O TEMPO TEM O SEU TAMANHO
(Chico Ribeiro Neto)
A velhice tem o tamanho exato. Do prato e do ato. A velhice sabe o tamanho do mar e deixa de pensar. Sente a grandeza do mistério e percebe o tamanho de Deus.
O velho é desconfiado. Perde em paciência o que ganha em sabedoria. Sabe onde as cobras dormem, mas não conta pra ninguém.
O velho gosta de sonhar, e isso sempre é muito bom. Será um ensaio para a morte? A velhice é somar os azuis e lembrar dos verdes. A velhice é uma ressurreição.
A velhice mora longe. Tem que saber chegar lá numa velha canoa em noite de lua. Ela mora numa ilha verde.
Ficar velho é saber demais. Somos feitos de histórias e cada dia tem uma melhor. Pode sentar na cadeira de balanço. Não precisa se mexer, ela balança por si, como um tic-tac.
Tem aquela luz azul que só o velho vê. Catarata ou poesia, ela é bonita.
Minha mãe Cleonice, depois de ouvir três vezes seguidas a música “Roda Viva”, revelou para meu irmão Cleomar: “Agora eu já sei o que é curtir”.
Ele gosta de juntar coisas velhas, mas também adora plantas. Bonito ver uma planta crescer, sinal de vida. Tinha um idoso numa cidade do interior baiano que cultivava uma pequena horta no quintal de casa. Aos 100 anos, já não aguentava mais se abaixar para plantar ou colher. Resultado: arranjou uns caixotes de maçã, encheu de terra e os prendeu à sua altura, seguros por grandes forquilhas de madeira. Em pé, continuou seu plantio e a enviar alface, coentro e cebolinha para os parentes. Os sonhos mudam de lugar com o tempo.
Minha tia Nina dizia que velho dentro de casa é problema. Reclama de tudo: que a TV tá escura, que o vizinho de cima faz zuada e que tem uma semana que não varrem a escada do prédio. E ainda quer almoçar às 11 horas, vive futucando as panelas.
Velho é imburrento, imbirrento, manhoso, dengoso, cismado, treiteiro, falastrão, avexado, enganjento, teimoso, peidão, chato, enjoado, mas eu te amo, meu velho Chico.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
VIVA O NOSSO CORDEL!
Pouco prestigiado pelos acadêmicos das universidades que ainda criticam a sua forma de escrita poética, argumentando ser fora do padrão literário (tem cabimento!), o nosso querido cordel, vindo lá dos tempos medievais da Península Ibérica, se enraizou no Pouco Nordeste e tornou-se símbolo dos nossos nordestinos sertanejos, como se fosse nosso cartão postal. É uma pena que um Patativa do Assaré (Triste Partida), por exemplo, seja pouco estudado por esses acadêmicos que escrevem suas teses para eles mesmos, a maioria no intuito de obter títulos válidos no balcão das promoções salariais. No entanto, não quero falar nisso. Meu intuito é homenagear aqui os nossos grandes cordelistas nordestinos que fazem história contando suas estórias e causos de grandes personagens da vida, sobre a seca, Lampião, Antônio Conselheiro, os cangaceiros, a nossa terra árida, costumes, hábitos, o forró e até sobre famosos escritores. Com uma pegada nordestina (Casa de José de Alencar, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, dentre outros), a II Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo, também lembrou do nosso tão popular cordel, embora o evento tivesse dado pouco espaço para os escritores locais e da região, como de Vitória da Conquista. A crítica geral foi de que de literária só tinha o nome. Na verdade, o foco maior foi para o setor da educação, com apresentações de atividades escolares para a criançada e os jovens. Esperamos que a próxima feira abra mais estandes para os nossos escritores, inclusive com mesas temáticas sobre literatura, inclusive o estudo do cordel. Ainda bem que lembraram do nosso cordel através de uma tenda reservada exclusivamente para os autores desse gênero que tanto admiro e valorizo.
SEGREDO
Poema de autoria de Paulo Henrique Cardoso Medrado, formado em filosofia pela Universidade Católica de Salvador, professor concursado do estado da Bahia, com experiência no ensino superior (FTC, Fainor, dentre outros), tendo os primeiros livros em 2019 – O Banquete de Palavras I e II, A Caverna de Jomapawi e várias antologias no decorrer de anos. Atualmente é membro da Academia Barreirense de Letras.
Sei agora o poder do instante
Transformador que chega dá medo
Quando ele aparece na mesma hora.
