(Chico Ribeiro Neto-jornalista)

Restou um homem ainda cheio de carinho e muita vontade de acreditar, no ser humano, na força do coletivo e na grande arma da paz.

Um cara com qualidades e defeitos, mas a poesia junta tudo e nos joga num grande lago cercado de verde e crianças brincando nas margens. A gente costuma mentir um pouco quando fala de si mesmo.

Aos 74 anos, acho a pior coisa do mundo um velho que não acredita mais em nada. Creio na vida, na natureza e em nossa imensa capacidade de criar. Só se muda e fica vivo através da criação. Aposentado, se não escrevesse pelo menos uma crônica por semana eu já tinha morrido (ou ficado maluco). Um dos momentos mais felizes da minha vida é quando, aos domingos, toco no comando PUBLICAR no Facebook e posto minha nova crônica.

Disse Fernando Pessoa: “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”.

Quero um dia ter fôlego e inspiração para escrever um romance. “Haja assunto”, dizia um amigo meu. O pior deve ser escrever o final. O início também é uma luta, e o resto vai saindo. Tem gente que decide se compra ou não um livro depois que lê as primeiras linhas. Nunca esqueço o que me disse um antigo vendedor da Livraria Civilização Brasileira: “Se tivesse mais tempo eu ia ler muito mais”.

Resta um homem que renasce com as manhãs, que adora caminhar, ouvir música e passarinhos, estar com a família e amigos e tomar cerveja. Não sou muito paciente, mas ainda consigo ouvir até o final a música “Eduardo e Mônica”, de Renato Russo. Não tenho paciência é pra torneira pingando nem pra fila de espera em restaurante.

Fiz jornal durante mais de 40 anos. Nada se parece mais com a vida. Como na vida, ninguém quer ler a edição de ontem. A cada manhã tem uma nova edição. Jornal é isso: mal acabou de imprimir a última edição e você já começa a preparar a próxima. Uma vez um taxista me perguntou: “Onde é que vocês acham tanta notícia pra encher tanta página?” Outra coisa aprendi na minha vida profissional: todo chefe que xinga e dá murro na mesa esconde uma incompetência.

Hoje é triste ver o jornal encalhado nas bancas servir para o cocô do cachorro ou para embrulhar peixe. Outro dia vi um cartaz numa banca: “Vendo jornais velhos”.

Resta um homem do signo de Gêmeos com ascendente em Peixes, cheio de lembranças da infância, dos amores e dissabores, das conquistas e perdas, dos beijos e das agressões, dos pecados e dos perdões, dos adeuses e dos senões, das friezas e dos tesões, dos sins e dos nãos. Resta um homem ainda com uma grande capacidade de amar e de se indignar.

Resta um senhor sentado numa pedra da Praia do Unhão olhando o mar, coração tranquilo. “Esse é o meu melhor advogado”, me disse uma vez uma senhora apontando para o mar no Farol da Barra, e explicou: “É só olhar pra ele que resolvo tudo”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)