“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário de Andrade a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais.

A Semana pregava a tomada de consciência da realidade brasileira – dizia José Nicola, em sua obra “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”. Na conjuntura geral, de acordo com Mário de Andrade, São Paulo era a cidade mais moderna do Brasil e estava em contato espiritual e técnico com as mudanças no mundo. Graça Aranha foi um dos idealizadores do evento.

O cenário nacional era comandado pelas oligarquias através do poder na “política do café com leite” somado ao surto de uma burguesia industrial com a I Guerra Mundial. Nesse bojo, veio a urbanização da cidade nos primeiros 20 anos do século XX.

Eram os barões do café verso o operariado. Era um Brasil dividido entre o rural e o urbano de origem europeia, com vocação na luta de classe, tanto que entre 1901 a 1911, os anarquistas publicaram o jornal “La Battaglia”. Circulou ainda “A Terra Livre” (1905-1910 e ocorreram greves em 1905 e 1917. Somente em 1918 os jornais passaram a noticiar a Revolução Russa.

Antes da Semana de 22, num estilo ainda decadente, Manuel Bandeira escreveu “As Cinzas das Horas”. Mais ousado, veio em 1919, “Carnaval” e o poema “Os Sapos”, de sátira, declamado durante o evento de São Paulo e bem recebido pelo público.

Sobre Ribeira Couto em “Jardim de Confidências”, em 1921, o crítico Alfredo Bosi destaca que seus versos se inseriam no penumbrismo. Já Ronald de Carvalho, em “Luz Gloriosa” (1913) e “Poemas e Sonetos” (1919) e Guilherme de Almeida, com “Nós” (1917) “A Dança das Horas” (1919), “Livro de Horas de Soror Dolorosa” (1920) ficaram entre o parnasiano e o decadentismo, com substância lírica.

Com influência mais moderna e face política, Cassiano Ricardo escreveu “Dentro da Noite” (1919) e “Evangelho de Pã” (1917). Havia uma dispersão, mas o grupo ficou mais coeso a partir de 1920 e 21, aderindo mais à arte nova. Na turma dos futuristas, Bosi lista Di Cavalcanti, Vicente do Rego, o próprio Monteiro Lobato e Anita Malfatti que sofreram influência do italiano Marinetti (fascista).

Os artigos de Menotti del Picchia, na coluna “Hélios”, no “Correio Paulistano”, que deu muito espaço para a Semana, faziam promoção do grupo vanguardista. Do outro lado, Oswald de Andrade e Cândido Moto, no “Jornal do Comércio” davam ao movimento uma direção de liberdade formal com ideias nacionalistas, mas sem o ufanismo patriótico. Oswaldo chegou a denominar o movimento de aglomeração revolucionária futurista.

No entanto, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda em seus comentários, negam esse futurismo paulista na esteira de Marinetti, mas admitem uma revisão de valores, o que denota que não havia hegemonia dentro do grupo que nascia.

Antes da Semana, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, seu primeiro livro de poesias onde mostra uma São Paulo misturada, miscigenada, estrangeirada, com a existência de diversas classes e ideias diferentes. Em seus artigos “Mestres do Passado” (seis no total), ele entoa um canto funeral para os parnasianos, numa forma de sepultar o passado de Francisca Júlia, Raimundo Correia, Olavo Bilac, dentre outros.

A esta altura, tudo se encaminhava para a realização da Semana da Arte Moderna, com mais união entre os intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro. Tudo indicava que o modernismo poderia ser lançado. Sobre “Paulicéia Desvairada”, Oswald considerou um marco, e chama Mário de meu poeta futurista em artigo no “Jornal do Comércio”, na edição de 27 de maio de 1921.

Em “Língua, Literatura e Redação” e “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”, o autor José de Nicola faz uma análise da época dos primeiros anos do século XX, destacando que existia uma divisão entre o meio rural e o urbano. O meio urbano era caracterizado pela luta de classe do operariado, com influência anarquista dos imigrantes vindos da Europa, principalmente da Itália.

Nesse aspecto, o crítico literário cita o jornal “Terra Livre” (1905 – 1911) e a greve de 1917 sob forte influência da Revolução Russa. Tudo isso foi se somando para as mudanças de ideário no meio intelectual. Em 1922 aconteceu também a fundação do Partido Comunista Brasileiro, provocando um declínio do anarquismo e abrindo caminho para a organização da Semana.

Os elementos sociais e políticos formaram um palco ideal em direção a um movimento que mostrasse uma arte inovadora de maneira a romper com as velhas estruturas. Era uma São Paulo do café e da indústria conectada com o mundo. A Semana, então, apresentou, segundo Nicola, o lado político contra a aristocracia e a burguesia.

Di Cavalcante, segundo a pesquisa de Nicola, foi um dos primeiros a sugerir a organização da mostra. Anos depois, em seu livro de memórias, afirmou ter sugerido a Semana, que seria de escândalos literários e artísticos, “de meter os estribos na barriga da burguesinha paulistana”.