AS BOMBAS VÃO CONTINUAR A CAIR
Carlos González – jornalista
Passados os quatro dias dessa trégua, em que foram libertados, num primeiro instante, 13 reféns (mulheres e crianças), em mãos do Hamas, e 39 palestinos (menores e mulheres), confinados em prisões de Israel, os bombardeios israelenses ao norte e sul de Gaza serão retomados “com força total”. A promessa é do ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallanti”.
Gallanti, que se refere aos palestinos como “animais humanos”, estava naquele momento repetindo as palavras do seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. A missão do seu exército nesse jogo, onde há apenas um time em campo, não é somente de eliminar o Hamas. Israel quer tornar realidade um sonho de quase 80 anos: estender suas fronteiras, ocupando inteiramente os territórios de Gaza e da Cisjordânia, ampliando as restrições impostas aos palestinos, como, por exemplo, a liberdade de ir e vir.
“Bibi” Netanyahu, que já ameaçou avançar sobre o Líbano, na perseguição ao grupo terrorista Hezbollah, não respeita as resoluções tomadas pela ONU e, muito menos, a Carta das Nações, da qual é um dos signatários. São frequentes suas violações aos direitos humanos, além de cometer crimes de guerra. Nas prisões israelenses há 7.200 palestinos, incluindo 88 mulheres e 250 menores, muitos deles sem culpa formada.
A participação da diplomacia do Catar foi decisiva para que as partes em conflito fechassem um acordo. Importante também foi a pressão dos Estados Unidos e dos familiares dos reféns ao governo do primeiro-ministro israelense, que se mostrava inflexível em negociar com o Hamas.
Nesse período de trégua, 200 caminhões entrarão por dia no norte da Faixa de Gaza, levando o que se convencionou chamar de ajuda humanitária para 2 milhões de pessoas que perderam tudo e não sabem para onde ir e o que lhes espera nos próximos dias.
Uma criança é morta a cada 10 minutos em Gaza. A informação é do diretor-geral da OMS (Organização Mundial de Saúde), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Ninguém está a salvo em nenhum lugar”, revelou o dirigente ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Segundo ele, o sistema de saúde do território palestino está “de joelhos”.
Ghebreyesus relatou a situação desesperadora do sistema hospitalar local: “Os corredores dos hospitais estão lotados com feridos e pessoas desabrigadas; médicos operando sem anestesia; necrotérios abarrotados” O complexo hospitalar Al-Shifa, o maior da região, suspendeu as cirurgias por falta de combustível para os geradores de energia elétrica.
Munição pesada de artilharia do exército israelense atinge diariamente as proximidades dos hospitais, sob a justificativa de que suas instalações servem de base para o Hamas, e que sob o piso dos prédios há uma rede de túneis utilizados pelo grupo terrorista.
A Faixa de Gaza, com 6,020 km2 e uma população 4,9 milhões de habitantes, se transformou em 45 dias num cemitério a céu aberto em terra arrasada, onde já morreram mais de 13 mil palestinos, vítimas dos bombardeios diários do poderoso exército de Israel. Na Cisjordânia, soldados e colonos israelenses já expulsaram mais de mil palestinos de suas terras. Os que se recusam a sair são assassinados. Aqueles que se sentem ameaçados pedem ajuda de fora, inclusive ao Brasil.
O ataque impiedoso do Hamas a civis israelenses na noite de 7 de outubro foi providencial para “Bibi”, alvo de protestos do seu povo, que o acusava de corrupção e de enfraquecer o Judiciário. No dia seguinte, ele iniciou a invasão de Gaza, ação que contou com apoio dos Estados Unidos, Grã Bretanha e França, sob o pretexto da necessidade de defender o país.
A comunidade judaica está aterrorizada na Europa. Seus membros receiam sair às ruas, mandar seus filhos à escola ou ir às sinagogas; a suástica é pintada nas fachadas das casas e cemitérios israelitas são violados. A França e Alemanha registraram mais de 1.200 ocorrências de antissemitismo nas últimas semanas, com a prisão de 486 acusados.
No Brasil, ao contrário, a Conib (Confederação Israelita do Brasil) conseguiu na Justiça censurar o jornalista Breno Altman, fundador do site Opera Mundi, que tem combatido o que ele chama de “regime de apartheid construído pela liderança israelense”. O jornalista, que é judeu, afirma que “a Conib, ao buscar me censurar, volta-se contra a liberdade de expressão e de imprensa, revelando as entranhas do autoritarismo típico da doutrina que professa”.
A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA E A ABOLIÇÃO NA “PÉROLA DAS ANTILHAS”
Os negros cativos de São Domingos (hoje Haiti – “Pérola das Antilhas”) conseguiram a abolição da escravatura em 29 de agosto de 1793, mas a luta só foi totalmente consolidada com a independência, decretada em 1º de janeiro de 1804. Era a segunda independência nas Américas, após a dos Estados Unidos, em 1783.
