AS PRÁTICAS HOMOSSEXUAIS NA BERBÉRIA E AS CRUELDADES NOS BANHOS PÚBLICOS
SOBRE AS TAVERNAS NOS BANHOS PÚBLICOS, MISSIONÁRIOS MANIFESTAVAM SUA REPULSA PELO QUE VIAM, CHAMANDO DE LUGARES ABOMINÁVEIS ONDE HOMENS COMETIAM CRIMES TERRÍVEIS. A MAIORIA DOS CRIMES FOI APRENDIDO COM OS TURCOS. UMA TENEBROSA LIBERTINAGEM RESULTADO DA EMBRIAGUEZ.
AS NARRATIVAS DO ESCRAVO JOÃO MASCARENHAS FORAM PUBLICADAS EM 1627 NA FORMA DE PANFLETO, EXEMPLO DE LITERATURE COLPORTAGE, DIFUNDIDA NO INÍCIO DA IDADE MODERNA. FOI ADQUIRIDFO POR PORTUGAL POR LIVREIROS INTINERANTES QUE COMERCIALIZAVAM COM O NOME DE LITERATURA DE CORDEL, POIS OS VOLUMES ERAM AMARRADOS UNS AOS OUTROS COM BARBANTES PARA SEREM VENDIDOS EM VÁRIOS LUGARES.
Os senhores proprietários, turcos, mouros, paxás e reis da Costa da Berbéria (Argel, Túnis e Trípoli) se aproveitavam dos escravos novos cristãos para práticas sexuais, na maioria das vezes forçados a isso, sem falar do homossexualismo existente nos banhos públicos superlotados, considerados por pesquisadores e testemunhos da época (séculos XVI a XVIII) como campos de concentração, semelhantes aos nazistas e aos gulag soviéticos.
Alguns chegaram a contestar as crueldades e torturas dos senhores, como as que existiram contra os escravos africanos trazidos para as Américas (12 milhões) em mais de três séculos, mas foram comprovadas por cativos cristãos brancos.
Diferente do que ocorreu com os mercados de gente na Costa Africana, cujas memórias dos locais foram preservadas, esses banhos públicos foram destruídos entre os séculos XVIII e XIX, principalmente com a invasão francesa a Argel em 1830. Essa escravidão na Berbéria era uma represália religiosa. Os muçulmanos também foram cativos dos cristãos, sobretudo na Espanha, Portugal e Itália durante as guerras dos dois impérios (cristãos e muçulmanos).
O historiador e pesquisador Robert Davis, que escreveu a obra “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, se debruçou sobre esse tema pouco explorado e conta também as brigas internas que existiam entre católicos e não católicos. No livro, ele cita por diversas vezes testemunhas do escravo d´Aranda sobre uma intriga entre russos ortodoxos e espanhóis italianos.
“Um deles foi até o pequeno cômodo (banho público ou prisão) onde se encontravam os russos moscovitas saudando-os da seguinte forma: cães, hereges, selvagens, inimigos de Deus, o banho agora está trancado (era fechado ao entardecer), e o zelador (o feitor) mandou dizer que, se tiverem coragem de lutar, vocês deveriam sair dessa sua toca, aí veremos quem leva a melhor”.
Robert Davis ressalta que qualquer divisão secular, como língua ou política, servia de justificativa para gerar discórdia entre os escravos, tanto quanto as crenças religiosas, e há indicativos de que esses subgrupos, provenientes de culturas mais próximas, eram os que mais estavam propensos a trocar farpas entre si.
DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO
As brigas constantes, segundo ele, entre espanhóis, franceses, portugueses ou italianos são inícios de que esses escravos se entendiam o suficiente para trocar insultos. Entretanto, as dificuldades de comunicação entre escravos e seus senhores era uma fonte inesgotável de conflitos na Berbéria, como aconteceu com os africanos de primeira geração nas Américas.
Para desenrolar esse entrave, havia uma língua franca (pidgin), modelo para todas as outras línguas francas ao redor do mundo. A predominância era dos espanhóis do Mediterrâneo, parte da Berbéria e do italiano no leste. Essa língua (uma versão do europeu românico) tinha suas raízes nos idiomas dos marinheiros e mercadores e preencheu suas lacunas com uma série de palavras locais (árabe, turco e grego). Servia para dar ordens aos escravos.
Nas galés, no entanto, os escravos eram proibidos de falar uns com os outros em qualquer outra língua que não fosse a franca, para que seus capatazes pudessem compreender o que discutiam ou tramavam. Não era um idioma muito fácil de ser entendido, principalmente em situações tensas.