Instante único que já passou, agora
Mais não demora nada e já se foi
Não deixa rastro e nem pegada afora.
Quase não se vê, mas sabe que apareceu
Que levou algo de modo ligeiro
Mas que o presente continua, amanhã, em segredo.
“NÃO FOI POR ACASO”…
Depois do secretário Geral da ONU, Antônio Guterres, engenheiro e diplomata português, explicar que a violência não é justificável, seja da parte quem for, ele declarou que o atentado do Hamas, no último dia 7, num evento musical, “não foi por acaso…” Foi o bastante para os representantes de Israel na ONU, que só fica no blábláblá e ninguém ouve mais, ficarem irritados e pedirem sua demissão do cargo, inclusive proibiram a concessão de vistos de funcionários do órgão ao país.
Basta uma palavra ou frase com um sentido de explicar o porquê de determinado acontecimento de um fato, para o outro lado fazer sua própria interpretação e sair por aí disseminando inverdades, inclusive a grande mídia capitalista tendenciosa que segue os passos do mundo ocidental colonizador e imperialista. Os judeus deturparam por completo a fala de Guterres.
Longe de ser parcial na questão geopolítica e histórica da região, que é secular, o que compreendi com seu pronunciamento é que o atentado foi uma consequência de mais de 50 anos de perseguição de Israel contra os palestinos, bem como condenar a omissão e a negligência das nações mundiais em até o momento não terem criado também o Estado da Palestina.
Em momento algum, em meu juízo ainda lúcido, entendi que ele estaria justificando a violência e apoiando a ação do Hamas. Uma pessoa quando é acossado, vilipendiada, perseguida, agredida e provocada por outra, um dia ela vai reagir e cometer um desatino.
Isso me fez lembrar um júri popular, ainda jovem, na cidade de Amargosa, onde um senhor estava sendo julgado por ter matado um conhecido que todos os dias passava em frente da sua casa e lhe xingava com apelidos, de vagabundo e lhe dirigia agressões verbais.
Um certo dia o cara não aguentou tantas provocações e assassinou o seu opositor com várias facadas. Na audiência pública judicial o advogado do réu se dirigiu de forma proposital ao promotor por várias vezes com termos provocativos até que o mesmo perdesse as estribeiras e a compostura ao ponto de partir agressivamente contra o colega, alegando que o cara estava zombando dele.
Calmamente, o advogado, com sua habilidade de defesa, disse ao promotor e aos jurados: Está vendo aí, em pouco tempo em que estamos aqui vossa excelência não suportou minhas palavras repetitivas contra sua pessoa. Agora imagina esse moço que aí está no banco dos réus sendo vítima todos os dias de deboches e menosprezos contra sua pessoa. Um dia ele não aguentou e partiu para vias de fato.
É um exemplo simples para explicar o que os israelenses vêm fazendo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia desde quando se tornou Estado, em 1948, isto é, há mais de 70 anos. Israel acossou, construiu muros, colônias habitacionais, invadiu terra como numa espécie de grilagem e seus aliados fizeram vistas grossas.
Os israelenses se recusam a olhar o passado de avanço territorial e encurralamento contra os palestinos com a anuência dos donos da ONU e dos países da Europa Ocidental e, principalmente, com aval direto dos Estados Unidos. E os atos de terrorismo que os judeus praticaram contra árabes, cristãos e palestinos para forçar a criação de um Estado?
O que o secretário Geral quis dizer é que esticaram demais a corda até que ocorreu uma tragédia anunciada. Em seu depoimento, não vi ele afirmar, de modo algum, que o ataque do Hamas foi merecido ou justificável. Claro que nessa hora o outro lado fulmina a razão do outro e só enxerga a sua, ao seu modo e interesse.
Israel simplesmente se nega a reconhecer o que já fez de terror contra os palestinos, deixando-os na pobreza e na miséria. O Hamas quer a extinção de Israel que também pretende aniquilar o seu vizinho, inclusive os palestinos que são governados por outra autoridade. Sabe como os palestinos enfrentam a opressão de Israel? Com pedras contra os soldados, como nos tempos bíblicos e na era do domínio romano, quando os israelitas faziam emboscadas “terroristas” contra os exércitos dos imperadores de Roma.
