ASSIM NÃO DÁ PARA VER TANTAS BARBARIDADES E FICAR CALADO
PARABÉNS AOS ESCRITORES CUJO DIA (25/07) NEM FOI LEMBRADO E COMEMORADO EM VITÓRIA DA CONQUISTA. A IMPRESSÃO É QUE NOSSA CULTURA FOI SEPULTADA POR AQUI NESSE SERTÃO DA RESSACA.
O que mais incomoda é o silêncio dos bons – assim dizia Martin Lutter King. Também me faz lembrar da antiga Roma dos 500 anos antes de Cristo quando o tribuno Marco Túlio Cícero proferiu seus discursos catilinários contra Lúcio Sérgio Catilina, militar e senador célebre que tentou destruir a jovem república romana, criada após a queda do último rei da dinastia etrusca. De família proprietária de extensas terras, Catilina iniciou desde cedo sua vida de crimes, ganância e crueldades. Cheio de dívidas, partiu para a conspiração contra a sociedade.
De volta aos nossos tempos atuais, os catilinas estão aí praticando seus atos bárbaros, destruindo nosso planeta com suas chaminés poluidoras de gases tóxicos, destilando ódio por onde passam com suas ideias extremistas de racismo, homofóbicas, xenofóbicas e misóginas, instigando os outros a fazer o mesmo. Até quando esses catilinas vão abusar da nossa paciência? Assim não dá… meus amigos! Coloquem a mão na consciência!
Com tantas catástrofes, guerras, tragédias, ciclones no Brasil que ninguém imaginaria que um dia ocorreria, terremotos, tufões, devastações, geleiras se derretendo, labaredas queimando a Grécia e calor de 50 graus no hemisfério norte, o mar se tornando lixeira do mundo, o consumismo que só avança, a terra está se revirando em seu ventre dando todos os sinais do seu fim apocalíptico, não com aquelas figuras descritas pela Bíblia onde Deus vem a deslizar entre raios e trovões para o juízo final. Quem está comandando essa destruição é o próprio homem. O apocalipse está aí, só não ver quem não quer, ou se faz de surdo e cego. Há muitos anos, o próprio ser humano está se autodestruindo.
O homem cria e inventa centenas e milhares de projetos científicos, tecnológicos (a maioria só para ganhar mais dinheiro) e medicinais (poucos longe do alcance dos pobres), mas não faz uma fórmula para a humanidade se tornar mais humana, social e amorosa. Gandhi dizia que “se um único homem atingir a mais elevada qualidade de amor, isto será suficiente para acalmar o ódio de milhões”.
Pena que poucos acreditam nisso! Estão mais para a violência, acumular posses e bens a qualquer custo, sem ética e escrúpulos. Agora só se fala em inteligência artificial e todos aplaudem, sem ao menos refletir suas consequências. Não vai demorar muito e logo os tecnólogos vão ser dispensados de seus empregos como essa máquina mais recente, que está ficando atrasada, está fazendo, principalmente no campo agrícola.
Assim não dá… meus amigos! “ …E você aí parado, sentado numa poltrona de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar… É o nosso cancioneiro, poeta “maluco” que nos alerta para não ficar no comodismo, na alienação ilusória de que a vida é assim mesmo. Basta ter o meu e o resto que se dane! Basta de tanto egoísmo e individualismo e pouco senso de coletividade! Vivemos num mundo desolador. Esta é a realidade, nua e crua.
Assim não dá para ficar vendo idiotas jogar pedras em terreiros de candomblé e nada fazer para impedir. Assim não dá para ver raivosos xingar e cuspir na cara de pessoas negras. Assim não dá para fazer de conta que nada está existindo de mal lá fora! Assim não dá para ficar assistindo tantos foguetes cortando os céus enquanto milhões passam fome nas Américas, Ásia e África. Bilhões de habitantes – cerca de cinco – vivem expostos a dificuldades de utilização de recursos hídricos.