Quem conta toda essa história é o escritor Marcel Dorigny em seu livro “As Abolições da Escravatura no Brasil e no Mundo”, no capítulo “A Primeira Abolição da Escravatura (1789-1804). Em “o fracasso da abolição do tráfico” (1789-1790), ele narra que a ofensiva contra o comércio negreiro foi inaugurada pelos ingleses através de uma moção parlamentar entregue a William Wilberforce, em maio de 1788.
No entanto, um lobbie ligado às colônias e aos armadores se mobilizaram contra a proposta com 14 mil assinaturas recolhidas em Liverpool. O projeto foi rejeitado. Do outro lado, os fundadores da Sociedade dos Amigos do Negros, de Paris, acompanharam os debates e seguiram a escola inglesa numa força conjunta pela abolição do tráfico.
Os dirigentes da Sociedade, liderados por Condorcet, lançaram em todo país francês uma vasta campanha contra o tráfico, mas não diretamente contra a escravidão em si. Nessa linha, um parlamentar inglês abriu a discussão no sentido do governo reduzir as comissões pagas para estimular o tráfico negreiro.
No início de 1789 o foco das proposições era a abolição do tráfico, mas, por detrás disso, questionava-se a abolição da escravatura. Da Inglaterra, o avanço voltou-se para Paris a partir da Declaração dos Direitos do Homem, votada em 26 de outubro de 1789, cujo artigo primeiro dizia que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos”.
Mesmo assim, segundo Marcel, a lei colocava de fora a escravidão e o tráfico. Nesse contexto, a Sociedade Amigos dos Negros confiou ao parlamentar Mirabeau a missão de preparar um discurso contra o tráfico negreiro com o fim de arrancar uma lei de abolição de todo comércio de seres humanos. O trabalho mobilizou toda uma equipe de políticos, como Étienne Dumont, Étienne Clavière, Salomon Reybaz e o inglês Thomas Clarkson.
Com objetivo de sensibilizar a opinião pública, Mirabeau recorreu a fortes ilustrações de mortes e castigos impostos aos negros, como as máquinas de abrir a boca dos cativos para alimentá-los à força. Na verdade, o discurso não chegou a ser proferido, mais uma vez por causa dos movimentos em favor das colônias e dos armadores de navios.
O famoso discurso só foi lançado em 22 de março de 1790 diante da Sociedade dos Amigos dos Negros, só que não houve repercussão devido ao boicote dos conservadores. O assunto deixou de existir nas assembleias revolucionárias até que o deputado Grégoire retomou a questão, em 27 de julho de 1793. Uma convenção resolveu, então, acabar com o subsídio da República concedido ao tráfico.
Os “livres de cor”, mestiços e negros das colônias passaram a reivindicar os direitos civis e cívicos do artigo primeiro da Declaração dos Direitos Humanos. Os colonos reagiram e chegaram a excluir essa categoria de libertos das assembleias, criadas pelo decreto de 28 de março de 1790.
Diante disso, os “livres de cor” de São Domingos resolveram, no final de 1790, pegar em armas, seguindo o exemplo dos parisienses que tomaram a Bastilha. Mal organizados, os revoltosos foram logo esmagados e seus principais líderes Vicent Ogé e Jean-Baptiste Chavannes condenados ao apedrejamento em praça pública, em 25 de fevereiro de 1791. Os outros foram enforcados e sentenciados às galés.
Apesar do fracasso, as ideias de liberdade não deixaram de existir e tiveram um fértil terreno na cisão dos adversários que estavam em guerra, como a Inglaterra, França, Holanda e Espanha, que aliviaram a repressão. Outra rebelião começou em 23 de agosto de 1791, perto de Cap-Français, a partir de uma cerimônia noturna mágico-religiosa, de inspiração vudu e mesclada a ritos cristãos, no “bosque Caiman”.
Desse ato, 54 escravos prometeram jurar por liberdade. Boukman, letrado, vindo da Jamaica, foi o mestre da cerimônia. Logo foi morto, mas continua como um mito no Haiti. A Assembleia da França enviou tropas para combater os rebeldes, mas depois, como manobra, decidiu criar um decreto para aproximar brancos e “livres de cor”, concedendo a estes direitos políticos.
Dominada pelos partidários de Brissot, a Assembleia enviou três comissários a São Domingos (Léger-Felicité Sonthonax, Étienne Polverel e Ailhaud), para fazerem valer o decreto. Eles chegaram em 1792 em meio a uma guerra entre espanhóis e ingleses. A comissão fracassou e tiveram como saída a abolição, em 29 de agosto de 1793.
