julho 2026
D S T Q Q S S
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  


TRISTEZA E REVOLTA NO NATAL

Carlos González – jornalista

Meu amigo e colega Jeremias, o artigo publicado hoje pelo blog “aestrada” vai despertar um misto de tristeza e revolta entre seus leitores mais pobres. Aqueles que na noite do dia 24 de dezembro colocam seu “sapatinho na janela do quintal”. Tristeza, porque vão saber que o Papai Noel não virá; revolta, porque estão tomando conhecimento que o seu vereador, o seu representante no Legislativo de Vitória da Conquista, deve estar neste momento viajando para passar as festas de fim de ano num luxuoso resort em Porto Seguro.

Enquanto suas excelências, até mesmo os “devotados” evangélicos, estão se bronzeando nas praias de Troncoso ou Arraial d’ Ajuda, bebericando um “scotch”, você, eleitor sofrido, está escorando as paredes de seu casebre ou tirando a água das chuvas que molhou o pouco que lhe resta, ou destruiu sua pequena plantação. É no Natal que se nota com mais clareza que neste país a fartura e a escassez convivem lado a lado.

As eleições vêm aí. Breve, caro leitor da Zona Rural, você vai receber a visita do seu “amigo da onça”. Ele vai bater nas suas costas, beijar a mão de sua mulher e afagar as cabeças dos seus filhos. Depois de tomar um cafezinho com beiju de tapioca, ele vai pedir o seu voto, para permanecer mais quatro anos no casarão da Rua Coronel Gugé, recebendo mais de R$ 20 mil mensais, além dos penduricalhos (plano de saúde, carro, gasolina, verba de gabinete, etc), para “trabalhar” dois dias na semana.

Você já imaginou se os eleitores de um determinado município decidissem não votar nos candidatos a vereador? Eles teriam apenas os votos dos parentes e dos puxa-sacos, ou seja, os 29 partidos políticos (entidades criadas para receber as verbas do Executivo) não fariam o quociente eleitoral. Acredito que essa possibilidade nunca passou pela cabeça dos eruditos juízes da Justiça Eleitoral.

O vereador ou edil é uma invenção portuguesa, haja vista que essas singulares figuras da política – muitos atendem por apelidos ou se chamam Hitler, em São Leopoldo (RS) e em Juiz de Fora (MG) – só existem em países colonizados por portugueses (Brasil, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Cabo Verde). Em certos países, como Romênia, Espanha, México, Paraguai, Suécia e Estados Unidos, há a função de conselheiros não remunerados, escolhidos entre pessoas com serviços prestados à comunidade.

Humberto Brito, meu professor no antigo Instituto Normal da Bahia, conhecedor dos subterrâneos da História do Brasil, contou uma vez que, na sua fuga vergonhosa para o Brasil, D. João VI permitiu o embarque de alguns vereadores de Lisboa. A plebe ficou em terra para enfrentar sem armas os soldados de Napoleão Bonaparte. Além dos piolhos, que obrigaram as mulheres, inclusive a princesa Carlota Joaquina, a raspar as cabeças, o monarca fujão trouxe outras pragas que o brasileiro ainda não conseguiu se livrar.

Legisladores mais experientes, os representantes do país no Senado e na Câmara dos Deputados ditam as normas de comportamento, algumas ilícitas, assimiladas rapidamente pelos seus colegas das assembleias estaduais e pelas 5.570 câmaras de vereadores do país. Uma dessas práticas vergonhosas é a “rachadinha”, mantida em segredo, por motivos óbvios, por aqueles que perdem um pedaço do seu salário. O ex-deputado Jair Bolsonaro foi acusado, mas nada se provou, assim como seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e, mais recentemente, o deputado André Janones (Avante-MG).

Deputados federais de vários partidos de direita e centro-direita são membros do Centrão, um órgão virtual, cuja única finalidade é arrancar dinheiro do Executivo para aplicar em seus redutos eleitorais, sem necessidade de prestar contas. Os ex-presidentes Dilma Rousseff. Michel Temer e Jair Bolsonaro foram reféns desses maus políticos. Hoje, o presidente Lula é a bola da vez. Se não liberar as verbas os projetos encaminhados pelo Planalto não passam no Congresso.