Não são os discursos acadêmicos, cheios de teorias mirabolantes de palavras incompreensíveis, que vão nos tirar dessa enrascada na qual nos metemos, tudo pelo ter, sem respeitar a nossa mãe natureza que está nos dando a resposta todos os dias, devolvendo nossos entulhos e sujeiras. Marxistas, leninistas, maoístas, trotskistas, stalinistas (se ainda existem) vamos aterrissar na realidade da nossa aldeia.
Assim não dá para ver a nossa memória e a nossa cultura sendo demolidas e sepultadas por governantes que acham que investir nos setores do conhecimento e da educação é jogar dinheiro fora porque não dão voto. Não dá para ficarmos inertes diante de tantos absurdos dessa sociedade que não mais tem consciência política e não liberta seu espírito para o bem. Estamos sendo cúmplices de um futuro inabitável no planeta para as novas gerações. Assim não dá…
JARDIM BOTÂNICO, O PORTAL QUE FAZ VOCÊ ENTRAR NO MUNDO DA NATUREZA
É claro que existem o monumento ao Cristo, o Pão de Açúcar, vários museus, a Praia de Copacabana e outros lugares encantadores, mas se for a Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, nunca deixe de visitar o Jardim Botânico onde depois de enfrentar o trânsito infernal, ruas e avenidas estressantes numa selva de pedras, você penetra no portal da tranquilidade e da paz interior.
Lá dentro, vendo plantas, orquidários, cactários, chafariz dos museus, o portal da antiga Academia de Belas Artes, pequenas cachoeiras, Lago e Cômoro frei Leandro, estufas das samambaias, as palmeiras imperiais, cenários de filmes e novelas, a coleção de plantas medicinais, ruínas da antiga fábrica de pólvora (os pilões), chafariz das marrecas, o jardim bíblico, o jardim japonês e tantas espécies raras da Mata Atlântico, você esquece completamente do mundo agitado lá fora.
Não resta dúvida que o Jardim Botânico é um santuário da natureza fundado por D. João VI, em 1809, que nos transmite paz de espírito. O visitante se sente mais humano e seguro desse mundo de louco das grandes capitais onde as pessoas passam por você de cara fechada que não lhe dá condições nem de parar para pedir uma informação. Todo mundo tem pressa e os carros passam velozmente, cada um com seu destino de sobrevivência.
Ao ultrapassar esse portal, o turista recebe um folheto onde estão lá as proibições, como não entrar com plantas e sementes, qualquer tipo de animal, instrumentos musicais, aparelhos sonoros, arrancar ou retirar plantas, flores, folhas e frutos, não escrever ou desenhar em árvores, permanecer nos gramados, colocar a mão ou entrar em lagos, jogar bola, comer fora dos locais autorizados, entrar em estado de embriaguez, dentre muitas outras proibições.
Para quem é amante da natureza, principalmente, é um local encantador que lhe faz refletir sobre a vida e como a humanidade tem destruído o nosso meio ambiente. Lá dentro, as pessoas conversam e falam até mais baixo como forma de respeito a tudo que existe ali de exuberante e rico. Sua calma só é perturbada quando você atravessa o portão de saída e retorna à realidade cruel da vida. Depois desse passeio, dá vontade de não mais sair e ter que encarar a agitação.
“DO CORPO INSEPULTO À LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA”
UM ESTUDO DO CASO DINAELZA COQUEIRO
COLEÇÃO EDUCAÇÃO, MEMÓRIA E RELIGIÃO (VOLUME 3)
A professora aposentada de Matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba), mestra em Pedagogia Profissional pelo ISPETP-Cuba, pesquisadora do Museu Pedagógico-Uesb, doutora no Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb, Gilneide Padre, com seu conhecimento do assunto, elaborou uma obra digna de estudo sobre o desaparecimento da guerrilheira conquistense Dinaelza Santana Coqueiro que lutou no Araguaia durante a ditadura civil-militar de 1964.
Quero aqui agradecer seu livro a mim entregue e dizer que seu trabalho é bastante consistente porque a autora não se prendeu apenas à trajetória da personagem em questão, mas fez uma profunda contextualização sobre aquele triste período da repressão onde mais de 300 pessoas foram desaparecidas depois de presas, torturadas e mortas.
