ONDE ESTÁ O AMOR?
Autoria de Jeremias Macário
Um dia me perguntaram,
Onde está o amor?
E eu respondi assim:
Está na arte do artista,
No bruto que também ama,
Cada um com sua chama.
Está em Nietzsche,
Do desejo, desejado,
No Cristo,
De amar o próximo
Como a ti mesmo,
No amor à primeira vista,
Narcisista interessado,
E desinteressado.
Tem o platônico aristotélico,
O amor ágape transformador,
O saudoso distante bélico,
O do Vinicius,
Eterno enquanto dura,
O do Jobim,
Do filme “Amor sem Fim”
O do “Jardim de Allah”
O das juras do altar,
Na alegria e na dor,
Que só a morte nos separa,
Até no ventre do Saara.
Está na mãe que lhe gera,
No tempo de espera.
No velho solitário da esquina,
No doce olhar menina.
Está nas aves que cortam o céu,
Na abelha que faz o mel,
Na natureza do universo,
No verso do poeta,
Ou na pena do escritor,
Que sempre falam de amor.
O EMPRÉSTIMO E O SÃO JOÃO
PEGARAM A NOSSA CULTURA E JOGARAM PARA DEBAIXO DO TAPETE COMO SE FOSSE LIXO
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista realizou ontem (dia 31/05) uma sessão mista sobre o empréstimo de 160 milhões de reais solicitado pela Prefeitura Municipal e na sequência uma solenidade em homenagem às festas juninas, que foi esvaziada pela grande maioria dos parlamentares e da plenária logo após a aprovação do projeto do executivo.
O ato de esvaziamento foi uma falta de educação por parte dos vereadores e dos presentes à sessão, bem como uma prova incontestável de como é tratada a nossa cultura, como uma coisa sem importância, inútil e sem interesse, quando, na atualidade os equipamentos culturais (Teatro Carlos Jheová, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha) do município se encontram fechados há anos por falta de uma reforma nas respectivas unidades.
É como se a cultura não fizesse parte das nossas vidas e das nossas almas, e somente obras de infraestrutura (calçamentos, drenagens e pavimentações de ruas) nos bairros resolvessem tudo. Infelizmente vivemos num país inculto onde a arte não tem valor algum. Como cultura não dá voto, joga-se ela debaixo do tapete como se fosse um lixo. Vá dizer que sem arte não existe vida e você será por certo tripudiado!
O empréstimo de 160 milhões de reais a ser contraído através da Caixa Econômica Federal foi aprovado pela maioria dos 21 vereadores, inclusive pelo grupo do PC do B, menos os quatro edis da bancada do PT (Valdemir Dias, Viviane, Jacaré e Alexandre Xandó) que argumentaram endividamento do município e o mesmo que dar um cheque em branco para a prefeita Scheila Lemos.
Houve até vaias e xingamentos para os que votaram contra, sob alegação de que eles se posicionaram contra o povo, só que não se tem certeza quando esses recursos serão liberados depois dos processos burocráticos e se serão mesmo investidos nos projetos de pavimentação, principalmente nos bairros de Panorama, Porto Seguro, Jardim Guanabara dentre outros. Alguns até sonham que as obras sejam semelhantes aos serviços feitos na Avenida Olívia Flores.
Não sou de forma alguma contra as pavimentações e esgotamento sanitário de ruas em bairros, cujos moradores convivem há anos com vias de chão batido, na lama quando chove e na poeira nos períodos de estiagem. Há anos que essas obras estão sendo prometidas e nada tem sido concretizado.
Quem vive nessa situação precária tem pressa, como quem passa fome. No entanto, é bom que se frise que não vivemos somente disso. A cultura também tem pressa e é ela que forma a consciência política do cidadão para não ser ludibriado e enganado pelos políticos, especialmente em época eleitoral.
