Carlos González – jornalista

Depois de desembarcar no Aeroporto 2 de Julho e atravessar o verdejante bambuzal, o viajante é convidado a sorrir, por estar chegando à Bahia. O turista, que já recebeu o “bem-vindo” de uma “baiana” com traje excessivamente colorido, abre um sorriso de orelha a orelha. Mas, o morador de Salvador, que está indo para a Barra e bairros vizinhos, já prevê o que vai encontrar nesta época do ano.

A virada do ano, que se estende por quatro dias, abre o calendário de festas em Salvador, que, normalmente, deveria ir até o Carnaval. Nada disso. Criado por Carlinhos Brown, o “Arrastão” reúne timbaleiros e foliões no desfile que contraria os católicos, por coincidir com o início da Quaresma. Em 2019, os vereadores votaram (38 a 2) pelo fim da manifestação, mas o prefeito na época ACM Neto vetou o projeto de lei.

Nesses três primeiros meses do ano, Salvador se transforma na “Capital da Folia”. São ensaios de blocos, lavagens de escadarias e de becos, bênçãos das terças-feiras, festivais, fuzuê, pôr do sol no Farol, homenagem a Santinha, coroação do Rei Momo, pré-Carnaval nos bairros da periferia, lançamento de camarotes, banhos a fantasia e os embalos da ressaca (na semana seguinte ao Carnaval).

Candidato a reeleição, o prefeito Bruno Reis vira “arroz de festa”. Comparece inclusive às festinhas pré-carnavalescas, animadas por um cantor sertanejo, nos bairros da periferia da cidade, promovidas por candidatos a uma cadeira na “gaiola de ouro da Praça Municipal”.

Segundo o último Censo, a população de Salvador é de 2.418.005 habitantes. Nos últimos 12 anos a capital perdeu 257 mil residentes, que migraram para municípios vizinhos, em busca de emprego, segurança e de serenidade. A cidade ocupa a 17ª posição no quesito per capita familiar entre as 27 capitais do país e o Distrito Federal. No Nordeste está abaixo de Fortaleza, Recife, João Pessoa, Aracaju e Natal.

Meu colega e amigo Jeremias Macário lembrou neste mesmo espaço que há em Salvador mais beneficiários dos programas de renda do governo federal do que em São Paulo. Jovens de famílias pobres estão migrando para o Paraná e Santa Catarina, onde, além de sofrerem discriminação por serem nordestinos, se submetem a trabalhos análogos a escravidão.

Com apoio da Rede Bahia, Reis aposta todas as suas fichas em manter o circo armado até o dia das eleições municipais. Ele calcula que bilhões vão abarrotar os cofres da prefeitura com a chegada para o Carnaval de 800 mil turistas a Salvador, sem fazer correção dos que trazem a barraca nas costas e acampam em qualquer lugar, e dos que estão hospedados em navios de cruzeiros.

Depois da abertura do Circuito Dodô (Barra-Ondina), o Carnaval virou uma indústria que beneficia uma minoria, com a colaboração de uma massa que não tem consciência da realidade em que vive. O complexo industrial da folia, onde o Rei Momo é uma figura decorativa, é constituído pelos empresários musicais, cantores de axé, donos de blocos e de camarotes, corretores de imóveis, e os ramos de bebidas, hotéis, bares e restaurantes. Pequenos comerciantes de lanches e bebidas, comprimidos pelos foliões, passam uma semana em suas barracas, em péssimas condições higiênicas.

SOS Barra

“Tire este camarote do meu caminho que eu quero passar”. Este apelo está numa das faixas colocadas em vários pontos da Avenida Oceânica. O protesto é de iniciativa da Amabarra (Associação dos Moradores e Amigos da Barra), que há anos vem pleiteando junto aos gestores municipais e ao Ministério Público a mudança do Circuito Dodô para outro local.

Uma pesquisa feita no ano passado desaprovou a transferência para a avenida Octávio Mangabeira (trecho da Boca do Rio). A votação se estendeu a toda cidade, quando deveria ficar restrita aos residentes na Barra e Graça, que nesta época do ano são prisioneiros em suas próprias casas.

O Carnaval na Barra foi um dos motivos que me trouxe a Conquista. Por nove anos, como morador do bairro, onde se paga o IPTU mais caro de Salvador, testemunhei a ocupação do espaço público por enormes camarotes, que começam a ser montados um mês antes. Este ano, o dono de um deles levantou muros num dos trechos da praia de Ondina, com acesso exclusivo para os frequentadores, que pagam uma fortuna por um ingresso.

Participei de reuniões da Amabarra, onde comerciantes que nada têm a ver com o Carnaval fecham seus estabelecimentos por mais de uma semana; associados sobressaltados davam conhecimento da presença nas ruas do bairro de assaltantes de diversos pontos da cidade; outros manifestavam o receio de caminhar ou usar a bicicleta nas pistas da avenida devido a construção dos camarotes sobre os passeios; outros relatavam os entraves causados aos veículos, inclusive ambulâncias.

Podem me chamar de saudosista, mas do autêntico Carnaval da avenida Sete, das cadeiras amarradas nas árvores e postes, do desfile das grandes sociedades (Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso) e dos bailes nos clubes sociais, sobraram o trio elétrico de “Armandinho, Dodô e Osmar”, a passagem dos blocos afros e o bloco sexagenário “Paroano Sai Milhó”, “um oásis no Carnaval de Salvador”, como definiu Caetano Veloso.