Seu trabalho é um apanhado geral sobre o que foi o regime onde Gilneide levanta questões importantes da política de memória e memória política com base em estudiosos que remontam aos tempos da antiga Grécia e outras civilizações desde os tempos antes de Cristo.
A autora não se fixou apenas nas entrevistas aos familiares de Dinaelza e foi mais longe nos estudos quando cita várias obras de estudiosos e presos políticos que foram vítimas da ditadura e se debruçaram no tema, os quais tive o prazer de ler para concluir meu livro “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”. Sinto-me honrado por meu nome estar também incluído em sua pesquisa esclarecedora sobre os fatos.
Antes de tudo, recomendo uma leitura apurada da sua obra para entender aqueles tempos de chumbo onde milhares de brasileiros lutaram pela causa da liberdade e da democracia. Infelizmente, depois de quase 60 anos de tormentos, poucos conhecem essa história, que não mais se repita, principalmente nossos jovens que, ainda recente, foram contaminados pela onda negativista da extrema direita do governo passado.
Posso afirmar que é uma obra bem amarrada e contextualizada, fonte de pesquisas para outros interessados que queiram escrever sobre o assunto. Na introdução do livro, Gilneide fala de Dinaelza, terceira dos seis filhos do casal Junília Soares Santana e Antônio Pereira Santana, nascida no distrito de São Sebastião (Conquista) e que depois foi morar em Jequié. Fez o curso de Geografia na Universidade Católica de Salvador onde foi líder militante com outros companheiros no combate ao regime dos generais.
Seus irmãos Diva, Dilma, Dinorá, Dirceneide e Getúlio ainda hoje choram pelo luto de um corpo insepulto, o qual ainda não foi fechado ritualmente, conforme reza a nossa cultura. Dinaelza foi casada com Vandick Reidner Pereira Coqueiro e os dois ingressaram no PC do B. Perseguidos políticos e procurados, o casal optou por lutar na Guerrilha do Araguaia no início dos anos 70 no governo carrasco do general Médici.
Como pontuou a professora Gilneide, “desde o final da década de 1970, seus familiares vêm empreendendo incessante luta em busca do seu corpo insepulto”. Sobre essa questão, a autora cita Panizo (2012) quando declara que o desaparecido é um sujeito ativo, e, por meio dele, mantém-se a busca da memória, verdade e justiça; busca não apenas restrita aos desmandos do período ditatorial, mas que assume atualidade, na medida em que vai se ampliando na luta pelos direitos humanos alhures e aqui.
“Com relação aos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, o que hoje se sabe é que todos os guerrilheiros combatentes da terceira campanha estão mortos” – assinala a autora da obra. Acrescenta que os familiares dos desparecidos políticos, ainda nos dias atuais, são submetidos à tortura interminável, até que um ponto final seja colocado nessa história.
O projeto “Brasil: Nunca Mais”, arquitetado por D. Paulo Evaristo Arns, da Igreja Católica, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright, assegura “uma prática de tortura muito mais cruel do que o mais criativo dos engenhos humanos”. Como bem ressaltou Gilneide, no caso da Guerrilha do Araguaia, em que não houve inquéritos, e, mais ainda, houve ação determinada do Estado para apagar qualquer vestígio daquele confronto, a situação fica bem mais difícil.
“É possível que corpos tenham sido deixados insepultos na mata ou que tenham sido removidos de um lugar de inumação para outro com maior dificuldade de ser encontrado, ou podem ter sido lançados na água dos rios e mares”. Em seu livro, a pesquisadora fala de ritos de passagem, separação, ritos de margem e ritos de agregação.
Desses ritos, destaca as eras do homem de Neandertal, Paleolítico e Neolítico. Nas palavras de Martin, “o homem é tradicionalmente conservador no culto aos seus mortos e a mudança das culturas reflete mais lentamente nos rituais e nos costumes funerários do que na evolução da vida cotidiana”.
Por fim, queria aqui deixar a minha opinião de que a Anistia de 1979, planejada pelos generais da linha dura, foi intencional e visou abrir caminhos para o processo de limpeza da área e proteger os torturadores de seus crimes, mais do que propriamente anistiar os presos políticos.
