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:: 9/jul/2026 . 23:36

O JEITO DO SONHO CHEGAR

(Chico Ribeiro Neto)

O primeiro sonho veio numa garrafa estrangeira que chegou boíando na praia do Unhão, em Salvador. A garrafa estava muito bem tampada com uma rolha, mas dentro não tinha nenhuma mensagem. Foi fácil sonhar com o lugar de onde ela veio, os peixes que viu no longo trajeto e a cara de quem soprou um sonho ali dentro.

O segundo sonho chegou dentro do ônibus viajando pra Ipiaú, naquele estágio entre dormir e estar acordado. Tinha água no meio – nos meus sonhos o mar sempre aparece -, mas a conversa constante de três passageiros beliscava a película que separa o sonho da realidade.

Já  o terceiro sonho chegou cantando e parecia com uma moça magrinha que morava na Rua Tuiuti e tocava violino. Compenetrada, passava ligeirinho pelo meio do “baba” carregando o instrumento. Era um sonho vê-la andar.

Outros tantos sonhos chegaram nos volumes do Tesouro da Juventude, enciclopédia de 18 volumes que trazia o mundo. Era bom abrir um volume e saber como é que o tatu vive ou onde fica Tegucigalpa.

Dormir dentro de um teatro, durante um ensaio, foi também uma boa forma de sonhar. Estava ensaiando uma peça no Teatro Vila Velha  mas a cena em que eu entrava demorava tanto pra chegar que dava tempo de tirar um cochilo e sonhar com perdidos personagens, teimosos em não deixar o palco nem os bastidores quando o espetáculo terminava.

A atriz Olga Maimone, que morava num dos camarins do Vila Velha, sabia muito bem disso.

Mais sonhos chegaram com o cinema. Terminava de ver dois filmes e dois seriados – hoje conhecidos como minisséries – no Cine Santo Antônio e a cabeça explodia em imagens. Tinha sido um filme de guerra, com alemão e japonês sempre perdendo, e um caubói  com indio sempre morrendo.

A música, a carruagem passando lá longe e, quando a noite chega, aquele namorinho gostoso com a moça que chegou perto da fogueira, “só pra me aquecer um pouco, John”, doida pra ganhar um beijo. O banjo toca lá longe e o uísque corre solto. Tem um bocado de indio espreitando a barraca, mas amanhã cedo a cavalaria vai chegar tocando corneta e matar todo mundo sem morrer um soldado.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 15/6/1991)

 

FOGO NA SERRA!

  No último sábado passado (dia 04/07) ou, se não me engano, no domingo (dia 05/7), nossas lentes flagraram um grande incêndio no alto da Serra do Periperi que, pela cor da fumaça preta, poderia ser queima proposital de pneus. Por si só, isto já representa um absurdo em termos de agressão ao meio ambiente, principalmente na Serra que há quase 100 anos vem sendo depredada pela ação humana. Por ter ocorrido em final de semana, pouca gente percebeu e não vi e nem li nenhum noticiário na mídia. Esse incêndio durou por muito tempo e nem sei se lá estiveram o Corpo de Bombeiros e a fiscalização da Prefeitura Municipal para averiguar a situação e conter o fogo. Tudo indica que foi um ato criminoso premeditado. Além da poluição tóxica no ar, os moradores dos bairros mais próximos, na altura do Anel Viário, certamente foram impactados. Apesar de ter sido tombada no último governo do ex-prefeito José Pedral, por volta de 1996, a Serra do Periperi continua sendo alvo de invasões e degradações por negligência das administrações públicas que não montam uma estrutura adequada para protegê-la  dessas ações nefastas, como incêndios dessa natureza.

DINHEIRO E PODER

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Diabólicos e divinos:

O dinheiro e o poder

Traçam nossos destinos,

Flechas a nos sangrar,

No viver e matar.

 

Do escambo das mercadorias,

Do gado, semente e sal,

A troca negociável é farta,

Na Lídia da Turquia,

Do ouro e da prata,

Nasce o vil metal,

Lembro do meu velho corcel,

E a China inventou o papel.

 

O dinheiro e o poder,

Tudo é desigual,

O capital enforca o ser,

No contrato social.

 

O dinheiro compra até amor,

Ilude a tal felicidade,

O diabo entra como tentador,

O poder com sua maldade.

 

Oh, senhor deus dinheiro!

Que não chega aos miseráveis,

No poder quem manda é Zeus,

No sistema dos descartáveis.

 

 





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