Abolida a escravidão, três novos deputados representando o povo de São Domingos foram eleitos e enviados a Paris, sendo eles Louis-Pierre Dufay (branco), Jean-Baptiste Mills (mestiço) e Jean-Baptiste Belley (negro). Eles chegaram em Paris em 1794 e foram detidos, mas soltos depois quando relataram tudo o que estava ocorrendo na colônia.
A convenção votou pela abolição da escravatura em Haiti, estendida às outras colônias, mas na prática a escravidão continuou em Guadalupe e na Guiana, conquistada tempos depois, em dezembro de 1794. Pela lei de 1º de janeiro de 1798, as colônias foram transformadas em departamentos.
Após o golpe de Estado de Napoleão Bonaparte, uma nova Constituição ignorou a integração das colônias, abrindo caminho para o restabelecimento da escravidão, principalmente com o fim da guerra com a Inglaterra (Tratado de Londres – 1801 e de Amiens – 1802). Em Guadalupe houve uma forte repressão e a escravidão voltou em 7 de julho de 1802. Em São Domingos, o enviado de Napoleão, seu cunhado Emmanuel Leclerc, se deu mal.
O exército indígena, liderado pelos generais Toussaint Louverture, Jean- Jacques Dessalines e Jérôme Péttion conseguiu vencer a reconquista militar da colônia. Apesar da captura de Louverture, morto depois em Paris, as tropas francesas, comandadas por Rochambeau, capitularam em 18 de novembro de 1803.
A escravidão não foi restabelecida e São Domingos se tornou República do Haiti, em 1º de janeiro de 1804. “Assim, a Revolução Francesa nas colônias foi marcada pela revolta vitoriosa dos escravos de São Domingos, que lhe impuseram uma abolição radical da escravidão, estendida às outras colônias…” – conforme assinalou o escritor e historiador Marcel Dorigny.
HAIKAI OU VAIKAI?
(Chico Ribeiro Neto)
Costumo escrever com frases graúdas, mas hoje enveredei pelas miúdas. Isso é haikai? Difícil responder. Melhor consultar o poeta Carlos Verçosa, autor de belos haikais, como este:
“destino
se digo um a
desatino”
Na dúvida, resolvi enquadrar meus versos na categoria Vaikai (ou Vai que cai). Aqui vão eles:
Ele disse rumbora
Trancou a alma
E jogou a chave fora
XXX
Se Ana Rica deve 14 milhões
O que pensa Chico Pobre
Com os seus botões?
XXX
Fiz um relógio da casca do caranguejo
Pra marcar os minutos
Das horas que não te vejo
XXX
Não sabe que fim se deu
Foi lembrar
Mas esqueceu
XXX
De tão furibunda
A mulher mordeu
Sua própria bunda
XXX
Menino pintão
Transformou a galinha
Num avião
XXX
Calor retado
Dormir nu
Ventilador ligado
XXX
Se lenhou
O último gole de cerveja
O garçom levou
XXX
Deu a notícia de imediato
E correu logo depois
Para criar o fato
XXX
Vê TV o casal
E só conversa
No comercial
XXX
Sargento lê e ouve da mulher:
“O jornal tá de cabeça pra baixo”
“Polícia lê como quer”
XXX
Não tem porém
Me diga moço
O mar vai ou vem?
XXX
Coisa sozinha
Velho cata um arroz
No chão da cozinha
XXX
Velho em fila do mercado
Xinga os preços
E o velho do lado
XXX
E aí Serafim?
Na hora do chega
Ela não tava a fim
XXX
Na hora da dor
Come um Sonho de Valsa
Ou uma Serenata do Amor?
XXX
Aí ninguém chama
Desliga o celular
E bota embaixo da cama
XXX
Vendo coração usado
Maiores informações
Com a vizinha do lado
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
LIVROS, ÁRVORES E SOMBRAS
Dizem que para você ser realizado na vida tem que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Não é propriamente uma máxima e nem é só isso que devemos fazer nessa curta travessia da ponte para o outro lado, mas vale pela força das palavras que nos deixam mais fortes para as lutas diárias. Lembrei desse pensamento ao flagrar com minhas lentes a exposição de vários livros debaixo de uma árvore no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima durante a I Fliconquista – Feira Literária de Vitória da Conquista. É como se fosse uma prosa debaixo de uma sombra. Não deixa de ser poético e significativo. Os dois representam a vida. Livro e árvore são fontes de alimento para o espírito e, infelizmente, são tão maltratados e vilipendiados nos tempos modernos e desumanos onde se idolatra o capital, ao invés de se valorizar e cuidar bem do meio ambiente e do livro. Lemos pouco para expandir nossos conhecimentos e saber, e derrubamos e incendiamos nossas árvores que nos dão oxigênio para respirarmos. No campo (não se faz muito isso nas cidades) como é bom prosear debaixo de uma árvore frondosa numa sombra fresca em sol escaldante. O livro também é uma sombra fresca onde você bate um bom papo com o autor e viaja dentro da sua imaginação, seja qual for o gênero. Livro e árvore são símbolos da vida que devem ser preservados e admirados com todo carinho e zelo. Ambos são puras poesias e brotam flores perfumadas e dão frutos existenciais. São eternos e imortais. Eles merecem louvor porque emitem amor e paz quando estamos triste, deprimidos, desanimados, sem fé e esperança diante de tantas intempéries do mundo atual.