 

Nos últimos meses o Centrão vem “investindo” na “indústria da seca”, em funcionamento no Nordeste do Brasil desde o Império. Aproveitando o estado de calamidade, por falta de chuvas, que castiga a região, deputados estão distribuindo, com o dinheiro das emendas parlamentares, caixas d’água, beneficiando os chamados “currais eleitorais”. Trata-se de uma política clientelista, que inverte prioridades, por não favorecer os municípios mais pobres, onde famílias precisam andar quilômetros para buscar água.

Um desses “barões da água”, é o deputado bolsonarista baiano Elmar Nascimento (União). Reportagem de “A Folha” revelou que ele manda e desmanda na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasp), responsável pela distribuição das caixas de armazenamento de água. Líder do seu partido na Câmara, Elmar chantageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com ameaça de levar toda sua bancada para a oposição caso fosse confirmada a demissão do chefe da Codevasp em Bom Jesus da Lapa (BA).

 

OS SALÁRIOS DE PARLAMENTARES E JUÍZES DEVERIAM SER CONGELADOS

Estamos em pleno clima natalino e nem é preciso dizer que as coisas se repetem, com a mesma ansiedade de comprar e comprar, todos induzidos pelas propagandas com o empurrão da mídia. A ordem é consumir e consumir o quanto puder e se endividar para depois negociar, sem falar na sujeira do planeta. Tem aquela frase de praxe que é “Feliz Natal”!  Papai Noel é o ponto alto da festa. O Cristo não passa de um coadjuvante.

Tem os presentes para os familiares, o do antigo amigo secreto, o chocolate, as nozes, as castanhas, as lentilhas, o tradicional peru e outros produtos importados para encher a pança. Estou falando para a classe dos abonados. Para os pobres tem as doações, as cestas básicas e o Natal sem fome. As matérias jornalísticas são as rotineiras, bem como os rituais de saudações, abraços e tapinhas nas costas.

Confesso que costumo misturar uma coisa com outra, mas que tem algo a ver com a pauta em questão. É que são tantos assuntos para abordar que fico atordoado. Mesmo assim, pegando o gancho do Natal, tem aqueles que se reúnem em grupos corporativistas e resolvem dar presentes para si mesmos com o dinheiro dos outros e ainda tentam justificar o injustificável.

Estou falando do caso de políticos e magistrados que em final de ano costumam dar seus presentes com recursos do povo. No caso especifico de Vitória da Conquista, os vereadores aprovaram numa votação relâmpago, que levou exatos 45 segundos (sexta-feira 15/12), conforme informou meu companheiro jornalista Juscelino Souza, o aumento de 55,86% dos seus próprios salários, passando de pouco mais de 12 mil reais para dezoito mil e setecentos e quarenta e dois, sob o argumento de que estão sem reajustes desde 2013. Esse reajuste, a partir de 2025, representará o segundo mais alto entre os dez maiores municípios baianos.

Por outro lado, a Câmara de Conquista, como já comentei aqui, carece de uma maior transparência para que o povo fique sabendo o que está ocorrendo com as verbas públicas. Pouca gente sabe que os vereadores já haviam aprovado, no último dia 04/12, um aumento na verba de gabinete de 30 mil para 50 mil (manutenção da estrutura funcional dos gabinetes) no decorrer de apenas dois anos.

Além dessa verba de gabinete, os parlamentares ainda têm direito a dois mil e seiscentos para cobrir gastos com despesas necessárias ao desempenho do mandato e trezentos reais para ligações telefônicas, sendo que os membros da Mesa Diretora podem gastar até mil reais. Cada vereador tem um carro com combustível pago pela Casa.

Pelo que ganham, inclusive com as verbas de gabinete e outros penduricalhos, carros, combustível (olhe aí as rachadinhas!), é de dar pena! Só faltam pedir uma vaquinha para a sociedade. Coitados, pelo que tanto trabalham, eles merecem ser bem recompensados! Antigamente vereador era como os conselhos municipais que nada recebiam. Não se esqueçam que o número de parlamentares vai passar de 21 para 23 nas próximas eleições.

Pela realidade socioeconômica brasileira dos salários mínimos, das desigualdades sociais tão profundas (as maiores do mundo), pela pobreza extrema de milhões de famintos, pelas moradias em casebres e favelas em ruelas e becos de esgotos a céu aberto, os salários dos parlamentares em geral e dos magistrados, especialmente dos tribunais de ministros, deveriam ser congelados até que o país saísse desse quadro de miséria.