“A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS”
Existem uns bordões que grudam nas pessoas de forma maquinal e elas falam de forma instintiva sem pensar e refletir se são mesmo assertivas. Um deles é dizer que a “A Voz do Povo é a Voz de Deus” e isso sai da boca de pessoas que se dizem até intelectuais. Não sei muito bem a origem da frase, mas tem um cheiro forte do catolicismo, coisa mais de cunho religioso piegas.
Quantas coisas erradas fazem o nosso povo, principalmente nas escolhas políticas, elegendo corruptos e malfeitores que só pensam em seus interesses, e aí pelo ditado popular tornam-se enviados de Deus. Isso é só um exemplo, mas existem tantos outros onde essa expressão antiga não é verdadeira, nem no sentido filosófico e social.
Quando uma multidão decide linchar uma pessoa na rua por ter cometido um desatino, furto ou agredido alguém de forma perversa, esse espírito de fazer justiça com as próprias mãos conta com essa voz de Deus”? Lembra da passagem bíblica onde Jesus diz: Quem não tiver pecado que levante a primeira pedra. “A Voz do Povo é a Voz de Deus” não funciona nesse caso, conforme os ensinamentos de Cristo.
Nós brasileiros e latinos da América do Sul e Central, por características histórias de subjugação, de opressão, de baixo nível educacional e do ponto de vista cultural, agimos muito mais pela emoção do quem pela razão, e as decisões nem sempre são corretas. Não coincidem com a voz de Deus que manda fazer outra coisa.
Mesmo no Velho Mundo mais civilizado e instruído, existe esta máxima de “A Voz do Povo é a Voz de Deus”, só que os fatos registram o contrário. Os alemães nas décadas de 30 apoiaram Hitler com suas ideias malucas nazistas de salvar o país da crise. Todos sabem no que deu com os genocídios, as matanças e as barbáries de guerras. Hitler contou com a voz do povo, mas será que teve a voz de Deus”?
Uma multidão de seguidores extremistas negativistas, racistas, xenófobos, misóginos e homofóbicos foi para a rua pedir uma ditadura militar e repetiram que “A Voz do Povo é a Voz de Deus”. Tira Ele desse rolo insano! Aliás, a irracionalidade que nos leva à desumanização não pode ter a voz de Deus.
No Brasil, os governantes de forma proposital sempre deixaram nosso povo na ignorância por ser mais fácil de ser manipulado através de dinheiro e promessas nunca cumpridos e quando são aplaudidos e eleitos ainda têm a cara de pau de dizer que “A Voz do Povo é a Voz de Deus”. Com isso, usam da inocência da nossa gente, a grande maioria religiosa e temente a Deus.
Na verdade, o povo segue uma voz, muitas vezes induzido por sofismos baratos e artimanhas dos mais espertos e acaba apoiando seus projetos que só servem a eles. Como argumento, eles acabam dizendo que “A Voz do Povo é a Voz de Deus”. O pior disso é que a maioria acredita nisso. Isso me faz lembrar Nelson Rodrigues quando afirmou que toda unanimidade é burra.
Confesso que não consigo engolir e aceitar esse bordão popular e até de pessoas mais instruídas quando dizem que a “A Voz do Povo é a Voz de Deus”. Fico a me perguntar, que povo é esse de que estão se referindo? Uma aprovação idiota e imbecil, na maioria levada pela emoção ou até vingativa para atingir um adversário, nunca pode ser a voz de Deus.
POR QUE A GASOLINA DE CONQUISTA É TÃO CARA?
O arquiteto e urbanista Leandro Fonseca pergunta por que a gasolina de Vitória da Conquista é tão cara? Essa resposta está com o cartel que há anos domina o mercado e as “autoridades” (Câmara Municipal, Ministério Público e órgãos de fiscalização) não conseguem derrubar.
Só vejo essa resposta, meu caro amigo Leandro, e já fiz esse comentário aqui em nosso blog por diversas vezes, ao ponto até de ser chato no assunto. A nossa mídia local faz matéria sobre os preços quando sobem, mas nunca vi uma reportagem investigativa sobre o assunto. Aliás, não temos mais jornalismo investigativo, apenas factual e com muitas falhas no noticiário.
Volto a repetir que há pouco tempo, na legislatura passada, a Câmara de Vereadores instalou uma CPI para responder essa indagação feita pelo cidadão. Todos sabem que no final não deu em nada, apenas um projeto chulo de que as mangueiras fossem transparentes. Nem isso emplacou porque os donos de postos disseram ser inviável.