Às vezes o senhor usava termos em espanhol e o italiano para humilhar o escravo com a palavra cão (perro cane ou cani perru). Alguns termos evoluíram, como do italiano mangiar no sentido de comer, ser consumido. Outras palavras eram derivadas do árabe ou do turco.
Quanto aos banhos públicos, o pesquisador da obra, diz ser difícil quantificar a população escrava, mesmo porque alguns zeladores alugavam suas dependências a proprietários individuais de cativos, as quais serviam para armazenar a mercadoria humana quando não queriam manter esses escravos dentro de casa. Eles eram obrigados depois a reembolsar seus senhores pelos custos desses alojamentos, com a venda de água ou até roubando.
Com o declínio das galés corsárias (final do século XVIII), a relação entre escravos públicos de banhos e os privados sofreu uma queda. Em 1696, padre Lorance, vigário de Argel, observou que o número de escravos particulares excedia em muito ao de públicos confinados nos banhos.
ABANDONADOS
Os banhos privados começaram a ser abandonados a partir de 1700, inclusive o maior deles do poderoso Ali Pegelin, que por volta de 1640 mantinha cerca de 800 homens dentro de seu estabelecimento. Durante o forte declínio da escravidão na Berbéria, entre 1690 e 170, a maioria dos escravos deve ter vivido com mais conforto, nas casas de seus senhores. Porém, no transcorrer do século XVIII, o número de escravos particulares caiu e o do Estado permaneceu estável.
TORTURAS E TORMENTOS
A respeito das crueldades e torturas, alguns eram céticos. No entanto, o padre Pierre Dan conta todas as penúrias impostas aos escravos cristãos, e ele fez um catálogo dos tormentos que lhes foram infligidos pelos muçulmanos. Os editores intercalaram prosa com um conjunto de ilustrações horrendas. Muitos foram esmagados vivos, outros empalados, queimados e crucificados.
O escravo John Foss, por exemplo, dedicou um capítulo inteiro ao assunto, denominando-o de “As punições mais comuns para cativos cristãos pelas mais diferentes ofensas”. Robert destaca que tais castigos cruéis, sem motivos aparentes, tinham razão de ser, pois costumavam garantir a disciplina entre os escravos.
As surras tinham o condão de encourager les autres, como alerta aos outros para que mantivessem bom comportamento. O Estado e o Ali Pegelin chegavam a matar alguns deles. Esses tipos de violências eram também difundidos entre proprietários e feitores de escravos nas Américas. Como declarou um fazendeiro no sul dos Estados Unidos: “O medo da punição é o princípio a que deveríamos e temos de recorrer, se quisermos manter os cativos atordoados e obedientes”.
O pesquisador Stephen Clissold concluiu que os escravos da Berbéria descreviam uma vida nos banhos como uma mistura entre um campo de concentração nazista, uma prisão inglesa e um campo de trabalhos forçados soviéticos, os gulag. Os cativos eram largados à própria sorte pelos paxás. Eram vítimas de surras aleatórias, alimentação e acomodações miseráveis, roupas degradantes, além do celibato forçado.
Os públicos eram condenados pelo resto de suas vidas, não por um processo judicial, mas em razão de seu status. Quem pertencia ao Estado não era ninguém. Não contava com um senhor privado para libertá-lo ou pagar seu resgate. O escravo João Mascarenhas dizia que estes homens nunca vão embora, já que não serão libertados.
MAIS UM POSTO SEM MÉDICO
As reclamações são constantes em Vitória da Conquista com relação a postos de saúde da família sem médico, o que demonstra a precariedade do setor em nossa cidade. Estive ontem (dia 18/01/23) no Posto Nestor Guimarães, no Bairro Felícia, Guanabara ou Jurema, a depender da classificação de cada um, para solicitar uma indicação onde realizar um teste de covid. A recepcionista (parecia nova na função e era a única funcionária) foi logo me dizendo que não existia médico e que eu teria que entrar no site da Prefeitura Municipal (coisa complicada) para fazer a marcação. Ao meu lado tinha uma senhora idoso que pedia um exame, recomendado pelo seu médico anestesista, com a finalidade de proceder sua operação de catarata. A moça disse que ela teria que esperar três meses. Ora, como uma pessoa tem que aguardar três meses por um exame, para realizar uma cirurgia nas vistas quando se trata de um procedimento de urgência para a doença não piorar mais ainda? Me intrometi na conversa em defesa da senhora e lembrei que está completando agora dois anos que marquei um exame no mesmo posto para uma consulta com um otorrino e até o momento não me chamaram, isto quando tive covid em fevereiro de 2022. Como se não bastasse a cultura, a saúde em Conquista está abandonada e muitos chegam até a morrer antes do tempo por falta de atendimento. Como um médico sai de férias e outro não é colocado em seu lugar, como se fosse um empregado auxiliar de escritório onde a empresa pode até acumular a função com outra pessoa. Afinal de contas, estamos tratando de vidas humanas. Isso é um absurdo, para não se dizer uma vergonha. Quanto ao meu teste de covid, tive que fazer numa farmácia particular.