Hoje um ministro do Superior Tribunal Federal ganha quase 42 mil reais por mês (tem quase três meses de férias), passando para 44 mil a partir de fevereiro de 2024 e para 46.300,00 em 2025. Na magistratura brasileira existem casos aberrantes onde existem juízes que recebem mais de cem mil reais em seus contracheques, depois de uma série de bônus. Tentaram corrigir essas distorções e não conseguiram.

Um deputado federal ganha quase 34 mil e um senador recebe por mês mais de 39 mil reais.  Esses salários correspondem a 15 vezes mais do que a renda média dos brasileiros. A remuneração de um parlamentar é maior do que a do chefe do executivo. Aqui não se está colocando as verbas indenizatórias e outros benefícios. Por essas e outras, o Congresso Nacional é um dos mais caros do mundo.

A aprovação de aumentos pode ser legal e constitucional, de acordo com a lei carimbada por eles mesmos, mas é imoral e injusta. Quando se fala nisso, o cara é logo taxado de esquerdista comunista, sem contar moralista metido a merda. Enganem os idiotas, incultos, alienados e os submissos, mas não a todos por tanto tempo. Estão aí as latentes discrepâncias da nossa democracia, em resumo as injustiças sociais nela embutidas.

EM REVITALIZAÇÃO AINDA DESPEJAM ESGOTOS NA LAGOA DAS BATEIAS

AS OBRAS CONTINUAM LENTAS NA LAGOA DAS BATEIAS

Logo na entrada para quem vai visitar a Lagoa das Bateias sente-se o mau cheiro de esgotos, o que significa que a água está contaminada, mas tem gente desavisada que se arrisca tomar banho no local por mais que prepostos da Prefeitura Municipal tenha advertido sobre os riscos para a saúde.

Por muitos anos tomada pelas tabuas e sujeiras de todo tipo, somente agora o poder público resolveu realizar serviços de revitalização, mas, na verdade, muita coisa ainda tem que ser feita para que a Lagoa se torne um ponto turístico e de lazer da cidade.

A parte leste, próximo ao Bairro Santa Cruz, ainda está ocupada pela vegetação, e logo na saída para a Avenida Brumado, os esgotos ainda continuam caiando na Lagoa, sem contar que uma área vem sendo utilizada como pastagem para animais.

Existe muita propaganda para pouca coisa. Mesmo assim, aos poucos as pessoas começam a frequentar o entorno da Lagoa para a prática de exercícios físicos e também conhecer de perto as obras prometidas pela prefeitura, que continuam lentas.

A Lagoa das Bateias foi uma iniciativa do Governo do PT, de José Raimundo Fontes, há mais de oito anos, mas foi abandonada quando deveria ter sido conservada e preservada, para evitar mais gastos para sua limpeza como está sendo feito agora.

São coisas da política do nosso Brasil, essa de um governante adversário não dar seguimento e zelar pelo bem público feito pelo outro. Trata-se de uma mentalidade atrasada quando se está em jogo o dinheiro do contribuinte. Quando se parte para a recuperação, muito pela pressão do povo, os investimentos têm que ser maiores. Tudo isso gera desperdícios.

Tudo é feito no sentido de se ganhar uma eleição, como é o caso dessa Lagoa que, somente agora, está sendo revitalizada e não se sabe se todo serviço será concluído, ou se vai ficar apenas pela metade. Vamos esperar no que irá acontecer no próximo ano ou se é mais uma enganação para inglês ver.

 

 

A COMERCIALIZAÇÃO DOS ESCRAVOS CRISTÃOS, RESGATES E A CONVERSÃO AO ISLÃ

As investidas dos muçulmanos da Berbéria (Argel, Túnis e Tripoli) na captura de escravos brancos ou cristãos na costa da Espanha e da Itália, por mar e por terra, tiveram seus picos durante o século XVI e uma queda a partir dos séculos seguintes porque as províncias costeiras se estruturaram melhor para combater os corsários reis, sem contar a queda populacional dessas regiões.

Muitos cristãos escravizados se convertiam ao islã, livremente ou forçados pelos turcos muçulmanos. Outros, por vingança contra os nobres da terra retornavam como renegados traidores se integrando o grupo de captores. Os corsários em terra, às vezes, optavam em pedir os regates nos próprios locais das apreensões. Como a maioria não tinha dinheiro para pagar, terminava recorrendo a intermediários que se apossavam dos bens dos capturados.

Esses relatos estão no livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, do historiador e escritor Robert Davis, especialmente no capítulo “Captura e Comercialização dos Escravos” onde ele cita que nos tempos do cônsul inglês em Trípoli, Thomas Baker, o rapto de escravos no Mediterrâneo era de fato algo como uma “vocação legítima”.