AURORAS DO MENINO POSSÍVEL
Depois da ponte, a fazenda Natal;
A casa azul, adiante, no caminho.
Na Avenida Baér, os carroceiros
Acomodam arreios e alimárias.
De calças curtas ou calção de banho,
Ia com o primo manco de menino,
Sempre de tarde, quando o sol morria,
Tomar banho no Poço do Curtume.
Moço cordato e companheiro que era,
Ensinou-me a nadar no calmo rio.
Comecei pelo nado-cachorrinho;
Logo braçadas e depois mergulhos,
Só voltando de lá no lusco-fusco,
Quando o sino dobrava Ave-Marias.
Poema do meu digníssimo professor na Faculdade de Jornalismo da UFBA e colega de redação do jornal “A Tarde”, Florisvaldo Mattos, o Flori, para os mais íntimos, nasceu em Uruçuca-Bahia, poeta, jornalista, exerceu cargos em vários jornais, como editor-chefe do Diário de Notícias e no A Tarde. Foi chefe da Sucursal na Bahia do Jornal do Brasil, editor do Caderno Cultural do A Tarde, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte como melhor do Brasil no quesito de Divulgação Cultural. É membro da Academia de Letras da Bahia. Dentre outras obras poemas publicou Reverdor (1965), Fábula Civil (1975), Mares Anoitecidos (2000), Galope Amarelo e Outros Poemas (2001), Poesia Reunida e Inéditos (2011) e participou de antologias poéticas nacionais e internacionais.
“ESCÂNDALO”, BRADAM OS ARGENTINOS
Carlos González – jornalista
“Escândalo” foi o termo mais usado pela imprensa argentina para qualificar as agressões sofridas por torcedores do país vizinho nas arquibancadas do Maracanã. Claro, a Polícia Militar do Rio de Janeiro executou as ações violentas, mas quem foi o responsável por não separar as torcidas, como é normal em jogos onde a rivalidade tem a maior relevância. Há casos de partidas com torcida única, como os Ba-Vi em Salvador.
O que mais causou indignação dos argentinos foi observar nitidamente pela televisão que os policiais brandiam os enormes cassetetes contra uma minoria, quando os incidentes entre as duas torcidas, com ampla vantagem numérica de brasileiros, era generalizada. Alguns argentinos tiraram as camisas para não serem identificados, enquanto outros sangravam no rosto e na cabeça.
“Isso sempre acontece no Brasil”, exclamou Lionel Messi ao observar as cenas de selvageria. Liderando seus companheiros de seleção partiu em direção às arquibancadas, numa tentativa de ajudar seus compatriotas. O goleiro Martinez chegou a arrancar o cassetete das mãos de um policial.
A atitude de Messi, que chegou a colocar em dúvida a realização da partida, surpreendeu a todos, porque o melhor jogador do mundo, eleito pela FIFA, revelou em toda sua carreira um comportamento passivo, nunca se envolvendo em confusões dentro do campo. Em sua última apresentação em solo brasileiro Messi admitiu que não jogou bem, “porque estava mais preocupado com a segurança dos “hinchas” nas arquibancadas”.
Rodrigo Paiva, eterno assessor de imprensa da CBF, questionado sobre a ausência de divisão de torcida, explicou que o “o mando de campo é nosso, mas a organização do jogo é de responsabilidade do Consórcio Maracanã”. Acrescentou que “a CBF não é polícia para definir a estrutura de isolamento”.
Vamos acabar com essa falácia de apontar argentinos e uruguaios como catimbeiros e violentos. No jogo de ontem, o Brasil cometeu 26 faltas, muitas violentas (o uso do cotovelo no rosto do adversário virou uma prática comum entre nossos jogadores); a Argentina, 16. Os brasileiros receberam dois cartões amarelos e um vermelho (jornalistas patriotas não viram o tapa desferido pelo desconhecido Joelinton no rosto de De Paul).
Recentemente, Argentina e Uruguai (a rivalidade entre os dois países é muito grande) se enfrentaram pelas Eliminatórias no “alçapão” da Bombonera, em Buenos Aires. Assistida por mais de 70 mil torcedores, a partida terminou em paz, com vitória da seleção visitante.