Essa anistia, digo, deixou feridas abertas que jamais serão curadas porque não houve um acerto de contas com os verdadeiros opressores. Não contentes, torturaram também a nossa memória, diferente da Argentina, do Chile e do Uruguai, nossos vizinhos, que fecharam as feridas com a punição dos criminosos.
DEMOLIRAM O PRINCIPAL
O Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista foi contestado pela divulgação de uma nota, neste final de semana, de repúdio pela derrubada do Instituto de Educação Euclides Dantas, mais conhecido como Escola Normal, localizado na Praça Guadalajara. Na verdade, não foi todo o colégio, mas demoliram sim a principal parte que são os arcos arquitetônicos que simbolizavam a marca da Escola Normal, idealizada pelo professor Anísio Teixeira.
Além dos arcos que se foram do nosso imaginário histórico que identificavam a instituição na cidade, destruíram o auditório onde eram realizados eventos escolares e atividades culturais, como shows musicais, peças teatrais e até mostras de cinema. Então, demoliram o mais importante de significativo que retratava o Instituto. Esta marca de Anísio Teixeira só existe agora a da Escola Parque, em Salvador.
Foi como se cortasse a cabeça de um ser humano, restando apenas o corpo, para depois se fazer uma reforma que irá totalmente descaracterizar o formato arquitetônico do prédio que já estava incorporado na paisagem do local, no caso a Praça Guadalajara. O Instituto de Educação, pertencente ao estado, foi inaugurado em 1952 no governo de Régis Pacheco.
AS INSTRUÇÕES DE “TERROR” E UM MATUTO NA “CIDADE MARAVILHOSA”
Para quem tem medo de avião e quem também não tem, como lembra o cantor, compositor e poeta cearense Belchior em sua bela canção, é no mínimo assustador e até cheira a contradição.
No sábado passado fui à “Cidade Maravilhosa”, que já não tem muita coisa disso diante de tanta violência e, na preparação para a decolagem, fiquei a matutar com as instruções de segurança dada pela tripulação antes do “pássaro” voar aos céus rumo ao nosso destino.
Primeiro entra um membro da tripulação com a cara feia e bem séria e vai transmitindo as instruções gravadas, mil vezes repetidas em cada viagem. Se não me engano, começa pelas máscaras de oxigênio que caem no caso de haver despressurização. “Antes de ajudar alguém, ajuste a sua”.
A coisa vai ficando sombria com o andar do “papo” esquisito. Logo bate a danada da morte na cabeça. Essa aeronave tem duas saídas de emergência na parte traseira de cada lado, duas no meio e mais duas na frente.
O mais arrepiante que dá vontade de você pedir para abrir a porta e sair, vem no final. Em caso de um pouso na água (coisa mais rara de ocorrer), pegue seu colete salva-vidas que está embaixo da poltrona e sopre no canudo para encher de ar.
A esta altura, o viajante que estiver atento, porque quase ninguém presta mais atenção, já está nervoso e pensando como vai ter uma conversa com São Pedro lá na porta do céu. Pede perdão de seus pecados e até confessa para a mulher ao lado, caso ela esteja, que já deu uma pulada de cerca ou de muro.
É nessa hora que dá vontade de dizer para o instrutor ou instrutora: Vá para a puta que te pariu com suas informações de terror! Se esse gigante voador cortante do vento e do ar der um treco em algum motor ou equipamento e começar a cair, meu amigo, não sobra uma viva alma.
Vamos no popular e deixar desse lero-lero porque todo mundo vai morrer mesmo. Olha, se essa máquina embicar em direção a terra, já era, não sobra ninguém para contar a história. Esqueçam as instruções. Na agonia, muitos corações param de bater lá em cima mesmo.
Tudo bem! Temos um alento que é a afirmação dos estudiosos e técnicos da aviação de que “esse bicho” aí é um dos meios de transportes mais seguros do mundo. Portanto, relaxa, meu camarada, porque lá embaixo pode ser bem pior!