“Ao longo de todo século anterior (XVI), essa foi uma prática desempenhada em larga escala por cristãos e muçulmanos (hostilidade imperial entre os Habsburgos e Otomanos), para quem a captura de prisioneiros escravos em campo de batalha era a recompensa tradicional em razão da vitória nos conflitos inter-religiosos armados”.

Os confrontos armados entre os turcos e seus aliados e as forças cristãs da Espanha, Itália e Portugal levaram milhares de cativos para os mercados de escravos em Fez, Argel, Constantinopla, Malta, Livorno, Lisboa e Marselha. Por parte turca, segundo ele, a prática de escravização de cristãos foi elevada a uma espécie de política estatal, principalmente entre os anos 1530 e 1570, quando Kheir-ed-din Barbarosa e Dragut Reis foram nomeados pelo sultão de Constantinopla e os vice-reis da Berbéria como almirantes de suas frotas.

Eles podiam atacar o Mediterrâneo quando bem quisessem, bloqueando portos, como Gênova e Nápolis, ameaçando Roma e saqueando dezenas de cidades litorâneas de médio porte na Espanha e na Itália. As incursões eram praticamente anuais, como a do Hassan Pasha, em 1582, um renegado Veneziano, paxá de Argel, e comandante de 22 galés e galeotas com pelo menos 1500 janízaros soldados.

De acordo com Robert, “os traficantes de escravos do Atlântico se especializaram em transportar e vender cativos, mas raramente se envolviam em outros tipos de comércio ou no trabalho sujo e potencialmente perigoso de capturar sua própria mercadoria para despachar na Passagem do Meio”.  Em sua visão, essa atividade era deixada para Estados Africanos rivais ávidos para vender negros cativos, capturados em batalhas ou incursões.

No entanto, não era isso que os historiadores narravam. Os capitães de navios e armadores de escravos africanos também se envolviam em outras negociatas arriscadas na venda de produtos clandestinos e até armas.  Quanto aos berberes, conforme o autor do livro, nunca conseguiram criar uma logística tão diversificada de abastecimento ou distribuição.

Na questão da escravidão branca, existia um clima de conflito imperial e jihad que predominou na Bacia do Mediterrâneo ao longo do século XVI, bem como pela liberdade individual de empreender durante o século XVII. Quando o comércio era frutífero, não era difícil atrair uma boa tripulação. Muitos homens entravam na empreitada até mesmo sem salário.

Uma viagem bem-sucedida que trazia navios, bens e escravos podia transformar todas as partes envolvidas em pessoas ricas, até mesmo os escravos que recebiam uma quantia suficiente para depois comprar suas liberdades.

O historiador conta que a grande maioria dos cristãos escravizados na Berbéria era apanhada quando os corsários tomavam os navios em que eles viajavam ou raptados durante as incursões nas ilhas mediterrâneas ou nas costas da Espanha, Itália e na Grécia.

No século XVI os ataques terrestres eram mais frequentes e deixavam os povoados e cidades em pânico. Muitos fugiam para as montanhas deixando bens para trás. Províncias ficaram despovoadas por muitos anos. Milhares de aldeões começaram um grande êxodo para as grandes cidades, como Nápoles e Palermo. Muitas vezes, as investidas litorâneas costumavam render mais do que os ataques às embarcações. As defesas costeiras eram pouco guarnecidas.

 

 

 

O GAVIÃO E O AGRESTE

Tanto o Gavião como o Carcará são típicos do sertão nordestino. São pássaros predadores que me fazem lembrar do agreste seco, voando alto e baixo na caça de uma presa, como pintinhos seguindo suas mães em quintais e terreiros na zona rural.  Como repórter-jornalista, em matérias sobre seca na região sudoeste, por exemplo, com meu companheiro fotógrafo Zé Silva, flagrava muito a presença do gavião na paisagem cinzenta cortando o céu azul da sequidão, ou em altas árvores na espreita de um animal menor rastejante no chão árido, como um calango qualquer. Por falar em agreste, nessa onda calorenta, provocada há anos pela ação destruidora do homem ao meio ambiente, o nosso Nordeste, inclusive Vitória da Conquista, é o que mais sofre com o aquecimento global, atingindo em cheio os pobres do campo. Somente na Bahia são 90 municípios que decretaram situação de emergência por causa da seca. O gado e outros animais menores já estão morrendo de fome e sede, sem falar no ser humano que também é alvo da falta de água e alimentos para sua sobrevivência. A esta altura, sem chuvas há meses, as plantações foram perdidas e não existe mais água nas cacimbas, nos tanques e nos pequenos açudes. Até o gavião sofre com esse tempo castigante dos tradicionais carros-pipas eleitoreiros que nunca atendem a demanda do sertanejo. Há séculos que o quadro continua o mesmo de penúria.

