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:: 24/set/2022 . 0:20

O MAIOR E O MAIS FAMOSO TRAFICANTE DE ESCRAVOS AFRICANOS ERA BAIANO

Seu casarão de três andares com uma frondosa gameleira (árvore sagrada no candomblé da Bahia), em Ajudá, atualmente República do Benin (antigo reino de Daomé) tinha dois canhões no pátio para revidar qualquer ataque inimigo. Ele era um senhor respeitado em toda região onde já foi um dos maiores entrepostos de tráfico de africanos escravizados para o Brasil.

Em Ajudá existia a Fortaleza de São João Batista, construída pelos portugueses em 1721. Esse comércio de cativos se manteve ativo por quatro séculos e ele fez grande fortuna. Era católico devoto de São Francisco de Assis, mas seu nome em Benin ficou associado a uma divindade local, um vodum chamado Dogoun (dragão). Em seu funeral sete pessoas foram sacrificadas em sua honra.

Estou falando de um mulato claro nascido em Salvador (alguns até citaram como se fosse de Portugal) de nome Francisco Félix de Souza, o maior e o mais famoso traficante que levava escravos para o Brasil na primeira metade do século XIX.

Quem conta toda essa história é o jornalista e escritor Laurentino Gomes em seu terceiro volume de “Escravidão”, ao atestar que ele era amigo e parceiro nos negócios com o rei Guezo, do Daomé. No local existia um grande aparato de segurança para dar proteção ao mercado negreiro que funcionava como uma feira livre de vender gente.

Diz Laurentino que, ao longo de meio século de atividades nesse ramo, Francisco Félix teria embarcado mais de meio milhão de escravos para o Recôncavo baiano. Ao morrer em 1848 aos 94 anos, deixou 53 viúvas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna hoje calculada em torno de 120 milhões de dólares.

Francisco foi tão importante que ganhou do soberano do Daomé o título de Chachá, honraria hereditária semelhante a um vice-rei. Seus descendentes formam hoje uma influente dinastia no Golfo de Benin, com ramificações na França, no Benin, na Nigéria, Togo e Costa do Marfim.

De acordo com o escritor, um deles, o general Paul Émile de Souza foi presidente da Junta que entre 1869 e 1970 governou o Benin quando o país ainda se chamava de Daomé e vivia sob uma ditadura militar.

Também, o arcebispo Isidore de Souza presidiu o Alto Conselho da República. Autores levantaram a hipótese de que Francisco Félix teria nascido em Portugal pelo motivo da Coroa Lusitana ter lhe dado uma comenda de Cavalheiro da Ordem de Cristo e o considerou “benemérito patriota”. Houve até quem apontou que ele era natural de Cuba ou do Rio de Janeiro.

No entanto, através de pesquisas mais aprofundadas chegou-se à conclusão que ele era mesmo baiano, inclusive confirmado pelos historiadores Alberto da Costa e Silva e Luis Henrique Dias Tavares, com base numa carta de alforria de uma de suas escravas.

O motivo de ter se mudado para África são obscuros, segundo Laurentino. Um relatório britânico de 1821 o descrevia como um renegado, banido dos Brasis, por ter desertado do exército. Acusaram ainda de ter sido falsificador de moedas e se envolvido em conspirações políticas.

Quando Francisco chegou à África, a escravidão se mantinha como uma das atividades econômicas mais importantes e lucrativas do continente. A abolição do tráfico para os domínios britânicos e para os EUA, entre 1807 e 1808, aumentou a escravidão doméstica na própria África, conforme relata o autor da trilogia. Nessa época havia mais escravos no continente africano do que nas Américas.

Além do trabalho forçado, os escravos também foram vítimas de sacrifícios rituais em algumas ocasiões, como no funeral de Opoku Fofie, rei dos achante, a mais poderosa etnia na Costa do Ouro, atual Gana, onde mais de mil teriam sido mortos.

Um dos principais destinos dos escravos dessa região do Golfo do Benin, ou Costa da Mina (Togo e Nigéria), de Angola e do Congo era para a Bahia. A costa da Mina era tão importante no tráfico de escravos que os primeiros chefes de estado a reconhecer a Independência do Brasil eram dessa região.





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