Nos últimos anos, a construção de postos de gasolina foi um dos negócios que mais cresceu em Vitória da Conquista por ser bem rentável e com retorno do investimento em curto prazo. Hoje, toda esquina tem um posto de combustível e sempre aparecem mais. Na Avenida Juracy Magalhães é posto que não acaba mais.
Leandro Fonseca mostra que em Lagoa das Flores a gasolina está na faixa de R$5,75 o litro, no Capinal R$5,95, enquanto que em Conquista o produto é comercializado por R$6,36 na grande maioria dos postos.
Quando se encontra um com preço mais baixo, a diferença é de cerca de cinco centavos para tapear o consumidor. Não adianta fazer pesquisas na cidade porque não compensa ficar rodando e queimando combustível por meros centavos. Quem for fazer isso, vai ter prejuízo no bolso.
Semana passada estava em Belo Campo, cerca de 60 quilômetros de distância, e lá a gasolina estava sendo vendida por R$6,20 o litro. Como explicar esse quase tabelamento dos donos de postos com uma gasolina mais cara que em outros municípios da região, se eles pegam o produto em Jequié, numa distância de 150 quilômetros? A gasolina de Conquista é uma das mais caras da Bahia.
Eu só queria entender, Leandro, mas não é para entender! Todo mundo sabe muito bem onde está a resposta, inclusive os frentistas. Converse com um deles e até eles concordam que existe um cartel que ninguém consegue quebrar.
FLIBELÔ COM PEGADA NORDESTINA E FOCO PRINCIPAL NA EDUCAÇÃO E LAZER
Educação, gastronomia e cultura juntas na II FLIBELÔ – Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo, um grande exemplo para outras cidades do interior pela valorização do saber e do conhecimento, promovida pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Educação, Esportes, Lazer e Cultura.
O foco principal foi a educação escolar com contação de causos para a criançada, parque infantil, artesanato, área de jogos (dama, xadrez), oficinas de teatro e gastronomia, shows musicais, mesas temáticas sobre livros, leitura e bibliotecas, conferências e apresentações de trabalhos escolares, porém com poucos espaços para os escritores locais e da região (apenas três estandes). O ponto falho ficou por conta nos atrasos na programação dos eventos.
No entanto, a Feira ficou marcada pela pegada de temas nordestinos, com tendas sobre José de Alencar, Rachel de Queiroz, Luiz Gonzaga, nosso rei do baião, Euclides da Cunha, no caso do escritor que narrou a Guerra de Canudos e Graciliano Ramos, os locais mais visitados pelos frequentadores do evento.
Com um estande, inclusive de lançamentos, os escritores do coletivo de Vitória da Conquista foram destaques e marcaram suas presenças com Josué Brito, Chirles Oliveira, Paulo Henrique Medrado, Ybeane Moreira e Jeremias Macário, isto entre os dias 19 e 20.
Ainda no setor de publicações de obras, a Editora Arpillera, de Abaeté, Camaçari, que faz livros artesanais, costurados um por um de forma manual, bordados com dobraduras numa verdadeira experiência sensorial de leitura, chamou muita a atenção do público visitante.
Esperamos que a próxima festa literária haja uma maior participação da classe. No geral, a FLIBELÕ alcançou seus objetivos que foi despertar os estudantes para a leitura, sem contar o apoio da equipe organizadora em nome de Misael Lacerda, diretor da Biblioteca Municipal, do pessoal da limpeza e da segurança.
É bom ver as crianças visitando os estandes culturais em contato com os livros e os famosos autores e artistas nordestinos que deixaram seus nomes eternizados na história do Brasil e até a nível internacional. A meninada fica curiosa quando folheia os livros e faz perguntas como foi feita a obra e se sente maravilhada ao lado do autor. Seus olhos chegam a brilhar e isso é uma esperança para a nossa cultura.
Durante os quatros dias de atividades educacionais, gastronomia e lazer da Feira, de 19 a 22/10, a praça principal da cidade esteve sempre lotada por moradores de Belo Campo e de cidades vizinhas da região, como Tremedal, Condeúba, Cordeiros e outros municípios, com a presença também de autoridades políticas e representantes da cultura.
TECIDO DE SAUDADE
(Chico Ribeiro Neto)
Sempre tenho saudade quando preciso me desfazer de uma roupa velha, manchada, rasgada ou apertada. Vai um pouco de mim naquela roupa.
