“MUDANÇA”
A escultura ou performance do artista Fernando Madeira que dá o nome de “Mudança” em sua obra, instalada no Instituto Biapo (visitamos em nossa viagem ao estado), em Goiás Velho ou Velha, localizado em frente da casa da poetisa Cora Coralina, por si só já diz tudo. A palavra mudança provoca arrepios em muita gente que tem receios de sair da sua comodidade e partir para enfrentar desafios. Mudança para outros é ter coragem, é transformação de vida e coragem. Todo ser humano deve estar sempre em processo de mudança para ganhar mais saber e conhecimento, e quem não muda com intuito de melhorar, inclusive em seus conceitos, não merece viver. A terra está sempre em mudança. Mudança também é renovação, evolução das ideias diante das novas tecnologias, do pensar de outra forma, de acordo com o tempo. O que ontem era antigo, hoje entra o moderno que devemos incorporá-lo. Tem ainda aquela mudança do tipo material, como sair do campo para a cidade, ou de uma cidade para outra. Mudar de emprego, de trabalho para melhorar de vida. Quem não faz mudanças morre sem saber. Existe a mudança para o pior. Cada um faz sua reflexão, mas mudar é essencial. É como no futebol quando o técnico faz mudanças em seu time para ganhar do adversário.
A VIDA É COMO É
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Nasci,
Sem pedir para vir,
Mas estou aqui
A respirar
Esse ar poluído,
Imundo,
Que construíram pra mim.
É a vida como é,
Ou “como ela é”,
De hipocrisias e sodomias,
Bela como aquarela,
Finita e infinita,
De dores e amores.
A vida é como é:
Pode estar,
No jogo do babalaô,
No oráculo do Ifá,
Na pregação do pastor,
Na Bíblia e no Alcorão,
Nas cenas de horror,
Culturas ou religiões,
Sentimentos ou razões,
No espírito ancestral,
Conflito existencial.
A vida é como é:
De acertos e desacertos,
De raivas,
Palavras amáveis,
Como viagem de trem,
De estação em estação,
Onde uns sobem,
Outros descem,
E ninguém é ninguém,
Com tantas gentes,
Diferentes,
Malditos e divinos,
Bom, mau ou feio,
Como criança no recreio,
Que nem sabe de onde veio.
A vida é como é:
Travessia
Do esfumaçado rio,
Onde o barqueiro,
Cobra uma moeda,
Para ser seu guia.
A vida é como é:
Alma da floresta,
Filho da montanha,
Perda e ganha,
Agonia e festa,
Templo do senhor,
Vingador,
Ilusão é fé.
UMA CAPITAL VERTICAL, PLANEJADA E ARBORIZADA NO CORAÇÃO DO BRASIL
Vamos viajar de Anápolis numa rodovia duplicada até Goiânia de Goiás, deixando um pouco para trás a velha Goiás, da poetisa Cora Coralina. Aqui neste estado nasceu a nova capital do Brasil no início dos anos 60 pelo visionário Juscelino Kubistchek. Até hoje existe a polêmica se foi um projeto acertado ou não a transferência do Rio de Janeiro para Brasília.
Bem, em Goiânia, começamos pelo Centro Cultural Oscar Niemeyer, como todos sabem, um arquiteto de nível internacional que não precisa de apresentações. No estacionamento e naquele cenário de concreto, numa árvore, um passarinho de papo amarelo (não sei bem se era um canário) nos recepciona com sua linda cantoria e até pousou para minhas lentes fotográficas. Um sinal de que o dia seria positivo como viajante.
Logo na entrada do imponente prédio aparece a figura de uma concha emborcada ou uma oca, um anfiteatro que nos remete ao Congresso Nacional. Ao lado, um amplo espaço onde todos os anos é erguida a árvore natalina com shows musicais e espetáculos referentes à data.
No edifício que faz parte do conjunto arquitetônico, no primeiro ou segundo andar, quem nos acolhe é uma biblioteca com mais de 20 mil volumes, com uma ala para a categoria infantil e outra para adultos. Tudo bem organizado como manda o figurino.