Três derrotas consecutivas e o primeiro revés em eliminatórias no Maracanã. É preciso reconhecer que já não temos o melhor futebol do mundo; caímos ao nível de colombianos e equatorianos; praticamos um futebol cheio de faltas e atitudes antiesportivas, como a irritante “cera”; nossa seleção tem 90% de “estrangeiros”, desconhecidos para o torcedor; a Europa está mil anos-luz na nossa frente.
Durante os 25 minutos que a seleção da Argentina permaneceu no vestiário do Maracanã, determinada a não jogar, o dirigente que mais se movimentou no estádio, com o objetivo de reverter aquela situação, foi Claudio Tapia, presidente da AFA (Associação de Futebol da Argentina). A presença do presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues não foi notada.
Segundo os críticos de Ednaldo na imprensa do Rio e de São Paulo, que o discriminam por ser nordestino, o ex-jogador da várzea de Vitória da Conquista estaria evitando “bater de frente” com os dois metros do seu colega argentino. “Uma vergonha! Ednaldo se acha o rei do futebol. Deveria deixar o cargo…”, bradou Galvão Bueno.
Para outros, Ednaldo ainda estaria em Salvador festejando o título do seu time, o Vitória, campeão da série B de 2023. Coincidência ou não, durante os 16 anos como presidente da FBF (Federação Baiana de Futebol), o dirigente avalizou 12 dos 29 títulos de campeão baiano conquistados pelo clube rubro-negro em 124 anos de existência.
UM VENDEDOR DE POESIAS
Uma alimenta o corpo e a outra a alma, o espírito. Estou falando das feiras de produtos agrícolas, de cereais, carnes, frutas, mantimentos em geral, bugigangas e tantos outras coisas nas pequenas e grandes cidades, com seus cheiros, sabores e cores, onde acontecem os encontros e encantos através das amizades do bom bate-papo, e das literárias com suas ideias, pensamentos, conhecimentos, saberes e livros de autores de diversificados gêneros. Ambas são culturais, uma mais popular, mas ricas.
Tanto numa como na outra existem aqueles bons vendedores propagandistas e comunicativos que, num bom argumento, sabem atrair o cliente para negociar o “seu peixe”, seja numa barraca, num cantinho qualquer, no chão, na mão ou num estande. Não importa se o local é confortável ou estratégico. O que mais conta como arma principal é a palavra, esta que vem do alto e sai da mente com aquela força que arrebenta corações.
Na I Fliconquista – Feira Literária de Vitória da Conquista. que foi encerrada neste domingo (19/11/23), tive o grande prazer de conhecer esse bom vendedor, mas de ideias e poesias, de conversa agradável e cativante, que segue como um peregrino ou mochileiro de longas caminhadas e histórias para contar. Onde chega ele vai logo pedindo passagem com seu axé.
Trata-se do nosso poeta José da Boa Morte que veio lá da capital, numa distância de pouco mais de 500 quilômetros num ônibus tipo comercial, mais conhecido como “pinga-pinga” que para em todos lugares. Com sua mochila de imaginações e sonhos, não teme a hora desde que cheguei em seu destino das letras. É isso ai, seu Zé da travessia.
Com seu jeito simples e matreiro, atento a tudo que ocorre em seu redor, ele pode ser chamado de o rei das feiras literárias porque está sempre presente nelas. Na Bahia ou em outros estados, lá está o José cortando estradas, encurtando distâncias entre as veredas e comendo poeiras.
Olho no olho, falante e contador de causos, usa até seus repentes para vender suas poesias, como Amor e Risos (Sem Fronteiras), livretos “ArtPoesia”, da poetisa goiana Cora Coralina (134 anos), Maria Firmina dos Reis, uma negra que canta a liberdade (Poesia, Prosa e Amor) e tantos outros escritores e poetas de renome. Em sua sacola, o perfume das flores.
Tive o privilégio de ficar ao seu lado num estante da Fliconquista e aprendi muitas coisas, como abordar o leitor e ser um bom vendedor de ideias. Fizemos uma parceria onde um vendia a obra do outro quando precisávamos dar uma saidinha e até participar de algumas atividades que rolavam na feira.
“Daqui do telão, ouvi sua palestra sobre Cenas de Resistências na História de Conquista e adorei, uma potência de informações” – disse-me o Zé. Não sou muito de ligar para elogios, mas quando é sincero, sinto que a missão foi cumprida e o recado foi dado. O fundamental é a mensagem que fica, mesmo que seja uma só pessoa.