O que mais me decepcionou foi a debandada geral, quando no final da sessão, por volta das 11 horas, a promotora do evento do São João, vereadora Lucia Rocha, abriu os trabalhos. Só ficaram os artistas sanfoneiros, alguns personagens da área da cultura, os convidados que fizeram composição da mesa e os parlamentares Ricardo Babão, Bibia e o tenente Muniz.
Nas falas, todos defenderam a contratação de músicos forrozeiros durante os festejos juninos (Santo Antônio, São João e São Pedro) no lugar de bandas de outros ritmos (arrocha, axé, rock, lambadas, sertanejos) pagas com altos cachês por determinados prefeitos nordestinos.
Os pronunciamentos, incluindo o do secretário de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer- Sectel, Xangai, foram no sentido de que seja mantida a tradição do forro, da dança, dos costumes e dos hábitos, como das comidas e bebidas típicas da época.
O presidente do Conselho Municipal de Cultura, Jeremias Macário, pediu mais atenção para a cultura em Conquista e fez um breve relato sobre a história, as origens e o surgimento do forró (Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Marinês e Jackson do Pandeiro) a partir da década de 1930, com sua popularização nos anos 50 e a introdução de outros instrumentos no ritmo nos anos 70, 80 e 90 (Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elba, Falamnsa, Mastruz com Leite, Calcinha Preta e tantos outros) .
Do forró, com sua dança arrasta-pé, termo africano forrobodó, nasceram o baião, criado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, o xote vindo dos salões da Europa (Alemanha) e o xaxado com o cangaço nordestino. Suas letras tratam de temas do Nordeste, da vida do povo dessa região, de amor e saudades da terra natal.
A FORÇA DO “DUPLICA SUDOESTE”
Somente com a força de todos segmentos da sociedade conquistense, especialmente dos políticos em geral (deputados, senadores, prefeitos, governador e vereadores) será possível quebrar essa corrente da Via Bahia que há anos está impedindo a duplicação da Rio Bahia (BR-116), sobretudo em Vitória da Conquista e nos municípios em torno da sua região.
O empresário José Maria Caires, que está à frente do Movimento Duplica Sudoeste disse que essa obra é de fundamental importância para Conquista como para toda região sudoeste onde apresenta uma economia cada vez mais crescente, sem falar no grande volume de cargas e veículos pequenos que circulam na rodovia.
De acordo com Caires, que vem acompanhando todo processo de negociação, o movimento está se fortalecendo com o apoio dos deputados da região sudoeste, principalmente com a chegada do senador Otto Alencar. Em sua opinião, o “Duplica Sudoeste” tende a se concretizar com a força dos parlamentares, mas uma decisão política no âmbito estadual e federal é primordial.
Segundo ele, “precisamos equacionar e debelar dois entraves, sendo um deles a fome voraz e insaciável da Via Bahia que precisa tirar pontos questionáveis dos acordos. Atualmente o presidente da empresa, José Bartolomeu, tem ficado maior parte do tempo em Brasília, tendo em vista que o cerco tem fechado para a concessionária”.
O outro ponto apresentado por José Maria que tem dificultado e criado impasse diz respeito ao Tribunal de Contas da União. As demandas são muitas e o movimento não pode enfraquecer. O TCU também precisa ceder alguns questionamentos que estão emperrando as negociações. “Precisamos ficar atentos, pois os pleitos que chegam ao governo são maiores do que a capacidade de atender”.
José Maria assinalou que o movimento é apartidário. Adiantou que está procurando todos os políticos que tiveram votos na Bahia e já ocorreram reuniões entre vereadores e deputados que levaram as reivindicações para o governo federal.
Diante dessa reação, informou que o assunto se tornou pauta do ministro da Casa Civil, Ruy Costa. Foi, inclusive, constituído um grupo de trabalho para atuar junto a Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT.