NA BOCA DA NOITE

Poeminha de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O pôr-do-sol tabaréu,

Como fogaréu em chama,

Naquela montanha,

Se desfaz em dama,

No coito do açoite,

Na boca da noite.

 

Depois da capineira,

O camponês toca suas vaquinhas,

Como se fossem sua corte,

Do leite, suas rainhas,

E a nambu canta na capoeira,

As aves voam pro seus ninhos,

No ar que exala cheiro de vinhos,

Na boca da noite,

No pernoite do rancheiro tropeiro,

Que glorifica o nascer do dia,

Da natureza sabedoria.

 

Na boca da noite,

No urbano de agonia,

Multidões vivem em correria,

Entre o sensato e o insano,

Encanto e desencanto,

Nos lotados metrôs,

Ou na festa que começa,

Nos palcos dos shows,

No teatro, a peça,

No cabaré,

Do entra quem quer.

Pode ainda vagar pelas esquinas,

Pelos corpos das meninas,

No asfalto do assalto,

Na boca da noite.

 

 

AINDA EXISTE, E NÃO EXISTE MAIS…

Desde a invasão programada de Cabral com suas naus, lotadas de depravados, corruptos e tarados que aportaram em terras brasis, passando pelo período colonial e do império, ainda existe o banho de cuia, o homem que chama a mulher de intuia e imprestável, a casa que não tem energia elétrica e água encanada, o candeeiro e o fifó, a lata d´agua na cabeça, os esgotos a céu aberto nos casebres e favelas, o sarampo, a catapora, a papeira, a diarreia, outras doenças antigas e as mazelas sociais.

Ainda existe a corrupção e o suborno, a burocracia que emperra o processo de desenvolvimento do país, o patrão que ainda trata o empregado de escravo, o noivo que usa o cravo na lapela, a malandragem maliciosa, o gado que berra no agreste nordestino com fome e sede, a cacimba barrenta e a seca, os carros-pipas eleitorais, um Nordeste ainda atrasado, o retirante e milhões que ainda não têm o que comer.

Ainda existe a parteira, o curandeiro, a rezadeira, a feira livre e o escambo de mercadorias. Ainda existe para o criminoso o “não sei, o não vi” e o “eu sou inocente”. Ainda existe o “amigo da onça” que bate em suas costas e lhe chama de irmão. Ainda existe a procissão e o artesão de santos, o croché, o bordado e outros itens.

Ainda existe a injustiça e a profunda desigualdade social, a violação dos direitos humanos, o racismo, a homofobia, a discriminação e o preconceito. Ainda existe o relojoeiro, o sapateiro, o ferreiro, o alfaiate, o amolador de faca, o funileiro, o trapaceiro do conto do vigário do falso bilhete sorteado, o golpista e a falta de educação com milhões de analfabetos.

Ainda existe o voto de cabresto praticado pelos novos coronéis da política que prometem e nada fazem, as castas dos três poderes, as eleições compradas, as leis que são quebradas, a Constituição vilipendiada, o marido que bate na esposa e mata para limpar a honra, o estupro, a pedofilia, o encesto e o Severino que é enterrado em cova rasa. Ainda existe o namoro proibido e os vinis para tocar aquelas inesquecíveis, imortais e eternas canções.

Não existe mais a criança e o jovem que respeita e obedece ao professor e o idoso, o filho que dá benção ao pai e à mãe quando vai dormir e acorda de manhã, o gosto e o hábito pela leitura, a admiração pelos escritores, a carta escrita no papel para um parente distante, a vergonha na cara, o amigo sincero (coisa rara em extinção) e a moça donzela, nem o casamento virgem.

Não existe mais a preservação da natureza, das nascentes, sem a devastação das matas, a precisão das estações do ano, os ventos e as nuvens certas que anunciam a chegada das chuvas, o menino e a menina que brincam de ciranda, de roda, de esconde-esconde, de pião, de bola de gude no buraco, de peteca e nem o homem que vende o quebra-queixo na rua.