ACORDA GENTE!
Poema de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Ave Maria, Nossa Senhora!
Que conhece nossa história:
De derrota e vitória.
Acorda gente!
Que o aguaceiro bateu toda noite,
E foi trovoada de açoite,
Nessa seca caatinga cinzenta,
De dores e sabores,
Onde chuva é água benta:
Hora de plantar a semente,
Pra colher o fruto da terra,
Sem essa de guerra.
Acorda gente!
Que Lampião já levantou,
Pra varar todo sertão,
Com seu apetrecho e bornal,
Carabina e punhal.
Acorda gente!
Vamos embora trabalhar!
Olha os pássaros a cantar,
Os sapos a coaxar na lagoa;
O gavião alto voa,
Até o bezerro faz sua festa,
A nambu e a juriti
Cantam de lá,
Que o verde vai voltar.
Acorda gente!
Do campo e da cidade!
Viva a liberdade!
Todos juntos acreditar,
Porque ainda vale a pena,
Entrar nessa cena,
Lutar e sonhar.
OS MATERIAIS ESCOLARES SÓ TRAZEM SÍMBOLOS E FIGURAS DE HERÓIS DOS EUA
– Tenho aqui algumas bolsas e mochilas mais baratas com as cores e a bandeira do Brasil, mas ninguém quer. Preferem os materiais escolares com os símbolos, imagens, termos e figuras de heróis norte-americanos – disse um lojista do centro comercial de Vitória da Conquista, não deixando de criticar essa cultura secular de desvalorização pelo nosso produto e às suas personagens folclóricas.
Concordei com sua posição e entrei em algumas papelarias da cidade à procura de materiais escolares em geral (mochilas, cadernos e outros artigos) que trouxessem em suas capas ou nas partes externas figuras que remetessem ao nosso folclore brasileiro, como o saci-pererê, curupira, o boitatá, boto cor de rosa, a iara, cuca, caboclo d´água, a caipora, bem como imagens dos nossos rios e biomas (Pampas, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e a Amazônia).
Para mim não foi nenhuma decepção porque já imaginava que não iria encontrar, mas nos deixa envergonhado de como não valorizamos os que é nosso. Temos mesmo complexo de inferioridade. Não é uma questão de ser um patriota ufanista do tipo integralista e moralista que bate continência para uma bandeira dos Estados Unidos e ainda defende uma intervenção militar.
Nas capas dos cadernos e bolsas só vi figuras de super-heróis dos ianques, como homem aranha, super-homem, the flex, batman, capitão américa, hulk, zorro, mulher maravilha e tantos outros que nem sei bem os nomes. Você pode também encontrar fotos de pontos turísticos de Paris (França) como Tour Eiffel, Champs Elisée e Museu do Louvre.
Fiquei a imaginar se algum país do mundo usa nossos símbolos em seus objetos escolares. Com certeza que não. A começar pelos EUA, milhões deles nem sabem localizar nosso país geograficamente nas Américas. Muitos chamam o Brasil de Buenos Aires e outros acham até que somos selvagens e exóticos.
É lamentável o desprezo pela nossa cultura ao ver nossas crianças e jovens (também os pais) totalmente absorvidos pela enxurrada de filmes e propagandas que invadem nossos mercados com seus heróis e personagens através dos cinemas e das televisões! Eles passam a cultuar e a idolatrar o que vem de fora e pouco dá valor ao nacional.
Temos um país rico, tanto no seu folclore como em termos de paisagens e parques, como a Chapada Diamantina, na Bahia, Veadeiros, no Centro Oeste, o parque arqueológico, no Piauí, a Serra do Araripe, (Ceará), o pantanal e a floresta amazônica! Não podemos ainda deixar de citar as grutas, cavernas e rios, como o São Francisco, Paraná, Amazonas, Paraguaçu e tantos outros.
