agosto 2022
D S T Q Q S S
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

:: 11/ago/2022 . 22:41

CONSELHO IMPULSIONA A CULTURA EM CONQUISTA

Carlos González – jornalista

Um ano de trabalho foi o suficiente para que o conquistense observasse que o esforço de um pequeno grupo de voluntários, eleitos em agosto passado para compor o Conselho Municipal de Cultura, deu um impulso num dos ramos mais importantes da política social de qualquer administração pública. A pandemia e o empenho de um governo inteiramente voltado para a reeleição – Cultura, deve ter pensado o gestor, não dá voto – contribuíram para o estado de abandono dos artistas da região.

Na gestão passada, de influência bolsonarista, as atividades culturais em Vitória da Conquista ficaram praticamente limitadas às apresentações da Neojiba, um núcleo de formação de orquestras infantis e juvenis vinculado à Secretaria de Justiça do Estado.

O tratamento dado pelo ex-prefeito Herzem Gusmão (1948-2021) à cultura, dentro da mesma linha do governo federal, com nítido viés evangélico, não traz boas lembranças à classe artística de Vitória da Conquista. Bolsonaristas fanáticos defendiam a queima dos livros do educador Paulo Freire (1921-1997) e do escritor Monteiro Lobato (1882-1948) e modificavam fatos históricos inseridos nos livros didáticos, como por exemplo a ditadura militar (1964-1985).

Manifesto assinado por artistas, intelectuais, políticos e cientistas denunciou na época a “escalada autoritária” do governo Bolsonaro, considerando-o como ultraconservador, colocando-se como censor de livros e de filmes, e dificultando o acesso da ciência às pesquisas nas universidades

Com uma visão menos conservadora, a prefeita Sheila Lemos tem reservado para a cultura parte da sua agenda de trabalho. Depois de nomear para a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sectel) pessoas que não estavam preparadas para o cargo, a gestora foi buscar um nome ligado à música sertaneja de raiz, o cantador Eugênio  Avelino Lopes Souza, popularmente conhecido pelo nome artístico de Xangai. Há mais de 50 anos ele divulga a música nordestina nos palcos e festas populares por todo o Brasil.

Frasista, o romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) manifestou certa vez ser “a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando com as peculiaridades locais”. Na abertura de seu discurso de posse, proferido em julho de 2021, Xangai prometeu, como principal meta de sua administração. “harmonizar o setor, evitar a política e levar a cultura de Vitória da Conquista a todo o planeta”.

Xangai comprometeu-se a batalhar para conseguir recursos com a finalidade de proporcionar, pelos menos sobrevivência, aos artistas conquistenses, “abandonados durante a pandemia”, com muitos deles vivendo no anonimato na zona rural do município.

“Eu estou puto”, protestou Xangai, e completou: “É uma covardia; abuso de confiança”, ao ver o seu nome associado ao do deputado Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Aquela apropriação indébita de seu nome e de sua imagem levou o cantador, ao ser convidado para o cargo, advertir a prefeita de que não se envolve com a política partidária.

Xangai se cercou de pessoas dispostas a colocar em prática seu programa de trabalho, eleitas sem qualquer tipo de ingerência e imunizadas contra a burocracia, um vírus que emperra o serviço nas repartições públicas do país. Assessores diretos do secretário, o Conselho Municipal de Cultura teve recentemente um encontro com a prefeita para fazer a entrega de várias propostas, entre elas a de  criar uma secretaria especial para a Cultura e organizar feiras de livros.

Feira Literária em Belo Campo

Argumentou o CMC que é inviável para qualquer administrador se dedicar, como o município pede, a quatro atividades essenciais à população. Os conselheiros reforçaram a ideia de que o conquistense não lê (livrarias fechando as portas, quatro ou cinco bancas de revistas em toda a cidade e os jornais de Salvador chegando no dia seguinte), conseguindo arrancar de Sheila a promessa de organizar ainda este ano um festival literário.

“Não dá pra entender que municípios de menor potencial promovam eventos literários, enquanto nós conquistenses, que temos uma população de mais de 400 mil habitantes e contamos com cinco universidades, estamos em débito com a nossa Cultura”, lamentou um dos conselheiros.

Nessa reunião foi lembrada a Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo, divulgada em rede nacional pelo G1, onde os visitantes conviveram com variadas mostras culturais do sudoeste baiano, e percorreram estandes de vendas e exposições de livros de autores da região. Ainda este ano cinco cidades vão aquecer a cultura baiana. Uma delas é Cachoeira, no Recôncavo, que realiza, entre os dias 24 e 27 de outubro, sua festa literária internacional, a Flica, considerada como a mais charmosa do Brasil.

as

 

SÍMBOLO NORDESTINO

Ah, os cordeias que nos fazem entrar no túnel do tempo desde a época medieval, na voz dos anunciadores dos fatos que aconteciam nos reinos! Eram os repórteres das notícias. Da oralidade para a escrita, ganharam notoriedade. Da Península Ibérica, com os portugueses, vieram bater no Nordeste onde se deram bem e prosperaram em terra árida do agreste, com seus cantadores e repentistas de viola. Eles são símbolos da nossa cultura nordestina, e Ariano Suassuna é um dos grandes representantes desse gênero, tão espirituoso, criativo e mensageiro que, em cima das verdades, crenças e lendas, crescem em outras estórias e nos faz rir e também refletir. O meio acadêmico não tem dado o seu devido valor que merece, por ser uma cultura popular, embora rica em sua linguagem. Os cordéis me fazem lembrar Patativa, Cuíca de Santo Amaro, Bule-Bule, Apolônio Alves, Arievaldo Viana Lima, Antônio Brasileiro Borges, Cego Aderaldo, Elias de Carvalho, Firmino Teixeira, Leandro Gomes de Barros (o maior dos maiores 1865-1918) e tantos outros. Um dos cordéis mais famosos foi A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, de Apolônio Alves dos Santos. Tem também Cordel, de Patativa do Assaré e Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, de Firmino Teixeira do Amaral. O cordel veio com os colonizadores, mais precisamente em Salvador. Estudos apontam 1893 como o marco desse gênero literário, quando o paraibano Leandro Gomes teria publicado seus primeiros versos. Erram folhetos amarrados em cordas, vendidos a baixo custo nas feiras e locais públicos. Eles estavam presentes na Feira Literária de Belo Campo, da qual participei e tive a honra de flagrar esses livrinhos tão mágicos. É uma foto que muito representa nossa literatura, a arte do jogo de palavras.

A VELHICE

Verso de autoria do jornalista Jeremias Macário

Da velhice fazem piadas,

Que dói aqui, dói acolá,

Esquece que seu dia vai chegar,

Para seu ciclo fechar.

 

Falam que a velhice,

Volta a ser criança,

Que ela é o renascer,

Com a face da sabedoria,

A firme crendice,

Que não existe,

Uma única filosofia.

 

Velhice não é o fim,

É só um idoso jardim,

Colha dele sua flor,

Da senhora ou senhor.

 

Ela está no rio,

Que se encontra com o mar;

É terra em seu cio,

Semente que vai renovar,

O amanhecer do amanhã,

Fumaça do grande chamã,

O sol, montanha e o ar.

 

Meu camarada,

Você não sabe distinguir,

Entre o tudo e o nada;

Use sua cuca inteligente,

Para ser mais engraçado,

Que a velhice de repente,

Vai estar bem ao seu lado.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia