernal,

Que vai esquentar o mar.

 

É o dragão soltando fogo,

O beija-flor pingando água,

E a campanha entra no jogo,

Pra ver quem consome mais,

Na disputa dos canais.

 

Quando se planta uma árvore,

Milhões são derrubadas,

Gases tóxicos vão ao ar,

O sal come o chão,

E só se vê destruição.

 

A conta nunca bate,

Nem existe empate,

Nesse diário planetário.

 

Em noites de orgias,

De caras taras de famas,

A fome revira o bagaço,

O bilionário caga no espaço,

E a floresta se arde em chamas.

 

A mente cria outro invento,

Para a indústria lucrar;

Lá fora sopra um vento,

Como alma penada a vagar.

 

O dia vai ficar escuro,

Em ruínas de monturo,

Sem mais fonte cristalina,

Só escorre esgoto de latrina;

Nem o vermelho pôr-do-sol,

Pra acender nosso farol.





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