O FORRÓ DAS FESTAS JUNINAS E SUAS ORIGENS QUE FORAM DETURPADAS
A maior festa nordestina, que fala dos costumes, dos hábitos e da cultura do povo dessa região, está batendo em nossas portas, mas, infelizmente, de uma forma descaracterizada de quando surgiu no final do século XIX através dos bailes populares chamados de “forrobodó” (do francês faux bourdone), “forrobodança” ou até mesmo de “forrobodão” – conforme ressalta a professora, escritora, arte-educadora e fotógrafa Laura Aidar.
No entanto, de acordo com ela, o forró é uma expressão genuinamente nordestina por ser uma manifestação cultural ampla, e seu termo tem diversos significados podendo servir para designar o ritmo musical (hoje misturado), o estilo de dança e a festividade onde acontece. Antigamente era preciso molhar o piso do local, pois as festas eram feitas em chão batido.
Historiadores e pesquisadores relatam que o forró nasceu mesmo em 1930, mas foi popularizado e globalizado a partir de 1950 com Luiz Gonzaga, o Trio do Forró, a migração nordestina para outros estados do sul e sudeste e a divulgação da mídia, principalmente do rádio quando era o veículo predominante do povo e dos artistas.
O termo “forrobodó” pode ser também africano, mas existe ainda a versão inglesada da festa do “for all” quando engenheiros britânicos estiveram em Pernambuco na construção de uma estrada de ferro. O arrasta o pé tem uma certa semelhança com o toré indígena. Dentro das festas juninas temos as quadrilhas tipicamente francesas.
Ainda segundo estudiosos, foi o povo que popularizou o forró em 1937, com o forró na roça de Manuel Queirós e Xerem. Uma das primeiras empresas a gravar o ritmo do forro foi a RCA Victor. As letras falavam sempre de temas nordestinos, amores, saudades, da vida, se bem que atualmente houve muitas mudanças nas composições e nos ritmos, incluindo o arrocha, a lambada e até mesmo o axé.
Com o passar do tempo o forró foi dando sequência a outros gêneros, como o baião, criado por Luiz Gonzaga (o rei do baião) e Humberto Teixeira, o xote, o xaxado, o coco, embolada, o arrasta-pé (arrastar o pé no chão para não fazer poeira) e o rojão. Dizem que o baião tem sua origem no ludu e na polca.
O xote, do shottische (alemão), era uma dança de salão trazida da Europa para o Brasil no meado do século XIX quando surgiu o xote pé de serra (forró pé de serra), com letras jocosas e humorísticas.
O xaxado, na forma de um sapateado de sandálias arrastadas no chão, tem sua ligação com o cangaço como dança masculina porque entre eles não haviam mulheres para fazer o par. Fazia-se a dança em círculos ou em fila indiana, conforme citação do folclorista Câmara Cascudo.
Além de Luiz Gonzaga, temos ainda grandes nomes que enalteceram e popularizaram o forró, como Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos, Sivuca e tantos outros. Na década de 1970, Zé Ramalho, Elba Ramalho e Geraldo Azevêdo criaram outras sonoras para o forró com novos instrumentos, como a guitarra, Baixo, o teclado, o sax, a bateria e o violão. Antes o forró era composto somente pelo triângulo, a sanfona e a zabumba.
No final da década de 90 fizeram sucessos as bandas Falamansa, Forroçacana, Rastapé, Trio Forrozão, Raiz do Sena e Bicho do Pé, entrando na onda das novas tecnologias e da globalização. No início dos anos 2000 tivemos ainda o surgimento do Forró Universitário.
O Dia do Forró é celebrado em 13 de dezembro em homenagem ao nascimento de Luiz Gonzaga, só que não é tanto festejado como o Dia do Samba. A verdade é que neste século de existência, o forró foi deturpado e hoje os prefeitos contratam bandas e cantores que nada têm a ver com o ritmo. São os chamados oportunista que recebem altos cachês com o dinheiro do povo.
