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:: 2/jul/2026 . 23:01

DUAS CARINHAS NO VIDRO TRASEIRO

(Chico Ribeiro Neto)

Estou no calorento e caótico trânsito de Salvador. São quase duas horas da tarde e enfrento um bruto de um engarrafamento na Avenida Paulo VI, na Pituba.

Alguém bateu em alguém ou então tem caminhão atravessado descarregando, Kombi de sorvete fazendo liquidação, três oficinas-estrela atuando, mais mesas de bar na pista e um guarda inteiramente descontrolado que só faz apitar.

Suspiro, enxugo o suor, olho pra cara do taxista ao lado, o que só faz piorar minha chateação. É quando algo à frente me chama atenção: dois garotos, de seus quatro ou cinco anos, ajoelhados no banco do fundo de um carro, começam a me dar adeusinhos pelo vidro. Fico sem responder, mas aos poucos e timidamente levanto a mão direita para acenar também.

Eles vibram e se agitam mais ainda no banco do carro. Novamente fico acenando e eles dando os adeusinhos cada vez mais rapidamente.

Os meninos usam farda da escolinha e começam a me fazer esquecer do engarrafamento. De repente, o de cara mais safada, com cabelo lourinho caído na testa, começa a fazer careta. Juro que tive vontade de responder a algumas – sei fazer boas caretas – mas fiquei com vergonha dos motoristas ao lado. Podiam até pensar que aquele engarrafamento estava deixando um maluco.

O carro se afasta só alguns metros, eles tomam aquele susto e, pra não caírem, apoiam-se um no outro. Riem de tudo, não dão a menor bola pro engarrafamento e agora começam a mostrar a merendeira, pasta, mochila, garrafa térmica e toda aquela pequena tralha de escolinha.

A cabeça vai longe, chega até a estrada Jequié-Ipiaú. Quando menino, gostava muito de dar adeus do ônibus para as crianças que ficavam naquelas casinhas onde Jequié começava a acabar pra começar a estrada.

Anos depois, causou-me espanto ver uma mãozinha de plástico que ficava presa ao vidro traseiro do carro e que dava adeus quando o veículo se movimentava. Muito sem graça, por sinal.

Volto ao engarrafamento, o suor escorre pelas costas, as caras em volta continuam a passar somente aborrecimento, mas aquelas duas carinhas à frente me confortam e chego até a ensaiar uma caretinha. Afinal  já estou acostumado é a receber histéricas buzinadas e até algumas “bananas” no trânsito.

Parece que agora o engarrafamento está terminando, o adeusinho deles vai ficando mais longe, até que o carro entra numa rua antes da minha. Tive vontade de segui-los até a escolinha, abraçá-los, beijá-los, pagar guaraná pros dois e dizer: “Vocês iluminaram hoje o meu dia”.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 5/12/1991)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

DESAFOGAR O CENTRO

  Ainda nesta semana estava conversando com um amigo sobre a necessidade urgente de desafogar o centro de Vitória da Conquista onde todas as decisões políticas, sociais e econômicas estão concentradas num só lugar. Todos os caminhos para resolver problemas burocráticos em repartições públicas, pagamentos, questões imobiliárias e outros “pepinos”, como se fala na gíria, levam ao centro, que se tornou um caos no trânsito e, principalmente, em termos de estacionamento. A Zona Azul se tornou uma torre de babel porque sempre está mudando de normas. Uma das soluções para desafogar o centro, conforme comentávamos, seria a criação de um Centro Administrativo unindo prefeitura e secretarias, questão que já foi posta em programas de candidatos em épocas de eleições. Além de solucionar vários problemas de circulação, oferecendo melhor qualidade de vida no aspecto humano, todos ganhariam com a instalação de um Centro Administrativo, sobretudo os usuários dos serviços públicos que iriam resolver seus problemas em menor tempo. A impressão é que os prefeitos eleitos sofrem certa pressão do setor lojista e temem apresentar um projeto que poderia contar com apoio estadual e federal no quesito recursos. Nos últimos 30 anos, Conquista experimentou um elevado crescimento, um dos maiores do Norte e Nordeste, só que houve um descompasso em comparação com a demanda populacional. A sua infraestrutura para os tempos modernos deixa muito a desejar. O centro, por exemplo, passou a ser um grande problema pelo acúmulo de pessoas e carros por metro quadrado. Os anos vão passando e a situação só tende a se agravar. Ir ao centro hoje é um tormento e se perde muito tempo, sem falar no estresse e na irritação. Falta planejamento e sobra desordenamento.

PEITO SECO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O leite sumiu,

O peito está seco,

Como o leito do rio,

No colo, a criança chora,

Nem a canção de ninar,

E o dedo na boca consola.

 

A mãe entra em desespero,

O pai em disparada,

Pela estrada corre,

Grita por amparo,

Mas o rebento morre.

 

O peito fica seco,

No sertão profundo,

Dos senhores da terra,

Onde a miséria explode,

Como na África da guerra,

Do sanguinário tirano

Que se diz enviado de Deus,

Impiedoso e desumano.

 

O peito está seco,

Na porta bate a morte,

E da fome foge o forte.

 

O peito está seco,

Como árido nordestino,

Não há tempo pra chorar,

O rato rói o intestino,

Lentamente até matar.





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