Muita parte dessa riqueza está sendo destruída pelos desmatamentos, garimpos e pelo fogo. Para reforçar a consciência ambiental, principalmente nos mais jovens, essas imagens e figuras culturais não poderiam estar estampadas em nossos materiais escolares, ao invés dos estrangeiros?
O Congresso Nacional não poderia criar um projeto de lei, sancionado pelo presidente da República, obrigando os fabricantes desses materiais imprimirem figuras e imagens que representassem o nosso Brasil? Não se trata de censura e de impedimento de se abrir para outras culturas. É uma questão de valorizar nosso patrimônio material e imaterial.
Cada nação mais desenvolvida, como os Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Coréia do Sul, Finlândia e os países nórdicos, por exemplo, procuram cuidar bem e preservar suas memórias e histórias. O nosso Brasil vai numa direção contrária quando prestigia mais o que vem do exterior e menospreza o nacional.
SORRIA! VOCÊ ESTÁ NA BAHIA
Carlos González – jornalista
Depois de desembarcar no Aeroporto 2 de Julho e atravessar o verdejante bambuzal, o viajante é convidado a sorrir, por estar chegando à Bahia. O turista, que já recebeu o “bem-vindo” de uma “baiana” com traje excessivamente colorido, abre um sorriso de orelha a orelha. Mas, o morador de Salvador, que está indo para a Barra e bairros vizinhos, já prevê o que vai encontrar nesta época do ano.
A virada do ano, que se estende por quatro dias, abre o calendário de festas em Salvador, que, normalmente, deveria ir até o Carnaval. Nada disso. Criado por Carlinhos Brown, o “Arrastão” reúne timbaleiros e foliões no desfile que contraria os católicos, por coincidir com o início da Quaresma. Em 2019, os vereadores votaram (38 a 2) pelo fim da manifestação, mas o prefeito na época ACM Neto vetou o projeto de lei.
Nesses três primeiros meses do ano, Salvador se transforma na “Capital da Folia”. São ensaios de blocos, lavagens de escadarias e de becos, bênçãos das terças-feiras, festivais, fuzuê, pôr do sol no Farol, homenagem a Santinha, coroação do Rei Momo, pré-Carnaval nos bairros da periferia, lançamento de camarotes, banhos a fantasia e os embalos da ressaca (na semana seguinte ao Carnaval).
Candidato a reeleição, o prefeito Bruno Reis vira “arroz de festa”. Comparece inclusive às festinhas pré-carnavalescas, animadas por um cantor sertanejo, nos bairros da periferia da cidade, promovidas por candidatos a uma cadeira na “gaiola de ouro da Praça Municipal”.
Segundo o último Censo, a população de Salvador é de 2.418.005 habitantes. Nos últimos 12 anos a capital perdeu 257 mil residentes, que migraram para municípios vizinhos, em busca de emprego, segurança e de serenidade. A cidade ocupa a 17ª posição no quesito per capita familiar entre as 27 capitais do país e o Distrito Federal. No Nordeste está abaixo de Fortaleza, Recife, João Pessoa, Aracaju e Natal.
Meu colega e amigo Jeremias Macário lembrou neste mesmo espaço que há em Salvador mais beneficiários dos programas de renda do governo federal do que em São Paulo. Jovens de famílias pobres estão migrando para o Paraná e Santa Catarina, onde, além de sofrerem discriminação por serem nordestinos, se submetem a trabalhos análogos a escravidão.
Com apoio da Rede Bahia, Reis aposta todas as suas fichas em manter o circo armado até o dia das eleições municipais. Ele calcula que bilhões vão abarrotar os cofres da prefeitura com a chegada para o Carnaval de 800 mil turistas a Salvador, sem fazer correção dos que trazem a barraca nas costas e acampam em qualquer lugar, e dos que estão hospedados em navios de cruzeiros.
Depois da abertura do Circuito Dodô (Barra-Ondina), o Carnaval virou uma indústria que beneficia uma minoria, com a colaboração de uma massa que não tem consciência da realidade em que vive. O complexo industrial da folia, onde o Rei Momo é uma figura decorativa, é constituído pelos empresários musicais, cantores de axé, donos de blocos e de camarotes, corretores de imóveis, e os ramos de bebidas, hotéis, bares e restaurantes. Pequenos comerciantes de lanches e bebidas, comprimidos pelos foliões, passam uma semana em suas barracas, em péssimas condições higiênicas.
SOS Barra
“Tire este camarote do meu caminho que eu quero passar”. Este apelo está numa das faixas colocadas em vários pontos da Avenida Oceânica. O protesto é de iniciativa da Amabarra (Associação dos Moradores e Amigos da Barra), que há anos vem pleiteando junto aos gestores municipais e ao Ministério Público a mudança do Circuito Dodô para outro local.