Duas simpáticas bibliotecárias nos atendem com largos sorrisos para explicar as salas de pesquisas visitadas por estudantes, professores e intelectuais interessados em realizar pesquisas e leituras de variados gêneros literários. Em harmonia, o virtual com o tradicional de papel se complementam com os computadores. Sou mais conservador e prefiro as obras impressas.
Talvez porque chegamos um pouco cedo, o espaço estava vazio, mas logo me chamou a atenção a presença de duas crianças acompanhadas de seus pais. Num país tão carente em termos de leitores, aquilo me deu a sensação de que nada está perdido e não podemos desanimar sobre um futuro melhor para nosso Brasil, se bem que minha idade não permite mais pensar nisso. Vamos levar muito tempo para reconquistar a efervescência do saber e do conhecimento.
Na capital dos sertanejos – estava ávido para conhecer as lojas de chapéus, cintos, camisas, botas e outros acessórios de peças alusivas ao estilo. O que mais me chamou a atenção foram as largas avenidas e ruas de altos prédios, mas todas arborizadas, sem falar nos bosques do Areão e o Parque da Vaca.
Como sou apaixonado por coisas do sertão, sendo um nordestino e catingueiro da gema, com muito orgulho, se fosse um endinheirado ou tivesse ganhado na Mega-Sena, confesso que contrataria uma carreta e levaria uma casa comercial só de itens sertanejos, vaqueiros e boiadeiros.
Senti o cheiro das boiadas e comitivas da antiga novela Pantanal, da Manchete. Para não ficar de mãos vazias me contentei em comprar um chapéu para completar minha modesta coleção que enriquece nosso Espaço Cultural A Estrada.
Entre as capitais que já conheci e conheço nesse país continental de tantas diversidades culturais, incluindo a velha Salvador onde morei por mais de 20 anos, o que mais me impressionou foi a limpeza e o planejamento (não vi moradores de ruas e nem favelas nas periferias).
Nos bares, restaurantes e locais por onde passamos (Vandilza, meu Filho Caio, sua esposa Larissa e meu fofo neto Samuel de três anos), senti a hospitalidade e cordialidade das pessoas, não que não exista isso em outras cidades. Tirei uns dedos de prosa com um garçom baterista de uma banda.
Vamos seguir nossa trajetória “épica” no próximo “diário” descrevendo a cultura, o patrimônio histórico, as paisagens de morros, as aratacas da Velha Goiás, terra da famosa poetisa Cora Coralina e que sofreu fortes enchentes há pouco tempo, tornando-se notícia nacional. Temos muitas coisas e surpresas para contar. Nos aguarde.
TROUXE AS AMOSTRAS?
(Chico Ribeiro Neto)
Às 7 da manhã o motorista do táxi identifica logo o saquinho inconfundível que você segura com todo cuidado. Você vai para um laboratório de análises clínicas.
A primeira fase é a da coleta. Com o exame do número 1 é fácil (despreza o primeiro jato) e a gente enche logo o copinho. O problema é o número 2. Uma verdadeira labuta, aquela desarrumação pra arrumar. Finalmente os coletores estão prontos.
O velhinho numa cidade do interior da Bahia passa pelo médico que lhe dá uma bateria de exames pra fazer. A clínica funciona num casarão onde cada porta é um tipo de exame. Ele olha para as requisições e para as portas e diz: “Eles querem é que a gente passe nessas portas todas. Por mim, eu vou embora depois da segunda porta”.
Tenho uma amiga que trabalhou na recepção de amostras de um laboratório. Disse que uma vez chegou um cara com uma lata de cera cheia até a boca com o material do número 2.
Alguns dias depois da vasectomia o paciente precisa fazer um espermograma. O material tem que ser colhido na hora. Ele entrou na sala lotada, entregou a requisição e a moça pediu para aguardar. Meia hora depois ela grita: “Senhor J. do espermograma. É ali”, indicou ela, apontando para o minúsculo e abafado sanitário e dando-lhe um frasquinho. Fez das tripas coração para recolher a amostra.
Outro amigo, coroa, foi fazer a ficha num laboratório:
– Jejum de 12 horas?
– Sim.
– Consumiu bebida alcoólica nos últimos três dias?
– Não.
– O senhor teve relação sexual nas últimas 24 horas?
