A própria mídia brasileira deu pouco destaque à questão da escravidão nas “comemorações” do bicentenário da independência. Em seu lugar, assistimos a espetáculos e cenas de terror protagonizadas, principalmente, pelo capitão-presidente, que destilou ódio e intolerância, fazendo simplesmente campanha eleitoral dentro dos 200 anos de “emancipação”. A festa cívica foi uma decepção e, porque não dizer, uma vergonha nacional.

No entanto, queria aqui me reportar a um capítulo do último livro da trilogia “Escravidão”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes que fala do Valongo, e o que representou esse nome, no Rio de Janeiro. O chamado Cais do Valongo começou a funcionar no final do século XVIII e só terminou lá pelos meados do século XIX.

De acordo com o autor da obra, o Valongo foi o maior entreposto de compra e venda de seres humanos do continente americano. Por mais de 70 anos, aquele lugar significou a morte para os escravos africanos que atravessaram o Atlântico até o Brasil.

Na primeira metade do século XIX, segundo Laurentino, o Brasil bateu todos os recordes em 350 anos de escravidão africana. “No espaço de apenas cinco décadas, 2.376.141 homens e mulheres foram arrancados de suas raízes, marcados a ferro quente e despachados rumos às cidades e lavouras brasileiras. Nunca tantos escravos chegaram ao país em tão pouco tempo”.

Cita o escritor que ao todo foram 10.923 viagens, quase um terço do total de 36.110 catalogadas para todo continente americano ao longo de três séculos e meio. Do total de embarcados, apenas 2.061.624 atingiram o destino. Os demais 314.517 morreram e foram sepultados no mar, isto nos primeiros 50 anos do século XIX.

Consta das suas pesquisas que, uma vez embarcados, muitos não tinham condições de sobreviver mais do que alguns dias em solo brasileiro. Conforme historiadores, cerca de 15% dos “pretos novos” morreriam nos três primeiros anos de vida no Brasil, o que corresponderia a 310 mil pessoas no período citado, quase a metade das mortes pela Covid-19 em pouco mais de dois anos.

“As pedras nuas do Valongo e os ossos da Gamboa são testemunhas dessa história brutal e dolorosa. Ali jazem os dez escravos que o traficante Miguel Gomes Filho mandou sepultar de uma só vez, na mesma vala, em agosto de 1826”. O cemitério de escravos foi por décadas ignorado nos mapas de ruas e nos guias turísticos.

Situada entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo, a antiga rua do Valongo mudou de nome e hoje se chama Camerino. Ao final dela, em direção à Praça Mauá, uma ladeira denominada Morro do Valongo, é a única referência geográfica que restou.

Os escravos, diferente dos brancos, eram jogados em terrenos baldios ou valas comuns, nas quais se ateava fogo, como relata o escritor. Tudo era depois coberto por uma camada de cal, para evitar a propagação de mau cheiro e doenças.

Em razão das descobertas de ossadas e materiais usados pelos escravos, somente em 2017 o Valongo foi incluído na lista dos patrimônios mundiais da humanidade pela Unesco, uma agência da Organização das Nações Unidas.

Antes da criação do Valongo, as operações de compra e venda de escravos aconteciam na rua Direita, atual Primeiro de Março, no centro do Rio de Janeiro. Os africanos desembarcavam na antiga Praia do Peixe (atual Praça XV). Muitos eram ali mesmo comercializados ou entregues a compradores que os haviam encomendados com antecedência aos traficantes. Os demais iam para a rua Direita, onde ficavam expostos em meio a caixas e fardos de mercadorias. Aqueles que morriam eram levados para o Cemitério dos Pretos Novos, no Largo de Santa Rita.

Segundo Laurentino, por volta de 1817, já havia 34 grandes estabelecimentos de comércio de escravos em atividade no Valongo. Era um dos locais mais movimentados do Rio de Janeiro. Os recém-chegados deixavam os navios negreiros completamente nus e eram levados para a Casa da Alfândega. Em seguida passavam por uma quarentena de oito dias. Depois disso seguiam para as mãos de um mercador de escravos no Valongo.

Como a passagem de escravos nus pelas ruas criou constrangimento entre as famílias, D. João VI ordenou, em 1808, que os cativos fossem vestidos até o Valongo. Dali em diante poderiam continuar nus. Ao chegar ao Valongo, os escravos eram banhados e untados com óleo de dendê, como disfarce para parecerem saudáveis. Os homens tinham a barba e o cabelo raspados. As rações eram mais generosas como forma de engorda.

Pais, mães, filhos e irmãos eram vendidos separadamente, sem nenhum respeito aos vínculos familiares. Laurentino destaca que o processo de venda envolvia uma série de humilhações, como exame minucioso de seus corpos, incluindo as partes íntimas. Inteiramente nus, eram pesados, medidos, apalpados e cheirados nos mínimos detalhes, sem contar os dentes.

O doutor francês Jean Baptiste Imbert, que chegou ao Brasil em 1831, numa espécie de cartilha médica, descrevia que os compradores evitassem negros de cabelos demasiadamente crespos, testa pequena ou baixa, olhos encovados e orelhas grandes, todos, segundo ele, tinham indícios de mau caráter. Desaconselhava ainda a compra de negros com nariz muito chato e ventas apertadas, sinais de que prejudicavam a respiração, comprometendo a capacidade de trabalho. Para uma boa compra, Imbert recomendava os cativos de “pés redondos”, barrigas das pernas grossas, tornozelos finos, pele lisa e sem manchas no corpo.