MAIS UMA FEIRA LITERÁRIA NO INTERIOR
Vitória da Conquista não faz, mas cidades da região e baianas, como Belo Campo, Caculé, Cachoeira, Mucugê, Lençóis, Barreiras e tantas outras de menor porte realizam sua feira literária de valorização do livro, da leitura e da cultura. É uma pena, visto que aqui tem tantos talentos que sozinhos lutam para lançar e mostrar suas obras!
A feira literária contou com a promoção da prefeitura municipal, universidades, secretarias de cultura e educação, além de outras entidades da cidade que juntos não mediram esforços para divulgar a literatura. É como sempre digo que Conquista em termos de eventos culturais ainda é uma província. Não me venham com essa de que Conquista é uma cidade cultural, só com base em Elomar e Glauber Rocha!
Agora mesmo, a Academia Barreirense de Letras recebeu escritores e leitores para o lançamento de mais de 30 livros nos mais variados gêneros e estilos literários, como parte da 6ª edição da Festa Literária Internacional de Barreiras (Flib), evento que aconteceu entre os dias 23 e 25 de maio.
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Com a temática central “Literaturas Afro-Brasileiras e Africanas: conectando mundos”, o festival movimentou diversos outros espaços fechados como o Centro Cultural Rivelino Silva de Carvalho e a Escola Municipal de Teatro, bem como as praças do Centro Histórico.
Autora e pedagoga, Cáritas Gomes de Oliveira Almeida veio de Tocantins e estreou na Flib dia 23 a partir das 11h com o livro infantil “A borboleta que descobriu seu voar“, que já foi lançado naquele estado.
Brasileiro radicado em Angola, Roberto Leal, proferiu a conferência de abertura da FLIB, no Centro Cultural Rivelino da Silva Carvalho na noite de terça-feira (23), quando lançou no auditório da ABL, o livro “Dicionário de Angolês e a revista ÓMNIRA (Especial Rainha Njinga e Mbande).
Jornalista, poeta, escritor, repórter fotográfico e editor da revista angolana de Literatura “Òmnira“, Leal preside o Núcleo África da UBESC-União Baiana de Escritores/BA-Brasil. Com farta produção literária, ele participou da Flib por indicação do Centro Cultural Casa de Angola, sediada em Salvador.
Realizada pela Prefeitura de Barreiras, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, a FLIB conta com uma curadoria composta pela Secretaria Municipal de Educação, Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFBA), Núcleo Territorial de Educação (NTE/11), Academia Barreirense de Letras (ABL) e Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB).
“FLUXO E REFLUXO” XXI
“FORMAÇÃO DE UMA SOCIEDADE BRASILEIRA NO GOLFO DO BENIN NO SÉCULO XIX”
Neste capítulo do seu livro “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger observa que após a Revolta do Malês, em 1835, uma grande leva de negros africanos libertos, por conta próprio (pressão dos senhores patrões) e outros por expulsão das autoridades e da polícia (sublevações e rebeliões) decidiu retornar para suas terras de origem e lá formaram colônias brasileiras nas cidades de Agoué, Uidá, Lagos e Porto Novo, adotando costumes hábitos, religião e cultura.
Verger cita em sua obra que “em discurso sobre reexportação dos negros, Miguel Calmon du Pin e Almeida, deputado da Bahia, declarava que um dos chefes de um país da Alta Guiné, exatamente onde o tráfico de escravos era mais florescente, mostrava-se mais esclarecido do que os outros: Ele não só tinha acolhido muito bem os africanos libertos e expulsos da Bahia, mas também lhes havia concedido terra onde se instalarem; e como existia entre eles um bom número de pedreiros e carpinteiros, parece que construíram uma aldeia e passaram a cultivar a terra”.
LIGADOS AO MODO DE VIDA
Os que voltaram para a África permaneceram ligados ao modo de vida adquiridos no Brasil. Ao saberem da boa acolhida dos emigrantes, muitos africanos da Bahia começaram a organizar, voluntariamente, o seu transporte (um dos líderes foi Joaquim d´Almeida) para a nova colônia no Golfo do Benin. Mais de quatrocentos passaportes foram expedidos pelo governo da província às pessoas e famílias que os requeriam – relatava o deputado.