– Quem me dera …
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
DE CONQUISTA A GOIÁS
QUEM FOR A ESTE ESTADO BRASILEIRO, PRINCIPALMENTE COMO TURISTA, NÃO DEIXE DE VISITAR A VELHA PIRENÓPOLIS, FUNDADA POR GARIMPEIROS À PROCURA DE OURO NO SÉCULO XVIII. CONHEÇA SUAS LENDAS E MITOS.
Viajar sem compromissos de trabalho para conhecer a cultura e a história de outras aldeias é sempre saudável para a alma e para o corpo. Nem tanto assim quando se faz a negócio, mas pode-se conciliar o útil ao agradável. Reserve um cantinho em sua agenda. Tem rico avarento que não sabe o que é isso e termina não curtindo a vida. É o que chamo de uma simples passagem sem notoriedade.
De um modo geral, as viagens são cheias de causos e casos que terminam virando livros (Diários de Viagens) e só se completam quando existem aventuras, contratempos e imprevistos para se contar. Ah, em minha trajetória tenho muitas para narrar em nível nacional e internacional. Muitos micos e mancadas! Quando encontro obstáculos, procuro seguir em frente e nunca retroceder e isso serve para o nosso cotidiano como aprendizagem.
Pois é, encarei as dificuldades com minha esposa e resolvemos sair de Conquista para Goiás até Anápolis em nosso “corsinha” ano 2008, que nunca nos deixou na mão, mas, como diz o ditado, sempre existe a primeira vez. Saímos de Vitória da Conquista logo cedo na última sexta-feira, dia 15/03, bem animados e ansiosos para abraçarmos as novidades. Pegar a estrada é sempre uma renovação!
Ia tudo bem e já planejando o local de pernoitar (em Rosário, divisa da Bahia com Goiás) para seguirmos até o nosso destino final. Acontece que entre Caetité e Igaporã, o motor do carro esquentou – ainda bem que, ao trancos e barrancos chegamos na cidade – e a primeira providência foi procurar uma oficina. Ainda era umas 11 horas da manhã. Ainda tinha muito chão para cortar.
Cheios de bagagens (dez no total) decidimos seguir em frente e pegamos um ônibus por volta das 18h30min da “Bahia Central” (Companhia da Novo Horizonte) até Brasília. Falei que nunca iria utilizar esta empresa por causa da sua folha corrida complicada em termos de acidentes. Queimei a língua!
Imaginem uma noite de sofrimento num carro desconfortável de poltronas duras e nos solavancos de lá e pra cá, sem conseguir dormir! Lembrei da viagem que fiz de trem da fronteira da França para Lisboa, em Portugal. Uma noite de estrangeirada onde um casal de jovens perturbava e ainda veio a polícia me acordar na madrugada para revistar meu passaporte.
Tive que controlar meu psicológico para no final chegar a Anápolis (meu filho foi me pegar em Brasília) no outro dia às 11 horas. Chegamos aos cacos, mas fui logo tomando uma gelada para esfriar a cuca. Com todos exageros possíveis, foi uma viagem hercúlea, mas valeu a pena.
Venci mares e terras, monstros e anjos. Foi como se tivéssemos vencido uma batalha. Agora é só comemorar a vitória, pensei com meus botões. À noite, tomamos um vinho e ainda tive que “amargar” a desclassificação do Fluminense para o urubu do Flamengo. Coisas da vida e do futebol.
No entanto, o melhor estava por vir quando no domingo, já mais descansado, fomos à velha cidade de Pirenópolis. Alguma coisa semelhante com uma cidade dos Pirineus, na Europa, de clima agradável (neste tempo muito calor e chuva), montanhas com matas exuberantes, antigos casarões, cachoeiras em abundância e um dedo de prosa de histórias interessantes com um velho repórter da Manchete, agora comerciante de um estabelecimento de cachaças.
Conversamos até sobre as loucuras do fotógrafo Gervásio, as tiradas e as arbitrariedades do coronel governador Antônio Carlos Magalhães, a ditadura civil militar de 1964 e como os jornalistas tinham que se virar para levar uma boa matéria para a redação de uma forma que não fosse preso. O pessoal (Vandilza, meu filho Caio, sua esposa Larrisa e o menino Samuel) me apressava, mas o papo não terminava entre uma conversa e uma cachacinha da boa.