Toda roupa tem uma história. Tive uma namorada que usava uma saia cáqui, de grande lembrança. Outra usava uma calça de malha coladinha que matava Chiquinho. E aquela de blusinha Ban-Lon azul celeste!
Todo mundo tem um casaco que adora. Aquele casaquinho azul é um velho chamego, apesar do furinho na manga.
Tem uma comida muito gostosa chamada de Roupa Velha. É a comida que se improvisa com as sobras que estão na geladeira. Em Caculé (BA) se chama também de Mexidão. Você pega todas as sobras da geladeira – um pedaço de bife, um pouco de arroz, resto de macarrão, uma coxa de galinha, um pouco de abóbora com quiabo – e esquenta tudo junto. Fica um prato delicioso e você esvazia a geladeira de vasilhas.
Sempre achei que a gente deveria dar a última volta com uma roupa antes de se desfazer dela. Leva ela pra ver o mar antes da despedida.
Quem nunca achou uma nota de 50,00 dentro de um velho casaco? E tem também aquela roupa nova que a gente não gosta. Comprou, nas não tem jeito de usar. Tá lá pendurada no cabide até hoje. Quando fui morar em pensão, estudante em Salvador, mamãe Cleonice me deu uns cabides de madeira e os marcou com tinta preta, talvez de caneta-tinteiro: “Xico Ribeiro”. Guardo um até hoje.
Segue um trecho do artigo da jornalista Jéssica Natacha, intitulado “Que sentimento está escondido no seu guarda-roupa?” (labdicasjornalismo.com): “Sabe aquela peça de roupa que você não usa há tempos? Ela tem um significado. Muitas vezes, os objetos guardados remetem a uma lembrança tão importante na sua vida que, toda vez que o encontra na gaveta, você para por uns segundos e revive aquele momento; a sensação de prazer e felicidade faz sorrir instantaneamente; ou chorar”.
Velhas roupas, grandes lembranças. Roupas velhas são um aconchego, golas que aquecem, quem nos entende; Com elas saio caminhando por aí, vestido de saudades.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
“VIDAS SECAS” E “SEU GRAÇA”
Na abertura da II Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo- a II FLIBELÔ, aberta oficialmente ontem (dia 19/10) com lançamentos de livros, mesas temáticas, apresentação de trabalhos escolares e conferência sobre a cultura nordestina, lá estava um estande sobre a vida e a obra de Graciliano Ramos, “Seu Graça,” o alagoano que se notabilizou com sua linguagem dura, concreta e objetiva, como no livro “Vidas Secas”. É um escritor que muito admiro por retratar de forma simples a força do poder sobre o homem comum, além de ter sido um defensor do livre pensar e dos direitos humanos quando esteve preso na Ditadura Vargas, como em Memórias do Cárcere. Graciliano Ramos é um autor diferenciado pelo seu estilo realista de escrever. Seus personagens vivem e levam o leitor ao mundo da realidade. Eles não parecem ser imaginários, e o livro Vidas Secas é um deles, como São Bernardo e outros da sua lavra. Além de Graciliano Ramos, a Feira de Belo Campo, que segue até o próximo domingo (22/10), tem uma pegada sertaneja e conta também com a presença de muitos escritores de Vitória da Conquista que estão apresentando suas obras, contemplando diversos gêneros literários, como romances, poesia, história, ensaios, contos e livros infantis.
NÃO ACEITO
Autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário
Não aceito
Esses seres malditos,
Com seus poderes malignos,
Do ocidental moralista,
De história opressiva terrorista,
Seletivos canalhas das muralhas,
Das terras arrasadas de guerras,
Que fazem da pobreza,
Produto de consumo,
Do insumo sangue humano,
Entre gritos, gemidos e fome,
De gente que vaga sem nome,
Pelos escombros desses monstros.
Não aceito
Que cortem meu cérebro,
Em seu laboratório,
Para enxertar seu chip,
Do sistema totalitário.
Prefiro meu bip,
Do pensar contraditório,
Longe do seu sofisma,
Da sua hipnose de massa,
Do quem eu sou
Para aonde vou
Conversa mansa de raça,
Do seu pensador,
Que confunde prazer com amor.
Não aceito
Sofia sem poesia,
Por que uns cantam louvores,
Outros choram suas dores,
Nesse vale de lágrimas,
Num mundo tão desigual,
Dividido entre o bem e o mal,
E ainda procuramos saída,
No sentido da vida.
























