:: 30/set/2022 . 23:16
UM DEBATE DANTESCO E MENTIROSO
O povo já não aguenta mais as propagandas eleitorais, da forma como elas são expostas, nas emissoras de rádio e televisão, nem dos formatos dos debates. Eles viraram motivos de chacotas e piadas. São todos enfadonhos, e a maioria das pessoas desligam essas mídias.
O debate de sexta-feira na Globo foi um exemplo claro de como esses programas eleitorais perderam a credibilidade. Não decidem mais votos, nem dos indecisos. O “padre” Kelmon foi o destaque com aquela figura dantesca como se estivesse ressurgindo das sombras da inquisição da Idade Média.
Sempre disse que o capitão-presidente era imbatível em termos de pensamentos retrógrados, anacrônicos e ações de retrocesso. No debate de sexta descobri que me enganei, tendo em vista que o “padre” laranja superou o seu mandante a se candidatar a presidente. Com aquela indumentária esquisita, ele chamou a atenção do Brasil.
Outro fato de destaque foi a avalanche de mentiras propaladas pelos dois pretendentes ao cargo que estão na ponta das pesquisas. Nesse embate, o Bozó ganhou com larga vantagem do seu adversário. Como disse num de meus versos, ele mente descaradamente.
O mais hilário de tudo isso foi a cena do “padre” impostor lado a lado com seu aliado capitão discutindo políticas culturais. O “sacerdote” fez uma pregação dos “bons costumes morais” dos tempos da inquisição, condenando as peças teatrais de nudez e tantas outras que não rezam em sua cartilha. Só rindo para não chorar!
Coitada da nossa cultura, tão pisoteada e maltratada! O capitão em tudo concordava com que dizia o “padre” e acrescentava mais outras asneiras. Falaram de pátria, família, Cristo, catequese com as crianças nas escolas e tradição, mas nada de cultura. Aliás, temos que admitir que é a cultura deles. Sobre o tal debate vergonhoso, nada mais a comentar.
A ESCRAVIDÃO NA PRÓPRIA ÁFRICA
“No passado, nós pensávamos que era da vontade de Deus que os negros deveriam ser escravos dos brancos. Os brancos primeiro nos disseram que era para vender escravos para eles e nós vendemos. Agora, dizem que não devemos mais vender. Se os brancos pararem de comprar, os negros vão parar de vender”.
Isto foi o que o chefe africano, obi Assai, de Aboh, reino situado no delta do rio Níger, disse a uma comissão britânica que o visitou em 1841. Ele não conseguia entender por que até poucas décadas antes os europeus faziam todos os esforços para obter cativos na região e, de repente, haviam decidido parar com as compras.
O jornalista e escritor da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes, em suas pesquisas, constatou que os chefes africanos achavam comum que seus próprios povos e prisioneiros de guerra de outras etnias e reinos se tornassem cativos. Muitos venderam príncipes e rainhas que eram seus rivais para o Novo Mundo.
Mesmo com as proibições do tráfico negreiro pelos britânicos, por Portugal e o Brasil, em 1831 e 1850, o comércio continuou clandestino e aumentou a procura por escravos na própria África. A escravidão, na verdade, era a atividade mais lucrativa para os dois lados e prosperava a troca de mercadorias, como tecidos, cachaça do Brasil, tabaco e outros utensílios.
A Costas da Mina (Golfo do Benin, no trecho entre o Togo e a Nigéria) era tão importante no tráfico de escravos que os principais chefes de estado a reconhecer a Independência do Brasil eram dessa região, conforme destacou Laurentino. O gesto, de acordo com ele, aconteceu mediante uma embaixada enviada ao Rio de Janeiro, em 1824, pelo ologum Osinlokun, rei de Onim, atual cidade de Lagos, na Nigéria.
Sobre o estranhamento da proibição do tráfico, o governador de Angola, Adrião Acácio da Silveira, em 1849, fez o mesmo comentário sobre as pressões dos ingleses pelo fim do comércio. Ele disse que, enquanto houver quem compre escravos, há de haver quem os venda. o pensamento tem semelhanças com o que ocorre atualmente no Brasil com relação ao tráfico de drogas. O reino do Daomé era uma das peças centrais dessa lógica escravista. O próprio reio Guezo (Benin) recusou-se a assinar, em 1848, um tratado sob o argumento de que a proibição seria o mesmo que mudar a maneira de sentir do seu povo.
O forte de São Batista de Ajudá (Benin) onde Francisco Felix de Souza, o maior traficante baiano, se estabeleceu após chegar à África, foi erguido pelos portugueses em 1721 para proteger o tráfico negreiro na Costa da Mina. Em 1727, o reino Hueda, do qual Ajudá fazia parte, seria invadido e devastado pelos exércitos de Agaja, um soberano implacável e perverso. Os derrotados eram vendidos como escravos.
O ENCANTADO
Por que as pessoas de um modo geral ficam encantadas com o pôr-do-sol? Em meu entendimento porque acalma o ser humano e o faz refletir sobre a vida que nos tempos atuais é tão corrida em busca da sobrevivência e da solução dos problemas. O pôr-do-sol tranquiliza o espírito como se fosse um encantado e nos faz pensar sobre os mistérios do universo. Transmite paz, amor e esperança de que depois do pôr-do-sol virá o alvorecer, o nascer de novo. Além do mais, um pôr-do-sol é sempre diferente do outro, dependendo do local onde a pessoa esteja colocado e em que ponto ele se despede do dia para dar passagem à noite. É reflexão e meditação. Ele faz você dar um mergulho em si mesmo, sem contar que é poesia e canção.
CULTURA! CULTURA!
Alguém aí ouviu eu falar cultura?
Dizem ser essa economia criativa;
O homem arrastando enxada,
Papo da comadre e do compadre,
Cantoria no mutirão do adjutório,
A pegada da parteira,
A folha benta da rezadeira,
Os versos do Assaré Patativa,
A batida do martelo na noite calada,
O som do violino e do violoncelo,
Boiada e foice cortando roçado.
Cultura! Cultura!
Um banquinho, voz e violão,
Pena imaginativa da literatura,
A vida no campo ou na cidade,
Vênia do súdito à sua majestade,
Luta pela liberdade de expressão.
Cultura! Cultura!
Está em tudo que se faz,
Na lida atrás daquele monte,
Onde o índio faz sua dança;
É água da primeira fonte,
Mergulhar no desconhecido,
Transgredir o “proibido proibir”,
Dar sentido à sua andança.
Cultura! Cultura!
Maracatu, Congo, Ternos de Reis,
Canção, violar, forrozar e sambar;
Embolada de nó, sarau e repente;
Cordel nas feiras do varal;
Inventar uma nota de três;
Ser sal e aceitar o diferente;
Viajar pelos mistérios do Além Mar.
Cultura! Cultura!
É o Baobá do africano,
A gameleira do baiano,
O atabaque no terreiro do orixá,
A tradição do cigano,
A arte do escrever e pintar,
E zelar da terra e do mar.
Cultura! Cultura!
Luz, lente, cinema e imagem;
Está na batida da palha do feijão;
Ternura, bravura e razão.
Cultura! Cultura!
Está no canto da poesia,
Nos editais da burocracia,
Nos relatórios e falatórios,
Na fome do conhecer,
No maldito corte da censura,
No saber traçar sua travessia,
Sou eu, o outro e você.
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