Uma pesquisa feita no ano passado desaprovou a transferência para a avenida Octávio Mangabeira (trecho da Boca do Rio). A votação se estendeu a toda cidade, quando deveria ficar restrita aos residentes na Barra e Graça, que nesta época do ano são prisioneiros em suas próprias casas.
O Carnaval na Barra foi um dos motivos que me trouxe a Conquista. Por nove anos, como morador do bairro, onde se paga o IPTU mais caro de Salvador, testemunhei a ocupação do espaço público por enormes camarotes, que começam a ser montados um mês antes. Este ano, o dono de um deles levantou muros num dos trechos da praia de Ondina, com acesso exclusivo para os frequentadores, que pagam uma fortuna por um ingresso.
Participei de reuniões da Amabarra, onde comerciantes que nada têm a ver com o Carnaval fecham seus estabelecimentos por mais de uma semana; associados sobressaltados davam conhecimento da presença nas ruas do bairro de assaltantes de diversos pontos da cidade; outros manifestavam o receio de caminhar ou usar a bicicleta nas pistas da avenida devido a construção dos camarotes sobre os passeios; outros relatavam os entraves causados aos veículos, inclusive ambulâncias.
Podem me chamar de saudosista, mas do autêntico Carnaval da avenida Sete, das cadeiras amarradas nas árvores e postes, do desfile das grandes sociedades (Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso) e dos bailes nos clubes sociais, sobraram o trio elétrico de “Armandinho, Dodô e Osmar”, a passagem dos blocos afros e o bloco sexagenário “Paroano Sai Milhó”, “um oásis no Carnaval de Salvador”, como definiu Caetano Veloso.
COM TANTAS FESTAS, SALVADOR PODERIA SER A CAPITAL MAIS DESENVOLVIDA DO PAÍS
Dizem o governo e seus representantes que só no carnaval giram dois bilhões de reais na economia, sem contar as outras festas (todo ano), mais intensas a partir do início de dezembro até final de fevereiro. Fala-se em um milhão ou mais de turistas vindos de todas as partes do Brasil e do exterior.
Pouco divulgam sobre os milhões de reais e até bilhão na segurança, na logística e nos cachês gordos dos artistas para os mesmos afortunados, cujos nomes todos já sabem muito bem, de cor e salteado. Não sou contra prestigiar os afoxés, mas o estado vai dar neste ano quinze milhões de reais só para essas agremiações. Muitos “sabidos” passam a mão numa parte.
Desses dois bilhões, 98 ou 99% caem nos bolsos dos mais ricos e poderosos. O restante fica com o pessoal do asfalto, como os vendedores ambulantes, barraqueiros, cordeiros, seguranças e operários que armam os camarotes e outros palcos. Não existe distribuição de renda equitativa e a pobreza na capital só aumenta.
Está comprovado que se festas fossem fator preponderante de desenvolvimento econômico e social, Salvador seria a capital mais desenvolvida do país e não teria tantos índices negativos na educação, no saneamento básico, na saúde e na qualidade de vida. Não existiriam tantos moradores de rua e milhares passando fome.
A desigualdade humana é gritante e tenebrosa. Quase metade dos 14 milhões de habitantes da Bahia recebe o Bolsa Família, uma das maiores ou a maior em quantidade de beneficiários e valores gastos pelo Tesouro do Brasil, tanto que o “pente fino para apurar as irregularidades atingiu mais o estado. O desemprego tem também seu alto nível na média nacional. Pelo IBGE, houve uma redução populacional.
Vá discutir isso com os donos de hotéis, de agências de viagens da aviação, dos camarotes, dos trios elétricos, dos blocos, dos cantores de músicas/lixo preconceituosas, donos da grande mídia, com os políticos e até proprietários de apartamentos da orla marítima que alugam seus imóveis entre dez a trinta e cinco mil reais por sete ou oito dias de folia!
Eles vão partir com argumentos falsos e mentirosos; falar que você é esquerda/comunista derrotista, vagabundo de merda e são capazes de lhe encher de porrada. Teve um aí que abriu a boca para dizer que o carnaval emprega mais que a construção civil, só se for durante apenas no período, e olhe lá. Não apresentou dados concretos.
Os pobres também não vão gostar, porque estes estão na pior das desgraças e, por não terem consciência política, educação, serem altamente submissos e escravos dos patrões, se contentam com o pouco, com as migalhas que caem das mesas da elite dominadora do capital.