Miguel du Pin dizia: “Vejo nesse estabelecimento não somente um lugar em que os nossos africanos libertos podem viver sem despesas, mas também um núcleo de população, talvez mesmo um novo Estado, que, participando da nossa língua e da mesma civilização, contribuirá um dia para a extensão de nosso comércio e de nossa indústria nascente”.
O retorno era resultado de duas influências, a espontânea, feita pela lealdade à terra de onde tinham sido arrancados à força, e a outra involuntária, provocada pelas medidas tomadas pela polícia em consequência das revoltas e sublevações dos africanos, escravos e emancipados.
Sobre essa questão, o estudioso Gilberto Freyre destaca que esses africanos vindos do Brasil (grande maioria da Bahia) se tornaram “brasileiros” (abrasileirados) por meio da natureza e da cultura vigorosamente mestiça. Voltaram com costumes, hábitos, modos de vida, abaianados, aportuguesados e até mesmo nos vícios. Levaram o gosto pela farinha da mandioca, da goiabada e até mantiveram devoções como a do Senhor do Bonfim, além de festas, danças e cantos.
Muitos se estabeleceram na região Mahi, ao norte de Abomé, na cidadezinha de Agoué, na fronteira entre Daomé e o Togo. Viajantes estrangeiros descreviam esses negros como de aparência cristã, mas muitos tinham suas próprias religiões (islamismo e dedicação às suas divindades negras). Eles chegaram a construir uma igrejinha em Agoué. Por volta de 1842/43, Joaquim d´Almeida, crioulo brasileiro emancipado, estava prestes a deixar a Bahia. Adquiriu objetos necessários à celebração da missa.
Ele levantou uma capela, em 1845, e foi dedicada ao Senhor Bom Jesus da Redenção, em lembrança a uma capela da Bahia. As origens cristãs de Agoué remontam há mais de trinta anos da nossa chegada definitiva – descrevia o abade Pierre Bouche.
O abade Laffite constatava em sua narrativa, que “foi nesse momento que chegaram muitos negros que reconheci serem escravos libertos do Brasil, por causa de suas roupas de camisões estampados de flores. Os “brasileiros” me conduziram a uma pequena capela que o mais rico deles (Joaquim) tinha mandado construir nos limites de sua propriedade”.
No entanto, Pierre Bouche observava que eles de cristãos só tinham o nome, e aqui retornaram às práticas do paganismo ou da religião muçulmana. Na verdade, havia um sincretismo religioso entre o cristianismo e o fetichismo. Laffite dizia que os africanos “brasileiros” só tinham de cristão o batismo e que continuavam a invocar as divindades negras.
OS GRUPOS
O governador do forte de São João Batista de Ajudá classificava os libertos como “passageiros” (aqueles que foram para o Brasil nos navios negreiros e depois voltaram). Afirmava que esses “passageiros” eram considerados brancos de uma nova espécie em que a cor da pele não interferia em nada para a classificação.
A sociedade brasileira que se formava em algumas cidades do Golfo do Benin, como Agoué, Porto Novo, Uidá e Lagos era composta de comerciantes de escravos vindos de Portugal e do Brasil, de seus descendentes mulatos, de capitães de navios negreiros estabelecidos na África e de africanos libertos, que tinham retornado do Brasil, principalmente da Bahia.
Um outro grupo era constituído de escravos libertos em Serra Leoa, iorubás em sua maioria. Eles eram chamados de akus em Freetown por causa de várias saudações que começavam por oku e salôs ou sarôs, diminutivo de Serra Leoa. Os sarrôs separavam-se dos “brasileiros” por sua conversão ao protestantismo e pela língua crioula, baseada no inglês. Os que vinham do Brasil e Cuba falavam o português ou o espanhol. Os muçulmanos do Brasil formavam outro grupo, mas eram próximos dos hábitos e o modo de vida dos católicos.