Não existe mais a máquina de datilografia, a montaria em jumentos para ir às cidades (agora são as motos), o casamento para sempre, a palavra como acerto de um acordo, tendo como aval o fio do bigode, as tropas que cortavam as trilhas dos sertões, as boiadas e os boiadeiros nas estradas, as rancharias no campo, a saudade dos berrantes e a vida em calmaria.

Não existe mais os trens de passageiros transportando gente, bruacas e bugigangas. Não existe mais o agueiro, o vendedor de lenha nas ruas das cidades, o carregador de malas, o médico da família, a pessoa de total confiança, o andar a pé nas ruas das grandes cidades nas madrugadas e as serestas para as amadas. Não existe mais o telefone fixo e nem o gravador tamanho tijolo, quanto mais aquele objeto, produto ou peça que não se acabava.

DIA NACIONAL DO FORRÓ

Não poderia deixar de registrar e passar em branco o Dia Nacional do Forró, pouco comemorado na data de 13 de dezembro. Na verdade, forró virou sinônimo de Luiz Gonzaga, o rei do baião que, se vivo fosse, estaria completando 111 anos.

É o nordestino “cabra da peste” que saiu daqui e foi divulgar nossa cultura no Rio de Janeiro, na Feira de São Cristóvão. Aliás, ele levou o nosso forró para todo Brasil e para o mundo com canções memoráveis e eternas, como Asa Branca, Triste Partida e tantas outras.

Por ser um ritmo principal das festas juninas do Nordeste, mais ainda me identifico porque me sinto orgulhoso de ter nascido nessa região, tão rica culturalmente. No entanto, quando se fala do “Gonzagão”, temos que lembrar também de seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas, sem esquecer Patativa do Assaré, que fizeram com ele lindas canções.

O Dia Nacional do Forró não é tão celebrado quanto o samba quando ritmistas deste estilo fazem festas em vários cantos do país, inclusive com “arrastões” e carros de som pelas ruas e avenidas atraindo multidões. Por que será? Entendo que o samba tem tanto seu valor quanto o forró, dois ritmos populares que estão ligados às raízes da nossa gente ancestral.

Aproveitando a ocasião, quero deixar aqui o meu recado, como sempre faço em meus comentários na época dos festejos juninos. Trata-se do meu repúdio sobre a descaracterização que vem sofrendo o nosso forró ao longo dos últimos anos numa mistura de lambada, arrocha, axé, pagode e até rock, não que seja contra quem gosta desses sons.

Fico muito triste quando vejo prefeitos em pleno São João contratarem bandas a preços altos, com o dinheiro do contribuinte, que nada têm a ver com o nosso forró. Deveria haver uma lei nacional rígida aprovada pelo Congresso, proibindo esse tipo de coisa, com punição severa para qualquer executivo municipal que colocasse no palco cantor ou banda que não fosse forrozeira.

Não me venha com essa que tal artista “famoso” de outro ritmo atrai mais a população. Muitas vezes são lixos musicais sem letra e conteúdo que deformam mais ainda o nosso povo e os levam a esquecer das nossas origens. Sem memória não temos identidade.

Coloquem enredos de qualidade do nosso forró legítimo, chamado “forró pé de serra”, que enche qualquer praça, como já aconteceu aqui em Vitória da Conquista. Tudo depende de uma decisão política com seu coordenador ou secretário de Cultura.

Vamos sim, valorizar o nosso forró que nasceu no Nordeste e encanta os nordestinos nas festas. Não adianta decretar o Dia Nacional do Forró se não houver por detrás uma campanha dos governantes e de todos artistas no sentido de valorizar o nosso patrimônio imaterial.

Forró é Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará, Paraíba, Sergipe, Alagoas e Bahia. Forró é a sanfona, o zabumba e o triângulo. São dois pra lá, e dois pra cá. São letras que falam da nossa terra, das tradições e dos costumes da nossa gente.

 

DEU A LOUCA NO MUNDO

Se o nosso “Maluco Beleza” baiano Raul Seixas estivesse vivo tinha muitas coisas para falar em suas canções. Como se diz no popular: Pratos cheios para compor. Deu uma loucura no clima com o aquecimento global de quase 50 graus, provocado pelo homem, mas o culpado é o El Nino. Parece que toda humanidade tomou algum lisérgico daquele bem pesado. Estamos viajando no surreal.