Muita coincidência! Talvez fatos do destino para começar a enriquecer minha viagem, fazer esquecer o outro dia e renovar as energias para curtir a cultura e o patrimônio arquitetônico colonial da nossa Pirenópolis goiana, terra muito conhecida no Brasil pelos grandes nomes da música sertaneja.
Em seu destaque, como em toda cidade histórica, conhecemos a Igreja do Rosário, fundada por portugueses, e tive o prazer de papear com aquela gente cordial e hospitaleira que sabe receber bem o turista. Por si só, as fotos que cliquei da minha Nikon dizem tudo.
Pirenópolis foi um dos primeiros municípios de Goiás. Foi criado com o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte pelo minerador português Manoel Rodrigues Tomar, ou Tomás, de acordo com alguns historiadores.
A cidade foi fundada como um pequeno arraial, em 1727, por Manoel Rodrigues, chefe de um grupo de garimpeiros. Ela é hoje apelidada carinhosamente de “Piri” pelos turistas. Sobressaiu-se como o berço da imprensa em Goiás através do seu primeiro jornal denominado de Matutina Meiapontense.
Em Pirenópolis acontece todos os anos, 45 dias após a Páscoa, a popular festa do Divino Espírito Santo envolvendo cavalos montados (famosas cavalhadas). Sua economia é baseada no turismo, no artesanato e na extração de pedras que leva o seu nome. A cidade foi tombada como patrimônio nacional, em 1989.
DIA MUNICIPAL DA CULTURA
NOSSA CULTURA ANDA TÃO ABANDONADA (DIZEM QUE FOI SEPULTADA EM CONQUISTA) QUE NEM O PODER PÚBLICO E A NOSSA MÍDIA LOCAL (ESQUECEU DA SUA ALDEIA) AO MENOS CITARAM O SEU DIA. TRISTEZA! PASSOU E NINGUÉM VIU. A NOSSA CULTURA ESTÁ NUA!
Infelizmente, poucos têm conhecimento porque também não é lembrado pelas instituições e a mídia em geral, mas todo 14 de março do ano é o Dia Municipal da Cultura de Vitoria da Conquista, instituído pela lei número 1.367/2006, e assinada pelo então prefeito José Raimundo Fontes. Como está a nossa cultura, nada a comemorar.
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, com base na lei, concede medalha de Mérito Glauber Rocha a homenageados indicados pelo Conselho Municipal de Cultura, em sessão solene marcada pela Mesa Diretora. Na ocasião, a data é comemorada pelos parlamentares, artistas e pela plenária. Pelo menos deveria.
Nas homenagens ao Dia Municipal da Cultura, é bom que se faça uma reflexão sobre o que é cultura, principalmente nesses tempos tão difíceis no âmbito municipal onde a nossa cultura não tem o lugar de destaque que merece pelo poder executivo. Estamos destruindo o que ainda resta. Outra indagação a ser feita é sobre como vai nossa cultura em Vitória da Conquista e o que se pode fazer para melhorar.
O que se tem feito ainda deixa muito a desejar, especialmente em relação a Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com quase 400 mil habitantes, que já foi celeiro de grandes artistas e pensadores. Não é que atualmente não existam grandes talentos, mas as nossas expressões artísticas não têm recebido o apoio merecido dos poderes públicos.
Os recursos têm sido escassos, e os governantes, infelizmente, têm colocado a cultura apenas como um jarro de decoração em suas mesas. Talvez entendam que não rende voto e alocam poucas verbas para o setor. Os artistas em geral vivem a mendigar para realizar seus projetos.
Temos muita luta pela frente para que Conquista volte à sua efervescência cultural dos anos 50, 60 e 70. Gostaria de lembra aqui que o Conselho Municipal de Cultura anterior (2021/23) empreendeu uma grande luta no sentido de criar o Plano Municipal de Cultura e instituir a Fundação Cultural. Esse Plano iria ditar as diretrizes políticas para resgatar a nossa cultura. Mais uma vez, o projeto foi emperrado pelo poder executivo que não deu o suporte necessário para sua concretização.