Eles até riem e agradecem nas entrevistas. Todos querem mais festas e feriadões prolongados. O miserável físico e mental prefere o circo ao invés do pão. Ele dá um jeitinho para enganar o estômago e vai levando a vida como ela é, a vagar por aí na base dos “bicos” e até através das malandragens golpistas.
Essa é a realidade nua e crua, meu amigo, e ninguém quer mudar porque o rio só corre para o mar. A cultura é essa e já vem de séculos. Quanto mais festas, mais votos e os eleitores caem dentro da urna. Sem ao menos refletir e questionar, os jornalistas, que adoram bajulação, anunciam que tudo é de graça. Como de graça se o dinheiro sai dos cofres públicos, pago pelo contribuinte?
Tudo é vendaval! Tudo é festa e curtição! Quanto mais muvuca e fuzuê, melhor para os abonados e pobres. Na Bahia, o ano só começa em março, deixando um rastro de ressaca, doenças, crimes, violências, mortes, principalmente no trânsito. Enquanto isso, muitos setores da economia (comércio e indústria) ficam parados.
Vamos todos às festas porque ninguém é de ferro, não importando se elas extrapolam o senso comum. Nas cidades do interior onde não existe carnaval tudo é fechado na segunda, terça e até meio dia de quarta-feira de cinzas.
Os que podem e até aqueles sem condições financeiras pegam as estradas, se endividando. Entopem mais ainda o meio ambiente de sujeiras e gases tóxicos, contribuindo para agravar o aquecimento global. Depois é só colocar a culpa no El Nino e nas mudanças climáticas.
SITUAÇÕES SEMELHANTES ENTRE A ESCRAVIDÃO NEGRA E A DOS CRISTÃOS BRANCOS
Nas duas escravidões, a africana entre os séculos XVI e XIX e a dos cristãos ou brancos na região da Berbéria (Argel, Túnis e Trípoli) nos séculos XVI ao XVIII, existiram algumas semelhanças, conforme atesta o livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos” do historiador e pesquisador Robert Davis.
Não se pode quantificar os cenários de degradação e sofrimento dessas escravidões que esses cativos passaram, uns nas Américas pelos países europeus, de ordem comercial, e os outros na Berbéria, praticada pelos mouros, turcos e muçulmanos, de cunho mais religioso, como represália. No entanto, ocorreram métodos parecidos na forma de tratamentos.
Assim como várias etnias africanas trazidas da África para as Américas não se entendiam e até brigavam entre si, também os cristãos andavam às turras quando se tratava de católicos romanos, ortodoxos e correntes protestantes. No cativeiro, as intrigas eram muitas, mas aconteciam momentos de se unir nas resistências.
As senzalas negreiras eram locais degradantes, abafados e superlotados, propícios às promiscuidades, e sempre fechados ao anoitecer depois de um dia cansativo de trabalho. Na Berbéria, esses “aposentos” lotados eram denominados de banhos públicos ou prisões, com praticamente as mesmas regras impostas pelos feitores, capatazes ou responsáveis por guardar os escravos. As portas eram trancadas no final do dia para não haver fugas.
Robert Davis faz esses relatos baseados em testemunhos (D´Aranda, João Mascarenhas, Pierre Dan e padres) que foram vítimas dessa escravidão, além de pesquisadores no assunto. Ele fala dos escravos dos banhos públicos, aqueles desafortunados que eram comprados pelos governantes e depois remetidos à vida nos dormitórios/prisões, os quais os cativos chamavam de bains, baños ou bagni.
Segundo Davis, há indícios que essas mansões sombrias de horror começaram em Constantinopla onde antigas casas de banhos se tornaram em confinamentos de escravos em 1500. Na Berbéria, elas foram construídas para abrigar cativos dos governantes e particulares.
De acordo com as pesquisas, o primeiro banho público, o Bagno Beyliç, surgiu em Argel, em 1553, durante o período de Barbarosa, com capacidade para dois mil cativos. Esses prédios se multiplicaram com o tempo, passando a seis em Argel, nove em Túnis e um em Trípoli. Nos anos de 1660, Argel já possuía oito, quinze em Túnis e cinco em Trípoli.
O interessante é que os nomes desses banhos públicos eram sempre de santos, como St. Roche, Lorenzo, São Miguel, Santo Antônio, Santa Luzia, São Sebastião, São Leonardo, Trindade, Santa Catarina, São Francisco, Santa Cruz e tantos outros.