O FUTEBOL SOB INVESTIGAÇÃO
Carlos González – jornalista
Há dois meses chamei a atenção, neste mesmo espaço, para uma avalanche de peças publicitárias, inseridas nos meios de comunicação. Empresas com sedes no exterior estavam entrando com força no setor de apostas esportivas, pondo em discussão, não apenas a regulamentação do negócio, como dando margem ao surgimento de quadrilhas especializadas em fraudes, e colocando suspeitas sobre a integridade de uma dúzia de jogadores.
Dezenove entre os 20 clubes da série A – a exceção é o Cuiabá – do Campeonato Brasileiro trazem hoje no uniforme o nome de uma casa de apostas esportivas, legalizado em 2018 pelo presidente Michel Temer. A grande quantidade de placas nas arenas e estádios convida o torcedor a “fazer uma fezinha”.
Quadrilhas internacionais vêm agindo no Brasil há muito tempo, gozando da cumplicidade das autoridades. Alguns escândalos se tornaram públicos, como a da “máfia do apito”. O árbitro Edílson Pereira de Carvalho foi acusado de receber de 10 a 15 mil reais para manipular os resultados de 11 jogos do Brasileirão de 2005.
Em 2022, a empresa Sportradar, especializada em atos de integridade, registrou um aumento de 34% em jogos com suspeita de manipulação em 12 esportes diferentes em 92 países. Aprofundando-se no futebol, o estudo concluiu que o Brasil liderava com 152 jogos suspeitos. Na opinião do pesquisador Felipe Marchetti, há necessidade de uma operação global para desarticular as quadrilhas internacionais.
Algumas dessas partidas com placares questionáveis foram mapeadas nas finais do Campeonato Goiano e nas últimas rodadas do Brasileirão da série “B”. Sentindo-se prejudicado, o Vila Nova de Goiás ingressou com uma denúncia no Ministério Público Estadual.
Nos seus primeiros movimentos, a Operação Penalidade Máxima, instituída pelo MP-GO, descobriu o esquema montado para o jogo Goiás 2 x 0 Goiânia. O líder da gangue, o empresário Bruno Lopez de Moura foi preso e 41 pessoas foram indiciadas.
Suspeitas e denúncias anônimas têm causado dispensas de jogadores, como do lateral Nino Paraíba, ex-Bahia e que atuava pelo América de Minas. Digno de registro foi o comportamento da Chapecoense: manteve em seu elenco o denunciado zagueiro Vítor Ramos (ex-Vitória) e ainda lhe deu a braçadeira de capitão do time.
Presidida pelo deputado Júlio Arcoverde (PP-PI) e tendo como relator o deputado Felipe Carreras (PSB-PE), a CPI das Apostas Esportivas iniciou os trabalhos enviando 90 requerimentos de convocações, incluindo oito jogadores, 19 presidentes de clubes (Guilherme Bellintani, do Bahia, é um deles), presidentes da CBF e de federações estaduais, promotores de Goiás, dirigentes de empresas de apostas e árbitros. Com prazo para apresentar o relatório conclusivo até 28 de setembro, a CPI orientará seus trabalhos em duas vertentes: uma penal, para investigar supostas fraudes, envolvendo apostadores, jogadores, casas de apostas e clubes; a segunda, afirmativa, com vistas à regulamentação da Lei 13.756/2018.
Nesta corrente da regulamentação deverão ser proibidas apostas em cartões, pênaltis e escanteios, principais agentes das manipulações, segundo a Operação Penalidade Máxima.
A investigação em países onde o futebol é bastante popular está sendo feita pela Interpol, que já se encontra na nona etapa da operação contra a máfia internacional das apostas. Em novembro, antes da Copa do Mundo no Catar, a Interpol realizou a prisão de 1.200 pessoas.