Sempre se diz que o escritor, como o artista de outra linguagem qualquer sabe fazer sua arte, mas se enrola e tropeça quando parte para comercializar seu trabalho ou entrar nesses editais burocráticos, mas José aprendeu a se virar na hora de conquistar um novo leitor. Se o sistema é assim, quem está na chuva é para se molhar. Ele vai com ânimo e não desiste, mesmo quando recebe um não.
José da Boa Morte, em homenagem à Irmandade da Boa Morte, de Cachoeira – Bahia, contou que no seu primeiro dia da feira em Conquista, na quinta-feira (dia 16/11) não vendeu nada e quase retornava, mas repensou e enfrentou com coragem os outros dias. “Não posso ser vencido logo no primeiro dia”. “E agora José”? Tem uma pedra no caminho, mas é só retirá-la. Se perdeu a chave, existe outra forma de entrar.
Não se abateu e se deu bem. Ele me fez lembrar do bom barraqueiro das feiras livres que, com sua voz firme na garganta e simpatia, chama o cliente para si mostrando a qualidade do seu produto. Vai chegando meu povo que aqui tem coisa boa – grita o bom feirante! Nessa hora, não adianta ficar pensando em crises. Na literatura, acontece o mesmo.
O livro, a abóbora, a melancia, o pepino ou uma verdura têm suas peculiaridades e gostos diferentes, mas são iguais na mão de um bom vendedor. José escolheu o mais difícil e vai rompendo trilhas, conhecendo gente nesse mundão e acreditando em sua arte de escrever e vender.
É o José das ideias e das poesias. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” – já dizia o cancioneiro Geraldo Vandré, o Boby Dilan do sertão nordestino. “Para não dizer que não falei das flores”. Lá vamos nós cruzando a ponte e pedindo passagem nas travessias.
TREZE ANOS DE HISTÓRIA QUE COMEÇOU COMO “VINHO VINIL”
São treze anos de história cultural que nasceu do encontro entre os amigos Jeremias Macário, Mannu Di Souza e José Carlos D´Almeida que tiveram a ideia de criar o grupo “Vinho Vinil”. Isto ocorreu em 2010 num bate-papo descontraído entre uns comes e bebes festivo. Para comemorar esses treze anos, decidimos realizar um documentário como forma de registrar sua história.
Como a própria denominação já diz, o objetivo era unir as duas coisas, mas com o propósito principal de valorizar o velho vinil. A ordem era não se ouvir músicas de outras mídias, tocar viola e nem tomar outra bebida que não fosse o vinho.
Não demorou muito e outras pessoas foram se juntando ao grupo. Em pouco tempo, o “Vinho Vinil” se transformou num sarau, com cantorias variadas, declamação de poemas, contação de causos e a liberação de se tomar outras bebidas, mas o vinho permaneceu como carro-chefe.
O “Vinho Vinil” tomou outras proporções e formatos se tornando “Sarau a Estrada”, realizado no Espaço Cultural que leva o mesmo nome, sempre com um tema central na abertura. Durante sua existência, os participantes acreditam que seja o sarau mais longevo em Vitória da Conquista.
Mesmo no período da pandemia da Covid-19 (2020/22), quando as pessoas foram obrigadas a se isolar para não serem contaminadas, o Sarau A Estrada continuou a funcionar de forma virtual através de lives e produzindo vídeos de textos poéticos autorais, nas pessoas de Jeremias Macário, Vandilza Gonçalves e D´Almeida.
Como resultado, foram gravados dois curtas-metragens (“Coronavid” e “Brasil, Nunca Mais”) de mais de 20 minutos cada, sendo que um deles foi contemplado num edital da Prefeitura Municipal de Conquista. Esses vídeos foram distribuídos em redes socais e entre o grupo do sarau.
Durante esses anos, além do lançamento de um CD com músicas e poemas autorais, bem como uma apresentação no Teatro Carlos Jheovah, debatemos questões culturais, políticas e sociais abordando diversos temas, como educação, carnaval, cultura conquistense, os movimentos políticos de 1968, folclore nordestino, literatura, escritores do Nordeste, história da música popular brasileira, escravidão, o povo cigano, Gregório de Mattos, Castro Alves, cordel, cinema, Glauber Rocha, dentre tantos outros. Como o sarau é eminentemente cultural, evitamos colocar em discussão política partidária.
Com a participação de estudantes, jovens, artistas em geral, intelectuais, professores e demais interessados, o Sarau A Estrada tem hoje sua própria história e identidade, sob o comando de uma comissão organizadora.
Nesses treze anos de fundação ocorreram muitos fatos interessantes e curiosos, como lançamento de um filme e livros, os quais merecem uma crônica ou um artigo literário. Muitos, inclusive, já sugeriram o seu tombamento municipal por se tratar de um evento de utilidade pública.