Na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro aterrissei no “Elefante Branco” chamado de Galeão e depois percorri uma trilha de túneis e avenidas de violência, exposto a um tiroteio no meio do caminho.
Ainda bem que cheguei ileso em meu destino, no meu caso no Bairro das Laranjeiras e, como sou tricolor até que me senti envaidecido, mas o trânsito e o formigar de gente em correrias me deixou atordoado, como se fosse um matuto nordestino da Bahia em terras estranhas.
As pessoas cruzam meu caminho com caras fechadas. Ninguém liga para ninguém. Fiquei no apartamento do meu filho onde a janela do quarto bate bem de frente com o vaivém louco de veículos que soltam gases tóxicos no ar durante 24 horas. Não dá muito para levantar bem-humorado, mas procuro disfarçar o incômodo.
Não conheço bem a cidade, mas resolvo ir sozinho ao Bairro do Flamengo, meu adversário nas “batalhas” futebolísticas. Com duas máquinas fotográficas, resolvi, por segurança, colocá-las na mochila.
Meu primeiro contato foi com o porteiro com um bom dia e fui logo indagando se dava para ir andando até o meu ponto na rua Ferreira Viana, no hotel Windsor Flórida. Disse que era um pouco longe e me recomendou pegar um taxi ou um Uber. Não sou simpático a essa empresa capitalista norte-americana que invade países e tira o pão da boca dos nossos taxistas.
Como tenho formação jornalística e aprendi a ter outras informações, atravessei a rua e logo vejo um gari em seu trabalho diário de limpeza. Prestativo e atencioso, me ensinou e chegar até lá e garantiu que dava para ir na paleta. “Segue direto o tempo todo até o Largo do Machado. Chegando lá é só perguntar que qualquer um vai lhe indicar a posição certa do hotel”.
São dois pontos de vistas diferentes. Um que fica todo dia sentado vigiando quem entra e sai no prédio. O outro roda o dia todo e tem uma noção do longe e do mais perto que pode ser alcançada sem a necessidade de um carro. Decidi seguir o gari e fiz meu exercício num percurso em torno de um quilômetro e meio ou dois.
Fui perguntado aqui e acolá sempre para alguém sentado num banco de jardim ou um motoqueiro parado numa esquina. Visei gente mais humilde e nunca àquelas pessoas carrancudas no corre-corre do dia a dia, mas cair na besteira de abordar um moço no celular. Mudo e surdo nem respondeu ao meu bom dia.
JOGO TUDO NA GAMELA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Minhas contas de luz e água,
Faturas dos cartões de crédito:
Tudo é só débito,
Toda vez como freguês.
O selvagem capital,
Me trata como faquir,
Que toma banho na gamela,
Ainda me cobra,
Conta paga,
Para ir na camela conferir,
E fico a olhar tudo que quitei,
Todo sangue que já dei.
Logo vai chegando,
O outro mês:
Nem sei mais o que gastei:
Jogo tudo na gamela,
Depois nos arquivos,
Como mortos inativos.
Jogo tudo na gamela,
No banho que lá tomei,
Quando criança esperança,
No campo ou na favela,
E quando morro,
Nessa vida de aventura,
Num caixão apertado sem largura,
Só tenho direito a uma vela.
Jogo tudo na gamela,
Essa remela,
Do trabalhador,
Tratado como escravo insano,
Como nos tempos,
Do tráfico africano.
CONSELHO DE CULTURA REPUDIA DEMOLIÇÃO DA ESCOLA NORMAL
Em reunião realizada ontem (dia 19/07/2023), na sede da Casa Régis Pacheco, o Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista aprovou, por unanimidade de seus membros, uma nota de repúdio pela demolição do Instituto de Educação Euclides Dantas, mais conhecido como Escola Normal, localizado na Praça Guadalajara.
A instituição de ensino, uma das mais antigas de Conquista por onde passou alunos que hoje são personagens importantes e representativas da nossa cultura e intelectualidade, não somente em âmbito regional e estadual, era uma unidade pertencente ao Governo do Estado.