O governo de Jair Bolsonaro deveria ter feito a regulamentação das casas de apostas, cuja arrecadação em 2022 atingiu os R$ 7 bilhões, valor que foi transferido para o exterior, livre de tributos. O esquema é semelhante ao do transporte de passageiros por aplicativos.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, promete normatizar a lei este ano. Possivelmente. através de medida provisória. Com a regulamentação, o Tesouro Nacional arrecadará R$ 15 bilhões por ano. Dados do Banco Central mostram que no primeiro trimestre deste ano foram enviados US$ 2,7 bilhões (cerca de R$ 13,4 bilhões) ao exterior em apostas, e devolvidos US$ 1,7 bilhão (R$ 8,5 bilhões) em pagamento de prêmios.
Ao contrário do esperado, o setor de apostas torce pela normatização do serviço, “para nos dar mais segurança jurídica e separar os operadores sérios dos aventureiros”, revela Darwin Filho, responsável por uma das empresas. Ele acredita que os trapaceiros, “pessoas que mancham nosso negócio, fecharão suas portas”.
Penalizados pelas dívidas, os clubes, principalmente os das divisões inferiores do Brasileirão, encontraram nas casas de apostas uma fonte de renda, uma verdade que será dita perante a CPI das Apostas Esportivas. Antes do jogo com o Goiás, o Bahia enviou e-mail aos seus sócios, aconselhando-os a apostar, no mínimo, R$ 10, na vitória do seu time. Quem apostou, perdeu: o Tricolor não saiu do empate.
A imprensa tem destacado o fato de que o escândalo das apostas não afastou o torcedor dos estádios. Pelo contrário, a média de público da série “A” do Nacional tem sido a maior das dez últimas edições do torneio. A sexta rodada teve média de 28 mil espectadores por jogo.
Eu não poderia encerrar este texto sem lembrar um esquema de apostas que funcionava no último degrau das arquibancadas do lado “B” do demolido Estádio Octávio Mangabeira, onde se concentrava a torcida do Vitória. Os tipos de apostas variavam: primeiro time a ter acesso ao gramado, laterais, escanteios etc. O dinheiro da aposta era “casado” na mão de um terceiro. A jogatina transcorria em paz.
ENTRE ÁRVORES E NUVENS
A Praça Tancredo Neves, antiga Praça das Borboletas, uma das mais bonitas do interior baiano, pode ser vista de diversos ângulos, depende da perspectiva de cada um que passa. Entre as árvores e as nuvens, por exemplo, captei a cruz da catedral, símbolo da fé cristã. Uns vão para namorar, outros para aliviar a mente dos problemas e muitos, de tanto passar em frente todos os dias, nem chega a descobrir os detalhes escondidos da sua beleza. Tem o correr das águas, o frescor e o cheiro das plantas e das árvores, o perfume das flores e as aves que convivem com todo burburinho da cidade. Mais linda seria a praça se ali fosse hoje o Centro Histórico de Vitória da Conquista, mas a ganância do homem se encarregou de destruir o patrimônio arquitetônico (um casarão está em ruínas). Todos as vezes que transito por aquele local consigo ver pontos diferentes, como da cruz lá no alto entre árvores, nuvens e palmeiras, representando o símbolo da cristandade que aqui foi fincado pelos primeiros desbravadores portugueses. Quer queira ou não, a Tancredo Neves, antiga Rua Grande, é o marco primeiro da nossa história.
CADA UM SABE DE SI
Autoria de Jeremias Macário
Quando a pedra,
No sapato aperta,
Cada um sabe de si,
Como dizia o Vizir.
A vida é assim:
Cada um sabe de si,
Onde castiga sua dor,
Pode ser por amor,
No sofrer calado sozinho,
Pra não incomodar o vizinho.
Em meu canto,
Curto meu pranto,
No canto do Zé, Chico e Vandré,
Uns com bom pé de meia,
Outros de barriga vazia;
Pinga água fraca na pia,
Até no rico da lua cheia.