Neste dia não temos muito a comemorar quando há anos três equipamentos culturais – o Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha – continuam fechados e sem data para serem reabertos. Com isso, os artistas conquistenses, abrangendo todas as linguagens, estão sem espaço para realizar seus ensaios e apresentações de seus trabalhos, prejudicando, principalmente, o teatro, a literatura, a dança e a música.
DIA DA POESIA
O dia 14 de março é comemorativo ao nascimento do cineasta Glauber Rocha e lembra também o nascimento de poeta Castro Alves, há 176 anos. Por isso também, o 14 de março é o Dia da Poesia, uma linguagem que é fonte de vida, mas desprezada, especialmente pelos nossos jovens em geral.
Como todos sabem, Castro Alves dedicou suas poesias às questões sociais e foi um grande defensor da libertação dos escravos. Um abolicionista que abriu portas para outros intelectuais lutarem pelo fim da escravidão no Brasil.
“A ÁGUA LAVA TUDO”
(Chico Ribeiro Neto)
– Você quer saber de uma coisa? Vá tomar banho!
Não sei porque algumas pessoas lhe xingam com essa frase. Eu, por exemplo, adoro tomar banho. Um banho frio de manhã, lavando a cabeça, revigora a gente, a alma e a mente. Quantas decisões a gente só toma depois de um bom banho? “Banho é um remédio”, sempre disse Dona Geralda, de Caculé, Bahia.
Quem não gosta de tomar banho, em geral, são as crianças. O menino está com o “colar” de sujeira no pescoço e tenta enganar a mãe dizendo que já tomou banho.
Konstantin Stanislavski, famoso ator e diretor russo (viveu em Moscou entre 1863 e 1938), foi criador de um famoso método de interpretação para os atores cujo maior fundamento era este: “A partir da experiência física é gerado um sentimento, e não o oposto”. Ele conta a história de um ator que fazia o papel de um suicida indeciso na janela do décimo andar de um prédio. O ator caminhava até o proscênio (o setor do palco mais perto do espectador) e mostrava aquela cara misto de pavor e indecisão. A interpretação era magistral e o diretor perguntou em que ele pensava naquele momento para fazer tanta cara de medo. “Em banho frio”, respondeu o ator. Ele tinha pavor a banho frio.
Um amigo que foi seminarista me contou que até o banho era fiscalizado. Um fiscal marcava o tempo do lado de fora. Se passasse daqueles minutos ele batia na porta: “Rumbora, anda logo”. O tempo era contado para que o seminarista não cometesse pecado com as próprias mãos.
Lá em casa, quando eu era pequeno e a grana tava curta, minha mãe Cleonice providenciava umas toalhas de saco de aniagem. Comprava os sacos e desmanchava pra fazer uma toalha que não enxugava nada, a gente passava e a água ficava.
Na década de 60 havia no interior um chuveiro de balde, que chegava a pegar 12 litros de água, com uma torneirinha em baixo. Se quisesse banho quente, tinha uma cordinha que fazia descer o chuveiro para você colocar a água morna.
Quando estudante morei numa pensão em que de manhã cedo, no banheiro, tinha um cagando, um escovando o dente e o outro tomando banho, todos na pressa para não perder a primeira aula. Quem quisesse exclusividade no banheiro tinha que acordar às 5 da manhã porque depois das 6 era o corre-corre para chegar a tempo no colégio ou faculdade, e não adiantava fechar a porta que a galera arrombava.
Meu irmão Luiz morou numa pensão no interior em que no banheiro ficava a pedra do sapo. Você tinha que tapar o buraco por onde saía a água e também entrava o sapo. Após o banho, a pedra era retirada para a água escoar.
“Você notou que eu estou tão diferente
Você notou que eu estou tão diferente
A água lava, lava, lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente.