Nas lentes das máquinas fotográficas e dos celulares, nos debates de diversos temas, no bate-papo fraternal e acalorado, nas contações de causos, nos casos de pessoas que aqui pernoitaram, nas pessoas que já partiram para o outro lado, nas declamações de poemas, nas cantorias dos violeiros, nos amores encantados e nas trocas de ideias, o “Sarau A Estrada” é conhecimento, saber e aprendizagem. Como já foi dito, o evento é realizado no Espaço Cultural A Estrada de dois em dois meses de forma colaborativa e democrática.
MUITAS ATIVIDADES NA FLICONQUISTA E UM ESVAZIAMENTO NAS PALESTRAS
PRODUTOS ORGÂNICOS E ARTESANATO TAMBÉM SÃO CULTURA NA FLICONQUISTA NAS FOTOS DE BASTIDORES DE JOSÉ CARLOS D´ALMEIDA E JEREMIAS MACÁRIO
É muito agradável entrar numa feira literária e passear entre os mais variados livros de autores com os títulos os mais chamativos possíveis contemplando gêneros desde o romance, contos, ensaios, biografias, poesias, histórias, entre outros, além dos infantis que deixam a criançada curiosa e ávida pela leitura.
Como jornalista e escritor, confesso que tudo isso me deixa mais esperançoso e fortalecido, como está sendo agora com a I Feira Literária de Vitória da Conquista- A Fliconquista que está sendo realizada no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima e se encerra neste domingo dia 19/11. Sem dúvida foi o acontecimento cultural mais marcante do ano, esperado há muito tempo pelos escritores das letras conquistenses.
É bom encontrar com os amigos artistas e bater aquele papo cultural sobre novas obras e sentir de perto o cheiro do papel saído das editoras e gráficas repleto de ideias. Não deixa de ser uma viagem que eleva nossos espíritos. Queremos ouvir de perto as vozes que ecoam neste Sertão da Ressaca, como foi a coletânea organizada por Chirles Oliveira e Ybeane Moreira que abriu as portas para outros lançamentos.
Observei nessa primeira Feira Literária a junção de muitas atividades nas rodas de conversas em torno do Centro de Cultura nos estandes e tendas e isto é saudável e salutar. Do outro lado, no entanto, houve um esvaziamento nas palestras (bate-papo) no auditório porque as pessoas não conseguiram acompanhar tudo ao mesmo tempo.
Sobre este assunto, conversando com um amigo, ele me respondeu que é nestas ocasiões onde o muito se torna menos. Falava que a organização poderia ter dado mais atenção para os temas escolhidos, de modo a valorizar o palestrante que muitas vezes chega lá e não tem quase ninguém na plateia porque existem outras atividades ocorrendo no mesmo horário.
Uma das saídas seria encontrar uma forma de divisão do trabalho de maneira que as palestras não fiquem ofuscadas e terminem sendo apenas um ponto decorativo da festa. Outra alternativa seria reduzir as palestras, encaixando-as em horários compatíveis, para que não ocorra conflitos com as outras ações da feira. As reuniões, os encontros, lançamentos de obras e as oficinas são importantes e necessários, contanto que não anulem as palestras.
Entendo que possa haver uma conciliação entre os horários e se abra um espaço de prioridade para os chamados bate-papos no auditório principal, para que o palestrante não seja diminuído em sua fala, especialmente quando não se trata de uma celebridade nacional, muitas vezes da mídia, da política e das artes. Quando é um personagem famoso como palestrante, acontece o contrário: São as outras atividades que ficam prejudicadas.
“Cenas de Resistência na História de Vitória da Conquista” foi um tema bem sacado pela curadoria, que deveria ter sido preservado e mais divulgado para atrair mais gente, justamente porque a feira está se realizando na própria cidade. Trata-se da história de um povo que precisa ser contada e escutada por todos nós.
HISTÓRIAS DA BAHIA GUARDADAS NO MOCÓ (2)
(Algumas notas de Hildegardes Vianna no final do livro “A Bahia já foi assim”)
(Chico Ribeiro Neto)
Publico hoje a segunda parte da crônica sobre o livro “A Bahia já foi assim” (Editora Itapuã, 1973), da folclorista Hildegardes Vianna.
Na crônica “O quarto dos santos” ela comenta: “Quarto de santo é atualmente expressão dúbia. Pode significar casa de orixá de candomblé para a maioria dos leitores. Lugar de oração para uns poucos. Afinal, hoje não há cômodos suficientes nas residências, começando a rarear os devotos empenhados em reunir várias imagens em seus nichos particulares”.
Depois de ressaltar que “imagem nunca se compra, troca-se”, Hildegardes explica: “Há uma superstição que não permite que alguém diga que comprou uma imagem ou um santo. Consideram apenas como uma troca por dinheiro, porque só Judas vendeu um Santo”.