Nessa terra de gigante,
De tanto ouro e diamante,
Cada um sabe de si,
Uns gastando solas,
Outros nas enrolas.
Quando o vento sopra forte,
Seja do sul ou do norte,
Cada um sabe de si,
Um sorriso,
Pode não ser de alegria,
Cada choro com sua travessia.
NAS ESTÓRIAS DE NINAR CRIANÇAS SEMPRE SE COMEÇA COM “ERA UMA VEZ”…
Um passarinho de papo amarelo entrou subitamente em meu escritório e quase pousou em meu computador para contar uma estória de ninar, daquela dos pais para fazer a criança dormir, se bem que esse hábito se tornou cada vez mais raro. A agitação da vida e a corrida desumana pelo dinheiro excluíram esse afago entre pais e filhos.
Não se narram mais estórias como antigamente de reis e rainhas, príncipes, de bichos da floresta, de terras estranhas, do nosso folclore e de personagens do bem e do mal. O passarinho balançou a cabeça com o bico, como se dissesse que hoje os pais andam em correrias e quando chegam em suas casas cansados pouco falam com seus filhos ou já estão a dormir.
Nem as babás sabem contar as estórias de ninar que sempre começa com “era uma vez… um país rico habitado por indígenas que foi invadido e saqueado por um bando de depravados vindos do outro lado do mar. Aqui chegaram, estupraram as índias e começaram a levar nossas riquezas.
De lá trouxeram os piores hábitos e, entre eles, os maiores até hoje a perdurar foram a corrupção, a pilantragem política de enganar os outros com promessas falsas, não cumprir com os acordos, tratados, convenções e contratos e o vício de levar vantagem em tudo.
Nesse país criou-se o costume de os mais espertos roubarem, trapacearem, desviarem recursos dos súditos, e o rei faz de conta que nada ver. Embora os pais não sejam mais dedicados como antigamente, aqui tudo começa com “era uma vez…
De estórias para histórias, o passarinho cantou em meu ouvido que “era uma vez” uma linha férrea leste-oeste até Ilhéus, na Bahia, que já dura mais de vinte anos, cortando serras, agrestes, matas e morros, deixando um rastro de desvios de verbas, dos quais ninguém mais fala.
É mais um projeto anunciado com alardes e propagandas, cujas obras estão emperradas e não se sabe quando serão concluídas. No início, as entrevistas são sempre bombásticas com manchetes da imprensa. Os relatórios econômicos anunciam milhares de empregos e prosperidade para uma vasta região. Tudo depois é frustração.
Outra história semelhante de “era uma vez” está na ponte Salvador-Itaparica. Está ainda está nos papéis dependendo de uns acertos com os chineses que não são nada bestas quando se trata de negociar com brasileiros, famosos na arte da malandragem.
“Era uma vez”, meu passarinho, o projeto duplica BR-116 da Via Bahia que só fez um pedaço e agora está na encrenca do duplica sudoeste de passagem por Vitória da Conquista. A empresa é de portugueses que por ironia alegam que o Brasil não cumpre os acordos. O filho aprendeu com o velho pai velhaco.
Fora projetos e realização de obras, existem outras tantas histórias com início de “era uma vez”… quando se referem à nossa lenta e cega justiça que só pune os pobres. Nesse campo dos malfeitos e das roubalheiras, são incontáveis um “era uma vez…
A lista é enorme e são conversas para boi dormir, como “era uma vez” uma chamada Operação Laja Jato onde juízes e promotores do Ministério Público viraram réus e estes se tornaram vítimas com direito a promoções e medalhas de heróis.
“Era uma vez” uma mutreta bem armada dos políticos que deram o nome de “Mensalão”, mas existem tantos outros de horrores e de terrores que até o passarinho que veio me visitar bateu assas e foi respirar um outro ar que também “era uma vez… quando a natureza não estava tão poluída como hoje. “Era uma vez”… um meio ambiente…