Em Argel, por exemplo, o banho público St. Roche, pertencia ao senhor Ali Pegelin, o mais poderoso e rico de toda região. “É tentador pensar que esse sistema alternativo de nomenclaturas agia como forma de resistência planejada por parte dos escravos e dos abolicionistas cristãos, contra o domínio e autoridade islâmica vigente…”
Muitos desses nomes eram deturpados e escritos de maneira incorreta. O do Paxá era chamado de Banho do Estado, ou do rei. Os trinitários e mercedários, responsáveis pelas capelas (as fazendas dos senhores das Américas também tinham suas capelas) disputavam entre si e com os missionários da Congregação de Propaganda Fide.
De acordo com o autor da obra, esses tipos de desavenças entre os ocupantes dos banhos, principalmente quando envolviam os papassi ou sacerdotes, eram motivos de graça para os turcos. Os senhores gostavam de incitar as discórdias entre seus escravos, com intuito de enfraquecer a resistência.
“O principal ponto de tensão, ao menos nos séculos XVI e XVII, era a religião, “embora isso possa ser apenas parte do exagero entre padres e missionários católicos que representavam a menor fonte de estudos”. Em Argel e Túnis, os católicos eram maioria nos banhos escravos, ao passo que as cidades marroquinas teriam mais britânicos e holandeses. Trípoli era povoada por cativos gregos, segundo alguns relatos.
Outra coisa abordada pelo historiador diz respeito aos dialetos africanos, enquanto na Berbéria se usava a língua franca (substantivos e verbos) como meio de comunicação entre os senhores proprietários e os cativos, para emitir ordens.
Além das capelas, os banhos também contavam com as tabernas onde os bêbados perturbavam os atos religiosos com palavrões e xingamentos. Como esses dormitórios/prisões, somente para homens, eram superlotados (todos dormiam amontoados) havia muita promiscuidade.
Outro traço era o homossexualismo praticado entre escravos que, por outro lado, sofriam assédio sexual por parte dos seus proprietários, reis, paxás e governantes, tendo como maiores alvos escravos novos e os jovens garotos de nove a 15 anos. Eles eram bem tratados nos palácios e induzidos a se converter ao islamismo. Na verdade, não havia uma repressão velada quanto ao ajuntamento homossexual.
ESCREVA SEU SONHO
(Chico Ribeiro Neto)
Dormir é vital. Insônia é terrível. Se eu deitar de barriga pra cima começam a aparecer os problemas. De barriga pra baixo não dá porque a barriga não ajuda. Deitar do lado direito é mais ou menos. Mas só dá pra dormir bem e sonhar (ou ter pesadelo) quando deito do lado esquerdo. Uma fórmula infalível para ter pesadelo: comer feijoada à noite.
Apois não é que algumas pesquisas me dão razão? “Dormir do lado esquerdo beneficia a drenagem linfática do sistema nervoso central”, garante um estudo publicado na revista científica The Journal of Neuroscience. “Nosso coração está do lado esquerdo do corpo, e dormir dessa forma impede a obstrução da artéria aorta, que bombeia sangue para o resto do sistema sanguíneo”, diz o médico William Cristopher Winter, do Hospital Martha Jefferson, nos Estados Unidos. Outros estudos revelam ainda que dormir do lado esquerdo facilita a digestão.
No entanto, um estudo de 2004, publicado pela revista “Sleep and Hypnosis”, concluiu que pesadelos eram muito mais frequentes entre pessoas que dormiam viradas para o lado esquerdo: 40,19% disseram ter tido sonhos negativos, enquanto apenas 14,69 dos que dormiam virados para a direita queixaram-se do mesmo. A qualidade do sono também era melhor entre os que escolhiam a direita (a posição de dormir).
Já uma pesquisa da revista “Dreaming” aponta que pessoas que dormem de bruços têm mais chances de terem sonhos eróticos do que as demais. Nessa me dei mal, pois não consigo dormir de bruços.
Um dos sonhos mais bonitos e intrigantes que já tive é que eu vinha pulando de nuvem em nuvem. Era um jogo muito perigoso, onde somente nas nuvens você estava num abrigo seguro. Não podia errar e também não podia estacionar numa nuvem, tinha que ficar sempre pulando de uma para outra. Se errasse, caía no precipício do universo. Acertei todas as nuvens, mas acordei assustado.
Meu irmão Cleomar (falecido), que era paraplégico, sonhou uma vez com um despertador (daqueles gordinhos com duas perninhas) correndo atrás dele.