A comunidade conquistense nem sequer foi ouvida sobre esse processo de destruição da Escola Normal que, em seu lugar, será construído um complexo esportivo. Os conselheiros afirmaram ser uma triste notícia e propõem que pelo menos em sua área seja erguido um memorial para que sua memória não seja totalmente extinta.
O Instituto representa uma história para a cidade, principalmente por ter beneficiado dezenas de gerações e milhares de cidadãos. Naquela escola foram realizados jogos de basquetebol, vôlei, futebol de salão e outras modalidades esportivas, sem falar nas atividades culturais, como peças teatrais e musicais.
Um antigo aluno do colégio disse em tom de tristeza que “se vai uma parte das nossas vidas”. O oftalmologista Armênio Santos, por exemplo, declarou que se sente indignado. Em nota nas redes sociais, destacou que cada dia, edificações que constituem nossa história/memória, estão sendo destruídas, com a omissão permissiva dos poderes públicos.
A Escola Normal foi inaugurada em 20 de março de 1952 pelo governador Régis Pacheco e pelo prefeito Gérson Sales, mas, desde a década de 30, já se falava sobre a necessidade de uma instituição desse tipo em Conquista, sobretudo porque naquela ocasião, o então diretor da Instrução Pública do Estado da Bahia (Secretaria da Educação), Anísio Teixeira, reinaugurava a Escola Normal de Caetité, em 1926. A Bahia era governada por Góes Calmon.
De acordo com a revista “História da Educação em Conquista”, escrita pelo saudoso jornalista Luís Fernandes, o professor Euclides Dantas, juntamente com Francisco Bastos e o então prefeito Deraldo Mendes, pleitearam junto ao interventor Federal da Bahia, tenente Juracy Magalhães, uma escola normal.
Em 1935 foi inaugurado o Grupo Escolar Barão de Macaúbas, primeira escola estadual deste município que, durante muito tempo, ostentou o status de melhor casa de ensino da cidade. Em 29 de janeiro de 1950, pelo decreto número 14.296, foi criada a Escola Normal de Vitória da Conquista e autorizada sua construção. Foi a primeira instituição de formação de professores da cidade.
“FLUXO E REFLUXO” XXVIII
LISTA DOS NAVIOS NA PRAÇA DA BAHIA, MOVIMENTO DAS EMBARCAÇÕES ENTRE BAHIA E O GOLFO DO BENIM E LOCAL DE ORIGEM DOS NEGROS.
Nos apêndices de sua obra, “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger faz uma extensa lista de navios capturados pelos cruzadores ingleses. Cita que entre 1811 e 1812, os dez primeiros vasos aprisionados pelos comandantes da Inglaterra receberam um total de 500 libras esterlinas em indenização pela convenção luso-britânica de 21 de janeiro de 1815.
Entre os navios aponta o Brigue Calipso, Bergantim Vênus, Goleta Mariana, Bergantim Prazeres, Sumaca Lindeza, Flor do Porto, Americano, dentre outros. De 1814 a 1820 dezesseis foram condenados em Serra Leoa. Foram beneficiados por meio de uma revisão pela comissão mista luso-britânica em Londres, destacando o Brigue Bom Sucesso, Bergantim Conceição, Triunfo Americano, Correio São Thomé e outros.
Sobre o movimento dos navios, Verger explica não ser fácil fazer uma reconstituição dada a raridade de documentos existentes. Ele dividiu os estudos em quatro períodos: o tráfico legal no Golfo do Benim entre 1678-1815, tráfico legal no sul do equador, de 1815 a 1830, tráfico clandestino de 1831 a 1851 e o período posterior à extinção após 1851.
Esses navios se movimentavam em vários lugares, como ilhas Trindade, Cabo das Palmas, Costa da Mina, Costa da Malagueta, Cabinda, Molambo, ilhas de S. Thomé e Príncipe, Cabo Verde e Fernando Pó. Verger fez uma pesquisa no Arquivo Público da Bahia a respeito do assunto, entre 1678 e 1815, época em que o tráfico se torna ilegal ao norte do equador.