Já vieram me contar
Que lhe viram por aí
Em lugar tão diferente
A água lava, lava, lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente”. (“A Água Lava Tudo”, marcha de carnaval de Jorge Gonçalves, Paquito e Romeu Gentil, grande sucesso na voz de Emilinha Borba em 1955).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O BEIJA-FLOR
Ele (deve ser) não canta, mas encanta com seu estalo para se acasalar. Está sempre na minha árvore florida do meu quintal (minha esposa a chama de trovão porque nunca para de crescer, mesmo sendo podada) com outros pássaros desde o amanhecer ao anoitecer, se alimentando do néctar da flor. Tem vezes até que tira a concentração das minhas leituras e dos pensamentos no alpendre, do meu rancho. Me faz esquecer até do tempo que nos devora aos poucos, lento para uns e rápido para outros. Dessa vez o beija-flor achou de pousar na palha do coqueiro. Com seu jeito de ave arisca (nem tanto assim) aquietou-se com suas assas como se pedisse para ser retratado pelas lentes da minha máquina. Tanto ele tinha certeza que esperou que eu fosse ao meu escritório e ligasse a máquina fotográfica no ponto de foco e da luz para criar a sua imagem. Me aproximei o bastante e ele posou poeticamente com seu longo bico e até olhou de soslaio. Depois deu um pequeno voo entre as folhas, continuou a estalar e a bicar as flores. Era quase final da tarde. Fui fazer meus exercícios costumeiros. O sol começou a se pôr no horizonte infinito fazendo chegar a sombra da noite. Nos despedimos do dia. O beija-flor deve ter ido para seu ninho ou para sua morada do sono, para retornar no outro alvorecer.
NO BANCO DA PRAÇA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ninguém sabe
Qual sua graça
Do moço descalço,
De jeito candango,
Com barriga de rango,
No concreto de aço,
Que arriou e dormiu,
No banco da praça.
Seu nome pode ser fome,
Esguio e longo,
Drogado ou embriagado,
Faroeste Django
Do nosso Nordeste.
No banco da praça,
Tem o casal de namorados,
Com beijos de juras de amor,
Como num buquê de flor;
Tem o velho ancião,
Com seu tempo calendário,
Corroendo seu salário,
O desempregado,
José, Maria e João,
Que bateu de porta em porta,
Cortou avenida e praça,
E só recebeu não;
Tem o morador de rua,
A verdade nua e crua,
O bandido mafioso,
O ocioso,
E o sujeito espião.
No banco da praça,
Tem cronista e poeta,
Matutando enredos,
Desvendando segredos,
O intelectual,
Lendo um livro ou jornal,
O negro, branco e o pardo,
Cada um com seu fardo;
Tem o vazio,
Na madrugada de frio,
A tristeza e a alegria,
A poesia,
O fantasma que passa,
O vírus e a traça,
No banco da praça.
A SABEDORIA POPULAR DOS DITADOS
Os ditados populares, na sua grande maioria, são de autores anônimos, muitos dos quais de grande valia e certeiros. Outros são polêmicos, contestáveis e controversos. Alguns estão defasados, inadequados para a época e são considerados preconceituosos. Nem são mais usados nos tempos modernos. Suas origens são duvidosas, por mais que os historiadores tenham suas explicações.
No entanto, eles representam o saber e o conhecimento dos mais velhos. É um amontoado de culturas da oralidade. Tem aqueles que os caminhoneiros usam com propriedade no fundo das carrocerias e gente que coloca em seus veículos e imóveis por conta própria, como “Foi Deus quem me deu” ou “Deus é fiel”.
Na realidade, todos deveriam ser objetos de estudos dos acadêmicos, porque, no fundo, são filosóficos e expressões culturais do nosso povo. Tem pensamentos para todos os gostos. Só não me venham como essa de que “a voz do povo é a voz de Deus”. Ridículo e de pessoa sem muita noção do nosso país, sem educação, consciência política e cultura. Não façam isso com seu Deus. Não coloquem a culpa das mazelas Nele. Por exemplo, Deus manda alguém votar errado?
Escarafunchando meus alfarrábios, encontrei alguns ditados e resolvi citá-los para criar uma discussão. Quem tiver os seus que os apresente. O interessante é que cada um tem a sua interpretação e garantem um bom papo numa mesa de bar ou numa roda de conversa, como no sarau. Alguns são até engraçados. Outros considerados politicamente incorretos e até censurados pelos imbecis de carteirinha.
Vamos deixar de papo furado e navegar pelos ditados. O primeiro já é uma pancada, como “Briga de marido e mulher não se mete a colher”. Pela violência contra o sexo feminino, não é mais aceito. A recomendação é que deve se meter sim. O certo hoje seria “Briga de marido e mulher se mete a colher.