Na crônica “Todo mundo gosta de abará” ela lembra do “abará que já vinha com a pimenta temperando a massa, que se desmanchava na boca como pão-de-ló” e lamenta que é “bem diferente do abará que se modificou pela exigência do consumidor e não somente por culpa das vendedeiras. Abará que nem sempre traz camarão na massa, recheado como um sanduíche qualquer, com molhos de vários aspectos e procedências, entupido com o vatapá, que nem sempre é vatapá, será que ainda é abará?”. Lembro que este livro é de 1973.
Para ela, “era fácil identificar uma lavadeira. A visão de uma mulher descalça, com uma trouxa de roupa à cabeça, nos dias de segunda-feira, era trivial.”. Hildegardes escreve na crônica “As lavadeiras faziam assim”: “As lavadeiras podem ser classificadas de várias formas: as que lavavam na casa da patroa e as que lavavam na fonte; as que lavavam por peça e as que lavavam por mês; as que apenas lavavam e as que lavavam e passavam, além das que lavavam e engomavam”.
Em “As mãos das baianas” diz Hildegardes: “Enquanto não aparece um poeta, deixem que eu fale das mãos das baianas que vestem suas roupas repolhudas nos dias de festa”, e poetiza: “Reparem nas suas mãos que, agitando um galhinho de mangericão ou coisa que valha à guisa de abanador, vão e vêm sobre o tabuleiro lentamente, num ritmo certo. São mãos nodosas, de unhas incertas. Estragadas, mas limpas. Contrastam com os braços sedosos e roliços de suas donas. Mãos de quem trabalha não são atraentes nem desejáveis, mas são mãos encantadas. Mãos de fada”.
Antigamente, o xaréu era um peixe farto em Salvador. Dizem que o xaréu sumiu ou ficou raro nas nossas praias porque ele é um peixe que não gosta de zoada e o barulho dos carros na orla o afastou. A crônica “No tempo do xaréu” diz assim: “Xaréu era o peixe mais popular, mais barato, mais gostoso, mais consumido nesta nossa cidade. Xaréu fresquinho, pegado em Amaralina, comprado inteiro por preço mais irrisório que o de uma única posta de outro pescado. (As ovas, vendidas separadamente, constituem iguarias preciosas quando devidamente fritas)”.
Antigamente, no estádio da Fonte Nova, quando faltavam 10 ou 15 minutos para o final do jogo, os portões eram abertos para a entrada do “xaréu”, o pessoal que não podia pagar o ingresso.
O jornalista José de Jesus Barreto conta que teve uma vez em que o “xaréu” assistiu todo o segundo tempo. Foi no jogo Bahia x Santa Cruz, pela Taça de Prata, antigo nome dado ao campeonato brasileiro. O Bahia havia tomado 4 x 0 no primeiro jogo e precisava fazer 5 x 0 para se classificar às oitavas de final. Foi na noite de 5 de abril de 1981. Acabou o primeiro tempo com 3 x 0 para o Bahia e aí o presidente do tricolor, Paulo Maracajá, no intervalo do jogo mandou abrir os portões para entrar o “xaréu”, uma multidão que lotou a Fonte Nova, aumentou a pressão da torcida e o Bahia deu os 5 x 0 que precisava, auxiliado pelo árbitro Carlos Rosa Martins, que deixou de marcar “um impedimento escandaloso” no último gol do Bahia, aos 43 minutos do segundo tempo, lembra Barreto. A Fonte Nova explodiu de alegria e o “xaréu” teve um peso importante.
Segundo José de Jesus Barrreto, outro fator que certamente ajudou o Bahia foi o que um radialista (o repórter de pista) perguntou ao juiz, quando este retornou do intervalo e se espantou diante da Fonte Nova lotada para o segundo tempo: “O senhor vai ter coragem de anular um gol ou de marcar um pênalti contra esse time?”
Na crônica “Palavras más” Hildegardes escreve: “As horas eram boas e más. A pior de todas, a do meio-dia, quando o diabo saía do inferno para a sua ronda diária”. Mais adiante, observa: “O que eram palavras ruins? Coitado era uma. Não se lamentava alguém, impunemente, exclamando: Coitado! “Coitado do diabo que perdeu a graça de Deus, não eu que sou criatura de Deus, Padre todo poderoso. Coitado, por que?”
Hildegardes assinala: “Espreguiçar-se com o gemido “Ai-Ai” sem acrescentar “meu Deus” era caso para reprimenda. “Ai-Ai” era o diabo mais velho do inferno”. Ela ainda observa: “Quem tinha coragem de viver repetindo o nome de miséria, de desgraça, apenas para descarregar o seu gênio?”
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)






