O Brasil ninguém leva a sério e tome leis e decretos para acabar com as segregações, com os ódios e as intolerâncias. O Governo do PT continua cometendo os mesmos erros de sempre. Só se fala em falas pretas, músicas pretas, literatura preta, empoderamentos e outros movimentos equivocados que, ao invés de unir, só fazem nos dividir e separar. Não mais as lutas de classes, mas de gênero e cores.

Nossa língua portuguesa está virando um “portuinglês” com a incorporação de tantos termos dos ianques. Coisa de louco nas fachadas e vitrines das lojas! Nossa mídia também entrou nessa onda. A tendência é o português virar uma língua morta como o latim. Nas redes sociais, todos escrevem errado com suas besteiras de fofocas e boatos. A mediocridade destronou a meritocracia. O Malafaia só falta vestir uma saia para enganar seus seguidores doentes mentais e incultos. Viva a lavagem cerebral evangélica!

E a nossa literatura? O escritor e o poeta ficam catando um leitor aqui e acolá com seu livrinho na mão mendigando uns trocados. Os “artistas” da música só fazem lixo com letras banais porque é “disso que o povo gosta” – como dizem por aí. O pintor e o escultor não passam de seres solitários porque somente poucos apreciam suas artes. O ator está sem palco e “pouca merda”.

Nossa velha geração da cultura, do pensar, ler, filosofar e refletir está morrendo e, seu lugar, está sendo ocupado por uma multidão de jovens que só querem aprender apertar um parafuso ou fazer um robô, uma máquina qualquer para servir ao mercado do consumo. Sociologia, geografia, história, filosofia, letras e outras matérias de humanas não têm mais valor. O homem sapiens está se acabando. Estamos trocando o iluminismo pelas trevas do obscurantismo.

No decadente superficial Estados Unidos, o Baden ainda que ser presidente e o maluco do Trump quer voltar ao poder. Na Rússia, o Putin encarnou-se num Stalin do Kremlin, ou Czar imperador e manda massacrar os ucranianos. O “Bibi” dos judeus de Israel está exterminando os palestinos com suas bombas assassinas em nome do holocausto. A ONU não tem voz e virou uma piada.

Os ditadores estão espalhados por todos lugares disseminando crueldade, como na Hungria, Bielorrússia, na Turquia de Erdogan e outros países asiáticos (Malásia). Na América do Sul, o Maduro apodreceu no galho e agora quer invadir a região de Essequibo, na Guiana, que vive na extrema pobreza com três mil soldados.

Na Argentina vizinha (eu serei você amanhã), o povo em desespero elege o maluco Mileit, cópia do Trump e do Bozó brasileiro. Em plena evolução tecnológica da internet do mundo virtual que invadiu nossa privacidade (agora está aí a inteligência artificial), vivemos no escuro humano do terror e da violência brutal primitiva. Aliás, estamos só regredindo.

Deu a louca no mundo do PIB (Produto Interno Bruto) onde só importa o crescer a produção, o concentrar de rendas, como se isso significasse desenvolvimento social. Enquanto isso, o planeta padece com a destruição em massa de gases tóxicos, lixos e sujeiras. A supremacia, a seletividade e a tirania vão matando de fome e doenças os milhões de pobres, como na África. Estamos em plena loucura coletiva!

Quer ser louco também? Junte-se a eles, ou fique de fora como um excluído renegado, arcaico, nojento e decadente que não acompanhou o processo evolutivo da competição a qualquer custo. Você que não concorda com tudo isso não passa de um marginal e anormal. Tem que entrar na loucura total, ou morrer. Você não é um terráqueo. Você é um extraterrestre, um ET de Varginha.

SARAU A ESTRADA DISCUTE “TROPEIRISMO E CAMINHOS NO BRASIL IMPÉRIO”

Eles iam abrindo trilhas, fazendo caminhos e estradas para comercializar suas mercadorias em locais distantes do nosso Brasil, principalmente no Nordeste. Suas lidas eram cheias de obstáculos e tinham uma alimentação diferenciada, como a farofa de farinha, o feijão, a carne seca e a rapadura. Entre os ingredientes inventaram o feijão tropeiro até hoje apreciado por todos.

Estamos falando dos tropeiros, tema que foi debatido no último Sarau A Estrada do ano e que teve como palestrante a estudiosa no assunto Maris Stella, da Catrop, que abriu os trabalhos na noite de sábado (dia 9/12), no Espaço Cultural A Estrada, e fez uma ampla explanação sobre o tropeirismo no Brasil e em Vitória da Conquista.