– “Touro no terreno alheio é vaca”. Não sei de onde vem esse.
– “Em terra de cego quem tem um olho é rei”. Em minha opinião, acho uma verdade.
– “Amor é como pirulito, começa doce e acaba no palito”. Coisa que dá muito pano para manga.
– “Boca fechada não entra mosca”. É para quem fala demais e diz besteiras, mas não se pode ficar o tempo todo em silêncio. Melhor seria, pense muito antes de falar.
– “Falar é fácil, fazer é difícil”. É uma verdade que serve para os políticos e governantes safados.
– “Tamanho não é documento”. É relativo se for considerar tamanho no sentido de poder. Depende de qual seja o tamanho a que está se referindo.
– “Cão que muito late, não morde”. Cuidado com o cão. Não confie muito nisso.
– “A melhor resposta é aquela que não se dá”. Nem sempre funciona assim. Uma ofensa ou uma idiotice não deve ficar sem resposta.
– “Depois da tempestade vem a bonança”. É um pensar filosófico que dá certo. É só ter esperança, fé e paciência para esperar. Caso de persistência e força de vontade.
– “Quem não sabe rezar xinga a Deus”. Os nossos pais, avós e bisavós já diziam isso.
– “Pão comido não é lembrado”. Isso serve para os ingratos que temos hoje aos montes. Fazemos um favor e recebemos coice.
– “Uma mão lavada, lava a outra”. Tem sentido e pode ser interpretado de várias formas.
– “Periquito que fala muito caga no ninho”. Acontece muito por aí no mundo político e até futebolístico.
– “O pau que nasce torto, morre torto”. Nem sempre. Existe recuperação, mas raras. Todo ser humano tem capacidade de mudar, basta querer.
– “Antes tarde do que nunca”. Acho correto, especialmente quando temos que consertar nossos erros.
– “A esperança é a última que morre”. Quase todos guardam essa em relação ao futuro do nosso Brasil.
– “Quanto mais alto, maior o tombo. Essa me lembra de David e Golias.
– “Quem dar aos pobres, empresta a Deus”. Não acredito muito nisso e me faz lembra das doações e do Bolsa Família que nunca vão mudar o nível social e econômico das pessoas.
– Quem muito dar, acaba pedindo”. Uma lição para o ditado anterior.
– “Quem dar o que tem a pedir vem”. Parecido com o último ditado.
– “Quem empresta não presta”. Isso é útil no momento que se empresta um livro da sua biblioteca. É aquela dor de cabeça para reaver seu livro.
– “Apanhe quantas mulheres quiser, mas mantenha a sua à direita”. Essa é machista e não aconselho ficar repetindo por aí.
– “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Essa frase todos sabem e dizem ter saído da boca de Cristo quando foi questionado sobre os impostos cobrados pelos romanos.
– “Quem rir por último, rir melhor”. Muito usado por aí, inclusive nas discussões sobre futebol ou numa disputa qualquer.
– “Antes um pássaro na mão que dois voando”. Os avarentos e ambiciosos não acreditam e terminam quebrando a cara.
– “Muito vento é sinal de pouca chuva”. Meu pai já dizia isso, mas com essas mudanças climáticas provocadas pelo ser humano, não dá para confiar. E os imprevistos da natureza? –
– “Mais vale um peito na mão que dois no sutiã”. Temeroso falar isso. Pode ser linchado e processado como machista. Ai, “boca fechada não entra mosca”.
– “Quem tem medo de cagar não come”. Quem vai ficar sem comer?
– “Quem não chora não mama”. Têm vários sentidos, mas prefiro aquela em referência a pechinchar na feira ou na compra de um produto, uma negociação qualquer. O negócio é ser persistente no seu pedido.
– “Mais vale um certo que dois duvidosos”. É filosófico e vale refletir nisso.
– Quem com ferro fere com ferro será ferido. Essa é clássica. Tudo que se faz aqui contra o outro, se paga aqui mesmo na terra.
Para não ficar muito longo, nas próximas temos muito mais para polemizar, contestar, concordar e até meditar com os ditados populares e anônimos do nosso dia a dia, se bem que atualmente caíram em desuso.
