Em 1678, os traficantes mencionavam o grande serviço prestado na busca de escravos na Costa da Mina para a Bahia, em razão da falta de mão-de-obra nos engenhos e canaviais. Em 1700 é lembrado que não poderá ser transportado nenhum tabaco senão o de terceira categoria. Em 1720 foi proibida a venda de pólvora e outro tipo de munição na Costa da Mina (Golfo do Benim).
Após 1743, ocorre uma diminuição do número de navios em razão do monopólio concedido a 24. A partir de 1756 ocorre um aumento devido a abertura do comércio na Costa da Mina. Em 1808 acontece a abertura dos portos brasileiros a outras nações com a chegada da família real de D. João VI.
Um fato interessante é que no início do tráfico negreiro, os traficantes escolhiam nomes de santos para seus navios, prevalecendo o de Nossa Senhora, especialmente da Conceição, do Rosário, do Amparo, da Boa morte e por aí. Mais tarde surgiram os nomes de deuses pagãos, personagens históricas e diversos que representavam sorte, como Ventura, Esperança e Fortuna, isto em final do século XVIII e durante o XIX.
Os escravoss vindo à Bahia tinham várias origens africanas, destacando os jejes (adjás) do Damomé, atual República Popular do Benin, os iorubás da região da Nigéria, cangoleses, benguelas, angolas, moçambicanos, Cabinda, São Thomé, Mundubi, Barba, Ladá, Corabani, Molambo, com uma grande variedade de etnias.
A INVASÃO DOS GAFANHOTOS
Vitória da Conquista, a capital do sudoeste baiano, segundo a última pesquisa do IBGE, tem cerca de 370 mil habitantes. Em termos de veículos em dias úteis da semana quando a cidade recebe gente de vários municípios da região, fala-se em 150 a 200 mil. Confesso que não sei o número de motos (o núcleo do Detran deve ter esses dados), mas houve uma invasão significativa desse meio de transporte nos últimos anos, os gafanhotos, com a consequente elevação de mortes e acidentes no trânsito, provocados, na maioria das vezes, pelos próprios condutores que não respeitam os sinais, principalmente os semáforos. Já vi muitas vezes, fora do centro, onde não existe o radar das câmaras, esses “gafanhotos motoqueiros” invadirem o sinal vermelho. No trânsito, eles cortam de todos os lados, costuram e aparecem repentinamente em seu retrovisor. É um tremendo susto! Na maioria das vezes, os motoqueiros culpam o motorista de quatro rodas e juntos pulam em seu cangote como se fossem “gafanhotos”, esbravejando e lhe xingando. Querem lhe bater. Nem sempre a culpa é do veículo grande. Certa vez um passou por mim na contramão e arrebentou o retrovisor do meu carro. Sumiu na poeira. Não estou aqui incentivando a intolerância no trânsito, mas os motoqueiros precisam ser mais prudentes e conscientes, e não somente colocar a culpa nos veículos maiores. Com o crescimento acelerado da cidade, está ficando cada vez mais difícil dirigir em Conquista. Imagine quando chegar a 500 mil habitantes. Tem que haver um melhoramento na infraestrutura urbana para acompanhar esse aumento populacional, com mais carros e motos rodando nas ruas. Como diz a ciência: Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.
O SILÊNCIO E OS RUÍDOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Na magia do meu campo,
Na alquimia da natureza,
Das águas correntes a roncar,
Entre pedras e cachoeiras,
Em meu sertão profundo,
Escuto o canto dos pássaros,
Sem os ruídos dos corações,
Invejosos dos bárbaros,
Das traiçoeiras competições.
Sou o silêncio sem os ruídos,
O mergulhar em meu eu interior,
O zunido da abelha na flor,
Para nela polinizar,
Sem os ruídos dos instintos,
Egoístas da sedução,
Labirintos da exposição,
De si mesmo para divagar,
Nos toques do celular.
O silêncio vale ouro.
Digo ser reflexão,
Da alma o tesouro,
Absinto da razão.
Fortaleça seu silêncio,
Para dar voz ao silêncio,
Contra os ruídos capitais,
Das injustiças sociais,
E não ao silêncio sepulcral,
Que causa tanto mal.
