Uma vez contei a meu neto Pedro, então com uns 4 ou 5 anos, que eu sonhei em pé em cima da asa de um avião em pleno vôo. Ele estava almoçando, deu uma engolida no feijão e disse: “Se fosse de verdade você já tinha morrido”.
Os colchões primam pela propaganda. Um comercial do colchão de molas Epeda, de 1970, publicado numa revista, mostra um casal feliz deitado de lado num colchão sob um cobertor e o apelo: “Casais de todo o Brasil: Uni-vos”. Mais embaixo outra frase arrematava: “Só dorme separado quem não tem Epeda”.
Descobri essa pérola na Internet, sem autoria: “Velho acorda cedo pra criticar quem acorda tarde”. Duas frases sobre insônia, também de autores desconhecidos: “Para evitar insônia, eu estou ficando acordado logo de uma vez”; “É muita vontade de dormir para pouco sono”.
Algumas frases de famosos sobre o sono:
“O ruim dos filmes de Far West é que os tiroteios acordam a gente no melhor do sono” (Mário Quintana).
“A indiferença é o sono da alma” (Charles Favart).
“Os sonhos são a literatura do sono” (Jean Cocteau).
“Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono” (Millôr Fernandes).
“O despertador é um acidente de tráfego do sono” (Mário Quintana).
Quem nunca teve um sonho lindo e de manhã não se lembra de mais nada? Escreva o seu sonho. Acordando durante a madrugada, escreva logo. Tenha sempre à mão, perto da cama, um caderno e uma caneta para anotar seu sonho ou pesadelo ou pelo menos as palavras-chave que lembrem a história. Se não quiser escrever, desenhe seu sonho ou pesadelo. Precisamos registrar as belas fantasias e as assombrações. Ambas cabem nos corações.
(Veja crônicas anteriores em leiamais.com.br).
E OS REPAROS DO CRISTO?
Quando estava na presidência do Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista (2021/23) surgiu uma denúncia, no início de 2022, de arquitetos e até de pessoas ligadas ao artista Mário Cravo, criador da obra, de que a escultura do Cristo da Serra do Periperi estava necessitando de reparos na parte interna e externa, inclusive de que se esses serviços não fossem feitos, a imagem poderia ficar irrecuperável. No meado do ano levamos esse alerta para a prefeita Sheila Lemos, numa audiência que tivemos com ela na prefeitura. Prontamente ela respondeu que aquelas informações não tinham fundamento e que havia sido feita uma vistoria e nada foi constatado em termos de estragos em seu material na parte interna. Não foram apresentados laudos comprovando que o monumento não estava correndo risco de perda. No entanto, olhando com mais cuidado, qualquer leigo visitante vai perceber sujeiras na parte externa do Cristo, tanto em sua imagem como na cruz. Se não me engano, o monumento está completando 44 anos e, durante este período, não tem recebido a devida manutenção por parte dos governantes. Alguns deles fizeram uns “puxadinhos” em torno do Cristo, como está sendo realizado agora e sempre dão o nome de revitalização. A verdade é que Ele e sua área nunca receberam grandes obras que atraíssem mais visitas dos moradores e gente de fora. Continua abandonado e quando alguém chega ali é recepcionado por uma cachorrada. Algo tem que ser feito para mudar esse vergonhoso quadro. Já que o poder público não tem dado a devida importância, por que não passar a administração do Cristo para o setor privado ou uma instituição como a Igreja Católica, para explorar o ponto e torná-lo turístico, num cartão postal da cidade, como acontece em outros lugares?
O COVEIRO E A PROTISTUTA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Você que se acha
Sabido batuta,
Diz que a profissão
Mais do mundo antiga,
É a de prostituta,
Coisa que me intriga,
Coveiro é minha opção.
A atividade mais velha,
É a de coveiro,
Quando o primitivo,
Enterrou seu parceiro,
Com seu ritual nativo,
Disse o primeiro amém,
Em paz para o outro além.
A prostituta é sorriso e alegria,
Entre as luzes do cabaré;
Escuta lamentos de psicologia,
E no quarto faz sua putaria,
Finge que goza como uma Salomé.
De poucas palavras e sério,
Na labuta do cemitério,
O coveiro vê e ouve o que não quer:
Até de besta corno Mané;
Gentes falsas de óculos escuros;
Choros, lágrimas e histerias;
Amantes de casos obscuros,
Onde uns elogiam o defunto,
Outros que já deveria ter ido;
Juram sinceridade de pé junto,
E o assassino que reza pro falecido.



