De acordo com o livro-cartilha “Memória Histórica do Tropeirismo em Vitória da Conquista”, patrocinado pelo IPAC, Governo do Estado e apoio de outras entidades, tropa, na definição da própria palestrante, é um sistema de transporte composto por animais cargueiros. Eram utilizados jegues ou jegas para cargas mesmo pesadas e distâncias curtas, enquanto burros e mulas serviam para lugares mais longe com maiores cargas. Este conjunto era conduzido por tropeiros.

O tropeiro, segundo Maris Stella, poderia ser o dono ou o condutor dos animais. Conduzia a exportação de produções agrícolas locais como cachaça, açúcar, farinha, couro, rapadura, dentre outros. Trazia sal, cerveja, querosene em latas, tecidos, grãos, produtos manufaturados pelas indústrias europeias, como óculos, leques, livros, chapéus, bebidas em geral, dentre outros utensílios. “Nesse trânsito, valores e culturas eram compartilhadas em ranchos e povoados ao longo dos caminhos”.

O livro fala ainda sobre o que é tropeirismo? Um fenômeno sócio-histórico e cultural decorrente do trânsito e das mediações estabelecidas entre os tropeiros e as populações com que estiveram em contato. O capítulo segundo destaca a Composição e Funcionamento de uma Tropa, composta de homens e animais. Em geral trabalhavam duas ou mais pessoas, cada um com suas funções   e 12 animais formavam uma tropa.

A obra ainda descreve sobre de que forma se transportava as cargas, ensina como se faz uma bruaca (peça artesanal, cuja matéria-prima era o couro), diz como era a jornada diária de um tropeiro, fala das rancharias, como se alimentavam, se vestiam, como os tropeiros transmitiam e aprendiam conhecimentos e, por fim, o tropeirismo em Vitória da Conquista e região.

Maris Stella informou que o tropeirismo em Conquista começou a partir da formação do arraial pelo seu fundador João Gonçalves da Costa. Na pontuação do professor Itamar Aguiar, João Gonçalves foi um dos maiores abridores de estradas no Brasil, a mando do próprio rei de Portugal, para o transporte do ouro e das mercadorias, muitas das quais vindas do litoral a partir de Cachoeira e Nazaré.

Aqui, como assinala a palestrante, eles faziam rancharias na antiga Rua Grande (Centro da cidade), inclusive num barracão onde hoje é a primeira Igreja Batista. Sobre o tema, Maris Stella falou também do tropeirismo que ocorreu em Sorocaba, em São Paulo, um centro que recebia tropeiros vindos do sul (Paraná, Rio Grande do Sul) e até mesmo do Nordeste.

Fim dos debates, o Sarau continuou com seu formato de treze anos, com cantorias de viola do nosso músico e compositor Walter Lajes, com os causos do nosso companheiro Jhesus, declamações de poemas por Edna, Jeremias Macário, Vandilza, a anfitriã que a todos recebeu com um delicioso bode cozido, nosso Dall Farias e outros poetas.

Luis Altério postou no grupo de escritores conquistenses, no Zap, que “o sarau foi maravilhoso e a palestrante foi o ponto alto. Aqui parabenizo o professor Itamar, Vandilza, Jeremias e outros que fomentam este sarau. Vida longa ao Sarau A Estrada!. Temos que valorizar estes eventos. São coisas que fazem a diferença… Vivam os encontros e a vivacidade da arte e do conhecimento!” Nós agradecemos as presenças de todos e que em 2024 venham outros saraus já nos seus 14 anos de existência.

Como sempre, o evento transcorreu num clima fraternal de bate-papo cultural, troca de conhecimentos e varou a madrugada com os comes e bebes de tira-gostos, cerveja e vinho entre a biblioteca e o quintal. Foi uma passagem dos treze para os 14 anos, com o próximo já marcado para fevereiro, com o tema sobre a ditadura civil-militar de 1964 quando completa 60 anos, tendo como foco a resistência que aconteceu em Vitória da Conquista contra o regime de opressão.

Fizeram parte do nosso tradicional evento, Juanice Flor, Luis Altério, Lidia, Manoel Domingos, Nilde, Adiramélia, Clovis Carvalho, Lucas Carvalho, Humberto, Rosângela, Viviane Gama, Igor Brito, Maria das Graças, Odete, Caique Santos, Neto, Rozane Martins, Cleo, Maria das Graças Bispo Santana e outros que abrilhantaram nossa festa.

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia